Made of Fire

39 IX. Reza a lenda que monstros se queimam com a luz


Notas iniciais
Rich's POV Boa leitura! *-*

— Vamos, Rich — respondia Hil, duvidosa, ao apertar ainda mais as pernas grossas em torno dos meus quadris. — Você não acha mesmo que eu vou revelar todos os meus segredos, não é? — Riu graciosamente de minha expressão confusa, com os lábios nos meus, quando franzi o cenho. — Qual é a graça de um filme de terror, se as luzes estão acesas?

Sentindo uma gota de suor descer por minha têmpora, encarei o céu laranja pela varanda do apartamento. Prestava atenção no que me era dito, mas as palavras de Hilary de anos atrás, não saíam de minha cabeça. Apertei ainda mais o telefone contra meu ouvido, limpando a testa.

O que me incomodava não era apenas o passado colado na minha bunda, mas o momento em que resolveu me perseguir.

Minha vida de professor universitário, irmão mais velho, amigo rabugento e namorado apaixonado não estava perfeita, é claro, porque a vida não se trata de perfeição. No entanto, eu estava genuinamente feliz, confortável e estável. Era o melhor que eu havia conseguido em toda a minha vida. E também era, para meu completo desalento, o momento perfeito para uma onda gigante de merdas do passado vir e me afogar nela.

Você tem uma semana para aparecer aqui ou as coisas ficarão mais feias do que você pode imaginar — disse a voz grave, por meio de meu celular, antes que o som característico de encerramento de ligação soasse.

Trinquei a mandíbula, enquanto sentia cada célula do meu corpo vibrar em irritação. Mais do que isso: puro ódio.

— Porra!

Joguei o celular com força no sofá, vendo-o quicar e cair no chão com um baque. Tirei a gravata de meu pescoço com um movimento rápido e irritado, na inútil esperança de que isso trouxesse um pouco de alívio para a sensação de sufoco. Passei a mão pelos cabelos, andando de um lado para o outro dentro de meu apartamento, e podia sentir gotas de suor começarem a escorrer por minhas costas.

— Merda, merda, merda — murmurei repetidamente, tentando pensar em uma solução.

Pensar em uma solução?

— Eu já sei qual é a única solução — sussurrei para mim mesmo, lembrando do volume alto de pessoas e jogos.

Isso não pode estar acontecendo. Não de novo.

Caminhei a passos largos em direção à cozinha, abrindo uma das portas do armário e deixando cair cerca de dez potes no processo. Esbravejei novamente, mas não os juntei, pegando um copo de vidro característico para meu whisky.

Girei nos pés e voltei à sala, juntando a garrafa bonita e que havia custado metade de meu salário, e despejei o conteúdo no copo. Virei o copo de uma vez só, sentindo o líquido queimar minha garganta e ferver o sangue em minhas veias. O alívio momentâneo se fez presente com o álcool, é claro, mas também deixou-me ainda mais nervoso.

Apenas depois de beber mais de metade da garrafa, percebi que de nada funcionava. Pelo contrário. Só faltava eu transpirar pelos olhos, o que eu não duvidaria que ocorresse se eu não conseguisse acalmar as batidas de meu coração e reduzir o desespero.

São sete e meia da tarde, pensei ao relancear o relógio em meu pulso. Li, mas não consegui raciocinar o que isso significava. Sete e meia da tarde...

A dor excruciante do metal em minha barriga voltava à minha mente como se houvesse ocorrido ontem. O sangue grudando toda a extensão de minha camiseta em meu corpo, o que fazia o corte arder por conta do suor que também havia nela, fez-me estremecer.

Olhei para meu abdômen e por mais que minha consciência dissesse que isso havia ocorrido anos atrás, me senti na obrigação de abri-la e checar as cicatrizes. Assim que as visualizei, limpas, secas e fechadas, o ar finalmente chegou aos meus pulmões. Inspirei e expirei diversas vezes, deixando-me cair no sofá, usando a própria camisa para limpar o suor em minha testa.

— Rich?

Dei um pulo no lugar e apenas quando o apelido carinhoso chegou ao meu reconhecimento, deixei-me escorar no sofá mais uma vez. Inspirei e expirei mais algumas vezes, relanceando o copo vazio em minhas mãos.

— Rich! — chamou-me Jay, mais uma vez, aproximando-se de mim com os olhos castanhos alargados e o cenho franzido. — O que houve? Você está bêbado? — perguntou, incrédulo.

— Não — resmunguei, balançando a cabeça. — Você sabe que não fico bêbado tão fácil — reclamei, sentindo meu corpo pesar.

Jay fez uma careta bastante absurda antes de olhar ao redor e voltar os olhos piedosos para mim. Os dreads estavam presos no topo de sua cabeça e sua camiseta era tão larga que pensei que ele jamais se sente sufocado dentro dela.

Eu devia comprar camisetas assim, cheguei à conclusão.

— Não acho que uma garrafa inteira de whisky seja considerada como "tão fácil" — disse ele, arqueando uma das sobrancelhas, mas sem o característico humor.

— Eu não bebi uma garrafa de... — comecei, mas interrompi a mim mesmo quando enxerguei uma garrafa vazia e outra aberta em cima da mesa de vidro. — Ah.

— O que diabos está acontecendo? — inquiriu ele, colocando as mãos na cintura e me olhando de cima. Fiz uma careta. — Sim, eu sei que eu falei que não ia perguntar mais, mas isto aqui — falou, apontando para as garrafas e logo para mim — é inaceitável. Tem a ver com o cassino, não tem? Você voltou a apostar, é isto?

Forcei-me a levantar com suas perguntas agonizantes, sentindo minha cabeça doer. Não ficaria por aqui para ouvir seus questionamentos acerca dos meus problemas. Os problemas sãomeus, afinal, e Jay não tem nada ver com isso!

— Você está assim desde que voltou de Mallow Coast, eu sei que tem alguma coisa grave acontecendo. Marcus fez alguma coisa? Talvez tenha te obrigado a voltar por causa de uma estúpida vingança? — disse ele, aumentando o tom de voz.

Ele estava preocupado, dei-me conta, ignorando o nó em minha garganta.

Dei-lhe as costas, caminhando em direção ao banheiro e já tirando minha roupa com um resmungo. Como meus movimentos estavam claramente lentos, dei-me conta de que Jay estava certo. Eu estava mesmo bêbado, afinal.

— Rich, você pode me ignorar o quanto quiser, mas eu não vou desistir até você me contar o que diabos está acontecendo — deixou claro, parando na porta do banheiro e cruzando os braços.

Revirei os olhos e terminei de tirar a roupa, entrando embaixo do chuveiro depois de tropeçar. Jay continuava do mesmo jeito e eu quase podia ver fumacinhas saindo de sua cabeça. Estava bravo comigo. Por meio do vidro embaçado, pude ver quando seus ombros caíram em desistência.

— Se você está com problemas — começou, falando mais baixo e pausadamente —, eu posso te ajudar. E se eu não posso, se for alguma coisa perigosa ou fora do meu alcance, eu ainda assim posso te oferecer um suporte e um ombro amigo — completou, a voz falha com mágoa.

Suspirei, esfregando meu pescoço para ver se aliviava a tensão. Sentia que a água morna lavava minha alma, além de meu corpo.

— E eu agradeço — falei, rouco pelo álcool —, mas eu estou bem. Não se preocupe — acrescentei rapidamente, para tranquilizá-lo.

Depois de um suspiro audível de sua parte, pude ouvir os passos indicarem que estava afastando-se, pisando duro com teimosia, depois de vê-lo virar as costas. Em seguida, o barulho de panelas e o cheiro de comida inundava o apartamento pouco a pouco e minutos depois, saí do banho com lentidão.

Depois de vestido e me sentindo levemente renovado, caminhei até a sala peguei meu celular do chão onde havia caído. Havia trincado a tela, mas funcionava normalmente. Com ele em mãos, dirigi-me até a cozinha, de onde Jay me olhou por cima do ombro com chateação.

São quase dez horas, li na tela de bloqueio, onde havia uma foto de uma das pinturas de Jay. Obviamente, ele havia escolhido e estampado sua pintura sem que eu pedisse. Se eu escolhesse uma foto para a tela de bloqueio, seria uma foto do Will.

A vibração do celular e som alto de toque quase fez com que eu o derrubasse no chão, tamanha era minha perturbação com o objeto em si. Jay percebeu, focando os olhos em mim e desviando para o celular em minhas mãos, onde uma foto de Will piscava com a chamada provinda do número dele.

A foto bastante espontânea que eu havia tirado de si, na praia de minha cidade natal, revelava a figura de Will de olhos fechados e os ombros nus encolhidos pela risada divertida que dava, a covinha afundando em sua bochecha. Os fios claros de cabelos apontavam para o lado esquerdo, devido ao vento da beira do mar. O mar em si aparecia atrás do rosto sorridente, completando a foto de anjo travesso.

— Will sabe o que está acontecendo com você? — perguntou ele ao perceber que eu não atendi a chamada.

Ele não iria desistir, não hoje. Merda.

Larguei o celular na bancada antes de erguer os olhos e fuzilar Jay com meu olhar. Não devia tê-lo feito, já que o causou certo aborrecimento extra e fez com que largasse a colher de pau na panela, posicionada em cima do fogo, e devolvesse o olhar assassino.

— Ele não sabe?! — inquiriu, exasperado. — Ele não sabe?! — repetiu, fazendo com que eu fechasse os olhos pela dor de cabeça causada pela alteração no seu tom de voz. — Você não contou nem ao menos para ele?

Era curioso que Jay, sendo uma pessoa tão pacífica e tão cheio de amor para dar, conseguisse ser assustador. Mas ao sair da pose relaxada que geralmente comporta, fechando a cara e enchendo o peito, ele conseguia fazer com que eu realmente me encolhesse. Jay era ainda maior do que eu, afinal, e quando estava alterado, mais ainda. O fato de eu reconhecer que ele quase nunca fica bravo me deixava ainda mais receoso sobre o que ele era capaz de fazer, quando preocupado a este nível.

E ele estava preocupado, porque me ama. E nós protegemos quem amamos, mesmo que isso faça da gente os próprios vilões.

— Não — grunhi, juntando os potes que havia derrubado anteriormente. — Eu não contei, porque o problema é meu e eu vou resolvê-lo sozinho — enfatizei, sustentando seu olhar.

— E que problema é esse? — perguntou de volta, furioso. — Eu achei que ao menos Will soubesse, e agora que descobri que não, percebi o quão grave é a situação. Você vai me contar, Richard, ou eu juro por tudo que é mais sagrado que eu vou investigar isso sozinho e vou descobrir! — falou, fazendo com que eu fechasse os punhos. — Olha, Richard, eu já vi muitos amigos meus serem sugados nesta merda toda. E eu não posso e nem vou ver você fazer o mesmo, nem que eu tenha que resolver isto por conta própria!

Fechei a porta do armário com força, logo após terminar de jogar os portes ali. A ideia de Jay se metendo em meu passado para resolver os meus problemas fez com que eu parasse e o encarasse com frustração. Meu sangue gelou, e senti meu corpo começar a tremer.

— Você quer isso? Quer que eu vá até Mallow Coast e me meta em uma conversa acirrada com Marcus? Com o Frank, que anda cercando meu irmão como um urubu? — perguntou, furioso. — Eu nasci naquela cidade, eu cresci naqueles bairros e eu convivi com muita gente envolvida nestas paradas — falou, baixo e cruel, e o cenho franzido. — Se eu quiser descobrir alguma coisa, eu vou descobrir!

A respiração acelerada e a noção de que Jay falava sério fez com que lágrimas se acumulassem em meus olhos e minhas mãos começaram a tremer. Pude ver o momento em que sua pose relaxou e os olhos se tornaram caridosos, mas não deixei com que as lágrimas caíssem.

Me apoiei no balcão, encarando o celular que, mais uma vez, denunciava o rosto bonito de Will e o número sete em baixo, número de vezes que havia me ligado.

— Eu não voltei a apostar — declarei, erguendo os olhos para Jay. — Não voltei lá — falei, vendo sua expressão relaxar minimamente. — Mas eu preciso voltar.

Jay balançou a cabeça, o cenho franzido.

— Não, não precisa — respondeu rapidamente. Como eu neguei com a cabeça, suspirou e perguntou: — Por quê?

— Porque eu não tenho escolha — decidi responder, esperando que ele entendesse. A expressão de Jay mudou rapidamente para uma assombrada. — Marcus não tem nada a ver com isso, é outra... — Suspirei. — Eu... Eu preciso... — comecei, mas fechei os olhos.

Eu não podia contar-lhe os detalhes, não podia dar todas as informações que ele pedia. Porque se eu contasse, seria o mesmo que dividir consigo, também, a quantidade de perigo.

— E eu preciso que me diga do que se trata tudo isso! Droga, Rich — resmungou, desviando o olhar. — Eu estou tentando entender, e você não está deixando.

— Do que se trata? — perguntei, rindo sem graça. — Do que sempre se trata isso, Jay? — perguntei, vendo sua expressão mudar. — De orgulho, de negócios, de dinheiro! É sempre a respeito de dinheiro, e eu não tenho! — vociferei, nervoso.

— O quê? É claro que tem, você é um herdeiro — falou, as sobrancelhas juntas, mas eu neguei com a cabeça.

Eu não tenho — enfatizei, trincando a mandíbula.

— De quanto dinheiro estamos falando aqui, Rich? Você está devendo? Eu achei que tinha dito que tudo estava pago, até porque, foi só assim que você conseguiu largar tudo aquilo!

— Eu paguei — resmunguei, passando as mãos no cabelo. — Eu não devo nada à ninguém. O problema é que... Suspirei. — Eles me encontraram. Eles precisam... Não é só a respeito de dinheiro. — Parei, colocando as mãos nos quadris. — Mesmo que eu conseguisse com meus pais, eu teria que voltar mesmo assim. Eu vou ter que voltar — falei, olhando na imensidão castanho.

Jay cobriu o rosto com as mãos, apenas as tirando para desligar a panela que já começava a cheirar a queimado. — Merda — resmungou, jogando o pano que estava em seu ombro na pia.

— Jay, eu... — comecei, vendo-o olhar para mim. — Eu sinto minha pele vibrar — sussurrei alto, estendendo os braços para frente como se pudesse ser visível. — Como um viciado.

Jay colocou ambas as mãos grandes nos meus braços, abaixando-os com lentidão. Havia compreensão em seu olhar, mas eu também podia ver que eu deslocara minha luta interna para ele. Era o que temia, e era o que eu sabia que ocorreria se eu contasse para Will.

— Se você me contar exatamente como isso foi acontecer justo agora, se me contar o que exatamente está em jogo aqui, eu posso... — começou ele, pesaroso, mas o interrompi.

— Não pode — falei, vendo-o suspirar.

Jay assentiu, contra a própria vontade, e ficamos em silêncio por algum tempo. Em seguida, virou as costas para mim e o barulho de panelas e pratos recomeçou, já que depois de tentar me apoiar com os olhos castanhos caridosos, Jay voltou à sua culinária. O que havia deixado na panela houvera queimado, então pôs-se a recomeçar o processo.

— Jay — chamei, sem saber o porquê de havê-lo feito. Vislumbrei o perfil de seu rosto quando me olhou por cima do ombro, intrigado. — Se eu for... — Inspirei fundo, sentindo-me perturbado. — Se eu for, não sei se volto — contei, vendo compreensão em seu olhar. — E não estou falando de acabar morto.

Então, dei-lhe as costas com o coração pesado e o celular na mão. Tinha o objetivo de mandar uma mensagem para Will e deitar em minha cama, com a esperança de que o mundo continuasse intacto quando eu acordasse.

— Se você for — respondeu Jay, fazendo com que eu parasse na metade do caminho e o encarasse —, estarei aqui quando voltar. Sempre — deixou claro, enfatizando o "quando" ao invés de "se". E então, com um sorriso mínimo, acrescentou: — E eu não sou o único.

*

Preciso contar para o Will. Preciso contar para o Will.

Eu repetia milhares de vezes em minha mente durante o resto da semana, mas reforcei as palavras encorajadoras assim que pisei no quintal de sua casa. Jantar em família. Exceto que eu houvera chegado às cinco horas da tarde, já que não consegui ficar em meu apartamento silencioso por mais tempo.

Jay me rodeou como um profissional, muito mais do que um dia o fizera, nos últimos três dias. Não desgrudou de mim. Não dormiu uma única noite em seu próprio apartamento e ao invés de sair com os amigos, ficava em casa me encarando como se procurasse alguma solução. E, é claro, não havia nenhuma. Não desistiu de saber todos os detalhes da situação, mas é claro, eu não podia contar-lhe. Não queria pô-lo em uma possível situação perigosa. Pressionou-me, então, a contar ao menos para Will o que estava acontecendo. Ou melhor, o que viria a acontecer em pouco tempo.

A espera estava me deixando louco.

Precisa ser hoje.

Assim que a Sra. Jones abriu a porta, com um sorriso, percebi que era um péssimo local para conversar com Will. É claro que não havia pesado os prós e os contras, caso contrário, não estaria ali. Bom, é tarde demais para me dar conta disso. O sorriso de Sarah vacilou por um segundo, enquanto as sobrancelhas arqueavam-se em surpresa, mas voltou a sorrir largamente em seguida.

— Richard! — exclamou ela, colocando a mão no peito com surpresa. — Ora, que surpresa boa! Eu estava esperando que você chegasse apenas mais tarde.

— Perdão, Sarah — pedi, realmente arrependido por minha imprudência. — Eu só... Eu não pude esperar — falei, com honestidade. Forcei um sorriso ao vislumbrar o seu.

— Não há necessidade para desculpas — falou, rindo levemente. — Pensei que fosse minha amiga, Nancy, que ficou de vir aqui à tarde. Mas venha, entre — disse, dando espaço para que eu entrasse na cozinha.

Assim que adentramos na sala de estar, vislumbrei Caleb sentado no sofá com as pernas cruzadas. Ergueu o olhar de seu caderno rapidamente, e deu um aceno rápido em minha direção antes de voltar os olhos verdes para seu provável desenho. Sempre desenhava.

— Caleb, os modos! — Sua mãe chamou-lhe a atenção, sentindo-se constrangida por minha presença, mesmo depois de meses.

— Boa tarde, Richard — cumprimentou ele, depois de revirar os olhos, a contragosto. Em seguida, sorriu para mim ao indicar a porta do quarto de Will. — Will está em seu quarto.

Sarah fuzilara Caleb com o olhar assim que ele revirou os olhos, mas voltou a sorrir em minha direção com educação. — Pode passar ali, Richard, se quiser.

Agradeci rapidamente, vendo-a virar as costas em direção da cozinha, e voltei minha atenção para a porta desgasta pelo tempo do quarto. No entanto, mal tive tempo de dar dois passos quando a porta foi aberta, e o rosto de Will se fez presente no cômodo.

Os cabelos bagunçados me fizeram ter a reação mais estranha de querer afundá-lo em meus braços e fungar seu cheiro com vontade. Estava vestido em um pijama de Star Wars muito parecido com o que Caleb também usava, atirado no sofá, e tinha os pés descalços. Abriu um sorriso de orelha a orelha ao me enxergar.

— Turner! — exclamou, caminhando em minha direção com passos largos até envolver meu corpo com seus braços esguios. — Sabia que tinha ouvido sua voz — murmurou contra meu pescoço, deixando um beijo estalado ali.

A simplicidade de suas palavras e a calmaria de seu abraço me atingiram imediatamente, fazendo com que o nó em minha garganta aumentasse de tamanho. Eu estava sendo injusto por esconder coisas dele, mais de uma vez, e a culpa recaiu sobre mim novamente.

Will era o melhor que me havia ocorrido, e suponho que eu sempre tive esse medo aterrador de perdê-lo. Ainda mais por algo que tivesse a ver comigo ou com meu passado, por algo que fosse minha culpa.

— Sabe que sonhei com você? — perguntou contra meu pescoço.

— É mesmo? — perguntei, lutando contra a vontade de chorar, apertando seu corpo esguio. — O que você sonhou?

— Eu poderia te contar — começou ele, afastando o rosto e deixando um beijo em meu queixo —, mas então eu teria que te matar.

Sorri, puxando seu rosto com uma das mãos para juntarmos os lábios. Surpreso, Will retribuiu imediatamente, apertando as mãos em meus ombros. Subiu uma delas para minha nuca assim que abri os lábios, e juntei minha língua com a sua em um beijo lento.

Os poucos segundos que durou foram o suficiente para acalmar um pouco a tempestade dentro de mim. Encostei minha testa na sua em seguida, enxergando os preciosos olhos verdes nos meus. Parecia surpreso com o beijo. Pudera, eu quase nunca o beijava quando estávamos em sua casa, como forma de respeito à sua família. E quando o fazia, certamente durava um segundo.

Will sorriu também, mas então mudou de expressão.

— Ei, você não devia me ver nesse estado! — falou, afastando o rosto rapidamente, para olhar-me nos olhos com indignação e um pouco de vergonha. — Aliás, por que está aqui tão cedo? — perguntou com confusão, inclinando a cabeça levemente.

Sorri, passando uma das mãos nos cabelos teimosos.

— Senti sua falta — murmurei, engolindo em seco. Em seguida, arqueei as sobrancelhas com diversão. — Não devia ver você em que estado?

Will piscou algumas vezes, o rosto tomando a cor avermelhada de quando ficava sem graça. Baixou os olhos para o próprio corpo e levou uma das mãos para a parte do cabelo que eu tentara domar sem muito êxito. Will tampouco o tivera, suspirando ao erguer os olhos para mim. Sorri ainda maior.

— Assim, caseiro — falou, também contendo o próprio sorriso. — Isso acaba com qualquer relacionamento — acrescentou quando reprimi o riso, erguendo uma das sobrancelhas com sabedoria.

Relanceei ao redor, vendo que Caleb deslizava furiosamente o lápis em seu caderno, os olhos vidrados, e que Sarah já não se encontrava no cômodo. Voltei os olhos para o rosto de Will, apertando meus braços em sua cintura.

— Pelo contrário — afirmei, deixando um selinho em seus lábios. — A lembrança de você assim, caseiro, vai impedir que eu consiga me livrar de você alguma vez na vida — falei mais baixo, obtendo um revirar dos olhos verdes. — Sem falar que já te vi em estados piores — acrescentei em um sussurro, com humor, vendo-o rir sem graça.

— Idiota — murmurou, afastando-se ao tentar um soco fraco em meu braço com um sorriso.

— Bastante — respondi com carinho, pegando a mão que me atingira e e enroscando-a na minha.

No fundo, ouvi a campainha tocar, seguido dos passos da Sra. Jones, provavelmente para atendê-la. Will desviou os olhos rapidamente para a cozinha, de onde vinha a campainha, antes de voltá-los a mim, ainda brilhando.

Fiquei observando os detalhes de seu rosto, enquanto o sentia brincar com os dedos em minha mão. Em seguida, senti meu sorriso morrer aos poucos, lembrando-me do porquê estava ali. Will franziu o cenho, confuso, sem desviar o olhar do meu.

— O que foi?

Deslizei os dedos por sua bochecha, com um sorriso forçado, antes de me forçar a dizer as palavras que precisava.

— Precisamos conversar — anunciei, vendo o pequeno sorriso morrer no rosto bonito. — Preciso te contar algo. — Franziu o cenho, acercando-se ainda mais de mim ao tentar ler meu rosto. — E preciso fazer isso hoje, está bem? — perguntei, a voz falha, sentindo-me agoniado.

A compreensão que passou pelo rosto dele, em seguida, fez com que eu realmente me sentisse um babaca. Se Jay havia percebido que eu andava estranho, Will também houvera percebido. A diferença é que, por mais que Jay tentasse manter a curiosidade para si mesmo, não conseguia ficar em silêncio por muito tempo. Will conseguia.

Ainda mais se estivesse com o orgulho ferido, acrescentei mentalmente, colocando-me em seu lugar. Havia prometido que não haveriam mais segredos e não cumpri, e ele sabia disso.

A graça das luzes acesas é que assim, o filme de terror não existiria, respondi à Hilary mentalmente.

E eu precisava acender as luzes.

Notas finais
Gente, tô com um ódio no meu coração que vai demorar a sair! Hahhaa. Eu reescrevi o capítulo - já semi pronto - e deixei tudo muito lindo, só faltando o final. Só que daí a droga da página - porque não tenho word - resolveu atualizar e boom, perdi tudo! Ainda sinto que não ficou tão bom quanto antes, então fico com aquela sensação horrível. Mas enfim. Hahhahaha Ficou curtinho, porque eu cortei o capítulo. Estava muito grande e eu nem ao menos havia terminado de escrever! Como prometi, aqui está, antes do domingo acabar :* Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! *O*