Made of Fire
17 XV - Sozinhos somos um perigo
Notas iniciais
Esperei pacientemente alguns minutos após bater na porta tomada por desenhos do apartamento. O síndico havia reclamado tantas vezes que não sei como Jay não havia sido colocado para fora. Além da porta haver sido drasticamente coberta por desenhos e pinturas, havia uma placa que dizia: Plataforma 9 ¾.
Sorri ao observá-la, pensando que Jay não devia ter tido infância. Meu sorriso apagou assim que me dei conta de que isto não era realmente uma mentira. A porta se abriu logo em seguida, revelando um homem com olhos vermelhos estreitados pela luz do corredor.
— Rich? — pronunciou-se ele, a voz rouca pelo sono.
Jay usava uma calça larga de moletom e estava sem camisa, exibindo as tatuagens criativas que haviam em sua pele. Parecia fazer muito esforço para manter os olhos castanhos abertos. Sorri, vendo os dreads, maiores do que nunca, espalhados por seus ombros.
— Desde a última vez que chequei, continuo sendo o mesmo — falei, dando um tapinha em seu ombro antes de entrar no apartamento bagunçado. Jay ainda demorou mais segundos que os necessários para fechar a porta e virar em minha direção, bocejando. Ele sempre demorava mais de hora para acordar completamente.
Caminhei em direção ao banheiro sem olhar muito para os lados. Peguei uma das pastas de dente fechadas que havia na gaveta e voltei à sala, com um olhar repreendedor à Jay. O cheiro de maconha, apesar de fraco, estava por todo o apartamento novamente. Ele não se dava conta de que o consumo da droga estava aumentando com o tempo, assim como seu vício.
— Jay, já conversamos sobre isto. Você tem que parar de... — comecei, mas interrompi minha fala quando percebi a figura feminina atirada no sofá.
Uma mulher loira, usando apenas uma blusa branca e roupa interior, jazia de bruços no sofá de cor escura e ressonava baixinho. Voltei os olhos ao artista, vendo que apenas então ele dava-se conta de que não estava sozinho no apartamento. Deu de ombros ao me encarar.
— Hanna — disse simplesmente, como se explicasse tudo. Nem dei-me o trabalho de gravar o nome, já que sabia que não veria a moça novamente.
— Acabou minha pasta de dente, então vim pegar outra — expliquei. — E também minha camisa cinza que te emprestei — falei, virando em direção ao seu quarto.
Suspirei ao observar o roupeiro bagunçado, tratando de procurar com afinco a peça de roupa. Quando não a encontrei, procurei pelo resto do quarto e olhei embaixo da cama. Amaldiçoei Jay internamente por ser tão mal organizado. Se a camisa realmente estivesse por aqui, com certeza estaria amassada. Jay entrou no quarto alguns minutos depois, com uma caneca em sua mão.
— Camisa? — perguntou, tardiamente.
— Sim, uma camisa cinza. Emprestei para sua exposição na galeria, lembra? — perguntei, tentando juntar as peças que eu havia jogado ao chão. — É minha melhor camisa — resmunguei, virando em sua direção.
— Ah! — exclamou, com uma calma invejável. — Não está aqui, Rich — respondeu, bocejando novamente. — Está na mesa da sala. Não queria amassá-la — explicou, com simplicidade.
Encarei-o incrédulo, esperando sinais de zombaria. Não os recebi, no entanto. Fechei os olhos e bufei, caminhando em direção à sala. Mais um minuto e acabaria me atrasando.
— Por que não me disse antes? — reclamei baixinho para não acordar a loira, pegando a peça perfeitamente alinhada na mesa.
— Não sabia que camisa era — respondeu, dando de ombros.
Estreitei os olhos em sua direção, mas não insisti. Não adiantava conversar de manhã com Jay; ele não raciocinava direito. Virei em direção à porta de entrada com rapidez.
— Por que você quer sua melhor camisa? — perguntou, me seguindo. Parecia finalmente estar despertando. — Espera — falou, fazendo-me virar em sua direção. — Você cortou o cabelo?
— Estava muito comprido. — Dei de ombros, querendo esquivar-me.
— É mesmo? — perguntou, com uma das sobrancelhas arqueadas. Ele sabia que sim, já que ele mesmo havia dito que estava na hora de cortá-lo. O ceticismo em sua voz, no entanto, era devido à outro fator que lhe passava pela mente. — Ficou muito bonito. Tenho certeza que seus alunos vão adorar — falou, divertido.
Bufei, agradecendo pelo apartamento estar escuro, já que sentia meu rosto esquentar.
— Não começa, Jay — avisei, virando para a porta novamente.
— O quê? — perguntou, atrás de mim. — Estou mentindo? Você voltou todo sorridente desta tal viagem. Agora está cortando o cabelo e se arrumando para ir trabalhar! — continuou, enquanto eu abria a porta e saltava para fora do apartamento. — Sou maluco por pensar que isto tem a ver com o Will?
Em frente à minha porta, parei e virei em direção ao meu melhor amigo. Apesar de estar mais desperto, o rosto inchado denunciava sua sonolência.
— Não — respondi, suspirando. — Mas não posso falar sobre isto agora, Jay. Já estou atrasado — completei, obtendo um sorriso nada discreto de sua parte. Era exatamente o que ele queria ouvir.
Revirei os olhos, pensando que Jay precisava de tão pouco para ficar satisfeito.
— Tudo bem — falou, erguendo os ombros. — Dê um beijo no garoto por mim — falou, piscando um dos olhos e fechando a porta rapidamente, rindo, antes que eu respondesse.
Limitei-me a entrar em meu apartamento e terminar de me arrumar ao comer uma maçã. Escovei os dentes e saí apressado, com a pasta na mão.
Ignorar as brincadeiras de Jay era tão fácil quando não se tratava de Will. Quando se tratava do garoto de olhos verdes, no entanto, as coisas tornavam-se difíceis. Eu não havia aberto a boca o fim de semana inteiro, apesar de Jay empenhar-se com todas as forças para que eu o fizesse. Foi um triunfo que tenho certeza ser digno de admiração. Jay era extremamente insistente.
A verdade é que não queria falar sobre Will.
Eu havia conseguido aproximar-me dele novamente e a sensação era maravilhosa. Estendia-se por todo meu corpo, por toda minha alma. Eu queria abraçá-lo, beijá-lo, tocá-lo. Queria continuar obtendo os sorrisos iluminados, o brilho nos olhos esverdeados, os toques inesperados. Eu já não conseguia mais evitá-lo, afastá-lo ou repreendê-lo. Não conseguia fazer nada a não ser aproximar-me. Não conseguia mais do que correspondê-lo.
Apesar de tudo, eu continuava sendo eu. E sempre tive a mania de andar lado a lado com o bom senso. No entanto, isto mudou drasticamente. Eu tentando alcançar o bom senso, agora, é equivalente à tentativa de juntar polos iguais de dois imãs.
Não é algo que eu queira anunciar ao mundo, pensei.
Estava bastante claro que eu considerava Will mais do que um simples aluno, mas isto não mudava o fato dele continuar sendo um aluno. Não mudava a diferença de idade. Não mudava a equipolência de gênero. Por mais que eu estivesse disposto a ignorar tudo isto, funcionaria apenas quando eu estivesse unicamente com ele. A partir do momento em que eu falasse a respeito com Jay, ou com qualquer outra pessoa, tudo se tornaria real. Ignorar as adversidades, portanto, não seria mais uma opção. E eu ainda não estava preparado para isto.
Em poucas palavras, eu fazia basicamente tudo que não devia e me afastava de tudo que devia fazer. Estava deixando Will em primeiro plano e os problemas em segundo, o que não era muito inteligente de minha parte.
Suspirei, virando o retrovisor em minha direção. Eu não havia me arrumado para trabalhar, só havia escolhido uma camisa melhor. Uma hora ou outra eu teria que cortar meu cabelo também, afinal. Escolhi agora, antes que eu ficasse parecido com Chuck Noland.
Estacionei o carro abaixo de uma árvore, já que hoje com certeza faria sol. Segui o mesmo caminho de sempre, observando que, apesar de tudo, havia chegado antes do horário. Deixei alguns documentos que haviam sido pedidos na secretaria do curso e comecei a subir as escadas. Não havia chegado ao topo ainda quando ouvi o tumulto no segundo andar.
— Parem com isso! — Um dos alunos gritou, irritado.
— Cala a boca! — Reconheci a voz de George, exaltado. Logo seguiu um barulho de alguém caindo ao chão e mais gritaria.
Quando já podia vislumbrar o grupo de alunos exaltados, ainda não conseguia entender de que se tratava o alvoroço. Duas alunas que estavam perto das escadas viraram em minha direção com os olhos arregalados.
— Deixa de ser imbecil ou eu quebro tua cara, tá ouvindo? — Laurel gritou e neste instante, George entrou no meu campo de visão, impulsionado para trás.
Arqueei as sobrancelhas. Laurel o havia empurrado, pela sua cara de poucos amigos. Então ele sumiu novamente de minha visão, praticamente pulando para frente. Terminei de subir os últimos degraus apressadamente e abri espaço entre eles, observando a cena com repreensão.
— Você precisa de mulher para te defender? — George perguntou com escárnio, conseguindo chegar em Will após empurrar um Louis irritado. Segurou-o pela camiseta, o rosto a milímetros do garoto de cabelos castanho-claros.
Antes que eu pudesse pronunciar-me, tomado pela fúria, pude ver que Will reagiu. Empurrou George também, o rosto vermelho de raiva. E então, para a surpresa de todos, sorriu. Tinha no rosto o mesmo sorriso que George usara em sua direção: tomado por escárnio.
— Eu sou gay — pronunciou, o queixo erguido. Então empurrou George novamente quando os dois amigos deste proclamaram palavras ofensivas à ele. — Eu sou gay! — gritou desta vez, ficando sério. — Era isso que queria ouvir? Pois muito bem. — Ergueu uma das sobrancelhas, com deboche. — Quer ir para um lugar mais privado agora?
As risadas tomaram conta do andar e percebi, com alívio, que Will tinha mais defensores que agressores no local. George fechou os punhos e antes que pulasse em Will, Gabriel o puxou pelo braço. Cheguei mais perto deles, tentando impedir que partissem para a agressão física, com sucesso.
— Não ouse chegar perto de mim, viado de merda! — gritou George, sendo acudido pelos dois amigos.
— Ei! — gritei, mortalmente sério. — Que palhaçada é esta aqui?
Os alunos apartaram-se, a maioria deles ficando imediatamente calados. Outros, no entanto, como os estudantes que participam de organizações que visam a harmonia da universidade, metralharam palavras indignadas à mim e olhares profundamente desgostosos à George. Vários deles continuaram resmungando de forma revoltada ao grupo do aluno preconceituoso.
Surpreso, fiquei sem saber o que dizer. Os jovens conseguiam ser bem mais conscientes com relação ao preconceito hoje em dia do que pessoas mais velhas. O Sr. Edwards, por exemplo. Desviei o olhar para Will, que mantinha-se quieto, encarando George com raiva. Apesar de tudo, parecia estranhamente tolerante com a situação.
— Estamos em uma universidade, não em um colégio — pronunciei, sério. — Todos os estudantes interessados em estudar ao invés de causar tumulto, que dirijam-se à sala de aula. — Entreguei a chave à Naomi, que estava ao meu lado.
Assim que ela abriu a porta, o pessoal foi entrando pouco a pouco na sala, ainda soltando resmungos e reclamações. Uma aluna ruiva, da qual não me recordava o nome, começou o que parecia um discurso extenso para os amigos sobre a ignorância das pessoas movidas pela homofobia enquanto passavam pela porta. Suspirei.
— George — chamei sua atenção quando ele começou a locomover-se para a porta. — Nenhum tipo de preconceito é tolerado nesta universidade. Nem em qualquer outra — falei, grave, vendo sua boca se tornar uma linha fina. — Sugiro que repense antes de fazer algo assim novamente. Agressão física ou verbal motivadas por preconceito é crime e se você não está satisfeito com isto — acrescentei, vendo-o virar o rosto, irritadiço —, devia trocar de país. Estamos entendidos?
George sorriu sem qualquer humor antes de assentir.
— Estamos — cuspiu praticamente, antes de entrar na sala.
O clima tenso perdurou por bastante tempo ainda após o conteúdo começar a ser dado. O rosto de Will relaxou com o tempo, mas pareceu alheio à matéria durante a aula inteira. O conteúdo era leve e o tempo passava mais rápido que o normal.
Felizmente, a comoção no corredor pareceu despertar todo mundo, já que obtive mais olhares atentos que o normal. Fiquei feliz ao perceber, porque isto podia significar que a falta de interesse dos alunos não era necessariamente resultado da matéria ou do professor. Cogitei levar café para todo mundo no início da classe para analisar se, desta forma, a aula atingiria um maior rendimento.
Certamente o faria algum dia, concluí internamente antes de dar a aula como terminada.
Suspirei aliviado ao ver Will passar pela porta da minha sala. Ele fechou-a devagar e ficou parado, olhando-me ao esconder o sorriso. Seus olhos focaram na mesa vazia de Edwards, na porta à seu lado esquerdo e por último, em mim. Mantive os olhos nele, com atenção. Deu um passo à frente, com as mãos atrás de suas costas.
— Você sabe que é um perigo esta sala estar vazia, não sabe? — perguntou, sorrindo.
Escorei-me na cadeira, tentando inutilmente reprimir um sorriso.
— Não está vazia. Estamos eu e você aqui — respondi, vendo o seu sorriso aumentar.
— Exatamente — respondeu, os olhos brilhando.
Engoli em seco, perdendo-me nas profundezas verdes. O cabelo de Will estava estranhamente alinhado, contrastando com sua camiseta branca e preta. Ainda estava amassada perto da gola, onde George o havia segurado. Afastei a vontade de quebrá-lo em pedaços novamente ao perceber que a última pessoa em que Will estava pensando era em George.
O sorriso manteve-se em seu rosto quando aproximou-se e sentou na cadeira habitual, jogando a mochila na que ficava ao lado.
Will inclinou-se sobre a mesa. Escorou-se nos cotovelos, levando as duas mãos em forma de U em direção ao queixo, como sustento. Desviei o olhar ao perceber os olhos – mais do que atentos – em mim.
— Não tenho dúvidas — declarou simplesmente, na cara dura. Arqueei uma das sobrancelhas em resposta.
— Não tem dúvidas porque não prestou atenção na aula — acusei, embora não houvesse firmeza alguma em minhas palavras.
Will deu um sorriso culpado, mas logo riu ao dar de ombros.
— Você não sabe como é difícil prestar atenção na aula quando meu professor chega lindo deste jeito — falou baixinho, como se fosse um segredo.
Bufei, incrédulo pela ausência de vergonha em seu rosto. No entanto, ao invés de dizer qualquer coisa, limitei-me a rir também. Cocei a cabeça, sem saber o que dizer, enquanto observava Will.
— O que eu faço com você? — perguntei rindo, mas ao ver o rumo que seus pensamentos seguiram pelo brilho diferente em seu olhar, completei rapidamente: — Ainda falta uma segunda prova. Você não pode desandar agora, Will.
O garoto dos cabelos castanho-claros mordeu os lábios, como se pensasse em uma resposta. Suspirou e encostou as costas na cadeira, desistindo do que iria falar.
— Eu sei — resmungou, contrariado. — Mas hoje não quero pensar em Administração Financeira — contou, exibindo em seguida um sorriso propositalmente irresistível ao pedir: — Por favor?
Limitou-se a me encarar com olhos pidões, como se esperasse meu consentimento. Revirei os olhos, antes de observá-lo por um tempo, escolhendo as palavras.
— Tudo bem — respondi devagar, sem saber o que mais falar.
Ficamos nos encarando por mais tempo do que a cortesia permitia. Era estranho que ele viesse até aqui e não falasse nada do conteúdo em aula. Geralmente, quando a monitoria acabava, ficávamos em silêncio por um tempo. Will mexia no celular ou fazia mais exercícios e eu focava minha atenção em meu trabalho. No entanto, não foi assim desta vez.
Mantivemo-nos do mesmo jeito, observando um ao outro. Eu simplesmente não conseguia desviar minha atenção. Não queria deixar de observar cada detalhe de seu rosto. Não queria lembrar de como era a sensação de sua ausência nesta sala.
Senti cada pedaço de mim querer levantar e pegá-lo nos braços. Cada pedacinho meu queria impulsionar-me à beijá-lo. Era tão forte que chegava a arder meu peito. Pigarreei.
— Talvez... — comecei, quebrando o silêncio. — Talvez eu devesse fazer um café para nós — falei, levantando-me sem olhá-lo novamente.
— Eu te ajudo — disse ele, instantaneamente, levantando-se rápido logo em seguida.
Com receio, observei-o vir em minha direção e virei o corpo completamente em direção à cafeteira. Liguei o aparelho na tomada, sentindo Will parar ao meu lado direito. Fechei os olhos ao sentir sua mão na minha. Desta vez não foi um simples roçar de pele. A mão magra de Will cobriu a minha, que mantinha-se na mesinha, e apertou-a de leve.
Eu o queria tanto que meu corpo inteiro formigava.
Abri os olhos, observando nossas mãos juntas. Havia uma marca roxa em seu braço, fazendo-me lembrar da briga no corredor. Fazendo-me lembrar do motivo da briga. Afastei-me tanto dele que cheguei a contornar minha mesa, deixando um Will desanimado para trás. Ele apenas virou em minha direção, mas baixou os olhos verdes para os próprios pés.
Parece que meu bom senso havia voltado correndo em minha direção. No entanto, nem o bom senso era capaz de fazer a velocidade do sangue correndo em minha veias diminuir.
Eu não poderia deixar o que aconteceu na viagem se repetir. Eu tinha a desculpa de estar com saudade, de estar embriagado com a atenção dele. Tinha a desculpa de haver estado em abstinência de Will.
Esta desculpa não era mais válida.
Eu não podia envolver-me com Will mais do que já estava envolvido. Não podia tornar isto real. Não podia tornar isto físico. Olhei para ele novamente. Havia virado as costas e arrumava as xícaras sem animação. O único barulho do cômodo vinha da cafeteira. E de minha respiração, percebi.
Talvez, se eu apenas o beijasse...
Logo minha consciência, sendo chata do jeito que é, passou a ralhar comigo. "Não, não e não", dizia. Senti meu corpo literalmente tremer com a vontade de acercar-me.
Só uma vez. Só por um segundo...
Minha cabeça começou a dar voltas novamente, deixando-me tonto.
Eu não devia beijá-lo. Não devia chegar tão perto. Ele não devia me olhar daquele jeito.
Talvez eu devesse largar meu emprego. Eu não conseguiria afastar-me dele novamente.
Massageei as têmporas, tentando raciocinar. Porém, meus pensamentos não iam além do "eu não devo mas eu quero". Então ergui a cabeça subitamente, um pouco chocado com a solução que encontrei.
Será que eu devia sequestrá-lo e levá-lo para um lugar distante?
— Você quer que eu vá embora? — A voz de Will invadiu meus pensamentos.
Virei o rosto em sua direção, percebendo os olhos verdes em mim. Só então percebi que eu havia caminhado até perto da porta e batia o pé no chão, com nervosismo. E o barulho da cafeteira havia cessado.
— Não — respondi, rapidamente. — Não quero.
Will caminhou até a cadeira onde estava sua mochila e a juntou.
— Talvez eu devesse ir embora mesmo assim — falou, os olhos incertos ao caminhar até mim. Ajustou a mochila nas costas e manteve-se quieto.
A pele de seu pescoço iluminava-se tentadoramente com a luz provinda da janela. Suspirei, desistindo.
— Talvez — concordei, evitando perder-me em seu olhar novamente.
Will assentiu, chateado. Caminhou até a porta, resmungando baixinho. Entretanto, antes de abri-la, virou em minha direção de novo. Tinha os punhos cerrados, nada satisfeito. Tentei inutilmente pensar em uma solução ao ver que ele estava realmente zangado.
Parou a centímetros de mim e seu rosto estava tomado por determinação.
— Diga que não me quer e vou embora — falou, como uma exigência.
O cheiro de meu aluno invadiu minhas narinas, chamando-me para me aproximar. Seu rosto estava sério e o cenho franzido. Havia certa urgência em seus olhos. Minhas mãos coçavam para alcançá-lo e grudá-lo em mim.
Eu nunca seria capaz de dizer que não o quero.
Então, com a ausência de resposta de minha parte, seu rosto mudou. A determinação desvaneceu e deu lugar à angústia. As mãos dirigiram-se à mochila, e apertavam tanto as alças desta que os nós de seus dedos estavam esbranquiçados. Engoliu em seco, frustrado.
— Diga que não me quer e vou... — começou novamente, com a voz falha, mas o interrompi.
Tornei inexistente a distância entre nós, colando meus lábios nos seus de forma brusca. Minha mente esvaziou completamente. Will levou as mãos aos meus braços, com o intuito de segurar-se devido ao desequilíbrio. Resolvi o problema empurrando-o até grudar sua mochila na porta, apertando seu corpo no meu. O cheiro de Will agregou-se ao meu instantaneamente, trazendo-me uma sensação de alívio. Era a mistura perfeita.
Senti seus lábios darem passagem à língua indiscreta junto à um suspiro seu. Juntei nossas línguas ao puxar sua cintura à minha com uma mão e segurar seu rosto com a outra. A mochila incomodava, mas eu não ousaria afastar-me um milímetro dele para tirá-la.
Will tinha cheiro de primavera. Tinha gosto de doçura. A sensação de sua pele na minha era a mesma de sentir as ondas do mar envolverem meu corpo quente após meses sem senti-la.
Seu beijo era apaixonado. Envolveu minha cintura com os braços, apertando-me com força. Logo subiu uma das mãos para minha nuca, causando-me arrepios. Minha respiração começou a falhar e as batidas de meu coração pareciam juntar com as de Will. Era como se tivéssemos uma bomba entre a gente.
Os lábios molhados deslizavam com os meus exalando urgência. Com a mente disparada e sem parar o ritmo de nossas línguas, levei as mãos aos seus ombros, escorregando as alças da mochila por seus braços. Will estremeceu de maneira quase imperceptível. Entendeu o que eu pretendia e separou nossos lábios rapidamente, com os olhos fechados. Ainda tinha o nariz grudado no meu quando livrou-se da mochila rapidamente. Então jogou os braços em volta de meu pescoço enquanto eu fechava os meus em torno de seu corpo.
Era como se seu corpo havia sido feito para encaixar em cada curva do meu. Ou talvez eu só estivesse criando desculpas para ficar agarrado nele.
Em certo momento, grudei as costas de Will na porta, ouvindo o barulho ecoar pela sala. Afinal, o único ruído do cômodo vinha de nossas respirações e do atrito entre as bocas molhadas. Abri os olhos, com medo que o houvesse machucado, mas Will limitou-se a soltar um gemido rouco ao apertar meus cabelos curtos. As sardas, tão de perto, tornavam seu rosto sensual. Fechei os olhos novamente.
Cheguei à conclusão mais simples do mundo: estou fodido.
Achei que depois de um tempo respirar tornar-se-ia necessário, mas estava enganado. Respirar tornava-se cada vez mais insignificante, o que era assustador, de certa forma. Já estava começando a preocupar-me quando a porta vibrou. Abri os olhos, ouvindo as batidas na porta ecoarem por meus ouvidos tardiamente.
Will afastou a boca da minha com os olhos arregalados.
Afastei-me rapidamente, tentando raciocinar algo além de "Will é ainda mais bonito depois de ter sido beijado", mas não estava dando certo. As batidas soaram novamente, sobressaltando-nos. Arrumei sua roupa e a minha, abaixando-me para juntar sua mochila e colocá-la em sua mão.
— Richard? — ouvi a voz de Edwards do outro lado da porta.
Will pareceu finalmente dar-se conta da situação quando piscou algumas vezes, olhando velozmente para a porta às suas costas. Virou as piscinas verdes em minha direção com aflição. Aproximei-me dele com agilidade.
— Quando eu abrir a porta, você sai — sussurrei em seu ouvido, vendo-o assentir.
Suspirei antes de abrir a porta.
— Edwards, tudo bem? — cumprimentei, desentendido. Suas sobrancelhas arquearam-se ao me encarar, abrindo a boca para responder. Will, no entanto, foi mais rápido.
— Que desastrado — falou, com a voz falha ainda. — Tropecei e esbarrei na porta! Bom, vou indo antes que eu cometa mais alguma proeza — falou, sorrindo nervoso. — Sr. Edwards — cumprimentou, mas antes que obtivesse uma resposta, caminhou apressadamente para fora da sala.
Impedi que um suspiro aliviado saísse de meus lábios. Will era muito óbvio para fingir. Sorri para Edwards, que estreitava os olhos em minha direção.
— Richard, eu já lhe avisei que... — começou, mas o interrompi também.
— Leonard — falei, em tom de aviso, fechando a cara. Não continuei, entretanto, esperando que minha expressão lhe dissesse o que eu queria. Edwards sustentou os olhos tomados de rugas nos meus antes de suspirar.
— Muito bem — disse simplesmente, terminando de entrar na sala. Antes que sentasse em sua cadeira, me olhou por cima dos óculos. — Espero que não pise na bola.
Limitei-me a assentir, quieto, antes de vê-lo sentar e focar a atenção na tela do computador. Saí da sala, fechando a porta atrás de mim.
O corredor estava vazio, com exceção de Will, já que era horário de aulas. Estava sentado no chão e escorado na parede há alguns metros de distância de mim, com o olhar perdido. Aproximei-me um pouco, vendo-o erguer os olhos em minha direção, parecendo recém notar minha presença. Sorriu, nervoso.
Olhei ao redor, ouvindo a voz baixa de um dos professores ultrapassar a porta fechada de uma das salas. Levei minhas mãos atrás de minhas costas, lembrando de Will quando entrou na sala.
— Você sabe que é um perigo este corredor estar vazio, não sabe? — perguntei, vendo os olhos encherem-se de vida. Mordeu os lábios, escondendo o sorriso novamente.
Observei seu rosto bonito, sabendo que iria querer observá-lo todos os dias. Seus lábios ainda estavam vermelhos, assim como parte de suas maçãs do rosto. A roupa estava toda amassada, assim como imaginei que devia estar a minha.
Sentia no âmago de meu ser que afastar-me de Will estava fora de cogitação. Sabia, em cada célula do meu corpo, o significado do que eu estava sentindo. E tinha certeza absoluta, assim como o tinha de meu nome, que os beijos se repetiriam.
Will sorriu novamente e senti meus lábios imitarem os movimentos dos seus.
— Profundamente perigoso — proclamou, antes de aproximar-se, mais uma vez.
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