Made of Fire

11 X - Nosso primeiro segredo


Notas iniciais
Gente, depois não digam que eu nunca dei nada pra vocês! Ahahahah Aqui vai, mais um, ANTES DE COMPLETAR UMA SEMANA - que fique claro isso! Vocês vão perceber ao longo do capítulo que ele retrata uma cena só, que é a continuação do capítulo anterior! Ahahahaha Sim, sou criativa assim :P Mas se não gostarem, eu deleto u_u Will's POV Boa leitura! *-*

Eu não havia considerado a hipótese de que Turner estivesse saindo com alguém. Havia-me dito que não procurava namoro, mas não havia dito nada a respeito de encontros casuais.

Claro que não havia dito, imbecil! Que tipo de coisa seria essa para contar para um mero aluno?

Turner podia ser meu professor rabugento, mas era um homem, afinal. Com certeza tinha suas necessidades. Sem falar que é bem sucedido, bonito e inteligente. Claro que ele teria, ao menos, casos de uma noite só.

Por que eu não pensei nisso antes?

— Ah, querido — disse a Srta. Clark após eu interromper o momento dos sonhos dela.

Querido? Ela me chamou de querido?

Reprimi a vontade de socar essa mulher monga. Também tentei ao máximo reprimir o pensamento mais primitivo que estava passando por minha cabeça desde o momento em que vi seu rosto corado próximo ao rosto do meu professor: Vadia!

— Não atrapalhou nada, eu já estava de saída — continuou ela e, sonsa como sempre, pegou sua bolsa da cadeira. — Obrigada novamente, Richard! Nos vemos no próximo almoço, sim? — perguntou ao passar por mim em direção à porta.

Almoço?

— Claro. — Ouvi Turner responder tardiamente.

Então eles almoçariam juntos...

A porta fechou-se em silêncio enquanto eu a encarava.

Estava tão concentrado em conquistar meu professor que não cogitei a ideia de que talvez eu não fosse o único.

Como é que eu pude ser tão idiota a ponto de desconsiderar o resto do mundo? E se no fim, ele não quisesse nada comigo mesmo? Seria por eu ser mais novo que ele? Ou talvez por ser seu aluno?

Ao perceber que o silêncio inundou a sala e que eu encarava a porta durante mais tempo do que o necessário, virei o rosto e ergui os olhos em direção à Turner.

Seria porque sou homem também?

Esse pensamento me assombrou tanto quanto a ideia dele realmente não querer nada comigo. Meu estômago embrulhou e eu subitamente me arrependi de ter almoçado minutos antes. Foquei meus olhos nos dele. Turner tinha as sobrancelhas juntas e engolia em seco. Parecia receoso. Franzi o cenho ao encarar os incríveis olhos cinzas.

Por que tão lindo?

— Will? — Sua voz invadiu meus ouvidos, trazendo-me de volta à realidade. Só então dei-me conta de que meus pensamentos haviam virado um emaranhado abstrato.

Que novidade!, pensei com desgosto.

Ele estava usando a mesma roupa social que sempre, junto de uma gravata azul. Os cabelos estavam mais compridos que o normal, assim como sua barba. Tinha olheiras visíveis abaixo dos olhos, embora estes brilhassem com vivacidade no momento. Porém, era sua postura que me chamava a atenção. Estava completamente ereto e me encarava como se eu fosse uma bomba prestes a explodir.

Ah, merda! Será que minha expressão denunciava minha insegurança tanto quanto meus pensamentos?

Como se levasse um choque, afastei e encerrei toda a reflexão que me passava pela cabeça. Balancei-a rapidamente e forcei-me a sorrir.

— Oi — falei brilhantemente ao dar um passo em frente.

Ele me encarou por um tempo como se analisasse tanto eu quanto a situação.

— Oi — respondeu-me, tão brilhantemente quanto eu.

Suspirei ao observá-lo, então deslizei minha mochila pelo ombro direito e tirei dali um pequeno embrulho. Agora a ideia já não parecia tão divertida quanto antes, mas mesmo assim estendi o braço para entregar-lhe.

— Não sabia que sabores você gostava — expliquei ao ver que ele encarava minha mão com a testa franzida —, então comprei de chocolate. Afinal, todo mundo gosta de chocolate — completei, lembrando da Kaori.

Depois de almoçar no restaurante, passei na cantina do prédio e comprei dois cupcakes. Imaginava que tipo de expressão ele teria no rosto ao recebê-lo. Era mais ou menos como estava acontecendo, na verdade.

As sobrancelhas franzidas, logo arqueadas, formando rugas em sua testa. A boca levemente aberta, surpreso. E então, logo após pegar o embrulho de minha mão, o relaxamento do rosto ao compreender, com diversão nos olhos cinzas.

— Ora, Will... — começou ele, coçando a cabeça, sem graça. — Obrigado. Não precisava... — falou, sorrindo aos poucos ao encarar o pequeno bolo. Então me encarou, mostrando os dentes, alegremente.

Essa eu não esperava.

Subitamente mais animado, passei por ele ao me dirigir à cadeira habitual e, após pegar meu cupcake, também de chocolate, joguei minha mochila na outra posta ao lado.

— De nada. Agora seja bonzinho, professor — falei ao retirar o embrulho do bolinho —, e faça um café para nós, sim?

Às minhas costas, pude ouvi-lo meio bufar meio rir ao mesmo tempo. Então senti o cheiro de seu perfume ao passar por mim em direção à cafeteira na mesinha. Fechei os olhos por um instante.

Seu cheiro é bom também. Quem resistiria?

— Você é inacreditável, Will — disse ele, balançando a cabeça.

Abri-os de novo e sorri largamente.

— Vou tomar isso como um elogio, Turner — retruquei.

E foi o melhor dos elogios até agora. E agora, como faço para parar de sorrir?

Ele sentou-se na cadeira atrás da mesa, como sempre, após colocar uma caneca na minha frente e segurar a outra com a mão.

Comemos os bolinhos em silêncio ao tomar o café. E então ele nos serviu mais duas vezes, enquanto eu mexia um pouco no celular e ele nos papéis em sua mesa. Ficamos um tempo assim, não sei dizer quanto. Ele disse ter provas de mais de uma turma para corrigir e eu garanti que não o atrapalharia. Interrompi o silêncio algumas vezes, entretanto, incapaz de me manter por muito tempo sem provocá-lo.

Depois de passados alguns minutos em uma quietude confortável, tomei coragem para perguntar o que queria desde que cheguei.

— Então... A Srta. Clark vem muito aqui? — perguntei enquanto mexia no celular. Ou fingia mexer. — Digo, não sabia que vocês eram amigos — completei, sem tirar os olhos da tela, fingindo desinteresse.

O silêncio durou tempo suficiente para me fazer erguer os olhos, contra minha vontade. Turner mantinha-se imóvel, o rosto indecifrável. Havia largado a caneta e concentrava seus olhos cinzas em mim. Olhos estes, tão penetrantes, que por um momento pensei que pudesse invadir minha pele.

— Srta. Clark é uma colega de trabalho — explicou ele, sério, sem tirar os olhos dos meus. Então um brilho diferente passou por eles quando completou: — Ela não é nenhum rolo sem compromisso, se é o que pensou...

Chocado, pisquei algumas vezes sem saber o que pensar, o que fazer ou o que dizer.

— Não? — perguntei debilmente, sentindo o sangue subir para o meu rosto.

Turner relaxou o rosto, movendo-se apenas para negar lentamente com a cabeça, sem dizer uma palavra.

De repente, a sala pareceu mais quente do que devia estar. Queria virar o rosto e checar se a janela estava aberta, mas nem seus olhos nem as batidas aceleradas do meu coração permitiram. Apertei a cadeira na qual sentava, sentindo um frio passar incessantemente por minha barriga.

Só então Turner desviou os olhos para seus papéis, limpando a garganta algumas vezes. No entanto, pude ver os cantos de seus lábios erguerem-se devagar quando ele passou a corrigir as provas mais uma vez.

Passei a sorrir também, tanto que os músculos de minhas bochechas doerem.

Ah, meu deus. Ele quis dizer o que eu acho que ele quis dizer, não?

Fiquei observando ele corrigir o resto das provas, concentrado. Os olhos cinzentos moviam-se rapidamente ao ler o que supus ser as respostas dos alunos. Movia a caneta de forma que batesse de leve na mesa, sem se dar conta. A testa mantinha-se franzida, em seu eterno gesto ranzinza. Parecia ter-se esquecido completamente de que eu estava aqui, envolto em sua Administração.

Pensei que o efeito Turner houvera passado, meus lábios teimavam em me trair. Ainda sorria como uma criança no parque de diversões.

— Will, pare de me encarar como se fosse um psicopata.

Sobressaltei-me quando sua voz invadiu o silêncio tão confortável da sala. Ele não havia sequer levantado os olhos de suas folhas.

— Está começando a me assustar — completou ele, erguendo-os em minha direção com uma expressão divertida.

Senti meu rosto queimar de vergonha. Como ele viu que eu o encarava se estava tão concentrado?

— Bom — comecei, tentando voltar à minha postura habitual —, eu não tenho culpa se a vista daqui é encantadora.

Pude vê-lo se remexer na cadeira, desconfortável. Levantou uma de suas sobrancelhas ao dizer, em tom de aviso:

— Will... — falou ele, como se dissesse: não passe dos limites novamente.

— O quê? — perguntei, ainda sorrindo. — Só falei a verdade — completei, dando de ombros.

Então obtive a reação mais imprevisível para essa situação: Turner bufou e voltou aos papéis, deixando escapar um resmungo.

— A verdade... — resmungou, com deboche.

Não pude evitar erguer uma das sobrancelhas ao encará-lo.

— Não acredita em mim? — perguntei, incrédulo.

Turner fechou os olhos e suspirou antes de me olhar novamente. Estava com a maior cara de indignação. Levantou-se rapidamente e postou as mãos na cintura ao me encarar com ceticismo. Parecia um pai prestes a dar um sermão.

— Que verdade é essa afinal, Will? Por que você está fazendo isso tudo? O que você quer de mim?

Sem entender o motivo de sua reação e do despejo de perguntas simultâneas, me limitei a arquear as sobrancelhas.

— Como assim? — perguntei, de fato, confuso.

Turner contornou a mesa e parou ao meu lado, abismado. Encolhi-me na cadeira involuntariamente.

— Você tinha razão, Will — disse ele. — Cabia a mim decidir se você passaria em minha matéria ou não. Cometi um erro, suponho — continuou, pegando-me de surpresa. Esticou o braço para entregar-me uma folha que, até agora, eu não havia percebido que ele segurava.

Minha prova de hoje.

— Eu gabaritei? — perguntei ao encarar a prova, satisfeito comigo mesmo.

— Você é inteligente o suficiente para passar em minha matéria — falou ele. — Sei disso agora. E o admito — completou, me encarando com o rosto franzido, como se esperasse uma resposta.

Encarei-o com cautela, pensando se havia mesmo entendido o que ele queria dizer com tudo isso.

Não.

Depois de uns segundos nos encarando, pude vê-lo revirar os olhos e suspirar, levando a mão à cabeça, com frustração.

— O que eu estou querendo dizer — recomeçou, devagar — é que você já pode parar com tudo isso — disse, fazendo um gesto com a mão.

Quando finalmente entendi aonde ele queria chegar, arregalei os olhos, surpreso. Levantei-me da cadeira, negando com a cabeça ao encará-lo. Larguei a prova na mesa antes de virar-me em sua direção.

Quando dei um passo em frente, ele deu um passo atrás, ainda me encarando como se fôssemos... Bom, aluno e professor. Havia posto a máscara do profissionalismo em seu rosto.

— Não estou fazendo nada por ter me reprovado, Turner — falei, sério —, a não ser estudar para passar desta vez.

Ele me encarava com uma expressão indecifrável. Desviou o olhar algumas vezes, sem saber o que falar. Parecia estar tendo uma guerra interna.

— Will — começou, com cautela —, eu não entendo o que... — Bufou novamente, antes de me encarar com determinação — Eu estou velho, você sabe. Se não estou, pareço — acrescentou quando percebeu minha expressão, fazendo uma careta. — E eu sou seu professor. Você anda passando dos limites, Will. Isso vai acabar gerando problemas para nós dois e...

— O que é o "isso" a que tanto se refere? — perguntei, aproximando-me com um sorriso.

Tentei, mas não consegui reprimir meu demônio interior no momento. Apesar da situação requerer no mínimo um pouco de seriedade, eu estava me segurando ao máximo para não rir de sua expressão frustrada. Até porque, a maneira como ele lidaria com isto ainda me dava um pouco de medo.

— Will... — começou ele, mas o interrompi novamente.

— Você quer mesmo que eu te diga o que quero de você? — perguntei, colocando o melhor sorriso malicioso no rosto. — Porque eu posso dizer, se quiser — falei, levando minha mão em direção à sua.

No mesmo instante Turner a desviou, ficando com a postura ereta novamente e piscando devagar. Me encarou com descrença, mas ao mesmo tempo, compreensão. Acho que comprovei que ter repetido em A.F. I não tinha nada a ver com "isso". Reprimi o riso.

— Não, não quero — respondeu finalmente, com as sobrancelhas arqueadas.

Não parecia bravo ou rancoroso. Parecia estar amortecido, como se fosse um alívio para ele que minhas intenções não fossem meramente vingativas. Pigarreou antes de desviar completamente de mim em direção à mesa novamente.

Se ele dissesse que queria saber meus pensamentos criativos com relação à ele, eu provavelmente cavaria um buraco para me enfiar.

A vantagem que eu tenho em relação a Turner é que ele não sabe que eu possuo limites também. Encarar o personagem descarado e malicioso é um tanto fácil, porque faz parte de mim, apesar de estar escondido boa parte do tempo. Porém, isso tudo não deixa de ser novo para mim, tão novo que às vezes nem me reconheço.

Ainda sou o Will. Sou o cara imbecil que assiste mais séries de televisão do que vive. O que entrou para a mesma faculdade que os dois melhores amigos de infância. Sou o cara que tentava proteger o irmão e a mãe do pai bêbado. Eu sou o cara teve o primeiro beijo atrás de uma árvore na escola. Aquele que foi traído diversas vezes na primeira tentativa de namoro.

O problema é que esse cara não era gay. E mesmo que fosse, não se humilharia de tantas formas diferentes dando em cima do professor. Só que... Eu sou esse cara também. E conciliar os dois ao mesmo tempo é um tanto difícil de assimilar.

Eu tenho limites. E agradeço aos céus que Turner não se dê conta disso.

— Eu não devia ter mostrado sua nota — disse ele, já sentado em sua cadeira. Com um suspiro, virei e sentei-me também.

Turner tinha uma careta engraçada ao observar a prova, agora pousada em sua mão. Ergueu os olhos para mim.

— Agradeço se fingir que isto não aconteceu — falou ele, a careta sendo trocada por um sorriso pidão.

— Prometo não contar — prometi, depois de rir. — E você? — perguntei, observando sua reação.

Ele assentiu, guardando a prova junto das outras em uma pasta.

— Ótimo — falei, sorrindo mais ainda. — Vai ser nosso primeiro segredo.

Turner instantaneamente paralisou, tenso.

Ora, eu é que não ia perder de falar uma coisa dessas!

Senti o diabinho interior pular de empolgação, enquanto sentia as bochechas arderem de tanto sorrir. Mordi o lábio, vendo seu rosto ruborizar levemente.

Ah, sim, valeu muito a pena!

— Will, você não pode... — começou ele.

— Não estrague nosso dia — interrompi, sorrindo. — Até porque, essa semana é sagrada para mim. Não quero ouvir nenhum resmungo vindo de você.

Pude vê-lo estreitar os olhos, antes de abrir a boca para falar mais bobagens. O interrompi novamente antes que começasse.

— Quarta é meu aniversário — falei rapidamente, para quitar todos seus pensamentos.

Turner franziu o cenho e inclinou a cabeça levemente.

— É mesmo? — perguntou, com curiosidade.

Assenti devagar, sorrindo.

— Quero presente — acrescentei, roubando um sorriso dele.

Observei-o abrir a boca para responder, mas foi interrompido pelo barulho da porta se abrindo. Virei-me para ver quem era. Sr. Edwards, com as mesmas roupas que meu avô usava e o mesmo óculos caído no nariz. Entretanto, ele não era tão velho quanto sua roupa e seu jeito de falar. Isso o tornava meio peculiar.

— Richard — falou como um cumprimento e quando parou os olhos em mim, levantou uma das sobrancelhas. — William.

— Sr. Edwards. — Ouvi Turner cumprimentar ao mesmo tempo em que eu dizia:

— Boa tarde, Sr. Edwards — falei, com um sorriso.

Pude ver o senhor desviar os olhos de mim para Turner, e logo para mim novamente. Então apenas balançou a cabeça, com uma risada, ao dirigir-se para sua mesa.

Voltei o rosto para meu professor, que encarava o Sr. Edwards com uma expressão tão confusa quanto a minha. Logo, me encarou novamente, com um semblante interrogativo.

Dei de ombros, com o que acho ter sido uma careta. Depois disso, Turner sorriu, desviando o olhar de mim para o posto de Edwards.

— Mais alguma pergunta, Will? — perguntou ele, escondendo o sorriso.

Senti meu peito inflar com o mais mínimo de seus gestos. Céus, eu pareço um pré-adolescente na puberdade!

— Mais nenhuma, Tur... professor — falei, mordendo os lábios.

Pude vê-lo me olhar com descrença por meu deslize.

— Mas agora já podemos ir até a biblioteca, não? — atalhei, sorrindo. — Não deve mais estar tão cheia.

Reprimi o riso quando o vi franzir o cenho e piscar algumas vezes, confuso.

— Para você me ajudar com meu projeto e me dizer quais livros devo usar — completei, satisfeito por ser tão criativo.

Esperei que ele revirasse os olhos ou me engolisse com o olhar, ou que ao menos relutasse um pouco. No entanto, depois de me olhar sem expressão alguma, simplesmente respondeu:

— Claro — disse, levantando-se. — Leonard, vou ajudar Will com seu projeto e já volto. Tem café pronto aqui, se o senhor quiser — falou rapidamente ao pegar seu paletó na cadeira.

Levantei-me da cadeira também, juntando minhas coisas. Olhei de relance para o Sr. Edwards, que tinha uma sobrancelha arqueada ao me encarar.

— Tudo bem — respondeu ele, cauteloso, para logo sorrir. — Que bom que já tem café pronto, Richard! Não tomei na parte da manhã e já estou quase passando mal sem ele — completou, rindo.

Turner riu também, assentindo.

*

Quando já estávamos a caminho da biblioteca do prédio ao lado é que Turner se pronunciou.

— Que história é essa de projeto, Will? — perguntou, meio incrédulo.

Ri alto.

A universidade parecia vazia, salvo alguns estudantes que passavam depressa pela extensão das ruas. Era segunda-feira, afinal. Dia perfeito para matar aula. E o sol não estava à vista desde manhã. Aliás, parecia um dos cenários do The Walking Dead. Sem sangue, acrescentei mentalmente.

— Ora, professor — falei, olhando-o nos olhos —, eu apenas te ajudei. Você fica o dia inteiro naquela sala, achei que fosse bom tomar um pouco de ar fresco — completei, sorrindo.

— Muito atencioso de sua parte — disse ele, esbanjando ironia.

— Eu sei — falei, parando em sua frente subitamente.

Por tê-lo pego desprevenido, esbarrou em mim, levando as mãos instintivamente aos meus ombros. Sorri largamente com a sensação de déjà-vu. Quantas vezes eu já havia feito isso, afinal? Três, quatro?

— Will... — começou ele, deixando as mãos caírem.

— Você realmente gosta do meu nome, não é? — perguntei, rindo. — Will isso, Will aquilo. Quando vai parar de me passar sermão?

Ele inclinou a cabeça levemente, o rosto relaxado.

— Quando você parar de aprontar — respondeu de forma simples.

Dei um passo em frente, mirando nos lábios que, segundo os meus últimos sonhos, deviam ser incrivelmente macios.

— Nunca.

Turner não afastou-se imediatamente. Os olhos cinzas pareciam combinar com o tempo, mas não havia mais a típica frieza neles. Pelo contrário. Seus olhos pareciam completar o cenário, esquentando-o. Desviou-os dos meus para minha boca, fazendo-me praticamente tremer como meu coração, e de volta aos meus olhos. Afastou o rosto para olhar ao redor rapidamente, mas não havia ninguém por perto. Logo os voltou a mim, dando um passo à frente também.

Ah, meu deus.

Senti o cheiro de seu perfume e o hálito de café em meu rosto e, instintivamente, fechei os olhos, sentindo meu corpo inteiro queimar. Porém, os lábios que queria nos meus não chegaram.

Eu estava prestes a abrir os olhos novamente quando senti sua barba roçar em minha bochecha esquerda. Foi então que o ouvi.

— Então nunca pararei tampouco — sussurrou, com os lábios tão perto de meu ouvido que podia senti-los.

Tão logo se aproximou e já se afastou, percebi ao ouvir os passos.

Abri os olhos, percebendo que minhas pernas bambas não seriam capaz de dar um passo sequer antes de eu tomar alguns segundos para respirar. Agora eu entendo o que a expressão "tirar o fôlego" quer dizer.

Quando a realidade me acertou, pisquei algumas vezes antes de tentar me mexer.

Droga, eu fechei os olhos. Quão vergonhoso era isso?

— Você devia ir embora antes que anoiteça, Will — Ouvi sua voz nas minhas costas, um tanto distante.

Virei rapidamente em sua direção — sem cair! -, mesmo ciente que eu devia estar da cor de um tomate. Ele estava a pouco mais de uns quinze passos de distância, virado para mim. Tinha um ar matreiro em seu olhar e sorria levemente.

— Ficou a tarde inteira comigo sem fazer nada — continuou —, então suponho que este seu projeto não seja tão urgente. — Ergueu a sobrancelha com deboche. — Podemos resolver isso outro dia.

Olhei pasmo para ele. Eu fiquei a tarde inteira lá?

Olhei para o céu rapidamente antes de voltar a olhar seu rosto. Então era por isso que o Sr. Edwards ficou nos encarando.

— Nos vemos na sexta, Will — disse, antes de dar-me as costas, caminhando em direção à cantina do outro prédio.

— E na quarta — falei um pouco mais alto, vendo-o virar em minha direção novamente. — Meu presente, ué — falei, sorrindo.

Turner riu um pouco antes de assentir e virar as costas novamente. Suspirei, observando-o até que ele sumisse de vista. Só então me obriguei a caminhar em direção à parada, sentindo que meu coração não poderia bater mais forte do que batia agora.

Notas finais
Eu preciso sair correndo agora, então se tiver erros depois eu arrumo, ok? Me digam o que acharam, e o que Will deve ganhar de presente! Ahahahhaha (aquela carinha) Beijo beijo no coração de vocês! :* Atualizada: 08/2017.