Made of Fire

18 XVI - Tão singelo quanto um beijo de despedida


Notas iniciais
Oi, gente boa, gente linda, gente bela ♥ Apesar de todo o caos de minha mente, da sobrevivência na faculdade e da vontade tremenda de comer e emagrecer ao mesmo tempo, eu trouxe mais um capítulo para vocês! HAHHAHAHAHHAHA :3 Só uma coisa: não me matem please! :P Will's POV Boa leitura! *-*

As gotas d'água caíam incessantemente lá fora, em uma velocidade tão alta que eu mal as podia ver. Escorriam pela janela com gana, como se disputassem entre si. O cheiro de asfalto molhado chegava dentro da sala, apesar de estarmos no segundo andar. O vento frio seria impedido de entrar em poucos segundos, percebi, ao ver todos os estudantes que sentavam ao lado da janela inclinarem-se com o intuito de fechá-las.

Era como se o mundo estivesse juntando-se à mim na tristeza.

Desviei o olhar para meu lado direito, onde Gabe apoiava-se na classe de Laurel rindo de algo que ela dizia sobre as festas do fim de semana. Ele sempre sentava-se na classe à frente de Laurel, enquanto que eu sempre sentava do lado esquerdo deles. Soltei um resmungo, vendo-os dirigirem os olhares à mim.

— Eu não acredito que ele* morreu — reclamei para eles, vendo-os revirar os olhos.

O começo da temporada havia estreado no dia anterior, finalmente mostrando quem morreria nas garras farpadas do vilão.

— Querido — pronunciou-se Laurel, com o tom falsamente meigo —, quantas vezes mais você pretende falar a mesma porra? — completou, a voz transformando-se a cada palavra em um tom irritado.

Desta vez fui em quem revirou os olhos.

— Vocês não entendem — resmunguei, virando a cara.

A risada de Gabe reverberou pela sala, chamando a atenção das outras pessoas ali dentro. Laurel encarou-o com um olhar sinistro antes de voltar os olhos à mim.

— Pelo menos não foi o coreano que morreu — disse Laurel, apertando os lábios, como quem não quer nada.

As palavras da garota de cabelos vermelhos atingiram meus tímpanos de forma ensurdecedora. Virei bruscamente em sua direção, sentindo a indignação tomar conta de meu corpo.

Não, ela não podia estar falando sério!

— Mas ele é o coreano! — retruquei, indignado, em um volume mais alto que o planejado.

A troca de olhares entre eles durou apenas um segundo antes dos sons engasgados saírem de ambas as bocas. Só percebi que Laurel pressionara os lábios justamente para não rir quando o som de sua gargalhada juntou-se à de Gabe, ecoando pela sala de forma nada delicada. Os dois inclinaram-se sobre os próprios corpos com o intuito de tentar, inutilmente, fazê-los parar de chacoalhar. Bufei pesadamente.

Inacreditável!

— Você viu a... — tentou Laurel, voltando a rir antes de respirar fundo para continuar: — Você viu a cara... — começou mais uma vez, sendo impedida pela própria risada. Desatou-se a rir, apoiada na mesa, quando a gargalhada de Gabe reverberou praticamente em seu rosto. Ambos estavam da cor dos cabelos de Laurel enquanto limpavam as lágrimas.

Francamente, qual o motivo da felicidade dessa gente em um dia chuvoso?

Mal tive tempo de abrir a boca para protestar quando vi o pessoal começar a entrar na sala de aula. Além da gente, haviam mais umas oito pessoas dentro da sala, enquanto o resto conversava do lado de fora. Vi a cabeleira ruiva de Cenoura antes de ver seu rosto, no meio dos alunos que entravam apressados. Sentou-se atrás de mim, franzindo o cenho para o casal ao nosso lado, que dizia coisas incrivelmente idiotas um para o outro e postavam-se a rir ainda mais.

— O Dragão chegou — avisou à eles, acalmando as risadas levemente.

Senti meu corpo inteiro entrar em alerta, virando para frente com rapidez, em uma postura mais ereta do que o necessário. Desviei o olhar da porta somente para ver Gabe passando os olhos por mim, estudando minha reação, antes de virar para frente também. Então, a criatura mística entrou na sala, abalando a todos com sua beleza de outro mundo.

Talvez não todos, pensei comigo mesmo.

Apesar de Turner não ser mais o professor demoníaco, dando lugar à Sra. Lawson, o apelido havia-se tornado popular o suficiente para permanecer entre nós. Até mesmo os novatos, que não conheceram o pior lado do meu professor favorito, usavam o famoso apelido sem saber o porquê. Porém, observando a forma como Turner caminhava — dominando o ambiente — e os olhos cinzentos penetrantes, não consigo imaginar qualquer outro nome que combine com ele mais do que Dragão.

Além do mais, Turner é quente!

Estava usando a típica roupa social, a camisa branca em combinação com o colete – sexy! – e calça social escuros. Havia algo atípico por trás da barba por fazer, algo que tenho visto mais vezes ao longo das últimas duas semanas: um sorriso. Estava escondido pela barba e se limitava a um levantar das comissuras de sua boca, mas estava ali presente, perceptível para qualquer um que prestasse atenção. Senti um sorriso alargar-se em meu rosto em resposta.

As últimas duas semanas passaram rápido ao meu ver, mas vivi cada segundo com vontade. Escapei, ao longo dos dias, das demais aulas para dar uma passada na sala de Turner. Sabia que não o veria de terça à quinta se não o fizesse.

Ele me beijou.

Turner me beijou. E deixou que eu o beijasse também. Mais de uma vez!

Certo que eu parecia um garoto de treze anos se apaixonando pela primeira vez, mas não me importava nem um pouco. Afinal, eu estava vivendo o melhor período da minha vida. Não só porque estava apaixonado por um homem, mas porque esse homem é Turner. Tudo que ele fala, tudo que ele faz, todas as formas de gesticular; tudo nele é interessante. Tudo nele é fascinante. Eu estava – estou – estarei tão apaixonado por ele que é impossível não pensar na ideia de eu nunca ter estado realmente apaixonado antes. Nem por Amy.

Baixei a cabeça até encostá-la na mesa novamente. Eu estou tão, mas tão fodido.

Apesar de Turner não haver dado sinal de recuo nos últimos dias, eu ainda tenho medo de que ele se arrependa e se afaste novamente.

Ele é tão difícil de decifrar que chega a ser revoltante!

Não havíamos falado nada a respeito do que estava acontecendo entre nós. Absolutamente nada. Fazíamos basicamente a mesma coisa sempre: eu aparecia em sua sala, nós tínhamos aquele tipo de comunicação silenciosa e então nos aproximávamos tanto a ponto de grudar nossos lábios novamente. Depois nos afastávamos, sem fôlego, e desviávamos o assunto até eu me despedir e voltar para a aula. Ou no caso dos dias que tínhamos aula, eu ia para casa.

Eu não me importava muito com isso, afinal, nossa situação – como Turner se refere à nossa relação – estava bem melhor do que antes. Sem falar que eu não conseguia pensar em mais nada perto dele, muito menos no que significava tudo aquilo. Bom, devia estar tão óbvio para ele quanto para mim que um dos significados de tudo isso é que eu estou completamente apaixonado por ele.

Tão, tão vergonhoso que eu podia morrer!

Mas no fim, eu sabia que era só uma questão de tempo até as merdas acontecerem. Afinal, ainda éramos aluno e professor. Não que isso fosse terrível, mas as pessoas são terríveis. Algumas pessoas ainda mexiam comigo por eu ser gay, imagina quando descobrirem que estou de rolo com meu professor. Meus amigos, com exceção de K e Gabe, ainda não sabiam que eu estava caindo de amores por meu professor. Muito menos minha mãe e meu irmão. Aliás, estes não sabiam nem que eu sou gay. E se dependesse do meu eu covarde, eles nunca saberiam. Eu ainda estava em uma guerra interna com relação à isto.

E alguma coisa me dizia que o meu "eu covarde" iria vencer, pensei com desânimo.

Assim que a aula acabou – o que foi uma pena, já que a visão estava extremamente encantadora –, eu saí da sala junto de meus amigos, piscando um dos olhos para Turner, que apenas sorriu em resposta.

Estávamos os quatro — já que Johnny estava nos evitando nos últimos dias por minha causa — indo em direção ao restaurante universitário. Cenoura estava ao meu lado, tagarelando sobre Jess, e Gabe andava ao lado de Laurel à nossa frente.

— Você tem que admitir que ele não é tão ruim assim. — Gabe disse à Laurel, que apenas resmungou em resposta. — Está sendo bem mais bacana com a gente neste semestre!

Arqueei as sobrancelhas, desviando a atenção de Cenoura por um instante, ao perceber de quem Gabe estava falando e o porquê. Laurel limitou-se a resmungar novamente, virando a cara.

— Não interessa — disse ela, olhando-me de relance. — Eu apenas não gosto dele. É algo meu, sabe? Quando o santo não bate, eu não faço questão de gostar da pessoa — completou, dando de ombros.

Engoli em seco. Gabe não desistiu, olhando-me de relance também.

— Isso não é muito legal da sua parte e você sabe — disse ele, esbarrando o ombro no dela. — Está perdendo muita coisa se pensa dessa forma, Laurel — repreendeu com o olhar.

Os cabelos vermelhos estavam presos em um coque solto. Estava neblinando, apesar da chuva ter dado uma trégua.

— Que seja! — resmungou, teimosa. — E o que isso importa, afinal? Ele é nosso professor, não é como se eu tivesse obrigação de gostar do cara. Isso tudo é por causa do Will?

Gelei até a nuca ao ouvir o que ela havia dito.

— Por que eu? — perguntei instantaneamente, a voz mal saindo da boca.

— Cara, você ouviu alguma coisa do que eu disse? — Cenoura perguntou, indignado. Só então percebi que ignorei completamente o ruivo.

— Ah, desculpa — falei distraído, meus olhos insistindo em focar nos cabelos vermelhos à espera de uma resposta. Laurel virou para trás, estreitando os olhos castanhos.

— Porque vocês estão tão amiguinhos agora — reclamou ela. — Na boa, eu não preciso gostar de todo mundo que você gosta, Will. Tá bom? — perguntou, olhando para Gabe agora, com irritação no olhar.

— Claro — respondi por Gabe quando vi que ele apenas deu de ombros ao desviar o olhar. — Nunca disse que você precisava gostar dele também — resmunguei baixinho.

Depois de alguns segundos caminhando em um silêncio constrangedor, Cenoura o quebrou.

— Eu até que gosto dele — disse ele, dando de ombros.

Encarei os olhos verdes, como os meus, surpreso ao perceber que ele estava sendo sincero. Percebi também que o assunto não significava nada para ele, já que o desviou novamente para Jess. Ri um pouco, relaxando os ombros, ao ver Gabe reclamar de todo o mel que exalava de Cenoura à respeito da namorada. Assim percorremos o resto do caminho e almoçamos, rindo de besteiras e, bom, de Cenoura também.

Caminhei quase correndo até o prédio depois de ter almoçado, tropeçando nos próprios pés e pensando como eu devia estar ridículo. Cheguei ao segundo andar a tempo de ver Turner entrar no banheiro masculino. Havia um pequeno banheiro na sala dele e do Sr. Edwards, mas estava com um problema de encanação – provavelmente devido ao tanto de café que eles descartavam na pequena pia.

Olhei para os lados rapidamente, vendo se havia alguém por perto. Alguns estudantes de outros cursos estavam sentados nos sofás — desconfortáveis, aliás — dispostos ali. Ninguém importante, cheguei à conclusão. Então dirigi-me ao banheiro também, caminhando devagar para não encontrá-lo em nenhum momento desconfortável.

Digo, minha coragem tinha limite também.

Fingi observar os cartazes ali perto, contando mentalmente dois minutos, antes de correr até a porta do banheiro, esbarrando brutalmente na pessoa que eu queria encontrar.

— Ei, que pressa é essa? — ouvi Turner dizer, segurando-me pelos ombros e exalando o cheiro do sabonete líquido do banheiro. Sorri, observando o dia nublado em seus olhos.

— Oi — falei simplesmente, colocando as mãos em sua cintura.

Um sorriso preguiçoso começou a espalhar por seu rosto, mas sumiu rapidamente. Turner arregalou os olhos ao dar-se conta que eu havia me aproximado, e só então percebi que estávamos na porta do banheiro, visíveis para quem passasse por ali.

— Will — falou sussurrado, afastando-se ao olhar para os lados, — está maluco? — perguntou, puxando-me para dentro do banheiro, ainda com os olhos fixos na porta de entrada.

Desviou os olhos cinzas para mim, sério, embora qualquer repreensão tenha sumido deles em questão de instantes. Sorri, assentindo com a cabeça.

Turner tinha parte dos cabelos e barba molhados, como se tivesse lavado o rosto. Estava lindo, como sempre. Aproximei-me o suficiente para segurar seu colete, já que ele não usava gravata hoje, e puxar em minha direção.

— Aqui não — falou ele, sem qualquer sustento em sua voz ao tentar advertir-me. Soltei um resmungo emburrado, sem largar sua roupa. — Will — riu ele, inclinando a cabeça ao me olhar com carinho.

Desviou os olhos para a porta novamente antes de me olhar sorrindo. Ergui o rosto o suficiente para encostar meus lábios na comissura de sua boca, aquela que teimava em subir durante a aula, ouvindo um suspiro vindo dele. Então deixei dois beijos em seu rosto, e logo no lóbulo de sua orelha, sentindo-o estremecer.

Afastei-me superficialmente para ver a expressão que estampava seu rosto, deparando-me com seus olhos fechados. Andei para trás, puxando-o pelo colete, vendo-o abrir os olhos cinzas com brusquidão. Havia incerteza em seu olhar, mas não deixei-o se afastar. Abri a porta de uma das cabines com o pé e o trouxe comigo, fechando-a logo em seguida.

Tudo bem, não era o lugar mais romântico para se beijar, mas não é como se tissemos muita opção.

Turner levou uma das mãos em direção à meu rosto, roçando-a de leve, o rosto indecifrável. Senti meu próprio corpo ficar tenso com as mil possibilidades do que se passava em sua mente.

Sorri nervoso, incapaz de impedir.

Tinha tanto medo que nossa situação acabasse que achei melhor simplesmente afastá-lo de minha mente.

— Estou maluco sim — afirmei, tardiamente. — Por você.

Então trouxe seus lábios em direção aos meus, as mãos em sua nuca, com urgência. Turner logo envolveu meu corpo com os braços, mudando as posições ao encostar meu corpo na porta, como das últimas vezes. Senti a língua alheia invadir minha boca com vontade, apertando-me contra seu corpo. Envolvi seus cabelos curtos em meus dedos, perdendo toda minha consciência ali, o que sempre acabava acontecendo também.

Esqueci que estávamos em uma cabine de banheiro, esqueci que ele era meu professor e que estávamos dentro de uma universidade. Esqueci de tudo, seu cheiro e seus lábios apenas lembrando-me de que a pessoa que estava grudada em mim era Richard Turner, o homem pelo qual eu estava apaixonado. E que isso era tudo que importava.

Depois de sentir-me deslocado a vida inteira, quando Turner me beijava era como se tudo estivesse em seu devido lugar.

Senti meu coração – impossivelmente – acelerar mais do que já estava acelerado quando seus lábios, de forma rude, desceram para meu pescoço com urgência. A língua que roçava na curva de meu pescoço, junto da barba rala, fez com que meus olhos abrissem bruscamente.

Não era o susto de querer o momento durando para sempre que havia me sobressaltado. Eu já estava me acostumando com a forma com que Turner me fazia sentir. O problema é que, desta vez, a sensação que formigava meu corpo inteiro estava deixando minhas pernas mais molengas que o normal. A sensação estava melhor do que o normal. Até demais!

Senti meu rosto esquentar, desta vez de vergonha, percebendo então que Turner voltava a unir os lábios deles aos meus. Os braços que me envolviam frouxaram um pouco, levando as mãos para as laterais de meu corpo, apertando com força. Ao perceber o gemido que saiu de meus lábios – saiu de meus lábios mesmo? – Turner soltou algo semelhante, como um grunhido. Percebi que eu estava quase subindo pela porta da cabine quando uma de suas pernas abriu as minhas de forma rápida, encaixando-se ali.

Oh, céus! Permitam que ele não perceba, permitam que ele não perceba!

Apertei os olhos com força ao ver que Turner parou abruptamente.

Ficamos grudados um no outro, sem nos mover, por mais de dez segundos, o que era muito tempo para uma situação como esta. Pude vê-lo afastar o rosto levemente para – provavelmente – observar-me, mas não me atrevi a abrir os olhos. Ao invés, deixei minha cabeça escorregar até seu ombro, percebendo que nossos corpos mantiveram-se da mesma forma.

Meu deus, abra um buraco no chão agora e me engula! Agora!

— Will? — ouvi a voz rouca no meu ouvido, nossos peitos subindo e descendo ao mesmo tempo. Contrariado, ergui a cabeça novamente, abrindo os olhos feito um perdedor.

O rosto de Turner estava tenso, a boca avermelhada estava aberta deixando o ar sair e entrar rapidamente. Estremeci até o último fio de cabelo ao perceber que os olhos cinzas estavam mais escuros que o normal, se é que isso fazia algum sentido. Bom, fazia para mim. Ele fechou-os de forma rápida, encostando a testa na minha, antes de seu corpo apertar-se contra mim novamente. Pude sentir meus olhos esbugalharem-se ao passo que também sentia sua ereção contra mim.

Com o rosto quase colado no meu, observei um sorriso malicioso abrir-se neste. Malicioso!

— Acho melhor pararmos por aqui — disse ele, a voz falha, largando-me aos poucos antes de deixar um beijo em minha bochecha.

Assenti mecanicamente, sem saber exatamente o que dizer ou o que fazer com meu corpo mole. Afinal, como é que se andava mesmo?

Escorreguei a mão pela porta com o intuito de chegar na fechadura, na esperança de sair logo dali para poder respirar normalmente de novo. Turner não roubava ouro, ele roubava ar. Devia seriamente atualizar Cenoura com a informação a respeito.

No entanto, antes que eu pudesse destrancá-la, Turner segurou minha mão, fazendo-me olhar para ele. Enlacei meus dedos nos seus, vendo que ele se aproximava novamente. Encostou a testa na minha, balançando a cabeça levemente como se não pudesse acreditar. Acreditar no que, eu não sabia. Talvez ele não pudesse acreditar que estava de rolo com alguém como eu.

Eu não acredito que troquei a monga da Srta. Stewart por esse cara sem graça, ele devia estar pensando. Ou talvez ele não pudesse acreditar que eu o havia arrastado para dentro de uma cabine de banheiro. Não que os banheiros não fossem limpos, já que sempre tinha alguém limpando-os, mas mesmo assim era um tanto quanto anti-higiênico.

Os olhos cinzas e intensos de meu professor calaram minha mente em um segundo.

— Você também me deixa maluco, Will — falou ele, sorrindo.

Pelo menos ele não estava pensando na Srta. Stewart, afinal.

Sorri também, acercando-me para enfiar o rosto em seu pescoço. Não sei por que eu o estava abraçando, mas o fiz mesmo assim. Fiquei um pouco tenso, porque nas últimas semanas não houve abraço algum que não envolvesse beijos. Mas eu queria tanto enfiar o rosto em seu pescoço e sentir seu cheiro ali que não aguentei.

— Eu acho que... — eu estou fodidamente apaixonado por você — ... a Administração Financeira nos espera.

Não que eu quisesse sair dali, apesar do banheiro público. Eu não queria. Na verdade, eu nunca quis tanto, em minha vida, ficar dentro de uma cabine de banheiro público quanto agora!

No entanto, cedo ou tarde apareceria alguém ali e iríamos nos foder. Sem falar que eu estava pisando em ovos com Turner. Não é como se eu fosse virgem, mas eu era novato no negócio de homem com homem. E com o Turner sendo lindo do jeito que é e beijando bem do jeito que beija, as coisas acabam saindo do controle do jeito que saíram.

Vergonhosamente saem do controle.

— Com certeza — riu ele, fazendo meu corpo chacoalhar também.

Apesar de tudo, saímos lado a lado do banheiro em direção à sua sala.

Turner fungou – fungou!— meu cabelo antes de sentar-se atrás de sua cadeira costumeira. Ficamos em silêncio por um tempo, como acontecia depois de nos beijarmos, e logo tentávamos ao máximo falar sobre tudo que era coisa, menos sobre a gente.

Eu não me importava, porque eu tampouco sabia como conversar sobre a gente.

Ficamos lá pelos próximos sessenta minutos. Me esforcei para pensar em perguntas sobre a aula, porque sabia que Turner ficaria desconfortável se eu não o fizesse. Eu podia perceber ele se remexer na cadeira, coçar o pescoço e pigarrear. Estava bastante claro que o fato de eu ser seu aluno o incomodava muito. O mínimo que eu podia fazer era fingir que não, nossa situação não estava interferindo em nada dos meus estudos.

Francamente, se ele pudesse ver a si mesmo da forma como eu via, saberia que é impossível pensar em qualquer coisa em sua presença. Ainda mais em administração.

Não havia completado uma hora ainda quando recebi uma ligação de minha mãe.

Será que você podia vir para casa? — perguntou ela, o barulho de chuva de fundo. — Uma das telhas de casa caiu.

— Caiu? — perguntei, chocado. Minha casa podia não ser das mais ricas, mas era resistente. Ao menos, pensei que fosse.

De relance, pude ver Turner erguer os olhos, curioso, para mim.

Sim, perto da sala. Não se preocupe, já arrumamos. Por hoje, pelo menos — falou num resmungo, cansada. — Mas não quero que Caleb fique sozinho, tenho medo que caia mais alguma.

Já não basta ter que gastar dinheiro com a casa, gastar dinheiro com a saúde de Caleb, sendo que podíamos ter evitado, era um abusurdo. Fazia sentido, afinal. Eu entendia até demais as preocupações de minha mãe.

— Tudo bem. — Suspirei. — Estou indo!

Desliguei o celular e fiquei em silêncio por um momento, pensando que a última coisa que eu queria era voltar para minha casa — sem uma das telhas — e cuidar de meu irmão.

— Aconteceu alguma coisa? — Turner quebrou o silêncio. Assenti levemente antes de suspirar mais uma vez e finalmente juntar minhas coisas.

Obviamente que eu não contaria sobre as telhas, pensei.

— Tenho que cuidar do meu irmão — respondi antes de jogar a mochila no ombro. Inclinei-me em sua direção, já que ele estava sentado, e deixei um beijo em seus lábios.

Assim que dei-me conta da merda que fiz, arregalei os olhos, deixando o queixo cair. Turner apenas encarou-me com as sobrancelhas levantadas. Fiquei parado tentando pensar no que dizer depois do momento constrangedor, mas nada saiu.

Levei a mão ao rosto, com o intuito de esconder-me quando ouvi a risada de Turner ecoar pela sala.

— Desculpa — falei, a voz num tom mais alto que devia.

— Tudo bem — disse ele simplesmente, com carinho.

Tudo bem nada!

Aham — falei num murmúrio, sentindo meu rosto queimar. Soltei mais um resmungo ao assentir com a cabeça e virar as costas para sair dali logo.

Era muita vergonha para um dia só!

Eu praticamente beijei ele como se fôssemos namorados. E pior: como se fôssemos namorados há muito tempo! Como se já houvesse virado rotina os selinhos de despedida.

Ai meu deus, eu praticamente o pedi em namoro!

Antes de fechar a porta ao sair, podia ver o rosto relaxado de Turner ao me observar e piscar um dos olhos cinzas. O sorriso em seu rosto foi a última coisa que vi e foi o que fez com que toda minha vergonha desvanecesse.

No caminho para a parada, resolvi pegar um atalho por uma das trilhas de caminhada que rodeavam a universidade. Claro que eu podia pegar ônibus na parada em frente ao nosso prédio, mas me recusava a ir o caminho todo em pé, ainda mais em dia chuvoso. Tentava manter o guarda-chuva reto ao caminhar, mas ele insistia em teimar. Desviei de algumas poças de água — ou de lama — algumas vezes. Bufei, irritado.

Como eu odeio dia de chuva!

Estava quase podendo enxergar a parada do terminal quando ouvi um barulho ao meu lado esquerdo, no meio das árvores. Diminuí o passo, com o cenho franzido ao olhar ao redor. Só o que faltava, afinal, eu ser devorado por um animal selvagem, sabendo que não deveriam haver animais selvagens por aqui. Ou pelo país inteiro!

Eu não poderia ser tão azarado assim, era demais.

Eu estava errado, no entanto. Realmente haviam animais selvagens em meu país, em minha cidade. Haviam predadores por toda a parte, eu só havia me esquecido disto. Afinal, eu não me deparava com algum desde que meu pai havia saído de casa.

E alguém, certamente, teria que me lembrar que sim, eles existem.

Dei-me conta do que se tratavam os sons entre as árvores, apesar do barulho da chuva que insistia em cair incessantemente. Eram passos do pior tipo de animal que existe. Eram passos humanos.

Então, assim que me virei bruscamente para trás ao ouvi-los cada vez mais perto de mim, fui surpreendido com uma terrível dor de cabeça. Não demorei muito para descobrir que havia sido golpeado. E demorei menos ainda para perder a consciência.

Notas finais
EDIT/2021: Ele* é o personagem de uma série: quem sabe, sabe. Eu havia escrito o nome e mais detalhes da série, porque não me dei conta que são spoiler pra quem assiste, então decidi deixar só o básico do básico. Se vocês não sabem do que se trata, deixem pra lá imediatamente, ok? Não é revelante pra história. 2bj :* Shh, acalme o coração, acalme a alma, acalme tudo! Haahahahaha VAI FICAR TUDO BEM, respirem! Hahahha ♥ Pequeno spoiler: ninguém morre (a princípio, pelo menos) ahahah Gente, só uma coisinha! Eu sei que disse não impor nenhuma imagem dos personagens para vocês, mas se fica melhor para alguns ter uma visão concreta para imaginar a história, eu tenho algumas opções! Decidi postar tudo no meu tumblr, se quiserem dar uma olhada é só pedir que eu mando, ok? É isso, respirem fundo e até o próximo! Ahahahha ♥ Atualizada: 09/2017.