Made of Fire

42 EXTRA - O poço das exceções


Notas iniciais
Gente do meu coração! ♥ Aqui trago um pouco de preto e branco pra vocês. ahhahah. AVISO: Gente, deu um problema com os capítulos mais uma vez. Vocês não irão conseguir visualizar o prólogo e o capítulo 1 até que arrumem, e por conta disso, a contagem de cap está errada. Mas nada grave, e nada por muito tempo. Boa leitura! *-*

Certas coisas jamais devem ser ditas.

"Estou apaixonada por você" é, certamente, uma delas. "Estou ficando louca sem te ver, sem sentir o teu cheiro, sem ouvir a tua voz. Sem sentir teu toque" entra para a lista, assim como: "quero você comigo, mesmo que o mundo exploda à nossa volta". Mas é claro, eu jamais diria coisa parecida, mesmo que queira, mesmo que as palavras se formem em minha cabeça vinte e quatro horas por dia.

Eu nunca fui de me expressar verbalmente, a não ser que seja nas roupas que crio ou que se trate de raiva. Sei expressar raiva perfeitamente bem. É fácil, desestressante e nem um pouco piegas ou sentimental.

Sempre acreditei que eu fosse um poço de desdém. Não internamente, é claro, mas para o bem das aparências. Estava enganada. Mas o problema é descobrir que eu sou ainda pior. Se é para falar besteira, eu aproveito e cometo o maior desastre de toda a humanidade.

Eu te amo — havia dito, como uma trouxa. E eu não parei por aí, como uma pessoa inteligente e sábia, não. Repeti a mesma droga mais cinco vezes, para deixar claro que não me importava com que restara de minha dignidade.

Por este motivo, me encontrava andando de um lado a outro no meu quarto, roendo as unhas e pegando o celular ao menos uma vez a cada cinco minutos. Esperava para ver se o filho da puta respondia. Alguma coisa. Qualquer coisa. Um sinal de vida, ao menos.

Nada.

Atirei a droga do celular no tapete.

Imbecil! Canalha! Babaca!

Já não sabia se xingava a mim mesma ou a Michael, que conseguia ser ainda mais lesado do que eu. E muito, muito mais covarde.

Parei de caminhar e praguejar, encarando o celular em cima do tapete, e franzi o cenho. Ao perceber minha posição no quarto, de pés descalços, pijama e mãos na cintura, girei o rosto para a porta fechada ao meu lado direito.

A sensação de déjà-vu me atingiu violentamente, recordando-me de quando eu me encontrara em uma situação e posição parecidas, segundos antes que uma figura alta aparecesse na minha porta. Meses atrás, entreaberta.

Flashback on

Joguei os cobertores no chão e parei para respirar por um segundo para que não quebrasse nada.

— Rebecca? — perguntou ele, a metade do rosto fazendo-se totalmente visível quando empurrou um pouco mais a porta do meu quarto. Michael franziu o cenho ao observar meu rosto, provavelmente vermelho pela raiva. — Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

— Nada que seja da sua conta — grunhi, irritada demais antes que meus olhos focassem no celular ao lado da cama.

Bufei, abaixando-me para juntar o celular que havia caído silenciosamente no chão enquanto eu balançava as cobertas com raiva para encontrá-lo. Liguei o aparelho e estreitei os olhos ao perceber o que eu já sabia: Taylor não havia respondido. Joguei-o na cama mais uma vez, vendo-o quicar e cair do outro lado da cama.

— Tudo bem, desculpa — respondeu Michael de forma tardia, fazendo com o clique da porta soasse quando a fechou.

Girei o rosto, encarando a madeira por um tempo antes de suspirar, relaxando os ombros.

— Michael — chamei, depois de abrir a porta e deparar-me com suas costas. Ele girou o rosto rapidamente, com as sobrancelhas arqueadas. — Me desculpe — pedi, irritada também por ter que pedir desculpas. — Eu estou tendo um péssimo dia. Você precisa de alguma coisa?

Michael encarou-me por um instante, parecendo pensativo, antes de fechar os olhos e sorrir. Balançou a cabeça.

— Seu pai não estava no escritório, então vim procurá-lo aqui em cima. Achei que talvez ele estivesse por aqui — respondeu, indicando a porta do quarto de meus pais ao dar de ombros.

— Mamãe o arrastou para o mercado contei, com humor contido. — Mas já faz um bom tempo, então eles já devem estar chegando.

— Certo — respondeu, com humor. — Tudo bem.

Assenti, meio que automaticamente, antes de sentir meus olhos desfocarem enquanto eu permanecia na mesma posição, na porta. Estava achando inacreditável que havia pego Taylor em uma mentira. Mais uma vez. Eu estava namorando o quê, um serial killer?

Só podia, porque não era possível alguém mentir tanto, mesmo quando não havia necessidade. Mentiras saíam pelos poros do cara. E eu ainda assim gostava dele. Nível um a dez de babaquice, Rebecca tirava nota onze.

— Becca? — A voz de Michael chamou minha atenção, e só então percebi que estava na minha frente com as sobrancelhas erguidas. — Você está passando por algum problema? Quer falar sobre isso?

Arqueei uma das sobrancelhas, intrigada pela atenção súbita.

— O que foi? — perguntei. — Meu pai te pediu para que sacasse informações sobre mim? Porque você pode dizer a ele que não estou usando drogas ou coisa parecida — deixei claro, lembrando de quando papai havia sugerido que estava seguindo o mesmo caminho que Rich tomou.

Michael riu, fazendo com que as linhas de sorrisos aparecessem em seu rosto e também, ao lado dos olhos castanhos. Os fios de cabelo grisalhos que já apareciam, principalmente dos lados do rosto, complementavam a figura de Michael. Era como se ele houvesse nascido para ter os cabelos grisalhos, o filho da puta. Usava um terno, mas devia ter tirado a gravata no caminho de casa, o que o deixava despojado. Era um homem muito bonito, não havia como negar.

Eu entendia perfeitamente o motivo dele conseguir ter as mulheres que quisesse. Ah, se entendia! O cara era como vinho: só melhorava com o tempo. E eu podia dizer isso de certeza, já que as primeiras lembranças que tenho dele era de quando eu era uma criança.

Como melhor amigo do meu pai, Mike conviveu com nossa família por cerca de quinze anos. Não só convive como é parte da família. Um tio bacana, um primo distante, não importa. Sempre fez parte da família, como um todo. Talvez por este motivo nunca o havia visto com outros olhos. Sabia que ele é lindo, que é charmoso e gracioso, e engraçado. Mas são informações que passam despercebidas, sem importância. Ao menos, até o momento em que ele me fez perceber o que estas informações significam. Ou melhor, o que significam para mim.

— Não, ele não pediu nada — respondeu, ainda sorrindo. Então, fez uma careta pensativa. — Bom, ele chegou a mencionar as drogas, mas não me disse para investigar. — Riu mais alto no final, quando despejei um tapa em seu braço.

— Eu não faço drogas — deixei claro, encostando-me no batente da porta, ao encarar os olhos castanhos. — Eu faço namoros — contei, olhando por cima do ombro o celular caído ao chão.

— Ah, sim — disse ele, arqueando uma das sobrancelhas. — Sua mãe comentou algo a respeito. Tristan, não?

— Taylor — respondi, revirando os olhos.

— Taylor. Nome de garota — comentou, pressionando os lábios. Estreitei os olhos para ele, fazendo com que o indício de sorriso aumentasse ainda mais. Era mesmo um menino em um corpo mais velho. — Sabe que tive uma namorada com esse nome?

— Ei! — Me permiti rir junto dele, vendo-o apoiar-se na parede ao lado da porta, balançando a cabeça.

— O que Taylor fez para deixá-la com tanta raiva? — perguntou ele, por fim, fazendo uma careta humorada.

Era bem raro, mas eu já havia estado sozinha com Michael algumas vezes, geralmente em casos assim, quando ele passava por aqui e meus pais não estavam. No entanto, as conversas fora que jogávamos eram a respeito de minha família, ou da casa, ou da empresa. Nunca sobre assuntos pessoais, meus ou dele. Ele fazia piadinhas e era simpático, e jamais se passava comigo, seja da forma que for.

Isso não impediu que eu me passasse com ele depois, pensei.

— O que foi que ele fez para não me deixar com raiva, você quer dizer — indiquei, frustrada, ao cruzar os braços.

Michael riu, balançando a cabeça.

— Não dê bola — disse ele, todo sabido. — Homens geralmente não são um poço de carinho ou diálogo, se é que você me entende. Rapazes, então, nem se fala — riu ele, os olhos em mim.

Arqueei as sobrancelhas. Tendo crescido com Sr. Sábio 1 e Sr. Sábio 2, mais conhecidos como Rich e Rob, me irritava muito ser tratada como criança ou como inconsequente. Eu sempre tinha que me esforçar o dobro por tudo, já que metade era apenas por ser mais nova.

— Você fala como se eu fosse uma adolescente e este fosse meu primeiro namorado — falei, observando as grossas sobrancelhas erguerem-se. — Você não é o único que roda a cidade, Michael. Já tive uma boa gama de namorados e já sei que os homens, além de não serem um poço de carinho e diálogo, também não são um poço de tato. Ou esperteza, no caso do meu namorado.

O idiota do Taylor mentiu que não sairia com os amigos, sabendo que boa parte dos seus amigos são meus também. Não soube raciocinar que eu saberia de uma forma ou de outra, porque Taylor também tem uma especificidade masculina que não se encontra em todos os homens, graças aos céus: seus neurônios são falhos.

A gargalhada de Michael se fez ouvir por todo o corredor, enquanto balançava a cabeça.

— Ora, me perdoe, Rebecca — disse ele, controlando o riso. Desencostou-se da parede para ficar na minha frente mais uma vez. — É que eu olho para você e me lembro de uma cena que custa sair da minha cabeça: você com seus dez anos de idade, em cima de Robert, puxando-lhe os cabelos. Aqui mesmo, neste corredor — indicou o chão, rindo.

Revirei os olhos, mas não consegui me manter séria.

Lembrava daquilo também. Rob havia conseguido com que Rich o levasse para sair com os amigos e eu, tomada de inveja, quis ir junto. É claro que Rich não quereria levar não só um, mas dois irmãos com ele. Também é claro que Rob tiraria onda da minha cara e me chamaria de "cria", como o fazia para me irritar. Nos embolamos no chão, e consegui deixá-lo de bruços, puxando sua cabeça para cima pelos cabelos loiros enquanto o xingava de todas as palavras que uma criança de dez anos conhecia. No fim, nenhum dos três saiu de casa.

Só não lembrava que Michael também havia estado ali.

— Então às vezes me custa lembrar que você já é uma mulher feita — continuou ele, sorrindo de lado.

Flashback off

Pisquei, com os lábios franzidos, ainda encarando a porta fechada de meu quarto. Girei o rosto para o celular no tapete, mas o que me chamara a atenção foi uma figura esguia na janela.

Não sei o que aconteceu primeiro: meu grito de mulher sendo esquartejada, o pulo que eu dei para trás, ou o "shh" de Mike, ao passo que corria em minha direção para tapar minha boca.

— Shhh, Becca! — dizia ele, a mão na minha boca, ao olhar para a porta antes de voltar os olhos a mim. — Rebecca! — gritou uma última vez, sussurrado, antes que eu parasse em seus braços.

Empurrei-o com força para longe.

— Você está maluco? — perguntei, controlando as batidas do meu coração. Devido à presença de Michael depois de semanas ou do susto, eu não sabia. — Você quase me deu um infarto, idiota! — xinguei, tomando o cuidado de não gritar.

Ele suspirou, chateado, antes de caminhar em direção à porta e trancá-la com agilidade. Então, virou na minha direção, apoiando as costas na porta. Segurei a vontade de correr em sua direção e agarrá-lo com força.

Até poderia, se não houvesse acontecido tanta coisa nos últimos meses.

Percebi, apenas então, que Michael usava uma calça jeans e uma camiseta social, o que não era tão usual para quem desfilava em ternos. Estava maravilhoso, como sempre. Os cabelos rentes ao rosto, a barba levemente grisalha por fazer e aqueles lábios magníficos. No entanto, estava mais magro e mais cansado. Mais abatido.

Não sei quanto tempo ficamos nos encarando, ele com o cenho e os lábios franzidos e eu com os olhos ainda alargados pelo susto e a mão que mantivera-se no meu peito.

— Você escalou a janela? — permiti-me perguntar, vendo-o fechar os olhos com chateação.

— Sim, feito um delinquente — respondeu, passando a mão no rosto.

— Porque é muito mais fácil escalar a janela da minha casa do que atender as ligações ou mandar uma simples mensagem — indiquei, tirando a mão de meu peito para cruzar os braços no mesmo.

Pude ver quando sua mandíbula cerrou com mais força, vendo o rosto atormentado tornar-se irritado.

— Eu não planejei vir aqui — deixou claro, desencostando-se da porta e dando dois passos em minha direção antes de bufar. — Mas eu não tive escolha. Nós precisamos...

— Olha só, eu também não — interrompi, irritada também. — Não tive escolha alguma a não ser esperar algo de você, já que o porteiro não me deixa mais entrar em seu prédio e já que o seu celular parece estar desabilitado para o uso.

Michael franziu os lábios, desgostoso, sem desviar o olhar do meu.

— Você sabe que ontem eu estava com seu pai? — perguntou, a voz mansa e perigosa. Arqueei as sobrancelhas. — Ele me deu o trabalho de volta, sem olhar na minha cara, é claro — acrescentou, com humor sinistro —, mas apenas depois que jurei jamais envolver-me com você novamente. E isto apenas porque ele não encontrou mais ninguém competente para o trabalho.

Abri a boca, alarmada.

— O quê? Eu não acred...

— Sabe o que mais aconteceu? Meu celular vibrou uma, duas, cinco, dez vezes — falou, furioso. — E por eu não atender ou responder as mensagens, pelo olhar que seu pai fez, eu tenho certeza que ele soube que era você.

Fechei a boca, sentindo minha cabeça doer com a raiva acumulada.

— Decidi vir aqui para deixar as coisas claras de uma vez por todas — falou, dando mais alguns passos na minha direção.

Senti meu corpo inteiro fazer menção a tremer, mas o impedi, quando soube o significado de suas palavras. Fechei os punhos, com raiva. Eu não deixaria que ele terminasse comigo. E por sua expressão, tive certeza que era exatamente isso que ele veio fazer. Depois de mais de um mês em silêncio, ele aparece apenas para romper com tudo.

— Você não pode terminar comigo — verbalizei, já nem sabendo se estava furiosa ou nervosa, ou ambos.

Percebi sua expressão vacilar por um segundo, mas então ele suspirou e passou a mão no rosto mais uma vez. Balançou a cabeça.

— Eu não posso estar com você — contradisse, erguendo o olhar para mim.

Juntei a primeira coisa que vi, pela raiva, e joguei em sua direção.

— Seu idiota! — gritei, lutando contra as lágrimas. Não iria chorar. Não iria chorar na frente dele. Não iria chorar por ele. — Canalha! Covarde, Michael, você é um covarde! — Peguei mais uma almofada de minha cama e taquei em sua direção.

Percebi seus olhos alargarem-se com meus gritos antes que ele avançasse sobre mim, segurando meus braços com força.

— Para, Rebecca! — sussurrou, nervoso. Debati-me em seus braços, tomada pelo ódio. Ódio dele. Ódio de mim. Ódio da nossa diferença de idade e ódio por minha família ser a mesma de Mike. — Becca! Para com isso, está maluca?

Parei e fuzilei-o com o olhar. Maluca?

— Não, você está maluco! — gritei, fazendo com que os olhos castanhos alargassem mais uma vez e ele girasse a cabeça para olhar para a porta trancada. Levei uma das mãos ao seu rosto e virei-o para que olhasse nos meus olhos. — Você quis isso tanto quanto eu. Você fez isso tanto quanto eu, Mike — falei, vendo-o engolir em seco. — Você me quis tanto quanto eu te quis!

Michael piscou algumas vezes, já nervoso por minha raiva. Fechou os olhos mais uma vez.

— Eu sei — murmurou, abrindo-os novamente, com aflição. — Eu sei.

Puxei o segundo braço que ele segurava e os levei para as laterais de seu corpo, puxando-o em minha direção. Mike balançou a cabeça negativamente, tentando afastar-se, mas cravei as unhas na base de suas costas, através da camisa. Sabendo que era maior que eu, Mike desviou o olhar para cima, ainda balançando a cabeça.

— Se sabe, então por que está me afastando por algo que nós dois queríamos? — murmurei de volta, tentando alcançar seu olhar. Michael balançou a cabeça mais uma vez. — Se sabe, então por que está me punindo por algo que nós dois fizemos?

— Não estou te punindo — respondeu de forma rápida, baixando o olhar para mim. As mãos, que estavam em meus ombros para afastar-me de si, encontraram meu rosto. — Becca, não estou te punindo. Eu estou te libertando. Estou tentando fazer a coisa certa. Nós dois sabíamos que isso não ia funcionar. Nós dois sabíamos que isto era um erro. Seu pai tem razão.

Desvencilhei-me de si mais uma vez.

— Meu pai não tem razão! — deixei claro, irritada. — Pare de tornar isso a respeito dele, porque não é! Eu não sou uma criança, eu não sou menor de idade, e eu sou perfeitamente capaz de tomar decisões a respeito da minha própria vida! Droga! Eu tenho quase vinte e quatros anos, caralho, e não catorze!

Michael bufou, balançando a cabeça com incredulidade.

— Eu sei disso — falou, colocando a mão no peito. — Eu sei disso. Você fala sobre não tornar isto sobre Fred, mas é sobre ele! Tudo isso que você acabou de falar, devia estar falando para seu pai e não para mim. Isto gira em torno dele, sim.

Afastou-se de mim até chegar na janela e por um instante, pensei que fosse ir embora, mas deteve-se em frente das cortinas. Suspirou uma, duas, três vezes. Então cruzou os braços, encostando-se na parede.

Mordi os lábios, piscando para afastar as lágrimas.

Meu pai foi capaz de aceitar meu irmão mais velho namorando um cara, e um aluno, dez anos mais novo que ele, na primeira chance que teve. Recebeu Will com um abraço e com um sorriso no rosto, assim que o conheceu. E mesmo depois de meses, era incapaz de aceitar minha relação com um cara mais velho. Mesmo que eu não fosse capaz de entender, eu sabia que era porque se tratava de Michael. Não era porque Mike sempre foi um galinha e um inconsequente, nem porque ele era quase vinte anos mais velho que eu.

Era porque se tratava de seu melhor amigo.

Flashback on

Não sei como foi que aconteceu, mas um pensamento malicioso simplesmente explodiu em minha mente: se custa tanto ver-me como uma mulher feita, então eu posso ajudar com isto.

É claro que, mesmo levemente chocada com o rumo de meus pensamentos, eu afastei-os assim que eles chegaram de paraquedas em minha mente. No entanto, era tarde demais. Dirigi meus olhos curiosos à Mike, observando atentamente os detalhes de seu rosto, repassando em minha cabeça todas as lembranças que tinha dele durante toda a minha vida. Olhei para ele, e o enxerguei. Pela primeira vez.

Balancei a cabeça, pensativa comigo mesma, encarando meus pés descalços.

— Bom — comecei, com a voz falha —, não tem problema. Não é como se convivêssemos tanto para que me conheça de verdade — falei, vendo-o assentir, ainda sorrindo. Então, em um impulso, acrescentei, com a sobrancelha arqueada: — A não ser que você queira.

Vi que a expressão de Michael vacilou por um instante, enquanto ele piscava muito e franzia o cenho, ainda sorrindo, talvez na dúvida do que fazer. Soube que ele tentava excluir qualquer malícia na minha voz quando respondeu:

— E... o que mais há de se saber a seu respeito, além de que se irrita com facilidade e que não gosta de ser tratada como uma criança? — perguntou, com certo humor.

Meu impulso foi de xingá-lo por dizer que me irrito fácil, sendo que sempre tenho motivos muito bons para ficar com raiva. Mas me detive, percebendo que em poucos minutos de conversa, ele apenas absorvera o que eu disse. Michael é observador. Isto é incomum, pensei.

Então dei-me por vencida, sorrindo.

— Eu sou boa com números, assim como Rob e Rich, mas não tenho nenhuma paixão por isto. Gosto de assistir jogos de vôlei. Nunca gostei de chá. Fico inquieta em dias chuvosos. E meu signo é o de Leão — falei tudo que me vinha à mente, rindo no final.

Eu tenho uma memória boa, e até podia haver acrescentado isto na lista de coisas ao meu respeito, porque haviam momentos que não esquecia jamais. Um deles foi quando o sorriso largo aparecera no rosto de Michael em seguida, o mais verdadeiro que havia dirigido a mim desde que me lembrava. Seu rosto se tornava ainda mais bonito quando sorria e por um segundo, eu não pude respirar.

Não sei por que isto veio a ocorrer, e muito menos por que ocorria logo neste ponto da minha vida. Meu pulso acelerara, e talvez tenha sido porque segundos antes eu já havia deixado de ver Michael como alguém da família. Estava vendo ele, pela primeira vez, como quem era de verdade: um homem muito bonito, bem-sucedido e com um sorriso de causar acidentes.

— Eu realmente não sabia de nenhuma destas coisas — disse ele, sorrindo. — E olha, temos mais em comum do eu pensava — acrescentou, as sobrancelhas arqueadas. Inclinou-se, talvez sem perceber, em minha direção. — Eu também não gosto de chá.

Sorri abertamente, e parti de aborrecida para encantada em questão de poucas palavras. E então, como se a magia fosse rompida, meu celular indicou o recebimento de mensagem. A mensagem que tanto esperava durante o dia todo tornou-se um incômodo.

— Ele respondeu — falei comigo mesma, olhando para trás. Mas não me movi, pensativa.

— Esqueci de dizer mais uma coisa — disse ele, fazendo com que eu o encarasse mais uma vez. — Homens não são um poço de carinho, mas isso não quer dizer que eles não o sintam. — Então, sorriu mais uma vez, indicando com a cabeça, a tela acesa do celular no chão.

Suspirei, encarando as orbes castanhas.

— Tem razão — falei, mantendo o olhar no seu. — Mas é minha vez de dar um conselho: seja, ao menos, um poço de inteligência. Porque deve saber que, depois de tantas mentiras, uma mulher — falei, arqueando uma das sobrancelhas — não vai relutar em acabar com elas. Com carinho ou sem carinho.

Ainda vendo a expressão surpresa e levemente divertida de Mike, dei-lhe as costas e tomei o celular na mão, digitando rapidamente o que queria e largando o celular na cama. Fiz a melhor cara de convencida quando ergui os olhos para ele mais uma vez, vendo que estava encostado no batente da minha porta, como eu estivera antes.

— Você terminou com ele? — perguntou, querendo disfarçar a incredulidade.

— Eu mereço mais do que um poço de mentiras — falei em contrapartida, ouvindo a gargalhada soar, desta vez, por meu quarto.

— Tudo bem, talvez o poço não tenha sido a melhor metáfora para isto — admitiu com uma careta engraçada, antes de cruzar os braços, ainda na porta.

— Não, foi a metáfora perfeita — respondi, sorrindo.

Flashback off

— Eu não vou deixar você terminar comigo — falei, mais uma vez, firme.

Pude perceber as costas dele balançarem com a risada.

— Você não vai deixar? — perguntou, virando o corpo na minha direção mais uma vez. — Becca, isto aqui não é um argumento.

— Pois devia ser — retruquei, vendo-o revirar os olhos.

— Rebecca, será que não entende a gravidade da situação? — perguntou, fechando a cara mais uma vez. — Ou você realmente é tão menina que não pode entender?

— Não me venha com essa! — gritei, sabendo que ele havia falado com o propósito de me atingir. — Não ouse me chamar de menina sendo que você é o infantil de toda a história! Tem quarenta e cinco anos, vive dormindo com qualquer uma e no momento que encontra uma pessoa decente, sai correndo como um covarde! É isto que você é: um menino covarde!

Você não pode estar falando sério — resmungou ele, passando a mão nos cabelos e desmanchando os cabelos rentes. — Uma pessoa decente? Você acha que é isto, que iríamos casar e ser felizes para sempre? — perguntou, inclinando-se em minha direção como se estivéssemos perto. Pisquei mais vezes.

Michael podia ser cruel. Não é como se eu não soubesse. E não é como se eu houvesse me importado alguma vez. Coloquei a mão no peito institivamente, como se pudesse segurar meu coração.

— Você acredita nestas porcarias sonhadoras e eu sou o infantil? — perguntou, gesticulando. Estava mesmo alterado. — Olha para você, Rebecca! Recém saiu das fraldas, recém saiu das asas dos pais e nem sequer saiu da casa deles ainda. Mas sim — emendou, quando fiz menção de abrir a boca e xingá-lo os pulmões afora —, eu sou o culpado. Eu sou o covarde. Porque eu fiz uma merda gigantesca ao me envolver com você, e agora não faço ideia de como consertar!

— Você não sabe o que consertar! — esbravejei, furiosa. — "Conserto com Becca? Conserto com Fred?". É isto, não é? — perguntei, aproximando-me alguns passos. — É por isso que tinha a língua na minha boca mesmo depois de implorar que meu pai não te expulsasse aqui de casa aquela noite! Queria estar comigo por semanas e agora decidiu que quer estar ao lado do meu pai. "Quero isto agora. Não, espera. Não quero mais!".

O silêncio que se seguiu era cortado pelo som que o ar condicionado fazia, e o barulho de pratos no andar de baixo indicando que algum dos empregados arrumava a louça.

— Você está sendo injusta — murmurou ele, por fim, ao deixar os ombros caírem.

Apesar do ar condicionado, ainda assim escorria um suor por sua têmpora. Sua camisa estava com dois botões abertos em cima, revelando um pouco dos pêlos de seu peito. Tinha a boca cerrada, fazendo uma expressão provavelmente igual a minha.

— E você, um covarde — contradisse, vendo-o balançar a cabeça. —Ficando comigo à escondidas, antes de sair e mentir para o meu pai ao invés de enfrentá-lo e dizer que quer estar comigo! Desde o princípio! — Minha voz voltava a elevar-se, sem minha permissão. Sentia o sangue correr em minhas veias pelo fim da conversa. Podia vê-lo, em minha mente, afastar-se de mim e desta vez, para sempre. — Afastando-se de mim quando percebe que não há volta, porque tem tanto medo de enfrentar seus problemas e agora isto! Vindo aqui em...

Michael descruzou os braços com rapidez, bravo.

— Eu não quero estar com você! — gritou de volta, deixando de lado os murmúrios e sussurros.

Dei um passo para trás, como se suas palavras houvessem me golpeado. Franzi o cenho, ainda mais, ao observar os olhos castanhos ao longe. Estava mentindo.

— Não parecia isso quando sua mão estava na minha bunda — falei, arqueando uma das sobrancelhas e vendo-o abalar-se por um instante. — Vindo aqui em casa — continuei o que falava, voltando à minha posição —, terminar comigo para que se sinta melhor consigo mesmo. — Vi-o desviar o olhar, bufando. — Para fingir que nada nunca aconteceu e se fingir de menino bom para meu pai. Não venha me chamar de menina! Você é o infantil!

— E você não fez o mesmo? — bradou ele. — Você não fez o mesmo? Não me procurou, dia após dia, dando em cima de mim e pulando para longe quando seu pai se aproximava? Não se fingiu de menina boa perto dele? Droga, você... — Riu diabolicamente, sem humor. — Você não tirou a roupa na minha frente o dia que transamos pela primeira vez? — perguntou, baixando a voz com audacidade. Engoli em seco. — Sabendo que tipo de pessoa eu sou? Sabendo que sou um canalha ou um galinha, como você mesmo deixou claro? Não foi você que roçou seu corpo nu em mim quando tudo começou?

Abri a boca e a fechei rapidamente. Engoli em seco, encarando a expressão sombria de Michael. Provavelmente estaria excitada até o teto caso não nos encontrássemos na situação em que estávamos. Se ele não estivesse me olhando com tanto rancor quanto me olhava.

— Nós dois fizemos isso — falei, por fim, afastando as memórias. — Mas eu estou lidando com as consequências de frente. E você?

— Eu? — perguntou, apontando para si mesmo com deboche. Ergueu os ombros. — Não sei... Eu talvez tenha perdido um emprego, um amigo e uma família. É pouco?

Senti as lágrimas voltarem mais uma vez, mas as afastei.

— Você recuperou seu emprego — indiquei, silenciosa.

— Era o único que podia recuperar — retrucou de volta, sombrio.

Passei a mão trêmula em meu pescoço, sentindo-me nauseada.

A compreensão do que realmente estava acontecendo atingiu-me com mais força do que imaginei. Eu não conseguiria. Sempre havia puxado Mike de volta à mim quando ele queria afastar-se, mas desta vez eu não conseguiria. Ele realmente veio aqui para me dar um fora.

Michael estava acabado e estava furioso. Ele iria até o fim. Ele iria terminar comigo.

— Eu não entendo por que você não tenta conversar com ele! Eu não entendo por que você não tenta explicar o que aconteceu! Pode pôr toda a culpa em mim, eu não me importo! — gritei, sentindo o desespero infiltrar-se em minhas veias.

— Não se importa... — murmurou, balançando a cabeça com incredulidade. Fechou a distância entre nós com fúria, em dois segundos. — É claro que você não se importa! É claro que não entende! Como poderia? — gritou, tentando conter a voz, mas não conseguindo. — O que você perde por estar comigo? — perguntou, então bufou e balançou a cabeça. — Você pode fazer qualquer coisa, Rebecca. Você pode virar uma assassina, se quiser, Becca, que seu pai ainda vai te amar. Você pode fazer pilhas de corpos pela cidade e ele ainda vai estar ao seu lado. Ele é seu pai. Você nunca irá perdê-lo — falou, o rosto indecifrável. — E quanto a mim?

Balancei a cabeça, observando de perto o rosto já vermelho.

— Ele não é o seu pai — declarei, nervosa.

Michael riu, sem humor, levando o punho em direção à boca e apertando contra a mesma enquanto balançava a cabeça. Voltou os olhos à mim em segundos.

— Você tem alguma ideia do que o seu pai significa para mim? Você tem ideia? — perguntou, com a voz contida mas furiosa. — Ele é meu melhor amigo. Ele é meu irmão. Ele é minha família. E eu destrocei isso por sua causa, Rebecca. — Engoli em seco, sentindo meu coração afundar em alguma parte de meu corpo. — Você tem ideia do que eu fiz? Você tem ideia? Eu atingi o ponto fraco dele, que é você, uma vez, e outra, e outra. Mesmo sabendo que era errado, mesmo sabendo que não podia. Ele tem razão em me odiar, Rebecca. Eu me odeio por isto.

Percebi, pela primeira vez, sua voz falhar. Também estava se contendo, assim como eu. Permiti que meus olhos alargassem ao recém prestar atenção nos olhos marejados, que não havia visto antes, e olhei de volta para seu corpo. Ele estava acabado. Sua aparência denunciava isto. Havia perdido muito por mim.

Mordi os lábios para não chorar.

Flashback on

Depois de poucos segundos de silêncio constrangedor, Mike pareceu incomodado pela primeira vez em nossa conversa. Pigarreou e desencostou-se da porta, apontando para trás com o dedo.

— Vou esperar seu pai lá embaixo — disse ele, sorrindo sem graça ao afastar-se dois passos, de costas.

— Pode esperar aqui se quiser — falei, fazendo ideia alguma do que eu dizia. Mas é que minha boca não era realmente conectada ao meu cérebro.

Mike piscou algumas vezes, fazendo menção de mexer na gravata ausente de seu pescoço.

— Eu acho melhor... Bom, eu acho que preciso de um café — emendou ele, dando de ombros. — Ainda não tomei nenhum hoje.

— Posso ir com você — acrescentei, gostando mais do que devia de suas reações. Acrescentei, com pena de sua sanidade: — Para que não espere sozinho.

Mike pareceu ter um pane de sistema por um instante, os olhos parados em meu rosto. Então fez uma careta engraçada, olhando para o quarto atrás de mim.

— Não precisa — murmurou, desviando o olhar para as escadas. — Eu e Finn nos damos muito bem — disse, referindo-se à um dos nossos empregados.

— Se você diz — murmurei, dando-me por vencida. Só então percebi que eu ainda tinha um sorriso no rosto.

Ele acenou prontamente e, com uma expressão um pouco perturbada, deu-me as costas com rapidez. Observei seu corpo deslocar-se de maneira majestosa, e percebi mais uma vez o que as mulheres viam em Michael.

Não havia nada ali que não fosse feito para admiração. Bom, talvez a fidelidade e o senso de compromisso, mas o resto era espetacular.

Sabia que estava me passando, mas era a primeira vez que alguém me encantava tanto. Havia algo em Michael que era familiar e digno de confiança. Apesar de saber que ele pegava todas, sabia que tinha uma chance de que, comigo, ele jamais viesse a falhar. Justamente por ser quem eu sou. Pensei, por um instante, que talvez eu fosse a pessoa certa para Mike. E ele, com toda a jovialidade que não se encontra em todos os homens mais velhos, perfeito para mim.

Pela primeira vez, algo realmente me atingia diretamente no estômago, que teimava em coçar. Ou seria no coração?

O único que lamentei, naqueles minutos, era não haver percebido isto antes. O único que lamentei era sempre haver olhado para Michael com os mesmos olhos que tinha quando criança, quando ele me pegava nos braços e ria do meu jeito traquineiro de ser.

— Ah, Becca — disse ele, virando-se antes de chegar nas escadas. Foquei os olhos em seu rosto, que continha um sorriso. — Você é jovem, Rebecca, então não se preocupa com o poço de desdém dos rapazes — falou, arqueando uma das sobrancelhas ao falar em poços novamente. — Você não precisa namorar sério agora. Tem que aproveitar enquanto pode antes de se estabilizar com alguém para a vida toda.

Vi que houvera tido o tato de tratar-me como a adulta que era. Talvez até com esforço, já que aprendera que eu não gostava do contrário. Sorri.

— Como você, não? — alfinetei, vendo-o fazer uma careta, como se soubesse o que eu diria. Então, arqueei as sobrancelhas. — Ah, espera, você não é jovem como pensa.

Michael sorriu largo mais uma vez, coçando a barba enquanto pensava no que diria. Pareceu sem jeito por um instante, mas então deu de ombros, como desistência.

— Sempre serei jovem, Becca, e você devia ser também — disse ele, girando o corpo em direção a escada. Olhou por cima do ombro uma última vez, com um sorriso, antes de descer para o térreo como um vulto e deixar-me com um gabide no rosto: — Gosto de você assim.

Lembro de haver pensado: que os jogos comecem.

Flashback off

Ao perceber que as coisas haviam chegado à um ponto crítico e que eu não iria atirar-me em seus pés para que ficasse comigo, por conta do orgulho que ainda pensava possuir, afastei-me um pouco de si.

Pigarreei, controlando as batidas de meu coração.

— Se você quer terminar comigo, então vai ter que fazer mais do que falar sobre meu pai — falei, vendo-o focar os olhos em mim. — Vai ter que me dizer que quer terminar comigo, a despeito dele.

— Eu quero terminar com você — disse ele, prontamente, em uma áurea lúgubre.

Senti como se houvesse praticamente engolido minhas próximas palavras. Respirei fundo mais uma vez, sabendo que o que mais havia em sua voz era rancor e não genuinidade.

— Vai ter que me dizer que me quer longe de você — continuei, piscando algumas vezes.

— Eu te quero longe de mim — respondeu mais uma vez, com desafio em seu olhar.

Senti meu lábio inferior tremer e o mordi com força para que Mike não percebesse. Havia sido tarde demais, no entanto, porque vi os olhos baixarem para minha boca enquanto sua mandíbula cerrava mais uma vez.

— Vai ter que me dizer que não sente nada por mim. — Michael fechou os olhos. — Vai ter que dizer que ouvir que eu te amo tenha sido o pior que aconteceu na sua vida, porque você sabia que não sente o mesmo por mim. Vai ter que dizer que envolver-se comigo foi o pior erro e que daria qualquer coisa para voltar atrás.

Inspirei fundo, ouvindo que minha voz falhava mais do que a minha dignidade permitiria. Dei dois passos em sua direção, procurando pelos olhos castanhos que tanto amo. Aqueles olhos castanhos cheios de palavras não ditas e sentimentos contidos, mesmo ruins. Aqueles olhos castanhos que sorriam por conta própria. Aqueles olhos castanhos que tanto me admiravam enquanto eu o tomava em meus braços.

— Vai ter que dizer que quer me ver seguindo em frente, com outro alguém — falei, vendo os olhos marejados abrirem. — E que me quer nos braços de outra pessoa, aqui mesmo, neste quarto. — Apontei para a minha cama. — Nesta cama.

— Becca... — murmurou ele, agoniado.

Levou uma mão ao meu corpo e grudou-me nele em um segundo, enquanto a outra mão segurava meu rosto. Balançava a cabeça negativamente, encarando meus lábios.

Não vou beijá-lo, pensei. Não vou beijá-lo se ele não vai me beijar.

— Me fala — pedi mais uma vez, apertando sua camisa contra meus dedos.

— Becca, não faz isso — murmurou, o hálito de menta em meu rosto. — Eu sou um canalha, eu sou um egoísta e sou um covarde — murmurou, roçando o nariz contra o meu. Seus dedos enroscaram-se em meus cabelos. — Mas eu estou fazendo isso por você também. Você não vê? — sussurrou, fazendo meus olhos marejarem. — Becca, você não vê?

— Me diz — murmurei de volta, apertando as laterais de seus quadris.

— Eu não posso — sussurrou, contra meu rosto. — Becca, eu não posso — murmurou, com a testa na minha, continuando a negar com a cabeça.

— Seja um poço de coragem — sussurrei, e em dois segundos tinha seus lábios grudados nos meus.

Quase perdi o fôlego e quase que meus pulmões perdem a função desempenhada quando senti seu gosto misturado ao meu. Agarrei seu corpo alto com força contra mim, enquanto deslizava meus lábios sobre os seus com fúria.

Michael era indecifrável. Sempre foi. Está apaixonado por mim? Sequer se importa? Me ama? Me quer? Está tentando terminar comigo para fazer a coisa certa ou para salvar o próprio traseiro?

Eu jamais saberia.

Quando estava com ele, sentia que tudo estava em seu devido lugar. Não me senti suja ou enjoada por haver dormido com ele em boa parte dos cômodos desta casa ou de seu apartamento. Não me sentia como uma delinquente ou uma péssima filha por haver me envolvido com ele. Amava meu pai de todo o coração, mas honestamente, estava me fodendo para suas repreensões e sermões. Estava pouco me fodendo, porque estava apaixonada. E apesar de Mike ser uma incógnita boa parte do tempo, quando estava comigo e quando seus olhos brilhavam daquela forma e ele sorria largamente, a atenção fixa em mim, eu tinha certeza de que ele sentia o mesmo.

O problema é que quando eu pensava que sabia algo, ele vinha e contradizia tudo. Ele falava uma coisa, seus olhos diziam outra, e seu corpo, outra completamente diferente. Era como se eu fosse atingida por uma tempestade. E eu ficava inquieta com a chuva.

Michael deixou um último roçar de lábios nos meus, e me permiti abrir os olhos molhados.

— Você tem razão, Becca — disse ele, roçando os dedos por meu rosto com um sorriso fraco. — Mas eu preciso agir como um adulto responsável ao menos uma vez. — Franzi o cenho quando ele se afastou. — Eu não pude resistir, você é perfeita — murmurou, sorrindo sem humor. — Rebecca, você é maravilhosa, inteligente, sagaz. Você é uma força da natureza, e tem apenas vinte e quatro anos. Eu não quero e nem vou hipotecar sua vida comigo. Eu não posso — murmurou, engolindo em seco. — Não posso — repetiu, com a voz falha. Balancei a cabeça, abrindo a boca para falar, mas ele pôs um dedo em meus lábios. Sussurrou, por fim: — Eu te amo demais para isto.

O soluço que escaparia de minha boca foi impedido quando Mike juntou nossos lábios uma última vez, de forma suave e terna. As mãos estavam em meu rosto e o acariciavam com carinho. O beijo tinha gosto de lágrimas e do amargor que eu sabia que ambos sentíamos em nosso âmago.

Afastou-se tão logo se aproximou e tudo que vi foram suas costas ao passo que se dirigia à porta de meu quarto, desta vez, abrindo-a com agilidade.

— Não — quis gritar, e não mais foi do que um sussurro. — Mike!

Caminhei até a porta, mas parei ao observá-lo descer as escadas com rapidez, da mesma forma como o fizera naquele primeiro dia. Não pude fazer nada mais além de deixar as lágrimas silenciosas escaparem de meus olhos contra a minha vontade.

Eu não chorava. Eu nunca chorava. Mesmo que o joelho ralado ardesse, mesmo que o coração encolhesse, mesmo que os olhos pinicassem com as lágrimas contidas. Eu jamais chorava. Mas eu também nunca me apaixonava.

Michael era a minha exceção.

Notas finais
1) Confesso que ficou ainda maior do que eu pensava, céus. É difícil fazer extras, pelamor AHAHAHAH. 2) Sei que ainda não respondi os comentários, mas li todinhos como uma viciada! Hahaha. Logo logo responderei, mas é que pensei que preferiam um capítulo novo do que uma resposta primeiro! :* 3) Gente, vou deixar as sinopses dos meus próximos projetos aqui, mas quero que saibam que podem ser sujeitas à modificações, ok? SINOPSE 1: Caleb recém havia completado os doze anos quando conheceu Alex. Três anos mais tarde, não podia acreditar que ainda caísse nos jogos travessos do garoto. Tinha o coração mole, repetia a si mesmo, por deixar-se cair nas ladainhas depressivas de Alex e achar estas justificáveis o suficiente para as traquinagens do garoto mais velho. Nem mesmo seus amigos seguiam a onda do maluco toda vez que ele decidia arrombar algum lugar proibido ou roubar doces de lojas de conveniência. Em meio a sorrisos genuínos e olhares desconfortáveis, Caleb não demorou a perceber que suas ações eram explicadas a partir das borboletas no estômago, que teimavam em atrapalhar seu julgamento e a quebrar, pouco a pouco, a muralha de pedra que criara em torno de seu coração. SINOPSE 2: Um homem apareceu na propriedade do visconde Marshall em estado caótico e sem memória de quem um dia fora. Após reconhecê-lo como Jack Henderson, alguém com quem cruzara em uma de suas viagens distantes, o visconde Wilfred o ajudou a encontrar sua família, que residia na mesma cidade. Tudo se complicaria com a relutância de Jack em aceitar a própria identidade, incapaz de sentir-se confortável na própria residência. Os sonhos vívidos que tinha de uma vida que não era a sua assustavam-no, mas não tanto quanto os sentimentos que desenvolvia pelo homem que o acolhera e seus profundos olhos azuis. Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! *O*