Made of Fire
41 X. Medo existe por um motivo
Notas iniciais
— Rich, amor — dizia Hilary, roçando uma das mãos esguias em meu rosto enquanto eu tentava desvencilhar-me dela. Riu-se, com diversão, relanceando Marcus pela janela do trailer. — Você sabe que Marcus e eu somos apenas amigos, mas por via das dúvidas — continuou, enfiando as mãos por debaixo de minha roupa ao passo que encostava minhas costas no balcão de dentro do trailer —, preciso deixar claro como eu adoro um homem com ciúmes! — Então, juntou nossos lábios antes que eu pudesse contestar.
*
Realmente não sabia o que esperar de Will, embora soubesse que ele me amava demais para afastar-se por um erro meu. Então, esperei, vendo sua expressão mudar, suavizando-se.
Sentindo-me ainda pior com a lembrança de minha promessa a respeito dos segredos e a dimensão do elefante na sala, fechei os olhos ao sentir sua mão apertar a minha. Abri-os apenas para vê-lo assentir, sério.
Inspirei fundo, aliviado.
— Está bem — sussurrou, os olhos verdes alargados. — Venha — murmurou, forçando um sorriso e puxando-me para seu quarto pela mão. — Minha mãe não vai se importar que a gente converse aqui dentro — acrescentou, lendo minha mente.
Relanceei Caleb mais uma vez, vendo um indício de sorriso em seu rosto ao encarar a folha na qual desenhava. Sabia que estava satisfeito com sua obra, porque via o mesmo sorriso genuíno no rosto de Jay quando o fazia.
Acompanhei Will para o quarto, de mãos dadas. No entanto, nem havíamos chegado perto da porta quando a voz de Sarah fez-se ouvir.
— Will! — Paramos, com as mãos unidas, ao virarmos para a porta que ligava a cozinha à sala de estar. — Temos visita — continuou ela, aparecendo na sala com um sorriso.
Em seguida, um segundo rosto feminino apareceu no cômodo. Aparentando ter a mesma idade de minha sogra, a mulher era morena e tinha os cabelos crespos e o olhar amigável.
— Meninos — cumprimentou ela, sorrindo. Ao focar os olhos no Will, arqueou as sobrancelhas. — Will, quanto tempo! — Então, riu com vontade. — Creio que mal acostumei sua mãe a me visitar, ao invés do contrário — acrescentou com um riso, antes de abraçar Will.
— Acho que eu também não andei passando muito tempo aqui em casa, nos últimos meses — respondeu ele, afastando-se com um sorriso amarelo.
— Nos vimos no natal, tia Nancy — lembrou Caleb, ainda sentado no sofá com os olhos no caderno.
— É mesmo, querido — respondeu ela, com humor. — Mas Will não estava aqui no natal, não é mesmo?
Will sorriu tímido, me olhando de canto de olho. Voltou, mais uma vez, a enroscar os dedos nos meus de forma mais apertada.
— Não — respondeu rapidamente —, eu estava viajando.
— Na casa do namorado, eu lembro. Sua mãe mencionou — disse ela, relanceando Sarah, que fazia Caleb levantar para cumprimentar a amiga. — Você deve ser ele, não?
Depois de relancear o sorriso mínimo de Will, assenti, percebendo que a pergunta era dirigida à mim.
— Richard — falei, erguendo a mão para cumprimentá-la. — Prazer.
Sorri forçadamente, sentindo que o destino havia me amaldiçoado pelos últimos tempos. Gostava de estar na casa de Will e com a família dele, mas eu precisava muito contar logo o que vim contar. Sentia que, se eu esperasse mais e tivesse mais tempo para pensar a respeito, acabaria não contando nada.
Não era possível que eu não conseguiria falar com Will à sós.
— Nancy. E o prazer é meu — respondeu ela, olhando ao redor com confusão logo em seguida. — Cadê... — murmurou, olhando para a cozinha. — Ora, pelo amor de deus, garoto! Larga esse celular e venha aqui — reclamou ela, deixando-me surpreso pela terceira presença na casa.
— Ah, nem se estresse com isso, Nancy — disse Sarah, relanceando Will e Caleb por um instante. — Esses garotos de hoje em dia não largam essa porcaria para nada — falou, obtendo aprovação da segunda.
Reprimi o riso, já que podia claramente ouvir essa frase saída dos lábios franzidos de minha mãe. Com as mãos na cintura, é claro.
— Desculpa, desculpa — disse a terceira voz, seguida de um riso. — Estava falando com JJ, era importante!
Senti Will retesar ao meu lado antes mesmo do garoto adentrar na sala, fazendo-me olhar para ele com rapidez. Havia apertado mais forte minha mão, supus que involuntariamente, tinha os lábios franzidos um no outro e os olhos alargaram de forma visível.
Franzi o cenho, confuso com sua reação.
Curioso, girei o rosto para o garoto, aparentando a idade do Will, a tempo de vê-lo esquivar de sua mãe com um riso alto. Seu cabelo era em forma de cachos escuros, semelhantes ao de Nancy, possuía um pequeno alargador na orelha esquerda e tinha um sorriso brincalhão. Não lembrava de já tê-lo visto alguma vez.
Depois de passar os olhos por mim e por Will rapidamente, ainda sorrindo, abraçou Sarah com um cumprimento amigável. Em seguida, desviou dela para Caleb, estendendo a mão para o garoto que estava claramente desgostoso por ter tido que largar seu caderno de desenhos.
— Querido, você lembra de Peter? — perguntou Sarah, os olhos em Willl, indicando o moreno com a mão. — Vocês brincavam quando pequenos.
Arqueei as sobrancelhas, surpreso ao ouvir mais alguma coisa a respeito da infância de Will. Gostava de saber desses detalhes, por mais pequenos que fossem, já que Will os privava de mim com afinco. Havia me contado que conhecia Gabriel e Louis desde pequeno, assim como Kaori, mas nada mais saía de sua boca a respeito de como crescera.
Ao perceber que tinha o rosto empalideceu com as palavras da mãe e ligando esta reação com a primeira que tivera ao ouvir a voz de Peter, imaginei que não gostasse muito do garoto.
— Hum... Claro — respondeu, nervoso, apertando minha mão mais uma vez sem perceber. — Peter — falou, como se testasse o nome em sua boca. — Peter. É claro — reforçou, assentindo mecanicamente.
Sem entender sua reação estranha, voltei os olhos ao tal de Peter. Não parecia ser uma pessoa desagradável, e certamente não possuía o mesmo semblante que Will. Tinha um sorriso largo no rosto ao encará-lo, e parecia tão divertido com a situação quanto Will não estava.
Franzi o cenho.
— Eu sabia que conhecia você de algum lugar — falou Peter, sorrindo.
O loiro atrapalhadamente retirou a mão da minha para pegar a que Peter estendia em sua direção, enquanto eu ouvia as duas mães conversarem sobre algo da infância dos dois. Por mais que quisesse, não podia prestar atenção no que falavam, já que minha atenção era constantemente desviada pela curiosidade acerca dos dois.
— O quê? — perguntou Will, debilmente, antes que Peter estendesse a mão para mim também. Automaticamente, cumprimentei-o também, intrigado.
— A foto — respondeu ele, arqueando as sobrancelhas com diversão. — No seu celular — acrescentou ao perceber que a ruga entre as sobrancelhas de Will apenas aumentara. — Vi sua mãe na foto e liguei os pontos. Sabia que você me era familiar!
Ao perceber que se conheciam depois da infância e que estava alheio à conversa, pensei que seria melhor fingir que não a ouvia, em forma de respeito. No entanto, o fato de Will continuar grudado em mim como se eu fosse fugir, fez com que eu mantivesse a atenção nos dois.
— Ah — respondeu Will, piscando algumas vezes. — Era disso que você estava falando — murmurou, assentindo.
— É claro — respondeu o rapaz, para então arquear a sobrancelha com sugestão. — Do que pensou que eu tava falando?
Como estava prestando atenção nos dois, pude perceber o momento em que o sorriso de Peter aumentou e o rosto de Will foi tomado completamente pela cor avermelhada. A estranheza de tudo passou a se tornar levemente perturbadora, deixando-me realmente intrigado. E incômodo.
Do que diabos estavam falando?
— Pensei que vocês haviam perdido contato com o tempo — disse Nancy, os olhos presos em nossa direção, interrompendo a possível resposta de Will. Estava tão surpresa quanto Sarah.
— Nos reencontramos na universidade — respondeu Peter, mantendo a postura ereta, depois de manter um olhar bastante intrigante para Will.
Ok, admiti para mim mesmo, não estou gostando disso.
Senti em meu corpo inteiro que havia algo de errado, pois o olhar travesso que Peter dirigia à Will era bastante semelhante ao que Will dirigia à mim quando queria provocar. Franzi os lábios, sentindo-me bastante estúpido por sentir ciúmes de um garoto que era amigo de infância de Will. Embora eu soubesse que não se tratava apenas disso, devido à mão extremamente suada de Will na minha.
Lancei um olhar questionador ao meu garoto, mas Will evitou o contato visual. A risada de Sarah fez-se ouvir, e pude ver de relance Caleb sair de fininho da sala em direção ao próprio quarto, o caderno em mãos.
— Que mundo pequeno! — exclamou Nancy, sentando-se no sofá, quase ao mesmo tempo em que Sarah abriu a boca.
— Estavam sempre brigando, você lembra? — perguntou Sarah para Nancy, fazendo com que a segunda risse.
— Eu lembro — disse Peter, relanceando o celular que vibrava. — A partir de algum momento, Will queria me matar só de eu aparecer por aqui — falou, tirando os olhos do aparelho e os erguendo para Will, com humor.
— Peter trapaceava em todos os jogos! — disse Will, sem poder conter-se, em um tom de voz indignado. Peter gargalhou.
— E de que outra forma eu ganharia, se não fosse trapaceando? Você era o inteligente, eu não tinha escolha — disse com graciosidade, erguendo as mãos em defensiva.
— E você furou a minha bola de futebol — acrescentou Will, fuzilando o garoto com o olhar.
— Ah — respondeu Peter, pela primeira vez sem graça, coçando a cabeça. — Para isso eu não tenho desculpa, mas eu trouxe outra para você — falou, sorrindo. — Eu era um pouco travesso, eu sei — completou, com um toque de culpa. — Mas eu não tenho culpa se sempre preferia música a esportes. Odiava futebol.
— Peter toca violão, Will — contou Sarah, sorrindo.
— Eu sei — resmungou ele, desviando o olhar.
Peter manteve o olhar jovial em Will, encantado demais para meu gosto, o que fez com que eu arqueasse uma das sobrancelhas. Desviou os olhos para os meus, provavelmente ao lembrar-se de minha presença e pigarreou, nervoso, em seguida. Pude ver, pela segunda vez, que o garoto ficara sem jeito, provavelmente devido ao meu olhar nada amigável em sua direção.
Bom, resmunguei mentalmente, apertando a mão de Will.
— Venham, vamos para a cozinha que vou preparar o café da tarde! — disse Sarah, indicando a cozinha para todos. — Sua mãe mencionou que você viria, Peter, mas fico surpresa que você tenha aparecido mesmo assim — falou ela, encarando Peter que a seguia lado a lado. — Achei que fosse história para boi dormir.
Will deu alguns passos em direção à cozinha e parou assim que os outros já estavam lá, virando-se de frente para mim com um sorriso amarelo.
— Sinto muito — murmurou, e pela maneira que remexia no próprio pijama, pude perceber a dimensão de seu nervosismo. Estreitei os olhos. Por que ele sentia muito? — Podemos conversar mais tarde, se quiser — sussurrou, os olhos piedosos. Oh.
Suspirei ao perceber que havia esquecido de nossa conversa, focando apenas nos olhos escuros do garoto despojado, no cômodo ao lado. Por mais que a sensação de pendência me corroesse por dentro, já nem conseguia manter a cabeça focada no meu assunto.
Quem diabos era esse garoto todo sonoro e de onde havia surgido?
— Como eu conheci Will nesses dias — dizia Peter, na cozinha, enfatizando as últimas palavras —, durante a preparação da festa dos calouros, imaginei que fosse bom vir com minha mãe e dar um oi — completou, e pude ouvir o som de cadeiras sendo empurradas.
Arqueei as sobrancelhas ao perceber que Will também ouvia e alargava ainda mais os olhos verdes. Pude observá-lo engolir em seco.
— Devo perguntar a respeito do Sorrisos ali? — murmurei, indicando a cozinha com o olhar.
Will escondeu os lábios, piscando mais vezes que o normal, antes de balançar a cabeça negativamente. Suspirei, mas assenti, com relutância.
— Está bem — murmurei, relanceando a cozinha com pesar. — Vamos — falei, estendendo a mão para que ele a pegasse.
Sorri ao ver que Will fazia o mesmo, juntando nossas mãos e caminhando para a cozinha. Sarah arrumava as coisas para o café da tarde e Peter a ajudava, enquanto Nancy sentava em uma das cadeiras na mesa.
— Sentem, vocês — falava Sarah, toda preocupada, ao indicar a mesa.
— Sarah me contou que você leciona do curso de Administração, Richard — começou Nancy, inclinando-se em nossa direção ligeiramente, quando sentamos na mesa. — Eu dou aulas em colégios, mas sempre tive curiosidade de como é dar aulas para jovens feitos.
— É tão estressante quanto, isso eu posso dizer — respondi com humor, obtendo risadas. — Mas eu gosto bastante, eles já têm uma ideia do que querem e são bastante engenhosos, na maior parte das vezes — falei, relanceando Will, que sorria.
As conversas se seguiram tranquilamente, com Nancy e Sarah as monopolizando. Peter também se envolvia nas conversas facilmente, com destreza e diversão. Era o tipo de pessoa que eu geralmente gostava, a não ser que encarasse meu garoto durante tempo excessivo com olhos admiradores.
Tomei mais um gole de meu café, vendo que Will enfiava uma bolacha atrás de outra na boca, e balançava a perna incessantemente.
Assim que Peter e sua mãe entraram em uma conversa paralela sobre algo de sua família, percebi que Will inclinou-se em direção de Sarah em um vulto, que sentava ao lado de si.
— Mãe, por que ele tá aqui? — sussurrou, mas o ouvi mesmo assim, já que estava perto.
Sarah juntou as sobrancelhas, confusa, enquanto desviava os olhos castanho-esverdeados do filho para mim. Balancei a cabeça, indicando que não sabia do que se tratava.
— Você não está guardando rancor de algo que aconteceu quando eram crianças, não é? — perguntou ela, também em tom de voz baixo, com a sobrancelha arqueada.
— Não — respondeu Will, duvidoso. — Só que, se você sabia que ele viria, por que não me contou?
A expressão de Sarah mudou rapidamente, e pude ver que estava desconfortável. Deu um sorriso culpado, erguendo os ombros, ao relancear o garoto moreno da mesa.
— Eu não sabia se ele realmente viria — murmurou ela, olhando-o nos olhos. — Peter é um ótimo jovem, Will, e imaginei que vocês pudessem ser amigos — disse ela, sem jeito. — Eu percebi que você não tem amigos para conversar sobre... Bom, que você não tem amigos que são... como você — sussurrou, com um sorriso vacilante.
Arqueei as sobrancelhas, percebendo as palavras por trás do que dizia: amigos não héteros, como você. Sorri imediatamente, percebendo o quanto ela tentava se redimir pela reação inicial da descoberta. E apenas depois de digerir suas palavras, percebi que eram verdadeiras. Nenhum dos amigos de Will, que eu soubesse, eram LGBTQIA+.
Eu tinha Jay para conversar, mas e o Will?
No entanto, meu sorriso murchou rapidamente ao perceber que Peter gostava do mesmo gênero, abertamente. Ou seja, o flerte não havia sido coisa da minha cabeça, e também não havia sido escondido.
Isto descartou minha teoria de que Peter talvez fosse um rapaz preconceituoso para que Will não gostasse de sua presença, e deixou apenas a mais óbvia: realmente havia acontecido algo entre os dois. Algo que eu não vou gostar nada de saber.
— Mãe! — sussurrou alto, envergonhado.
Sarah apenas abanou a mão, como se espantasse a incredulidade de Will.
— Oh, Sarah, esta torta está deliciosa! — disse Nancy, chamando nossa atenção da conversa.
— Não fui que a fiz, foi Caleb, hoje de manhã — respondeu ela, um sorriso largo. — Ele adora cozinhar, é muito talentoso para tudo! — dizia, com orgulho.
As palavras de Sarah foram como um lembrete de que eu não devia relaxar a postura por muito tempo. Engoli em seco, ao passo que memórias me atravessavam a mente, mais uma vez.
— O garoto é talentoso — dizia Marcus, quando o telefonei.— Não é difícil de imaginar o porquê de Frank estar tão encantado por ele.
Alheio à conversa que se seguia na cozinha, com a família de Will, senti meus olhos desfocarem aos poucos. Pisquei algumas vezes, encarando meu celular em cima da mesa do café da tarde, entre mim e Will.
— Se você quer mesmo saber, Rich, eu diria que não tem volta — continuava ele, dando pausas em sua fala, provavelmente para tragar o cigarro. — Se eu fosse você, desistiria agora de salvar o garoto. Se você der uma de super-herói, vai acabar se fodendo e ainda por cima, não vai ser capaz de ajudar o menino — falava, casualmente, como se o assunto fosse banal. — Não se pode salvar alguém que já tem uma corda no pescoço.
Como se estivesse mentalmente conectado à minha mente, o celular começou a vibrar em contato com a mesa. Antes de sequer pensar, puxei-o com a mão antes que Will visse, obtendo um olhar confuso dele.
Dei de ombros, forçando um sorriso.
Pedi licença aos quatro com rapidez, para que pudesse fazer uma chamada, antes de sair da cozinha e voltar para a sala. Olhei para os lados com brusquidão, como um devido delinquente, antes de voltar os olhos para a porta da cozinha.
Suspirei, aliviado, ao ver que Will não houvera me seguido.
Liguei o celular para ver que as ligações perdidas, doze delas, provinham de Rob. Franzi o cenho, levemente aliviado, mas curioso. Disquei seu número, com receio de que houvesse acontecido algo no campo de batalha, conhecido por Mallow Coast.
— Rob? — perguntei, assim que ele atendeu a ligação.
— Rich! — respondeu, agitado. — Eu sou um idiota. Eu disquei seu número várias vezes sem querer, acredita? — perguntou, praguejando ao derrubar alguma coisa.
Franzi o cenho.
— Não — respondi, simplesmente. Rob não faz nada sem querer. — O que houve, aconteceu alguma coisa? Tá tudo bem por aí?
— O quê? Claro! Claro que tá tudo bem — respondeu, embaralhando-se com as palavras. — Por que não estaria? Está tudo ótimo, tudo perfeito! Não poderia estar melhor!
— Rob, eu não tenho tempo para enrolação — respondi, já sem paciência. — Desembucha logo.
O silêncio que se seguiu durou mais tempo do que imaginei, e ouvi um suspiro pesado do outro lado da linha. Parecia pensar no que dizia, o que já era estranho, visto que nada que saía da boca de Rob era pensado.
— Nada — disse, desanimado. — Não era nada.
— Rob... — comecei, estranhando sua reação. Estranhando a ausência de gargalhadas e piadinhas sem graça, durando mais do que apenas um minuto.
Estaria meu irmão doente?
— Tenho que desligar, Rich. Depois nos falamos — avisou, com rapidez.
— Espera, Rob, eu... — comecei, mas a ligação foi desligada antes que eu terminasse de falar.
Encarei o celular como se fosse um alienígena. O que foi isso?
— Quem era?
Ergui os olhos para a figura de Will, que entrava na sala com um olhar cauteloso, como se eu fosse explodir. Não pude identificar o que passava por seu rosto. Havia posto a pantufa de sapo em algum momento, cobrindo-lhe os pés, sem que eu visse. Sustentei seu olhar por um instante, piscando algumas vezes ao dar-me conta do motivo de sua pergunta.
Will já devia ter uma ideia que o que eu iria contar-lhe tinha a ver com as ligações em meu celular.
— Rob — respondi, forçando um sorriso. — Era apenas Rob.
— Tem certeza? — perguntou, os olhos verdes expressivos.
Aproximou-se o suficiente para ficar de frente para mim, o cenho franzido em preocupação. Estava ansioso, e percebi que apesar da visita imprevista, continuava a pensar em nossa conversa. Assim como eu.
Assenti, sério, para que visse que eu falava a verdade.
— Venha, Will — murmurei, cansado —, não vamos deixar a visita nos esperando.
Beijei-lhe a testa, segurando sua mão para puxá-lo em direção à cozinha mais uma vez, de onde vinham as risadas e conversas. No entanto, Will desvencilhou sua mão da minha e colocou-se em minha frente, mais uma vez, impedindo que eu desse dois passos em direção ao cômodo contrário.
Tinha o olhar agoniado e balançava a cabeça negativamente, indicando que não iríamos voltar para a cozinha. Não agora.
— Não me importo com a visita — declarou, chateado.
Sorri, sem humor.
— A visita se importa contigo — assinalei, arqueando uma das sobrancelhas com um meio sorriso.
Will piscou mais vezes que o necessário, negando com a cabeça, os olhos tomando conta de quase todo o rosto. Estava corado, mais uma vez. Eu ficaria irritado com isto, não fosse a minha canseira de tudo que estava acontecendo.
— Não é o que você tá pensando — defendeu-se ele, nervoso e com a expressão culpada.
— Não tem problema, Will — sussurrei, praticamente, olhando-o nos olhos. Então, sorri. — Nunca pensei que eu fosse o único a me apaixonar por você.
O rosto de Will ficou ainda mais vermelho, sem jeito, fazendo com que eu relaxasse os ombros, minimamente.
— Turner...
Juntei meus lábios com os seus antes que teminasse a sentença, roubando um suspiro supreso dele. Puxei-o pelo quadril em minha direção, e deslizei a língua por seus lábios e em seguida, por sua língua também.
Will tem gosto de algodão doce, de quando eu era criança e queria muito prová-lo. O fato de querer tanto fazia com que tivesse um gosto ainda melhor.
Queria tirar sua roupa e fazer amor com ele bem ali, loucamente, da forma como o fazíamos desde que voltamos de Mallow Coast. Will provavelmente reprimia suas perguntas e eu reprimia meus segredos, e o sexo era bem mais furioso e necessitado. Precisávamos disso. Precisávamos tanto, para que assim não precisássemos falar.
Eu queria isto agora, mas sabia que não resolveria coisa alguma.
Afastei-me de si logo em seguida, encarando os olhos fechados de Will e sentindo os braços em torno de meu pescoço frouxarem. Abriu os olhos em seguida, a profundidade verde e magnífica, e eu sequer tive palavras para responder a extensão de coisas que seu olhar me dizia.
— Você pode, por favor, me contar logo o que está acontecendo? — sussurrou perto de meu rosto, engolindo em seco. — Estou com medo — acrescentou, e percebi que era esta a emoção que não havia identificado em seu rosto.
Fechei os olhos, encostando minha testa na sua.
Flashback on
— Corajoso, Richard, muito corajoso — disse ele, rindo como se fosse a piada mais engraçada do mundo. Olhei para a porta de meu apartamento, com receio que Jay aparecesse. — Enfrentando-me por telefone? Me impressiona que tenha saído vivo do Submundo.
Claro que tenho medo de Frank, como ele sugeriu, não sou idiota. Não poderia aparecer em sua frente para enfrentá-lo, perigando levar um tiro no meio de minha testa. O telefone era a solução.
Não tenho espaço para vergonha de ter medo em meu corpo. Vivendo no mundo que eu vivi, já havia aprendido que medo existe por um motivo. E que ignorá-lo é um erro tremendo.
— Você sabe que não me meto nos assuntos de Frank. Não sou suicida — dissera Marcus, com toda a razão.
Tirei a gravata do pescoço com agilidade, jogando no sofá. Não podia suportar aquilo em torno de meu pescoço, não mais. Não com todo o nódulo de terror em minha garganta.
— Quero ele fora disso — reforcei, ignorando suas palavras. — Eu pago o quanto você quiser. Eu indico quem você quiser para as entregas. Não importa. Eu só o quero fora disso, ou então eu juro por...
— Poupe-me de suas inúteis ameaças, Turner — interrompeu-me rapidamente, a voz perigosamente grave. — Elas não têm efeito sobre mim, e pior, vão acabar me deixando irritado. Você sabe o que acontece quando fico irritado, não?
— Você sabe o que acontece quando estou irritado, Preston? Corpos caem como moscas — dissera ele, para o homem musculoso ao meu lado, entre os carros das corridas.
Engoli em seco, frustrado, lembrando do que ouvira anos atrás.
Frank é um cara de cinquenta anos, mais ou menos, com roupas floridas e um dente de ouro. Era um babaca ridículo. O problema é que era um babaca poderoso. Eu não me importaria com apenas as três armas de fogo espalhadas por locais estratégicos de sua roupa. O que era intimidante eram os três caras com armas de fogo e músculos imensos ao lado de Frank.
Poder transformaria até mesmo o Mr. Bean* em alguém assustador.
— O menino faz suas próprias escolhas — continuou ao ver que eu não responderia —, e não importa quantos pauzinhos eu mexa, não tem como ele sair do meu comando vivo. Não posso trazer tamanho desgosto aos meus subordinados — declarou, sarcástico. Quase podia vê-lo com os pés em cima de uma mesa, atirado. — Ele é pobre e precisa do dinheiro que estou proporcionando à ele. E ele é ótimo no que faz. Suponho que foi por isso que você saiu ileso das mãos de Lutz, não? Nascer em um berço de ouro têm seus privilégios.
Fechei os olhos, irritado.
— Não é possível que você não queira nada de mim em troca da liberdade de Kevin — falei, sério, ao imaginar que realmente não era possível.
Kevin é apenas um garoto, afinal, e por mais talentoso que ele seja, não há talento o suficiente que o faça ser tão importante para Frank. Ele nunca vai ser mais importante do que dinheiro.
— Eu não disse isso. — Aí está!— Pode ser que eu precise de algumas recomendações, ou alguns trabalhos... Mas especialmente, eu preciso deixar meu parceiro feliz.
Franzi o cenho, confuso, relanceando a porta de casa para ver se Jay não passaria por ela em seguida. Ou qualquer outra pessoa.
— Parceiro?
— Não ouviu falar? — perguntou, divertido. — Estou trabalhando com um antigo chefe seu, Turner, em uma parceria muito boa. Lutz, lembra dele?
Gelei até a nuca ao ouvir o nome daquele filho da puta. Pela segunda vez na conversa! Podia entender, então, o motivo de Frank haver mencionado ele em primeiro lugar.
Frank e Lutz? Péssima combinação de parceria empresarial. Parceria ilegal.
Naquele momento, percebi que eu estava fodido em níveis catastróficos. Procurar por Frank já era algo semelhante ao suicídio, como Marcus havia lembrado. No entanto, com um pouco de dinheiro e cara de pau eu certamente era capaz de virar o jogo ao meu favor e conseguir meu objetivo. Frank só se importa com dinheiro.
Não havia maneira de eu adivinhar que Frank estava trabalhando com Lutz, e se eu tivesse a mais remota ideia de que isso era possível, jamais teria discado seu número. Jamais.
Senti meu coração bater tão forte que pensei que teria um infarto.
Isso não pode estar acontecendo! Não de novo!
— É raro que alguém consiga trapacear meu novo amigo, mas parece que sua namoradinha era mágica.
— Do que diabos está falando? — perguntei, nervoso.
Sabia que Hilary tinha mais segredos do que fios de cabelos em sua cabeça, mas ela não era o tipo de garota que se envolveria com Lutz. Eu era o tipo de pessoa que me envolveria com Lutz, porque era um idiota. Hilary, de burra, não tinha nada.
— Ela saiu de lá sem pagar um tostão, com uma dívida de doer meu coração cobiçoso — contou, e eu soube que falava a verdade. Engoli em seco. — Em troca de alguns boquetes, acredita? Eu é que não gostaria de haver beijado aquela boca — confessou, gargalhando. Fechei os olhos. — Por outro lado, acho que sexo é um preço baixo a se pagar pela própria vida. Ou pelas próprias mãozinhas.
Lutz gostava de cortar alguns dedos como punição por ambas as dívidas e traições internas. Ainda bem que só esbarrei nele umas duas vezes. Homem ocupado.
Lutz é o dono do cassino. Outro babaca infeliz. Sorria alegremente, em seu terno de preço inalcançável, e ninguém era capaz de desconfiar do subsolo do Black Casino e do tamanho da ilegalidade que carregava nas costas. Virou, indiretamente, meu chefe a partir do momento que joguei o primeiro dado, com o bilhete dourado em meu bolso.
Se havia alguém que conseguiria escapar ilesa do Submundo, este alguém seria Hilary. Percebi ser um idiota maior do que pensava ao me dar conta do fato apenas então.
— Enfim, Marcus ficou encarregado de pagar o que ela devia assim que ela bateu as botas — continuou ele, quando percebeu que eu não responderia. Estava se divertindo às minhas custas, é claro. Fiquei surpreso pelo nome de Marcus aparecer no meio. — Patético, não? O problema é que Marcus gerou muito tumulto ao seu redor, e muitos seguidores. É um pouco difícil de chegar perto dele ou de ameaçar cortar uma de suas mãos gananciosas.
Ah, sim, humor sinistro.
— O que diabos isto tem a ver com Marcus? — perguntei, cortando a pilha de baboseira que jogava em mim.
Não queria saber de Marcus ou de Hilary. Já era ruim o suficiente eu haver ligado para negociar com um traficante. Não queria discutir com ele a lista de coisas que não sabia a respeito das duas pessoas que costumavam ser as mais importantes de minha vida.
Jay é importante agora, e eu não vou permitir que perca seu irmão.
— O esquema é o seguinte: você paga — falou, simplesmente, como se fosse a ideia mais genial que tivera, como se houvesse lhe ocorrido por acaso. — Nada mais justo, não? Era sua namorada — acrescentou, com humor. — Pague o que ela deve, e eu sequer guardarei rancor de Marcus.
Olhei para a porta novamente, ficando nervoso.
Ah, Marcus, seu grande filho da puta!
— Não me importo com Marcus — deixei claro, esfregando minhas têmporas, sentindo minha voz falhar.
— Por que é que eu duvido disto? — perguntou ele, a voz teatralmente curiosa. — Ah, sim. — Riu. — Porque vocês eram grudados um no outro e dividiam até a namorada — disse, fazendo com que eu trincasse a mandíbula.
— Frank, seu filho da...
— E porque a grana devia vir de você, mas ele tomou posição em seu lugar — continuou, calando-me com apenas isto. Franzi o cenho. — Marcus sabia que conseguiria escapar de pagar o dinheiro de sua amada, mas que não ocorreria o mesmo com você. Salvou a sua bunda, basicamente — falou, estalando a língua. — Ah, o amor — disse, suspirando. — Duvido que não faça o mesmo por ele. Afinal, Marcus não vai ficar intocável para sempre e assim que eu puder pôr as mãos nele, eu prometo que o farei — acrescentou, com a voz mortalmente séria.
Afastei o celular do ouvido por um instante, tentando raciocinar. Tentando pensar em como diabos eu havia acabado nesta situação.
Encarei meu punho fechado em contato com meu joelho, dando-me conta, recém, de que havia sentado em meu sofá. Fechei os olhos, inspirando fundo, para que assim chegasse ar aos meus pulmões. Expirei-o rapidamente, sentindo meu corpo inteiro tremer.
— Não importa. Eu não me importo — falei, abrindo os olhos e tentando abrir as mãos. No entanto, assim que o fiz, percebi que elas tremiam, mais do que eu podia aguentar encarar. Fechei-as em punho novamente. — Estamos falando do Kevin, não do Marcus. E certamente não da Hilary.
— Ora, você pode pagar pelo menino. Por que não? — perguntou, soltando um riso triunfal. — Com a condição de que pague Lutz também.
É claro que o ultimato estava por vir. Me impressionava que eu conhecia tão bem as pessoas dessa laia. Era como se eu nunca houvesse saído de lá.
— Nem pensar — respondi, irritado, levantando-me em um salto. — Você acha que sou idiota? — perguntei, incrédulo. — Eu posso ter uma ideia da quantidade de dinheiro que Hilary devia para Lutz, que ainda está atrás disto, mesmo depois dela haver morrido. Eu não tenho nada a ver com isto, sequer sabia que ela também conhecia o...
— E você acha que eu me importo com isto por quê?
— Eu não tenho dinheiro suficiente para pagar pelos dois — respondi, incrédulo. — E não, não me importo por Marcus. Ou por Hilary, que está morta e enterrada.
— Lutz se importa.
— Não estou falando com Lutz, Frank, estou falando com você — deixei claro, já produzindo certo ódio pela menção de Lutz o tempo inteiro. Eu paguei minha dívida para com ele, e não queria ouvir seu nome mais nenhuma vez em minha vida. Nem o de Hilary. E com certeza, não o de Marcus. — Desde quando não pode fechar seus negócios sem a aprovação de Lutz? Virou sua cadela agora?
Frank gargalhou em resposta, e pude ouvi-lo tomar alguma coisa antes de suspirar.
— Turner, eu viraria uma cadela que late e lambe sem pensar duas vezes, se isto for gerar lucro para mim. Eu trabalho duro para pôr ordem nessa cidade, na minha cidade — acrescentou, com certo humor. É claro que não trabalhava porra nenhuma. Traficava drogas e medicamentos, e fazia translações de dinheiro por toda a cidade, que geralmente acabavam em seu bolso. — Estou lucrando com Lutz aqui. Se ele está feliz, eu também estou. E se eu estou feliz, todos meus subordinados também estão.
Merda, merda, merda!
Levei a mão à boca para não proclamFar todas as reclamações que faziam o caminho em direção à minha língua.
— A pergunta é: você está feliz? Está deixando os seus subordinados felizes? Marcus, Jay, o pequeno Kevin? — Então, pareceu pensar por um instante. — Deus — murmurou, extasiado —, você faria um ótimo empreendedor!
Andei de um lado ao outro, e a única coisa que me vinha à mente era o corpo desfalecido de Kevin. Porque certamente o veria, se não conseguisse tirá-lo de toda essa merda.
— Não — falei, sufocado. — Não. Você não precisa dele. Você não precisa dele, e sabe disso! Seu filho da puta!
— Eu vou parar você por aí, Richard, antes que você acabe com uma faca em sua garganta sem sequer ver de onde veio — ameaçou, sério. — Você ligou para o meu número particular que, a propósito, não faço ideia de como conseguiu. Vou chutar que tenha a ver com Marcus — falou, e ouvi o som de passos, sinal de que estava caminhando. — Você me ligou e me ameaçou, fazendo exigências, como se eu devesse porra alguma para você. Levei tudo na brincadeira, mas eu não brinco com meu dinheiro. Você me ligou. Você me procurou. Você, com a bunda banhada em herança, que sequer é capaz de aceitar que o pequeno Kevin já assinou a própria sentença de morte e se recusa a pagar por ele. Não achou que ficaria por isto, não é? — perguntou, manso como uma pantera. Riu, então. — Não sei dizer se você é arrogante ou simplesmente burro.
Engoli em seco, pensando que agora sim, suas falas se assemelhavam com as de minha memória.
— Não achei que ficaria por isto. Não pensei em desligar a ligação antes de convencê-lo a largar Kevin — contei, irritado. — Antes de negociarmos.
— Você quer negociar sem abrir mão de nada? — Estalou a língua. — Suponho que realmente seja burro, afinal. Uma pena.
— Você está pedindo mais do que eu posso dar, e mais do que você precisa — acusei, praticamente puxando meus próprios cabelos suados ao passar a mão por eles.
— Sabe o que eu preciso? — perguntou, mudando o tom de voz, como se tivesse tido uma ideia. — Eu preciso de alguém competente no ramo. Aliás, Lutz também precisa. Alguém com as bolas que você tem. Alguém arrogante e burro. Corajoso.
Minha cabeça começou a rodar ao lembrar dos sons, como se fosse ontem, do cassino que eu tanto frequentava. O encantamento, a adrenalina, o orgulho de saber enfrentar homens com o dobro de seu tamanho, o dobro do seu poder. O orgulho de conseguir fazer dinheiro com minhas próprias mãos, de forma tão simples como quedas de braços e jogos.
Então, lembrei-me de Will.
— Nem pensar.
— Não? — perguntou, sarcástico. — Bom, eu acho que seria uma ótima ideia. Você voltaria ao Golden Casino — disse, sugestivo, ao usar um dos muitos nomes do Submundo —, e voltaria à sua posição de Dragão. Faria suas apostas com o dinheiro que tem, acumularia dinheiro extra, e assim que conseguisse o suficiente para pagar a dívida de Hilary, pagaria Lutz com ele.
— Qual parte você não entendeu, caralho? Eu quero o Kevin! — esbravejei, nervoso com a menção das apostas.
— Estou te deixando nervoso? — perguntou, calmo, como se lesse minha mente. — Kevin estaria fora disto no minuto que você pisasse no território de Lutz.
— O quê? — perguntei, ainda mais nervoso por ele dizer o que eu queria ouvir. Porque isto signficava que eu teria que voltar. — Por quê? Por que mudou de ideia agora?
Não poderia aceitar isto. Nem por Kevin nem por ninguém. Não poderia voltar nem que minha vida dependesse disso. Nem que a vida de Kevin dependesse disso. Ou a felicidade de Jay.
Engoli em seco.
Não.
— Porque vai ser um ganho ainda maior do que eu pensava, Richard — disse ele, a voz mansa, provavelmente farejando meu receio. — Você faria Lutz feliz com o pagamento, e eu teria você onde eu posso alcançar. Você fez com que eu me desse conta de que eu não preciso de Kevin ou de qualquer garoto de rua, como seus amigos. Eu preciso de você, e imagino que Lutz pense o mesmo.
Não posso aceitar. Não posso voltar.
— Fechado — falei, antes que terminasse meu raciocínio.
Não soube dizer se o aceitei por minha causa ou por causa de Kevin. Já não queria saber, não importava. Eu poderia fazer isto funcionar.
Eu posso. Eu consigo. Eu sou Richard Turner, um professor universitário, um contador formado. Eu sou um empreendedor, como Frank havia dito, mas não da maneira como pensava.
Eu havia saído desta uma vez, e podia fazê-lo uma segunda.
Frank gargalhou.
— Você sabe que, por via de telefone, sua simples palavra vale o preço de um tratado de sangue, não?
— Que seja — respondi, irritado. — E eu quero Kevin vivo e inteiro — deixei claro, cuspindo as palavras.
— Jamais o faria de forma diferente — disse ele, sarcástico. — Fechado — acrescentou, e com esta simples palavra, todo meu mundo ruiu.
Estava oficialmente fodido. Mais do que isto.
Eu estava acabado.
— Você tem certeza do que está fazendo? — perguntou ele, assim que permaneci pensativo, esquecendo de desligar a chamada.
Pisquei algumas vezes, tomando a coragem que não tinha em mim.
— Sim. Vou pagar a dívida de Hilary e vir embora — falei, brusco. — Não irei ficar, não importa o quanto você e Lutz ofertem para mim, eu jamais... Do que está rindo? — perguntei, irritado, ao ouvir sua gargalhado no meio de minha fala.
— Você acha mesmo que vai conseguir largar o vício mais uma vez? — perguntou, debochado. — Conheço seu histórico, Turner. Se você quiser sair de lá, não iremos impedi-lo — deixou claro, como se fosse uma ótima pessoa. — Mas e você? Tem certeza de que não irá impedir a si mesmo?
Desliguei a ligação antes que ouvisse mais alguma coisa, ouvindo o som estático repercutir em minha mente. Sentindo a falta de ar. Sentindo o encantamento precoce da adrenalina. Do vício.
Não adiantou desligar a chamada, porque outras viriam.
Flashback off
Ainda com a testa colada em Will, beijei-lhe os lábios rapidamente.
— Eu também — sussurrei de volta, cansado. — Eu também.
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