Made of Fire
38 VIII. Intuições indicam que o circo vai pegar fogo
Notas iniciais
Posso ser uma pessoa cética e teimosa, que gosta de números e fatos, mas eu acredito em intuição. Aliás, a minha intuição é ótima. Posso farejar problemas há milhas de distância, já que eles têm um cheiro característico, chamado "corra tão rápido quanto conseguir e além".
No entanto, ter uma boa intuição não quer dizer que eu a sigo com frequência. Porque se tem algo ainda mais forte e poderoso que a intuição, é a dúvida. Estou certo ou estou errado? E se for coisa da minha cabeça? Não, não pode ser o que eu acho que é...
Não importa quantas vezes você ignora a intuição que desperta na boca de seu estômago e adormece nas pernas que coçam para correr, a dúvida sempre prevalece. É idiotice, se for pensar muito a respeito, mas eu cheguei à conclusão, depois de vinte anos de vida, de que ser idiota é sinônimo de ser humano. Honestamente, não sei como demorei tanto tempo para perceber.
Se eu desse ouvido à minha intuição quando entrei em um caminho tomado de árvores, nada popular, para pegar um ônibus, nunca teria sido espancado. Se eu tivesse dado ouvido à minha intuição desde o princípio, jamais teria esperado que a notícia de minha sexualidade chegasse aos ouvidos de minha mãe por meio de outras pessoas. Se eu desse ouvido à minha intuição com frequência, não teria permanecido em silêncio durante tanto tempo, mesmo sabendo que havia algo de errado com Turner. E, por fim, se eu desse a devida atenção às minhas intuições, não teria passado uma semana ignorando o fato de ter esbarrado com o garoto da festa, sentindo na boca de meu estômago que não havia sido uma mera coincidência.
No entanto, eu não dou ouvido às minhas intuições: minhas ótimas e perfeitas intuições, minhas intuições de dar inveja aos meros humanos. Não. Porque eu também sou um mero humano, e sou um mero idiota. Não é a dúvida que é a nossa maior fraqueza, na realidade, é a esperança que surge junto dela. A esperança de que nossa intuição esteja falha.
Uma pena.
*
— Um ponto por teus pensamentos — disse Turner, um sorriso beirando sua boca perfeita.
Estávamos abraçados no depósito do prédio de Administração, local que havíamos encontrado duas semanas antes. Era ainda menor que um banheiro público mas com certeza era mais higiênico, sem falar na pouca probabilidade de sermos encontrados ali. Ficava no fim do corredor esquerdo do último andar do prédio, e apesar das vassouras e pilhas de caixas com documentos sem importância, era o local perfeito para matarmos a saudade.
Como a segunda parte de sua matéria não exigia muito esforço, ou seja, não exigia muitas perguntas, às vezes preferíamos nos agarrar no nosso novo cantinho do que tomar café em sua sala.
Digeri suas palavras e deixei o queixo cair ao perceber a piadinha de aluno e professor vinda dele. No caso, estava mais para um humor sinistro, mas ele não pareceu se importar. Ainda permanecia escorado em uma das duas estantes, com os braços em meu entorno e o semblante relaxado.
— Eu estava me perguntando o que você está pensando, na verdade — respondi, omitindo todo o devaneio de minha mente.
Pude ver seu sorriso alargar quando relanceou o relógio no pulso e a porta rapidamente, apertando-me mais contra si. Sem sequer relutar, espalmei as mãos em suas costas largas, sorrindo ao encostar toda a extensão de meu corpo no seu. Um segundo depois, eu tinha os lábios tomados pelos de Turner com brusquidão.
Se o paraíso existir e for qualquer coisa diferente disso, me recuso a permanecer lá!
Tratei, com agilidade, de apertar seu corpo de maneira possessiva contra o meu, aproveitando o contato o máximo que podia. Pude sentir a barba raspar nos resquícios da minha, as línguas deslizarem uma na outra, e o cheiro de Turner simplesmente impregnava-se em cada pedaço de mim.
Apesar de haver praticamente forçado Turner a dispensar o jantar com minha família, e aproveitado horas e horas de contato corporal, não parecia haver funcionado. Eu ainda tinha saudade de seu cheiro, de seu gosto, de seu corpo, como se não nos víssemos há cerca de dois mil anos. Era uma saudade constante, mesmo quando estávamos juntos, e me perguntei se era assim que pessoas viciadas se sentiam com relação à drogas. Se assim fosse, era melhor eu nunca provar de nenhuma, porque reabilitação certamente não funcionaria comigo quando eu sequer conseguia resistir ao meu recrutante.
— Eu estou pensando que... — começou ele, tardiamente, ao afastar seus lábios dos meus por um instante. Beijou-os outra vez. — ... que cinco minutos é tempo suficiente para ficarmos mais um pouco aqui — completou, beijando-me novamente.
Sorri largamente, concordando ao senti-lo estreitar os braços em meus quadris. Desceu os lábios molhados por meu pescoço, de forma nada delicada, e agarrei seus ombros e seus cabelos com mais força. O gemido rouco que saiu de minha garganta com o simples contato – com roupa – poderia ser descartado, não fosse a ferocidade do beijo que Turner me deu em seguida, devido a ele.
— Me diz um motivo para não tirar sua roupa aqui mesmo — resmungou, enroscando os dedos nos fios de meus cabelos, que haviam crescido mais nas férias.
Resmunguei em resposta, enfiando as mãos por debaixo de sua camisa social depois de havê-la puxado de dentro das calças. Isso apenas piorou a situação, visto que Turner empurrou-me em direção à outra estante, fazendo um baque e quase derrubando caixas em cima da gente. Como nada havia esmagado nossas cabeças, já que não nos demos o trabalho de olhar, Turner continuou a tocar toda extensão de meu corpo que conseguia, com ansiedade.
Eu também estava ansioso, mas não é como se eu tivesse tanta força em meus músculos inexistentes quanto ele. Não havia opção a não ser deixar que ele fizesse o que queria comigo. Sorri maliciosamente entre os beijos, descendo as mãos para seu traseiro feito pelos deuses.
O indicador mental de alerta vermelho já começava a piscar, porque eu sabia que se continuássemos assim, acabaríamos nus em poucos segundos. Se isso ocorresse, podia ser que, devido ao meu nível de azar, fôssemos descobertos. Não tínhamos a chave do depósito, afinal, estava sempre aberto.
No entanto, eu também não recato aos alertas vermelhos, por conta da esperança de estejam errados.
— Não tenho nenhum — respondi, lambendo seus lábios com rapidez e ouvindo-o gemer.
Sorri maliciosamente ao empurrar-me ainda mais contra si, e contra sua ereção sensível. Os olhos cinzas desceram para os nossos quadris unidos antes de voltá-los à minha boca. Eu conhecia aquela expressão de quando havia chegado ao seu limite, e soube que meus lábios sofreriam uma tentativa de roubo furiosa em seguida.
Respirei pesadamente entre os beijos molhados, mal conseguindo manter os olhos abertos, e suspirando para não gemer mais alto. Podia ver que meu professor fazia o mesmo, ainda mais quando deslizei a mão ávida para a parte frontal de sua calça fina. O fato de prever as ações apaixonadas de Turner apenas me deixou mais excitado e o fato da porta do depósito estar destrancada ampliou meu desespero por contato de pele com pele.
— Will — grunhiu ele, afastando-me com brusquidão. — Will, eu preciso desse motivo — resmungou em partes, já que eu o beijava mesmo assim. — Eu preciso do motivo — pediu mais uma vez, em um murmúrio, os olhos em minha boca.
— Lugar inapropriado, hora inapropriada — sussurrei, com todo o autocontrole do mundo, relanceando a porta.
Eu sabia o quanto ele precisava do motivo, porque estaríamos fodidos sem ele. Tentei mandar as células de meu corpo afastaram-se de si, mas não funcionou. Mantive-me agarrado em seu corpo, encarando as orbes bonitas e a respiração alheia começar a acalmar-se junto da minha.
No entanto, Turner puxou-me junto à porta, sem desgrudar-se de meu corpo. Imaginei que me forçaria a sair para que não perdêssemos o controle mais uma vez, já que era a única maneira de nos separarmos. Talvez essa fosse a ideia original, mas ao alcançarmos a porta e sua mão ir de encontro com a maçaneta, partes muito sensíveis de nossos corpos se encontraram. Ergui os olhos para seu rosto, mal podendo acreditar na excitação contínua. Os cabelos de Turner estavam bem bagunçados, muito semelhantes aos meus no dia a dia, e sua boca estava ainda mais avermelhada do que pensei.
Suas mãos, que haviam voltado à minha cintura, puxaram-me de encontro ao seu corpo, sem desgrudar os olhos dos meus. Então largou-me por um segundo, os dedos erguendo minha blusa o suficiente para poder infiltrá-los abaixo desta. Prendi a respiração, sentindo os dedos deslizarem em contato direto com minha pele pela base de minha coluna.
— Só mais cinco minutos — murmurou ele antes de grudar-se em mim novamente.
Assenti mecanicamente ao dar-me conta da ótima ideia que ele tivera.
— Mais cinco minutos — respondi sussurrado antes de tornarmos um emaranhado de braços e pernas e línguas novamente.
*
As aulas depois do almoço seguiram-se de maneira normal, exceto pelo fato de que eu preferia jogar-me do prédio do que assistir a elas. Além do semestre ser um absurdo de ruim, eu ainda tinha que aturar as aulas na parte da tarde, onde o sono impregnava-se em meu corpo de forma ampla e constante. Sem falar que os amassos com o Turner na parte da manhã, apesar de deixar-me em alerta o resto do dia, cansavam todos os músculos do meu corpo. A língua, principalmente, se é que isso é possível.
— Aonde você pensa que vai, Will?
Girei o corpo, que seguia em direção às escadas depois de uma longa tarde de aulas, para a voz de Gabe. Os cabelos escuros do mesmo estavam arrepiados e em seu rosto, estava um inchaço de cansaço parecido com o do meu. Franzi o cenho ao observar sua expressão desafiadora.
— É mesmo. Aonde vai, querido? — perguntou Laurel, tomada de sarcasmo. — Temos reunião da festa dos calouros, não lembra? Porque somos ótimos amigos e ótimos veteranos — falou, relanceando Cenoura, que falava com Jess no telefone.
— E ótimos seres humanos. — Gabe fez os movimentos com a boca, embora nenhum som tenha saído deles, para que Cenoura não o ouvisse.
Não, não, não!
Deixei a decepção infiltrar-se em meu corpo, centímetro por centímetro, até o resmungo alto sair de minha boca, atrapalhando a ligação de Cenoura e fazendo os dois outros fuzilarem-me com o olhar. Laurel virou o rosto para Cenoura com um sorriso de ponta a ponta.
— Richard cancelou os planos com Will, por isso ele está resmungando — mentiu ela, sorrindo ao ver o ruivo assentir e voltar para o telefonema.
— Tudo bem — resmunguei, aproximando-me mais dos dois. — Expliquem o que vocês sabem a respeito dessa festa desnecessária — falei, obtendo um sorriso divertido de Gabe.
— Cenoura estava comentando que o gasto é muito alto e, bom, no fundo todo mundo fica pensando o mesmo que você, Will. "Gastar tudo isso de dinheiro só para os calouros? É um absurdo!" — comentou Laurel, mudando a voz para exemplificar a fala. — Então a solução foi nos juntarmos com outros cursos para a festa. Vamos precisar de um lugar maior, é claro, mas só temos a ganhar assim — explicou, relanceando Cenoura, que caminhava em nossa direção.
Franzi o cenho, desviando o olhar entre eles.
— Então além de ter que gastar meu dinheiro com calouros, ainda vai ser com calouros desconhecidos? — perguntei, incrédulo. Bufei em seguida, automaticamente.
Que ótimo! Quando será que eu devia doar todo meu dinheiro para a caridade, hoje ou amanhã?
— Quando foi que você virou um velho rabugento? — perguntou Cenoura, arqueando uma das sobrancelhas alaranjadas com humor. — Vai ser bacana! Vai ter muito álcool — acrescentou, pensando que eu me animaria.
— Até parece que eu vou me animar só porque... — comecei, mas o ruivo me interrompeu mais uma vez.
— Muito álcool — enfatizou novamente, alargando os olhos verdes.
Abri e fechei a boca algumas vezes, antes de soltar um suspiro e deixar os ombros caírem. — Eu gosto de muito álcool — resmunguei baixinho, relanceando as caretas risonhas dos três.
— Então está resolvido — disse Gabe, passando um dos braços em torno de meus ombros. — Com quais cursos iremos nos unir?
— Contábeis, Física e Música — respondeu Cenoura, prontamente.
Franzi o cenho.
— Música? — perguntei, pensando em como diabos as artes entraram na festa. — Pensei que todos os cursos seriam da mesma área.
— Tecnicamente, é da mesma área. Eles quiseram dividir a festa com a gente. — Cenoura deu de ombros. — Não podiam bancar sozinhos e mais ninguém quis dividir.
— Will, não acho que na nossa situação estejamos em condição de recusar ajuda com o dinheiro — explicou ela, relanceando o próprio celular.
— Verdade — concordou Gabe, encarando-me de perto com os olhos azuis. Então, quando suspirei, voltou os olhos para Cenoura. — Se ficarmos aqui conversando, vai anoitecer e não vamos ter feito nada.
Cenoura, como se tivesse levado um choque, rodopiou em direção às escadas, nos chamando também. Explicou que as reuniões seriam ao ar livre mesmo, no bosque da universidade próximo ao terminal da parada, com representantes de cada curso. Como a festa seria em duas semanas, haveriam poucas reuniões antes da festa.
Assim que nos aproximamos das árvores, por meio do caminho apedrejado, senti uma gota de suor descer por minha têmpora, e eu não tinha certeza que era devido ao calor. Um calafrio subiu-me a coluna quando dei-me conta que havia sido ali que eu havia sido atacado naquela tarde chuvosa. Engoli em seco, tratando de reconhecer que Cenoura não havia se dado conta desse detalhe quando planejou o encontro.
Não entra em pânico, não entra em pânico.
No entanto, nem tive tempo de entrar em pânico, já que logo nos encontramos com cerca de dez pessoas. Não soube por que tanta gente, mas então lembrei-me que nas reuniões que eu participava, era só de bonito mesmo. Conhecia alguns deles de vista, já que cruzávamos caminhos pelos prédios da nossa área, mas nenhum por nome.
— E aí, Louis — cumprimentou um cara de pele extremamente pálida, com roupas soltas. Deu um meio abraço desajeitado no Cenoura, antes de virar para nós. — Prazer, sou o Dave — disse, estendendo-me a mão.
Mal tivemos tempo de apresentar-nos quando começou um longo debate sobre o que comprar, em qual quantidade, em qual valor e em qual data. Todos fomos apresentados com o tempo, mas não pude lembrar o nome de ninguém além da garota que me encarava cegamente, Jessie alguma coisa.
Todos entraram em um debate animado, com risadas e tudo, desviando algumas vezes para assuntos triviais. Eu e Gabe falávamos menos e observávamos mais.
O ruído de passos, devido aos gravetos e folhas secas no chão, fez com que eu me encolhesse novamente. Apesar de não estarmos exatamente onde eu havia sido cercado e golpeado, e estar cheio de gente, qualquer coisa me lembrava do momento nada bacana do semestre passado. O ruído de passos e até mesmo o som das árvores sendo balançadas pelo vento me deixavam nervoso.
— Desculpa a demora, fiquei preso com o professor Finch — disse a voz dos passos, atrás de mim, fazendo todo o nervosismo ir embora e dar lugar à frustração. Fechei os olhos em desalento.
Merda.
— Pessoal, este é o Peter — anunciou Dave, assim que o mesmo nos alcançou na rodinha.
Como estávamos sentados na grama, limitei-me a brincar com ela nos meus dedos ao invés de erguer os olhos e cumprimentar o garoto que, infelizmente, agora tinha um nome. Peter. Não estava me importando que fosse mal-educado de minha parte, apenas fingi que estava distraído.
— Will — sussurrou Gabe ao meu lado, assim que a conversa retomou. Ergui os olhos para os azuis, fuzilando-o por me tirar da atividade de arrancar grama do chão e enrolá-la nos dedos. — Me corrija se estou errado, mas esse cara não se parece muito com aquele que você ficou na festa da Ballare?
Já de mau humor, desviei os olhos pela rodinha, procurando pelos cabelos encaracolados. Encontrei-os quase em minha frente, sentado ao lado de Jessie alguma coisa, o que deixou claro o motivo dela ficar me encarando. Sabia quem eu era. Percebi que curso o garoto fazia ao enxergar a case de violão deitada ao seu lado. Usava uma regata solta de cor preta com uma caveira estampada, e tinha um cordão longo em seu pescoço, mas o pingente do mesmo ficava escondido por detrás da regata.
Fiquei estático ao perceber que os olhos castanhos encaravam-me também. Com um sorriso!
Suspirei, voltando os olhos para a sobrancelha arqueada de Gabe, que havia flagrado o sorriso também. Abri a boca para responder, mas decidi apenas dar de ombros.
Tentei prestar atenção nas palavras que saíam da boca de Dave e Cenoura, que pareciam comandar o grupo, mas não pude. Sequer consegui fingir que prestava atenção, porque sentia as drogas dos olhos do garoto cravadas em mim. Minha pele chegava a coçar com a encarada, e até levei a mão ao pescoço para esfregar e ver se passava o desconforto.
Não funcionou, é claro, porque sou um puto de um azarado!
Desisti, tratando de encontrar o olhar castanho e conseguindo no mesmo segundo. Ele ainda tinha um meio sorriso no rosto, e respondia a garota ao seu lado de forma casual, sem tirar os olhos de mim. Franzi o cenho, desafiando-o a parar, mas isso só pareceu diverti-lo ainda mais. Saco.
Ganhei a batalha mesmo assim, quando ele desviou o olhar para a tal de Jessie. A garota tinha a pele e olhos escuros, que eram visivelmente gentis, mesmo atrás dos óculos maiores que o rosto. O macacão que usava, em conjunto à sapatilha e à presilha vermelha que puxava parte de seus cabelos crespos para trás, deixavam-na com uma aparência adorável. O tipo de pessoa com o qual eu faria amizade, não fosse as encaradas nada sutis em minha direção.
Ainda de mau humor, bufei quando Gabe puxou assunto sobre as garotas que encontrava nos aplicativos de namoro. Não aguentava mais vê-lo ir em encontros com garotas que nem sequer gostava e falar a respeito como se fosse a melhor coisa do mundo. Sem falar que o fato de ter que ver Peter pelas próximas duas semanas faziam minha pele coçar de maneira nada agradável. O bosque me incomodava também, assim como o suor que fazia minha roupa grudar em meu corpo. E o único motivo em que eu me encontrava ali era esta festa idiota.
É, eu estava oficialmente irritado.
— Gabe, se você não calar a boca com relação à Francis, ou Fraye, ou Francine, ou seja quem for a menina desta vez, eu vou arrebentar a sua cara — falei, encarando as orbes azuis alargadas com surpresa.
Meu amigo olhou ao redor, mas eu não havia falado alto o suficiente para ninguém ouvir. Bufei mais uma vez, puxando a manga da camiseta que grudava em meu ombro.
— O que foi? Só você pode falar a respeito de sua vida amorosa agora? — perguntou ele, arqueando uma das sobrancelhas com ceticismo.
Revirei os olhos.
— Eu não falo da minha vida amorosa — respondi ao desviar o olhar, emburrado. Percebi que Peter tinha o cenho franzido em minha direção. — E nem você, a propósito — acusei, voltando os olhos para o incrédulo ao meu lado. — Porque sua vida amorosa se resumia à uma pessoa só — falei mais baixo, vendo sua expressão fechar. — E não falávamos a respeito. E agora que vocês brigaram, você sai com várias garotas e ainda fala sobre isso o tempo todo, mesmo quando a Laurel não está por perto.
Gabe levou a mão ao peito, claramente ofendido. E irritado.
— Você acha que eu fico falando só para a Laurel ouvir? — perguntou, incrédulo. — Eu falo porque é a única maneira de eu... — Bufou, inclinando o corpo para frente.
Quando percebi que ele não responderia, inclinei-me em sua direção também. Estava realmente curioso.
— Então você não está fazendo isso para causar ciúmes nela? — perguntei, vendo-o me fuzilar com o olhar. — Porque eu acho que estava funcionando — murmurei, dando de ombros ao observar sua reação.
Os olhos azuis alargaram-se e os ombros tensificaram, mas logo a expressão mudou ao ver a incerteza em mim.
— Não é verdade — falou, mas balancei a cabeça.
— Por que não seria? — repliquei, estreitando os olhos.
— Porque... — começou, mas percebeu onde eu queria chegar. Foi sua vez de estreitar os olhos. No entanto, relaxou os ombros e suspirou. — Porque ela não gosta de mim, Will — murmurou, os olhos presos em seus próprios calçados. — Eu sei disso porque eu perguntei quando a gente quase... — Suspirou novamente. — Eu perguntei.
Oh.
Ao perceber que o ar havia pesado — ainda mais -, levei a mão ao seu braço e apertei de leve, em conforto. Podia ver que estava falando a verdade — mesmo incompleta — e que isso havia sido pior do que eu imaginava. Ele era realmente apaixonado por ela, talvez tanto quanto eu sou por Turner. Senti o estômago revirar ao imaginar a situação oposta.
— E por que ainda estão brigados? — perguntei, confuso.
— Porque sim — resmungou ele, puxando um pedaço de grama. — Porque tivemos uma discussão naquela festa das férias e o Adam estava lá, e... Porque sim — concluiu, emburrado.
Arqueei as sobrancelhas.
— Não quero dar falsa esperança nem nada, Gabe, mas... — Fiz uma careta, relanceando a garota de cabelos vermelhos. — Nunca suspeitei que ela gostasse de ti, ou que soubesse que gosta de ti, mas isso não vale mais para agora. — Gabe fez uma careta confusa. — Porque agora eu vejo ela olhar mais vezes para você e ficar desconfortável perto de você. Honestamente, se parece muito com o que eu imagino que tenha sido eu, quando não sabia se Turner sentia o mesmo por mim.
Gabe abriu a boca, mas fomos interrompidos.
— Will? — perguntou Laurel, os olhos castanhos irônicos. Pisquei algumas vezes. — Decoração ou bebidas?
Olhei ao redor, percebendo o silêncio e os olhares em mim.
— Hum... — resmunguei, fazendo uma careta. — Bebidas? — tentei, sabendo que não fazia ideia do que eles estavam falando.
— Ótimo — respondeu ela. — Então está comigo nessa. Gabe? — perguntou, fazendo uma careta para ele.
— Bebidas também — respondeu ele com a voz falha, e percebi que estava meio atordoado pelo que eu disparara para ele.
— Posso ver isso com vocês também.
Girei o rosto com brusquidão para Peter, que tinha um sorriso simpático na direção de Laurel, e parecia quase um anjo disfarçado de gente com aqueles cachos. No entanto, assim que cruzou o olhar divertido com o meu assombrado, sabia que de anjo não tinha nada.
— Ótimo, Peter — respondeu a ruiva. — Veremos isso no fim de semana, conheço uma distribuidora que pode ser útil.
Ah, que ótimo! No fim de semana ainda! No fim de semana que passo com o Turner e que agora não poderei passar. Isso não poderia ficar melhor, pensei com ironia.
Quando olhei para o lado, percebi que Gabe me encarava com uma careta que não pude decifrar. — Will, cara — começou ele, um sorriso de canto —, estou achando que esse garoto não te superou.
Fechei a cara no mesmo instante, juntando minha mochila do chão e me levantando, já que o pessoal fazia o mesmo com o fim do debate. Passei a mão na gota de suor que escorria na minha testa e fuzilei Gabe com o olhar assim que ficamos cara a cara.
— O quê? — perguntou, rindo. — Qual é a da irritação agora? — perguntou ele, arqueando ambas as sobrancelhas.
— Dá um tempo, Gabe — resmunguei, dando as costas para caminhar em direção à parada de ônibus. — Vou embora, já está tarde!
— Ei, espera! — chamou ele, alcançando-me com rapidez. — É sério, Will. Não é de hoje que você está com esse mau humor do cão — falou ele, fazendo-me tropeçar nos próprios pés. — Todo dia isso, cara. Está sempre reclamando, sempre de mau humor. Aconteceu alguma coisa?
— Não! — gritei, irritado. Vislumbrei a menção dele falar novamente, mas o interrompi. — Fala sério, Gabe — resmunguei, desviando de uma árvore.
— Estou falando — disse ele, sério, quando chegamos no terminal.
Suspirei, encarando os olhos sinceros de meu amigo. Droga.
É claro que eu estava irritado. Estava irritado com tudo e com todos. Minha vida não estava seguindo um rumo que eu gostaria que seguisse, o semestre estava uma droga e não havia nada que eu pudesse fazer a respeito, era verão e estava quente o tempo todo, Peter agora tinha um nome e parecia me perseguir, e eu ainda tinha que lidar com a vida de merda dos meus amigos que não se resolviam nunca.
Eu estava fulo da vida. E eu sabia o porquê.
Turner e eu estávamos bem. Tudo estava normal e tranquilo e rotineiro. Nos agarrávamos o tempo todo como se estivéssemos completamente apaixonados, porque estávamos. Sorríamos e conversávamos com carinho porque nos amávamos. Estávamos bem. Tudo estava normal. E nem precisávamos fingir!
Não precisávamos fingir que tudo estava igual, porque ainda estávamos apaixonados e vislumbrados um com o outro. Não precisávamos nos esforçar para manter uma conversa, porque ela se mantinha naturalmente. Quando estava com ele, eu ficava calmo e pleno, como uma pessoa apaixonada comum.
No entanto, quando eu saía de perto, o mundo desabava porque só então eu tinha tempo para pensar na grande merda que era tudo aquilo.
Me irritava que tudo estivesse normal entre a gente, sem nem ao menos precisarmos nos esforçar, mesmo quando havia um grande problema entre nós. Me irritava, porque nada devia estar bem. Devíamos estar discutindo ou ao menos falando sobre isso. Devíamos ter que nos esforçar para manter nossa convivência de forma normal, droga!
— Will?
Pisquei algumas vezes, os olhos focando no rosto de Gabe. No entanto, a voz não pertencia à ele, percebi já que ele encarava com as sobrancelhas arqueadas às minhas costas.
Girei o corpo para trás, vislumbrando o rosto perfeito de Peter. E quando eu digo perfeito, eu quero dizer perfeito. Sem nenhuma mancha ou cicatriz ou sardas. Apenas um largo sorriso e olhos encantadores.
— Hum? — resmunguei, sem entender.
— Você deixou seu celular atirado na grama — disse ele, estendendo o celular para mim.
Como se levasse um choque, pisquei algumas vezes e deixei a boca cair em choque. Percebi que, ao estender o celular, ele devia ter apertado no botão lateral sem querer, porque a tela havia acendido. Peguei o celular com rapidez, vendo de relance a foto de fundo da tela de bloqueio, eu com minha mãe e meu irmão.
— Caramba — murmurei, dando-me conta de que eu era mesmo um bocaberta. — Eu nem vi, nossa! Obrigado — agradeci, forçando um sorriso.
Peter franziu o cenho em confusão, e percebi que os olhos haviam ficado presos na foto de bloqueio do meu celular antes de eu pegá-lo. Ergueu os olhos para mim e inclinou a cabeça, ainda sorrindo levemente.
— Sempre que precisar — respondeu ele, divertido.
Assenti, guardando o celular no bolso e relanceando um Gabe divertido ao meu lado. Reprimi a vontade de revirar os olhos, e chequei os ônibus para descobrir com melancolia que nenhum era o meu. Droga!
— Eu sabia que eu te conhecia de algum lugar — disse Peter, chamando a minha atenção, que queria muito ser desviada dele.
Eu não acredito que ele vai comentar a droga da festa, a droga do álcool ou a droga do beijo!
— Pete! — chamou sua amiga, indicando o ônibus.
— Estou indo, JJ! — gritou ele, virando-se novamente para mim. —Tenho que ir, Will. Foi um prazer revê-lo — disse ele, sorrindo de ponta a ponta ao segurar com mais força a case de violão em suas costas. — Esperarei ansioso o fim de semana. Ou antes — acrescentou, arqueando uma das sobrancelhas com diversão.
Assenti automaticamente, confuso e me sentia ainda mais perturbado com o garoto enquanto ele subia no ônibus para o centro da cidade, afastando-se.
Girei o rosto para Gabe, que também indicava o ônibus para mim, que havia chegado. Tinha um sorriso muito bem-humorado em seu rosto e balançava a cabeça negativamente.
— "Ou antes" — murmurou ele ao inclinar-se em minha direção, sugestivamente.
Senti o rosto inteiro queimar de vergonha, recém digerindo toda a informação de Peter. Agradeci aos céus que escureciam que não tenha sido visível, já isso apenas encorajaria Gabriel em suas brincadeiras sem graça.
Subi no ônibus junto de Gabe com rapidez, louco para ir embora e para dar fim em mais um dia bizarro nessa universidade. No entanto, antes de tomarmos nossos devidos lugares, Gabe disse algo que me assombrou pelo resto da noite:
— Espero que o Sr. Turner não descubra tão cedo o deslumbramento de certos músicos por você — disse ele, com humor, deixando-me estático. Então, ergueu uma das sobrancelhas com ironia, antes de acrescentar: — Senão todos iremos ver o circo pegar fogo.
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