Made of Fire
23 XX - Te quero, te recruto
Notas iniciais
— Não precisava me levar — falei, desconfortável ao remexer-me no banco de carona.
Turner havia me buscado em casa às sete da manhã para me trazer para a universidade. Por pouco minha mãe não o vê, já que ela estava desperta, tomando café na cozinha. Cozinha esta que contém uma janela. Janela esta que mostra uma visão perfeita da rua. Rua em que o lustroso carro de Turner – apesar do meu professor não aceitar o dinheiro da família e não conter o melhor salário do mundo, ele fazia questão de ter um carro potente – estava estacionado. Com ele dentro!
Respirei fundo novamente, deixando o ar entrar em meus pulmões de forma mais abrangente.
— Depois da cena que o George fez ontem no corredor — disse ele, preocupado — eu não penso em deixar você fora de vista. Não quando posso estar de olho em você — completou, com determinação.
Fechei os olhos com raiva ao lembrar de George. Aparentemente, ele não havia se importado com a maior parte dos estudantes que o odiavam agora. Empurrou-me contra a parede mais uma vez, cuspindo o chão ao me observar. Bom, pelo menos ele não cuspiu em mim. Isso que importa.
— Will... — A voz de Turner invadiu o carro novamente, fazendo com que eu abrisse os olhos. — Pode ter sido ele — falou, receoso ao me olhar rapidamente. — Não vou deixar que toquem em você de novo.
Turner devia ter interpretado minha raiva como dirigida à ele, e não à George.
— Tudo bem, não se preocupe — falei, tentando conter as batidas do meu coração.
Não gostava de vê-lo preocupado, mas gostava mesmo assim. Não importa que isso fizesse de mim uma pessoa ruim, mas me encantava ver que meu professor se importava tanto comigo.
Levei uma mão à sua perna e apertei levemente, sorrindo quando ele desviou o olhar da estrada para mim. Era uma forma de confortá-lo, já que podia ver os nós de seus dedos brancos ao apertar o volante devido ao assunto George. Turner sorriu de volta, relaxando aos poucos. Suspirei.
Eu ainda não me acostumara com seus sorrisos.
Eu não me acostumara com nada relacionado à Turner. Passei a balançar a perna novamente, sentindo o desconforto voltar ao meu corpo enquanto observava a rua passar rapidamente pela janela. Havia certa quietude alarmante naquele horário da manhã, em toda a cidade.
O que eu diria à minha mãe se ela visse meu professor buscando-me em casa?
Eu não havia contado ainda que eu sou gay. Não quero ver as reações, então estou adiando essa conversa o máximo que posso. Porém, mesmo que dê tudo certo, explicar que eu estou saindo com meu professor é outra história. Também não sei como Turner contaria à sua família. Não havíamos conversado sobre isto, talvez pelo receio de ambos os lados.
Ter alguém como Turner me beijando e se preocupando comigo era um privilégio, com certeza. Mas eu não fazia ideia de como faria minha mãe entender isto. Ou meu irmão.
Mordi o lábio inferior com força ao observar a universidade tomar forma à minha frente. Havia mais isto: a universidade. Mais um problema. Mais um obstáculo.
Não é como se estivéssemos cometendo um crime, mas os outros podem ter uma opinião diferente. Pessoas são idiotas.
— Will? — perguntou-me ele, me tirando dos devaneios. — Tudo bem? — perguntou, relanceando-me com o cenho franzido antes de virar uma curva em direção ao nosso prédio.
— Sim — falei debilmente, apavorado ao ver o estacionamento ao ar livre tomar forma.
Turner estacionou na mesma vaga de sempre, desligando o carro logo em seguida. No entanto, não abriu a porta, virando-se para me encarar. Levou a mão à minha, apertando. Tinha uma careta agoniada em sua face.
— Me desculpe — disse ele com um suspiro. — Sei que não queria que eu o trouxesse aqui, devia ter perguntado antes de ir até sua casa.
— Não, eu quero que me busque e me leve aonde for. Eu só... — comecei, distraído ao relancear a janela e observar alguns alunos conversarem. — Eu ainda não...
Suspirei, passando as mãos no rosto.
Francamente, se apaixonar devia ser bem mais fácil!
— Eu entendo, Will, e peço desculpas por haver.. — começou ele, nervoso, mas o interrompi.
— Não — falei, balançando a cabeça.
Respirei fundo observando a profundeza acinzentada de seus olhos.
Nossa conversa do fim de semana não havia sido tão eficiente já que havíamos nos pegado no sofá de seu apartamento. Eu não queria ter aquela conversa, já que estava tão receoso em lidar com a realidade perante nosso relacionamento.
Porém, o pânico havia se espalhado em meu corpo ao me deparar com duas situações complicadas em poucos minutos de diferença – minha mãe e a universidade –, sem minha permissão. E em conjunto à este, palavras começaram a formar-se em minha mente de forma embaralhada e viajarem em direção à minha boca.
— Não quero que perca o emprego — falei, balançando a cabeça novamente. — Não quero chegar aqui com você porque todo mundo vai ver e não quero que todo mundo veja. Não por medo de levar uma surra de novo, mas por medo que você perca o emprego! — coloquei para fora, vendo sua expressão suavizar.
— Will... — começou ele, com um sorriso.
Mas as palavras não haviam chegado ao fim, apesar de eu saber em cada pedaço do meu corpo que esse era o momento mais inoportuno para ter essa conversa. E estávamos no lugar mais inoportuno também.
Estava suando frio com a velocidade dos meus pensamentos.
— Eu não sei como isto foi ocorrer — continuei, interrompendo-o. — Eu não imaginava que você me jogaria contra a porta e me beijaria naquele dia. Não imaginava que conseguiria te seduzir. Eu nem sabia o porquê de estar tentando te seduzir, na verdade — falei tudo de uma vez, rindo sem graça e sentindo minhas mãos tremerem. — Eu ainda não contei para minha família que sou gay. Não contei à eles — falei, mais aflito ao ver que ele havia aberto a boca para falar alguma coisa. — Você quer que eu conte? Quer que a gente conte para a universidade inteira que saímos juntos? — perguntei, sentindo meus olhos alargarem-se ao imaginar as cenas das quais falava. — Não quero contar para minha famílias, mas eles? — perguntei, referindo-me às pessoas do lado de fora do carro. — Eu não me importo que eles saibam, mas e você? Tem uma reputação a zelar, Turner — continuei, sem esperar resposta. — Você ao menos pensou nisso? Eu não sei, já que a gente nem conversa sobre isso, porque quando eu te vejo, eu não quero conversar. Eu só quero te beijar. Eu quero te beijar o tempo inteiro — falei, agoniado, ao franzir mais ainda o cenho. Suspirei, tomando fôlego novamente. — E eu não sei o que você quer fazer. No fim, você pode nem querer nada disso. Eu sei que você me disse que quer estar comigo quando quisesse, mas isso não quer dizer publicamente. Você achou que chegaríamos juntos aqui e ninguém veria. Quer manter em segredo para sempre? Quero dizer, obviamente você não queria se envolver com alguém como eu, é vergonhoso. Com certeza você esperava sair com alguém como a Srta. Stewart — falei, com uma careta ao lembrar da mulher —, mas então você se viu estando comigo e não com ela. É óbvio que isto deve ficar em segredo. Você não quer contar à ninguém, igual nos filmes. Jay sabe porque o Jay é o Jay — falei, erguendo os ombros, sem me importar com a falta de sentido. — Você entende o que quero dizer — apontei, quando o vi franzir o cenho. — É isso que quer, não é? — Minha voz foi diminuindo aos poucos quando percebi que Turner manteve-se quieto. — Não é? — sussurrei, por fim.
Turner tinha os olhos atentos em mim, mas não fez menção em abrir a boca. Não podia decifrar seu rosto, mas ele provavelmente devia estar em pânico, já que eu estava entrando em pânico. Fechei os olhos e levei as duas mãos ao rosto, mantendo-as ali. A vergonha espalhava-se por meu corpo como um vírus.
Eu havia sido um idiota. A gente vê em filmes e em livros que não se pode guardar todas as inseguranças e medos dentro de si para sempre, porque isso dá merda, mas o fazemos mesmo assim. Eu sabia melhor. Eu sabia que não podia ignorar toda a tormenta dentro de mim, extasiado demais com a adrenalina de estar com Turner. Uma vez que a adrenalina diminui, nem que seja um pouco, trazendo a calmaria, tudo se esvai.
Eu não devia ter aberto a boca.
O silêncio durou mais de um minuto antes de Turner puxar-me, enquanto eu ainda mantinha o rosto tapado, de encontro com seu peito. Abraçou-me de forma desajeitada devido ao cinto de segurança que eu não havia tirado e devido à própria disposição do carro. Afagou-me os cabelos levemente, enquanto eu sentia meus olhos arderem.
Eu não acredito que estou chorando, pensei, com raiva de mim mesmo.
— Colocou tudo para fora? — perguntou ele, um leve tom de diversão em sua voz, mesclado com a preocupação. Ri, contrariando tudo que sentia, antes de resmungar contra seu peito. Pude senti-lo rir também.
Turner tentou afastar-se, mas apertei-me contra ele um pouquinho mais.
— Will — murmurou contra meus cabelos —, um passo de cada vez, sim? Eu não vou e nem quero fazer nada que você não queira. Não havia pensado quando te busquei hoje, me desculpe. Eu... — Suspirou. — Eu não quero que conte nada à sua família a menos que esteja preparado para contar. Eu também ainda não contei nada à minha. Mas pretendo — murmurou a última parte, afagando-me as costas.
Ergui a cabeça para observar seu rosto, tão de perto. Girei o rosto ao ver um grupo de pessoas passar perto do carro, conversando. Logo voltei os olhos aos seus novamente, tentando digerir as suas palavras e sentindo-me um idiota ao passo que o fazia.
Turner passou os dedos abaixo de meus olhos, afastando as lágrimas que não haviam ficado em seu paletó.
— Você pretende? — perguntou, olhando-me nos olhos. — Não hoje, não amanhã. Um dia. Você pretende?
Pisquei algumas vezes, pensando à respeito. Franzi o cenho. Eu ainda não queria contar à ninguém da universidade. Percebendo o rumo de meus pensamentos, Turner pronunciou-se:
— Não se preocupe por meu emprego. Will, você é maior de idade — riu ele, achando graça. — Apesar de ser complicada a nossa situação, não é crime algum. O máximo que vai acontecer é eu ter que me transferir para outra universidade, no caso de que os estudantes se importem muito com isso. Ou os outros professores — completou, dando de ombros. — Mas eu duvido muito disto.
— Mas você trabalha aqui há um tempão — falei, nervoso, ignorando sua última sentença. — E eu sei que gosta daqui. Não pode arriscar perder isso sem motivos!
Meu professor balançou a cabeça negativamente.
— Você é motivo suficiente, Will — disse ele, com carinho. — Você é a melhor coisa que me aconteceu. — Deixou um sorriso preguiçoso espalhar-se por seu rosto.
Ignorando o coração retumbante e as pernas moles, neguei com a cabeça, já sem muita determinação. Pensei no que dizer, observando os olhos cinzas brilhantes. Neguei novamente, decidido a não me deixar levar pelas emoções. O sorriso de Turner alargou-se.
— Não o quê? — perguntou, divertido.
— Não pode sair contando para todo... — comecei devagar, mas fui interrompido.
— Já disse que não vou fazer nada sem você querer — reforçou, o sorriso sumindo.
— Bom — falei, erguendo a sobrancelha —, nós estamos dentro do seu carro na universidade.
A expressão de Turner tornou-se culpada, mais uma vez.
— Desculpa, Will — disse ele, passando a mão em meu rosto. — Eu não estava pensando no que isso significava. Eu nem pensei sobre as pessoas daqui ver-nos junto, eu só queria te manter a salvo — explicou.
Ri baixinho, deixando um beijo estalado sobre sua mão.
— Eu sei, eu sei — falei, sentindo meu peito inflar. — Eu só não sei como todo mundo vai reagir ao saber que estamos juntos. Só isso — expliquei, erguendo os ombros.
Turner subitamente congelou, me encarando como se eu fosse um alienígena. Franzi o cenho, olhando para trás no vidro para ver se alguém havia se aproximado. Voltei os olhos à ele quando percebi que não, vendo-o piscar incessantemente, afastando-se um pouco de mim.
— Estamos juntos? — perguntou ele, com cautela, a profundeza cinza me engolindo.
Bruscamente em alerta, arregalei os olhos, sentindo meu corpo tremer.
— Não estamos? — perguntei em um murmúrio baixo, sentindo meu rosto esquentar.
Turner puxou-me inesperadamente para um beijo, segurando meu rosto com as duas mãos. Invadiu minha boca com sua língua em um beijo apaixonado. Depois de alguns poucos segundos, ri surpreso contra seus lábios, tanto pela sua reação quanto pelo nervosismo.
— Claro que estamos — disse ele, sorrindo ao roçar os lábios por meu rosto. — Claro que estamos — reforçou em um murmúrio.
Eu o havia pedido em namoro ou ele havia me pedido em namoro?
Namoro parece uma palavra tão inadequada.
Eu o havia recrutado ou ele havia me recrutado?
— Ah, Will — falou ele, ainda respirando contra minha pele, como um ritual de recrutamento —, eu gostaria muito que você tivesse tido essa conversa comigo em um lugar mais apropriado. Assim, eu poderia te mostrar o quanto estou feliz por ter a certeza de que estamos juntos.
A voz falha tornou-se mais rouca a cada palavra, murmurando as últimas com a boca colada em meu ouvido.
Segurei-me em seus ombros para não fazer nenhuma loucura. Raspei meu rosto no seu, deslizando-o até seu pescoço. Passei a língua neste, sentindo seu gosto invadir minha boca. Fechei os lábios ali, da mesma forma como ele havia feito no banco de trás do carro no dia em que eu estava bêbado. Suguei levemente para não deixar marca ao sentir suas mãos apertarem-me com mais força. Afastei-me então, negando com a cabeça quando ele aproximou-se teimosamente.
Soltou um resmungo.
— Não o quê? — perguntou novamente, desta vez com teimosia.
Desvencilhei-me de suas mãos, agradecendo aos céus por meu corpo funcionar à meu favor, rindo de sua voz rouca e a testa franzida ao encarar minha boca.
— Aqui não, professor — falei, voltando aos hábitos. — Nós dois temos aula agora.
Sorri largamente ao ver a mudança de posição de nossa brincadeira. Eu adorava mudar as peças do jogo à meu favor. Bom, eu adorava quando meu corpo me obedecia também.
Turner relaxou os ombros aos poucos e seu rosto suavizou. Sorriu também, mas era um sorriso simples. Entrelaçou os dedos nos meus com os olhos brilhando. Escorou a cabeça no banco para me observar. Sustentei seu olhar até remexer-me desconfortável ao perceber as emoções que passavam por seus olhos. E provavelmente pelos meus.
Turner inspirou fundo, desviando os olhos e soltando um suspiro ao romper a mágica.
— Tem razão — disse, por fim. — Creio que já estamos atrasados — falou, ajudando-me a tirar o cinto com uma risada.
Desci do carro olhando ao redor, tentando ver se alguém nos encarava diretamente. Porém, para meu alívio, os estudantes pareciam ter coisas mais importantes com as quais focar sua atenção. Caminhei rapidamente em direção ao prédio, ignorando o fato de estar agindo como um covarde. Turner logo postou-se ao meu lado, já que tinha as pernas mais longas, e me encarou com uma sobrancelha arqueada. Estreitei os olhos em sua direção.
A conversa sobre não fazer nada que eu não queira e estar arrependido de trazer-me até a faculdade era só para boi dormir?
Esbarrei em seu ombro propositalmente, observando Turner morder os lábios para não rir. Entramos no prédio nos provocando e eu já nem me lembrava de toda a situação estranha sobre nós, focado em demonstrar-me bravo com ele. E falhando miseravelmente.
Virei-lhe as costas ao ver que se encaminharia até o balcão da recepção, mostrando-lhe a língua antes de começar a subir as escadas. Turner soltou um riso pelo nariz, balançando a cabeça ao também virar-me as costas.
É, eu souimaturo à este ponto.
*
Um clima estranho pairava a sala de aula de forma densa.
Olhei para os lados, tentando descobrir de onde vinha toda a energia ruim. Ninguém parecia notar, além de mim. Desviei os olhos para Gabe, que fazia de tudo que não envolvesse prestar atenção na aula da Sra. Lawson. Ele franziu o cenho ao sustentar meu olhar, confuso. Dei de ombros e acenei com a mão, informando-lhe que não era nada.
Laurel, sentada na costumeira cadeira atrás de Gabe, digitava furiosamente no celular, sem desviar os olhos castanhos deste. Virei-me de forma sutil para trás, vendo os cabelos alaranjados de Cenoura ao passo que este tentava, a todo custo, manter os olhos abertos.
Franzi o cenho, voltando os olhos para Laurel.
Assim que meus olhos encontraram com os dela, verdes nos castanhos, eu soube que era dali que vinha toda a energia negativa. Sua testa estava tão franzida que fiquei com medo que mantivesse-se assim para sempre. Murmurei um "o que foi?" mudo, mas desejei não tê-lo feito. Laurel bufou de forma pesada, atraindo a atenção de algumas pessoas ao redor, incluso Gabe, antes de pegar o celular e voltar a digitar furiosamente.
Dei um pulo ao perceber meu celular vibrar em minha mesa, fazendo o barulho característico do atrito entre esta e a estrutura do celular soar pela sala. Felizmente a Demônia — Sra. Lawson — não percebeu, observei ao vê-la tagarelar com mau humor. Sabendo que a mensagem vinha de Laurel, suspirei antes de lê-la.
"Seu idiota! Quando a aula acabar, você vai me esperar do lado de fora. Entendeu? Se pular fora, quebro tua cara!"
Arqueei as sobrancelhas antes de desviá-los para Laurel novamente, que me encarava com um olhar zangado. Suspirou antes de olhar para frente novamente.
Estava acostumado com as mudanças de humor de Laurel e seu temperamento, bem como suas mensagens agressivas que, na verdade, de agressivas não tinham nada. Porém, mesmo assim, não pude deixar de reprimir o calafrio que me subiu pela coluna. Eu já sabia do que se tratava, embora não soubesse como ela havia chegado à conclusão de que eu e Turner estávamos juntos. Tampouco sabia como lidar com isto agora.
Merda!
Assim que fomos liberados, saí com receio da sala procurando pela garota de cabelos vermelhos. Antes que pudesse ligar para ela – a ameaça realmente havia chegado aos meus ossos –, senti uma mão puxar-me de forma nada delicada, embora pequena. Laurel puxou-me até um canto vazio do corredor, os olhos expelindo raiva.
Postou as mãos na cintura, estreitando os olhos.
— Muito bem. Pode começar a falar — declarou, acenando com a cabeça como um incentivo nada amigável.
— O quê? — perguntei, a voz falha. — Falar sobre o quê?
Laurel franziu os lábios desgostosamente antes de proferir um tapa em meu ombro. Arregalei os olhos.
— Laurel! — exclamei, incrédulo, ao levar minha mão ao ombro.
— Laurel! — A voz de Gabe invadiu meus ouvidos antes que ela partisse para cima de mim. — Pare com isso, está maluca? — perguntou, agarrando o braço dela.
— Sai fora, Gabe! — falou ela, empurrando-lhe. — Você sabia que o Will tem saído às escondidas com o Dragão? — perguntou, incrédula. — Com o Dragão!
— Shh, Laurel! — falei baixo, tentando segurá-la pelo braço inutilmente.
— Debaixo dos nossos narizes o tempo inteiro! — continuou ela, gesticulando. — Eu mesma vi! — resmungou a última parte, com mágoa.
Franzi o cenho ao tentar entendê-la.
Olhei para os lados, vendo um grupo de alunos ali perto. Arregalei os olhos. Eles, com certeza, haviam escutado as palavras de Laurel. Ao perceber meu pavor, ela desviou os olhos castanhos para o mesmo local. Estreitou os olhos, dando alguns passos em direção à eles.
— E vocês estão fazendo o que aqui? Vão! Caiam fora! — gritou, erguendo o punho.
Desviei o olhar rapidamente para Gabe, chocado demais com a garota, vendo-o pressionar os lábios com o intuito de não rir. O pessoal, assim que Laurel ordenou, saiu resmungando de perto de nós em poucos segundos. Soltei o ar de meus pulmões rapidamente, percebendo que a situação era mesmo engraçada.
— Droga, Will! — xingou ela, encarando-me com um pouco mais de calma ao suspirar. — Como você pôde? E logo aquele cara idiota! Eu sabia que havia algo de errado para você estar sempre na sala dele. — Balançou a cabeça, não acreditando. — Tinha que ser este cara? Ele me rodou de propósito — reclamou, obtendo um revirar de olhos de minha parte.
— Ele não é idiota — defendi, ofendido. — E ele não reprova ninguém de propósito — resmunguei também, cruzando os braços.
— Por que você não está surpreso? — perguntou à Gabe, ignorando-me ao voltar à carranca anterior. — Por quê, Gabriel?
— Porque eu sabia — resmungou ele, revirando os olhos ao me relancear.
— Você sabia e não me contou! — esbravejou ela, como uma acusação. — Você sabia e não fez nada à respeito! Que tipo de amigo é você? — perguntou, empurrando-o novamente.
— Mas que droga, Laurel! — resmungou ele, irritado. — Você está exagerando, pelo amor de deus!
— Exagerando? — perguntou, irônica. — Exagerando? Meu melhor amigo — falou, apontando para mim — mente na minha cara repetidas vezes e eu estou exagerando? Ele é imbecil o suficiente para se pegar com um professor filho da puta e eu estou exagerando? Nossa, muito obrigada, Gabriel — falou, sarcástica. — Muito obrigada por colocar luz em minha cabeça!
Suspirei, aproximando-me deles.
— Me desculpa por haver mentido — falei mansamente, agora entendendo um pouco melhor o motivo de tanta mágoa. — Eu só não sabia como contar — falei em um fiapo de voz, erguendo os ombros.
Laurel franziu os lábios e sustentou meu olhar por um tempo. Seu rosto já havia relaxado consideravelmente e ela parecia estar em uma luta interna. Por fim, desistiu, soltando um suspiro. Apontou o dedo em minha direção e, com a voz birrenta, pronunciou:
— Pois que isto não se repita — disse, formando um beiço teimoso nos lábios antes de sua expressão mudar novamente. — Droga, Will! — reclamou de novo, fazendo-me olhar aflito para Gabe, pedindo uma ajuda silenciosa.
No entanto, foi para ele que sobrou. Laurel virou novamente em sua direção e puxou-o pela gola da camiseta.
— E você? — perguntou, brava. — Por que deixou isso acontecer?
— Meu deus, Laurel! Qual o problema agora, mulher? — perguntou ele, também confuso.
Laurel bufou.
— O problema é que nosso amigo — apontou novamente para mim — está sendo usado por um professor descaradamente. Será que você não percebe? Will anda sofrendo bullying por causa desse cara. Ele até apanhou num beco e só deus sabe se não foi o próprio Sr. Turner que fez isso!
Arregalei os olhos, negando com a cabeça ao abrir a boca para contestar, mas não tive a chance.
— Ele anda sofrendo por culpa desse cara. O pessoal acha que ele está recebendo regalias em troca de favores sexuais, Gabe! — reclamou ela, preocupada, baixando a voz para que eu não escutasse. Não tão baixo. — E no fim, você acha que o poderoso Sr. Turner vai sair dessa difamado? Não, óbvio que não — respondeu por ele, agoniada, sem deixá-lo abrir a boca. — O Will é que vai! E talvez até com o coração partido, se esse imbecil está brincando com os sentimentos dele!
Um silêncio perturbador instalou-se no pequeno canto vazio do corredor. Eu tinha os olhos esbulhados e tinha quase certeza de que encontraria meu queixo no chão se me atrevesse a procurá-lo. Gabe tinha a mesma expressão que a minha, embora as sobrancelhas arqueadas denunciassem sua compreensão pelo que acontecia.
Laurel franziu o cenho para Gabe.
— O quê? — perguntou, confusa. Gabe, incapaz de segurar a risada desta vez, deixou com que sua gargalhada preenchesse o silêncio do local.
Eu balancei a cabeça, sentindo meu peito inflar de emoção. Aproximei-me de Laurel o suficiente para tomá-la em meus braços, abraçando-a com força.
— Ah, Laurel — falei, emocionado, sentindo-a tentar desvencilhar-se de mim. — Você estava preocupada por mim — concluí, olhando-a nos olhos.
— É claro que estava preocupada com você! Eu ainda estou! — resmungou ela, dando-me um empurrão de leve. — Você é tão burro às vezes, Will, que é impossível não se questionar a respeito dos seus danos mentais. Não dá para te deixar sozinho, você faz péssimas escolhas — apontou ela, arqueando as sobrancelhas. — Não sei como ainda está vivo.
Revirei os olhos.
— Laurel, você é maluca! — Incrédulo, ri da situação. — Ninguém está me usando ou sei lá o que mais passava por essa mente criativa — falei, arqueando uma das sobrancelhas e vendo-a estreitar os olhos com descrença. — Estou falando a verdade!
— Eu não confio nele, Will — resmungou, já dando-se conta de que, se eu não estava sendo abusado, é porque estava realmente envolvido.
Desviou o olhar para Gabe como se procurasse ajuda para me convencer de que Turner é o lobo mau. Gabe limitou-se a erguer as mãos, negando.
— Você não precisa confiar nele — falei, nervoso ao puxar sua atenção para mim de novo. — Confia em mim.
Pude perceber que escolhi as palavras certas quando ela me encarou com agonia. Sorri.
— Mas, Will... — resmungou, contrariada, mas se calou.
Bufou, fechando os olhos rapidamente. Ainda com um pé atrás, assentiu com a cabeça, incapaz de deixar o orgulho de lado e pronunciar as palavras. Suspirei, aliviado.
Não havia sido tão ruim, afinal de contas.
O som de passos fez com que eu desviasse o olhar da ruiva.
Turner passou por ali, concentrado em suas folhas, antes de erguer os olhos em minha direção. Em seguida, desviando-os para os amigos ao meu lado, que também encaravam-no. O professor diminuiu o passo, incerto se devia parar ou não, já que nós três o observávamos com atenção.
Decidiu parar brevemente, acenando com uma mão ao murmurar um "bom dia" para a gente, com um semi-sorriso.
— Bom dia, professor. — Gabe respondeu, obtendo um olhar desconfiado de Laurel.
— Bom dia — murmurei, sorrindo abertamente e ouvindo Laurel dizer o mesmo, contrariada.
Os cantos da boca de Turner ergueram-se levemente e os olhos suavizaram-se de forma contínua ao parar o olhar em mim.
— Bom dia, Will — falou, mais uma vez, com a voz falha.
Pigarreou ao percebê-lo e desviar os olhos mais uma vez para meus amigos. Acenou e voltou a andar, sumindo de vista.
Sentindo meu coração acelerado, ponderei por alguns minutos quanto demoraria para eu vê-lo pelos corredores e parar de ter as sensações dormentes por meu corpo. Sabia que um dia toda a parte bonitinha do começo de uma paixão se desvanecia. Porém, sentindo as borboletas voarem incessantemente em minha barriga, parecia impossível que um dia essa sensação chegasse ao fim.
Laurel suspirou, passando um dos braços em minha cintura e outra na de Gabe, que mantinha-se nos observando. Escorou a cabeça em meu ombro, olhando-me de baixo. Algo além de compreensão passava pelos olhos castanhos. Algo como alívio, leveza ou cumplicidade.
Suspirou pesadamente mais uma vez, desviando os olhos para a porta por onde Turner entrara. A porta pela qual eu passava constantemente para vislumbrar o rosto bonito de meu professor. Segui seu olhar, assim como Gabe, que sorria. Mantivemo-nos assim por alguns segundos antes de eu ouvir a voz baixa de Laurel fazer-se presente de novo.
— Eu confio em você, Will — disse ela, por fim, sorrindo.
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