Made of Fire

43 XI. As cinco fases prévias de um desastre mitológico


Notas iniciais
Gente tri, gente bela, gente wonderful! *O* 1) Vou deixar aqui o link da história de Caleb, MADE OF STONE, que já comecei a escrever: https://fanfiction.com.br/historia/746861/Made_of_Stone/ 2) Vocês tão lembrados dessa primeira parte do capítulo? Hahahaha. :3 Will's POV Boa leitura! *-*

Há um momento no Animal Planet em que o leão encontra sua presa.

Em um primeiro momento, ocorrem as estratégias instintivas do animal para dar o bote. Em um segundo momento, ele ataca. E em um terceiro momento, ocorre a morte do pobre animal que serviu de almoço. Entre o segundo e o terceiro momento, que muitas vezes dura apenas segundos, imagino que ocorra as cinco fases da perspectiva de morte pela presa.

Primeira: Negação.

— Não — murmurei, balançando tanto a cabeça que quase podia ficar tonto. — Não — falei um pouco mais alto, aproximando-me de Turner para colocar a mão em seu braço e fazê-lo entender. — Você não está falando sério. Não pode fazer isso — acrescentei, ainda negando com a cabeça.

A verdade é que tudo que Turner falara depois de "tenho que voltar para o cassino" se assemelhou à um rap de outro idioma. Me escapou à compreensão tudo o que dissera, desde o princípio. Eu não estava compreendendo, e depois de tê-lo feito explicar ao menos umas cinco vezes, admiti para mim mesmo: ele está dizendo exatamente o que você acha que ele está dizendo.

Peter não demorou a voltar para sua casa naquele mesmo dia, já que tinha uma festa para ir, então eu não perdi tempo em voltar com Turner para o apartamento dele. Ele não podia chegar na minha casa, querendo muito me contar algo e depois ficar calado por conta da visita que chegou sem um "ai" de antecipação. Se ele se dispôs, depois de tanto tempo em silêncio, a me contar o que estava errado, ele desembucharia tudo. E desembucharia logo.

Foi o que ele fez.

O apartamento que eu tanto gostava tornou-se um cinza morto, e o silêncio que eu costumava apreciar àquela hora da noite quase me fazia ficar surdo. As palavras de Turner houveram rasgado o ar e junto dele, meu coração.

Havia uma uma mala cinza ao lado do sofá e a enxerguei no minuto que pus os pés em seu apartamento. A mesma mala que usara para irmos para Mallow Coast, juntos. No entanto, aquele mala representava meu maior medo: de que ele cruzasse por aquela porta e fosse o último que eu veria dele em minha vida.

Turner contou tudo de uma vez só, e pelas palavras apressadas e a postura que relaxara, mesmo que a expressão não o fizera, ficou claro o quanto ele queria me contar. Ficou claro que o tempo em que eu agonizara, com raiva do silêncio, pensando no que estava acontecendo, ele também agonizara pensando em como me contar. Não foi coisa da minha cabeça.

Mas eu não podia acreditar no que ele dizia. Nem mesmo o medo que exalava de si, junto da agonia e da desolação, me fizeram acreditar no que eu ouvia. E quando eu acreditei, não pude entender como aquilo podia ser verdade.

— Will, eu já não tenho escolha — falou, fazendo com que meus olhos enchessem de água. — Perdão, meu anjo, perdão — repetiu mais uma vez, tentando alcançar-me com uma das mãos. Desviei rapidamente, limpando as lágrimas que chegaram de pára-quedas.

Como é que o filho da puta podia não estar em pânico?

Ele iria entrar em uma jaula de leões, e ele não era a droga do Daniel*! Ele podia morrer. Ao compreender a concepção que simplesmente brilhou em minha mente, me bateu o desespero. Ele realmente podia morrer.

Segunda: Raiva.

— Por que fez isso? — sussurrei, sentindo minha pele vibrar pela raiva. — Você tem noção do que está me dizendo? Se você voltar para aquele lugar, eles podem te matar!

Será que não pensava? Será que o cérebro de professor universitário começava a falhar com idade precoce?

— Eles podem me matar se eu não for e não cumprir com minha parte — falou, angustiado. Tentou alcançar-me mais uma vez. — Will, por favor, me desculpa! Eu só estava pensando em um bem maior...

— Um bem maior? — perguntei, deixando que um soluço escapasse. — Colocar o peito em frente a uma pistola? Esse é o bem maior? — Gesticulei, alterado. — Porque é exatamente isto que está fazendo!

— Will, Kevin é praticamente uma criança e eu pensei que...

— Pensou o quê? Pensou que, já que você é tão especial, pode fazer com que um raio caia duas vezes no mesmo local? — perguntei, limpando o rosto. — Pensou que podia entrar no meio de mafiosos e conseguir sair duas vezes consecutivas?

O que ele tem na cabeça? Minhoca?

— Não — falou, embora eu pudesse perceber um mínimo de questionamento na própria voz. Estreitei meus olhos, sentindo as mãos tremerem. — Eu pensei que poderia fazer isso porque eu já conheço as peças do jogo. Eles não querem me matar, Will, eles querem que eu permaneça. Eles pensam que eu sou um viciado e que...

— E não é? — perguntei, aguçado. Nada mais seria tão inacreditável quanto o que ele me dizia. Já nenhuma das opções sobre o que diabos Turner estava pensando me pareceria tão absurda quanto a ideia de voltar ao cassino. — Você jura para mim que não é um viciado e que isso não se trata, de forma alguma, dos jogos?

Turner abriu e fechou a boca duas vezes, antes que o olhar se tornasse culpado e dolorido. Fechei os olhos, sentindo o lábio inferior tremer.

— Você é incrivelmente burro para um professor — deixei escapar, profundamente magoado.

— Eu sei — sussurrou ele, ficando à minha frente, ao lado do sofá. — Mas eu te amo. — Solucei mais alto, e senti braços me acolherem. — Eu te amo, Will, e eu jamais... — Interrompeu-se, e como meu rosto estava grudado em seu pescoço, percebi quando engoliu em seco. — Viciado ou não, eu jamais voltaria para os jogos sabendo que... — Suspirou contra meus cabelos, desistindo da frase. — Estou fazendo isso por Kevin, por Jay, e por toda a família dele. Jay passou por tanta coisa, ele não merece perder o irmão. Eu conheço essa gente, Will, sei que Kevin vai acabar morto antes mesmo de se tornar alguém importante para Frank. Não posso deixar que isso aconteça, sabendo que eu posso fazer algo à respeito. Você entende?

Afastei-me de si tão rápido quanto pude, caminhando até o balcão que separava a sala da cozinha. Respirei fundo, a mente borbulhando. Em minha cabeça, eu não conseguia enxergar Turner saindo dessa sem que fosse em um saco plástico.

Eu não conseguia ver o que ele via.

— Se entendo? — perguntei, rindo sem humor. — E que seu plano é falho, você entende? — perguntei, virando para vê-lo fechar os olhos em desalento. — E que você pode morrer, você entende? — falei mais alto, ouvindo o retumbar do sangue em minhas veias. — E que se isso acontecer, eu...

Fechei os lábios com força, sequer conseguindo imaginar como seria se eu tivesse que enterrar o corpo de Turner. Trinquei a mandíbula para ver se eu podia afastar as palavras tanto das minhas cordas vocais quanto de minha mente. Não podia sequer imaginar o corpo desfalecido de Turner.

Não podia, não queria, não iria.

— Isso não vai acontecer — deixou claro, e firme.

— Você não tem como saber disso — murmurei, agoniado.

— Will, eu posso fazer isto func...

Terceira: Barganha.

— E se Marcus fosse no seu lugar? — perguntei, ignorando o que me dizia. — Ele pode fazer isso, por que tem que ser você? Ele deve isso à você, Turner, depois de tudo que fez!

— Will, Marcus sequer gosta de Jay — falou, os olhos pesando. Era como se tivesse pena de mim por sequer encontrar uma segunda alternativa.

— E se a gente pagasse? — perguntei, ignorando os olhos cinzas e piedosos, ignorando a expresão dolorida. Se ele não se disponibilizaria a encontrar uma solução, eu a encontraria. — Eu posso juntar dinheiro, eu posso! — acrescentei, quando o vi negar. — Eu pediria para o tio Shiori. Ele é muito simples, mas tem mais dinheiro do que você pensa — falei, vendo-o negar novamente. — Por que não? — berrei, praticamente. — Que droga!

— Will, venha aqui — falou, quando desviei de si novamente. Minha cabeça doía. — Vem aqui, acalme-se, está bem? — Neguei rapidamente, encarando-o com ódio contido. — Meus pais tem muito mais dinheiro do que você pensa, também. E eu vou pagá-los, já pedi um empréstimo para meu pai e juntei com um pouco do dinheiro que estava economizando. Eu já tenho a quantia que Hilary devia, em mãos — contou, fazendo-me ficar ainda mais irritado com o nome de sua ex que, mesmo morta, havia tornado uma situação ruim em uma situação péssima. — Não se trata de dinheiro, está bem? Eu sinto muito, mas não é assim que funciona — falou, fazendo com que lágrimas silenciosas continuassem a cair.

— Não! — berrei, passando as mãos nos cabelos. — Por favor — murmurei, em seguida, desesperado. — Por favor. — Aproximei-me o suficiente para pegar seu rosto com as mãos. — Não faz isso — sussurrei, vendo os olhos encherem de lágrimas ao me encarar. — Por favor, por favor, Turner — murmurei, beijando seus lábios com rapidez. — Fica comigo — sussurrei, beijando toda a extensão de seu rosto. — Fica aqui e se for ruim, podemos mudar de cidade. Eu mudaria até de país com você — falei, olhando-o nos olhos chorosos. — Eu faço qualquer coisa por você.

— Will — murmurou, triste. Beijou-me os lábios com lentidão. — Eu... Façamos o seguinte — falou, segurando meu rosto. Forçou um sorriso. — Viajaremos quando tudo isto acabar. — Neguei com a cabeça, sentindo o soluço subir por minha garganta. — Vai dar tudo certo. Eu sei disso, e você devia saber também. Will, anjo, vai dar tudo certo — falou, tentando encorajar-me com os olhos.

Quarta: Depressão.

Quando percebeu que eu me limitaria a chorar feito uma criança, tomou-me nos braços e abraçou-me com força. Beijou-me os cabelos.

— Não posso deixar você ir — murmurei contra seu pescoço. — Não posso, porque se acontecer algo com você e eu não impedi que fosse... — Solucei mais uma vez.

Shh — falou, abraçando-me com mais força. — Não vai acontecer nada comigo, Will. Eu sou como... — Pensou um pouco, provavelmente em algo que me faria sorrir para acabar com as lágrimas. — Eu sou como um dragão — disse, com um riso. Não sorri em resposta. — O fogo não me queima, sabe? Porque o fogo faz parte de mim — falou, deixando um beijo estalado em meu ombro.

Eu sabia que, apesar de todo o medo e angústia que Turner sentia, ele realmente estava confiante de que desse tudo certo. Eu queria acreditar com ele, porque ele devia saber melhor que eu, ele já havia feito isto e já havia estado na mesma situação. O problema era que, quando eu pensara que estava por cima de tudo, nas nuvens, eu houvera sido espancado em um dia chuvoso. O problema é que Turner já não é minha paixão platônica, ele é o amor da minha vida. E eu sou um tanto quanto azarado.

O problema eram as cicatrizes em seu abdômen. O problema era seu corpo retesar toda vez que eu encostava nelas. O problema era que mesmo sem vê-las, a cicatrização hipertrófica, a maior, permitia com que eu também pudesse senti-la. Sempre que isto ocorria, ficava imaginando como foi que as conseguiu. Deixou de pagar algo? Irritou alguém? Ganhou uma partida de alguém importante? Não importa, porque nenhuma das respostas é uma justificativa para enfiar uma faca na barriga de alguém três vezes seguidas.

— Nós iremos para uma praia. Uma ilha perdida — disse, sorrindo quando afastou-se levemente para me olhar nos olhos. — Podemos ir com Betty, e ficaremos quanto tempo você quiser. — Limpei o rosto. — Pararei com Betty no meio do oceano, e podemos nadar desprovidos de roupas — falou e riu consigo mesmo. — E então ficaremos lá, pescaremos nossa comida e viviremos em uma cabana de palha. Mudaremos nossos nomes até sentirmos que estamos prontos para voltar para casa. E sobretudo, estaremos juntos. Só nós dois, o céu e um oceano.

Eu odiava quando ele fazia isso.

Havia funcionado, no entanto. Suas palavras, o sorriso e o coração batendo junto com o meu em nosso abraço haviam me acalmado consideravelmente. Meus ombros caíram, meus olhos pararam de produzir lágrimas e as batidas de meu coração desaceleraram. Tudo sem eu sequer perceber.

E então, eu me dei conta.

Quinta: Aceitação.

Não podia impedi-lo, não podia impedir-lhes, não podia impedir que a situação ocorresse e nem fazer com que mudasse. Não podia impedir que o irmão de Jay morresse. Não podia fazer nada.

Turner podia, e ele o fez. Não havia como imaginar que Frank trabalhasse com Lutz, seu antigo chefe, e nem que o traria à todo aquele mundo mais uma vez. Turner não o fazia por si, mas por seu melhor amigo, e por um garoto que estava sozinho no meio de mafiosos. E eu provavelmente faria o mesmo, se estivesse em sua posição.

Eu não podia ser hipócrita com ele. E mesmo que pudesse, não o faria. Eu não tinha opção.

Engoli a impotência junto do choro quando forcei um sorriso para si.

— Tenho medo de tubarões — murmurei, por fim, com a voz rouca pelo anterior choro.

Turner sorriu aliviado, tomando-me em braços outra vez. Envolveu-me em seus braços, em seu cheiro, em seu amor. Beijou-me os cabelos, o rosto, os lábios. Tomou meu rosto em suas mãos, e deixou um largo sorriso espalhar por seu rosto antes de deixar claro o que se faz com o medo. Um sorriso poderoso. Um sorriso de dragão.

— Então farei deles o nosso jantar.

*

O som estático em meus ouvidos voltou, sem que eu percebesse inicialmente, ao passo que meus olhos desfocavam e minha garganta secava. Perdi a noção de onde me encontrava e meus pensamentos embaralharam-se tantro que eu sequer conseguia pensar.

Isto ao menos é possível?

— Will! — Pisquei. — Will, acorda! — Girei o rosto, deparando-me com os olhos castanhos de Laurel, e com nitidez, o batom roxo que usava na boca.

— O quê, o quê? — perguntei rapidamente, piscando mais vezes ao olhar ao redor.

O som de passos, vozes e moedas, bem como o som de carros na rua voltou rapidamente aos meus ouvidos. Desviei os olhos do rosto irritado de Laurel para as sobrancelhas arqueadas de Gabe, que me olhava de forma estranha, e logo para Peter e seus cachos perfeitos. Voltei-os então para a garota dos cabelos vermelhos.

— Perdão, me distraí — murmurei, encarando os olhos delineados.

Estávamos no terceiro supermercado do dia, checando os preços das bebidas, depois de haver passado em cinco distribuidoras. Estávamos prestes a sair dali e voltar para uma delas, visto que os preços eram melhores lá do que todos os outros locais que havíamos visitado.

— Não me diga — resmungou ela, em contrapartida.

Em seguida, falou que havia perguntado a respeito de quanto eu podia tirar do bolso para a festa. Respondi rapidamente e logo, lado a lado, voltamos para a rua para caminhar até a segunda distribuidora em que havíamos ido. Me desliguei completamente dos sons ao meu redor novamente, incapaz de evitar.

— Will — chamou a voz ao meu lado, e deparei-me com olhos castanho-escuros. Peter sorriu. — Você quer conversar?

Franzi o cenho, imaginando o quão estranho era perguntar para alguém se ele quer conversar. Então dei-me conta do restante da frase oculta: você quer conversar sobre isto?

Desviei o olhar para frente, onde Gabe e Laurel caminhavam lado a lado, forçando assuntos banais entre si. Possuíam semblantes igualmente desgostosos, podia perceber quando os via de perfil. Bom, ao menos estavam conversando.

— Não sei do que está falando — murmurei, tentando inutilmente desviar do assunto.

Peter suspirou.

— Como não? Acabei de perguntar se você quer um sorvete — falou, encolhendo os ombros com um sorriso. Não pude impedir sorrir também, volvendo os olhos à ele.

Peter não era tão ruim.

Quando éramos crianças, Peter não era nada mais nada menos que um monte de cachos ambulante. Mal se podia ver o rosto, e era tão magricela que tudo que restavam eram ossos e cabelos. Talvez por isso foi tão difícil associar o garoto da festa com àquele rival de infância. Não só pelo tempo que se passou sem que nos víssemos, mas porque mesmo crianças, eu mal podia ver seu rosto magricela.

Depois de muita guerra mental, sem conseguir associar o garoto do beijo com o garoto que estragava todas as brincadeiras quando crianças, finalmente pude aceitar que sim, aquele era Peter. Ou Pete, como minha mãe costumava chamá-lo. Então, tornou-se bem mais fácil esquecer que ele havia sido meu primeiro beijo. Ou ao menos ignorar o fato, boa parte do tempo, já que Peter parecia brotar de tudo quanto é canto, todos os dias, e eu não tinha como ignorá-lo.

— Obrigado — murmurei, satisfeito que ele houvesse respeitado meu espaço.

— Sempre que precisar, coração — respondeu prontamente, fazendo-me revirar os olhos.

Sorri, mas não durou muito tempo. Meu corpo já não era sessenta e cinco por cento de água, mas de preocupação. E os outros trinta e cinco por cento eram de impotência.

Se Turner estava fodido, também estava eu. Não éramos casados, mas minha vida estava ligada à dele. Eu dependia não só de sua felicidade, mas de sua vida. Turner é meu amor, e eu não podia suportar perdê-lo.

Enfiei a mão no bolso e tirei o celular. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nada.

— Eu posso fazer isso, Will, eu sei que posso — dissera antes de entrar no carro, aproximando-se para ficar em frente à mim. — Confie em mim. — Juntou meu rosto com suas mãos, deixando um beijo em cada pálpebra molhada. — Confie em mim — sussurrou, por fim.

É claro que eu confio nele. Confio minha vida à ele. Confio meu amor à ele. Isso não quer dizer que eu confie em pessoas que o machucaram.

Por que ele não podia ver o mesmo que eu?

Há exatamente doze horas, Turner entrou em seu carro e partiu para Mallow Coast, com uma parte de mim junto dele. Há exatamente doze horas insisti para que ele reconsiderasse, e quando ele recusou, insisti que me levasse junto. Há exatamente doze horas, um nódulo se formou em minha garganta e não fez menção de sair.

Era domingo e estávamos nas ruas semi vazias de Hybridfield. Era o dia que todos saíam para a rua, passear com cachorros, dar uma volta, sair com a família. No entanto, também era o dia em que boa parte da população estava viajando para as cidades vizinhas ou trancada dentro de casa. Eu, particularmente, preferia qualquer uma das últimas opções.

Eu devia ir para Mallow Coast. Ou se não, devia ficar em forma de bola na minha cama, afundado em desalento. Mas com certeza, com certeza, não devia estar andando atrás de distribuidoras para uma festa estúpida que o idiota do Cenoura nos fez participar!

— De que você quer, Will? — perguntou Peter, quando chegamos na sorveteria contra a vontade de Laurel e Gabe.

— Menta e chocolate — respondi prontamente, com um suspiro.

Senti um braço cair em torno do meu pescoço e virei o rosto para ver os olhos azuis de Gabe próximos aos meus.

— Cara, você está bem? — sussurrou, com um sorriso de lado ao relancear Peter, que estava ocupado inclinado em direção ao atendente. — Você está muito estranho — acrescentou, uma ruga entre as sobrancelhas.

— Descobri sobre as ligações — respondi em um murmúrio, demasiado estressado para um dia só.

Gabe arregalou os olhos.

— É mesmo? E o que eram? — perguntou, curioso. Ao ver minha expressão, no entanto, baixou a bola. — Tão mal assim?

Forcei um sorriso quando vi Peter aproximar-se com dois sorvetes e Laurel pegar o dela e o de Gabe.

— Depois conversamos — falei baixinho, vendo-o assentir.

Bagunçou meus cabelos rapidamente e aproximou-se de Laurel.

— Obrigado — falei, assim que Peter entregou-me o sorvete com um sorriso. Fez uma reverência dramática ao curvar-se e estender a mão, antes de se pronunciar.

— Às suas ordens, Alteza — falou, roubando-me um sorriso.

O que Peter tinha de endemoniado quando criança, tinha de abobado quando adulto. Era um contraste e tanto para quem conhecesse as duas versões.

Voltamos à nossa busca, e acabamos já por fechar o negócio com uma das distribuidoras. Nenhum de nós, talvez com exceção de Peter e seu bom humor, gostaria de voltar a sair juntos nesta missão aborrecida.

Enquanto caminhávamos para a parada de ônibus, vi que ambos Laurel e Gabe checaram os celulares ao mesmo tempo. Foi o primeiro olhar que trocaram que não envolvesse um amargor mais forte do que de cerveja. Então, ambos viraram em minha direção com olhares curiosos. No caso de Gabe, preocupado.

— O que foi? — perguntei, vendo que Peter recém percebia o clima estranho.

— Aconteceu alguma coisa com o Sr. Turner? — perguntou Laurel, os olhos atentos.

— O quê? Por quê? — perguntei, os olhos saltando das órbitas e o coração quase saindo pela boca.

— Recebemos um e-mail dizendo que ele está de licença por tempo indeterminado — falou Gabe, o cenho franzido. — Assuntos pessoais.

— Ah — falei, quase parando para apoiar-me na parede com alívio.

Obrigado pelo quase infarto, Laurel!

— Sr. Turner é o seu namorado? — perguntou Peter, com humor. — Richard, certo?

— Ele é nosso professor — respondeu Laurel, dando de ombros, a continuar a atenção no sorvete. — O que houve, ele está doente? — perguntou, com os olhos em mim.

— Não — respondi, dando de ombros. — Algo de família. Ele teve que voltar à Mallow Coast.

— Por tempo indeterminado? — perguntou Gabe, desconfiado.

— Sim — respondi, firme, querendo acabar com o assunto.

Pude perceber que os três trocaram um olhar silencioso antes de mudarem de assunto. Peter ficou me encarando com o que parecia ser interesse, mas assim que fixei os olhos em seu rosto, percebi que tinha uma expressão semelhante à de Gabe. Suspeita, desconfiança. Preocupação?

— Você parece preocupado — disse ele, chamando-me atenção. — Então estou supondo que "algo de família" seja uma mentira. Não precisa me contar — acrescentou rapidamente, quando abri a boca para negar. — Só quero que saiba que se você quiser, eu estou aqui para conversar.

— Certo — falei com desconfiança, decifrando o que me dissera.

Não havia nada para decifrar. Peter é muito simples. Se ao menos todos fossem assim...

— Sua mãe me pediu para ser um bom amigo para você — falou, com um sorriso. — Embora ela só tenha pedido isto por conta da minha sexualidade, eu realmente gosto de você — falou, fazendo meu rosto queimar ao perceber que ele sabia o motivo de minha mãe. Droga, mãe! — Não que ela tenha feito mal — acrescentou, rindo. Mulher adorável. — Riu um pouco mais quando percebeu meu rosto de tomate. — Mas só para você saber, estou aqui por conta própria. — Deu de ombros.

Sorri, vendo que Laurel e Gabe murmuravam entre si em uma conversa rápida à nossa frente. Se estavam brigando em cochichos era porque estavam falando à respeito do que quer que ocorreu entre eles. Os dois estavam vermelhos feito tomates, e quando Laurel bufou, percebi que não era de vergonha.

— Obrigado, Peter — falei, desviando o olhar para ele, com um sorriso sincero. — Terei isso em mente.

— Ótimo — falou, tomando uma postura convencida e um sorriso de lado. — Porque na sexta-feira, eu tenho um concerto. Você devia ir, sabe? Para formarmos vínculos de uma boa amizade e tudo o mais — falou, com humor. Sorri. — É para arrecadar dinheiro para a formatura, que vai ser daqui um ano. Vai ser no campus mesmo, depois das aulas. Vocês podem ir — falou mais alto, para que Laurel e Gabe ouvissem. Então percebi que ele o fizera para acabar com a discussão murmurada dos dois.

Peter realmente não era tão ruim.

— Concerto? — perguntou Gabe, fuzilando Laurel uma última vez com o olhar antes de virar o rosto para trás. — O que vocês tocam?

— Pop rock, principalmente — respondeu Peter, com um dar de ombros. — Eu tenho uma banda, mas o concerto vai ser com todos da minha turma, como uma espécie de coral. Vai ficar bem legal! — afirmou, animado. — E vai ser ótimo relaxar um pouco antes da festa no sábado, dissipar um pouco este estresse da organização.

Enquanto puxavam um assunto aleatório sobre o quanto apreciam uma boa música, e o quanto estava sendo trabalhoso barganhar pela decoração e a companhia de música eletrônica, senti meu celular vibrar. Todas as vozes sumiram no mesmo instante, substituídas pelo som do meu coração que batia furiosamente dentro do peito.

Não sei do que eu tinha mais medo, de que conseguisse fazer seu plano funcionar desde o princípio e acabasse morto ou de que não conseguisse fazer o plano funcionar e acabasse morto.

Meu coração parou por um exato momento ao enxergar a tela, depois de haver retirado o aparelho do bolso com a velocidade da luz. O nome que havia substituído Turner alguns meses atrás piscava ao lado de "nova mensagem", como um aviso dos deuses: Recrutante.

Relutei com o dedo em cima da tela, pensando se leria a mensagem ou não. E se fosse uma péssima notícia?

— Will? — Ergui o olhar, encontrando os olhos lindamente castanhos de Peter. — Você irá? — perguntou, esperançoso.

— Claro — respondi com rapidez, vendo um sorriso de pasta de dente espalhar por seu rosto. — Irei sim — falei, pensando que era melhor assistir um concerto do que cortar os pulsos em casa. — Levarei K comigo.

Sem falar que uma pequena parte de mim tinha curiosidade sobre o motivo pelo qual Peter sempre fora apaixonado por violões e música.

— Kaori sempre foi um amor de gente — disse ele. — Ela é sua melhor amiga desde aquela época, não? — perguntou, erguendo as sobrancelhas grossas. Assenti, apertando o celular em mãos. — Talvez ela se dê bem com a minha melhor amiga, JJ.

— Jessie Julia? — perguntou Laurel, arqueando uma das sobrancelhas. Peter assentiu, com um riso. Laurel sorriu também. — É um nome difícil de esquecer.

— JJ odeia o próprio nome — contou Peter, aproximando-se da ruiva. — Mas eu adoro! É uma história bonitinha de como os pais dela entraram em acordo com...

Eu já não ouvia.

Meus olhos estavam fixos em meu próprio celular, enquanto um pavor se espalhava por meu corpo. Meus passos se tornaram mais lentos, e mesmo sem ver, pude perceber que havia ficado para trás. Eu não podia fazer suspense, precisava descobrir se havia dado certo.

Abri a mensagem com rapidez, e devorei as letras em segundos. Pisquei algumas vezes, digerindo a informação. O pânico se esvaiu e eu fechei os olhos com alívio.

Estava tudo bem. No entanto, havia uma voz que gritava em minha mente: por quanto tempo?

Ignorei-a, focando a atenção na confiança que Turner tinha de si próprio, de seu jogo, de sua própria estratégia. Estava usando o próprio apelido como armadura, talvez por haver originado justamente do cassino, e tomava forma de uma criatura mística com bravura e esplendor. Era um guerreiro.

E se Turner dizia para que eu confiasse nele, eu confiaria com todo meu coração.

Desviei os olhos, mais uma vez, para a celular, relendo a mensagem destacada uma última vez antes de correr para alcançar meus amigos. Sorri, as palavras repercutindo em minha mente:

Sabia que dragões gostam muito de ouro? Dizem que eles destroem cidades e populações apenas para conseguir um pouco mais de moedas douradas. Guardam em pilhas dentro de suas cavernas e os protegem como se sua vida dependesse disto. Você vê a semelhança, Will? Quanto mais eu tentava, mais eu me aproximava de você. Vai ver é porque você é meu maior tesouro.

PS.: Consegui entrar no Golden* e conseguirei sair. Não se preocupe, anjo, eu voltarei para tomar conta de meu tesouro nem que eu precise soltar fogo por tudo e por todos. Te amo.

Notas finais
Golden* se refere ao Golden Casino, ou seja, o subsolo de lá! Gente, Daniel* na cova dos leões, caso não tenham entendido. Bíblia, minha gente. (eu jurava de pé junto que era Davi, que bom que chequei com o tio Google antes HAHAHAHAHAHAHAHA). Como podem ver, sou uma religiosa devota. Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! *O*