Made of Fire
53 XX. Um ombro amigo não faz mal a ninguém
Notas iniciais
Todo mundo precisa de um amparo.
É bastante comum que as pessoas relacionem a assistência psicológica à loucura humana. É o senso comum, por mais absurdo que pareça. São absurdas as concepções de loucura, de normalidade e de perfeição. Às vezes, eu penso que usar tais conceitos com total plenitude é sinal da pura e íntegra estupidez humana.
O que é loucura?
Certamente não é loucura pedir ajuda ao próximo com questões que não se sabe lidar sozinho. Não é loucura ficar confuso com tanta informação divergente espalhada pelo mundo. Não é loucura a tentativa de quitar a própria vida com esperança de que as dores cheguem ao fim ao mesmo tempo que as batidas de seu coração, da mesma forma que não é loucura pensar que há uma força divina agindo sobre todo o mundo. Não é loucura sentir-se desconfortável no próprio corpo, sendo que nem mesmo todas as roupas encaixam em todo mundo. Não é loucura perder o controle, nem sentir-se atraído por pessoas diferentes de si, nem usar de drogas, adrenalina, ou outras maneiras para fugir um pouco da realidade.
Loucura é pensar que tudo que nos faz humano é loucura.
Loucura é pensar que sentir, falar, tocar, chorar, gritar são desnecessários para a nossa sobrevivência; e que a solução adequada é jogar fora aquilo que é danificado ao invés de consertá-lo; e que a cor da pele, a sexualidade, a classe social, a vestimenta, são igualmente relevantes que o caráter; e que lutar pelos direitos humanos que são quitados da minoria por gente ingorante é frescura; e que pessoas que acreditam em coisas tão abstratas quanto o paraíso e o inferno pensem que pessoas esquizofrênicas é que deviam ficar trancafiadas em uma clínica pelo resto da vida.
A verdade é que a loucura é uma triste ironia.
Você pode pedir um ombro amigo para chorar, um amparo quando cair, mas se você entrar em um escritório de psicologia, você automaticamente transformou-se em um louco.
A maior ironia é que se todo mundo é louco pelo simples fato de ser humano, então a loucura é a real normalidade.
Quem são os verdadeiros anormais neste caso?
— Sabe — comecei, vendo Will resmungar com os dedos nos botões da camisa —, segundo o que ando aprendendo na terapia, acho seguro afirmar que eu não sou o único com ansiedade por aqui.
Will tinha os cabelos ainda úmidos do banho, as sobrancelhas unidas em junção à careta profunda no rosto, os lábios avermelhados resmungando uma coisa ou outra baixinho, e os dedos finos desabotoando uma segunda vez toda a camisa.
— Hum? — perguntou, distraído, mordendo a língua ao tentar concentrar-se na ordem dos botões.
— Seus tiques nervosos, Will — expliquei, erguendo os olhos do balcão da cozinha para vê-lo focar os verdes em mim. Arqueei as sobrancelhas. — Ficar balançando as pernas, com os dedos na boca, tamborilando-os na mesa — numerei, vendo que as mãos ansiosas insistiam em abotoar errado a camisa com a pressa de ser apenas apressado. — Isto é ansiedade.
Will parou o que fazia, me olhando com cara de peixe morto antes de sorrir de canto.
— Ora, vai seguir carreira de psicologia agora? — debochou, mas logo pensou por um instante antes de mudar o sorriso. — Sexy.
Revirei os olhos.
— Will... — Ri, balançando a cabeça. — Só estou dizendo que faz bem procurar ajuda, mesmo que você não esteja no limite, como eu estava quando procurei — contei, organizando as garrafas para ver as datas de fabricação. — É bom ter um pouco de assistência. — Ergui os olhos para ele, que ainda me encarava. — Eu sei disso agora.
A terapia havia recém começado, uma vez por semana, mas eu já estava me sentindo mil vezes melhor só de tirar um pouco de sentimento ruim de dentro de mim. Só o fato de compartilhar o que se passa em minha mente com alguém que não irá se afetar de forma alguma com o que eu digo já é de grande ajuda.
E eu estou precisando desta ajuda.
Will fez uma careta.
— Ok, eu prometo que vou pensar a respeito.
No entanto, pelo jeito que falou, estava bastante claro que ele não pensaria nem por um segundo. Soltei um riso pelo nariz, escolhendo duas das garrafas. Em seguida, voltei os olhos para o garoto dos olhos verdes.
Enquanto eu estava na cozinha, selecionando as bebidas que levaria para a janta na casa dos Jones, Will estava no meio da sala de estar, com duas camisas em cima da mesinha e a terceira em seu corpo, de cor azulada. No corpo havia apenas a calça jeans preta e os pés descalços estavam no tapete.
Will bufou, fechando os olhos com desistência, e logo soltou um suspiro pesado. Revirei os olhos antes de largar as garrafas na cozinha e caminhar em sua direção.
— Venha cá, anjo. — Parei em frente à ele, puxando-o pela camisa. — Deixa que eu arrumo — falei, vendo o rostinho desanimado aliviar um pouco com a minha ajuda. Orgulhoso demais para pedir antes de tentar cinquenta vezes. — Quer falar sobre isto?
Will piscou algumas vezes, e eu lhe sorri com carinho.
Era preciso um palerma para não perceber que tudo em Will gritava por nervosismo. E desde que eu voltei de Mallow Coast, eu andava ainda mais nervoso do que ele estava naquele instante, então eu soube que havia algo de errado.
O dia todo andando de um lado para o outro, o dia todo me beijando em um instante e no próximo se teletransportando pro Universo de Will, presente apenas naquela cabecinha de cabelos desgrenhados. Podia ser que eu andasse focado demais nos meus problemas e no início da minha terapia, mas mesmo sendo a pessoa mais distraída do mundo, não havia como não perceber a agitação de Will.
— É só que... — começou ele, soltando um suspiro e deixando os ombros caírem. — Minha mãe não esteve em nenhum relacionamento desde... — Frisou os lábios. — Há muito tempo. Eu só estou preocupado por ela.
— Por quê? — perguntei, encarando as íris verdes que refletiam suas palavras: preocupação.
— Porque... — Parou um pouco, pensando, enquanto eu pegava o casaco preto também em cima da mesa e tratava de vestir no corpo delgado. — Porque é muito tempo, e... Eu entendo que ela queira alguém de novo, e eu quero isto pra ela, é só que... — Suspirou novamente, enfiando o braço na segunda manga que eu lhe indicava. — Por que agora? Por que depois de tanto tempo?
Ajeitei o casaco em seu corpo, dando uma última olhada, antes de sorrir de canto com sua pergunta.
— Talvez porque foi só agora que ela encontrou a pessoa certa? — perguntei, arqueando uma das sobrancelhas de forma interrogativa.
Não era possível que Will tivesse tanto ciúmes da mãe.
— Mas e se não for a pessoa certa, Turner?
Elevei as sobrancelhas com o tom indelicado que ele usara, os olhos demonstrando irritação.
— Will — comecei, confuso —, você sabe que não existe um rastreador de almas gêmeas. — Ri, vendo que ao menos a irritação de seu rosto passou. — Você só vai saber se tentar. Foi assim que eu soube — acrescentei, com um sorriso carinhoso, ao dar de ombros.
No entanto, Will sequer pareceu absorver alguma das minhas palavras. Deu as costas, sentando-se no sofá com os olhos desfocados.
— O último relacionamento dela foi com um lixo de pessoa, e eu estou preocupado que este também seja.
Ah, o pai.
Sentei na mesinha, de frente para ele, com os olhos em seu rosto.
Will nunca falava sobre o pai, descontando as vezes em que nem se dava conta, e eu já imaginava que a história por detrás não era nada agradável. Mas nunca quis forçá-lo a me contar antes de seu tempo.
— Sarah não parece preocupada — tentei, devagar, ao tentar compreender. — Então por que você está?
Will demorou um tempo com os olhos nos próprios pés, antes de erguer os olhos desolados para mim. Levantou-se, desanimado.
— Você não entende.
— Então me explica — apressei-me, segurando seu braço antes de que se afastasse —, por favor. — Will balançou a cabeça. — Por favor.
— Caleb ainda mora lá — disse ele, aproximando-se novamente —, e eu não estou sempre em casa. E se... E se este cara fizer algo pra eles? — perguntou, e eu tive que piscar para seguir seu raciocínio. — Eu não vou poder protegê-la, eu não vou poder proteger nenhum dos dois.
A conversa de repente começou a me assustar, porque a maneira convicta como ele falava deixava claro que uma situação semelhante já houvera ocorrido. Se ele falava do pai, ou de algum outro homem com quem sua mãe se envolveu, eu já não tinha certeza, mas havia sido pesado o suficiente para que aquele medo estranho surgisse em seus olhos.
— Por que ele faria algo pra eles, Will? — perguntei mesmo assim. Ele desviou o olhar. — Fala comigo.
— Não gosto de falar sobre isto — reclamou ele, começando a se irritar novamente, ao puxar a mão e se afastar.
— Eu imagino que não, mas isto não quer dizer que não deve. — Segui-o até o quarto, de onde ele começou a juntar a mochila e o celular que carregava. — Will?
Suspirei, sendo deliberadamente ignorado, antes de encostar-me no batente da porta para encará-lo.
Will havia estado paranóico com a janta de hoje, e trouxe várias camisas sociais de sua casa, amarrotadas pelo tempo no roupeiro, pedindo por uma opinião especial de Jay sobre qual delas usar. E então, o resto do dia, só ficou pensando na janta em que conheceria o namorado de sua mãe, de forma um tanto obssessiva. E tudo bem que ele se esquivasse de me contar sobre a verdade, mas eu não desistiria dele.
Conhecendo Will, se ele começou a falar a respeito, é porque queria falar a respeito.
— Will? — tentei novamente, seguindo-o para sala, vendo que ele atirava a mochila no sofá.
— Isto mesmo — disse ele, me confundindo. — Will. Esse é o meu nome.
Will se abaixou e pegou os calçados. Logo, sentou-se no sofá novamente para colocar as meias nos pés esguios e foi calçando os tênis, um de cada vez, com pouco esmero.
— Ele tinha um segundo nome, por isso nós dois também temos — continuou ele, amarrando os cadarços, sem olhar para cima. — O meu é Alexander, o de Caleb é Augustine. — Will suspirou, erguendo os olhos para mim. — O dele era Williams — contou, e eu não devo ter disfarçado tão bem a surpresa. Will voltou os olhos para o segundo calçado, amarrando-o também. — Eu fui o primeiro filho, por isto eu me chamo assim. Era assim que ele me chamava.
Levantou-se, engolindo em seco, e eu achei que ele se afastaria mas permaneceu de frente para mim, com os olhos em meu queixo.
Ele realmente queria falar sobre isto, afinal.
Por um instante, observando as sardas em seu rosto e os detalhes infinitos que completavam sua figura, ponderei se eu devia verbalizar minhas preocupações. Will tinha tanta cautela ao falar sobre seu pai que eu comecei a me preocupar até demais com seu passado.
E se as coisas houveram sido bem piores do que eu imaginava?
— Will, esse cara... — comecei, sentindo até o pulso acelerar com a ideia. — Ele abusou de você?
Will ergueu os olhos em um vulto.
— Não! — negou, a voz afinando pelo volume. — Não. Não de mim e não de Caleb — falou, e eu assenti, embora ainda me sentisse apreensivo. — Eu nunca o deixaria encostar em Caleb! — acrescentou, de forma defensiva, como se eu fosse julgá-lo do contrário. Analisei-o por um instante, a ruga entre suas sobrancelhas já começava a me incomodar. — E eu não sei se ele chegou a abusar, desta forma — acrescentou, referindo-se ao que eu disse —, da minha mãe. Ela nunca me contou nada assim, mas eu não duvidaria.
Não duvidaria?
Eu já havia me questionado a respeito de seu pai, claro que já havia, diversas vezes. As informações que Will deixava escapar de vez em quando deixavam claro que seu pai era, no mínimo, um homem com o gênio forte. Talvez fosse rígido, bravo ou até indiferente com relação aos filhos, mas nunca imaginei que fosse um homem abusivo. Nunca imaginei que fosse tão ruim para que Will pensasse que ele era capaz de tamanha atrocidade.
Senti como se meu coração começasse a bater mais fraco, ao passo que observava o rosto vulnerável de Will. Então comecei a me sentir culpado, porque nós estávamos juntos há meses e eu nunca soube a respeito de demônios tão horríveis por trás de sua história. Eu tinha os meus, mas eu era adulto quando os enfrentei. Will era só uma criança.
Era mesmo pior do que eu imaginava.
Will engoliu em seco, inspirando fundo antes de dar um passo em frente, aproximando-se ainda mais de mim, para continuar, os olhos nos meus: — Hugh perdeu o emprego por causa do temperamento. Minha mãe diz que ele era bipolar e que nunca houvera se tratado, mas eu acho que era só um filho da puta. — Fez uma pausa. — Uma criança custa caro, e foi justo nessa época que eu resolvi nascer. Dinheiro para criança, responsáveis sem emprego... — numerou, inclinando a cabeça. — Faça as contas. Todo mísero troco que ele pegava do banco, começou a usar para beber. Era só o que ele comprava. Bebida. — Riu, sem achar graça. — Você já sabe que eu tenho um pouco deste gene, não é?
Sorri, mesmo com o coração apertado. Alcancei sua mão, apertando-a na minha, e aproximei tanto meu rosto do seu que nossos narizes quase se encostaram.
— Não — falei, negando com um sorriso. — Eu duvido que você seja ao menos um pouco parecido com o seu...
— Doador de esperma — apressou-se ele.
— Certo — falei, roçando os dedos em seu rosto em um carinho premeditado.
Will sorriu, mas o sorriso se perdeu em seguida.
— Isto é só a história que minha mãe contou — disse ele, com um erguer dos ombros. — Já nas minhas memórias...
Levei uma das mãos em seus cabelos claros, percebendo que Will sequer estava aqui. Os olhos desfocaram, enquanto os meus tentavam enxergar o que ele também via, e ele riu sem achar graça antes de continuar:
— Eu não tenho nenhuma lembrança de quando eu não pisava em ovos perto dele. Acho que é porque elas realmente não existem. Nas primeiras, não é exatamente medo, mas eu tinha um cuidado que não se devia ter perto de um pai — contou, e eu quase pude enxergá-lo como em um filme antigo, em forma de criança naquela mesma casa para a qual iríamos em alguns minutos. — Depois, quando ele passou a resolver as brigas com a minha mãe na violência, bom... Aí medo é a palavra certa mesmo — admitiu, antes que o rosto se tornasse transtornado de novo. — Eu cuidava do Caleb, mas não podia cuidar dos dois ao mesmo tempo. — Balançou a cabeça, com pesar, para reafirmar o que dizia. — Era impossível — defendeu-se, novamente como se eu fosse julgar o contrário. — Eu era só uma criança.
Deixei o queixo cair, apertando suas mãos com força desmedida.
— Will — comecei, abismado demais para sair mais do que um murmúrio —, você não precisa explicar o porquê de não conseguir defender a família inteira de um homem adulto, Will. Pelo amor de deus! — lamuriei, vendo que ele desviava o olhar.
Balancei a cabeça, sentindo que começava a latejar.
Eu não conseguia digerir como um cara adulto era capaz de bater na mulher, na frente dos filhos. Eu havia sucumbido à um mundo tenebroso quando era jovem, e havia me misturado com a parte mais baixa da minha cidade, mas nem ao menos lá as pessoas eram tão covardes assim.
E a imagem de Will, com os pequenos braços de menino, tentando proteger o irmão de alguém que devia amá-los e não injuriá-los, fez com que eu quisesse ajeitar a gravata na garganta de tanto desconforto.
É claro que ele estava preocupado pela mãe. Quem não estaria?
Porém, de forma inesperada, o rumo dos meus pensamentos tomou uma direção nada agradável. Analisei seu rosto por um instante que pareceu uma década antes de estreitar os olhos.
— Ele chegou a levantar a mão para você? — perguntei, no minuto que o pensamento me cruzou à mente. Will ergueu os olhos verdes em mim, que aumentaram um pouco de proporção ao passo que escondia o lábio inferior entre os dentes. Senti que o chão se esvaíra dos meus pés. — Will?
"O que aconteceu é que passei a infância inteira me esquivando do meu pai para acabar apanhando de marmanjos logo na faculdade!", lembrei-me em um instante, sentindo a respiração pesar. E então, parar de vez:
— Não foram muitas.
E aquelas três palavrinhas foram as piores que eu houvera escutado em semanas.
Ergui os olhos para o teto, tentando controlar o tremor do meu corpo, e levei uma das mãos para minha cabeça. Quando baixei os olhos perturbados para Will, ele me encarava com remorso. Remorso de quê?
— Will...
— Não foram — repetiu ele, com pressa. — Era só quando ela saía e não tinha ninguém pra me cuidar, e era só quando ele se estressava. — Mordi o lábio, tentando controlar o choro que sairia apenas pela forma como Will se explicava: como uma criança. — O tio Shiori e a tia Kira recém haviam se mudado quando ele foi embora, então antes não tinha ninguém mais, minha mãe não tinha escolha a não ser me deixar com ele. Não foram muitas, eu juro — falou, sendo ele quem pegava minha mão desta vez. Mas eu já nem o enxergava mais, com os olhos desfocados e a mente trabalhando em formar imagens indesejáveis do meu garoto apanhando do próprio pai.
Em um instante, toda a minha tranquilidade se esvaiu. Agora era eu quem estava nervoso, nervoso por ele, nervoso por sua mãe e nervoso pelo cara que estávamos prestes a conhecer.
Mas sobretudo, nervoso porque eu não conseguia acreditar que Will houvera passado por isto.
— Viu só? — Ele chamou minha atenção, com os olhos preocupados em mim. — Por isso que eu não queria te contar, por causa desta cara que você está fazendo! — acusou, indicando o meu rosto.
Pisquei, tentando relaxar meus músculos tensos ao perceber que ele parecia mais indignado do que triste. Estava já acostumado com a lembrança ruim.
— Will, qualquer um com o mínimo de humanidade reagiria assim — falei, passando a mão nos cabelos. Suspirei, parando meus olhos nos seus. — Qualquer um que te ame.
O rosto de Will relaxou por um instante, e nos olhos se passou certa compreensão. Assentiu, passando os braços em torno da minha cintura e me olhando de baixo. Tentei sorrir, mas não devo ter conseguido, minha mente retornando às imagens nada agradáveis que minha imaginação fértil criou.
— Sim, eu sei... — disse ele, meio relutante sobre o que diria a seguir: — É por isto que você não pode mencionar isto à minha mãe — falou, e franzi o cenho em incompreensão. — Ela não sabe que nem sempre pôde me defender — contou, e eu fechei os olhos em desalento —, e ela não precisa saber. Ok?
Abri-os novamente, sentindo que houveram marejado, com o toque singelo que Will fez em meu rosto. Sorri fraco, assentindo, ao perceber que eu não tinha direito nenhum de chorar pelas dores de Will. E ele se recusava a fazê-lo, pude perceber, piscando e conseguindo se livrar das lágrimas todas as vezes.
Will me puxou para um abraço, não conseguindo manter os olhos presos nos meus por muito tempo, e fechei os braços contra seu corpo em retribuição.
— Ele nunca me chamou de Will — murmurou ele, a voz embargada, contra meu pescoço. — Era William, sempre — confessou, e eu assenti, sentindo o ar pesar em nosso entorno. — Ele não usava o apelido carinhoso, porque não havia carinho nenhum.
Fechei os olhos, apertando-o com mais força contra mim, e pude sentir que ele fazia o mesmo. O fato de não gostar do próprio nome nada tinha que ver com não gostar de como soa, mas com a provável dor que lhe trazia junto das lembranças.
— Tudo bem — falei, afagando seus cabelos, mas sentia que era eu quem precisava do aperto para digerir o que houvera descoberto. — Tudo bem, eu entendo — murmurei, ouvindo-o fungar. — Tudo bem, Will.
— Eu só estou preocupado — finalizou ele, enfiando o nariz no meu pescoço de novo.
— Eu sei, anjo — falei, fungando seus cabelos. — Eu sei. — Afastei-o um pouco, apenas para olhar em seus olhos que brilhavam.
De nada adiantava que eu passasse para ele toda a minha angústia, já que Will houvera passado por isto há muito tempo. Se ele não se sentia angustiado toda vez que se recordava, isto era bom, e não seria eu quem lhe faria sentir tudo de novo. Engoli meus questionamentos, e minhas lamúrias, e foquei no que eu podia ajudar.
Sorri.
— Só que você também sabe que sua mãe jamais colocaria alguém suspeito dentro de casa, dentro da vida de vocês. — Ele desviou o olhar rapidamente, mas fiz com que me olhasse de novo. — Você é cético, Will, mas aposto que ela deve ser bem mais. Se ela se permitiu apaixonar de novo, e trazê-lo para a vida de vocês é porque ele conquistou esta confiança dela — falei, sendo sincero. Sarah é uma mulher incrível, e uma mãe amorosa. Não havia maneira no mundo que ela quisesse fazer com que os filhos passassem pelo mesmo de novo. — Você tem que dar uma chance.
Will afastou-se mais, ainda de frente para mim, com um suspiro pesado. Levei uma mão ao seu queixo e fiz com que olhasse para mim.
— E eu sei que confia em sua mãe, porque senão você nem estaria cogitando ir neste jantar — finalizei, com um sorriso de lado.
— Confiança é uma coisa perigosa, Turner — optou por responder, arqueando uma das sobrancelhas.
Sim, realmente é.
Sorri fraco, percebendo todo o dano que aquele homem houvera causado e que, mesmo sem ter visibilidade, estava todo ali, escondido atrás dos olhos verdes. Aquele estrago tão profundo que já houvera se incrustado em sua alma, mesmo que ele conseguisse viver e seguir em frente sem olhar para dentro de si.
— O medo de confiar é ainda mais perigoso, anjo.
Will estreitou os olhos, mas eu vi que acabei com a relutância dele quando bufou em seguida.
— Eu não tenho medo de nada — falou, dando as costas em direção à cozinha, onde estavam as garrafas de vinho que eu prometi à Sarah que levaria.
Sorri, parando na abertura entre a sala e a cozinha, com os braços cruzados. Esperei que ele as colocasse em sua mochila para levar, e que erguesse os olhos para mim, para que eu curvasse uma das sobrancelhas.
— Você quase teve um infarto quando aquela barata voou da janela ontem — rebati, com humor, vendo que ele soltava um arquejo.
— Ora! — colocou a mão livre no peito, ultrajado, com o rosto avermelhando. — Isto é injusto! Você também correu pro outro lado! — acusou, e eu me permiti gargalhar da postura incrédula dele.
Senti um alívio por ver o indício de sorriso em seu rosto, e toda a apreensão dar um chá de sumiço por um instante.
— É — concordei, controlando o riso —, mas não sou eu que afirmo não ter medo.
— Idiota.
Ri mais um pouco, ajudando-o com suas coisas.
Naquela noite, ele dormiria em seu lar novamente. E eu provavelmente traria Jay aqui para casa, porque já havia me acostumado mal com a constante presença de Will.
Assim que fomos bem recebidos pela sua mãe e seu irmão, tratei de ajudá-los na cozinha. Sarah estava linda naquele dia, e pude ver muito mais dos filhos nela com aquele brilho no olhar do que na maioria das vezes.
Sarah correu para o quarto uma vez mais, terminando de arrumar-se, mas sobretudo, acalmar-se. Ao menos foi o que eu percebi pelo sorriso congelado em seu rosto o tempo todo, enquanto toda a tensão do corpo demonstrava o contrário. Imaginei que aquilo fosse ainda mais difícil para ela, embora confiasse no novo namorado, já que sabia do receio dos filhos. Pelo menos, o de Will, já que Caleb cozinhava como se nada estivesse acontecendo.
Caleb não era muito transparente, percebi, com curiosidade.
Will havia deslocado toda sua preocupação na comida, o que desagradou Caleb, já que ele não parecia querer opinião alguma em seu preparo. Então, assim que a campainha tocou, ainda cedo da noite, eu desloquei-me até a entrada para atender. Os dois estavam em uma missão birrenta sobre qual tempero colocar na comida e tinham as mãos ocupadas.
No entanto, surpresa a minha foi encontrar um rosto conhecido sob a luz escassa da lâmpada de fora. E aquele definitivamente não era o namorado da mãe do Will.
— Peter.
O que diabos ele resolveu fazer ali justo hoje?
As respostas premeditadas por minha mente me trouxeram um gosto amargo à minha boca.
O garoto, de cabelos cacheados e roupa escura, nem sequer preocupou-se em demonstrar a surpresa ao se deparar comigo. Usava uma roupa de sair escura, tinha os cabelos desajeitados e não carregava mochila ou pasta alguma.
A postura surpresa demorou um tanto assim antes de se tornar defensiva. — Você está morando aqui agora? — perguntou ele, mas não soube dizer se brincava ou debochava.
Estreitei os olhos.
— Se necessário for — retruquei, sem desviar o olhar dos olhos castanhos.
Peter soltou um riso pelo nariz, incomodado, ao desviar os olhos para as minhas costas por um instante. Alguns dos cachos estavam um tanto grudados na testa pelo suor, e os olhos estavam um pouco avermelhados, embora eu não pudesse ter certeza devido à luz amarelada da lâmpada.
— Estou aqui para falar com o...
— Eu sei por que você tá aqui — interrompi, frisando os lábios.
— Então por que continua na minha frente? — perguntou, começando a ficar irritado.
— Turner, quem é? — gritou Will da cozinha, fazendo com que eu inspirasse fundo para não me alterar. — É ele?
Peter pareceu perder um pouco da compostura com a voz de Will, mas não o suficiente para querer demonstrar.
Inclinei a cabeça, observando-o.
Mesmo depois de todos os motivos que eu tinha para odiar Peter, eu não conseguia fazê-lo. Era só um garoto. Um garoto muito perdido, ou ao menos, era o que todas as suas ações demonstravam.
Se ele realmente estava apaixonado por Will, embora o garoto dos olhos verdes houvesse dito o contrário, eu entendia o fato de querer seduzi-lo enquanto eu estava fora da jogada. Querendo admitir ou não, amando Will da forma como eu amava, eu provavelmente teria feito o mesmo se fosse eu no lugar do Peter. Eu não ia desperdiçar minha chance de tê-lo para mim, ainda mais vendo-o tristonho pelos cantos, da forma como eu sei que ele estava. Eu teria feito o mesmo.
Will havia me contado que tudo que houvera acontecido fora um beijo naquela festa, e o anterior quando ele se assumiu. Então, acima de tudo, eu sequer tinha motivos para ter ciúmes do garoto, e principalmente, não tinha vontade alguma de começar uma guerra com um músico universitário.
Só que naquele instante, depois de ter ouvido todas as preocupações de Will com relação àquela noite, e com relação ao namorado de sua mãe, eu só consegui enxergar em vermelho quando Peter apareceu na minha frente.
Will não iria passar por isto hoje. Não hoje. E apesar de eu entender toda a mágoa dele com relação ao Peter, já que realmente foi uma ação muito filha da puta de sua parte omitir a identidade do agressor, que ele sabia, ainda assim eu pensava que o único assunto inacabado que ele tinha era com o próprio George, e não com o músico.
Mas se ele realmente quisesse resolver o que quer que fosse com Peter, ele os resolveria em outro dia.
— Não, é alguém pedindo informação! — respondi, aumentando o tom da voz para que Will ouvisse.
Saí para fora, vendo que Peter dava dois passos para trás, antes de fechar a porta atrás de mim e voltar os olhos a ele. Cruzei os braços no peito.
— Ele quem? — perguntou, referindo-se à fala de Will, ao arquear uma das sobrancelhas. Peter suspirou, vendo que eu não responderia. — Escuta, eu não tenho nada contra você — começou ele, fazendo com que eu arqueasse as sobrancelhas. Ora, é ele que não tem nada contra mim? — Mas eu preciso falar com o Will, então saia da minha frente.
Francamente, o garoto não tinha mais nada pra fazer às oito da noite de uma sexta-feira? Compor uma música, talvez?
— Ele não pode falar agora.
Peter piscou os olhos castanhos, a expressão mudando de uma incomodada para uma irritada em questão de segundos.
— Você não pode me impedir de falar com ele! — indignou-se Peter, apontando para a porta atrás de mim.
Suspirei, revirando os olhos.
— Não é isto que estou fazendo, garoto — falei, irritado, descruzando os braços. — Eu não preciso e nem posso impedir que Will faça nada, só que hoje ele está ocupado. Eu não vou jogar mais um problema nas mãos dele — expeli, com as sobrancelhas juntas. — Principalmente este problema.
— Will é que decide isto! — Deu um passo em frente, fuzilando-me com o olhar.
— Ora, eu sei o que ele vai decidir — falei, em tom mórbido até para mim mesmo.
Foi neste instante, em que eu podia distinguir a cor marrom da íris dele do tom avermelhado no entorno, que senti o cheiro de álcool misturado ao cheiro de suor de seu corpo.
Estalei a língua, balançando a cabeça.
— Você tá bêbado — acusei, querendo mais do que nada que ele sumisse de vez. — Você tem a coragem de aparecer aqui bêbado?
— Não estou bêbado! — alterou-se, revoltado. — E olha, eu não vim tentar tirar Will de você ou algo assim, eu só...
— Que bom, porque isto não vai acontecer.
Assim que os olhos dele começaram a marejar, percebi minha postura defensiva. Expirei o ar que segurava, fechando os olhos, irritado comigo mesmo e com ele também. Não podendo mais ver seu rosto de cachorrinho abandonado, baixei o olhar. Foi aí que pude distinguir uma marca avermelhada em seu pescoço, e mais para baixo, uma arroxeada em torno de seu pulso.
Se eu começava a me sentir culpado, é claro que sim.
— Eu vim pedir desculpas, tá bom? — grunhiu ele, abrindo os braços. — Desculpas, só isto, não tem nada a ver com o beijo! Eu só... Eu preciso que ele saiba a verdade, sobre o George. — Analisei-o, vendo que o nome do bendito havia saído em tom mais baixo. — E eu preciso que ele me escute, porque...
— E ele irá — interrompi novamente, inclinando-me para que pudesse ficar na altura dos olhos castanhos. — Ele irá te escutar, Peter. Só que não hoje, e não assim. — Apontei para ele, suspirando, compadecido. — Vá embora e volte outro dia, de preferência sóbrio. — Quando percebi que ele começava a ceder, acrescentei, por fim: — Hoje é um péssimo dia para isto, para o Will. Acredite em mim.
Depois de um instante em silêncio, sem nenhum dos dois querendo ceder, uma terceira pessoa se materializou atrás de Peter. Pisquei algumas vezes, pelo susto, já que sequer o havia visto estacionar o carro ou entrar pelo portão.
— Olá — cumprimentou ele, assim que subiu os três degraus até a área em que eu estava com Peter. Ele pareceu um tanto receoso ao desviar o olhar entre mim e Peter. — Vocês não são William e Caleb, são?
O homem, em uma roupa social, tinha altura semelhante à minha, um pouco maior do que Peter ao lado. Os cabelos eram de uma cor preta, assim como o cavanhaque bem feito, e a cor dos olhos eu não pude distinguir do lado de fora. Aparentava estar na casa dos quarenta, assim como Sarah — eu acho, e estreitei os olhos para ver se alguma maldade podia ser transparecida por seu jeito.
Não encontrei nada além de nervosismo.
— Não — falei, relanceando Peter, que parecia perdido entre nós. — Eu sou Richard Turner — falei, estendendo a mão para cumprimentá-lo —, o namorado de Will. — Analisei-o atentamente, em busca de algum preconceito gritante em seu olhar, mas de novo, nada disto havia ali.
— Ah, sim — disse ele, sorrindo, ao cumprimentar-me de volta. — Sarah disse que você estaria aqui. Prazer, eu sou o Theo. Theodore Saunders.
— Muito prazer. — Cocei a barba, relanceando Peter mais uma vez. — E este já estava de saída, não é mesmo, Peter?
— Certo — resmungou ele, cumprimentando Theo. — Prazer, senhor — disse, respeitoso. — Espero que se dê bem com a família Jones.
Demorei um tempo para raciocinar que Peter é filho da melhor amiga de Sarah, então ele obviamente deve ter ouvido o nome de Theodore por lá. Mais um motivo para eu sentir certo desgosto em relação a Peter, e mais um motivo que eu não conseguia sentir.
Ele não tinha motivos pelos quais não se dar bem com Will, e se Will estava disposto a deixar para trás o problemão que envolvia Peter e George, eu também estaria.
— Obrigado — respondeu ele, um tanto confuso ao ver Peter dar as costas.
— Você pode ir entrando — falei, distraído, com os olhos em Peter. — Ei! — chamei, vendo que ele virava pra trás com certa lentidão. Lentidão de quem havia bebido. — Você não está dirigindo, né?
— Não. — Desviou o olhar para um dos carros estacionados na rua. — Eu vim de carona, e ele ficou me esperando.
— Você não está falando de George, está? — perguntei, tentando enxergar algo no carro escuro, mas não pude.
Peter não me respondeu, apenas soltou um som pelo nariz, sem sorrir, e apressou-se em sair pelo portão desta vez.
— Este garoto... — resmunguei, sem saber se ia atrás dele ou se acompanhava Theo para dentro, já que ele houvera ficado com a atenção em nós dois.
Suspirei, por fim, com um sorriso forçado, antes de dirigir-me à porta e abri-la com agilidade.
— Só... — comecei, quando ele fez menção em entrar. Parou, com os olhos confusos em mim, enquanto eu pensava no que dizer. — Você é uma pessoa decente, certo?
Theodore arqueou as sobrancelhas grossas, surpreso pela pergunta repentina, mas logo deixou-se rir de forma genuína.
— Eu suponho que sim — respondeu, e percebi que havia sido honesto. — Eu troquei de roupa cinco vezes, e me atrasei porque estava pesquisando na internet "o que não se deve falar" quando for conhecer a família de sua companheira. — Sorri por isto, refletindo os olhos azulados do outro. — Não espalhe — acrescentou, rindo —, mas eu também fiquei mais tempo do que deveria no escuro do meu carro tomando coragem pra vir aqui. Digamos que Sarah conseguiu me passar seu medo de que eu conhecesse os filhos. — Riu, erguendo os ombros, sem graça.
— Bom — comecei, permitindo com que ele entrasse de uma vez —, devo dizer que eles não são nada assustadores. Caso isto ajude.
Enquanto percorríamos o curto corredor em direção à cozinha, já dava para ouvir a discussão emburrada entre Will e Caleb, ainda sobre a comida, e o cheiro gostoso desta. Só podiam estar realmente em uma discussão acirrada de irmãos para não perceber o tempo que demorei lá fora.
Coloquei uma mão no braço de Theodore, parando-o por um instante, antes que adentrássemos de vez na cozinha.
— Não o chame de William. Nunca — acrescentei, tentando passar a gravidade da situação e conseguindo, pela velocidade com que os olhos azuis alargaram-se, mesmo que minimamente. — Use o apelido.
— Anotado.
Theodore sorriu agradecido, e logo ambos adentramos em direção à mais uma volta que a vida desta família daria. E eu gostava de pensar que eu já fazia parte dela, esperando que o mais velho também fizesse.
Não é como se eu pudesse saber, em apenas um primeiro instante, que tipo de pessoa o homem era. Não sabia se era a pessoa certa para Sarah, mas também, eu nada tinha que ver com esta parte da história. Também não sabia se era uma pessoa decente, assim como ele afirmou que pensava ser, ou um homem com princípios. Mas o que eu tinha certeza é que ele merecia uma chance.
Era por isto que eu estava ali, para fornecer um pouco de assistência. Talvez eu realmente já formasse parte da família, mas eu sabia que o motivo principal para que Sarah houvesse me convidado era para que eu pudesse apoiar Will naquele momento. Ela sabia, e eu sabia, o quanto aquela mudança o afetava. Mas acho que nós dois também sabíamos que aquele impasse não duraria muito tempo.
Assim que jantávamos, lado a lado, enrosquei meus dedos nos de Will, percebendo que as mãos se retorciam em seu colo e sentindo, então, que também estavam suando. E quando os olhos verdes ergueram para mim, ao passo que ele também apertava minha mão como suporte, tive a certeza de que eu estava onde deveria estar.
Não era loucura que havia naqueles olhos verdes agradecidos, era um esforço excessivo em tentar se adaptar ao mundo à sua volta. Não há nada maluco nisto, e muito menos em aceitar um pouco de auxílio externo.
Não é que todos precisamos de terapia psicológica, é que todo mundo precisa de um amparo, seja qual for e proveniente de onde for. E eu esperava que, por enquanto, aquela junção de mãos fosse tão eficiente quanto horas e horas dentro de uma sala branca.
E eu sabia que era.
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