Made of Fire

15 XIV - Você não faz ideia do quanto


Notas iniciais
Gente, não sei como isso aconteceu nem como, mas o último capítulo gerou um número maior de comentários do que os anteriores! E MAIS UMA RECOMENDAÇÃO ♥ Não sei o que houve, mas não me importo NEM UM POUCO que se repita ahahahaha Enfim, esse capítulo é uma continuação da viagem. Vai explicar um pouco como Will está se sentindo com relação à tudo. A propósito, tô pensando em escrever um capítulo extra, que eu postaria junto ao próximo, contando um pouco da festa e do tal do beijo! Me digam se concordam, sim? ;) Will's POV Boa leitura, gente linda *-*

Durante a explicação, suas mãos variavam entre gesticular várias vezes ou ir em direção à gravata envolta em seu pescoço. Em seguida, as mesmas mãos grandes apoiavam-se na mesa atrás de si. Os lábios bonitos abriam e fechavam incessantemente ao passo que a voz grave se fazia ouvir pelo cômodo. Às vezes, pausava o discurso e franzia o cenho involuntariamente, pensando em como continuar. Logo arqueava as sobrancelhas, como se encontrasse a linha de raciocínio novamente, e voltava a falar.

Eu podia sentir minha bochechas arderem de tanto sorrir.

Ele é tão lindo!

Turner parou algumas vezes para pigarrear ou fazer algum comentário que fazia os alunos rirem. E os olhos cinzas, apesar de dirigirem-se à todos os presentes na sala, sempre voltavam à mim. O indício de sorriso na comissura de sua boca não havia desaparecido por momento algum.

Em algum momento, suspirei como uma garotinha apaixonada. Desviei os olhos para os lados rapidamente, vendo se alguém havia percebido. Gabe, ao meu lado esquerdo, me encarava com uma das sobrancelhas erguida. Usava uma roupa escura e um gorro de cor cinza na cabeça, tapando os cabelos também escuros. Com a iluminação do local, devido as janelas enormes, seus olhos azuis estavam mais claros que o normal. Encolhi-me involuntariamente.

Que vergonha!

Estar afim de meu professor não era nada vergonhoso quando ninguém sabia a respeito. Era só eu e ele, como um segredo. Apesar de não termos nada concreto e ninguém saber de nada concreto, ainda assim me sentia exposto. Agora cada vez que eu dirigia uma palavra à ele, era como se sentisse os olhos do mundo inteiro em mim.

Tudo por causa da maldita festa!

Gabe limitou-se a esconder o sorriso, erguendo os ombros como se dissesse: não vi nada. Mas a diversão em seus olhos dizia outra coisa. Dei um empurrão de leve nele, fazendo-o rir baixinho, antes de voltar meus olhos para meu professor preferido.

Eu realmente achei que Turner nunca mais olharia na minha cara. Apesar de ter nítido na memória seus olhares, suas palavras e a forma como me tratava, tudo isso pareceu uma grande mentira depois que o beijei. Quando ele passou a me ignorar e me tratar mal, como na aula, eu pensei que todas as reações que obtive dele eram coisa da minha cabeça.

"Talvez eu tenha interpretado mal", pensei diversas vezes. "Talvez ele nunca tenha querido nada comigo. Talvez todo o embaraço e a tensão vindas dele era porque eu realmente o incomodava. Talvez ele não tenha me repreendido – mais do que o fez – porque sentia certo carinho por mim, assim como por todos os alunos. Talvez ele tenha dado corda – depois de ter percebido que repreender-me não adiantaria – para evitar problemas. Talvez ele tenha pensado que eu não teria coragem de beijá-lo, por isso não se importou ao seguir meu jogo."

Por mais que meu corpo todo negasse, gritando: "E todas as horas no plantão? Foram reais! E aquele dia que pensou que ele te beijaria? Ele havia chegado perto o suficiente para isso! E o presente? E os olhares? E os sorrisos?", minha mente gritava de volta dizendo que era minha imaginação fértil. Minha mania imbecil de interpretar tudo errado. Afinal, eu era especialista nisso.

Como naquela vez, quando criança, que pensei que Gabe roubaria Cenoura de mim. Achei que, quando eles fizeram amizade, Cenoura nunca mais falaria comigo. Então, um dia, eles riram de alguma coisa durante a aula e eu saí porta afora da sala, indo chorar no banheiro. Pensava que estavam rindo de mim. Não, eu estava certo de que o faziam.

Ou talvez no meu primeiro namoro, quando estava certo de que Amy era apaixonada por mim. Estava certo de que, quando brigávamos, ela não me atendia porque estava zangada ou chorando. Não fazia ideia de que, na verdade, ela estava gemendo na cama do idiota do Troy.

No planeta das interpretações errôneas, eu era rei. De tal forma que, quando Turner passou a me evitar, ficou evidente para mim que eu havia interpretado todas suas ações e reações de forma errada. De novo. Porém, agora analisando a situação, foi pensando que eu havia interpretado tudo errado... que eu interpretei tudo errado.

É, de uma forma ou de outra, a minha imaginação fértil sempre daria um jeito de mostrar seu talento.

— Bom — ouvi a voz de Turner pronunciar-se —, vou parar por aqui. Vocês não viajaram por quase três horas para ficarem me ouvindo de novo — concluiu, sorriu levemente. — Venham. Ainda não conheceram o último andar — falou, indicando a porta.

Saiu da sala, seguido pelo grupo de pessoas do terceiro e quarto semestre. Johnny veio junto à nós e conversava com Cenoura. Era o único de nós que havia passado na matéria do Turner, mas fazia a segunda parte desta, participando da viagem também.

Atrás deles, segui o rumo da manada porta afora, bruscamente batendo o ombro direito na parede. Demorei alguns segundos para entender, virando o rosto rapidamente para ver quem havia me empurrado. Encontrei os olhos escuros de George e o sorriso maldoso em seu rosto.

Porra, esse babaca de novo?

— O que você está olhando? — perguntou ele, em uma pose ameaçadora. — Perdeu alguma coisa em mim, William?

Reprimi a vontade de socar seu rosto quando pronunciou meu nome. No entanto, ciente de que estávamos dentro de uma empresa famosa e de que seus músculos eram bem maiores do que os meus, limitei-me a desviar o olhar. Ouvi-o soltar um riso pelo nariz, com escárnio, antes de caminhar novamente em direção ao pessoal. Havíamos ficado para trás. Seus dois amigos, também babacas, o seguiram depois de esbarrarem em mim também.

Viado! — ouvi um deles falar, fazendo o outro rir.

Fechei os olhos ao mesmo tempo que cerrava os punhos, com raiva. Eu estava bem ciente de que haviam pessoas ignorantes no mundo. Um exemplo destas é o meu próprio pai. A diferença é que ele tinha a desculpa de ter mais álcool no corpo do que água para fazer merda. Estes imbecis não têm desculpa alguma. São adultos que frequentam a faculdade. Administração não é um curso tão fácil de passar quanto parece. Ou seja, eles deviam ter ao menos um mínimo de movimentação de neurônios no cérebro. George, pelo que parece, deve ser uns três anos mais velho que eu.

Como pode uma pessoa adulta ser tão ignorante?

Estudei na mesma escola durante toda a infância e pré-adolescência. Fui educado em uma escola pública, com escassez de recursos e um exagero de alunos. Uma escola pichada, com janelas quebradas e algumas paredes até mesmo mofadas. Uma escola em que a troca de drogas por dinheiro acontecia constantemente. No entanto, nunca fui vítima de qualquer tipo de agressão. Os alunos — a maioria deles, pelo menos – eram pessoas boas. Nunca sofri bullying – na época, era chamado de implicância apenas – e os poucos colegas que eu vi sofrerem, não era de forma intensa a ponto de eles sequer se importarem. Sei que esse tipo de coisa acontece pelo mundo, mas comigo nunca aconteceu e nem vi acontecer. Talvez eu tenha tido sorte.

Ou talvez a vida só estivesse dando-me um descanso antes da merda começar, pensei ao observar as costas dos caras imbecis que me empurraram.

Suspirei pesadamente antes de aproximar-me do grupo de alunos, o mais longe possível de George e seus amigos. Subimos as escadas – de elevador demoraria muito para todos subirem — até o último andar que Turner havia falado a respeito. Ao chegar lá, percebi que era o que continha menos pessoas transitando. Notei também que assim como Sr. Edwards, o irmão e o pai de Turner haviam se juntado à ele novamente.

O pai, Frederich Turner, tinha o rosto severo, embora os traços deste contrastassem violentamente com a expressão nele estampada. Sorria bastante e os olhos brilhavam de animação cada vez que falava sobre algo que gostasse. Sorri também. Era óbvio de onde Turner havia tirado sua fisionomia. Robert, o irmão, era também muito parecido com o pai, embora não tanto quanto Turner devido aos cabelos loiros e os olhos azuis.

Depois que terminaram de falar – eu praticamente não havia prestado atenção em muita coisa –, o Sr. Edwards deu como terminada a excursão, dando a palavra à Turner, que explicou como funcionaria o relatório que iria pedir. Então, fomos liberados a dar uma olhada pelo prédio e fazermos mais perguntas, se quiséssemos.

Girei a cabeça ao observar o local. Todo o prédio era perfeitamente organizado e espaçoso – era enorme! – e tinha um ar extremamente elegante em cada parede, cada móvel e cada quadro. Haviam esculturas e folhagens por tudo, tão majestosas quanto a estrutura do local em si. As pessoas que trabalhavam ali eram todas bem vestidas, apesar de – olha que surpresa! – nem todas usarem roupas sociais.

Reprimi o riso antes de voltar os olhos à Turner e sua roupa. Ele, que conversava com Garett sobre alguma coisa, desviou os olhos para mim. Franziu o cenho, provavelmente se perguntando do que eu ria. Apenas pisquei um dos olhos para ele antes de caminhar em direção aos meus amigos.

— Vocês acham que eu devo? — ouvi Cenoura perguntar, obtendo uma revirada de olhos de Laurel.

Estavam os quatro juntos, conversando abertamente. Laurel tinha os cabelos vermelhos soltos nas costas e um batom, também vermelho, nos lábios. Cenoura tinha o celular na mão, variando o olhar verde entre este e as pessoas à sua volta, nervoso. Johnny, ao seu lado, tinha uma roupa simples no corpo, com uma camiseta sobre jogos, como sempre. Deu um suspiro pesado quando me viu antes de voltar a atenção para o pessoal.

— Você já devia ter pedido há muito tempo, bocó! — falou, dando um peteleco na cabeça ruiva.

— Pedido o quê? — perguntei, enfiando-me na rodinha.

Gabe, rindo, voltou os olhos à mim ao balançar a cabeça.

— Pedido Jess em namoro — disse ele, desviando os olhos azuis aos de Cenoura. Nem tentei reprimir a revirada de olhos.

Sério que ele ainda não havia pedido a garota em namoro? Depois de semanas falando a respeito disto?

— Sério, Cenoura? Sério? — perguntei, ouvindo a risada de Gabe. Cenoura apenas estreitou os olhos em minha direção enquanto que Laurel assentia para mim, concordando.

— Não é tão fácil! — defendeu-se ele, indignado.

— Claro que não — ouvi Johnny falar, levando a mão ao ombro de Cenoura como se desse apoio. — Não dá bola para eles, cara. Eles não entendem nada sobre o assunto. Não tá vendo que todos são solteiros? — perguntou de forma calma, como sempre falava.

— Ei! — ouvi Laurel gritar, fuzilando-o com o olhar.

— Cara, isso não é justo! — falou Gabe, ao mesmo tempo.

Eu apenas ri da indignação deles. Gabe ruborizou um pouco ao olhar para Laurel, que estapeava Johnny com vontade enquanto ele se defendia. Em seguida, desviou os olhos em minha direção. Ficamos nos encarando por alguns segundos antes dele sorrir e desviar o olhar. Nós tínhamos este tipo de comunicação silenciosa agora, já que estávamos na mesma situação. Eu sabia sobre Laurel e ele sabia sobre o Turner.

Quando os rumores de que Turner estava dando-me privilégios começaram, meus amigos apenas ficavam bravos junto à mim do pessoal sequer cogitar que Turner havia rasurado minha nota, que havia me ajudado a gabaritar por vontade própria. Até porque, segundo Laurel, Turner não seria capaz de ajudar ninguém por vontade própria.

Logo após, a festa aconteceu e a fofoca sobre ela passou a correr pelos corredores. Constrangedor, devo admitir. Quem não estava na festa, ficou sabendo pelos outros que eu havia beijado um homem. Então os rumores sobre eu e o Turner cresceram violentamente, variando entre ele estar dando-me regalias e eu estar tentando seduzi-lo constantemente contra sua vontade.

A segunda teoria se aproxima da realidade, pensei com desgosto.

Olhei para meus amigos, que riam abertamente. Mesmo embriagado, quando vi que todos estavam me encarando enquanto eu tinha os braços ao redor do pescoço do estranho, senti um medo terrível se espalhar por meu corpo. Mesmo embriagado, dei-me conta da dimensão que o que eu havia feito tomou. Porém, mesmo sendo um borrão na memória, lembro que me ajudaram a caminhar em direção ao carro no final da festa. Lembro de Laurel rindo alto, bêbada como eu, e me dizendo que eu tinha um bom gosto.

No outro dia, quando acordei todo errado no sala de Laurel – todos haviam ido para lá, como sempre –, foram muito receptivos para comigo. Nenhum comentário maldoso havia sido feito e nenhum questionamento à fundo, embora eu pudesse sentir os olhos deles em mim, curiosos. Isto, mesmo que levemente, me fez perceber que não havia porquê eu sentir medo de me expor. E eu tinha os melhores amigos do mundo, afinal.

Apesar de todos terem visto eu praticamente me agarrar com um cara na pista de dança, ninguém sabia exatamente o que acontecia entre Turner e eu. Apesar de que, os olhares desconfiados que iam de mim até Turner e de volta à mim, haviam se feito bastante presentes. Laurel, sendo Laurel, atreveu-se a me perguntar se eu estava realmente gostando do nosso professor. Podia ver a desaprovação nos olhos castanhos. Ela realmente odiava Turner.

Desprovido de coragem, neguei incessantemente na frente de todos. Sentia-me mal de mentir para eles, mas como eu poderia contar-lhes, se não fazia ideia de onde isso daria?

No entanto, Gabe percebeu em algum momento nas aulas. Confrontou-me e disse algo do tipo: — Cara, não mente! Eu sei que você gosta dele, da mesma forma que você sabe que eu gosto da Laurel havia dito, meio encabulado.

E quando eu percebi que ele estava certo do que dizia, não pude fazer nada a respeito. Deixei quieto apenas. Até porque, Kaori sabia também. O irônico é que eu havia contado à ela no mesmo dia da festa, antes dela acontecer. K escutou tudo com atenção — e animação! — e tentou ao máximo me consolar dizendo que eu estava fazendo tempestade em copo d'água.

— Ele é meio estranho, mas achei bonito havia dito, com os olhos brilhando de uma forma que nunca brilharam quando se tratava de Amy.

Revirei os olhos ao lembrar do que a japonesa havia dito.

Ele não é estranho!

Assim que fomos orientados escadas abaixo, suspirei com decepção. Como fiquei para trás, não pude ficar perto de Turner, já que ele liderava o pessoal ao descer.

Eu não conseguia parar de pensar nele. Antes com pesar, mas agora com felicidade. Eu não conseguia parar de olhar para ele nem cansava de ouvir sua voz — como geralmente acontecia nas aulas do semestre passado. Eu não conseguia nem lembrar como era antes de conhecê-lo melhor.

Em poucas palavras, eu estava ferrado.

Desejei poder voltar no tempo. Apenas algumas horas antes. Queria sentir de novo as mãos de Turner nas minhas, queria que ele se inclinasse em minha direção novamente e me pedisse para que não beijasse mais ninguém. Queria que ele me levasse para trás de uma pilastra novamente.

Quão sexy era isso?

Embora, se eu voltasse no tempo, talvez não tivesse coragem de contá-lo que fiquei com alguém que não fosse ele. Eu tive que contar, porque percebi que ele não sabia de nada a respeito. Não havia ouvido nada, mas acabaria ouvindo de outras pessoas depois. Eu tive que contar.

Quando percebi que ele passou a me olhar novamente da forma como antes, quis me jogar de uma janela. Como eu pude beijar outra pessoa?

Fechei os olhos, decepcionado.

Se eu soubesse que estava sendo um idiota, nunca teria ficado com ninguém. Mas ele tornou as coisas difíceis também! Quando me trouxe para trás com ele, puxando assunto, eu nem soube o que pensar. Minha mente ficou dando tantas voltas que podia jurar que sairia fumaça dela. Eu tinha tanta certeza que ele me odiava que meu peito inflou-se de emoção quando percebi que estava errado.

Meu deus, a sensação era tão boa quanto os bolinhos japoneses da tia Kira!

Ouvi alguém pigarrear do meu lado. Virei e encontrei Gabe inclinando-se em minha direção. Estávamos lado a lado na escada.

— Acho melhor você disfarçar um pouco — disse ele baixinho e, ao se afastar levemente, ergueu uma das sobrancelhas. — Digo, se não quiser que alguém descubra que está apaixonado.

Abri a boca involuntariamente, enquanto tentava processar as palavras.

— Apaixonado? — perguntei, débil.

Ele riu alto dessa vez, sem se importar em disfarçar.

— Não vai dizer que ainda não percebeu que esse sorriso todo e esses suspiros são sinais de profunda paixão? — perguntou irônico, dando ênfase no profunda paixão.

Arregalei os olhos, sentindo meu rosto queimar.

Eu não podia estar apaixonado. Podia?

— Eu sei, eu sei — disse ele, ficando sério subitamente. — Não é tão óbvio como todos dizem, não é? Não é tão óbvio para gente como é para os outros — completou, sorrindo novamente.

Não, não é. Embora agora tudo estivesse tão claro quanto cristal para mim. Estreitei os olhos em sua direção.

Obrigado por me fazer dar de cara na parede, Gabe!

Porém, fiquei quieto. Pensei por um tempo antes de atrever-me a perguntá-lo, quando já havíamos chegado no térreo:

— Gabe — chamei, incerto, vendo os olhos azuis voltarem à mim. — Você não se importa? De eu ser... Digo, de eu estar... Você sabe — falei, desviando o olhar.

— Claro que não — disse ele, sorrindo ao colocar a mão em meu ombro. — Você sabe. Eu nunca me importei muito com esse tipo de coisa, cara. Eu não me importo com quem você fique ou namore ou sei lá — disse, dando de ombros.

— Obrigado — murmurei, sorrindo. Então acrescentei: — Johnny se importa.

Vi suas sobrancelhas erguerem ao me observar. Claro que ele havia notado também. Apesar de Johnny não dizer nada à respeito nem dirigir olhares repreendedores em minha direção, estava explícito que me ignorava ao máximo. Parecia tentar fazê-lo de forma que ninguém percebesse, mas o fazia mesmo assim.

— Johnny tem suas crenças — disse ele com um suspiro. — É complicado, eu sei. Mas estamos do seu lado para o que precisar — completou e, sem saber o que mais dizer, apenas sorriu.

Sorri de volta, assentindo. Ele apenas deu de ombros novamente, me puxando em direção à saída, por onde todos já haviam passado. Só então percebi que realmente ficamos para trás.

Ao chegar do lado de fora, vi que Turner me procurava, mais perto da porta que o resto do pessoal. Encontrou meu olhar e deu um suspiro, teatralmente aliviado. Parei perto dele, vendo Gabe seguir o caminho até os outros. Quando voltei o rosto ao bonito de Turner, vi que ele também observava Gabe afastar-se. Voltou os olhos para mim, com o rosto e os lábios franzidos, antes de balançar a cabeça e sorrir.

— Aí está você — disse ele de forma simples, sorrindo.

Sentindo meu peito aquecer, limitei-me a encará-lo de volta.

— Aí está você — repeti, dando um empurrão de leve em seu ombro, embora não tenha feito ele se mexer nem um centímetro. Seu sorriso alargou.

— Achei que tinha perdido você aí dentro — falou, com a mão no peito de forma teatral. — Tão pequeno — falou, me deixando surpreso.

Apesar de não demorar para escurecer, o céu ainda estava claro, iluminando seus cabelos escuros. Tinha a pose de sempre, com as mãos nos bolsos.

— Ei! Quem é pequeno? — perguntei, indignado.

Eu não era muita coisa menor que ele para me chamar de pequeno! Aliás, eu tinha a estatura normal!

— Se você não é, então parece — falou, cheio de si. — Talvez sejam as roupas largas que usa — continuou, me olhando de cima abaixo. — Talvez seja porque está precisando se alimentar melhor.

Deixei a boca cair. Eu não era tão magro assim!

Então percebi o tom zombeteiro em sua voz, me deixando tão chocado quanto. Estreitei os olhos, dando um passo em sua direção.

— Talvez você esteja vendo coisa onde não tem — falei, arqueando uma das sobrancelhas.

Virei-me em direção ao ônibus que estava parado do outro lado da rua, junto dos meus colegas. Tínhamos que ir antes que alguém percebesse que havíamos ficado os dois ali, sozinhos. Vi pelo canto de olho Turner passar a caminhar ao meu lado, também encarando o ônibus.

— Talvez você seja simplesmente pequeno — respondeu-me tardiamente, sem olhar-me nos olhos. Podia ver o sorriso alargar-se em seu rosto.

Nossas mãos roçavam uma na outra ao caminhar, trazendo um sorriso ao meu rosto também. Não deixei ele se apagar até parar bruscamente, já perto o suficiente do ônibus para nos verem, mas não perto o suficiente para nos ouvirem.

— Talvez você é que seja grande demais, Turner — falei, erguendo uma sobrancelha. Sorri largamente, do mesmo jeito que o fazia normalmente. Mordi o lábio inferior logo após, levando uma mão ao seu peito. Sabia que, de costas para a turma, ninguém veria.

O sorriso de Turner falhou um pouco ao entender o duplo sentido do que eu falara e ele engoliu em seco. Piscou algumas vezes, desviando o olhar às minhas costas e logo à mim novamente. Era quase imperceptível, ainda mais com a luz do dia, mas pude ver o rubor espalhar-se em seu rosto. Só então dei-me por satisfeito, afastando a mão e virando as costas para seguir em direção ao pessoal.

Já haviam feito uma fila indiana para entrar no ônibus, com Edwards, desta vez, recolhendo as fichas. Haviam cinco pessoas à minha frente, sendo eu o último para entrar quando Turner falou alguma coisa para Edwards, que entrou no ônibus, e tomou seu posto. Seus olhos brilhavam, de certa forma ferozes, ao encontrar os meus. Tentei inutilmente reprimir o arrepio que subiu minha espinha ao perceber que ele havia tomado o posto de Edwards propositalmente. E me encarou para que eu soubesse.

Quando chegou a minha vez, entreguei-lhe a ficha, sentindo seus dedos rasparem rudemente nos meus. Com o coração batendo forte, virei o rosto para o outro lado, erguendo a perna para subir no ônibus. No entanto, sua mão fechou-se em meu braço, puxando-me para trás, me desequilibrando.

Encostou os lábios molhados em meu pescoço, fazendo-me literalmente tremer. Tanto pela ação quanto pela noção de que qualquer um que colocasse a cabeça para fora da janela poderia nos ver. Assim como o motorista do ônibus. Arregalei os olhos ao encarar motorista que, por sua vez, também me encarava com as sobrancelhas arqueadas. Afinal, ele estava na minha frente!

Será que Turner não o havia visto ou apenas não havia se importado?

Perdi a linha de raciocínio quando senti a língua também em meu pescoço. Fechei os olhos e apertei os lábios para não soltar nenhum som vergonhoso.

Meu deus, o que havia dado nele?

Então afastou os lábios minimamente, logo sussurrando: — Você não faz ideia do quanto, Will — disse ele e pude sentir o sorriso em minha pele. Demorei um pouco a entender que estava respondendo o que eu havia dito antes. Senti o corpo inteiro esquentar.

Havia feito propositalmente, o maldito!

Não sabia se eu ficava com raiva ou se o beijava, ignorando também o olhar do motorista. No entanto, não tive tempo de pensar. Ele afastou-se o suficiente para ficar com o rosto em frente ao meu. Os olhos cinzas estavam escuros e o rosto, relaxado. Sem fechar os olhos, aproximou-se para colar nossos lábios. O selinho durou apenas um segundo, embora tenha sido diferente da outra vez. Não foi brusco nem ansioso. Foi terno. Pude ver um sorriso pequeno em seu rosto logo após. Os olhos escuros tornaram-se mansos e carinhosos.

— Você não faz ideia — repetiu baixinho, os olhos focados em meu rosto.

Disse a mesma coisa, embora agora eu já não tivesse certeza do que ele falava. Observando o rosto relaxado e os olhos carinhosos, percebi que talvez ele também não tenha percebido que havia aberto a boca uma segunda vez.

Como se acordasse, sorriu maior antes de passar uma das mãos em meu cabelo, assentindo.

— Pode entrar — disse ele, voltando à postura normal.

Percebi que ele o havia feito justamente para me deixar bobo, como deixei ele antes. Agora era ele quem me sorria maliciosamente. Nem tentei raciocinar se daria merda o fato do motorista ter-nos visto. Turner devia saber que não. Não tentei provocá-lo de volta tampouco. Sabia que meus neurônios não funcionariam.

Consciente de que ele queria mudar as posições do meu jogo, pensei que devia mostrar-lhe uma revanche em um outro momento. Outro dia, de preferência, porque eu demoraria algum tempo para conseguir regular minha respiração.

Assenti mecanicamente, talvez mais do que devia, antes de obrigar minhas pernas bambas a subirem, enfim, no ônibus.

Foi uma longa viagem.

Notas finais
Não sei se ficou lá grande coisa, porque apesar de ter bastante texto, não tem muito diálogo entre nossos queridos :/ E também que eu estou percebendo... Eu sou muito perfeccionista, é uma merda. Eu sempre acho um defeito que faz desestruturar todo o texto, mas pra mexer nele eu teria que mexer em tudo e não tenho tempo pra isso. Então fico meio de cara quando posto o capítulo e tem uma coisa ou outra que não pude mudar ahahaha :P MAS ME AGUARDEM NO PRÓXIMO, vou fazer vocês pirarem! Ahahahahhah E cara, só queria dizer aqui que eu tô muito feliz com os comentários de vocês! Muito mesmo! Eu sou muito sensível, eu acho :P Mas sério, cada palavra de carinho que vocês dedicam à fanfic me faz ter mais vontade de escrever e deixá-los satisfeitos! Muito obrigada mesmo ♥ Atualizada: 09/2017.