Made of Fire
14 XIII - Algo tão lindo quanto fazer-te sorrir
Notas iniciais
Alguma coisa estava acontecendo.
Eu não podia dizer o que era, mesmo pensando muito, mas alguma coisa estava errada. Algo além do que meus olhos podiam ver. Algo além do que minha intuição podia sentir. Algo além do que meu tempo como professor podia decifrar.
Porém, definitivamente, alguma coisa estava acontecendo.
Estreitei os olhos ao observar meus alunos por mais um tempo.
Jessica acabava de inclinar-se em direção à sua amiga, também principiante em minha matéria, e cochichar algo que fez a segunda rir. Mais adiante, Laurel parecia fuzilar as duas com os olhos e batia o pé no chão sem parar. Não virou para participar da conversa com seus amigos durante minutos, concentrada em fazer a outra explodir em pedaços com seu olhar. Ao menos, era o que parecia.
Desviei os olhos para o lado esquerdo do lugar. George tinha um sorriso malicioso no rosto ao falar alguma coisa para os amigos. Seu sorriso malicioso, no entanto, não era nada como o de Will. Era maldoso. E eu tinha certeza de que as palavras que saíram de sua boca poucos segundos antes também eram maldosas.
Ao lado destes, estavam Garrett e outros repetentes – pela terceira vez, a propósito – que também conversavam entre si. No entanto, pareciam indiferentes em relação ao que diabos fosse que estava acontecendo por ali. Ao contrário do grupo de amigos de Naomi, que parecia completamente alheio à situação.
— Sr. Turner? — A voz à minha esquerda tirou-me da concentração. — Está tudo preparado — foi anunciado pelo homem loiro de uniforme, com um aceno de cabeça. Agradeci e desviei os olhos ao senhor que vinha em minha direção e tomava o posto ao meu lado.
— Tudo certo? — perguntou-me Edwards. Assenti levemente.
— Pessoal, está tudo preparado para irmos agora — disse ele, virado para os alunos. — Então arrumem suas coisas, peguem o que falta e, se necessitarem, corram para o banheiro, porque partiremos em dez minutos, sem falta — sentenciou, entrando no ônibus de viagem às nossas costas.
Em seguida, me dirigi em frente à porta deste. Havíamos distribuído fichas com numeração para que nenhum engraçadinho viesse sem ter pago o valor da viagem.
— Vou precisar que façam uma fila indiana — disse à eles e, ao ver a careta de alguns, prossegui: — Isso mesmo, exatamente como no colégio. Vamos lá!
Eu havia chegado ao nosso prédio alguns minutos antes das cinco horas da manhã. Hoje era sexta-feira e era o dia da viagem até a empresa da minha família. Tive que chegar antes com Edwards para organizar o que era necessário. Os alunos começaram a chegar alguns minutos após nossa chegada.
Desviei os olhos para eles, que agora sustentavam a fila indiana em frente à porta do ônibus. Assenti para Karen, que logo entrou nele com a mochila nas costas.
Voltei a mente para o que estava acontecendo alguns minutos antes.
O clima tenso não estava presente quando os alunos começaram a chegar e se preparar para a viagem. Não estava presente até depois do momento em que estávamos todos postos em frente ao prédio, esperando o ônibus que viria até nós. Foi depois. Depois que todos já haviam arrumado algum lugar para sentar e depois de reclamarem incessantemente de sono.
Em algum momento, os cochichos reinaram junto das encaradas entre si. As risadas vieram junto e os olhares raivosos — como o de Laurel — também. Eu não soube dizer como começou nem o porquê. Porém, me incomodava profundamente. Não porque eu sou ótimo professor e me preocupo por meus alunos. Pelo contrário. Porque eu sou péssimo professor – e cheguei à essa conclusão alguns dias atrás — e me preocupo com um aluno específico.
Todos os olhares e toda a atenção sempre parecia voltar à Will e seus amigos. Durou alguns minutos, talvez dez ou quinze. Mas mesmo depois que as encaradas terminaram, o clima estranho permaneceu.
Laurel me entregava a ficha com o número e me encarava esperando-me assentir. Os olhos castanhos ainda pareciam exalar raiva, embora eu imaginasse que, desta vez, não era direcionada à mim. Entrou no ônibus, seguida dos amigos.
Instintivamente prendi a respiração quando o garoto de cabelos bagunçados parou à minha frente, estendendo-me a ficha. Os olhos, antes sempre sorridentes, estavam tomados por chateação e... Tristeza?
Engoli em seco, sentindo meu coração apertar.
O que diabos tinha acontecido?
Will não havia voltado à minha sala na semana inteira e isto me trouxe um vazio maior do que eu pensava que traria. Em parte, eu sabia que Will era meticuloso e esperto. Provavelmente sabia que aproximar-se de mim enquanto eu emanava irritação e confusão onde quer que eu fosse não era uma boa ideia. Mas outra parte minha sabia que acima disto, eu o havia magoado. Eu o havia envergonhado e chateado. E isto me consumia por dentro.
Suspirei ao assentir para que ele entrasse no ônibus. Antes que o fizesse, porém, a voz de George se fez ouvir acima das outras, apesar de cochichada.
— ... só o que faltava. Agora ele vai fazer o quê, agarrar o Dragão também? — perguntou, irritado.
Ele também me chamando por esse apelido?
— Como se ele fosse se importar — ouvi um de seus amigos responder, rindo. — Deve ter adorado o serviço de Will e isso está evidente pela nota que ele tirou!
Franzi o cenho, olhando em direção às vozes. Dali, só podia enxergar em parte seus cabelos e o perfil de George, por causa da fila. Os outros alunos, mais próximos à mim, desviaram o olhar. Jessica, às suas costas, soltou uma risadinha. As garotas logo à minha frente, como Naomi, apenas encolheram-se levemente. Sabiam que eu havia escutado.
Não fui o único, pensei ao desviar os olhos para Will. Havia hesitado antes de subir no ônibus, mas o fez. Tinha as orelhas vermelhas e as mãos cerradas em punho.
Bom, agora eu podia entender o que estava acontecendo.
Edwards estava certo, afinal de contas. O resto do pessoal realmente achava que eu estava favoritando Will. Bufei internamente.
É esperar demais que estudantes de faculdade tenham ao menos um pouco de maturidade?
Quando os últimos entregaram a ficha para entrar, dirigi um olhar nem um pouco amigável para eles. Podia ver George coçar-se por dentro para fazer mais uma de suas piadinhas, um desafio nada agradável no olhar. No entanto, devo ter sido bastante evidente com a careta que fiz, pois este limitou-se a ficar sério e entrar no ônibus sem dizer uma palavra.
Olhei em volta para ver se nenhum aluno chegaria atrasado e então entrei também no ônibus. Não pude enxergar onde Will havia sentado, mas podia ver a cabeleira ruiva de Louis próxima ao fundo do ônibus.
Sentei logo em frente com Edwards, que passou a tagarelar sobre como a viagem faria bem aos alunos. Limitei-me a escutá-lo sem prestar atenção. As gargalhadas haviam recomeçado, assim como o barulho de pacote de salgadinho sendo aberto. Suspirei.
Seria uma longa viagem.
*
Deixei que um sorriso se alargasse em meu rosto quando avistei o prédio de minha família. O prédio no qual eu havia crescido, no qual eu havia brincado e corrido com meus irmãos, em que eu havia visitado quando não tinha nada para fazer. O prédio no qual eu até mesmo havia trabalhado.
O prédio de cor cinza era o principal da Turner Imóveis. Apesar do térreo ter sido adaptado para a loja de imóveis, os quatro andares superiores eram dedicados à parte administrativa da empresa.
Orientei-os em direção ao prédio enquanto explicava como funcionaria a visita junto de Edwards. Passamos pelas portas e, com a confirmação do segurança, nos dirigimos às escadas.
Ao chegar no primeiro andar, avistei o homem que admirei a vida inteira. Estava em seu terno habitual, os cabelos escuros — agora tomados por fios brancos — penteados para trás e a barba feita. Pude ver quando voltou os olhos castanhos em minha direção, o sorriso alargando-se em seu rosto quando veio caminhando até a gente. Estava seguido de duas pessoas, que logo reconheci serem meu irmão e Luke.
— Richard! — Meu pai pronunciou-se, parando à nossa frente. — Vocês devem ser os alunos de meu filho e você, o Sr. Edwards. — Estendeu a mão para cumprimentá-lo depois de dar tapinhas em minhas costas. — Muito prazer.
— O prazer é meu, Sr. Turner — cumprimentou-o também.
— Pessoal — falei, chamando a atenção deles —, gostaria de apresentá-los ao fundador da Turner Imóveis e meu pai, o Sr. Frederich Turner — falei, sorrindo para ele. — Meu irmão e gerente administrativo, Robert Turner. E Luke Stewart, assistente administrativo — falei, indicando-os com a mão.
Luke usava um terno simples sem a gravata, tinha os cabelos castanhos penteados e os olhos de mesma cor exalavam certo divertimento. Costumava ser o amigo drogado de Rob. Cheio de problemas, vindo de família pobre e problemática. Não teve boas influências nem vindas dos pais nem dos diversos irmãos. Ouvi dizer que ele quase entrou em algum tipo de gangue mafiosa, mas nunca me atrevi a perguntar a veracidade disto. Era difícil de acreditar, dado o constante bom humor do moreno. Depois de muito tempo saindo com Rob é que Luke passou a andar nos trilhos e a trabalhar na empresa.
— Está bem evidente que é sua família, professor — ouvi Garrett dizer. — Parecem cópias um do outro — falou, obtendo risadas tanto dos alunos quanto nossa.
Se eu dissesse quantas vezes ouvi isso antes...
Em seguida, meu pai passou a tagarelar sobre os cargos dispostos pela empresa, o compromisso e a responsabilidade de cada um, incluso o próprio, e as dificuldades que deveriam ser melhor gerenciadas. Guiou o grupo de trinta e três estudantes — poucos haviam faltado — pelos corredores do prédio, passando de um andar à outro. Algumas vezes pedia que eu explicasse como os recursos que ensinava eram pedidos dentro do curso de Administração, outras vezes pedia para Edwards.
Luke e Rob retiraram-se algum tempo depois, clamando que tinham trabalho a fazer.
Enquanto meu pai explicava os diversos tipos de dificuldades que eles poderiam enfrentar em uma empresa, eu apenas observava. Os alunos estavam todos agrupados em frente ao meu pai, com os olhos atentos, apesar do pessoal que transitava por ali rapidamente. Eu estava atrás deles observando, próximo à Will e seus amigos, já que estes estavam por último, na parte de trás.
Edwards, entusiasmado, estava à frente junto ao meu pai e vez ou outra interrompia o discurso dele com algum comentário ou reforço ao que ele dizia.
Eu já não prestava atenção, focando os olhos na cabeleira quase loira à minha frente. Will, de repente, passou a bater o pé no chão de forma contínua, olhando de um lado ao outro. Franzi o cenho ao observá-lo. Suspirou algumas vezes. Deslocou-se um pouco à direita e ficou na ponta dos pés, olhando ao redor. Em seguida, como se pudesse sentir meus olhos nas suas costas, olhou para trás.
Imediatamente, com os olhos verdes em mim, estancou no lugar ao morder o lábio inferior. Um segundo depois, virou-se para frente e ficou nesta posição por tempo indeterminado, sem mover um músculo. Já não procurava o que procurara antes. Senti um sorriso crescer em meu rosto.
Estaria procurando por mim?
Isso explicaria o rubor em seu rosto, pensei comigo.
Sem pensar muito, dei alguns passos em frente, olhando ao redor. Quando cheguei perto o suficiente para sentir seu cheiro, peguei o pulso direito de Will. Não esperei que se assustasse e dei dois passos atrás novamente, puxando-o comigo.
Ficamos um do lado do outro por alguns segundos, enquanto eu olhava para frente. Meu pai parecia entusiasmar-se cada vez mais com as perguntas que alguns alunos faziam. Voltei o rosto à Will, que tinha os olhos grudados em mim, indecifráveis.
— Está tudo bem? — perguntei à ele, com cautela.
Seu rosto já não sustentava mais nenhum traço de chateação, parecia ter voltado ao normal. Forçou-se a sorrir levemente ao assentir, virando para frente ao desviar os olhos dos meus.
Claro que isto não seria tão fácil, pensei. Eu o havia ignorado por uma semana.
Agora o que eu ignorava eram os problemas.
— Não apareceu mais para tirar dúvidas — falei, incapaz de manter a boca fechada. Will ergueu os olhos aos meus com uma das sobrancelhas erguidas, logo virando para frente de novo.
— Não tinha nenhuma — respondeu, a boca em uma linha fina. Chateado novamente.
Mesmo assim eu podia vê-lo mexer na barra de sua camiseta, nervoso. Olhei ao redor de novo.
Talvez eu devesse deixar as coisas como estão. Estavam aparecendo mais problemas que já existiam antes. Todo esse problema com os alunos e o fato de Edwards ter percebido. Talvez eu devesse simplesmente me afastar como se nada tivesse acontecido. Seria o melhor. Seria a atitude mais correta e responsável. Os problemas desapareceriam.
Voltei os olhos à Will.
— Podia ter aparecido mesmo assim — falei, sem desviar os olhos de seu rosto.
É, foda-se os problemas.
Pude ver seu rosto surpreso antes mesmo de virá-lo em minha direção novamente. Pareceu estudar-me por alguns segundos, avaliando se valeria a pena falar comigo ou não. Avaliando meus motivos para estar conversando com ele, suponho. Então um sorriso matreiro apareceu em seu rosto.
— Sentiu minha falta, Turner? — perguntou, os olhos ferozes.
Apesar de haver-me dado uma brecha, podia ver que não havia cedido totalmente ainda. Pisquei algumas vezes antes de desviar o olhar. Meu pai, por um instante, pareceu focar os olhos em mim, inclinando a cabeça levemente com curiosidade. Ignorei, voltando os olhos ao meu aluno preferido.
É claro que havia sentido sua falta, como um vazio constante.
Me encarou por um instante, percebendo que eu não responderia e, provavelmente, percebendo que meu silêncio era uma resposta também. Então pude ver seu rosto relaxar.
— Sinceramente, professor — continuou, sorrindo —, pensei que se eu aparecesse lá, poderia ativar seus instintos homicidas.
Sorri também, aliviado por ver o rosto bonito de Will iluminar-se novamente depois do que parecia ser muito tempo sem vê-lo assim.
— Sou muito novo para morrer — completou ele, desviando os olhos.
— Realmente — falei, segurando o riso. — Mas eu não mato gente jovem. Edwards é quem devia temer por sua vida. Já faz um bom tempo que não alimento minha sede pelo crime.
Will rapidamente voltou os olhos à mim, a boca aberta. Não sei se estava apavorado pela possibilidade de eu estar falando sério ou pelo fato de eu seguir sua brincadeira. Só quando os lábios foram pressionados com a intenção de segurar a risada, eu percebi que era por eu estar brincando. Foi inútil, no entanto. O som saiu pelo nariz, enquanto ele praticamente engasgava com a risada. Ri também, vendo se os outros haviam virado para trás. Com alívio, percebi que não.
— Shh — falei, esbarrando meu ombro no seu.
O sorriso de Will alargou-se em escala — apesar de haver conseguido parar de rir -, fazendo meu peito aquecer. Só então lembrei-me de que ele não estava assim nos últimos dias e que o motivo não era apenas eu.
— Will — falei, subitamente sério, obtendo uma careta confusa da parte dele.
Olhei ao redor e peguei sua mão, puxando-o para trás de uma das pilastras do local. Apesar de não ficar longe dos olhares de quem passava, pelo menos ficávamos longe dos olhares do pessoal do curso.
Era isso que importava afinal, pensei, lembrando do que George havia dito.
Percebi que, ao chegar atrás do pilar, tinha as duas mãos de Will nas minhas, enquanto este estava de frente para mim com os olhos verdes alargados. Por um momento, me perdi olhando as nossas mãos juntas. Eu as havia segurado automaticamente.
A pulseira que eu o havia entregado estava em seu pulso, do mesmo jeito que a deixei. Sorri. Vê-la em seu pulso, perfeitamente encaixada, me trazia uma sensação boa à qual eu não podia identificar.
Voltei os olhos aos dele, percebendo que me encarava tanto com confusão quanto com curiosidade.
— Will — falei novamente, mais baixo —, seus colegas estão importunando-o por minha causa? — perguntei.
O indício de sorriso em seu rosto sumiu aos poucos e ele fechou os olhos com um suspiro. Abriu-os novamente e piscou algumas vezes, negando com a cabeça sem olhar para mim.
— Então por que não está me olhando nos olhos? — perguntei, estreitando os olhos.
— Não é sua culpa — falou, agora com o mar verde em mim.
— Tudo bem que não seja minha culpa — falei, desviando os olhos —, mas é por causa do plantão e de sua nota, não é? — insisti, apertando suas mãos nas minhas.
Will não desviou os olhos dos meus, parecendo seriamente angustiado. O mar verde estava tomado por pesar e por vergonha. Vergonha?
Mordeu os lábios, negando com a cabeça.
Como não?
— Como não? — perguntei, franzindo o cenho. Sei bem o que ouvi dos alunos. Haviam se referido à mim também.
Will suspirou, soltando as mãos das minhas e olhou atrás da pilastra antes de voltar à mim.
— É por causa de uma festa que eu fui — murmurou, deixando-me mais confuso ainda. — Devíamos voltar — completou, sem olhar-me novamente.
Cruzei os braços, dirigindo o olhar que dirigia à minha irmã quando chegava tarde em casa. O olhar que dizia: explique-se agora ou eu vou fazer as palavras saírem daí de dentro à força.
Will hesitou um pouco com tensão, mas logo deixou os ombros caírem, desistindo.
— A princípio sim — falou ele e franzi o cenho. Revirou os olhos antes de explicar melhor. — A princípio, o pessoal estava falando sobre a minha nota e sobre eu ir sempre estar em sua sala. Aliás — disse ele —, você publicou as notas por matrícula e não por nome. Então eu nem sei como eles descobriram quanto eu tirei! — falou, bufando.
— Isso não importa, Will — falei, sério. — Conseguiu a nota por mérito seu. Não pode deixar que eles fiquem falando a seu respeito desta forma — completei, com um pouco de irritação. — Tem que se defender.
Demorou um pouco seus olhos nos meus, como se pensasse na melhor resposta.
— Eu sei — disse ele devagar, logo desviando o olhar — Só que a princípio — repetiu ele —, ninguém falava muita coisa, e o que falavam não me incomodava. Eram só suposições e brincadeiras sem graça...
Estreitei os olhos. O que havia feito isso mudar?
Arregalei os olhos e abri a boca, chocado.
— Alguém nos viu? — perguntei, referindo-me ao beijo. Quando Will percebeu do que eu falava, enrubesceu ao negar veementemente com a cabeça.
— Você contou para alguém? — perguntei, com cautela.
— Não! — exclamou, logo abaixando a voz novamente. — É claro que não. Isso é pessoal e... é nosso — falou, desviando o olhar.
Senti como se levasse um choque. Porém, foi o melhor choque que já levei na vida. Nosso?
— O que aconteceu então? — perguntei, os olhos nos dele. — Eu não estou entendendo — disse, confuso.
Will baixou a cabeça, envergonhado.
— Eu fiz besteira — falou, com um suspiro. — Fiquei chateado porque você ficou chateado comigo — disse ele, voltando os olhos à mim. — Então eu fui nesta festa, porque o pessoal me convidou. O Cenoura disse que eu estava bebendo demais, mas eu não me importei.
Prendi a respiração, suspeitando onde isso ia chegar. Limitei-me a escutá-lo, mesmo assim.
— Tinha esse cara — falou, desviando os olhos —, e eu acabei ficando com ele.
Falou a última parte tão baixo quanto o ritmo das batidas de meu coração.
Subitamente, a imagem de Will bêbado em uma festa veio-me à mente. Provavelmente sem discernir as coisas direito, chateado por eu estar tratando de ignorá-lo após o beijo e emocionalmente exausto tanto quanto eu. Então outro alguém se aproximaria, vendo o quão debilitado ele estava e, principalmente, o quão lindo ele era. Aproximar-se-ia tanto a ponto de encostar sua boca na dele. Will deixaria que o fizesse, porque... Porque quem ele queria que o beijasse não o beijou.
Fechei os olhos, sentindo um aperto dentro de mim. Will ergueu os olhos esbugalhados em minha direção, com o rosto tomado por angústia.
— De alguma forma, todo mundo descobriu e agora estão enchendo o saco — disse, desanimado. — Me desculpa — falou, voltando a esconder os lábios.
Reprimi toda a raiva, a frustração e a chateação voltadas à mim e à Will. E ao maldito cara que atreveu-se a encostar a boca suja na de Will. Passei a mão pelos cabelos, suspirando.
Droga, droga, droga.
É claro que isso aconteceria. Will é jovem, é apaixonado e é independente. Tem curiosidade. Curiosidade que eu não deixei ele testar comigo. E principalmente, Will é solteiro.
Eu não tenho por que ficar chateado, eu não tenho por que ficar chateado, repeti várias vezes mentalmente. Embora o gosto amargo em minha boca não houvesse passado.
— Não sei por que está me pedindo desculpas — falei, sério. — Eu não tenho nada a ver com isto — completei, ignorando o resto do meu corpo que dizia: Claro que tem, imbecil!
Droga! Foi por dizer coisas assim que ele acabou deixando um babaca beijá-lo. E isso não podia acontecer novamente. Não podia mesmo.
Os olhos verdes foram tomados por desânimo e frustração quando pronunciei as palavras.
Como é que ele podia acreditar no que eu digo quando está claro que eu estou mentindo?
Peguei sua mão esquerda, que continha a pulseira, e a levei aos lábios. Deixei um beijo ali antes de soltá-la novamente, como um pedido de desculpas também.
— Não faça mais isso — falei baixinho, antes que pudesse me conter.
Incapaz de ver a expressão em seu rosto, desviei o olhar. Antes de falar mais alguma coisa, ouvi a voz bonita recuperar-se do choque e responder-me com a voz igualmente baixa.
— Não o farei — disse baixinho, como uma promessa.
Inclinei meu corpo instintivamente em sua direção, mas parei abruptamente, lembrando de onde eu estava. Suspirei. Então fiz um gesto com a cabeça em direção ao pessoal, saindo detrás do pilar seguido por ele.
Will estava tão vermelho que parecia que alguém havia socado seu rosto. Estava com vergonha por causa do que eu disse, vergonha por causa do que ele fez, vergonha por ter me contado, vergonha por eu ter arrastado ele para trás de uma pilastra...
Não faço ideia como sei disso, mas eu sei. Podia ver em seu rosto.
Para meu desespero, o pessoal já não estava mais ali. Olhei ao redor antes de pegar Will pela mão novamente e caminhar apressado em direção às vozes que vinham de um dos corredores familiares aos meus olhos. Meu pai os havia levado para perto do meu antigo escritório ali.
— Vem — falei para ele quando os vi na mesma posição que antes ali perto. Soltei a mão de Will e quando nos aproximamos, Laurel e Gabriel viraram-se para nós com interesse. Louis mexia no celular. Will parou ao lado destes, enquanto Laurel olhava para mim com os olhos estreitos e então para Will com uma das sobrancelhas levantadas.
— Richard — ouvi meu pai chamar-me subitamente. — Aí está você. Venha cá — falou, acenando. — Vem aqui na frente, você vai mostrar-lhes o escritório e explicar sobre as ações da empresa.
Abri caminho entre os alunos para chegar ao lado de meu pai. Apesar de eu ser alto, meu pai era uns cinco centímetros maior que eu. O rosto tomado por rugas aparentava cansaço e ao mesmo tempo animação. Seu rosto era praticamente um paradoxo.
Meu pai é o tipo de pessoa que, apesar de estar morrendo de cansaço, continua trabalhando com devoção. Não por obrigação, mas porque não quer parar de fazer o que gosta. É quase como uma criança que ganha um brinquedo novo e vira a madrugada sem querer parar de brincar. Sorri para ele.
— Com licença — disse ele, afastando-se quando o telefone tocou.
Guiei-os para dentro do escritório, enquanto esperava todos entrar. Fazia mais de anos que eu não colocava os pés ali dentro, lembrei com pesar. Porém, dando uma olhada da porta, podia ver que não havia mudado praticamente nada. Ainda espaçoso o suficiente para todos entrarem e organizado. Era o escritório de Rob agora, então as fotos nos retratos deviam ter sido trocadas.
Quando ergui os olhos m direção à Will, que estava há alguns passos de distância, este tinha um sorriso no rosto. A covinha que eu tanto gosto afundava em sua bochecha esquerda. Sorri para ele também. Passou por mim ao entrar e roçou a mão na minha, trazendo a sensação de déjà—vu.
Entrei logo atrás, dirigindo um olhar divertido à ele antes de explicar as ações mais comuns da empresa. Tentava reprimir a sensação boa em meu peito que parecia querer fazer-me voar. Não consegui, no entanto. Ouvir a voz de Will novamente e vê-lo sorrir fez um peso enorme sair de minhas costas. Era como se antes pesasse para sequer respirar e agora esta parecia a ação mais fácil do mundo.
Eu sabia, sentia e via Will sorrir para mim durante todos os minutos que se seguiram. Seu sorriso não era arteiro nem malicioso. Era puramente genuíno. Seus olhos verdes brilhavam.
Alguma coisa estava acontecendo dentro de meu peito também. Não tinha nome, porque era novo para mim. Fazia-me querer pegar Will e levar para longe dali, onde não houvessem problemas ou confusões internas, onde nada pesasse.
Percebi, então, que era minha respiração havia ficado leve porque Will enchia meus pulmões com facilidade.
Inspirei fundo, perdido nos olhos verdes.
Havia acabado de chegar na conclusão mais óbvia do mundo: eu não devia afastar-me dele sob hipótese alguma.
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