Made of Fire
22 EXTRA - Especial Ano Novo
Notas iniciais
Cheguei em casa após passar no mercado e comprar algumas coisas para que eu pudesse comer durante a noite. O céu não demoraria a escurecer, percebi ao observar a janela da pequena cozinha antes de largar as compras na mesa. Acendi as luzes e dei uma olhada pela casa organizada. O quarto da mamãe. O quarto do meu irmão. Ninguém.
Suspirei, aliviado, antes de voltar à cozinha.
Não que eu não gostasse da minha família, pelo contrário. Amava os dois de coração, assim como a família japonesa ao lado, mas era bom de vez em quando ficar sozinho e poder cozinhar. Dirigi os olhos para as compras com um sorriso antes de tirá-las das sacolas.
A partir disso, comecei a brincadeira. Massa, queijo, tomate, molho, e temperos faziam parte do meu malabarismo. Liguei o rádio antes de colocar a panela com água no fogo. Cortei cebola, tomate, pimentão e o resto do que consegui trazer do mercado.
Usei o dinheiro do mês, mas ninguém se importaria quando chegasse e se deparasse com o preparo que consegui fazer.
É, eu sou incrível assim.
Quando estava tudo pronto, o cheiro infiltrando-se em cada canto da casa, relanceei o relógio. Minha mãe chegaria bem mais tarde e eu não sabia que horas meu irmão chegaria. Suspirei. Talvez fosse bem mais educado de minha parte esperar, mas não consegui. Servi-me da receita de massa ao molho que achei na internet e deliciei-me ao assistir televisão.
Eu realmente sou incrível!
Minha atenção foi desviada quando a porta se abriu, dando espaço ao meu irmão com um sorriso de orelha a orelha. Escorou-se na porta, fechando os olhos antes de soltar um longo e perturbador suspiro. Franzi o cenho ao observá-lo. Os olhos verdes deste fizeram-se visíveis novamente ao passo que ele mordia o lábio inferior, o sorriso ainda teimando em aparecer em seus lábios. Revirei os olhos.
Babaca apaixonado, com certeza.
Voltei os olhos à televisão, divertindo-me ao observar o Jackie Chan fazer o seu tipo de malabarismo com especialidade. Muito interessante de observar, eu diria que ele consegue fazer mágica com sua arte. E eu adoro quem faz mágica com arte. Eu adoro arte.
— Você fez a janta? — A voz extasiada desviou minha atenção novamente, mas não tirei os olhos do chinês.
— Claro — murmurei, concentrado.
— Parece bom!
Virei bruscamente o rosto em sua direção e estreitei os olhos. Will sustentou meu olhar com o cenho franzido, confuso, ao erguer os olhos do prato que havia pego. Balancei a cabeça negativamente.
— Não parece bom, está bom — resmunguei, desgostoso. — Está perfeito!
A risada dele invadiu o cômodo antes de dirigir-se à mim.
— Eu aposto que sim — disse ele, sincero.
Caminhou em minha direção com o prato nas mãos e um sorriso no rosto. Locomovi-me no sofá para que ele pudesse sentar ao meu lado, voltando os olhos à televisão. Ficamos em silêncio por um tempo. Assim como eu, Will serviu-se novamente, espantado pela quantidade de comida em meu prato.
— Fui eu que fiz — resmunguei, obtendo um sorriso e um aceno dele.
Assistimos mais um filme que passava em um dos canais, em silêncio. Eu gostava do silêncio confortável que havia entre Will e eu. Não nos obrigávamos a conversar, se não quiséssemos. Não tínhamos muito assunto tampouco, devido à diferença de idade. Oito anos não é muito tempo, mas quando se tem em um lado, um adulto e no outro um pré-adolescente, a diferença se torna maior.
Girei o rosto para encarar Will. Estava concentrado no filme, mas sua mão segurava o celular como se tivesse medo de perdê-lo. Ele tinha os lábios ainda avermelhados e os cabelos loiros bagunçados. Com certeza havia alguma mulher envolvida, esperançosamente a Laurel, já que parece ser a única amiga decente que ele tem. Kaori não conta, já que é praticamente nossa irmã.
Eu sei que Will está apaixonado já faz um tempo. É um tanto quanto óbvio de observar, embora eu tenha quase certeza que nossa mãe não havia percebido. Porém, como ele não fala nada há semanas, devia haver algum motivo para isso. Talvez estivesse apaixonado por alguém que não deve. Talvez ele não quisesse nos contar por medo que acontecesse o mesmo que aconteceu com sua última namorada. Suspirei pesadamente.
Will pode ser o melhor irmão que alguém pode ter, mas ele tem sérios problemas ao se relacionar com outras pessoas além dos próprios amigos.
Francamente, pensei ao me levantar, segurando o riso.
Lavei a louça, escovei os dentes e deitei na cama, observando a constelação em minhas paredes e teto. Talvez esses desenhos fossem o motivo de eu ter tanto sono. Pensando que a última coisa que eu queria era ir ao colégio amanhã, peguei no sono rapidamente.
*
— Acorda, menino! — ouvi a voz de minha mãe ao mesmo tempo que ela me sacudia na cama. Resmunguei alto. — Caleb, já é meio-dia! Levanta logo que eu tenho que trabalhar!
Levantei muito contra a minha vontade, chutando tudo que via pela frente.
— Já vou! — resmunguei, emburrado.
Vesti o uniforme ridículo da escola rapidamente, sentindo que meu dia só pioraria. Joguei meus cadernos na mochila e corri para a cozinha, servindo-me da janta que eu havia feito no dia anterior. Sempre fazia comida a mais por este motivo. Minha mãe, com os cabelos escuros e tomados por fios brancos presos em um coque, vestido florido no corpo magro e uma bolsa no ombro, apenas me olhou por cima do ombro com pressa.
Engoli a comida rapidamente antes de sair apressado com ela, trancando o portão com a minha chave. Às vezes, mamãe conseguia vir almoçar em casa antes de voltar a trabalhar e nesses dias, ela fazia questão de me levar ao colégio, mesmo que eu chegasse antes do meu horário. Aliás, acho que depois de tanto tempo fazendo essa rotina, ela até já havia esquecido que nossos horários não são os mesmos.
Deu-me um beijo de despedida assim que cheguei ao portão do colégio do bairro, mas puxei-a para um abraço antes que se fosse. Era fácil esquecer que tudo que ela fazia era por mim e por Will. Era fácil esquecer o amor que transbordava dela só de nos olhar. Então, quando eu me dava conta novamente, eu gostava de abraçar.
— Ah, querido! — disse ela, segurando meu rosto com carinho quando nos afastamos. — Obrigada. — Ela sempre agradecia meus abraços repentinos. — Vamos, entra logo senão vai se atrasar! — Despediu-se antes de sair apressada para o lado oposto à rua.
Difícil eu me atrasar quando chego meia hora antes do sinal soar.
Virei-me para minha escola pichada; era a mesma que meu irmão estudou, embora um pouco mais estruturada. Havia sido aumentada de tamanho e boa parte dos móveis haviam sido trocados por melhores. Era uma boa escola, no final das contas, mas a última coisa que queria era estar aqui.
Minha cama podia ser muito tentadora.
Passei pelos portões, vendo poucas almas por ali naquele horário além do pessoal do turno oposto. Sentei-me no banco em frente à sala 111, do lado de fora do prédio, no qual eu sempre me sentava. Peguei meu celular, coloquei os fones e preparei-me para jogar quando alguém sentou bruscamente ao meu lado.
Soltei um suspiro antes de voltar os olhos para meu amigo magricela. Mason usava o costumeiro óculos de grau caído no nariz perfeitamente alinhado, os cabelos loiros curtos estavam arrepiados e a roupa parecia dançar em seu corpo.
— Qual o jogo de hoje?
A voz de meu amigo estava mais fina que o normal, devido à idade, mas estava assim por tempo demais agora. Nem a minha voz havia afinado tanto!
Dei de ombros.
— Não escolhi ainda — falei ao passar os jogos no celular com o dedo.
Mason mal esperou eu terminar de falar e começou sua tagarelice habitual:
— Caleb, você sabe a prima do meu primo? Não é a loira, é aquela que estuda aqui também. Então — continuou, sem esperar uma resposta —, o pessoal estava dizendo que ela se pegou com o Bruce atrás da quadra e por isso foi suspensa por três dias. Você acredita? — perguntou e eu soltei uma risada. — Ela está no último ano do ensino fundamental e o Bruce é nosso colega! Nem...
Interrompi-o rapidamente.
Tendo convivido com Mason pelo tempo que convivi, já havia descoberto que interrompê-lo em suas falas não era falta de educação, mas uma chance de tornar a conversa um pouco menos unilateral.
— O Bruce é nosso colega mas ele já tem catorze anos — apontei, lembrando que ele havia repetido alguns anos atrás. Garoto desprezível.
— Sim, mas é estranho. Nem preciso dizer que meu primo ficou maluco com isso e fez o maior barraco. Os dois se bateram aqui no pátio — falou, apontando à nossa frente —, mas você sabe que ninguém sabe dar socos direito nesse lugar, chega a ser constrangedor para quem assiste — comentou ele, concordei com a cabeça. — Também fiquei sabendo que a diretora pretende mudar algumas regras por causa de todo o alvoroço que a garota causou, mas ainda...
— Que regras? — perguntei bruscamente, sobressaltado.
— Ainda não descobri, mas dou um jeito nisso logo. E olha só quem chegou agora — falou ele, desviando o olhar para o portão, por onde entrava Bruce com toda a ignorância pairando ao redor dele. — Eu aposto que ele vai dar um jeito de...
Assim, Mason continuou a contar-me todas suas teorias e tudo que havia descoberto de ontem para hoje. Francamente, eu não sabia como um garoto de doze anos conseguia tanta informação, mas eu também não tinha cabeça para perguntar-lhe.
Mason é o tipo de pessoa que, ao contar suas quinhentas histórias, não vê o tempo passar e também não percebe quando a pessoa não quer ouvir suas histórias. É uma pessoa estranha, difícil de conviver, mas eu havia me acostumado. Ele sempre foi hiperativo, talvez por isso seja tão magro. Mason não para quieto nem por um minuto.
Logo que o sinal para entrar soou pelo colégio, já tomado de alunos, uma figura extremamente desengonçada entrou correndo pelo portão. Mason e eu nos entreolhamos rapidamente antes de revirar os olhos.
Ian era mais alto que ambos eu e Mason, e devido ao seu corpo, parecia bem mais velho que nós dois. De um ano para cá, o garoto de treze anos havia crescido de uma maneira quase inacreditável. Ainda desconfortável no próprio corpo alto, Ian não sabia muito bem como coordená-lo de maneira correta. Os cabelos castanhos, em combinação com os olhos, estavam bagunçados pela correria. Parou à nossa frente, respirando fundo.
— Oi — disse ele ao tomar fôlego, nos olhando de cima. A voz havia tornado-se mais firme em questão de meses.
O garoto tem sérios problemas com hormônios.
— Sempre atrasado, Ian — falei, verbalizando nossos pensamentos.
— Dessa vez não foi minha culpa! — defendeu-se ele. — Meu tio acabou demorando para...
— Você sabia que talvez o horário de entrada seja mudado? Estou falando para vocês... — disse Mason, virando em direção às portas do prédio.
Mason também não se importava em interromper os outros.
— A diretora está maluca! — continuava ele, gesticulando; — Estou pensando que chegar atrasado não será mais aceitável, sem falar que...
— Do que ele está falando agora? — perguntou Ian, me cutucando.
Dei de ombros.
— De tudo que passa por sua cabeça, como sempre — murmurei, distraído com o celular.
— Ian!
A voz abafada chegou aos nossos ouvidos, fazendo-nos virar para trás por instinto.
De onde estávamos, era possível ver um garoto correndo rapidamente em nossa direção. Usava o uniforme de outra escola, provavelmente particular devido ao material de sua roupa. Parou em nossa frente, com um sorriso extenso ao entregar a mochila, que até então eu não havia percebido que segurava, nas mãos de Ian.
Franzi o cenho, observando-os antes de virar o olhar confuso para Mason. Este estreitava os olhos azuis e os focava atentamente na pessoa postada à poucos centímetros de nós. Revirei os olhos. Mason ficava realmente desconfiado quando não conhecia alguém da cidade, visto que conhecia todo mundo sem nunca haver conversado com ninguém.
Onde ele conseguia toda a informação, eu não gostaria nem de saber!
— Alex! Nossa, eu nem vi que havia deixado no carro — falou Ian, supreso, segurando a mochila de cor escura.
— Eu percebi que não — disse, arqueando uma das sobrancelhas. — Não esquece a cabeça porque está grudada — riu ele antes de desviar o olhar para as outras duas pessoas presentes ali.
Estava claro que tanto eu quanto Mason parecíamos dois imbecis, parados, encarando a cena que se desenvolvia em nossa frente. No meu caso, eu até havia deixado de mexer no celular para encará-los sem expressão.
Apesar de ser uma cena realmente rara, se não fosse, estaríamos encarando do mesmo jeito. Nenhum de nós costumávamos interagir com outras pessoas além de nós mesmos, com exceção de Mason e da sala de aula, já que não havia mais ninguém tão estranho quanto a gente no colégio.
Aparentemente, o tal de Alex não era desse colégio.
O garoto, de olhos extremamente escuros, franziu o cenho com uma careta ao observar Mason, que por sua vez, o observava com uma cara de perseguidor. Desviou então os olhos em minha direção, onde permaneceram com curiosidade. Inclinou a cabeça levemente enquanto um sorriso brotava em seu rosto.
Desviei o olhar, desconfortável.
— Eu não tinha apresentado vocês, desculpa. — Ian pronunciou-se, rindo. — Esses são Mason e Caleb — disse, apontando com a cabeça. — Meus amigos que te falei. Esse é o Alex, meu primo de Mallow Coast. Ele se mudou para cá alguns meses atrás — explicou, relanceando o prédio da escola. Não era para menos, já que estávamos atrasados.
Oh, primo. Está explicado.
— Prazer — disse ele, sorrindo para nós.
Os cabelos também eram escuros, embora não tanto quanto os olhos, o que me deixava ainda mais desconfortável. Se fosse pensar a respeito, era mesmo um tanto parecido com Ian, dava para ver que eram parentes. Alex não era tão alto quanto Ian, ninguém de treze anos era, mas ainda assim, Mason e eu ficávamos para trás.
— Prazer — respondemos, em uníssono.
Um momento de silêncio constrangedor se instalou, os quatro se encarando com embaraço.
— Bom... — Alex cortou o silêncio, rindo. — Eu tenho que ir, meu pai está me esperando — disse ele, indicando o carro com uma careta. — Vai voltar lá para casa depois? — perguntou para Ian, que assentiu com a cabeça.
— Claro, ainda não terminamos aquela partida — respondeu ele, rindo.
Despediram-se com um abraço e Alex acenou para nós antes de virar as costas e correr novamente para o carro chique que estacionara ali na frente. Pisquei algumas vezes antes de virar e acompanhar meus amigos para dentro.
— Ele parece ser mais velho — Mason comentou, como quem não quer nada. — Ele veio de onde mesmo? E por quê? É seu primo por parte de pai ou de mãe? Qual o colégio que estuda?
Ri alto e Ian apenas balançou a cabeça, não acreditando. Ian não estava tão acostumado com Mason quanto eu, já que havia entrado para escola apenas dois anos antes.
— Ele é mais velho, tem quinze anos — murmurou ele, contrariado. —Escuta, vocês fizeram o trabalho de História? — perguntou, querendo acabar com o assunto antes que Mason tirasse seu caderno e fizesse anotações sobre a vida do primo de Ian.
— O trabalho de História! — falei, apavorado por ter esquecido.
— O trabalho de História! — disse Mason ao mesmo tempo que eu, embora não espantado. — Eu fiquei sabendo que a professora anda com alguns problemas familiares, duvido muito que ela...
Mason continuou tagarelando incessantemente até entrarmos na sala, obtendo uma careta feia da Sra. Martin. Talvez ela realmente esteja passando por problemas familiares, afinal.
Mason nunca erra.
Permaneci o resto da aula um pouco amortecido. Talvez fosse o dia quente. Talvez fosse o trabalho que eu havia esquecido e quase nunca esqueço. Talvez fosse Mason tagarelando o tempo todo. Talvez fosse as bolinhas de papel que rodavam pela sala toda vez que a Sra. Martin virava as costas para escrever textos no quadro. Talvez fosse meu devaneio sobre minha voz um dia ser parecida com a de Ian. Talvez fosse o primo dele. Talvez fossem aqueles olhos incrivelmente escuros.
Dei de ombros, pensando que devia ser só o dia quente mesmo.
Amanhã, a sensação estranha com certeza se apagaria.
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