Made of Fire

46 XIV. Diga-me com quem andas e direi quem tu és


Notas iniciais
Gente gostosa, gente cheirosa, gente maravilhosa! *-* Trago aqui um capítulo a respeito das pessoas com as quais vocês levam com vocês aonde for. Família, amigos, amores. Se trata de uma linha fina e conectada, e espero que vocês saibam escolher com quem estar. Coloquei um pouco do meu carinho na vovó Jones aqui embaixo ahahahha. Espero que gostem ♥ Will's POV Boa leitura! *-*

Eu nunca quis me alistar ao exército, e me peguei pensando no motivo durante os últimos dias. Cheguei à conclusão logo após, sendo que ela se resumia em uma coisa apenas: família.

Vovó Jones, antes de perecer, costumava dizer aquele famoso ditado de gente mais velha: diga-me com quem andas e direi quem tu és.

Eu, como criança, não havia entendido o sentido daquele ditado cheio de razão, e quando compreendi, pensei que se tratasse apenas de amizade. Fiquei tranquilo, porque todos os meus amigos eram bons exemplos de gente, e eu me portava com eles da mesma forma como me portava com minha família.

Apenas adulto, me dei conta o motivo de vovó repetir o ditado tantas vezes quantas me fizessem pensar a respeito.

Diga-me com quem andas e direi quem tu és.

Ela não se referia aos meus amiguinhos de colégio, todos de coração bom e sorriso no rosto, ela se referia à pessoa que vivia no mesmo teto que eu. De tanto observar meu pai se embebedar e partir para a agressão verbal e física com quem estivesse em frente, vovó temia que eu me transformasse em uma versão barata dele.

Eu não devia apenas me livrar das maçãs podres em meu colégio, eu devia me livrar de toda a podridão que encontrava dentro da minha própria casa. O ditado não tratava apenas de amizades de ruas, mas também de convivência pessoal. Não importava que o sangue dele corresse em minhas veias, ele não era uma boa companhia e muito menos trazia o melhor de mim.

Diga-me com quem andas e direi quem tu és.

Vovó, mesmo com o pouco que eu lembro dela, havia me ensinado uma das maiores lições da minha vida:

Família não é aquela que se parece contigo, mas aquela que, mesmo diferente, permanece ao teu lado.

Aprendi que laços de sangue de nada são capazes contra laços de amor e compromisso. Aprendi que Cenoura e Gabe podiam, sim, ser meus irmãos e não só amigos, enquanto Hugh Jones podia, sim, ser apenas um desconhecido e não um pai.

Aprendi a escolher quem caminha ao meu lado e quem trás o melhor de mim.

Depois que meu pai, aquele borracho inútil, pegou suas coisas e partiu para a puta que pariu, eu fiquei de responsável. Não por alguma questão machista de que apenas um homem pode cuidar de uma família, já que minha mãe o fez perfeitamente, mas por uma questão de instinto protetor. Meu irmão cresceria sem um pai, assim como eu, já que o nosso de nada valia. E minha mãe, tão amorosa e tão entristecida, estaria sozinha na missão de criar, ensinar, ralhar, pôr comida na mesa; enfim, em todas as missões. Ela precisava de minha ajuda e meu irmão necessitava crescer sabendo que não precisávamos de um cara bêbado por perto, que nós somos e sempre seremos o suficiente.

Só nós.

Nossa perfeita e desregular família.

A decisão sobre não abandonar minha família para, certamente, morrer em alguma guerra no Alfeganistão, foi tomada instantaneamente. Eu seria incapaz de fazer minha família passar por isto, mesmo que admire todos aqueles que o fazem, porque meu instinto de cuidar-lhes e não fazer com que percam mais nada nem ninguém era mais forte do que qualquer senso que tenho de ação solidária e patriorca.

Não que fossem me aceitar para guerrear, visto que tenho a coordenação motora de um alcoólotra e sou tão musculoso quanto sou hétero. Sem falar que realmente sou apegado ao álcool — obrigado, pai! — e ao sexo com o mesmo sexo, então seria muito improvável me aceitarem no exército. Mas mesmo assim. Estes sequer eram meus motivos para desistir antes de tentar me alistar ao Exército.

Eu não queria tentar.

Eu já me peguei pensando o que sentiam aquelas famílias ao esperar notícias sobre o ente querido estar vivo ou morto, por semanas, meses, anos. Uma mãe com o coração na boca com o medo de ter que enterrar o filho e não ao contrário, um filho na espera de um pai para que possa crescer com todos os laços familiares dos quais necessita, uma mulher à espera de um marido, sabendo que o pouco tempo juntos ainda não havia sido o suficiente. E ao pensar em coisas assim, eu sinceramente não sabia se seria forte o suficiente para tamanha pressão. E tampouco gostaria de esperar que minha mãe e meu irmão o fossem.

Mas, bem, surpresa da vida!

De nada serviu.

Porque minha família está perfeitamente bem e com a mente tranquila, mas o carma acabou enroscando-se em mim.

Eu sou aquela mulher esperando o marido voltar da guerra. Inteiro, ferido, mutilado ou morto. Eu sou aquela pessoa que teme sorrir a todo momento, porque em segundos tudo pode se esvair.

Se eu era forte o suficiente, eu não fazia ideia. Não sabia por quanto tempo aguentaria ficar encarando a parede e remoendo por dentro a pergunta que se fazia presente em minha cabeça de forma constante: como diabos isto ocorreu? Ou então, folheando meu livro de memórias e me lembrando de todos os momentos bons e ruins que havia tido ao lado de Turner, me perguntando se eles voltariam a se repetir. Ou ainda, me doendo por dentro depois de todas as chamadas que ele me atendia e que eu não vacilava em insultar-lhe por tudo, com medo de que esta fosse nossa última conversa.

Sim. Eu havia crescido e me transformado naquela pessoa, na sala de espera, sentindo que a cada segundo a partir de agora uma bala atravessará o coração da pessoa que amo.

Turner é meu amor e já é parte da família. Turner é a pessoa que escolhi para caminhar ao meu lado. E ele ainda estava vivo.

Mas por quanto tempo?

— Anjo? — chamou ele, pelo celular, quando eu permaneci em silêncio.

Pressionei a mão contra meus lábios para impedir o soluço de sair.

Era sempre assim.

Todas as poucas ligações que Turner atendia eram assim. Eu o xingava, dizia para que voltasse, ameaçava largar tudo e ir atrás dele, mas no fim, ele fazia com que eu voltasse à razão de que isto pioraria tudo e acabasse em silêncio, chorando baixo para que ele não escutasse.

— Anjo, eu não posso voltar agora — continuou, com um suspiro pesado. Com a voz pesada. — Eu vou voltar para você, meu amor. Espera por mim, confie em mim. Mas tenha calma, por favor — pediu, e percebi que ele já nem mais sabia o que dizer.

Tenha calma. Espere. Confie em mim.

Era o que ele sempre pedia, e era o que eu sempre fazia.

Mesmo que eu soubesse que ele estava mentindo.

— "Tenha calma"? — deixou escapar Gabe, com o cenho franzido, menos de uma hora depois da ligação de Turner encerrar. Então deixou escapar a indignação em forma de palavra: — Porra!

Quem caminha ao seu lado é escolha sua, isto é certo. Mas o destino é engraçado e ele próprio escolhe quem é que vai aparecer em sua vida.

Kaori é minha melhor amiga desde sempre, gosto de dizer, assim como Cenoura. Cenoura era meu melhor amigo desde o colégio, e dois anos depois de havê-lo conhecido, surgiu Gabriel. No entanto, Gabe e eu nunca tivemos tanta aproximação quanto Cenoura e eu, ou Cenoura e ele.

Mas, por um acaso do destino, estávamos Gabe e eu atirados no meu quarto, na minha cama, em uma quarta-feira, após eu haver contado tudo que não contara à mais ninguém, para ele. Minha vida pessoal, minha vida amorosa e todo o medo que me fazia dormir muito mal durante todas as últimas noites.

K era toda amor, eu seria incapaz de contar para ela sobre todo o pesadelo que eu estava vivendo. Sem falar que minha aflição provavelmente a afligiria ainda mais, e ficaríamos os dois sem dormir direito, sem que eu me sentisse melhor.

Só que eu precisava contar para alguém. Mesmo com Jay me ligando de vez em quando e mandando mensagens para se certificar de que eu estava inteiro e de que eu não havia contado à ninguém e nem havia ido atrás de Turner em Mallow Coast. Até em minha porta havia aparecido, talvez por pedido do próprio Turner. Mesmo assim, Jay era amigo dele, e não meu. Eu já o amava à minha própria maneira, mas eu precisava conversar com um dos meus.

Havia certa cumplicidade entre mim e Gabe desde que descobri sobre Laurel e ele descobriu sobre Turner. Talvez, depois de tudo, havíamos ficado realmente próximos, de um jeito que deveria ter sido sempre.

— É o que eu digo — concordei com ele, impulsionado pela mesma incredulidade.

— Cara, até eu estou nervoso — falou, colocando a mão no peito. Os olhos azuis, que haviam se alargado ao passo que eu despejava sobre ele tudo o que sabia, permaneciam assim. — Imagina você, que dorme com ele! — falou, balançando a cabeça.

No entanto, a forma como falou deixou com que um sorriso se formasse em meu rosto. Era muito gratificante estar ouvindo este tipo de coisa de um amigo, com tanta naturalidade, depois de relutar tanto em gritar ao mundo sobre minha sexualidade.

Gabe continuou encarando o nada, repassando na mente o que eu havia contado, um tanto perplexo.

— Cara, o professor Turner... — murmurou, ainda incrédulo. — Eu nunca iria imaginar algo assim.

Suspirei, brincando com o travesseiro que eu segurava em meu colo, com as costas na parede na qual minha cama era encostada.

— Eu só queria poder fazer alguma coisa — resmunguei, tentando não chorar pela milésima vez no dia.

Gabe pareceu despertar de seu transe, erguendo o olhar e suspirando também.

— Eu sei — murmurou ele, piedoso. — Mas vai dar tudo certo. Se até ele, que está lá no perigo, diz isso, é porque realmente consegue sair desta.

Mordi o lábio inferior.

— Ele mente — contei, evitando olhar em seu rosto.

— O quê?

— Ele mente, Gabe — reforcei, erguendo o olhar para seu cenho franzido. — Eu conheço o Turner, e depois que ele voltou para lá, ele ficou estranho. Ele mente quando diz que vai dar tudo certo, ele mente quando diz que vai voltar, ele mente quando diz que consegue sair desta. Porque desde que ele voltou, ele soa cada vez mais deprimido. — Gabe engoliu em seco. — Cada vez mais, Gabe...

Atirei-me para o lado, jogando meu corpo no colchão, sem querer ver sua reação. Percebi que ficou sem palavras com o que eu disse. Não tinha nada o que falar, afinal, que amenizasse a situação.

— Você precisa sair um pouco — falou, por fim, enquanto eu encarava o teto. Logo Gabe apareceu no meu campo de visão, pouco a pouco, tapando a luz da lâmpada. Sorriu. — Will, a vida não gira em torno de romance.

Foi involuntário o sorriso que surgiu no meu rosto, evoluindo para um riso, enquanto Gabe também ria.

Ele apenas repetia a mesma frase que eu havia dito à ele alguns meses atrás, quando não parava de tagarelar sobre a Laurel e sobre ele não ter chance alguma com ela.

— Idiota — falei, pegando o travesseiro e jogando nele, que desviou, ainda rindo.

— Ei! — disse, erguendo os braços. — Sem hipocrisia!

Logo estávamos saindo para fazer alguma coisa, como em todos os outros dias anteriores. A diferença é que agora Gabe sabia, e fazia de tudo para que eu risse de suas piadas ou das piadas de todos os outros.

E o resto da semana se foi.

A semana passou tão devagar que parecia ter passado uma década, um século, uma era. E então, finalmente era sexta-feira, dia do concerto de Peter.

Eu me assemelhava a um zumbi durante as aulas, mal prestando atenção, deixando de entregar trabalhos. Faltei um dia, e nos outros cheguei atrasado ou dormi o que não dormia de noite durante a aula. Na aula de Administração Financeira II, eu tinha vontade de pegar minha classe e jogar na cabeça do professor substituto. Ele era simpático, fazia piadinhas sem graça, e resolvia os exercícios para todos.

Turner, mesmo depois de haver frouxado a pose de amargurado, jamais daria tudo de mão beijada para seus alunos. Turner faria com que todos pensassem, repensassem e se mesmo assim não soubessem a resposta, criassem uma. Ele instigava a gana de todos os estudantes de mergulhar no estudo e se provarem não só bons, mas excelentes futuros profissionais. Ele instigava a dúvida, mas mesmo assim garantia que todos estufassem o peito quando se provassem corretos e com razão. E aquele cara, cheio dos sorrisos e das respostas fáceis, não era Richard Turner.

E eu o odiei por isto, mesmo que ele não tivesse culpa.

Ao longo da semana, percebi que todos haviam se aproximado de mim instintivamente. Talvez eu transparecesse preocupação e depressão, porque até mesmo minha mãe e Caleb davam um jeito de ficar perto de mim como uma espécie de apoio, mesmo que eu não houvesse aberto a boca para falar o que se passava.

Laurel ignorou sua chateação para com Gabe para andar comigo, e Pete, que já estava em todas as partes, agora também ia até minha casa para matar tempo e tentar me arrancar sorrisos com suas gracinhas.

Sexta-feira havia chegado e Peter estava tão animado para tocar — reforçando o quanto amava a música -, que eu não sabia como ele permanecia em pé ao invés de estar pulando pela rua.

Estávamos no campus da universidade, em uma área extensa e gramínea, onde sempre era montado o palco quando eventos ocorriam ao ar livre. O curso de Música havia aproveitado o palco usado pelas palestras que ocorreriam durante a tarde daquele dia para o posterior concerto que arrecadaria dinheiro para a formatura deles. Havia um número considerável de gente perambulando pelo local e o sol estava quase se pondo. As caixas de som estavam sendo preparadas enquanto estávamos sentados em uma rodinha na grama.

Eu não havia me arrumado tanto, mas ao olhar para meus amigos vi que apenas as garotas o houveram feito. Peter parecia um rockstar com a roupa preta e a calça jeans rasgada. Cenoura e Gabe se vestiam normalmente, assim como eu. Mas as garotas estavam arrumadas: Laurel, que estava com os cabelos encaracolados, o que era bem raro, Kaori em um vestido e Jessica com uma blusa chamativa. JJ, como havíamos melhor conhecido durante aquelas últimas semanas — mais ainda porque Peter falava dela o tempo todo -, usava um macacão amarelo e curto e tinha os cabelos crespos envolvidos em uma trança.

— Como assim, cara? — perguntou Cenoura, gesticulando. — Você toca super bem!

Os olhos castanhos de Peter brilhavam como o faziam toda vez que alguém elogiava sua música, mas mesmo assim estava receoso com o concerto. Remexia as mãos em nervosismo.

— Mas eu estou nervoso — disse ele, realmente rindo de nervoso.

JJ revirou os olhos castanhos por detrás dos imensos óculos redondos. Os óculos usados para lente de grau daquele tamanho ficariam muito estranhos em qualquer pessoa, fazendo parecer como se tratasse de um idiota nerd. No caso de Jessie Julia, no entanto, eles ficavam adoráveis. Era como Jay e seus dreads, combinavam perfeitamente com ela.

— Deixa de ser bobo, Pete — disse ela, pondo uma das mãos na coxa dele. — Você sabe muito bem que seu nervosismo acaba toda vez que sobe no palco!

— Com a minha banda — apontou ele, erguendo os ombros. — Hoje vou estar sozinho.

— Sozinho com toda a sua turma — pronunciei, fazendo com os olhos voltassem à mim. Peter sorriu. — Se você for muito ruim, o resto do pessoal vai ofuscar sua voz e seu violão.

Gabe gargalhou, e Peter riu também.

— Credo, Will — disse Laurel, rindo junto, enquanto K arregalou os olhos pela forma como falei.

— O quê? — perguntei, desentendido. — Não é verdade? — perguntei à Peter, que sentava ao meu lado.

Ele assentiu.

— Tem razão — disse ele, com um sorriso mínimo, parecendo sincero —, e isso me faz sentir estranhamente melhor.

Abri os braços, olhando para todos.

— Viram só? — perguntei, debochado.

— Vai dar tudo certo — reforçou o próprio Peter, adotando uma postura melhor. Tentava acalmar os nervos.

— Eu acho que nós já devíamos ir pensando em como arrecadar dinheiro para a nossa formatura — pronunciou Laurel, apoiando o peso nas mãos atrás do corpo.

— É verdade. — Cenoura passou um braço pelos ombros de Jess, em um gesto automático, de forma pensativa.

— Credo — falei, fazendo uma careta. — Não quero nem começar a pensar nisto ainda!

— Como que não, Will? — Laurel me repreendeu com o olhar.

— Ainda tem bastante tempo — interviu Gabe, dando de ombros.

Laurel o ignorou, continuando a me encarar.

— Você sabe que é bom começar a planejar desde o começo, mesmo que ainda tenha bastante tempo. — E então, repreendeu Gabe com o olhar castanho, mas ele deu de ombros novamente.

— Claro — murmuraram JJ e Peter, quase ao mesmo tempo, prestando atenção na conversa.

— Eu concordo com Laurel. — K ergueu os ombros. Fuzilei-a com o olhar, mas ela apenas sorriu. — Eu sei, eu sei. Eu estudo em universidade particular e tudo o mais, mas o princípio é mesmo. Já estamos organizando a nossa desde já.

K passou um dos braços em minha cintura e escorou a cabeça no meu ombro e, mesmo a contragosto, envolvi seu corpo pequeno contra o meu. Percebi, ao meu lado esquerdo, Peter sorrir com a ação.

— Estou louco para me formar e dar um adiós para a universidade — disse ele, rindo.

— Nossa, não! — disse Jess, abraçada em Cenoura, com um riso. — Eu não consigo me ver longe daqui.

— Nem eu — falamos em uníssono eu, Cenoura e Gabe.

Gabe gargalhou com o feitio.

— Mas é sério — falei, estalando a língua. — Apesar de todas as matérias ruins, de todos os ônibus lotados...

— De todas as ressacas passadas em aula... — acrescentou Laurel, arqueando as sobrancelhas.

— De todas as confusões... — continuei, com uma careta, ao lembrar das brigas em aula e, consequentemente, da surra que levei.

— De todas as noites mal dormidas... — Riu-se Gabe.

— Apesar de tudo isto... — continuei, sorrindo, mas Laurel atrapalhou.

— Eu adoro o campo de guerra — finalizou ela, com um sorriso malévolo ao piscar um dos olhos delineados, enquanto todos se riam.

Revirei os olhos, rindo também, e sentindo o corpo esguio de Kaori balançar com o riso contra meu peito.

— E é uma guerra mesmo — completou Cenoura, balançando a cabeça. — Lembra de quando Nicole jogou o caderno na cabeça da melhor amiga, porque o namorado a traiu com ela?

E então, gargalhou, daquela forma que só Cenoura fazia. Sorri também.

Em seguida, várias memórias foram jogadas no meio da rodinha, enquanto o céu escurecia aos poucos atrás de nós e o campo lotava de pessoas. Todos compartilharam histórias diferentes sobre os cursos, os amigos, os rivais, os professores.

Forcei-me ao máximo para manter Turner no fundo de minha mente, mesmo que minha mão apertasse o celular, pronto para senti-lo vibrar caso ele me ligasse.

Sorri o máximo que pude, e tentei relaxar os ombros, até conseguindo em alguns momentos. No entanto, meu sorriso se esvaiu logo em seguida, quando o assunto se desviou para confusões na universidade e logo para o preconceito entre alguns dos professores e dos próprios estudantes.

— Sim — respondeu Cenoura, incrédulo. — Eu soube disto — referiu-se ao caso de um professor que agiu de forma racista com um aluno negro. — Não sei como as pessoas são capazes de algo assim. — Soltou um muxoxo, realmente chateado, da forma como todos estávamos.

— As pessoas são capazes de tudo, movidas pelo medo — disse Peter, sábio.

— Medo do desconhecido, medo do diferente, medo deles mesmos... — filosofou a amiga, ajeitando os óculos no rosto.

A discussão seguiu, e Peter até pareceu haver esquecido do nervosismo quanto ao concerto que logo ocorreria, enquanto todos compartilhavam suas opiniões com interesse. Discursamos um pouco sobre nossas opiniões, e logo o assunto levou à homofobia.

— Nem me fala — disse Peter, estalando a língua. — Também teve o caso do garoto que foi espancado por ser gay, aqui mesmo, na universidade — comentou ele, e retesei no lugar, sentindo K fazer o mesmo.

— Sim, eu lembro disso — pronunciou-se JJ, com o semblante pensativo. — Foi muita covardia, ainda mais que foram vários contra um — completou, fazendo uma careta assustada ao imaginar.

No entanto, não demorou muito para que os dois percebessem que todos estávamos em silêncio. Remexi-me no lugar, desconfortável, ao sentir alguns dos olhares de meus amigos em mim.

Peter, ao perceber que estávamos quietos, desviou o olhar por nós com o cenho franzido.

— Ah — disse, arqueando as sobrancelhas —, ele era do curso de vocês, não era? — perguntou, parecendo tentar se lembrar, mas também receoso pela forma como todos se portavam.

Suspirei de forma pesada.

— Nossa, já são oito horas — murmurou Jess, olhando no celular, com o intuito de desviar o assunto. Até mesmo ela sabia o que ocorrera comigo.

Mas eu sabia que não acabaria ali, então me pronunciei.

— Sim, é do nosso curso — respondi, ignorando os olhares de todos. — Fui eu.

Peter virou o rosto para mim tão rápido que pensei que o pescoço se quebraria. Sorri minimamente, erguendo os ombros, como quem diz: que merda né, fazer o quê, agora que tal trocar de assunto?

— Você? — murmurou, os olhos desfocando aos poucos.

— Eu — falei, suspirando ao olhar ao redor. Foquei os olhos no equipamento sendo organizado. — Mas que demora para arrumarem o palco, não?

Os outros permaneceram em silêncio. Voltei os olhos para Peter.

— Me desculpa, Will — murmurou ele, por fim, constrangido. — Se eu soubesse, eu não teria trazido à tona. Droga — disse, desviando o olhar para os demais.

A expressão culpada acabou atingindo meu lado altruísta.

— Você não tinha como saber, relaxa — falei, sorrindo para animar-lhe.

— É, cara — disse Gabe, fazendo um gesto com a mão. — Faz tempo que isso aconteceu...

No entanto, Peter continuou apreensivo pelo fato de ter sido eu o cara gay que apanhou de vários na própria universidade. Na nossa rodinha ali na grama, eu e Peter éramos os únicos homossexuais. Por mais que os nossos amigos tivessem empatia e nos defendesse com unhas e dentes, eles não poderiam entender a dimensão que um espancamento homofóbico toma em nossas mentes. Vai além de perturbador.

— Foi umas semanas depois de eu me assumir gay. Você sabe — falei, relanceando-o com a sobrancelha arqueada —, depois daquela festa.

Peter, bastante desequilibrado, franziu o cenho. Pensou por um instante, nublando a expressão preocupada com uma confusa. Então, focou os olhos em mim.

— Você se assumiu logo depois da festa que nos beijamos? — perguntou ele, abismado.

Senti o rosto queimar com as palavras dele. Não queria dizer que ele havia sido meu primeiro beijo gay e o motivo pelo qual tive a certeza absoluta que gosto é de macho.

Como não respondi, depois de desviar o olhar por entre os outros da rodinha em busca de respostas, voltou para mim:

— Você ainda não tinha se assumido quando nos beijamos? — perguntou, ainda chocado.

— Não, tá bom? — deixei escapar, incrédulo com as perguntas invasivas na frente de todos. — Eu não tinha certeza e nem coragem. E bom — acrescentei, relanceando Gabe, Cenoura e Laurel —, você me beijou na frente dos meus amigos e de alguns colegas, eu não tive muita opção!

Peter deixou o queixo cair, abismado. Mas então, ao perceber o meu desconforto, pigarreou e deixou um sorriso tímido surgiu.

— Me desculpa, coração — disse ele, abrindo ainda mais o sorriso.

Não estava arrependido. Revirei os olhos.

— Pete, eu acho que estão te chamando — disse JJ, tocando o ombro do melhor amigo, para a alegria de todos.

Peter ergueu a cabeça, voltando a ficar nervoso, para o palco. Dois rapazes do mesmo curso acenavam, chamando-lhe, já que o concerto começaria logo. Peter, ainda pedindo desculpas, se afastou, mas olhou para mim com o semblante pensativo.

Arqueei as sobrancelhas, esperando que dissesse algo, mas o vincar entre suas sobrancelhas apenas aumentou, como se estivesse se dando conta de algo. Pareceu perturbado com alguma coisa, mas logo sorriu e deu as costas.

Logo percebemos que o campo em frente ao palco estava realmente lotado, até mesmo perto do nosso grupinho, mesmo que estivéssemos longe do palco e da plateira. Nos infiltramos entre a multidão, depois de conseguirmos algumas bebidas com alguns amigos de Gabe, até chegarmos bem em frente ao palco.

Gabe começou uma conversa acirrada com JJ enquanto esperávamos os últimos preparativos, fazendo a garota sorrir abertamente. Laurel, ao ver a cena, provavelmente ao mesmo tempo que eu, revirou os olhos.

— Mais uma — disse ela, para mim, antes de virar o copo novamente. — Ele pretende pegar toda a universidade agora?

Arqueei as sobrancelhas, surpreso por sua reação, embora um pouco exagerada. Gabe estava mesmo empenhado em esquecer Laurel, ou talvez em irritá-la ao provar que se ela não o queria, haviam mais mulheres no mundo. Eu havia descoberto sobre três garotas com as quais ele saiu, fora aquelas que ele pegava nas festas, é claro. Mas não eram muitas.

Ergui os ombros, indicando que não sabia. Ela apenas bufou e deu as costas, passando o braço pela cintura de K e forçando uma conversa com ela.

Não sei qual dos dois era mais orgulhoso, Gabe ou Laurel.

Brincadeira uma coisa dessas, pensei, revirando os olhos.

Então, tirei o celular do bolso mais uma vez e liguei a tela. Nenhuma mensagem, nenhuma chamada. Suspirei, guardando-o novamente e erguendo os olhos para o palco, onde um dos veteranos do curso pegava um microfone e dava um discurso introdutório ao concerto.

Atrás dele, estavam todos os futuros formandos. Cada um tinha uma função. Havia cerca de oito pessoas enfileiradas, apenas com microfones à frente ou com uma flauta em mãos. Os outros estavam com seus respectivos instrumentos: violão, guitarra, saxofone, piano, violino, baixo, violoncelo, e bateria. Havia uma pessoa para cada instrumento, com exceção do violão, que havia Peter e uma outra garota.

Por um instante, como um desmiolado, fiquei pensando em como haviam tantas pessoas talentosas para a música em um só curso. Então, me lembrei que era o curso de Música.

Eu sendo eu, pensei comigo mesmo.

Peter, antes de focar os olhos em mim, estava com o cenho franzido para o meu lado direito, onde Gabe e JJ conversavam. Não parecia muito contente com a nova amizade que corria entre nosso grupo, mas não entendi o motivo. Então, dirigiu a atenção à mim, que o encarava na plateia.

Sorriu, piscando um dos olhos castanhos.

Idiota.

Balancei a cabeça, sorrindo também, ao soltar um muxoxo.

E então, o concerto deu início.

Eles começaram com Paradise, de Coldplay, e em seguida uma série de músicas foi tocada de forma tão distinta que chegava a encantar. Em algumas músicas, alguns instrumentos eram deixados de lado, enquanto em outras, eles eram usados em algumas partes específicas da música. O coral cantava em sintonia com os instrumentos, demonstrando o quanto todos haviam ensaiado para o espetáculo.

Todas as músicas fugiram da normalidade, sendo tocadas em um conjunto de sons e de cantoria originais, o que deixou tudo ainda mais espetacular. A plateia aplaudia, cantava junto e batiam palmas toda vez que uma música chegava ao fim. Até medleys foram feitos, unindo mais de um sucesso da música. Fizeram homenagens à algumas músicas mais antigas, como We Are Family, Beat It, Twist and Shout. Mas sempre voltavam às músicas e aos artistas da atualidade, fazendo com que todos seguissem o ritmo dos que apresentavam.

Fiquei surpreso quando Peter fez o solo de uma das músicas, com o violão descansando no ombro. Não sabia que ele também cantava. Perguntei à JJ, que dava gritinhos de incentivo ao meu lado, se Peter também cantava em sua banda. Descobri que ele fazia o backing vocal apenas, e tocava o baixo, diferentemente do violão que víamos no palco, mas isto eu já sabia.

A última música havia sido Without You, de Avicii. Era muito bonita a forma como as vozes se encaixavam de forma como se parecesse um eco musical. A voz principal havia sido de uma garota morena, e logo atrás vinha a voz de Peter e outro garoto, e por fim, um segundo depois, começavam as vozes de todo o coral.

Você
Disse que me seguiria para qualquer lugar
Mas seus olhos
Me dizem que você não estará lá

Peter parecia concentrado nesta música, e se eu não o conhecesse, diria que até apaixonado. Ficou sério, com o olhar perdido, sem sorrir nem mesmo quando a batida começou e logo a música agitou com os instrumentos detrás, o que me deixou intrigado.

Eu tenho que aprender a amar sem você
Eu tenho que carregar minha cruz sem você
Preso no meio do caminho e eu estou prestes a
Desvendar como vou fazer sem você
E eu estou cansado de ficar sentado em casa sem você
Foda-se, eu vou sair sem você
Eu vou destruir esta cidade sem você
Eu vou dar uma de Bonnie e Clyde* sem você

Quando a música acabou, Peter recém começava a dar-se conta das pessoas ao seu redor. E então, focou os olhos castanhos em mim, desvanecendo todo o sentimento ruim que passava por eles. Sorri com a ação, feliz que pelo menos isso eu pudesse causar nele. Feliz que eu o havia feito, mesmo de longe, o fazer sentir melhor. E logo ele abriu aquele sorriso alegre, piscando um dos olhos para mim.

Em seguida, quando o concerto foi dado como finalizado, uma hora e meia depois, e Peter caminhou em nossa direção, sendo recebido com gritos e assovios. Ele riu, e eu o vi sem graça pela primeira vez na vida.

— Cara, eu só acho que você devia largar sua banda e formar uma nova com todos os integrantes do seu curso — disse Gabe, admirado.

— Não é? — quase berrou Laurel, esquecendo sua rixa com Gabe ao concordar. — Foi muito bom!

— Eu não sabia que gostava tanto de Michael Jackson até vocês tocarem daquela forma! — Kaori se meteu no meio da rodinha torta, já que era a mais baixa de todos, com animação.

— Nossa, foi excelente, Peter! — disse Jess, admirada ao obter um aceno do namorado, que concordava plenamente.

— E você, gostou? — perguntou Peter, e percebi que se dirigia à mim, com um sorriso largo no rosto.

Retribuí o sorriso, meio sem graça já que todos perceberam a atenção especial de Peter para mim, ainda mais de falar publicamente sobre o bendito beijo. Cenoura escondeu os lábios para não rir e JJ olhava para nós com a expressão esperançosa. Fiquei intrigado com isto.

Todos pensavam que eu terminaria com Turner e ficaria com Peter?

— É claro — falei, ignorando o incômodo. Então, relanceei Gabe com um riso. — E também acho que deviam formar uma banda.

— Ah, você também não, coração! — disse Peter, gargalhando, assim como todos.

Me permiti rir também, já que ele estava ficando mal pela banda dele, com todos o incentivando a largar. E eu sabia, de tanto que ele havia tagarelado à respeito da banda, o quanto ele adorava aquilo.

Peter tomou a liberdade de envolver-me em um abraço desajeitado, passando um dos braços por meus ombros e puxando-me para si. Não vi maldade no ato, já que ele sorria e continuava na conversa ao virar o corpo de forma com que ficássemos lado a lado, ainda com o braço sobre mim.

K nos encarou por um tempo, assim como Cenoura e Jess, que tinham os semblantes curiosos. Laurel soltou um risinho malicioso. Fuzilei-a com o olhar, mas ela ergueu as mãos como se se defendesse.

Peter, percebendo a expressão risonha da ruiva, girou o rosto para mim. Não virei o meu completamente, porque estávamos com os rostos próximos e eu não queria que ele pensasse idiotices sobre mim. Eu sabia que Peter flertava comigo descaradamente, da mesma forma como eu flertava com Turner no início, mas eu também sentia que não era o mesmo. Peter não era apaixonado por mim, eu tinha certeza disto, embora não soubesse como. Ele também nunca passava dos limites, como eu passava com Turner, e respeitava o fato de eu estar namorando, mesmo que Turner estivesse longe de mim.

Olhei para Pete de lado, e ele sorriu abertamente, apertando meu corpo com um grunhido brincalhão, da forma como eu fazia com Caleb quando ele era pequeno e fazia alguma coisa fofa. Não pude impedir o riso pela forma como me tratou, eu ficava sempre incrédulo com o jeito que Peter agia comigo. Era como se nunca houvéssemos nos separado durante aquele tempo e fôssemos melhores amigos desde sempre. Bom, amigos coloridos da parte dele, mas não importa.

No entanto, antes que eu pudesse resmungar alguma coisa para que ele deixasse de ser idiota e me soltasse, um movimento brusco quase o fez me beijar. Franzi o cenho, e logo percebi que ele também, confuso. Então desviamos nossa atenção para as costas de Peter, por onde três figuras passavam. Todos fizeram o mesmo ao perceber o que havia ocorrido.

George passava ao lado com cara de poucos amigos, e estava claro que houvera esbarrado propositalmente no ombro de Peter, fazendo com que quase ele caísse por cima de mim. Peter fechou a cara, soltando-me e encarando George com incredulidade.

Gabe, que antes conversava próximo a JJ, afastou-se dela para perto de Laurel, percebendo que em segundos, se ninguém a segurasse, ela partiria para cima de George. De todos nós, Laurel era a menos paciente. Gabe segurou o pulso dela assim que ela fez menção de caminhar em direção de George e os dois amigos dele com a intenção de quebrar ossos. Assim que percebi que Gabe controlara a garota dos cabelos avermelhados, fazendo com que ela o fuzilasse com o olhar, voltei minha atenção aos dois garotos que se encaravam.

Os três caminhavam para longe, com os dois de trás virando para nos olhar a cada segundo e George caminhando literalmente de costas para fuzilar-nos com o olhar. Os amigos de George, atrás dele, soltaram comentários homofóbicos e risinhos idiotas, mas o seu líder manteve-se sério, com o olhar ameaçador na nossa direção.

Pela expressão nada amigável de Peter, percebi que ele também já conhecia a má fama de George pela universidade, principalmente a de homofóbico assumido. Segurei o pulso dele, tentando chamar a atenção ao dizer para deixar para lá e não se incomodar com aqueles idiotas, mas ele permaneceu com o olhar irritado fixo em George e então, nas costas de George quando o maior se virou.

E tudo por um abraço.

— Por que você não me deixou quebrar a cara dele? — gritava Laurel, sobressaindo o som de vozes ao redor, do pessoal que continuava espalhado pelo campo.

— Não vale a pena, Laurel — dizia Cenoura, paciente de uma forma que Gabe não era.

— Will? — chamou-me Kaori, preocupada, mas ignorei, focando a atenção em Peter.

Ele se virou para mim com uma expressão chateada.

— Odeio gente assim — disse, por fim, com a voz pesarosa.

— Eu sei — falei, tentando acalmá-lo para não precisar acalmar a mim mesmo. — Mas ele não vale a pena.

Depois de tanto rebater George, e rebater todas as outras pessoas com comentários fúteis com relação à minha sexualidade, eu acabei tomando a maior surra da minha vida. A partir daí, aprendi a ficar calado. Não vale a pena rebater sempre, porque às vezes mais vale deixar a pessoa se afundar na própria ignorância do que tentar educá-las.

Sem falar que a probabilidade de George haver estado envolvido com o que me aconteceu fazia com que eu congelasse quando estava perto dele. Não me orgulhava disto.

— Eu sei — murmurou Peter, suspirando por fim, ao desviar o olhar entre nós.

Ao perceber que Gabe parecia explodir de irritação com a de cabelos vermelhos, que também estava irritada, me intrometi no meio, segurando a mão da ruiva.

— Calma, Laurel — falei, o cenho franzido. — Está tudo bem.

— Não está nada bem! — Irritou-se ela, puxando a mão com raiva. — Will, olha só para a cara daquele idiota! Eu não sei como é que ele ainda não foi denunciado por toda esta porra — disse, fazendo K arregalar os olhos, desacostumada com o temperamento da outra —, mas pode deixar que eu mesma faço isso — falou, determinada, ao puxar o celular do bolso.

Arregalei os olhos, buscando por ajuda em Gabe. Ele deixou a cabeça cair para trás com uma careta abismada e um suspiro pesado.

— Laurel — grunhiu, irritado. Mas não esperou uma resposta. — Me dá isto aqui — disse, puxando o celular das mãos dela com brusquidão.

Oh, céus!

— Me devolve o caralho do meu celular agora, imbecil! — grunhiu ela, de volta. Pensei que ela pularia no pescoço dele, mas ela se deteve, furiosa, ao colocar as mãos na cintura. — Vai me dizer que você também não quer ver aquele idiota pagar pelo que fez ao Will?

Fechei os olhos, balançando a cabeça em desalento.

Sério que eles insistiram neste assunto?

— O quê? — ouvi ao meu lado a voz estridente de Peter, que quase engasgou. Olhei para ele. — Foi George que te espancou? — perguntou com tanto espanto que chegou a se aproximar de mim por uma resposta.

Franzi o cenho, chateado.

— Não sabemos se... — começou Cenoura, mas Laurel o impediu.

— É claro que foi ele! — grunhiu Laurel, fuzilando o ruivo com o olhar.

— Não sabemos — reforcei, tão sério que ela se aquietou rapidamente. — Por que diabos estamos falando disso? — perguntei, irritado com o assunto do espancamento mais uma vez.

— Will — disse Peter, ao meu lado, aproximando-se de mim ainda com espanto, mas soando preocupado. Segurou meu braço para chamar-me a atenção. — Eu sei que quer mudar de assunto, mas isto é algo realmente grave e muito sério. Como é que você não sabe quem foi? — perguntou, seriamente intrigado.

Bufei, já irritadiço com o rumo da conversa, ignorando o toque de K em minhas costas para me acalmar.

— Eu. Não. Sei — falei, pausadamente. — Perdão a todos se minha visão ficou turva com a porra do golpe na minha cabeça e eu só senti, sem ver nada, o resto dos golpes antes de apagar! — falei, gesticulando muito em irritação, focando o olhar especialmente em Laurel. — Perdão se vocês não tem certeza de quem foi para poder denunciar!

Dei as costas, pegando o copo da mão de Cenoura antes de sair, engolindo toda a cerveja de uma vez só.

Ainda atrás de mim, ouvi me chamarem e me seguirem logo após, pedindo desculpas por tudo. Fechei os olhos, querendo ir logo embora, mesmo que me sentisse culpado por haver acabado com o clima bom após o sucesso do concerto.

George quem acabou com o clima bom, corrigi mentalmente com desgosto.

Me alcançaram, e assim que pemaneci quieto, bebendo, conseguiram mudar de assunto com tanta sutileza quanto um hipopótamo tocando piano.

Peter, depois de perceber que eu havia me acalmado, e que todos já estavam decidindo como voltar para casa ou se iriam para uma balada, se aquietou. O silêncio, da parte do garoto dos cabelos cacheados, era tão estranho que me peguei olhando para ele por alguns instantes.

Peter estava seriamente perturbado, e eu não entendia o porquê. Me perguntei se já havia sido ameaçado por George, ou se o assunto de espancamento lhe incomodava de alguma forma pessoal, mas não tinha como saber sem lhe perguntar. E eu não o faria.

Assim que esperávamos o táxi para ir embora, já que Gabe havia vindo sem o carro para o campus e Jess carregaria o namorado em sua moto, Peter se aproximou com uma careta meio agoniada para perto de mim. Pediu desculpas mais uma vez e se afastou para pegar seu violão e sua mochila próximos ao palco, do outro lado de onde estávamos, para logo ir embora. Disse que sairia com o grupo de colegas, mas eu soube ser mentira pela careta que ele fez.

Aproximou-se de mim e, com a minha permissão, deixou um beijo rápido no meu rosto. Foi um gesto tão singelo e tão fofo que me peguei momentaneamente encantado pelo jeito de ser do músico. Logo, depois de fazer o mesmo em JJ e abanar para todos, deu as costas.

Por mais que não compreendesse o que se passava, respeitei a privacidade dele. Sem falar que eu tinha mil outras coisas com as quais me preocupar.

Tirei o celular do bolso e encarei, com um suspiro, a tela desprovida de mensagens. Quando chegasse em casa, encheria o correio de voz de Turner com reclamações, já que ele, certamente, não atenderia minha ligação.

Esperava que ele ainda estivesse vivo.

Engoli em seco, piscando muito para afastar as lágrimas. Balancei a cabeça, jogando para longe todos os pensamentos ruins. Deixaria para chorar em casa, e acabar com meus dedos de tanto roer as unhas de preocupação.

Só percebi que o táxi havia chegado quando Laurel bateu a porta do carro — pobre taxista — com força, fazendo com que Gabe e JJ saltassem para longe um do outro com o susto pelo barulho. Só então dei-me conta de que eles haviam se pegado em frente à todos.

JJ pareceu constrangida e Gabe fixou os olhos no táxi com uma expressão indecifrável antes de focar em mim. Repreendi-o com o olhar, balançando a cabeça com uma expressão que espero ter passado o que eu mentalizava: depois conversamos para que eu te xingue com vontade. Gabe deu de ombros, lembrando-se de JJ ao seu lado e forçando um sorriso para ela, que estava visivelmente envergonhada.

Quando entrei no táxi e ele dava a volta da quadra para sair, ao passo que as conversas nada baixas soavam dentro do carro apertado — com cinco pessoas além do motorista e com K no meu colo -, algo me chamou a atenção pela janela.

Passávamos no início do bosque de atalho no qual eu entrei naquele dia, e haviam duas pessoas discutindo logo em frente de onde as árvores começavam. A princípio, nem dei bola, porque além de ser um atalho para o terminal da parada de ônibus, o bosque também era ponto de encontro para maconheiros e para casais que queriam se pegar. Não era novidade ver um casal discutindo por ali, ou até mesmo amigos brigando por algum motivo. Aliás, eu até mesmo houvera sido espancando mais adentro do local cheio de árvores.

No entanto, eu reconheci a primeira figura instantaneamente. O garoto de altura semelhante à minha e cabelos encaracolados tinha uma case de violão envolvida nas costas, junto de uma mochila pesada. Soube que era Peter, mesmo que eu não pudesse ver seu rosto pela escuridão da noite e a luz precária dos postes no campus, pelos cabelos únicos e a roupa que ele houvera usado naquela noite.

O outro garoto, um tanto maior e com ombros mais largos, eu não reconheci de imediato. Ele estava de costas para mim e a sombra que a árvore fazia impedia que eu visse seu rosto, mesmo quando ele olhava para os lados como se checasse que ninguém estava vendo. Ele gesticulou com raiva enquanto conversava com Peter, e o músico o empurrou três vezes até que o maior batesse com as costas na árvore.

Arqueei as sobrancelhas, surpreso. Peter nunca era agressivo, e pela maneira como o outro se portava, sem retribuir os empurrões, me perguntei se o maior não era um caso de Peter. Mesmo que o músico houvesse dito que não estava com ninguém, podia ser que aquele fosse um ex namorado.

Aproximei mais o rosto do vidro quando o carro terminava de fazer a curva, já que logo eu perderia ambos de vista.

Antes que isto ocorresse, entretanto, o maior segurou Peter pelo braço com brusquidão. Parecia seriamente furioso e, depois de olhar para os lados mais uma vez, puxou-o bosque adentro. Senti a garganta apertar pelo fato. Mas quando se deslocaram, mesmo que brevemente aos meus olhos, a luz do poste iluminou o rosto do garoto que o puxava com agressividade.

George.

Congelei no lugar.

Não acreditei, a princípio, cogitando haver estado enganado com a identidade de Peter. Podia ser outro músico de cabelos cacheados. Mas meus olhos não me enganavam, e eu havia me acostumado tanto com Peter que o reconheceria em qualquer lugar, mesmo com a escassez de luz.

Em um primeiro momento, me perguntei se Peter havia ido tirar satisfações com George por haver chocado contra seu ombro ou pior, por descrobrir que talvez George tivesse algo a ver com o que aconteceu comigo.

Fiquei perturbado, mas não era certo. Até poderia ser, mas George, apesar de parecer furioso, não estava rebatendo a agressividade de Peter. George distribuía agressividade, mesmo sem que ela fosse dirigida à ele, mas ele nem havia reagido quando fora empurrado. Aliás, eles discutiam como se essa não fosse a primeira vez, como se se conhecessem por toda a vida.

Algo não encaixava.

A voz de minha falecida avó veio à minha mente como um raio.

Então, fiz o pior que se faz em uma situação lixo como estas, quando se trata de alguém próximo à ti: repassei todas as conversas com Peter, todas as reações dele que eu havia presenciado, todas as informações sobre si que ele havia compartilhado; todas as situações as quais o colocaria dentro daquele bosque com aquela pessoa naquele momento específico.

Duvidar da lealdade de um amigo, talvez, seja uma das piores situações pelas quais alguém pode passar. E eu já havia passado por situações ruins o suficiente por uma vida inteira. O destino, no entanto, parecia discordar.

Nada é tão ruim que não possa piorar, já dizia a vovó Jones.

Eu tive certeza disto quando, antes de sumirem entre as folhagens, a mão que apertava o braço de Peter, mesmo brusca, desceu até a mão do músico irritado, enlaçando-se na dele.

E de mãos dadas, eles sumiram dentro da escuridão.

Diga-me com quem andas e direi quem tu és.

Notas finais
*Tradução livre (minha) da música em inglês Without You, ok? *Bonnie & Clyde: pra quem não conhece, são pessoas reais, um casal de criminosos dos EUA, a história é bem conhecida e usada em filmes devido à natureza considerada romântica dos dois viajarem juntos, cometerem crimes juntos e, por fim, morrerem juntos. HEHEHEHEHE. Aquela risadinha de quem tá adorando tudo isto. Vocês conseguem imaginar o que está se passando aqui? Imaginavam que eu ressuscitaria o assunto do espancamento? E imaginavam sobre esses dois? Fugi depois desta :3 PS.: maior capítulo até agora, omg. Mas esperem só até verem o tamanho do próximo :O Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! *O*