Made of Fire

13 XII - Nuvem tempestuosa nos olhos cinzas


Notas iniciais
Bom diaaa, flores do dia! Alguns avisos sobre o capítulo a seguir: Primeiro, que eu não sei se vocês vão gostar muito. Por quê? Porque basicamente é o Rich tendo uma guerra mental o capítulo inteiro. Exceto a parte final, que dá merda ahahha Segundo, sei que vocês queriam Rich+Will, mas este capítulo tinha que acontecer uma hora ou outra. Terceiro, alguém me pediu para aumentar os capítulos. Não sei se isto vai ser possível, porque eu meio que tenho um bloqueio se tem que estender os capítulos mais que minha mente consegue ahaahah Sorry. E quarto, como me pediram isto, eu aumentei o capítulo hoje. Mas por um motivo apenas: por causa do flashback. Ou seja, eu desconsiderei as palavras deste na hora da contagem. É isto. Capítulo puramente Turner. Amem, odeiem, mas me contem depois ;) Boa leitura! *-*

— Merda! — gritei, afundando o pé no freio do carro.

Estava parado no meio de uma encruzilhada, com o sinal vermelho.

— Imbecil! Olha por onde anda, maluco! — ouvi o outro motorista gritar após baixar o vidro com apenas essa intenção e mostrar-me o dedo do meio.

Não pela primeira vez, desejei fazer outro ser humano engolir as palavras sujas junto aos dentes.

Apertei a mandíbula, me controlando para não descer do carro e bater a cabeça do engraçadinho no volante tantas vezes quantas seria necessário para desfigurar o seu rosto. No entanto, lembrei-me que fui eu quem passou no sinal vermelho, de tal maneira que atrapalhou todo o trânsito, completamente distraído. Assim como em todos os minutos durante dois dias, descontando apenas do momento em que eu conseguia dormir.

Suspirei.

O cara do carro vermelho arrancou, fulo da vida, enquanto eu ouvia outras buzinas e xingamentos atrás de mim. Percebendo que meu carro ainda estava meio torto na rua e, principalmente, parado, manobrei ele à direita para estacionar.

Assim que desliguei o carro, seguramente estacionado no lugar certo, percebi que tremia. De raiva por causa do motorista idiota, de susto porque quase sofri um acidente e de nervosismo por causa... de tudo. Levei as mãos ao rosto com o intuito de relaxar um pouco e desci a cabeça até encostá-la no volante. Inspirei e expirei várias vezes, cogitando a ideia de não ir trabalhar hoje.

Entretanto, eu tenho que ir trabalhar. E o motivo não é porque eu tenho um contrato assinado dizendo que só posso faltar quando estiver séria e perigosamente doente. Não. O motivo é que hoje eu veria Will. E o motivo pelo qual estava alguns segundos atrás cogitando não ir, é porque hoje eu veria Will. Suspirei mais uma vez.

Subitamente dando-me conta que tenho um horário a cumprir, levantei a cabeça e girei a chave na ignição. Não me atrevi a olhar o relógio. Se eu visse o horário, acabaria correndo no trânsito e se eu corresse, acabaria morrendo.

Concentração é algo que não têm feito parte do meu dia a dia nos últimos tempos.

Quando finalmente estacionei em frente ao prédio, me permiti olhar o relógio. Estava quinze minutos atrasado.

Merda, merda, merda!

Peguei minhas coisas e praticamente corri escada à cima, encontrando os alunos dispersos pelo corredor, encarando-me com curiosidade. Bom, pelo menos era estranho eu chegar atrasado. No caso da Srta. Clark, se ela chegasse no horário é que seria estranho.

Abri a porta após descobrir, com alívio, que a chave já estava em minha pasta, assim como o pendrive. Entrei e esperei todos os alunos entrarem, sem me atrever a olhar para a porta. Ou para as classes. Ajeitei os slides no computador e esperei estarem todos organizados. Mesmo depois do silêncio abater-se dentro da sala, me recusei a olhar na direção deles.

Quando percebi que isto já tinha chegado ao nível do ridículo, ergui os olhos em direção aos alunos. Pelo menos, era o que eu faria. No minuto em que o fiz, porém, meus olhos automaticamente desviaram para Will. Justamente o que eu achei que aconteceria, e justamente o que eu tentava a todo custo evitar.

Ele tinha a cabeça baixa encarando seu caderno fechado. Seus cabelos desordenados já não estavam curtos como havia percebido nas últimas semanas e hoje particularmente, Will parecia ter sido eletrocutado. Tentei afrouxar a gravata para ver se passava a vontade de arrumar seus cabelos eu mesmo.

Francamente, custava tanto penteá-los antes de sair de casa?

Ao longo da aula, que por um milagre consegui dar, peguei Will me encarando duas vezes apenas. Mas logo que eu encontrava seu olhar, ele desviava, envergonhado. Acabei parando mais vezes que o normal para beber água, isto até que a garrafinha esvaziasse completamente.

Uma coisa era não querer encarar Will por saber que ele estaria me encarando de volta. Outra coisa completamente diferente era saber que ele estava evitando me encarar também. Se antes eu queria — mediante o que fosse — esquivar-me de Will, agora o que eu mais queria era forçá-lo a não esquivar-se de mim. Se é que isso fazia algum sentido.

Mas sentido, também, era algo que não dava o ar das graças em minha vida ultimamente.

O fato de não encontrar seu olhar por tempo suficiente para poder decifrá-lo estava dando-me nos nervos. A perna direita de Will estava balançando de tal maneira que qualquer um que prestasse atenção, ficaria nervoso e impaciente também. Em junção com a perna, sua mão balançava incessantemente o lápis de escrever. Sempre o fazia, como um tique nervoso, porém desta vez parecia mais contínuo que o normal. E mais irritante.

Fechei os olhos, desconcertado ao perceber que minha paciência esvaiu-se completamente.

— Will — pude me ouvir pronunciar após alguns segundos de silêncio, antes de abrir os olhos novamente.

O garoto dos olhos verdes ergueu-os imediatamente em minha direção, esbugalhados de tal maneira que, se eu estivesse com bom humor, teria que reprimir o riso. Sua perna e sua mão também pararam com o movimento. Desviou os bonitos olhos em direção aos alunos ao seu redor e de volta à mim, o rosto adquirindo uma cor de vermelho nem um pouco despercebida.

— Eu? — perguntou incerto quando viu que eu não falaria mais nada.

— Tem alguma coisa o incomodando? — perguntei, erguendo uma sobrancelha.

Seus olhos pareceram esbugalhar um pouco mais quando abriu a boca, surpreso. Não desviei nem por um segundo os olhos de seu rosto, tentando decifrar toda e qualquer reação que teria. Franzi os lábios e inclinei a cabeça, ignorando o olhar dos outros alunos.

— Parece estar impaciente — continuei, observando-o —, e está me deixando impaciente também. Tem algum lugar onde tenha que estar senão aqui, no momento?

Will estreitou os olhos e franziu o rosto em uma careta, claramente desgostoso.

— Não — disse apenas.

— Ótimo — falei satisfeito antes de retomar à aula.

Qualquer vergonha que Will estava sentindo desapareceu e deu lugar à uma ira absurda. Me encarava como se quisesse pular em meu pescoço e arrancar minha cabeça fora durante a aula. Eu apenas lhe devolvia o olhar, desafiando-o a fazê-lo. Se ele estava bravo comigo por isto, eu estava mais bravo ainda por causa de quarta-feira. Na verdade, eu estava furioso. Não só por causa desta semana, mas por causa de todas as outras que a antecederam. Estava furioso com tudo e, para falar a verdade, só agora eu havia me dado conta disto.

Imagino que constrangê-lo na frente de todos quando o que ele menos queria era olhar para mim era um pouco extremo de minha parte. Porém, o aborrecimento que eu sentia era maior que minha consciência.

Ora, ele não podia simplesmente ter a coragem de me beijar em uma sala fechada e depois não ter coragem de me olhar na cara! Eu é que devia estar constrangido, não ele.

Meus pensamentos foram interrompidos por Naomi, que ergueu o braço interrompendo o que eu falava. Suspirei pela vigésima oitava vez na última hora antes de acenar para que ela perguntasse o que queria.

Naomi ergueu os olhos castanhos da apostila, onde encarava antes de pronunciar-se. Assim que pôs os olhos em mim, ela hesitou com uma careta antes de fazer a pergunta. Respondi rapidamente antes de voltar os olhos para os slides. Em seguida, minha aluna encolheu-se na classe e não perguntou nada mais.

Eu devo ter sido muito estúpido com ela, pensei. O mau humor instalou-se no meu corpo há dois dias e não dava sinal de querer sair.

Encarei Will novamente depois de um tempo explicando a matéria — o que eu esperava estar fazendo. Ele sustentou meu olhar de forma emburrada antes de desviá-los para seu caderno novamente. Após alguns segundos, seu rosto relaxou. Parecia distraído, encarando seu pulso esquerdo. Passou os dedos de leve na pulseira que eu havia comprado no início da semana.

Engoli em seco. Eu não devia tê-lo entregado o presente. Não devia mesmo. Droga!

O que eu tinha na cabeça quando comprei? Ou melhor, o que eu tinha na cabeça quando mandei fazer a droga da pulseira? O que eu tinha na cabeça quando eu a entreguei?

Flashback on

Jay havia me arrastado para a casa de um amigo no centro da cidade. Disse que tinha que pegar alguma coisa e já viria. Sendo assim, entrei na residência junto dele. O cheiro de maconha invadia o lugar, assim como a fumaça e o cheiro de álcool. Tive que tossir algumas vezes antes de me acostumar. O som de música ruim invadiu meus ouvidos. Havia ali, no mínimo, umas quinze pessoas. Algumas bêbadas, outras fumando e umas simplesmente atiradas pelo sofá conversando ou se beijando. Todas vestidas mais ou menos como Jay.

Olhei zangado para meu amigo, que no momento em que entrou, correu em direção ao que parecia o anfitrião e o abraçou com força, rindo. Me apresentou ao homem loiro que descobri chamar-se Kellan e ambos me puxaram em direção à outro cômodo da casa.

O quarto de Kellan tinha o mesmo cheiro de maconha que havia na sala, porém em menor escala. Era organizado de certa forma e quando eles fecharam a porta, menos barulhento. Enquanto eles conversavam rapidamente, eu dei uma olhada ao redor. Em caixas separadas, haviam coisas diversas coisas, desde tralhas até quadros de pinturas. Kellan era um artista também. Em cima de uma mesa na parte esquerda do quarto, haviam pingentes e pulseiras tanto prontos quanto inacabados. Ao lado, haviam alguns acessórios; como pedras, fios, arames e vários tipos de tecidos.

Voltei os olhos ao loiro, que ria alto de alguma coisa que Jay disse enquanto abria um pequeno baú em cima de uma cômoda. Eu sabia que conhecia o homem de algum lugar. Vendia suas coisas na praça, junto dos amigos. Jay às vezes ficava lá com eles. Não pude reconhecê-lo antes porque Jay parecia conhecer a cidade inteira, e tinha tantos amigos diferentes que eu mal conseguia ligar os nomes aos devidos rostos.

Encarei a mesa novamente, vendo algumas pedras verdes brilhantes. Peguei-as na mão, impressionado com a beleza. O que eu não esperava era que até vendo ninharias eu me lembraria de Will.

Havia pensado bastante que presente eu daria à ele nas últimas horas. Claro, em um mundo paralelo, já que neste a ação de dar um presente à um aluno era impossível. De qualquer forma, fiquei curioso com o que eu poderia dar-lhe. Com certa chateação, percebi que não o conhecia bem o suficiente para saber seus gostos. Sabia que usava as mais diversas roupas, apesar de quase sempre serem simples. Sabia que usava pingentes também. Mesmo assim, não era o suficiente. Então procurei no Google, encarando ao redor da sala de meu apartamento para ver se Jay não via aquele ato idiota de minha parte, o significado do nome de Will. Sempre achei um nome bonito.

Espantei os pensamentos ao encarar as pedras em cima da mesa novamente. Geralmente estas pedras têm como sinônimo proteção. Esmeralda era uma delas, lembrei de Jay contando, ao encarar os seixos que pareciam com os olhos de meu aluno. Procurei entre elas a que mais se assemelhava aos seus olhos, embora não tenha tido muito sucesso. Os olhos de Will eram únicos, pensei, lembrando dos detalhes amarelados próximos à pupila.

Virei para os artistas novamente, antes que eu mudasse de ideia. Vi Kellan entregar um pacote – provavelmente de maconha – para Jay, e então entendi o motivo dele querer vir até aqui e de Kellan haver fechado a porta do quarto. Afastei os pensamentos mortais. Depois eu lidaria com Jay e o que havia se tornado com o passar do tempo, um vício para ele.

— Você faz pulseiras masculinas? — perguntei ao loiro, indicando a mesa.

Kellan arqueou as sobrancelhas, assim como Jay, antes de vir em minha direção com um sorriso.

— Claro — falou ele, amigável. — Posso fazer do jeito que você quiser. E posso dar desconto também, já que é tão bom amigo do Jay — completou, piscando um dos olhos azuis para Jay.

Jay sorriu, logo olhando para mim com curiosidade. Eu nunca usara nada parecido e ele sabia.

— E pode fazer uma agora? — perguntei um tanto nervoso. — Eu preciso para amanhã.

Kellan inclinou-se devagar como uma reverência antes de responder divertido. — Como desejar — disse ele, rindo. — Eu sou como o flash!

Antes que eu pudesse responder, Jay meteu-se.

— Desde quando você usa este tipo de pulseira, Rich? — perguntou, estreitando os olhos.

Obviamente ele não deixaria isto passar. Desviei os olhos para a mesa antes de respondê-lo.

— Desde agora — retruquei, com uma carranca.

Jay ergueu uma das sobrancelhas quando o encarei novamente. Revirei os olhos.

— Não é para mim — falei baixinho, olhando para Kellan. — É para um amigo. É aniversário dele amanhã — completei, enquanto este assentia com a cabeça.

Logo perguntou-me como eu desejava que fizesse a pulseira e o que eu gostaria que usasse no processo. Jay não tirou os olhos de mim, observando novamente. Apenas lhe devolvia com caretas.

Quando ficou pronto é que tomei consciência da grande merda que eu havia feito. Eu estava comprando um presente para um aluno. Um presente que significava que eu o levava em consideração, que não deixaria passar seu aniversário sem dar-lhe alguma coisa, já que o havia pedido. E pior, um presente que o distinguia dos outros alunos. E ainda pior, um presente com significado. Um presente que significava o quanto ele é importante.

Mesmo assim, tomei o objeto das mãos habilidosas de Kellan, percebendo que eu não encontraria outro presente que combinasse com Will mais do que esse. Afinal, havia sido feito para ele. Fechei os olhos, tendo conhecimento da dimensão que um simples presente poderia tomar.

Flashback off

Balancei a cabeça.

A verdade estava bem clara. Havia mandado fazer, comprado e entregado o presente à Will por motivos completamente irracionais. Motivos estes que não deviam sequer existir. Existiam por minha culpa e minha culpa inteiramente, já que deixei tudo isso acontecer.

Não poderia culpar Will, apesar de querer muito, apesar de ter descontado nele alguns minutos atrás. A culpa era minha. À despeito de Will não ser uma criança, ainda assim eu era o responsável pela "situação". Eu sou o professor, afinal, e a culpa é completamente minha.

Merda!

Suspirei novamente, um pouco irritado por minha cabeça teimar em reviver tudo de novo – tudo que eu fiz, tudo que deixei de fazer, tudo que deixei que Will fizesse, tudo que falei, tudo que não falei – no intuito de me martirizar pelas coisas terem chegado onde chegaram. Então, ainda irritado, terminei a aula mais cedo como da outra vez, vendo a surpresa dos alunos.

Sentado em minha cadeira de frente para a turma, observei-os levantaram-se devagar, nenhum deles atrevendo-se a dirigir uma palavra à mim. Ou um olhar. Senti como se tivesse voltado no tempo, com pesar.

Enquanto saíam de minha sala aos poucos, Will levantou-se incerto e dirigiu o olhar à mim. O nervosismo parecia ter voltado à ele no lugar da irritação. Seus olhos brilhavam em minha direção. Porém, o rosto ainda não havia voltado a estampar o sorriso rotineiro. Mordeu o lábio, arrastando os pés devagar, olhando de mim para a porta.

Apertei a mandíbula, negando com a cabeça devagar quando ele fez menção de dirigir-se à mim. Will estancou no lugar, ignorando os alunos que nos encaravam curiosos. Pude ver o indício de um beiço teimoso em seu rosto antes dele virar-se para a porta completamente. Estava chateado.

Quando todos saíram, suspirei aliviado. Levantei e fechei a porta, escorando-me nela. Eu poderia ficar ali por um tempo até o horário normal de minha aula acabar. Tinha meia hora ainda. Não queria ir para minha sala e encontrar Edwards lá.

Fechei os olhos, lembrando da cena que desenrolou-se na sala acima desta.

Quando percebi o que Will faria, ele já tinha os lábios nos meus. Não tive tempo de sequer tentar dissuadi-lo da ideia. Tinha uma das mãos magras em meu braço e a outra, na qual se encontrava a pulseira, em minha nuca. Os lábios dele, apesar de ter grudado nos meus bruscamente, eram macios. Pude sentir o cheiro, e mais tarde o gosto, de menta que vinha deles. Provavelmente de alguma bala. Cheirava a sabonete e perfume.

Era bom demais para eu não poder retribuir.

Este foi um dos meus primeiros pensamentos após o beijo. Porque nos poucos segundos que durou, minha mente ficou tão em branco que não tive qualquer reação além de arregalar os olhos. Assim, além de sentir, eu pude vê-lo. Will tinha os olhos fechados, as bochechas levemente coradas abaixo das sardas claras. A visão de seu rosto de tão perto era mais bonita ainda.

Esfreguei os olhos, cansado.

Parei de me martirizar sobre ter permitido aquele beijo deixar de ser uma ideia impossível e passar a ser uma possibilidade. Tão possível que de fato, aconteceu. Parei de pensar a respeito e passei à questão principal. A questão que eu evitara até agora.

Por que eu havia deixado as coisas chegarem até o beijo?

No meu primeiro semestre como professor, uma aluna havia feito o mesmo. Havia me puxado para um beijo tão rápido que a princípio fiquei em choque. Porém, a situação foi tão sem importância – apesar de me fazer pensar que sou um péssimo professor – que eu nem ao menos lembro do nome da garota.

Ignorando meu medo de encarar meus próprios sentimentos e minha própria mente, me perguntei silenciosamente qual era a diferença entre este episódio e o de anteontem. Nunca terminava minha linha de raciocínio quando pensava a respeito, com receio de descobrir a resposta.

Will é diferente!, minha mente respondeu-me em um grito.

Repassei tudo em minha mente como um filme. A cena era muito parecida com a de quarta-feira, apesar da situação ter sido diferente. Ela também havia me beijado. Porém...

Ela, no entanto, não passava horas em minha companhia.

— Não pareça tão surpreso professor, eu disse que viria! — disse sorrindo ao entrar na sala pela primeira vez no semestre.

Ela, no entanto, não me deixava louco com o brilho determinado nos olhos.

— Não desisto tão fácil — disse ele, os olhos brilhando em desafio.

Ela, no entanto, não era adoravelmente atrapalhada.

— Eu achei que hoje era... era um dia mas não. Não é — explicou-me, balançando negativamente a cabeça de forma frenética.

Ela, no entanto, não conseguia me deixar desconfortável só com uma simples frase.

— Eu gosto de você — havia dito, como se fosse a coisa mais óbvia e simples do mundo.

Ela, no entanto, não era tão decidida a ponto de flertar comigo em público.

— Foi muito bom vê-lo fora da universidade, professor — falou, com um sorriso malicioso — Espero que aconteça mais vezes!

Ela, no entanto, não me desafiava com tanto afinco.

— E quais são as consequências? — perguntou, o lábios franzidos em uma eterna teimosia.

Ela, no entanto, não ficava tão animada com a única ideia de passar tempo comigo.

Então seria justo se eu aparecesse hoje para compensar, verdade? perguntou, ruborizando de animação.

Fechei os olhos novamente.

Não foi nem um pouco difícil e não medi nenhum esforço ao afastá-la e repreendê-la de tal maneira que ela se encolhesse e após o episódio, nunca mais tentasse nada do tipo.

Porque ela, no entanto, não conseguia sorrir de maneira tão iluminada. Ela, no entanto, não transformava a mais chata das tardes em algo que eu esperava acontecer. Ela, no entanto, não encontrava as maneiras mais arteiras de encostar em mim e ainda fazer parecer com que fosse a pessoa mais inocente do mundo.

Ela não era tão imprevisível. Não tinha olhos verdes tão lindos. Não tinha os cabelos mais irritantes do mundo. Não tinha a mania de sacudir o lápis a aula inteira ou de mexer a alça da mochila quando nervoso. Não era tão transparente a ponto de fazer as mais diversas caretas sem perceber. Ou talvez ela o fizesse e eu apenas não percebia. Eu apenas não me importava em perceber. Porque afinal...

Ela, no entanto, não era nada como Will.

Engoli em seco, percebendo que era verdade.

Eu gosto dele, mais do que imaginava, mais do que devia, mais do que podia medir.

A realidade me atingiu de tal maneira que, se fosse sólida, eu provavelmente teria caído no chão. Parei de andar em círculos, só então percebendo que não estava parado antes. Levei a mão aos cabelos, assombrado.

Óbvio que eu lhe entreguei um presente. Eu não conseguiria não fazê-lo. Uma parte de mim queria muito que ele soubesse que eu também gosto dele. Eu estava nutrindo sentimentos por meu aluno. Sentimentos que além de serem irracionais, me deixavam irracionais. Isso não é nada bom. Não é bom porque além de gostar dele, eu ainda sinto atração por ele. E essa nunca foi uma boa combinação.

Já que eu estava admitindo à mim mesmo que gostava dele, podia muito bem admitir que me sentia atraído à ele também. Eu já estava na merda mesmo.

Sim, ele me deixa louco. Os olhos, os cabelos, a boca, a droga de nariz perfeito. O corpo esguio junto às roupas soltas. O sorriso que mostrava a covinha única, os dentes retos, as sardas que eu não teria percebido se não passasse tanto tempo com ele. Mas acima de tudo, as palavras. As provocações, o beiço teimoso, os olhos curiosos. A maneira como sabia exatamente como me deixar irritado ou desconfortável. A maneira como parecia conseguir penetrar em minha pele, em minha alma, em meu coração.

Meu deus, o que eu iria fazer?

Se eu me deixasse levar – o que acabaria acontecendo se ele ousasse chegar mais perto de mim que meio metro – eu poderia perder meu emprego. Não só isso, eu ainda seria incapacitado de conseguir outro emprego, por falta de profissionalismo. Ninguém contrataria alguém que se envolve com alunos.

Eu acabaria destruindo a reputação de Will.

Puta que pariu, eu estou muito fodido. Demais!

Minha cabeça doía enquanto eu andava de um lado ao outro na sala vazia. Esbarrei em algumas cadeiras, resmungando. Não conseguia impedir o pânico que espalhava-se por meu corpo.

Por deus! Will, ainda por cima, é um garoto. Um homem!

Como é que eu consigo a proeza de passar a gostar de alguém tão improvável? Alguém tão errado? Alguém tão proibido? Porra, além de ser bem mais novo que eu, ainda é um homem e um aluno.

É, eu não poderia estar mais fodido.

Sem falar que uma coisa é quando Will flerta comigo, mesmo tentando passar dos limites. Outra coisa é eu fazer o mesmo. Porque eu não conseguiria resistir por mais tempo, não com todas as provocações. Eu sou humano, afinal.

Porra, eu nem sei que idade ele tem. E se ele for menor de idade, apesar de não parecer? Muita gente consegue entrar na faculdade, ainda sem ter alcançado a maioridade. Eu precisava descobrir quantos anos ele fez nesta quarta-feira o mais rápido possível.

Reprimi a vontade de bater minha cabeça na parede. Não. Eu não poderia perguntar isto, porque a idade dele não tem relevância nenhuma para mim. Porque eu não posso ter qualquer envolvimento com Will!

No entanto, a imagem de Will descendo os dedos magros por minha gravata voltou à minha mente, assim como as diversas vezes que esbarrou em mim propositalmente. Então os sorrisos matreiros, a pupila dilatada e o rubor quando percebia que passava dos limites. O seu rosto quando me beijou.

Se ele soubesse o quanto eu lutei para não puxá-lo novamente e mostrar como se beija de verdade, ele seria capaz de se arrepender de haver começado com tudo isto. Até porque, eu ainda não sei o que Will quer. Certo que ele estava sendo sincero quando deu a entender que o único que ele queria era eu, mas isto pode ser um truque de sua mente. Talvez o que ele queira seja só a sensação de poder, de segurança e controle que ele tem quando me desafia. Talvez ele nem perceba que seja isso que ele quer, e pensa que quer a mim. Eu teria que descobrir se ele iria além disso.

Céus! Eu estava mesmo considerando agarrar um aluno?

Arregalei os olhos quando a porta se abriu, dando forma ao Sr. Edwards, que me encarava com as sobrancelhas arqueadas. Minha cara devia estar terrível pela expressão em seu rosto.

— Richard, está tudo bem? — perguntou, o semblante preocupado.

Assenti com a cabeça rapidamente, sem saber o que mais dizer. Edwards fechou a porta atrás de si e voltou os olhos atrás dos óculos para mim.

— Tem certeza? — perguntou e assenti novamente. — Por que ainda está aqui?

Olhei para meu pulso rapidamente, esquecendo que meu relógio estava estragado. Voltei meus olhos ao professor.

— Poxa, eu estou sem relógio — falei, um pouco perdido, tentando controlar o tremor de meu corpo. — Que horas são?

Ele deu um riso fraco, arqueando uma das sobrancelhas.

— Hora de estar almoçando — respondeu. — Estava te procurando para vir conosco almoçar naquele restaurante. Não achei que estivesse na sala ainda, mas tentei mesmo assim — falou, ainda surpreso por me encontrar ali.

— Ah, eu... — Pigarreei algumas vezes. — Eu precisava de um tempo à sós, e como a sala não é usada durante o meio dia, pensei em... Bom, em ficar aqui mesmo — falei, dando de ombros.

Ele assentiu devagar, desconfiado. Apressei-me em arrumar minhas coisas, dizendo-lhe que iria almoçar junto à eles no restaurante. Estava dirigindo-me em sua direção, em frente à porta, quando ele se pronunciou novamente.

— Eu queria conversar com você sobre algo antes de irmos — falou, o rosto indecifrável.

Franzi o cenho, reprimindo a sensação ruim que dizia: Não é coisa boa!

— Claro — disse, ouvindo minha voz falhar. — Sobre o quê?

Edwards suspirou, levando as mãos aos bolsos de sua calça social. Sempre vestia-se como se estivesse pelo menos uns vinte anos a mais, apesar de realmente já estar mais velho.

— Sobre seu aluno — disse ele, me observando. Engoli em seco.

Puta merda!

— Notei que William... É esse o nome dele, não? — perguntou e assenti. — William têm visitado nossa sala mais vezes do que eu julgaria necessário — comentou, encarando-me.

Demorei um pouco a responder, devido ao choque inicial.

— Bom, Will é um garoto muito determinado — falei, escolhendo as palavras. — Reprovou em minha matéria e não ficou muito feliz a respeito. Acredito que esteja apenas se esforçando para se mostrar capaz — falei o máximo da verdade que podia.

Edwards soltou um resmungo, sem tirar os olhos azuis de mim.

— Bom, seja pelo que for, alguns alunos estão falando a respeito — disse ele, me pegando de surpresa. — Achei que gostaria de saber.

— Falando o que a respeito? — perguntei, incapaz de impedir a curiosidade.

— Acham que está dando favoritismo à ele — falou o mais velho, me encarando com seriedade. — E você sabe que isso não é aceitável, não é?

Sua postura, apesar de tentar parecer simpático, era um tanto ameaçadora. Os cabelos tomados por fios brancos e as rugas em seu rosto deixavam-no parecendo com um pai alertando um filho. Exceto que, a alerta de um pai não teria nem um toque de ameaça no meio.

Engoli em seco novamente.

— É claro que sei — respondi rápido, franzindo o cenho. — Não estou favoritando ninguém, Sr. Edwards. Sou um bom profissional. Will conseguiu as notas que conseguiu por puro mérito seu — disse, vendo o professor fazer um gesto vago com a mão logo após.

— Eu sei, eu sei — disse ele, como um resmungo. — Só tome cuidado, Richard — olhou-me sério, com a postura ereta. — É muito fácil passar a importar-se com os alunos e...

Edwards parou um pouco, como se considerasse se continuaria ou não. Tentei reprimir meu intuito que dizia que eu não iria querer saber a continuação.

— E? — perguntei, querendo acabar logo com isso.

— Importar-se e envolver-se com os alunos — falou, e senti como se tivesse levado um soco na cara. — William pode estar se dedicando aos estudos, Richard, mas não é só à isto que se dedica. Vejo a maneira como te olha e apesar de discreto, vejo como o olha também.

Chocado demais para falar alguma coisa, me limitei a encará-lo com a mandíbula apertada.

— Não vou acusá-lo de nada — apressou-se a dizer. — Não tenho nada a ver com... Com estas coisas — disse, gesticulando com a mão novamente. Estreitei os olhos de leve. — Mas Richard, se as coisas passarem dos limites que nossa universidade impõe, terei que ignorar minha amizade para com você e dar um fim nisto.

Edwards dizia isto com certo pesar, pude perceber.

Suspirei rapidamente.

De repente, a realidade com a qual eu lidava uns minutos antes caía com tudo em cima de mim de forma nada sutil.

— Claro — respondi devagar. — Eu entendo.

— Espero mesmo que você seja o profissional que clama ser, Richard — disse ele, com um sorriso. Sorriso este amigável ao mesmo tempo que repreendedor.

Percebi que Sr. Edwards estava gostando tanto desta conversa quanto eu, assim que ele pigarreou também e desviou o assunto para o almoço. Agradeci aos céus e saí logo da sala – que mais parecia sufocar-me agora – em direção ao estacionamento com Edwards ao meu lado.

As coisas haviam se tornado mais sérias do que eu pensava.

Depois do almoço, nervoso, caminhei até minha sala com certo receio. Com a cabeça à mil e com medo de encarar Will mais uma vez no mesmo dia, coloquei um aviso no lado de fora da porta e saí apressadamente da universidade. Apenas depois de chegar em casa, eu me daria conta de que não adiantava de nada.

Apesar de poder fugir de Will, eu jamais poderia fugir de mim mesmo.

Notas finais
That's all, folks! Gente, sei que parece pouco mas é só isto por hoje aahaha Num sei o que dizer :/ Ah, outra coisa! Vocês querem que eu mude a capa? Eu estava pensando em mudar e até fiz umas - beeeeem meia boca - para ver se dá. Alguém, leitor solidário, sabe fazer algo bacana? Ahahahah Atualizado: 09/2017.