Made of Fire

52 XIX. Mude ou a vida muda por você


Notas iniciais
GENTE, é o seguinte: Em torno de quatro semanas consecutivas, eu perdi minha avó para três paradas cardiorrespiratórias devido à idade e condições de saúde, uma gata para um edema pulmonar devido à um atropelamento, e - acreditem - a que mais me doeu: minha boxer, de doze anos, minha princesa, para um carcinoma inflamatório devido à predisposição para tumores e câncer. Perdi as primeiras fotos pra minha formatura - porque minha vó faleceu no dia marcado -, então no convite para os professores está uma foto da turma em que eu não apareço, como se eu nem existisse. E eu meio que me sinto assim, meio vaga, ultimamente. O fim de MOF é bem difícil pra mim ahahah, então eu já esperava uma demora, mas quando fiquei inspirada, aconteceu tudo isto. Sem falar que tô enlouquecendo porque tenho que encontrar estágio (estágio curricular) até dia 31 de agosto e não encontrei em porra de lugar nenhum ainda. Detalhe: se eu não fizer estágio, não me formo em janeiro, e eu tô pagando a formatura desde o ano passado, então imaginem o dinheiro fora! E a vergonha e a vontade de me atirar de uma ponte também né, importante HAHAHAHHA. Eu não tô contando essas coisas pra dar pena em vocês HAHAHAHA (depois de falar a respeito com alguns amigos, percebi que esta é a reação principal. A segunda é: "vai te benzer!"), era pra justificar minha ausência. E nem se preocupem com depressão ou algo assim, não é o caso, eu só ando meio perdida e desnorteada com as coisas que andaram acontecendo. As coisas estão estranhas. ENFIM. Vamos antecipar um pouco de bipolaridade da minha parte, mas o negócio é 50/50, minha gente. Talvez eu poste, talvez eu não poste. Mas por enquanto, eu voltei! I'M BACK, BITCHES! Então, demorando mais tempo do que devia, eu completei este capítulo pra vocês! Vamos arrancar o band-aid de uma vez? Serão cerca de nove ou dez capítulos finais, tô escrevendo eles com muito amor e carinho, dentre os quais haverão alguns extras, porque eu sei que vocês adoram. ♥ Will's POV Boa leitura!

Mudanças são necessárias.

Certamente todo mundo já se sentiu como se estivesse pulando de um avião sem paraquedas, prestes a fazer algo que poderia mudar sua vida para sempre. Uma entrevista de emprego, uma prova de faculdade, um encontro amoroso. Todo mundo já sentiu aquele rush de adrenalina e aquele frio no estômago alguma vez na vida, seja por algo incrível ou algo terrível por acontecer. Um passo em direção ao que pode ser o amor de sua vida ou um passo em direção ao que pode ser o pior dia de sua vida. Independentemente de qual seja, mudanças são necessárias.

Eu achava terrivelmente difícil dormir sem meu coelho de pelúcia, o Sr. Bilu, mas eu tive que abdicar dele quando meu irmão nasceu, passando minha herança adiante. Foi triste, mas criou um laço maior entre meu eu de oito anos e o garotinho intruso com o qual eu teria que dividir o amor da minha mãe. E meu pai só trouxe desgosto para todos, memórias ruins e problemas afetivos, mas ele só motivou nosso processo de transformar algo ruim em algo bom, e talvez se não fosse por isto, Caleb, nossa mãe e eu jamais teríamos nos tornado tão unidos. Se Turner não tivesse largado o vício da primeira vez, nunca teríamos nos conhecido e ele nunca sequer teria começado a faculdade e virado professor, e se não largasse naquela segunda vez, eu não o teria de volta, e ele teria se perdido pra sempre.

Largar um vício, deixar a casa dos pais, sair do armário, fazer uma tatuagem, começar um namoro, rasgar aquelas fotos antigas, doar suas roupas preferidas, começar/terminar uma faculdade ou largar outra pra se jogar em algo que gosta; tudo isto é difícil e assustador. Mudanças são assustadoras.

Mas nós precisamos delas.

*

Acordei em um instante.

Não foi apenas um resmungo que despertou-me daquele sonho insano, foram vários, e a forma como meu belo travesseiro insistia em remexer-se no próprio lugar. Aquele belo, confortável, cheiroso travesseiro, com um pouco mais de um e oitenta de altura, ombros largos, olhos acizentados e barba por fazer.

Abri os olhos.

Demorei alguns instantes para situar-me, no apartamento de Turner, suficientes para que eu ouvisse mais um resmungo de sua parte. Não era um resmungo de quem faz sons aleatórios enquanto dorme, nem gemidos de quem está em um sonho erótico, e nem mesmo choramingos de quem está tendo um sonho triste.

Era um pesadelo.

Não demorou para que eu soubesse disto, porque a luz da manhã que entrava pela janela presenteou-me com a visão de um Turner em transe. Havia suor por todo o seu rosto, seu peito, os braços que já não me envolviam em um abraço. As sobrancelhas estavam unidas, e o sono estava tão pesado que mesmo com os olhos entreabertos, a boca seca e a respiração descompassada, ele não despertou.

— Turner?

Apoiei o peso no antebraço para levar uma das mãos para seu rosto adormecido. Pude sentir na palma da mão seu maxilar enrijecer sob a pele quente.

— Turner, acorda! — chamei, um pouco mais alto que um sussurro. — Turner?

Dei uma sacudida um tanto mais forte em seu ombro, antes de levar a mesma mão para seu rosto novamente. Engoli o grito quando sua mão fechou com força contra meu pulso, e desviei os olhos arregalados para os seus, que me encaravam de volta.

A expressão continuava dura, o maxilar cerrado, as sobrancelhas juntas, a mão forte contra meu pulso, e os olhos fixos nos meus com certa agressividade contida neles. Sem saber o que dizer, já que Turner houvera despertado, continuei com os olhos nos seus, esperando que me soltasse.

— Está tudo bem — sussurrei, quando permanecemos do mesmo jeito por mais tempo que imaginei.

A expressão, aos poucos, começou a relaxar, bem como a mão firme que me segurava. Turner piscou algumas vezes e sugou o ar, como se o houvesse segurado, antes de abrir a boca com uma careta e sair do transe.

— Perdão, Will — murmurou ele, com a voz rouca, antes de esfregar o pulso que houvera apertado.

— Não tem por que se desculpar — falei, voltando a me ajeitar ao seu lado, enquanto ele virava em minha direção. — Você estava tendo um pesadelo. De novo — acrescentei, recordando-me das duas outras vezes naquela mesma semana.

Turner continuou sério, afundando a cabeça no travesseiro, com os olhos desfocados. Passei a mão por sua testa, erguendo os fios que estavam grudados no topo dela, para cima. Sorri afável quando ele piscou, grudando os olhos cinzas em mim, e desci os dedos por sua barba.

— É hoje sua primeira consulta, não? — perguntei, percebendo que ele nada mais diria.

— É — concordou, um tanto vago. Então, sorriu depois de alguns minutos, antes de pegar minha mão na sua e enroscar os dedos nos meus. — Eu prometo que vou ficar todo inteiro e curado pra você — brincou, mas o sorriso não durou tanto.

— Ah, mas eu gosto tanto de caras problemáticos — brinquei de volta, vendo o sorriso mínimo transformar-se em um riso rápido.

— Droga — resmungou, sorrindo.

Ficamos de frente um para o outro, nos encarando, naquele início de manhã, com ambas as mentes à mil.

A primeira noite em que Turner tivera um pesadelo só aconteceu cerca de uma semana depois de estar de volta em Hybridfield. No início, tudo parecia estar perfeitamente bem. Ele retornou à universidade, passou bastante tempo com Jay para apoiá-lo, me trouxe para nossa bolha do amor em seu apartamento, e até foi à minha casa para a janta com mamãe e Caleb, compensando todas as outras em que esteve ausente. Depois disto, daquele primeiro momento de alívio inicial, em que a adrenalina continuava lá em cima, as coisas se tornaram um tanto confusas.

Quando Turner finalmente relaxou, depois de alguns dias, voltou para sua rotina e a tão viciosa adrenalina baixou, os pesadelos começaram. A ansiedade começou, as noites de insônia, a inquietude, a seriedade que eu odiava ver em seu rosto. Esta última era diferente de quando ele estava me escondendo todo o lance do cassino, quando andava agitado e preocupado, era uma seriedade nova. Às vezes, era como se ele nem estivesse aqui, no planeta Terra.

E eu odiava vê-lo assim.

Duas semanas haviam se passado, e eu não precisei explicar muito pra minha mãe sobre o porquê de eu passar mais tempo com o Turner e dormir em sua casa. Precisou apenas uma noite com ele para que ela percebesse que ele não estava totalmente ok, mas eu acreditava que progresso havia sido feito ao longo destes dias.

Uma semana atrás, ele verificava se a porta estava trancada ao menos uma dúzia de vezes antes de dormir. Agora ele o fazia ao menos a metade de vezes antes que pudesse finalmente descansar. Não era bem um progresso, mas hoje a terapia começaria, então não adiantava de nada que eu ficasse pessimista a respeito.

Fiz uma careta.

— Caralho! — Pisquei os olhos, vendo que Turner levantava em um vulto rápido. Franzi o cenho, até que o mar acizentado parou em mim por cima do ombro. — Will, são sete horas!

— Ah, droga!

Levantei também com rapidez, juntando minhas roupas que estavam espalhadas por todo o quarto de Turner. Corri pra sala, enquanto Turner entrava no banho, para pegar minha mochila e enfiar tudo lá. Procurei o carregador do celular ainda na sala, e encontrei-o atirado na mesinha, o que me levou a questionar onde estava o celular em si. Resmungando, voltei correndo para o quarto e juntei-o de cima da cama com rapidez.

Era segunda-feira, e eu estava no apartamento de Turner desde sexta-feira. De todo o tempo em que estivemos juntos, esta era a primeira vez que eu acordava ali em um dia útil. Ou seja, ambos tínhamos aula.

Meu turno era à tarde, mas eu estava fazendo as duas matérias que deveriam ter sido feitas no semestre passado, na parte da manhã: Adm. Financeira II, com o Turner, e Gestão de Pessoas II, com a demônia Lawson. Segunda e sexta no início da manhã eram as aulas de A.F. I — como eu poderia esquecer? —, ao mesmo tempo que a G.P. II, então infelizmente eu veria a cara da Srta. Lawson ao invés do Turner — agora terça e quinta — naquele início de semana.

Suspirei, antes de pegar minha toalha e correr para o banheiro também. Entrei debaixo do chuveiro ao passo que Turner fazia uma bagunça de sabão em seus cabelos escuros, que logo escorria por suas costas largas, por cima da tatuagem detalhada de um dragão de batalha. Tentador, mas não tanto quanto chegar no horário em G.P. II e não ouvir os gritos histéricos da demônia pelo atraso.

Comecei a me lavar com rapidez, já passando shampoo, ensaboando o corpo e pensando no que eu levaria pra comer no caminho ao mesmo tempo. Por isso fui pego de surpresa pelo abraço por trás e a mão grande que deslizou por todo o meu peito molhado ao passo que uma língua atrevida resbalava pela região do meu pescoço.

Rolei os olhos nas órbitas, totalmente despreparado para mais uma ação inconsequente do meu dragão favorito, antes que ele capturasse meus lábios ainda prensando o tronco contra as minhas costas. Girei o corpo em um vulto para beijá-lo melhor, puxando-o para mim com ambas as mãos em sua nuca, enquanto o sentia envolver meu corpo com os braços.

— Turner, nós já não estamos atrasados? — perguntei contra seus lábios, sentindo-o sorrir.

Soltei um som surpreso quando ele me prensou contra a parede gelada do banheiro, e senti o corpo inteiro estremecer. Pisquei algumas vezes, com os olhos fixos naquele corpo sensacional debaixo d'água, antes que ele levasse uma mão ao meu tórax e descesse com lentidão até o objetivo. Engoli o gemido quando fui envolvido pela quentura de sua mão em uma pressão não muito delicada.

— Bom — começou ele, com um riso, antes de grudar o corpo no meu —, isto não irá demorar muito — completou, como se fosse óbvio.

E logo juntou nossos lábios outra vez.

*

— Está tudo muito estranho — comentou Laurel, olhando ao redor. — Sabe aquela sensação de que algo está errado?

Abri um dos olhos, enxergando atrás do sol a cabeleira avermelhada de Laurel. Ela os havia cortado um pouco abaixo dos ombros e pintado de um tom mais escuro. Fechei-o novamente, com um suspiro.

— É o outono — falei, aproveitando o sol na cara e o cheiro de grama cortada. — Sempre me traz essa sensação.

Estávamos todos no campus da universidade, atirados na grama de uma espécie de bosque que lá havia, como muitos outros estudantes à nossa volta. Como crianças que correm para o pátio na hora do recreio, nós corríamos para o gramado na primeira chance de uma pausa universitária.

Ugh — resmungou ela, em resposta, antes que eu a ouvisse deitar ao meu lado. — Outono é uma droga!

Abri os olhos, estranhando o silêncio dos outros dois, e girei o rosto para ver apenas Gabe praticamente roncando do meu outro lado.

— Cadê o Cenoura? — perguntei, vendo que ele não se encontrava em lugar algum.

— Deu uma escapada pra encontrar a Jess.

— Claro que deu. — Ri, tapando o sol com o antebraço para enxergar a ruiva. Observei-a por um instante. — Laurel?

— Hum?

— Como andam as coisas? — perguntei, como quem não quer nada.

Isto chamou-lhe a atenção.

— Que coisas? — Focou os olhos castanhos em mim, desconfiada.

— Sei lá, suas coisas. — Desviei o olhar. — Família, estudos, amores...

Quando percebi o silêncio, girei o rosto em sua direção novamente, apenas para vê-la estreitando os olhos.

— Ele te contou — murmurou ela, ainda analisando minha expressão, que deve ter me denunciado. — Gabriel te contou!

Abri a boca para mentir, mas foi tarde demais. Não demorou um segundo para que ela levantasse do lugar e sentasse ao lado de Gabe, dando socos — não tão fracos — no braço adormecido dele.

Ouch! — Acordou, assustado. — Ouch! Que foi?

— Você contou para o Will! — acusou ela, e escondi os lábios. — Eu disse pra não contar pra ninguém, seu babaca! — E alternou entre tapas e socos no braço, no peito, nas pernas. — Idiota, imbecil!

Ouch, Laurel! — resmungou ele, virando pro outro lado pra se defender.

— Laurel, calma! — Ri, não podendo evitar. — Eu sabia que ele ia falar com você naquela noite, então eu fiz ele me contar.

Laurel bufou.

— Desculpa — murmurou ele, para ela, ao se sentar. — Mas eu não conseguia esconder dele! Will parece que tem visão biônica! — acusou, resmungando.

Eu apenas ri, vendo ela ceder aos poucos, antes de se arrumar na grama, ainda emburrada.

Gabe me contou que, antes da função com Peter e George na festa, ele se declarou para Laurel e eles se beijaram. Ele não deu muitos detalhes, mesmo sendo um tanto tagarela, mas agora eu entendia o porquê: Laurel.

— E então, vocês estão juntos?

— Não. — Laurel disse, rapidamente, ao passo que Gabe dizia o contrário.

— Sim.

Laurel fuzilou-o com o olhar, que apenas permaneceu com carinha de cachorro abandonado.

— Mais ou menos. — Ela admitiu, vendo um sorriso de ponta a ponta de Gabriel. Revirou os olhos.

— Ah, que bom que vocês estão... — Pensei um pouco. — Mais ou menos juntos. Seja lá o que for.

Eles ficaram um tanto sem jeito, e resolvi que pararia ali de incomodar. Quem diria?

Depois de um tempo em silêncio, Laurel veio com mais bomba.

— Ah, Will... — começou, mexendo na grama. — Não queria perguntar, mas vou ser obrigada. — Franzi o cenho. — O Dragão tá bem? Você não disse mais nada e nem contou qual foi o problema familiar que ele teve, e ele parece meio abatido nas aulas, então... — Suspirou, os olhos castanhos insistentes. — E então? — finalizou, firme.

Por dentro, agradeci por Gabe não haver contado nada à ela.

— Oh — murmurei, relanceando Gabe, que apenas alternou o olhar azul entre mim e Laurel. — Ah, ele está se recuperando. Ficou abatido com — interrompi, pensando um pouco — um primo muito querido que se envolveu com drogas e vício e afins. Diz que foi horrível — acrescentei, arregalando os olhos, para dar mais ênfase e ficar mais crível. — Mas ele vai ficar bem.

— Nossa, que horror! — Laurel fez uma careta, colocando a mão no peito. Assenti, dissimulado. — Mas deve ter sido muito sério pra ele estar assim... — No entanto, parou um momento antes de me analisar com desconfiança. — Não era ele o viciado em drogas, era?

Não era boba nem nada, então com os olhos desconfiados, me encarou ao esperar por uma resposta. Abri a boca, sem saber o que falar, mas Gabe revirou os olhos, me salvando em seguida.

— O Sr. Turner, usuário de drogas? Sério, Laurel? — perguntou ele, estalando a língua.

— Ah, sei lá! Existe tipo específico de gente pra usar droga agora? — Mas cedeu um pouco, com o olhar incrédulo de Gabe. — É, é meio absurdo. — Admitiu, voltando a me encarar. — E eu sei que isto vai soar horrível, Will, mas eu fico feliz que seja este o problema. Pensei que ele estava assim por causa do lance com o Peter.

— Laurel! — exclamou Gabe, cutucando-a.

— O que foi? — perguntou, irritada. — Will não me conta nada, eu tenho que perguntar! — Fez um beiço. — Aposto que com você ele conversa.

Gabe revirou os olhos.

— Tudo bem, Gabe. — Suspirei, vendo que ele iria responder, antes de focar o olhar em Laurel.

O nome de Peter ainda me causava certa angústia. Eu havia o beijado, estando com Turner, e eu poderia repetir isto para mim mesmo mil vezes que sempre duvidaria.

— Eu queria poder deletar toda a parte do Peter da minha história, e a do George junto, de preferência. — Estalei a língua. — Mas eu não posso. Você tem razão, Laurel, eu andei meio quieto sobre isto, mas é porque está tudo calmo mesmo.

— Ele sabe? — Foi direto ao ponto, fazendo com que Gabe erguesse as mãos para o alto, de forma cômica, pedindo assistência técnica de deus. Engoli o riso, assentindo. — Tudo?

Engoli em seco, lembrando da careta angustiada de Turner quando eu contei e a maneira como me suplicou que não dissesse em voz alta. Me senti um lixo, e me sentiria sempre ao lembrar.

— Sim, ele sabe de tudo.

— Caralho! — exclamou ela, com a mão na boca. — Sr. Turner, hein... — Pareceu admirada. — Não é todo cara que aceita assim uma traição.

— Laurel, pelo amor de...

— Mas eu não estou querendo ser ofensiva! — defendeu-se pra ele. — Eu não estou! — acrescentou, para mim. — Sinto muito, Will — pediu, sincera. — Mas se você sabe que eu sou curiosa, devia ter contado tudo antes de eu perguntar!

Ri, assentindo. — Sim, é verdade.

— Ele deve te amar muito — disse, em um tom baixo, me pegando de surpresa.

Sorri, agradecido que ela houvesse, por fim, baixado a guarda com relação ao professor que tanto odiava.

— E eu o amo também — confessei, de volta, vendo-a assentir. — Peter foi um erro que até agora não me cai a ficha de como cometi. — Pensativo, acrescentei em um murmúrio: — Não me cai a ficha de nada do que aconteceu.

— Você já falou com ele? — Desta vez, foi Gabriel quem perguntou, um tanto curioso.

Neguei, quieto.

— Você não pode ficar deixando isto pra lá, esperando que desapareça — disse ele, preocupado.

Suspirei, puxando a grama de forma semelhante à Laurel.

— É que eu não posso me dar ao luxo de ficar chateado, justo agora que o Turner tá passando por um momento ruim — contei, nervoso. — Meus problemas passaram pra um segundo plano. É com ele que eu me preocupo agora, e depois do que eu fiz — falei, falhando um pouco a voz —, isto é no mínimo, minha obrigação.

— Isso não parece justo.

— Nada de tudo isto é justo, Gabe — constatei, vendo que ele nada podia rebater.

Mas Laurel, sim.

— Não interessa, Will! — exclamou ela, incrédula. — Você não pode ficar engolindo os sentimentos como se não fosse nada.

Estreitei os olhos, percebendo do que ela falava.

— Se você está se referindo ao George — comecei, nem um pouco afim de falar a respeito do lixo humano —, pode baixar a bola, Laurel, porque eu não vou denunciá-lo. Nem agora nem depois.

Laurel praticamente bufou.

— Mas por quê? — Aumentou o tom da voz. — O que ele fez foi crime!

Gabe se jogou para trás, na grama. — Lá se vai a tranquilidade do sol...

— E ele vai pagar — afirmei, querendo pôr um ponto final. — Eu é que não! Não vou perder meu tempo, minha cabeça, minha paciência e minha dignidade pra ele em um processo exaustivo sem prova alguma!

— Mas, Will...

— Laurel, pensa um pouco — falei, impaciente. — Você sabe que eu tenho razão.

Laurel resmungou mais alguma coisa, mas se aquietou depois, e Gabe tratou logo de puxar outros assuntos para amenizar. Vez ou outra, pegava na mão da ruiva, e ela brincava com os cabelos dele, de forma inconsciente que me fez sorrir.

Porém, eu não podia deixar de pensar que Laurel estava certa. George merecia pagar por aquilo, não só pelo que fez para mim, mas pelo o que com certeza deve ter feito para outros. Outros que até poderiam ter passado por algo pior que eu. Eu até pensava em Peter, e tendo convivido com uma mãe em um relacionamento abusivo, eu me questionava se não era isto que se passava a ele.

E me corroía por dentro, porque se fosse assim, ele não tinha culpa de nada.

Eu brinco, eu deixo de lado, eu foco em outras coisas. Mas acordar em um bosque vazio, sem saber onde eu estou, e sentindo o corpo inteiro doer, foi absolutamente assustador.

E o pior de tudo: eu não precisei saber quem havia sido, nem lembrar de nada que me havia sido dito, nem quantas vezes me golpearam. Eu tinha certeza de que, independentemente, o motivo era a minha sexualidade.

*

Assim que passei pela porta de casa, o céu já escurecendo devido à estação, o cheirinho de comida de casa subiu às minhas narinas. Existe coisa mais maravilhosa?

Não existe.

Larguei minhas mochilas de qualquer jeito na entrada, e segui para a cozinha. Caleb estava com um avental azul e mamãe com um avental rosa, na cozinha, estando meu irmão mexendo nas panelas no fogão, e minha mãe ajeitando as saladas e pratos na mesa.

Parecia coisa de comercial de margarina, coisa mais linda.

— Uau, que cheiro bom! — tratei de deixar claro, com um sorriso. — Caleb, já disse que te amo hoje?

Caleb revirou os olhos, continuando a cozinhar o que quer de coisa boa que ele estava cozinhando.

— Ah, Will! — Minha mãe levantou, limpando as mãos no avental de forma atrapalhada. — Eu não tinha certeza de você viria hoje ou não.

Estranhei seu jeito agitado, a expressão tensa, as unhas pintadas — unhas pintadas?— nas mãos que remexiam-se de forma semelhante à minha, quando estou nervoso. — Aconteceu alguma coisa?

Foquei os olhos em Caleb, que também a encarava, mas ele apenas ergueu os ombros, indicando que nada sabia. Começou a desligar as bocas do fogão, já que tudo provavelmente já estava pronto.

— Não, não. — Apressou-se em dizer, logo rindo, nervosa. — Eu só preciso contar uma coisa pra vocês.

Deu um sorriso um tanto forçado e não esperou uma resposta antes de dar as costas, terminando de arrumar a mesa para o jantar.

Olhei para Caleb de novo, apreensivo, mas ele tratou de desviar o olhar rapidamente para as panelas, levando-as à mesa. Ele sabia de algo.

— O quê?

— Eu conto durante a janta — garantiu ela, ainda forçando um sorriso, quando claramente queria arrancar os próprios cabelos de nervosismo. — Pode ser?

— Por que o suspense? — insisti, desconfiado.

Mamãe se virou em minha direção com rapidez. Os fios de cabelos brancos haviam sido cobertos por tinta, os cabelos castanhos estavam arrumados em um penteado bonito e as roupas que usava eram novas. Ou velhas, que nunca usava, e estavam no fundo do armário há anos. Mas as mãos suavam e a pele estava um tanto pálida.

Eu não precisava conhecer minha mãe para estranhar a situação, bastava conhecer a mim mesmo.

— Não é suspense, Will — disse ela, contendo a irritação com um sorriso. Suspirou. — Eu só... Estou tentando pensar em uma maneira de contar.

Franzi o cenho, imaginado que, se eu tivesse uma chance de haver contado à minha mãe sobre minha sexualidade, eu pareceria mais ou menos assim. Com isto em mente, lavei as mãos, ainda encarando os dois com suspeita, antes de virar pra minha mãe.

— Você também é gay? — perguntei a ela, contendo o riso, depois de uma luta interna ao pensar se brincaria ou não.

— Will! — exclamou, ultrajada.

Não consegui impedir o riso, vendo que Caleb também sorria, levantando as mãos em seguida. — Desculpa, desculpa — pedi, mas vi que o rosto dela relaxou. — Foi mais forte que eu.

Jantamos a comida deliciosa de Caleb, que a fizera com a ajuda da mãe, aguentando os assuntos aleatórios de minha mãe com o intuito de tirar nossa mente do que ela queria contar. Mas assim que a janta chegava ao fim, um silêncio se fez presente na cozinha.

— Hum, mãe? — pediu Caleb, já impaciente com a espera. Agradeci mentalmente.

— Eu sei — disse ela, nervosa, limpando a boca com um guardanapo. Respirou fundo, empurrando o prato para longe de si, antes de erguer os olhos castanho-esverdeados. Olhou no fundo dos meus olhos e em seguida nos de Caleb antes de soltar a bomba: — Estou saindo com alguém.

Arqueei as sobrancelhas, ponderando se era uma brincadeira ou não, mas era óbvio que não.

Sem saber o que fazer ou o que pensar, relanceei Caleb, que apesar de parecer tenso, não parecia nada surpreso. Estreitei os olhos para ele, antes de desviá-los para a nossa mãe, que tinha os olhos arregalados enquanto esperava uma resposta.

Ah — deixei escapar, tentando dizer algo a mais.

Como assim ela estava saindo com alguém sem que eu soubesse?

No entanto, era preciso apenas um imbecil para não se dar conta de que eu não estava passando tanto tempo em casa. Andava preocupado com Turner, e então com Peter, e então com Turner outra vez. Minha mãe estava se arrumando outra vez, coisa que não acontecia há anos, ficava mais tempo fora de casa que o normal, "trabalhando".

E eu houvera percebido tudo isto, mas não tinha prestado atenção e nem dado importância. Mesmo quando eu estava em casa, eu não estava em casa.

E Caleb estava.

— Tá bom... — tentei, de novo, também nervoso. Abri a boca pra dizer mais alguma coisa, mas me calei.

Isto era mesmo algo bom?, me perguntei, começando a suar frio. A última vez que minha mãe namorou, ela teve dois filhos e teve que apanhar por eles do cara, uma vez e outra, e outra.

Minha mãe pigarreou, chamando minha atenção, provavelmente ao perceber meu nervosismo. Caleb certamente não estava tendo um ataque, igual a mim, porque Caleb geralmente nem demonstrava muito o que se passava pela cabeça enigmática dele.

— Ele é muito gentil, e atencioso, e educado — começou ela, pausadamente, como se contasse para os filhos que papai noel não existe. — Como as coisas estão se encaminhando para... Bom, para algo mais sério — disse, fazendo com que meus olhos alargassem um pouco mais —, eu decidi que estava na hora de vocês saberem. E o conhecerem. — Então, se apressou ao perceber as expressões, alternando o olhar entre mim e Caleb: — E não quero que pensem que ele vai entrar aqui e ter qualquer autoridade sobre vocês, ou sobre mim — acrescentou, em tom mais baixo, como sempre fazia quando falava de seu passado e sentia-se envergonhada por tal —, porque isto não vai acontecer. — Foi firme. — E... Ele não bebe nada de álcool. — Finalizou, recostando-se nas costas da cadeira.

Caleb e eu nos relanceamos rapidamente, antes de voltarmos os olhos à nossa progenitora e um silêncio se instaurar no cômodo. Eu não conseguia digerir o que estava acontecendo.

Aliás, o que estava acontecendo com a minha vida?

Pisquei algumas vezes, mas a imagem da minha mãe, atirada no chão com a pele sangrando e um Caleb de um ano de idade aos prantos do lado, não saía da minha mente de jeito nenhum. Eu jamais esqueceria.

— Que bom, mãe — disse Caleb, quebrando o silêncio, e acabando com a agonia dela. — Se você está feliz, isso que importa.

Demorei a raciocinar, franzindo o cenho ao encarar Caleb, que parecia tranquilo demais com a situação. Foi neste instante que a pose dela vacilou, e os olhos se encheram de lágrimas ao encarar o caçula.

— Obrigada, anjinho — disse, esticando-se na mesa para colocar uma das mãos no rosto de Caleb. — Obrigada.

— E você está feliz? — perguntei rapidamente, resoluto.

Mamãe focou os olhos esverdeados em mim, dando um sorriso fraco, as linhas de expressão um tanto apagadas.

— Como eu nunca achei que estaria de novo — disse ela, em um murmúrio e um sorriso. Mas eu não conseguia sorrir, e ela percebeu isto. — Vocês são a minha maior felicidade, como mãe, mas eu... — Se interrompeu, desviando o olhar, parecendo completamente desajustada. — Bom, eu... Como pessoa e como mu...

— Você não precisa se explicar, mamãe — interrompeu Caleb, me olhando de canto de olho com repreensão.

E eu precisei, porque foi como um balde de água fria. Até então, eu não tinha percebido minha posição. A testa vinculada, os braços cruzados em cima da mesa, o corpo duro de tão tenso. Engoli em seco.

— Não, é claro que não precisa — apressei-me, um tanto arrependido. — Eu só... — Suspirei, encarando os olhos já aquosos da minha mãe, enquanto ela tentava permanecer na pose convicta. — Eu também quero que você seja completamente feliz. Eu só não quero que... — Engoli as palavras, percebendo o nódulo que havia se formado em minha garganta. — Que... — Pisquei pra afastar as lágrimas.

— Ah, Will!

Minha mãe levantou no mesmo instante, fazendo o contorno da mesa e sentando ao meu lado, entre eu e Caleb. Passou um dos braços por meus ombros, inclinando o rosto para me olhar nos olhos, mas os mantive em meu colo.

— Eu sei — murmurou ela, pesarosa, já não conseguindo manter as lágrimas nos olhos. — Eu sei.

— Mãe... — Ergui o rosto, vendo as rugas e as sardas de perto, vendo o quanto ainda era linda. Linda demais, e já forte demais, para passar por tudo de novo. — Você não merece passar por isto de novo — verbalizei, nervoso por saber que Caleb estava do lado. — Não de novo.

— Eu não vou passar, Will — garantiu ela, mexendo nos meus cabelos, com uma expressão confiante.

Neguei com a cabeça, sentindo-me uma criança.

— Mas você disse que no início, com o Hugh — cuspi o nome dele —, que ele também parecia ser um cara decente. — Mamãe arqueou as sobrancelhas, parecendo surpresa de eu lembrar disto. — Eu só não quero que te enganem de novo.

Ela limpou o rosto, sorrindo, mas as lágrimas só aumentaram depois disto. Inspirou algumas vezes, pegando a mão que Caleb havia estendido e eu nem vi, e me olhou nos olhos.

— Meu amor, você não precisa cuidar de mim e de seu irmão — disse ela, em um tom ameno de mãe que faz qualquer um amolecer, relanceando Caleb. — Não mais, não há muito tempo. Eu é que tenho que cuidar de vocês. Eu sou a mãe, Will.

Neguei novamente, insistente.

— A gente precisa cuidar uns dos outros — afirmei, vendo que ela assentiu, confirmando.

Então, em um tom baixo, quebrou toda a minha resistência: — Eu o amo, filho.

A frase, dita da mesma forma que eu a verbalizei no ano anterior, fez com que meus ombros caíssem e eu chorasse de vez, feito uma criança.

Primeiro, porque eu estava repetindo uma reação semelhante à de minha mãe que cortou meu coração, e eu não queria fazer o mesmo com o dela, jamais. Segundo, porque eu devia estar agindo feito um infrator no meio do romance de duas pessoas no qual eu não tinha direito de opinar. Terceiro, porque mesmo que ela estivesse cometendo um erro, eu não tinha como interferir e impedi-la, a vida pessoal era dela. Quarto, porque havia uma chance ali de minha mãe saber de verdade o que é ser amada, assim como eu sabia com Turner, e eu sempre quis que ela tivesse tudo.

— É mesmo? — murmurei, limpando o rosto.

Ela assentiu, com um sorriso.

— Não tanto quanto amo vocês — brincou, cutucando Caleb para fazê-lo rir.

Logo, nos puxou para um abraço em grupo, e Caleb logo começou a dizer que ela nem sabia esconder nada, porque ele já sabia há eras.

Minha mãe, com um namorado novo, era uma mudança assustadora. Mil possibilidades se abriram e nenhuma delas era alguma que eu houvesse considerado para um futuro próximo. Mudanças interrompem ou viram de cabeça pra baixo o rumo do nosso futuro. Mudanças são como o destino, só que ao contrário dele, às vezes elas fazem com que a gente pense que temos certo controle sobre nossa vida.

Ledo engano.

No fim das contas, nem sequer importa. Porque como eu disse, mudanças são sempre necessárias.

Notas finais
Sempre quis fazer isto e consegui: atualizei todas as quatro histórias ao mesmo tempo, em cascata, hihi. AAHH, eu troquei a capa de MOF! Por quê? Não sei, eu fico bem louca quando tô nervosa, e ando sempre nervosa nos últimos tempos. Talvez eu volte à capa anterior, quem sabe? Me digam vocês! Bom, é isto! Vlw flw. Paz no coração de vocês. #eusemprevolto. Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! *O*