Made of Fire

47 XV. Passe livre para o metrô da liberdade


Notas iniciais
Rich's POV Boa leitura! *-*

Eu não tive tempo de reagir.

A lâmina simplesmente afundou em minha barriga, fazendo com que eu quase perdesse o ar com tamanha dor. Grunhi, gritei, esperneei. De nada adiantou. Logo a faca militar estava em meu pescoço.

Levou um segundo para eu ter minha garganta cortada de ponta a ponta.

Dei um pulo.

Assustado, olhei ao redor. Demorei um tempo para perceber que eu não estava em 2006, com meus vinte anos de idade. Estava em meu antigo quarto, é certo, com meus antigos pesadelos, é certo, mas eu já não era um jovem inconsequente e apaixonado.

E ainda assim, eu sentia como se estivesse no mesmo lugar.

Hilary está morta, lembrei. Marcus está com a corda no pescoço. E apesar de estar longe de tudo isso, como eu quero que esteja, Will também está longe de mim. Mas eu continuava no mesmo lugar em que tudo começou, como se tudo ao meu redor mudasse, mas eu não.

Eu continuava o mesmo jovem inconsequente e apaixonado de sempre, mesmo que não quisesse admitir. O tempo passa e eu continuo o mesmo tolo viciado.

Um viciado.

Levantei, sentindo tudo pesar, especialmente minha alma. Eu estava acabado, física, emocional e psicologicamente.

E eu merecia estar.

Quase duas semanas haviam se passado, e eu não tinha ideia de como sair desta situação. Por mais que Marcus continuasse vivo, já que eu sabia que estavam adorando torturá-lo e sacar-lhe informações que lhe fossem úteis, eu ainda não havia conseguido chegar perto dele. E começava a pensar que nem conseguiria. Lutz havia mesmo investido na segurança do Golden.

Mesmo que eu conseguisse me aproximar, eu já não tinha mais as malditas chaves. E nem poderia roubá-las novamente, já que todos estavam a postos e atentos, desde que o molho de chaves de Miguel houvera sumido completamente. Cobra falara sério ao dizer que não me denunciaria.

Oswald me contou, enquanto observávamos a queda de braço de dois jogadores, que Lutz resolveu aumentar o número de funcionários e seguranças do subsolo devido à uma confusão que ocorreu dois anos antes. Aparentemente, um de seus clientes cometeu a proeza que todo jogador um dia o fez: perdeu dinheiro que não mais possuía, passando a dever ao Golden. Isto, é claro, jamais ocorreria no Black Casino, já que ninguém tinha permissão para apostar dinheiro que não está em sua posse. Uma das grandes atrações do Golden Casino, afinal, que atraía clientes.

O sujeito, é claro, se fodeu. No minuto em que perceberam que ele continuaria a dar prejuízo e que não traria o dinheiro de fora, já que não tinha, resolveram pô-lo em seu lugar. Ele permaneceu no local em que Marcus estava no momento, em um daqueles dois temidos cômodos do Golden e teria ficado por algumas semanas. Inesperadamente, no entanto, o sujeito conseguiu escapar. Sem qualquer pista de como o infortúnio ocorreu, já que o esperto sumiu do mapa, Lutz aumentou a segurança. Não só para impedir que isto ocorresse novamente, mas para impedir que outros se rebelassem e tentassem a mesma sorte.

Basicamente, e sem saber, Oswald sugou qualquer esperança que eu tinha de tirar Marcus de lá. Vivo ou morto.

Não que fosse minha culpa, já que Marcus cavou o próprio buraco ao irritar Frank tantas vezes seguidas. Aliás, era certo de que, se eles não estivessem usando Marcus como uma ameaça à mim, ele já estaria morto antes mesmo de que eu pisasse na cidade. Ou seja, a vida de Marcus estava ligada à minha. A confusão na qual me meti era o motivo pelo qual ele ainda respirava.

Mas era melhor ser espancado por dias até morrer do que simplesmente morrer de uma vez por todas?

Não. E isto era completamente minha responsabilidade. Marcus jamais falhara comigo, jamais, e eu falhara com ele.

Meus pais, é claro, já haviam percebido o que estava acontecendo. Se eu sentia como se houvesse voltado no tempo, eles também o sentiam. Pudera, eu voltara para casa no meio do período letivo, e no pouco tempo que eu permanecia, de fato, em casa, eu parecia uma alma condenada. Eu vivia com Marcus naquela época e minha família, obviamente, não sabia do Golden Casino. Mas por boca de conhecidos, souberam que eu passava muito tempo no Black ou naquela mesma rua, e acabei contando que estava meio enrolado com os jogos. Agora a história se repetia.

Se eu me assemelhava à uma alma condenada, Rob e Becca eram as duas almas em pena da casa. Perambulavam em desânimo pelos corredores, quando não estavam trancafiados nos próprios quartos. Rob às vezes deixava o café subir ao cérebro e ficava andando de um lado ao outro. Eu o havia encontrado certo dia comendo tudo em que havia nos armários da comida às quatro da manhã, quando eu voltava do cassino.

Eu já tinha conhecimento de ambos os motivos: Michael e Luke. Eu não saberia dizer qual me chocou mais.

Rob havia me abordado na segunda-feira, quando pus os pés em casa pela primeira vez desde que cheguei na cidade, desanimado.

Flashback on

Assim que menti descaradamente para os meus pais ao menos cinco vezes seguidas, depois de haver perambulado pela cidade para acalmar a tormenta em mim até o amanhecer, subi para o meu quarto com a mala em mãos.

Eu havia contado e reforçado que eu só estava ali para um descanso, enquanto pesquisava sobre um projeto que gostaria de levar ao curso de Administração, para meus alunos. Era o mesmo que havia contado ao Fitzgerald, meu chefe, e já que jamais tirei férias no meio do ano e jamais faltei um dia de trabalho, ele me concedeu a licença. A contragosto, é claro, já que minha sexualidade o incomodava profundamente.

Mesmo contrariados, dona Isobel e Frederich fingiram acreditar em minhas mentiras, abraçando-me e agradecendo por eu passar mais um tempinho em casa. Assim que meu pai saiu para o trabalho, abatido, minha mãe contou que minha visita veio no momento mais apropriado. Contou-me que as coisas estavam estranhas, por conta do relacionamento de Michael e Rebecca, que consequentemente gerava uma extrema dor de cabeça em nosso pai, e por conta da briga de Luke e Robert, que ninguém sabia do que se tratava.

Quando alcancei o topo da escada, virando para me dirigir ao meu quarto, uma porta se abriu no corredor com brusquidão. Arqueei as sobrancelhas, encarando o rosto pálido de meu irmão há alguns passos de distância.

— Rich? — perguntou, surpreso. Desceu os olhos para minha mala e voltou-os para meu rosto. Passada a surpresa, pareceu confuso e então alarmado. — O que está fazendo aqui?

Franzi o cenho, caminhando até alcançá-lo e observando suas vestes. Rob usava uma calça de moletom e tinha os pés descalços, e eu estava quase certo de que aquela mancha laranja era comida na camiseta branca amarrotada. Os cabelos loiros denunciavam que meu irmão sofreu um choque elétrico e as bolsas abaixo dos olhos azuis provavelmente indicavam o mesmo.

— O que você está fazendo aqui? — perguntei, não conseguindo desviar a atenção da mancha em sua camisa. — Por que não está trabalhando?

— São sete horas — disse simplesmente, como se eu fosse retardado.

— Sim — falei, ficando de frente para ele e encarando os pacotes de salgadinhos espalhados em sua cama desarrumada logo atrás —, mas fiquei sabendo que estão fazendo uma limpa nos arquivos. O pai acabou de sair — falei, estudando seu rosto inchado.

Estava chorando?

— Estou cansado. Vou no horário normal — falou, na defensiva, franzindo o cenho. — Por que está aqui?

— Projeto de pesquisa — resmunguei, também na defensiva.

Depois de alguns segundos em silêncio, eu estava prestes a dar-lhe as costas, pensando em como eu faria para conseguir dormir, quando sua expressão mudou. Encarou-me como se recém pudesse me ver, e eu quase podia enxergar suas engrenagens mentais trabalhando. Piscou os olhos azuis, alargando-os, e inclinou-se para frente com o intuito de olhar para os lados no corredor.

— O que foi? — perguntei, mas sequer tive tempo de fechar a boca.

A mão de Rob fechou-se em minha camisa e me puxou em sua direção com brusquidão, fazendo com que eu entrasse no quarto. Quando tentei questionar-lhe, ele me empurrou mais para dentro do cômodo, colocando a cabeça para fora do quarto mais uma vez ao checar o corredor.

Ainda de costas, fechou a porta e passou a chave, e pude discernir um pedaço de folhagem em seus cabelos curtos. Franzi o cenho, pensando onde diabos ele havia se encostado para ter uma folha verde em seus cabelos, mas então ele virou em minha direção com os olhos alargados, atrapalhando meu raciocínio.

— Rich — falou, e nada mais foi que um murmúrio —, preciso falar com você. Agora.

Enquanto Rob não fazia sentido algum, minha mente voava em respostas para seu comportamento, desde a ideia assustadora de que talvez tivesse algo a ver comigo e com o cassino. Talvez ele até houvesse se envolvido mais uma vez com a namorada de Luke, já que a mãe mencionou algo a respeito de uma briga entre eles.

— Desembucha logo — resmunguei, já nervoso. Mas tudo o que o loiro fez foi dar-me as costas novamente, desta vez para andar de um lado ao outro em seu quarto espaçoso.

O quarto de Rob era semelhante ao meu e ao de Becca, pelo tamanho. Mas ao contrário de nós, ele havia conseguido persuadir nossa mãe para que lhe entregasse o quarto com a varanda, com vista para a lateral da casa, cercada de árvores formosas. Foi muito fácil, com aqueles olhos azuis provindos da herança genética e alemã de nossa mãe, convencê-la com um sorriso de orelha a orelha. Rob sempre foi o mais engenhoso e persuasivo.

Os móveis eram das cores preta e cinza, e como vivia ali — já que abandonara seu apartamento provisório e voltara para casa -, estava com uma cara maior de "lar" do que o meu, antigo. A cama estava bagunçada, no entanto, haviam papéis em toda parte, o guarda-roupa estava aberto e haviam mais roupas empilhadas no chão do que no próprio móvel destinado à isto. Sendo Rob tão organizado quanto eu, estava bastante claro que algo havia de muito errado naquele cenário.

Senti o celular vibrar em meu bolso, provavelmente outra mensagem de Will. Suspirei, ignorando-o, já que eu ainda não possuía alguma novidade boa e não queria acabar com suas míseras e pequenas esperanças.

Voltei os olhos para meu irmão mais novo.

— Eu fiz uma coisa — disse ele, dando um riso nervoso. — Quero dizer, eu acho que fiz uma coisa, mas eu não lembro se fui eu que fiz, porque eu estava bêbado e tudo que eu sei são flashes de memória — embolou-se nas palavras, o cenho vincado. Então alargou os olhos. — Memórias muito nítidas — enfatizou, gesticulando com as mãos — de algo que... Eu não sei por que eu fiz, ou por que ele fez... Mas algo que foi muito inesperado e eu tento lembrar o que eu estava pensando, mas eu não consigo lembrar, e tudo que eu lembro são... — Levou os dedos aos lábios rapidamente, mas tão logo os levou, os afastou, voltando a gesticular. — Eu nem sei. O problema é que as coisas... Não sei bem como chegou a este ponto, mas ele... Eu não sei bem...

— Rob — chamei, com firmeza, para fazê-lo voltar ao planeta Terra.

Só havia visto meu irmão assim uma vez na vida, quando houvera socado um colega de classe com treze anos de idade e tentava explicar seus motivos. O garoto havia implicado com ele, e ele tinha total razão em havê-lo socado, mas as regras ditadas por nossos pais da não-violência o deixavam muito atortoado com tudo, como se fosse culpado.

— Cara — falei, tendo alguma noção do que se tratava já que envolvia lábios, álcool e lembranças falhas. — Ninguém escolhe por quem se apaixona — falei, vendo seus olhos quase saírem das órbitas. — Se você e a aquela mulher... Emma, não? — Tentei lembrar o nome dela, mas isso trouxe uma careta de confusão no rosto de meu irmão. — Se vocês estão apaixonados, cara, Luke vai ter que entender. Vocês são melhores amigos.

Enquanto a ruga entre as sobrancelhas claras de meu irmão se acentuava com a confusão, dei-lhe meu melhor sorriso de apoio moral.

No entanto, os ombros de Rob caíram em derrota e ele suspirou pesadamente. Observei-o caminhar para trás até sentar-se na cama bagunçada, fazendo um som de pacote soar, visto que sentou em cima do mesmo. Rob não pareceu se importar, entretanto, encarando os próprios pés descalços em cima do tapete preto.

— Não, Rich — murmurou ele, e tive que me esforçar para ouvir. — Não se trata de Emma. Se trata de Luke. — Então, ergueu os olhos pesarosos para mim.

Talvez, sendo eu um homem que namora outro homem, devesse ter entendido de primeira o que ele queria dizer. Talvez eu devesse ter captado a mensagem assim que as palavras saíram de sua boca. No entanto, eu só fui entender o que Luke queria dizer quando ele praticamente desenhou para mim.

— Como assim? — perguntei, honestamente confuso.

Rob suspirou, voltando os olhos para os pés.

— Nos beijamos — murmurou, tão baixo que reprimi a vontade de me aproximar para ouvir. — Luke e eu.

Ainda assim, com uma provável cara de pateta, tentei decifrar se ele me dizia o que eu pensava que me dizia. Tentava encontrar qualquer sinal de piada, visto que isto era o que mais saía da boca de meu irmão, além de besteiras e gargalhadas, mas não encontrei absolutamente nada.

E quando os ombros permaneceram caídos, como quando não conseguia o que queria com os olhos azuis na infância, e os olhos abaixados, como quando sentia culpa de algo, entendi que falava sério.

— Está falando sério — murmurei, e não foi uma pergunta.

Rob ergueu o rosto rapidamente e ao perceber minha expressão chocada, seu rosto tomou a cor avermelhada. Abriu e fechou a boca algumas vezes, mas pareceu desistir todas as vezes.

Não. Rob não podia ser gay. Não sem que ninguém percebesse.

Sem que eu percebesse, completei.

— Sei o que está pensando — pronunciou, enquanto eu tentava pensar em algo para dizer. Franzi o cenho. Rob ergueu os olhos novamente, mas os desviou com rapidez. — Sei o que está se perguntando agora — murmurou, para logo suspirar. — A resposta é sim. E talvez eu já soubesse que sim, mas eu não quis... Eu só... Sim — optou por dizer, erguendo os olhos azuis e mantendo-os em mim com firmeza. Então baixou-os para os pés novamente.

E embora toda a minha mente houvesse dado um nó imenso, porque o que eu havia tido de casos sem importância com mulheres em minha vida, Rob havia tido de namoros sérios com elas; e porque ainda havia um pôster de uma mulher seminua da Playboy em sua parede; e porque absolutamente nada em Rob denunciou que sentia atração pelo mesmo gênero; e porque ao mesmo tempo em que tudo era confuso, tudo fazia sentido; ainda assim, afundei todos os meus próprios questionamentos em minha mente. Porque Rob tinha os dele, e eram os dele que importavam.

Engoli todo o choque em um segundo.

Aproximei-me com uma careta, totalmente despreparado para a conversa. Reprimi um gemido de desolação por ter que desempenhar o papel de irmão mais velho, mas eu havia dito que ele fizera o certo ao se defender do garoto brigão e eu me certificaria, também, de fazê-lo enxergar que não havia nada de errado com o que aconteceu entre Luke e ele.

Havia funcionado quando ele tinha treze, e eu esperava que funcionasse com vinte e sete também.

Vinte e sete, dei-me conta, incrédulo.

Luke e Rob, logo pensei, com súbita vontade de rir. Era tão óbvio que chegava a doer no coração. Porque bastando estranharmos uma ideia, mesmo que minimamente, preferimos jogá-la ao fundo de nossa mente pelo máximo de tempo possível do que encarar a verdade.

Às vezes, nos tornamos tão cegos ao que está em nossa frente, por pura opção, que até mesmo a verdadeira cegueira era capaz de enxergar mais longe.

— Bom... — Sentei-me ao seu lado na cama, jogando para o lado uma revista da Marvel no processo. — Rob, eu... — Tentei engolir o nódulo em minha garganta com o que falaria. — Eu sei que muitas vezes eu não fui o melhor exemplo de irmão para você e para Becca. Mas eu... — Rob riu, do jeito que sempre fazia, de nervoso, balançando a cabeça como quem diz que não precisava ouvir nada disso. Ignorei. — Eu quero que saiba que depois de tudo que aconteceu comigo, e de tudo que eu causei a vocês, mesmo sem querer, eu encontrei meu caminho. E sem querer soar convencido, mas eu me tornei um ótimo exemplo — falei, observando-o rir.

E era verdade.

O problema era tudo o que havia acontecido desde que descobri sobre Kevin. Engoli em seco, preferindo fingir que eu era o mesmo Richard de quatro meses atrás.

Rob, enfim, ergueu os olhos azuis para mim, com uma desolação inexplicável, mas que eu compreendia. Senti o ímpeto de abraçar-lhe, mas não quis que se sobressaltasse.

Balançou a cabeça.

— Sem querer soar convencido, mas com o ego batendo no teto, né? Babaca — falou, fazendo-me rir também. No entanto, ficou sério por um instante e murmurou: — Eu sei — falou, tentando um sorriso.

— Me deixa terminar — falei, levando uma mão à sua cabeleira loira para tirar a folha que me incomodava. Fiz uma careta ao jogá-la ao chão. — Eu tenho um emprego que gosto muito, um lar que construí com Jay que, honestamente, foi um dos melhores imprevistos que ocorreu em minha vida. Jamais vou saber o que fiz para merecer um amigo como ele e nem vocês como família, tão pacientes...

Soltei um suspiro, olhando fixamente para seu rosto de pele clara e agora, abatido. Esperei até que encontrasse os olhos azuis vivos nos meus, e então arqueei as sobrancelhas.

— E eu tenho o Will. — Rob desviou o olhar quase que imediatamente. — Eu não posso saber exatamente o que está ocorrendo aqui, Rob, porque não sei como se sente de verdade em relação ao Luke e também não sei o que aconteceu antes dessa bebedeira sua — falei, sorrindo. Rob não sorriu. — Mas eu tenho uma ideia do quê. — Baguncei seus cabelos curtos rapidamente, e encarei o chão de forma semelhante à Rob. — Eu fiquei confuso e perdido quando percebi o que Will me fazia sentir...

Não sei se por recém dar-se conta de onde eu tentava chegar ou se por algo que ele próprio pensou, Rob ficou roxo feito um tomate e soltou uma lamúria agoniada.

— Rich, pelo amor de deus, não precisa me contar isso — resmungou, chutando o nada, embaraçado até os cabelos com a situação.

Ora, se ele estava embaraçado com isso, imagina eu!

Revirei os olhos.

— Robert, você acha que quando eu vim para casa, tudo o que eu queria era conversar sobre rapazes com meu irmão mais novo? — perguntei, também ficando sem jeito. Rob estalou a língua, levando uma das mãos ao rosto avermelhado. — É claro que não! Mas aqui estamos, e agora que eu comecei, eu vou terminar. Então cala a boca e escuta — resmunguei por fim, desconfortável.

Rob balançou a cabeça, ainda com a mão no rosto, com incredulidade. Mas no fundo, eu sabia que ele precisava ouvir isso. Ele não queria, é certo, mas ele precisava. E ele sabia disso também. Caso contrário, não haveria ligado e desligado para o meu celular diversas vezes, e não haveria me puxado para seu quarto na primeira chance que teve.

— Eu estou querendo dizer que, apesar de todo o receio de me envolver com Will, não só porque ele também é homem, mas porque é meu aluno... Apesar do medo e da confusão, eu me deixei levar. E quando eu finalmente me permiti abraçar tudo o que eu sentia... — murmurei, sorrindo de forma involuntária ao lembrar de quando joguei tudo para o alto em minha vida para ficar com ele. — Quando eu me permiti ser feliz, com ele, porque ele me traz essa felicidade e esse amor que mal me cabe ao peito — falei, e de relance, pude ver Rob erguer o olhar para mim —, percebi que foi o mais maravilhoso que fiz na vida.

Sorri, girando o rosto para olhar para meu irmão caçula, vendo-o desviar o olhar para os pés rapidamente, com um riso forçado. Coçou a nuca, perto de onde tirei a folhagem, e eu desviei o olhar também.

— Rob, se você sempre foi... — Me interrompi, vendo-o fechar os olhos, de canto. — Se as coisas sempre foram assim, ou mudaram agora, ou... — Acabei por gesticular vagamente, mesmo sabendo que ele não estava me encarando. — Não importa. Eu só... Eu sei que você e Becca não podiam me ter em um pedestal antigamente, porque eu só fazia merda, mas... — Suspirei, sorrindo em seguida. — Mas agora eu sou feliz. — Ignorei o fato de que isto talvez não durasse muito mais tempo. — E eu acho que, independentemente de quem você tenha ao seu lado, é isso que você deve espelhar em mim — falei, referindo-me ao fato de ser feliz, ainda que a pessoa que me traz boa parte da felicidade seja alguém improvável. — Isso você pode espelhar em mim. Você entende o que eu quero dizer?

Rob assentiu silenciosamente, e eu deixei com que digerisse por um tempo. O único som era o do vento de fora e o de um cabide batendo levemente contra o guarda-roupa, com a onda de ar que entrava da varanda do quarto espaçoso.

Rob suspirou mais uma vez.

— Obrigado — murmurou por fim, forçando-se a erguer os olhos para mim e soltar um riso de nervoso. Tentou fungar disfarçadamente, e teve sucesso em manter as lágrimas nos olhos, mas eles ainda brilhavam. Também ri, balançando a cabeça com incredulidade pelo que ocorria.

Então me levantei, virando de frente para um homem de vinte e sete anos que mais se assemelhava àquela criança de treze. Tão deslocado e perdido que eu tive que me lembrar mais de uma vez que sim, aquele era Rob, meu irmão travesso das piadas sem graça e gargalhadas idiotas.

E era melhor que ele voltasse a pôr um sorriso idiota no rosto, senão Luke teria que lidar com, no mínimo, um nariz rompido.

— Vocês brigaram mesmo? — obriguei-me a perguntar, preocupado que Rob acabasse com o coração partido.

O loiro franziu o cenho, mas então revirou os olhos.

— Eles acham que nós brigamos — resmungou ele, coçando o nariz ao se referir aos nossos pais, provavelmente ao adivinhar que essa informação veio deles. — A verdade é que nem chegamos perto de brigar. Depois de tentar continuar tudo como antes, como se nada houvesse acontecido, preferimos simplesmente aceitar a situação de merda e ignorar um ao outro ao máximo que podemos.

Estalei a língua.

— Isso não resolve nada — falei, juntando minha mala esquecida ao chão. — Você precisa sair dessa toca — falei, indicando o quarto imundo —, tomar um banho decente e ir resolver esse problema. E se o babaca do Luke fizer algo para você, bom... — falei, vendo seu rosto voltar a se assemelhar à um tomate. Agradeci aos céus por não haver nascido gringo como ele. — Bom, você sabe que eu conheço uns caras.

Assim que sua boca caiu mais uma vez, me permiti sorrir, fazendo com que um sorriso crescesse pouco a pouco no rosto de meu irmão. Balançou a cabeça em negativa, incrédulo, e meio que bufou, pegando o travesseiro e jogando em minha direção, para então deixar-se gargalhar como habitualmente o faria nesta situação.

Ergui as mãos em derrota, querendo dizer que estava avisado, e deixei Rob com um sorriso divertido no rosto. No entanto, tudo que eu conseguia pensar ao sair dali era: caralho, qual o problema da minha família com romances improváveis?

Flashback off

O meu motivo era diferente dos problemas amorosos de meus irmãos.

Meu motivo era uma translação imensa de dinheiro na ilegalidade, o risco de morte, e se eu optasse pela minha própria liberdade, dando as costas à tudo, o risco de morte de Marcus e bom, de todo e qualquer um de minha família. Até mesmo Will, se eles se sentissem vingativos o suficiente para investigar, o que eu não duvidava.

Suspirei.

Era sexta-feira. Eu havia saído do cassino às onze da manhã, cheguei e dormi até as cinco horas da tarde. Desci as escadas, já vestido, e encontrei o cheiro de café de Rose. Caminhei até a sala, vendo que não havia ninguém, mas segui a voz de meu pai até a sala de estar, próxima à cozinha.

Arqueei as sobrancelhas ao enxergar Michael junto dele.

— Bom dia — murmurei, desviando o olhar do rosto neutro de meu pai para a expressão tensa no rosto de Michael.

Meu pai estava sem o paletó e tinha dois botões da camisa abertos, sinal de que provavelmente não voltaria à empresa hoje, e segurava papéis com o que pareceram gráficos de onde eu estava. Mike estava ao seu lado, vestia um colete por cima da camisa social, como sempre, mas a postura reta não era nem um pouco habitual.

Por um segundo, sabendo o que fizera com minha irmã, agarrei-me no que sobrara de autocontrole para não quebrar-lhe alguns ossos. Se meu pai se esforçava para perdoá-lo, ao que aparentava, eu também não deveria pôr minha opinião no meio.

— Você recém acordou? — perguntou meu pai, assim que responderam o cumprimento. Então, sua expressão mudou para uma mais séria. — Vai comer e vai sair de novo?

Ele tinha a expressão mais incomodada do que preocupada. Tinha medo, assim como minha mãe, de que eu volvesse a meter os pés pelas mãos e desmoronasse a família. Tinham receio de que tivessem que buscar-me no meio do terreno baldio, cercado de viaturas policiais e ambulâncias, para trazer-me para casa pela primeira vez em quase um ano. Especialmente porque eu estava curvado sobre a maca em que o corpo desfalecido de Hilary repousava, e meu melhor amigo estava algemado.

— Michael — falei, optando por não responder meu pai, já que as perguntas estavam mais para retóricas. — Não esperava encontrá-lo aqui — falei, não conseguindo impedir o tom duro de minha voz para com ele.

Mike sustentou meu olhar enfadado por um tempo, mas desviou para a pasta em suas mãos.

— Pois é — murmurou, o cenho vincando. — Estamos organizando tudo para voltarmos a contratar funcionários novos — desconversou, e então forçou um sorriso para meu pai, logo o direcionando à mim: — Se quiser... — Deixou no ar.

— Não estou na cidade para ficar — expliquei, coçando a barba por fazer. — Só vim... — Pausei, percebendo a linha fina na boca de meu pai. — Só vim por conta de um projeto de faculdade — murmurei, por fim, tendo certeza de que ele sabia ser mentira.

— Entendo — disse Mike, percebendo o clima estranho, e optou por permanecer em silêncio.

— Uma cerveja, então? — perguntou meu pai à Michael, com um sorriso de lado. Seria um sorriso descontraído se seu rosto inteiro não parecesse congelado na expressão desconfortável.

— Claro — sorriu Mike, também desconfortável.

Assim que meu pai acenou para que eu os seguisse para a cozinha, e nos deslocávamos para tal, alguém resolveu surgir. Senti pena por Rebecca, porque sabia que ela relutava em sair do quarto, e quando se atrevera a sair, encontrara com o motivo de ficar reclusa.

— Rich? — chamou, e virei para trás. Assim que ela me enxergou e adentrou no cômodo, deu um leve sorriso. — Rich, será que você pode me...

No entanto, o indício de sorriso, assim como o restante da pergunta, sumiu assim que viu as duas outras figuras ao meu lado.

Congelei no lugar.

Minha irmã estava um pouco diferente dos dias anteriores, embora ainda houvesse abatimento em seu olhar. Vestia uma roupa de sair, o que era bastante raro nos últimos tempos, e havia maquiagem em seu rosto formoso.

Rebecca sempre foi maravilhosa. A pele, que era clara quando criança, havia bronzeado significantemente ao longo dos anos vivendo na praia. Os olhos cinzas eram ferozes, como se estivesse sempre preparada para uma briga.

No entanto, esta briga ela havia perdido no minuto em que fixou os olhos em Michael. Mais uma vez, quis acabar com a raça dele. Mas senti pena ao perceber o estado em que Mike ficara com a presença de minha irmã.

Nos poucos segundos de silêncio, ele olhou e desviou o olhar dela, no mínimo, cinco vezes. É como se quisesse olhar para ela, e assim que o fazia, lembrava de meu pai ao seu lado, com a expressão de que estava prestes a matar todo mundo do cômodo.

— Será que pode me dar uma carona quando sair? — murmurou ela, por fim, fixando os olhos em mim.

Assenti com rapidez, desviando os olhos para Michael, que encarava o chão e para meu pai, que encarava Michael. Fechei os olhos, desconfortável.

— É claro — falei, forçando um sorriso. — Só vou comer alguma coisa e já te levo.

— Vou te esperar lá em cima — disse, e deu uma última olhada para Mike antes de virar as costas e sumir em questão de segundos.

— Podemos continuar ou você ainda não voltou à órbita, Michael?

A voz grave de meu pai fez-se ouvir no cômodo e virei o rosto para encará-los. Mike ergueu o olhar e voltou à postura ereta, como um soldado. A máscara neutra voltou ao seu rosto e ele franziu o cenho.

— É claro que podemos — falou, assentindo como se fosse um absurdo que não estivesse ali. — Estou aqui, estou aqui — reforçou, sério.

— Ótimo — respondeu ele, dando as costas por primeiro, para seguir o corredor até cozinha.

De onde estávamos, deu para ouvir os passos de Becca, pelos saltos altos, ao subir as escadas feito um trovão. Como se quisesse pôr a maior distância possível entre eles. E então percebi como Michael se sentia. Porque antes de seguir meu pai, ele olhou para trás uma última vez, mesmo que não pudesse enxergar as escadas de onde estávamos. Naquele segundo, sua expressão vacilou. Mas então, ele virou o rosto e seguiu meu pai com rapidez.

Passei a mãos pelos cabelos.

Não é que os Turner tivessem dedo podre para escolher a pessoa amada, é que o destino teve o dedo podre ao escolher como e em qual situação aquilo ocorreria.

— Ele se importa com você — deixei escapar para minha irmã, quando já estávamos no carro em direção ao centro da cidade, onde eu a deixaria. Percebi quando seu rosto virou em minha direção. — Michael — expliquei, olhando-a por um segundo e voltando os olhos para o trânsito. — Percebi isto hoje. Ele te ama? — perguntei, honestamente intrigado.

Assim que o silêncio perdurou, volvi os olhos para ela.

Rebecca tinha o cenho franzido, parecendo irritada. Não só irritada, mas perturbada. Suspirou, e mesmo de perfil, pude ver quando mudou a expressão para uma triste.

— Sim.

Assenti, voltando os olhos para o semáforo fechado.

— Mas não tanto quanto ama o melhor amigo — finalizou, virando o rosto para a janela. — Não que importe — continuou, zangada —, já que está predeterminado que Michael não é homem para mim.

— Will também não era homem para mim — decidi por falar, sem encará-la, com o intuito de fazê-la sentir-se melhor.

Rebecca soltou um riso fraco, sem achar graça.

— Ah, sim — disse, balançando a cabeça com desgosto, e encarei-a de lado. — Vocês são farinha do mesmo saco, sabe? Você e mamãe — falou, fazendo com que eu arqueasse as sobrancelhas. — Ela também veio com esse papo. É que é muito mais fácil perder a pessoa para se dar conta do valor dela. A diferença é que eu sabia o valor de Michael antes de perdê-lo. Vocês — disse, como uma acusação — é que preferiram esperar me ver chorando pelos cantos para perceber o valor de Mike para mim. Para perceber que era sério.

Suspirei.

— Becca...

— Não, Rich, cala a boca — grunhiu, e pude ver que se segurava para não me agredir. — Eu não quero ouvir. Eu só estou cansada de chamar Michael de covarde e ficar brava com ele, quando... — Pausou, respirando fundo. — Quando, na verdade, ele foi colocado contra a parede. Papai não o deu escolha — falou, e percebi sua voz falhar. — E nem vocês ajudaram — voltou a falar, chateada.

Balancei a cabeça, entendendo seu lado.

— Tem razão, Becca, mas todo mundo tem escolha — falei, lembrando da minha própria situação. Eu me pus naquele cassino, mesmo sem planejar, e devia arcar com as consequências dos meus erros. — E, se escolhemos errado, não podemos pôr a culpa no mundo, mas em nós mesmos.

Becca riu novamente, seca.

— Ele não escolheu errado — falou, com a voz firme, me surpreendendo. — Ele não escolheu errado — repetiu, elevando a voz e remexendo-se no assento. Encarei-a por um momento. — Como é que... — Seus lábios tremeram. — Como é que ele poderia escolher entre a própria família, que o ama e sempre vai amá-lo e eu... — falou, os olhos enchendo-se d'água, indicando com a mão o próprio peito. Desviei o olhar. — Entre a família e seu relacionamento comigo, que não sabe se vai durar ou se só vai empacar a minha vida?

Franzi o cenho, olhando por seu ponto de vista.

Como eu poderia escolher entre fazer tudo ao meu alcance para impedir que Jay perdesse uma parte de si, um irmão, uma criança; e permanecer nos trilhos, na segurança, ao lado de minha família e de Will?

Encarei Becca, com a expressão desolada, porque estava entre amarras que outras pessoas e outros ideais nela puseram. Em uma situação em que não escolhera, pelo contrário, lutara para não estar ali.

Rebecca lutava pelo que queria, por quem amava, e por quem era. Nunca se deixou mudar por ninguém, nem pela família, nem por Michael. Era uma guerreira, como nossa mãe.

Como eu poderia escolher entre fazer o que é certo, mesmo que me condene; e fazer o que é errado — virar o rosto para o lado e fingir que não vi -, porque me manteria seguro?

Eu era um completo babaca quando adolescente, não há dúvidas disto. Mas eu jamais fui alguém que vira a cara quando vê problemas. Eu sempre os encarei de frente. Eu sempre ajudei quem eu podia, eu sempre perdoei quem eu deveria.

Eu nunca, jamais, seria capaz de ignorar o que Jay poderia passar se eu não tentasse ajudar. Pode ser que eu não consiga ajudar, no fim das contas, mas não vai ser por falta de tentativas. Eu nunca iria querer ver meus irmãos virarem marginais e eu, com certeza, nunca gostaria de ter que vê-los em um caixão.

Tentei engolir em seco, mas o nódulo em minha garganta apenas atrapalhou.

— Nenhum romance é garantido para o resto da vida — continuou a falar, deixando que as lágrimas escapassem por seus olhos. — As pessoas se apaixonam, se descobrem juntas, e tentam fazer dar certo. Nem sempre dá, e tudo bem, porque a vida é assim — disse, fungando.

Franzi o cenho, pensando em Will.

Evitava pensar nisto, porque eu tinha coisas muito maiores com as quais me preocupar, mas eu pensava constantemente em Will sozinho naquela cidade. E meus pensamentos se voltavam para Peter, o garoto que o paquerava com os olhos, certo que eu não tivesse com o que me preocupar, sempre haveria um Peter. Will é perfeito.

Mas então, eu jogava tudo relacionado à Hybridfield para o fundo de minha mente e esperava que pudesse lidar com isto mais tarde. E principalmente, que eu estivesse vivo para lidar com isto mais tarde.

— Mas como Mike poderia me escolher, sem garantia, sabendo que perderia nosso pai por isto e talvez o resto da família? Nosso pai, que sempre estará ali, garantido. Porque é família e família é garantida — falou, mordendo o lábio que tremia.

Engoli em seco, sentindo-me culpado por haver trazido o assunto à tona. E principalmente, sentindo que minha irmã tinha razão.

— Becca, me... — comecei, mas ela ignorou.

— Ele não escolheu errado, porque não existe escolha errada quando se está nesta posição. Porque ninguém devia ter que escolher entre amor e família — firmou, e vi quando limpou as lágrimas sem delicadeza. — Ninguém.

Estacionei o carro ao lado do local de fastfood onde Becca se encontraria com os amigos antes de irem em uma festa. Ela fez menção de abrir a porta, mas a impedi.

— Becca, me desculpa — murmurei, e segurei seu rosto para que olhasse para mim. Ela ainda tinha os olhos úmidos, mas havia limpado as lágrimas do rosto. — Você tem razão — falei, sorrindo. — Você tem total razão. Ninguém devia escolher entre família e amor, e Michael fez o que achou melhor para todos — disse, vendo suas sobrancelhas unirem. — Eu entendo.

Becca fechou os olhos.

— Tudo bem, Rich, mas... — Respirou fundo, afastando-se de meu toque para tentar ajeitar a maquiagem com os dedos. — Não importa mais. Eu só quero esquecer disto hoje. Só hoje.

— Eu sei, mas — continuei, pegando seu braço para chamar a atenção dos olhos acizentados como os meus — deixa eu só dizer isto. Me desculpa por ter demorado, assim como nossa mãe, a perceber meu erro. Eu sei que não tenho nada a ver com isso — falei, apertando sua mão. — Só você resolve sua vida amorosa. Só cabe a você julgar. E se você acha que Mike é o cara certo, apesar de... — Fiz uma careta, pensando se falava da idade, do relacionamento dele com nossa família ou de seu espírito libertino. — Apesar de tudo, então não deixa por isto. Eu também não vou deixar, está bem? Sei que o Sr. Turner é cabeça dura — falei, referindo-se ao nosso pai —, mas ele não é cego. Já deve ter percebido o mesmo que eu, o mesmo que todos, mas também é orgulhoso, e só deve estar tomando coragem para admitir o erro. E se precisar, eu converso com ele.

Rebecca me encarou por um tempo, séria, para então sorrir, puxando-me pelo pescoço e apertando com força. Retribuí o abraço, um tanto sem jeito por conta do cinto de segurança e bem, por não costumar abraçar meus irmãos por mais de cinco segundos.

Não éramos como a família de Will, que toma todos em abraços calorosos como se os conhecesse de toda a vida.

— Obrigada, Rich — murmurou contra meu pescoço.

— Eu te amo, Becca — decidi falar, no ímpeto de que ela soubesse, apertando-a também no abraço. — Eu só quero que você seja feliz.

Ela se afastou logo em seguida, olhando-me nos olhos com preocupação. Desceu os olhos para a barba por fazer, e forçou um sorriso.

— Eu também te amo — murmurou, com o cenho franzido, passando os dedos por minha barba. — Rich, você está bem?

Franzi o cenho.

Não demorou para que eu entendesse do que ela falava. Mas então dei de ombros, com um sorriso forçado, ao dizer que sim e passar uma das mãos por seus cabelos castanhos. Ela ainda permaneceu me estudando por um tempo, antes de, contrariada, sair do carro.

Eu sabia o que lhe era estranho. As palavras, a conversa, o abraço. Rob não havia estranhado, mas quando peguei minha mãe de surpresa com um abraço e mil desculpas por tudo que havia feito, ela também percebeu.

Eu estava me despedindo.

Não é como se eu tivesse uma arma na cabeça. Pelo contrário. Se Lutz queria que eu trabalhasse com eles, era porque queriam me manter vivo. Eu teria um trabalho, ganharia dinheiro e passaria anos jogando. Esta era a melhor das hipóteses, mas também era a pior. Eu não poderia deixar o cassino, não poderia deixar a cidade, e ficaria preso em um ciclo sem fim.

Mas eu também sabia que, mesmo sendo um viciado, eu não desistiria de sair dali e voltar para meu outro vício: Will. E uma hora ou hora, de tanto tentar, aí sim podia ser que eu acabasse morto. E eu queria deixar minha marca, caso tudo desse errado.

Queria fazer o mesmo gesto para com Will, mas eu não conseguia. Eu passava mal só de pensar em ligar para ele e me despedir. Jamais conseguiria me despedir de Will. Doía demais.

Nós não tivemos tempo suficiente.

Engoli o choro enquanto dirigia de volta para o cassino, depois de haver deixado minha irmã limpando o rosto e ajeitando a roupa antes de entrar no local. Assim que estacionei ao lado do cassino, fiz o mesmo trajeto que fazia desde domingo passado.

Todo dia era um dèjá-vu.

O único que mudou, no entanto, assim que cheguei, foi a expressão no rosto do Cobra. Os olhos estavam fixos em meu rosto, por tempo demais, como se me estudasse. Parecia estranhamente misterioso. Exageradamente misterioso.

Assim que começou a revistar-me — já que depois do sumiço das chaves, todos foram encarregados de revistar os clientes, todos sem exceção -, Cobra se pronunciou.

— Sabe — começou, em um tom falsamente neutro —, hoje eles estão empolgados com o interrogatório de Marcus — contou, e franzi o cenho.

Em primeiro lugar, Cobra nunca puxa assuntos aleatórios, ainda mais sobre algo que me diz respeito: Marcus. Em segundo, havia uma estranha reticências do que falava, como se estivesse com algo em mente.

— Estão arrancando-lhe informações até agora — continuou, indicando o aparelho em seu ouvido para explicar como sabia disto. — Aposto que, quando você descer, eles ainda não o terão movido da sala 1 para a sala 2.

Arqueou uma das sobrancelhas com sugestão. Então, enfiou uma das mãos em meu bolso dianteiro da calça, retirando o meu próprio molho de chaves, destacado pelo chaveiro de Jay. Encarou o chaveiro com um sorriso antes de enfiá-lo no próprio bolso dianteiro.

Ele havia roubado minhas chaves?

Elevei uma das sobrancelhas, indicando que se explicasse.

— Vou ficar com isto, se não se importar — falou, referindo-se às minhas chaves. Comecei a ficar aturdido. Estaria ele impedindo que eu saísse do cassino? — Não se preocupe, eu as devolvo quando você sair — emendou, como se lesse meus pensamentos. — Você sabe, chaves são perigosas.

Então, ele levou sua mão ao outro bolso da própria calça, tirando um molho com cerca de trinta chaves. Um molho de chaves que eu reconhecia. Um molho de chaves que eu houvera roubado quase duas semanas atrás.

— O quê...? — tentei perguntar, mas não soube como.

E nem precisou, porque ele enfiou as chaves no bolso da minha calça, onde as minhas chaves pessoais estavam anteriormente. Substituiu as minhas pelas que eu havia roubado do segurança mexicano.

— Fique aí — falou, e só percebi que não falava comigo quando vi os olhos presos atrás de mim. — Onde está — explicou, com a voz firme, para o outro cliente. — Já revisto você.

Voltou, então, os olhos escuros para mim e arqueou as sobrancelhas.

— E então? — perguntou, indicando a porta atrás de si, como se eu fosse retardado. — Entre logo.

Confuso demais, entrei em estado atônito e mudo.

Me dava conta de três coisas.

A primeira: eu conseguira as chaves de volta e esta era a minha chance de libertar Marcus e salvar Kevin, motivo pelo qual eu estava aqui em primeiro lugar. A segunda: Cobra me ajudara, mas eu não sabia a troco de que e por que diabos ele havia ficado com as minhas chaves. Aliás, não sabia se ele estava me ajudando ou ferrando de vez comigo. Eu não fazia ideia se podia confiar nele, mas uma vez mais, esta era minha única opção. E a terceira: se tudo desse certo, eu poderia acabar morto, mas também poderia acabar livre.

Desci os degraus com apreensão, logo percebendo que eu seria revistado novamente. Eu havia esquecido dos dois seguranças das escadarias. Evitei transparecer o quão nervoso estava.

Estaria Cobra tentando fazer com que eu fosse pego?

A ideia me alarmou, mas também deixou-me confuso. Se era isso que ele queria, podia tê-lo feito de uma maneira que não levantasse suspeita alguma para si.

Estava preparado para ser pego, mas os dois postes não fizeram nada além de manterem a pose de intocáveis. Franzi o cenho, estranhando o fato de não vierem me revistar. E então eu o ouvi.

Marcus.

Eu reconhecia aquele grito estridente, e pelo som de passos e cadeira caindo, supus que ele devia estar esperneando para livrar-se da dor. E eu sabia de que dor se tratava.

Esqueci de tudo em um segundo.

Senti o sangue subir-me à cabeça e possuído pelo ódio, assim que passei pelos seguranças, dei um chute na porta de onde vinha o barulho para que abrisse. A porta não abriu totalmente, e eu logo dei-me conta de que era devido aos dois brutamontes que estavam a resguardando.

Não me importei com as duas mãos que me seguraram por trás, antes que eu entrasse no cômodo, porque meus olhos estavam fixos em meu antigo amigo. A boa aparência de quem apanhou e continua em pé já não prevalecia nele.

Estava destruído.

— Que porra vocês estão fazendo? — perguntei, tentando soltar-me.

O cômodo era pequeno e a luz não era das melhores. Haviam dois sofás, nenhum tapete — por motivos óbvios, e uma mesa de metal bem no meio do cômodo, com cinco cadeiras. Uma delas estava ao chão, ao lado de Marcus e dois homens que o seguravam.

Lutz estava apoiado em uma das paredes, com os braços cruzados, mas logo desfez a pose ao ver o estado furioso em que eu me encontrava. Frank estava em pé em frente à Marcus, com as mangas arregaçadas, as mãos sujas de sangue e um faca militar entre os dedos.

Enxerguei apenas vermelho quando apoiei meu corpo no cara que me segurava e ergui as pernas, chutando o outro segurança que vinha em minha direção. Isso acabou fazendo com eu me soltasse, já que o brutamontes que me segurava havia perdido o equilíbrio com o meu peso e impulso. Desviei dos golpes e desferi outros, conseguindo me soltar e vendo que Frank havia saltado para trás ao ver que ele era meu objetivo.

Assim que o alcancei, já que ele tinha as costas na parede, pôs-se a erguer o instrumento em minha direção. Segurei seu antebraço com força, apertando os dedos para que a faca caísse no chão e dei uma cabeçada em seu rosto ridículo.

Ah, o prazer.

Eu queria fazer isto desde a ligação de meses atrás.

Tão logo o fiz, braços puxaram-me para longe, e ao ver que eu estava praticamente ao lado de Marcus — e dos dois seguranças -, soltei-me mais uma vez, talvez me machucando mais do que machucando a eles. Não importava.

Logo alguém fechava o braço em torno de meu pescoço, enquanto outros dois puxavam meus braços, um de cada lado. Chutei a região entre as pernas, mesmo de costas, do cara que me segurava por trás. Assim, puxei um dos braços de forma com que o segurança viesse em minha direção e dei outra cabeçada, desta vez em um deles.

Dois pares de mão me puxaram para trás.

— Já chega — interviu a voz grave de Lutz, e segundos depois, eu estava livre.

Lutz devia ter indicado que me soltassem, vendo o estado de espírito no qual eu me encontrava. Eu poderia enfraquecer, mas estava claro que desta vez não iria desistir antes de lutar.

Ao mesmo tempo, Marcus caiu no chão quando os que o mantinham em pé também se afastaram. Ajoelhei-me na frente dele, segurando seu rosto com as mãos. Estava praticamente irreconhecível com tanto inchaço e sujeira no rosto. Usava a mesma roupa de domingo, quando fora capturado, e fedia a urina, suor e sangue. Nos braços tatuados haviam cortes nada bonitos. E então eu vi a camisa encharcada de sangue, que só podia significar algo. Logo embaixo, na coxa direita, a calça estava completamente vermelha pelo sangue, mas aparentemente não era de hoje.

Não havia tanto sangue em sua camisa, mas eu imaginei que talvez ele tivesse mais ferimentos internos e graves.

Fechei os olhos antes de olhar para trás. Haviam, agora, oito soldados de guerra no ambiente, tomando conta pelo tamanho. E então, havia Lutz de braços cruzados e Frank limpando o sangue do nariz e da boca, com ódio controlado.

— Se dependesse de mim, seu amigo estaria livre — disse Lutz, com um suspiro. — Mas dependia de você. Sua má vontade e sua ingratidão por tudo que fizemos nas últimas semanas me deixaram incrivelmente insatisfeito. Não confio em você, e Frank tampouco. E bom, esses dois têm assuntos inacabados — completou, referindo-se à Marcus e Frank. — Você sabia que isto ocorreria, e não colaborou. O que quer que aconteça, é sua responsabilidade.

Pressionei a barriga de Marcus, para estancar o sangramento, e ouvi um resmungo seu.

Como estava de costas para eles e de frente para Marcus, aproveitei o momento para retirar as chaves de meu bolso e enfiá-la nos dele. Aproveitei para enfiar o dinheiro que eu devia entregar hoje para os fiscais, pensando que se ele conseguisse escapar, precisaria de ajuda com os ferimentos. Ele forçou a cabeça para levantá-la, olhando-me nos olhos pelas frestas dos seus com um sorriso de canto. Os olhos estavam tão inchados que mal podia ver.

Imaginei como ele poderia dar o fora daqui neste estado.

— Você consegue — sussurrei, ignorando Lutz às minhas costas. — Estou de saco cheio desta porra — falei em tom alto, erguendo-me do chão. — Eu estou aqui, fazendo meu serviço. Você sabe que eu não irei dar as costas, não sou suicida e preservo quem amo.

Fui honesto. Afinal, se eu saísse dali seria por uma artimanha que eles ficariam sabendo. O que eu duvidava conseguir, mas isto significava, então, que eu não daria no pé de forma alguma.

Estreitei os olhos para Lutz, que estalou a língua, indicando que seus homens juntassem Marcus do chão e o levassem à outra saleta, onde permaneceria.

— Não ouse — falei, ficando em frente de Marcus e de frente para os dois guardas. — Este não era nosso acordo — falei, encarando Lutz.

— Tem razão — respondeu ele, petulante. — Mas nosso acordo já chegou ao fim. Você tem razão, Turner, eu imagino que você tem amor à vida e à sua família. Aos seus amigos... — falou, encarando a figura acabada atrás de mim. — Mas você não é de confiança. Nosso acordo acabou. — Engoli em seco, percebendo que todo o valor que eu tinha para eles acabava de acabar.— Você é meu novo escravo pessoal, e caso negue, eu vou ficar feliz em cortar a cabecinha linda de algum dos seus irmãos — disse, e meu sangue ferveu tanto que dei um passo em frente com o objetivo de quebrar todos os seus dentes.

Ele ameaçou a minha família?

— Eu vou ficar feliz em quebrar osso por osso do seu corpo — bradei, podendo enxergá-lo já morto em minha mente.

Lutz sorriu, sem humor algum.

— Você vai permanecer aqui apenas para jogar e para me render dinheiro, quer queira quer não — falou, firme, e pensei que nunca o havia visto tão irritado. — Porque já não quero trabalhar com você, eu só o quero na minha mão — frisou, fazendo sinal para os seguranças.

Congelei no local, encarando os seguranças com raiva.

Não saí de perto de Marcus sem lutar, mas eu já não tinha tanta força. E, é claro, desta vez eram oito postes contra mim. Eu não sou um super-herói. Logo, vi arrastarem Marcus para fora do cômodo, literalmente. Não havia força nem em suas pernas. Frank os seguiu, ainda apertando o nariz com um lenço brega, e olhou uma última vez para trás, com um sorriso de canto.

Minha respiração começou a pesar.

E se eles resolvessem matá-lo neste instante?

— Quanto ao Marcus — disse Lutz, aproximando-se para pôr uma mão em meu ombro —, Frank fará o que quiser com ele, porque é isto que fazemos com quem fica no nosso caminho. Agora — continuou, apertando meu ombro com mais força —, retire-se.

Sentindo-me pior do que imaginava, forcei meus pés a saírem da sala escurecida pela má iluminação. Dei-me conta de que muitos encaravam a cena, já que a porta da sala 1 ficava bem em frente à abertura para o Golden. E bem, eu a havia aberto a chutes.

Olhei para os lados, percebendo que Marcus e Frank já não estavam a vista. E eu não vi se entraram em algum dos cômodos ou subiram para o térreo.

Droga.

Fiz menção em direcionar-me para às escadas, mas Lutz forçou meu corpo para a área das jogatinas. Deixou claro que sabia que eu já devia dinheiro, e que se o havia trazido comigo, então deveria recuperá-lo no que eu sou melhor: no Poker.

A adrenalina pelos jogos havia decaído naquele instante, e pensei que talvez houvesse salvação para o meu vício. Estava tão preocupado por Marcus, esquecendo até mesmo de Kevin, que mal conseguia raciocinar.

Marcus tinha uma chance, ou eu pensava que ele tinha.

Conseguiria ele escapar?

Se conseguisse, estaria bastante claro que eu o ajudei, de alguma forma. O ódio por mim poderia fazê-los perder qualquer interesse pela vingança estúpida de Lutz de ver-me aqui todos os dias, trabalhando para eles sem ganhar nada em troca. A raiva de Frank poderia ser repassada ao próprio Lutz e eu acabar morto.

Se Marcus escapasse, seria praticamente a minha sentença de morte.

Fechei os olhos, inspirei fundo e sentei-me em uma das mesas do Poker.

Enquanto jogava, relaxando aos poucos devido aos números que enchiam meus olhos e minha mente, eu encarava as portas das salas. Apesar de haver entrado no clima do jogo, calculando meus movimentos, e estudando os outros jogadores, meus olhos sempre voltavam àquelas malditas portas.

Mesmo que Marcus conseguisse derrubar um segurança, o que era improvável no estado em ele se encontrava, como diabos ele sairia dali sem que ninguém percebesse?

Eu estava a postos, para ajudar, com os olhos atentos. Mas nada ocorria.

O tempo passou, passou, passou. Os jogos acabavam e começavam novamente, comigo perdendo na maioria, e nada de Marcus. A porta não abriu, e ninguém saiu de lá de dentro.

Com certeza, ao menos um segurança devia ficar com Marcus do lado de dentro do cômodo. E se ninguém havia saído de lá até o momento, significava que Frank havia subido as escadas ao invés de entrar na sala 2 com Marcus. Porque interrogando, torturando ou matando, em duas horas ele já devia ter saído, com ou sem Marcus.

Isto não ocorreu, sinal de que não estava ali. E se eles não estavam ali, onde diabos estavam?

O tempo seguiu seu curso, e nada.

Eu ficava tenso a cada segundo, e em algum momento, percebi que devia sair dali, para longe da fumaça, para longe dos sons típicos de cassino. Para longe de Frank e de Lutz, para que eu pudesse respirar normalmente.

Marcus devia estar morto.

Cocei o olho, não querendo chorar, com raiva. E comecei a jogar para valer, ganhando meu dinheiro para que pudesse sair dali. Bom, dinheiro de Lutz. Assim que paguei a quantia exata, depois de horas fixo no Poker e no Blackjack — eu já não tinha forças para a queda de braço -, consegui permissão para sair.

Fui revistado novamente, duas vezes seguidas pelos mesmos seguranças do subsolo, aqueles que não haviam me revistado quando entrei. Isto queria dizer que eu estava sob máxima suspeita. Reprimi um gemido de pesar.

Cobra me esperava no topo das escadas. Fechou a porta e pareceu não apreciar a expressão desolada em meu rosto, mas optou por relevar. Revistou duas vezes seguidas, como os demais, percebendo que eu já não mais possuía o molho imenso de chaves. Isto trouxe um sorriso de canto ao seu rosto.

E então, enfiou as minhas chaves no bolso de uma vez.

— Creio que isto lhe pertence — falou ele, antes de voltar à sua postura reta.

Peguei-as e encarei com suspeita, apenas para ver que todas as chaves permaneciam ali, junto ao chaveiro de Jay. Mesmo sem entender, relevei. Suspirando, deixei os ombros caírem.

— Por que me ajudou? — perguntei em tom baixo, deduzindo que sim, havia sido uma tentativa de ajuda.

Cobra franziu o cenho, parecendo ponderar. Então, deu de ombros.

— Você não é o primeiro — falou, me surpreendendo.

Por um segundo, indaguei-me se havia sido ele que deixou o homem de dois anos atrás escapar, fazendo com que Lutz aumentasse o número de cães de guarda. E se havia sido, ele devia ter muito poder ali dentro para conseguir algo assim.

Teria ele feito com que os dois seguranças da escadaria não me revistassem, de propósito?

— Eu gosto de cassinos — continuou ele, ouvindo batidas atrás de si mais uma vez. Ergueu os ombros. — Aqui fico entediado e... — Fez uma pausa, reprimindo um sorriso, e inclinou-se minimamente em minha direção. — Gosto de mudar as regras do jogo, para variar.

Levei um segundo para entender que ele falava do jogo de Lutz.

Estaria ele querendo dizer que cansava de ver Lutz sempre ganhando?

Talvez eu nunca viesse a saber.

Retribuí o sorriso e dei-lhe as costas quando, sem dar continuação ao assunto, ele abriu a porta atrás de si para o outro jogador sair e logo revistá-lo. Acabei percorrendo o mesmo caminho de sempre.

Ao ver o indício do pôr do sol, chequei as horas. Passava das seis da manhã, e o movimento da rua contrastava com o movimento de dentro do cassino. Fechei os olhos, cansado, antes de abri-los e caminhar até meu carro. Olhei para trás uma última vez antes de começar a dar partida.

Não havia dirigido nem por um minuto quando meu celular decidiu tocar tantas vezes seguidas que tive que atender.

Rich...

A voz cansada de Marcus fez com que eu pisasse no freio, esquecendo de completamente tudo ao meu redor.

— Marcus, não me diga — murmurei, chocado. — Não tem como — sussurrei, assombrado. — Marcus? Marcus!

As buzinas atrás de mim fizeram com que eu virasse a direção e estacionasse no acostamento, enquanto ouvia Marcus falar. Minhas mãos tremiam, eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo.

Achei que você fosse me deixar para morrer, idiota — resmungou, e ouvi um som de metal ao fundo. — Duas semanas, porra!

Fechei os olhos, com alívio, ao encostar a testa no volante.

— Você conseguiu — falei, rindo feito um idiota, ignorando seus resmungos.

Danny está me ajudando com os ferimentos, confio nele — falou, soltando um suspiro de dor. — Frank está morto, estou te dizendo. Ah, caralho! — resmungou e ouvi uma "desculpa" ao fundo. — Mal posso esperar para pôr as mãos naquele pescoço — continuou, entredentes. — Rich?

Por mais que estivesse feliz, tão feliz que mal podia respirar, por Marcus ter conseguido sair daquilo, ainda assim não compreendia como ele houvera feito isto.

— Como diabos você conseguiu sair, filho da puta? — perguntei, o alívio sumindo e dando conta para a confusão em mim. — Eu encarei a maldita porta por horas e não vi você sair! Você sequer conseguia caminhar direito, eu pensei que eu já devia... — Minha voz diminuiu aos poucos até sumir.

O dia não havia amanhecido completamente, mas estava claro o suficiente para eu enxergar a anomalia na pelúcia. O duende que Jay me regalara ainda balançava junto das chaves, já que eu recém havia parado o carro, na ignição. Como eu estava com o rosto no volante, estava bastante nítida para mim a costura antes inexistente no objeto.

Assim você me ofende — disse Marcus, com deboche, quando percebeu que eu não continuaria. — Claro que eu podia caminhar — falou, mas até sua fala saía enrolada, provavelmente devido à língua inchada. — Se você está sendo espancado, primeira coisa a fazer é fingir estar pior. Maiores chances de sobrevivência, né não? — perguntou, e percebi que perguntava ao Danny quando o outro concordou. — Se não fosse assim, eu não teria conseguido.

Como diabos conseguiu sair sem que ninguém te visse? — perguntei, novamente, ao enfatizar o "como".

Desencaixei a chave do veículo e trouxe a pelúcia para perto de meus olhos, examinando ao girá-la para os lados. A costura ficava na extensão das costas do terno do duende.

Você não vai querer saber — disse ele, e engoli em seco, percebendo que havia matado alguém. — Eu disse que converti um dos rapazes de Frank, ele me ajudou. Com os outros, fiz o que tinha que fazer — falou, enrolando ainda mais a língua, fazendo-me pensar que estava dopado pelos ferimentos.

Engoli em seco, jogando para o fundo da minha mente as possíveis mortes que Marcus causou. Eu sabia que ele capaz disto, ainda mais quando se trata da própria sobrevivência.

— Você precisa achar um lugar seguro para ficar — murmurei, com o cenho franzido, ao voltar a atenção para a pelúcia, girando-a entre meus dedos. — Tem certeza de que não precisa ir ao hospital?

Puxei a linha que costurava as costas do duende mal-humorado, acabando com a costura aos poucos, com o cuidado de não acabar com o presente que eu ganhara de Jay.

— Tenho — resmungou Marcus, e ouvi o mesmo do rapaz que o cuidava ao fundo.

Assim que consegui enxergar além da abertura do "duende Rich", percebi que havia algo dentro. Puxei entre meus dedos o objeto enegrecido, e assim que o levei à luz que adentrava por meu vidro dianteiro, já que o objeto era minúsculo, entendi do que se tratava.

Rich? — chamou Marcus, com um suspiro. — Colin acaba de entrar aqui — contou, e pude ver, por sua voz, que era boa notícia. — Está feito.

Assenti com a cabeça, orgulhoso da engenhosidade de meu amigo, mesmo que ele não pudesse me ver. Aos poucos, um sorriso foi tomando conta de minha face, e senti minha visão embaçar com as lágrimas que enchiam meus olhos.

Eu não sabia o motivo do choro repentino, talvez fosse o alívio de saber que Marcus está vivo, talvez fosse o orgulho de que meu plano viesse a funcionar, talvez a felicidade de que alguma coisa houvera dado certo, talvez fosse o cansaço do dia me atingindo. Talvez eu estivesse simples e emocionalmente exausto.

Talvez, ainda, fosse o pendrive que eu segurava entre meus dedos. E a esperança de que ele fosse meu passe livre em direção à liberdade.

Notas finais
Sim, dez mil palavras HAHAHAHA. Mas eu já liguei o foda-se, não ia dividir em dois capítulos porque ele todo faz parte de uma etapa só. O que aumentou, na realidade, foram as partes com o Rob e com a Becca. Próximo capítulo tem a festa dos calouros, narrada pelo Will ♥ Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! *O*