Made of Fire
21 XIX - Descobri o paraíso e ele pega fogo
Notas iniciais
TURNER
Os olhos verdes, esbugalhados por natureza, pareceram impossivelmente alargar-se ainda mais. O rubor, antes concentrado em suas bochechas, espalhou-se por todas as feições do rosto jovem à medida que Will dava um passo para trás.
Parece que conversar não é uma ideia muito atraente para ele.
— Conversar sobre o quê? — perguntou, visivelmente nervoso.
Suspirei ao encará-lo, as mãos ainda nos quadris.
Eu gostaria muito de evitar essa conversa para sempre. Gostaria muito de poder apenas estar com Will sem me preocupar com o futuro que nos espera. Gostaria tanto de não me preocupar com o que "estar com Will" significa. Gostaria de poder fingir não perceber que nossa situação vai causar um impacto imenso em nossas vidas.
No entanto, se tem uma coisa que aprendi é a enfrentar os problemas. Não sou dos que fogem.
— Sobre nós — respondi finalmente, olhando-o nos olhos. — Sobre nossa situação.
Will fez uma careta e virou-me as costas rapidamente, caminhando em direção à sala como quem não quer nada. Revirei os olhos antes de segui-lo.
— Que situação? — perguntou ele ao caminhar, olhando para os lados. — Sua sala é muito bonita, cheia de... móveis. Nossa, aqui dentro está quente, você não acha?
Levou a mão à camiseta larga e balançou-a, olhando para todos os lados da sala com exceção ao lado em que eu me encontrava. Ele estava tão vermelho que quase acreditei que realmente estava quente ali dentro. Aproximei-me o suficiente para segurá-lo pelos ombros e fazê-lo olhar em meus olhos ao erguer seu queixo.
— Will, não adianta se esquivar. Não dá pra evitar isso para sempre — falei em tom carinhoso, observando os olhos expressivos fecharem-se e os ombros caírem. Abriu-os novamente ao me olhar com súplica.
— Por favor, por favor... — murmurou ao balançar a cabeça negativamente. — Só não mencione as coisas idiotas que eu te disse de madrugada! Estou implorando! — resmungou, a voz em um tom mais alto com uma careta de agonia.
Ah, então ele lembrava!
Encarei-o por um instante antes de gargalhar. Pelas frestas de meus olhos pude ver Will fechar a cara, emburrado. Tentei puxá-lo pelo braço quando se afastou, mas ele desvencilhou-se de mim e sentou no sofá com os braços cruzados.
— Desculpa — pedi, assim que consegui segurar o riso. — Não mencionarei o que você disse. Aliás, nem lembro se você havia dito alguma coisa — acrescentei em tom falsamente confuso.
Não é como se fosse possível esquecer alguma das palavras. Will havia deixado claro, o que trouxe um imenso alívio para mim, que sentia o mesmo que eu. Estava tão confuso quanto eu e ao mesmo tempo tão obstinado.
Sentei ao seu lado, observando, de canto, minhas roupas em seu corpo esguio. Havia escolhido as menores roupas que haviam, mas pelo visto não adiantou muito. As roupas eram visivelmente maiores do que as suas próprias. O cadarço da calça cinza de moletom, semelhante à minha, parecia ser a única coisa que mantinha a mesma presa à seu corpo. Subi os olhos para a camiseta azul que ficava larga em seu corpo e soltei um suspiro involuntário.
Tentador.
No rosto de Will encontrava-se um bico emburrado. Sorri levemente ao passar um braço por detrás de suas costas e puxá-lo em minha direção com facilidade. Beijei seus lábios antes que ele pudesse reagir por tê-lo pego desprevenido. Seus lábios macios, em junção com as mãos agarradas em meus ombros, fizeram-me esquecer por alguns instantes o motivo de estarmos ali.
Logo afastei nossos lábios, estreitando o olhar para seu sorriso bonito.
— Olha só o que você fez — repreendi. — Perdi minha linha de raciocínio! Foi de propósito? — perguntei, desconfiado.
Foi a vez de Will de rir.
— Não, mas agora você me deu a ideia — disse, levando os lábios para meu pescoço e roçando-os de leve ali.
Fechei os olhos, tentando juntar o que me restava de auto controle para afastá-lo. Com muito esforço, consegui, deparando-me com o sorriso matreiro de Will. Ri da expressão que já tornava-se parte dos meus dias. Passei os dedos por sua bochecha devagar, observando a imensidão verde.
— Will... — comecei devagar, lembrando-me de quando ele havia dito que eu falava muito seu nome.
Era realmente a palavra que eu mais usava nos últimos meses.
— Sim? — perguntou ele, sorrindo ao mexer na gola de minha camiseta.
Sorri, incapaz de controlar.
— Pare de tentar me distrair — falei ao observar que os dedos passaram da gola da camiseta para meu pescoço. Will mordeu o lábio, balançando a cabeça negativamente.
— É a segunda vez que te vejo sem as roupas sociais — murmurou ele, sem deixar de sorrir.
— Isso é ruim? — perguntei, com curiosidade.
— Nem um pouco — respondeu baixinho, os olhos hipnotizantes.
Lembrei-me então de suas investidas durante todos esses meses. Achei que era normal um jovem como ele se deixar levar pelas tentações do proibido. Muitos deixam-se levar. O problema é que eu também o fiz, encantado demais pelo garoto dos olhos verdes.
— Will — comecei novamente, vendo seu rosto ficar tenso com a determinação com que pronunciei seu nome —, o que estamos fazendo?
Will manteve-se quieto, já não mais sorria. Estava nervoso.
— Você sabe que não podemos continuar com isto para sempre, não sabe? — perguntei, vendo-o ficar mais tenso ainda. Os olhos confusos tornaram-se olhos chateados.
Pude vê-lo prender a respiração ao morder os lábios com uma expressão derrotada. Franzi o cenho ao observá-lo.
— Eu sei — respondeu com a voz falha ao tentar desvencilhar-me de mim sem sucesso. — Não precisamos continuar mais nada se você não quiser, Turner — falou, tentando parecer honesto.
Estreitei os olhos em sua direção, puxando seu corpo junto ao meu com mais força.
— Eu quis dizer — comecei novamente, sério — que não podemos continuar nos escondendo para sempre. Você entende, não é? — perguntei ao observá-lo.
Percebi pela confusão em seus olhos a resposta que se passava em sua cabeça: Não.
— Sim — respondeu, incerto, ao franzir o cenho.
— Will... — Bufei. — Eu não quero te beijar de vez em quando em banheiros, escondido. Eu quero te beijar sempre que quiser onde diabos eu quiser — completei, não acreditando que ele havia me obrigado a dizer as palavras em voz alta.
Abriu a boca, chocado.
— Verdade? — perguntou, em um fiapo de voz.
Sustentei seu olhar expressivo por um tempo antes de sorrir levemente.
— Verdade — respondi baixinho, vendo um sorriso espalhar-se por seu rosto.
Suspirei, percebendo que a agitação em meu estômago provinha do êxtase que Will causava em mim. Meu coração batia de forma acelerada em resposta ao sorriso que iluminava seu rosto.
— Eu gosto muito, mas muito de você — admiti, com um sorriso.
Pude vê-lo piscar algumas vezes com surpresa, a cor avermelhada voltando violentamente para as bochechas.
— Também gosto de você, Turner — sussurrou ele, os olhos esbugalhados.
Eu não entendia o porquê de Will não me chamar pelo nome. Nunca o havia feito. Embora meu sobrenome seja a origem do reconhecimento que tenho por minha cidade, não costumo ser chamado assim, já que não sou o único Turner que se encontra por lá.
No entanto, é a única forma com que Will dirige-se à mim. E eu gosto disto. É especial, assim como nossa situação. Assim como ele.
Sorri, sentindo meu peito inflar.
— Devíamos fazer algo com relação à isto, então — falei, antes de ficar sério novamente. — Temos um problemão. Nossa situação não é nem um pouco boa, Will. Você está no meu apartamento, usando minhas roupas e... — falei, fungando seu pescoço antes voltar a encará-lo — cheirando a sabonete do banho que tomou aqui. Você não acha que isso é um tanto estranho, visto que sou seu professor?
Will manteve-se em silêncio antes de assentir mecanicamente com os olhos atentos.
— O que você acha que devemos fazer à respeito? — perguntei, quando percebi que ele não responderia.
— Eu... Bom, eu... — começou ele após perceber que eu esperava uma resposta. — Eu acho que primeiramente, eu devia parar de beber. Assim não vou acabar em seu apartamento, usando suas roupas e cheirando a sabonete — falou, rindo nervoso.
Ri também, apertando-o mais contra mim. Apenas então pude perceber que ainda mantinha seu corpo junto ao meu no sofá.
— Mas eu quero que você acabe em meu apartamento, usando minhas roupas e cheirando a sabonete mais vezes — contei, sorrindo.
Will, como se levasse um choque, retesou o corpo e ergueu o rosto com brusquidão. Observou-me, atento, como se procurasse indícios de que eu mentia.
— É mesmo? — perguntou de forma tão inocente que mordi os lábios para não morder ele.
Ri, pensando que às vezes Will nem parecia o garoto que me assediava constantemente pelos corredores da universidade. Era um tanto quanto irônico. Assenti devagar, vendo-o imitar meus movimentos enquanto digeria minhas palavras.
— Eu também quero — murmurou devagar, pensativo.
Então seus olhos brilharam como os de uma criança quando ela tem alguma ideia tão brilhante quanto pintar as paredes com caneta permanente. Will mordeu os lábios de forma nem um pouco acatada. Baixou os olhos para meu peito e desceu a mão por este, devagar. Inspirei fundo, surpreso pelo ataque inusitado do garoto dos cabelos bagunçados.
Eu já devia estar acostumado, afinal.
— Acho que vou gostar disso — disse devagar, ainda sem erguer os olhos para meu rosto.
Incapaz de fazer algum movimento, vidrei meu olhar nos dedos intrometidos que se enfiavam por debaixo de minha camiseta, roçando na linha de pêlos abaixo de meu umbigo.
Deixei minha boca cair, tamanha minha incredulidade.
Devia afastá-lo? Conseguiria afastá-lo?
Antes que eu pudesse pensar em uma resposta para mim mesmo, Will encarou-me com um misto de curiosidade e hesitação. O rosto corado contrastava com os olhos atrevidos. Era como se estivesse em guerra internamente, assim como eu. Franziu o cenho.
— Turner — murmurou, hesitando um pouco antes de continuar —, eu não sei bem como...
Demorei um tempo para perceber que Will não pretendia terminar a frase. Pisquei algumas vezes. Não conseguia pensar direito com sua mão em meu abdômen. Will já não a movia, mas não a retirara dali tampouco.
— Eu também não — murmurei tardiamente, levando a mão ao seu rosto.
A atmosfera pareceu mudar ao nosso redor, quase como se o tempo parasse. Subitamente imaginei que eu nunca pensaria encontrar-me aqui com um aluno nos braços. Com outro homem. Nunca imaginei que o menino dos olhos atrevidos conseguiria entrar em minha pele da forma como o faz. Não cogitei nem por um segundo, no início do semestre, que Will realmente conseguiria seduzir-me.
Engoli em seco.
Se eu conseguir ignorar a forma sensual com a qual Will está vestido, talvez eu consiga passar por essa sem arrastá-lo para meu quarto desprovido da intenção de sair.
— Por que essa cara? — A voz invadiu meus ouvidos e foquei os olhos em seu rosto, que estampava diversão.
— Que cara? — perguntei, confuso.
Will ergueu uma das sobrancelhas.
— A cara de professor — disse, rindo antes de balançar a cabeça. — Não é a cara de terrorista, essa você usa só quando está bravo — explicou, como se fizesse sentido. — Estou falando de quando você está muito sério, concentrado em alguma coisa — completou, os olhos jocosos. — Talvez em não atirar uma cadeira na cabeça de ninguém.
Arqueei a sobrancelha, ultrajado, mas me perdi, mais uma vez, em sua boca sensual.
Estou concentrado emcontinuar mantendo as roupas em seu corpo.
Fechei os olhos, sorrindo.
— Eu não faço cara de terrorista, Will — desconversei, sem querer explicar o porquê de tanta concentração.
— Ah, faz sim! — Riu ele, empurrando-me de leve. — É mais ou menos assim — falou, o sorriso desvanecendo-se aos poucos.
Will franziu o cenho quase com violência e estreitou os olhos. A boca se tornou uma linha fina enquanto ele inspirava profunda e teatralmente e deixava escapar um suspiro pesado. Bufou uma, duas vezes. Inflou as narinas, sem sequer desviar os olhos de mim, focado ao manter a expressão congelada.
Arqueei as sobrancelhas ao observar em seu rosto, o que deveria ser, minha cara de terrorista. Deixei escapar uma gargalhada que reverberou pelo apartamento em segundos. Will, incapaz de manter a expressão zangada em seu rosto por muito tempo, permitiu-se rir também. Balancei a cabeça negativamente, apoiando a cabeça em seu ombro com o intuito de tentar parar de rir.
Quando ergui o rosto novamente, já controlado, deparei-me com a curiosidade estampada em Will. Os cílios mais claros que o normal com o sol que vinha da varanda, as sardas visíveis. Sorria, os olhos brilhantes ao observar-me. Era como se ele houvesse encontrado alguma coisa que nunca vira na vida, que o fascinasse. Era como ele fosse do século dezenove e houvesse encontrado um celular.
Franziu as sobrancelhas de leve, piscando algumas vezes ao desviar o olhar. Soltou um riso nervoso, o que tem se tornado frequente. Inclinei a cabeça, tentando decifrá-lo.
Era curioso que Will não tivesse nem um pingo de vergonha ao passar as mãos por meu corpo ou deixar escapar palavras nem um pouco inocentes. No entanto, quando se tratava de conversar sobre nosso relacionamento, sobre dizer e demonstrar o que sente ou sustentar meu olhar apaixonado, ele acanhava-se de forma rápida.
Will deslizou a mão esquecida em meu abdômen quase que involuntariamente para a lateral deste, apertando de leve ao enfiar o rosto em meu pescoço. Não moveu-se por um tempo.
— Você ainda vai me beijar inteiro? — perguntou ele, a voz abafada por enfiar o rosto mais ainda em meu pescoço ao perguntar.
Eu podia sentir sua respiração na minha pele, seu coração batendo forte contra meu peito e o calor que seu corpo trocava com o meu. Enfiei o nariz em seus cabelos emaranhados, sentindo minha respiração começar a acelerar como a dele.
— Vou fazer o que você quiser, Will — respondi, percebendo que minha voz já ficara rouca.
A concentração esvaiu-se e meu estoque de autocontrole não era o suficiente. Eu já não podia ignorar as roupas largas no corpo do meu aluno e o quanto isso era atraente. Não quando ele respirava contra minha pele, grudado em mim e falando sobre beijar ele inteiro, completamente.
Puxei seu rosto em direção ao meu e beijei sua boca com vontade, sem parar para respirar. Abri seus lábios com minha língua e juntei-a com a sua, segurando seu rosto de forma com que não me escapasse.
Não o permitiria afastar-se sequer um centímetro de mim.
WILL
Turner levou a mão esquerda à minha perna oposta, conseguindo colocá-la com agilidade ao contorno de seus quadris. De alguma forma, em segundos, eu estava em seu colo, com ambas as pernas envoltas no meu professor, que permanecia sentado. Ele imediatamente já tinha as mãos envoltas em minha cintura e minha nuca.
Apenas quando ele separou nossos lábios por um instante, permiti-me abrir a boca.
— A conversa acabou? — perguntei sem fôlego, podendo literalmente ouvir o sangue correr com velocidade em meu corpo.
Turner assentiu devagar enquanto eu pensava que era bem estranho estar sentado desta forma no colo de alguém. Bem estranho mesmo. Eu mesmo já havia feito isso com a Amy. Estar do outro lado é um tanto quanto aterrador. No entanto, minha vergonha pela situação era ofuscada pela sensação boa que me causava.
Era como se nossos corpos se encaixassem.
— E o que ficou decidido? — perguntei com a voz falha na última palavra por causa da mão grande que apertava-me as costas.
Turner desceu o olhar devagar com o rosto tenso. Seu peito subia e descia com velocidade enquanto ele parecia martelar sobre alguma coisa. Senti o intuito de me encolher, porque não demoraria muito para que eu me animasse demais com suas ações. Turner ergueu os olhos em minha direção novamente e estava com o rosto indecifrável quando respondeu-me.
— Ficou decidido que eu vou te beijar quantas vezes eu quiser, onde diabos eu quiser — contou, com a voz rouca, antes de aproximar-se o suficiente para sussurrar: — Tudo bem para você?
Se antes eu já estava trêmulo como um virgem, agora todo meu corpo amolecia com o calor que invadiu-o de forma violenta. Incapaz de abrir a boca para responder, limitei-me a assentir com a cabeça.
Pude sentir todo o sangue de meu corpo subir ao meu rosto ao observar os olhos cinzentos que tanto amo escurecerem com desejo. Ao mesmo tempo, um calafrio subiu-me pela coluna, onde agora Turner subia uma das suas mãos, embaixo de minha camiseta. Quando achei que não conseguiria mais respirar, Turner juntou os lábios aos meus ao murmurar algo que não pude entender. Gemi em resposta, arqueando o corpo em sua direção.
Se parasse para pensar, a cena era bem constrangedora.
Seus braços estreitaram-se em minha volta quando sua língua encontrou-se com a minha. Minhas mãos, que nem percebi onde estavam, apertaram os cabelos curtos de Turner e envolveram seu pescoço de forma mais apertada.
Eu definitivamente não iria parar para pensar.
Nossas línguas continuavam a dançar, cada vez com mais urgência. Meu corpo passou a esquentar cada vez mais, fazendo-me cogitar a ideia de estar com febre. Abri os olhos levemente, encontrando os detalhes mais lindos do rosto de meu professor, enquanto este tinha os olhos fechados.
Turner é meu paraíso.
Embora o calor que me fazia sentir fez-me cogitar se não estávamos no lar do anjo caído.
Queria poder ficar observando-o, mas meus olhos fecharam-se novamente, sem minha permissão. Turner apertava minha cintura com força, enquanto descia os beijos molhados em direção ao meu pescoço. Sua barba por fazer, ao raspar em mim, fez subir um arrepio dos meus pés até o último fio de cabelo de minha cabeça.
À esta altura do campeonato, já não havia forma de esconder minha animação com a situação. A animação que, vergonhosamente, espalhava-se por todo o meu corpo. Todo ele.
Então, como se o mundo voltasse a girar novamente, Turner afastou o rosto para olhar-me nos olhos. Fiz o mesmo, com o cenho franzido. Seu rosto estava mortalmente sério enquanto me olhava como uma reprimenda.
— Will, por favor — pediu, com a voz rouca. — Para de mover-se em cima de mim.
Apenas quando ele falou, percebi que eu tentava a todo minuto juntar-me cada vez mais à ele. Senti meu rosto queimar enquanto pensava em que lugar do apartamento eu cavaria um buraco negro para me enfiar.
— Bom — comecei, com a voz também rouca —, eu não tenho culpa se você me colocou no seu colo. Quero dizer, você tem noção de como isso é estranho? — perguntei, tentando parecer convencível.
As comissuras de seus lábios ergueram-se levemente, embora os olhos sedentos ainda estivessem ali.
— Se continuar com isto, tenho medo de ter que levar-lhe para aquele quarto — continuou ele, indicando a porta de seu quarto com a cabeça — e não deixá-lo sair mais — falou, voltando os olhos para minha boca.
Senti meus olhos esbugalharem-se com a honestidade de suas palavras. Sentia a adrenalina voltar ao meu corpo com força. Porém, antes que eu respondesse, Turner trouxe seus lábios novamente aos meus, de forma brusca. Instintivamente, agarrei-me à ele com força também. Abri a boca, sentindo sua língua novamente na minha.
Turner tinha os lábios em meu pescoço novamente quando, sem tirá-los dali, pronunciou em tom de aviso: — Will — advertiu, como um grunhido, apertando-me com força.
Abri os olhos bruscamente, parando de mexer o quadril.
Quis gritar com frustação: Eu não tenho controle sobre isto!
Ele ergueu a cabeça, olhando-me nos olhos com um ar divertido.
— Will, eu não vou conseguir parar se você continuar se movendo em mim. Entende? — perguntou, apertando-me mais um pouco. Gemi em resposta, ouvindo-o fazer o mesmo.
— Se você continuar me agarrando deste jeito, eu é que não vou conseguir parar de me mover — resmunguei, emburrado.
Então, para minha surpresa, um sorriso alargou-se no rosto bonito. Engoli em seco. Não sabia muito bem como lidar com os sorrisos maliciosos de Turner. Geralmente era eu quem ficava na missão de seduzir meu professor. Porém, dando-me conta de que estava no colo de um homem, pude perceber que várias missões haviam sido trocadas.
— Então parece que temos um dilema, não? — perguntou, a voz rouca fazendo-me vibrar.
Antes que eu pudesse responder novamente, Turner ergueu parcialmente o corpo para jogar-me com brusquidão no sofá. Assim que caí deitado, sentindo o coração praticamente querer sair pela boca, ele deitou-se em cima de mim. Juntou nossas bocas novamente, levando uma das mãos aos meus cabelos e outra à minha cintura.
Então, quando eu achei que fosse morrer sem ar, ele passou a mover-se em cima de mim da forma como me movia em cima dele. Abri os olhos, assustado, encontrando seu olhar em combinação com o sorriso matreiro. Turner estava apoiado em ambos os braços espichados dos lados de minha cabeça. Desviei os olhos arregalados para baixo, onde seu corpo atritava-se com o meu. O volume em sua calça estava tão visível quanto o que apertava na minha. Voltei os olhos ao seu rosto, que aproximava-se do meu novamente.
Turner levou os lábios ao meu ouvido.
— Dilema resolvido — sussurrou, logo mordendo o lóbulo de minha orelha.
Meu bom deus, eu estou perdido!
Depois disto, os movimentos tornaram-se um pouco confusos para mim. O cheiro característico de Turner deixava-me cada vez mais extasiado. Eu já não reprimia os sons roucos que escapavam de minha garganta. Turner não estava ajudando tampouco. Podia ouvir seus resmungos em resposta aos meus.
Estávamos tão envolvidos naquilo que só voltei à realidade quando a porta bateu. Ambos eu e Turner paramos imediatamente como se levássemos um choque. Então, com muito receio, viramos o rosto em direção à porta, onde uma figura jazia com as mãos na cintura.
Jay nos encarava com uma das sobrancelhas arqueada e tentava, ao que parecia — com muito esforço — manter uma cara séria no rosto. Virei novamente o rosto à Turner, que não havia movido um músculo, como eu.
Quis jogar-me pela janela quando percebi a posição em que estávamos.
Turner estava em cima de mim, enquanto eu o envolvia com ambas as pernas em seu quadril. Uma de suas mãos estava em meu cabelo – que devia estar igual ninho de passarinho – e a outra estava em minha cintura. O cadarço da calça de moletom que eu usava estava aberto, deixando-a mais frouxa do que já era. Não fazia muita diferença, entretanto, já que Turner estava praticamente grudado em mim. Sua camiseta já não estava à vista e a minha encontrava-se completamente embolada perto de meu pescoço, deixando todo meu abdômen a amostra.
Levantei num pulo, tentando inutilmente ajeitar-me.
TURNER
Will encontrava-se completamente descomposto abaixo de mim, os olhos verdes arregalados focados em Jay. Os poucos pêlos claros que haviam em seu peito tornavam-se um pouco mais densos na região abaixo do umbigo. Tinha o corpo bonito demais para alguém que parece ser tão desprovido de peso. Os lábios inchados deixavam-no ainda mais tentador do que apenas os cabelos desorganizados — bem mais do que o normal.
A marca que eu havia deixado em seu pescoço estava mais chamativa agora. Havia sido um impulso marcá-lo, mas eu não estava raciocinando direito.
Quando eu raciocino direito em relação à Will?
Ele levantou em um pulo, trazendo-me junto dele com a ação. Olhei para a região que se encontrava no meio de minhas pernas e a tapei com minha camiseta que estava jogada no sofá. Will também tentava cobrir-se ao máximo, apesar de Jay estar virado de costas para nós.
Suspirei, encarando o garoto dos meus sonhos. Eu estava um pouco chocado que havíamos quase nos engolido no sofá da sala. Não saberia como continuar, no fim das contas. Apesar de meu melhor amigo viver de casos com homens, eu não sabia nada sobre isto além do óbvio. Nunca tive que saber. E agora, não fazia ideia de como proceder com Will. Percebi pelo seu rosto que ele estava tão assustado quanto eu.
Segurei sua mão e lhe sorri, vendo seus ombros caírem, mais relaxado.
Jay pôs-se a rir, ainda de costas. Mais tarde eu descobriria que esse foi um dos melhores momentos da vida de Jay, sem excluir a vez em que o modelo Tyrese havia pagado uma bebida para ele. Palavras de Jay. Saber que eu fazia parte do clube do arco-íris ou algo assim o divertia muito. Limitei-me a revirar os olhos.
Levei Will para casa após ele receber uma chamada nada convidativa de sua mãe. Eu já sabia como ela se parecia graças à foto de seu celular. Will virou-se para sair do carro depois de um longo silêncio constrangedor, mas peguei-o pelo braço.
— Que foi? — perguntou, olhando ao redor antes de aproximar-se, como se tratasse de um segredo.
Respirei fundo e cocei a barba ao pensar.
— Will, eu... — Pigarreei, desconfortável com o que estava prestes a falar.
Toda a situação que envolvia meu aluno, festas e álcool acabou deixando-me pensativo e, sobretudo, nervoso. Will franziu o cenho, observando-me com atenção.
Não importava que eu já o houvesse pedido, precisava deixar claro mais uma vez.
— Não quero que beije mais ninguém — confessei, vendo sua boca abrir ao passo que ele soltava um murmúrio.
Sorriu depois de um tempo antes de inclinar-se em minha direção e deixar um selinho em meus lábios, assim como na segunda-feira. Afastou-se levemente com um sorriso.
— Eu não quero beijar ninguém além de você, Turner — falou em um sussurro, antes de soltar outro riso nervoso.
Afastou-se antes que eu pudesse dizer alguma coisa e saiu do carro, fechando a porta logo em seguida. Piscou um dos olhos verdes antes de correr em direção à casa simples, visto que começava a garoar.
Inspirei fundo antes de dirigir de volta para casa. Mantive-me alerta durante todo o percurso e durante o resto do dia. Não conseguia deixar de pensar que nunca havia sentido-me tão leve.
Fazia tempos em que eu não voltava para casa com um sorriso no rosto. Não me sobrava opção além de agarrar a sensação com gana. Eu sorriria. Eu sorriria como um reflexo dos lábios curvados do garoto dos olhos verdes. Como um reflexo da imagem que eu enxergava mesmo ao fechar os olhos.
O rosto de Will.
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