Made of Fire
40 EXTRA - Como você não há ninguém
Notas iniciais
Luke é um nome bastante comum. Stewart é um dos sobrenomes ingleses mais espalhados pela Europa. Se fosse feita uma pesquisa de quantos Luke Stewart's existem no planeta, seria facilmente constatado que eu não valho um centavo. A palavra "repetição" teria ainda mais sentido.
Sou uma cópia, provavelmente mal feita, de centenas de milhares de pessoas.
— O quê? — perguntou Rob, assim que compartilhei meu devaneio consigo. Então, gargalhou de forma audível a cinco quarteirões de distância, da forma como sempre fazia.
Deixei-me rir também, certo de que eu havia extrapolado dessa vez.
— Não ri, é verdade — falei, mesmo que eu me juntasse a ele.
A melhor parte de ser um assistente administrativo não era apenas a possibilidade de subir de cargo em uma empresa como a Turner Imóveis, era a sala destinada à mim. Não era tão grande quanto à de Rob, como gerente, mas ainda assim tinha uma vista divina. Desta forma, não precisava me sentir aborrecido de estar trancado em uma sala ou de ter que empilhar papéis e fazer ligações o tempo todo.
Só que então, eu subi de cargo.
Precisei de vários dias para me acostumar com o meu escritório, semelhante ao de Rob. O vidro, espelhado do lado de fora, dava vista à uma paisagem ainda maior e mais impressionante. E o lance de escadas extras que eu devia subir para chegar ali, devido às instruções de meu treinador sobre saúde e movimento, valia totalmente a pena.
Girei na minha cadeira, entregando mais uma pilha de documentos nas mãos pálidas de Rob, que mais se divertia às minhas custas do que trabalhava, como devia.
— Olha, Robert também é um nome comum — disse ele, assim que parou de rir, com falsa seriedade. — Aliás, tudo em mim é usual também — acrescentou, mas limitei-me a fazer uma careta interrogativa. — É sério! Olha para mim — falou, apontando para o rosto com a mão desocupada. — Eu tenho o rosto mais comum de toda a humanidade. Está vendo?
Arqueei a sobrancelha, encarando com um pouco de desgosto os olhos azuis-claros, as sardas na ponta do nariz e o queixo perfeitamente enquadrado. Não, não havia nada de comum ali.
— Com certeza, Rob — ironizei, balançando a cabeça. — Com certeza você é o tipo de pessoa usual. Tudo sobre teu jeito de loiro mauricinho é bastante comum — falei, divertido. — Aliás, a bagagem vinda com seu nome também é comum? — perguntei, indicando o logo da empresa com o sobrenome de Robert em letras grandes e em negrito.
Rob encarou o logo da Turner Imóveis e sua expressão convencida murchou levemente, antes de voltar os olhos para mim e fixá-los ali por poucos segundos.
— Ah, cara! Isso foi cruel — falou com a voz engraçada, depois de desistir e rir mais uma vez.
Balancei a cabeça negativamente, sorrindo e voltando para meu computador.
— Vai logo, chefe — falei, com deboche. — Leva os documentos para o Sr. Turner antes que você seja demitido — falei, digitando no teclado. Então, parei e voltei os olhos para sua expressão divertida. — Ah, espera. É mesmo. Você não pode ser demitido — completei, desviando rapidamente do empurrão que Rob tentou dar em mim.
Pude vê-lo revirar os olhos.
— Babaca — disse ele, virando as costas em direção à porta de acesso ao seu escritório. — Se não fosse meu amigo, você já teria sido demitido! — falou mais alto, olhando por cima do ombro com jovialidade, antes de abrir a porta e passar por ela.
— Se você não tivesse nascido em berço de ouro, também teria sido demitido! — retruquei mais alto, obtendo uma gargalhada de sua parte.
Sorri, voltando ao trabalho.
Não é apenas meu nome que beira o entediante. Tudo com relação à mim é ordinariamente comum e patético. Não que eu desgoste de mim mesmo, afinal, eu sou um cara foda.
O nome Luke Stewart — e nada mais, vem acompanhado da pele bronzeada e dos olhos e cabelos entediantemente castanhos. Também vem acompanhado da minha história triste de reality show, de que cresci entre oito irmãos sustentados por escolhas ruins e de que passei por lares adotivos durante boa parte da minha infância, devido aos pais que estavam geralmente ineptos para cuidar de uma criança. Isto tudo, é claro, acabou machucando meu coraçãozinho de porcelana. Em seguida, óbvio, tem a história de como batalhei para conseguir concluir meu curso de Letras, passando em penúltimo lugar na minha faculdade depois de praticamente desistir da minha própria vida em uma quase overdose de metanfetamina.
Mesmo assim, mantive meu espírito bom e forte, estudei, fiz boas amizades, entrei nos trilhos e agora tenho uma sala própria que é maior do que a casa inteira de minha família. É uma ótima história de superação. Eu podia exercer meu canto em um desses programas de música, e chorar copiosamente sobre o quanto tive uma vida difícil e ainda assim me mantive cantando os pulmões afora.
Seria emocionante. Meu coração quase sangra!
O que eu sei é que renderia boas risadas. Comprimi os lábios, erguendo os olhos para minha sala vazia, naquele primeiro intuito de contar à Rob mais um de meus devaneios e vê-lo gargalhar igual uma hiena.
— Stewart!
Dei um pulo na cadeira, desfazendo o sorriso e encarando o rosto redondo de Pritchard. Haja paciência.
— Os papéis? — perguntou ele, com uma sobrancelha arqueada. Reprimi a vontade de enfiar os papéis que acabaram de ser impressos na bunda dele antes de entregá-los em suas mãos.
Irônico seria se as palavras pudessem viajar no ar e agredir as pessoas fisicamente, porque assim eu já teria caído para trás, com a cadeira junto.
— Aqui está — falei, com um sorriso forçado no rosto, antes de deparar-me com as costas do mesmo.
Bufei audivelmente assim que ele sumiu de vista, vendo o rosto de Rob aparecer na fresta da porta de acesso entre as salas com curiosidade.
— Falando em demissão — comecei, continuando nossa conversa anterior —, quando é que vocês irão chutar esse cara daqui?
Vi que Rob inclinou-se rapidamente para olhar pelo vidro da segunda porta de minha sala, fazendo com que a gravata fizesse um ângulo de noventa graus com sua camisa social. Então, endireitou-se e entrou completamente em minha sala mais uma vez.
— Você não quer que eu use de meu nome de família para demitir pessoas, não é mesmo? — perguntou, com certo humor, devolvendo uma outra pilha de documentos.
Estávamos fazendo o que gosto de chamar de "reciclo", nas últimas semanas. Como a empresa nasceu no início da era computativa, boa parte dos registros e declarações eram impressos e jamais foram digitalizados. Nosso papel na última semana era fazer isso, e nos livrar do que não era necessário. Era trabalho de pessoas em um nível hierárquico abaixo, mas o Sr. Turner jamais deixaria tamanha responsabilidade nas mãos de estagiários.
Rob escorou-se em minha mesa de madeira, da mesma forma como o fizera anteriormente.
— Não seria uma má ideia — falei, usando o melhor rosto de conspiração, vendo seus olhos azuis brilharem com a ideia. Ri da criança que se disfarçava de adulto na minha frente. Então, dei-me conta de que ele estava vadiando demais em uma tarde só. — Você não pensa em trabalhar, não?
Robert arremangou a camisa, soltando um resmungo audível.
— Hoje é um dia parado, você sabe — falou, olhando para o relógio. — Já está quase na hora, podemos vazar — completou, arqueando uma das sobrancelhas com sugestão. — Vai dar tempo.
Encarei as orbes claras com receio.
— Não — falei, vendo um sorriso se formar nos lábios alheios. — Nem pensar — afirmei, balançando a cabeça com negação. O sorriso de propaganda de pasta de dente, outra coisa tão comum no loiro, aumentou. — Eu não vou fazer isso de novo!
O riso divertido escapou dos lábios de Rob, fazendo com que eu também risse de forma automática, como sempre.
— Ah, vai sim! — afirmou, puxando-me pelo paletó para levantar-me da cadeira. — Vamos, Luke! Você sabe que quer — disse, rindo feito um idiota. — Não adianta negar!
— Ei! Pára, pára! — falei, tentando me proteger e segurando-me na mesa, enquanto Rob desistia do paletó e puxava as costas da cadeira de rodinhas com força. — Não! — gritei sussurrado, não conseguindo conter os risos também. — Pára, idiota! — resmunguei, tentando segurar as mãos suadas na mesa e falhando.
— Você vai ir, por bem ou por mal — dizia ele, desviando do semi-soco que dirigi ao seu peito. — E, dessa vez, iremos até o fim!
Já havia conseguido machucar dois dedos da mão e sentia o braço esquerdo pulsar pela dor de haver esbarrado no seu corpo, quando quase caímos no chão.
— Sai, imbecil! — resmunguei, ouvindo a gargalhada de Rob reverberar diretamente no meu ouvido. — Ouch! Sai, porra! — resmunguei, tentando controlar o riso, que já fazia minha barriga arder.
O som de pigarreio nos chamou atenção, fazendo com que eu escorregasse na hora de levantar e quase me esborrachasse no chão. Olhei para o lado e percebi que a postura de Rob já estava ereta, como um bom samaritano, enquanto eu tentava imitá-lo.
Focando os olhos, mais uma vez, na fonte da interrupção, percebi que os olhos escuros de nosso chefe não eram geralmente cismados daquela forma. Frederich Turner tinha no rosto uma expressão indecifrável e uma sobrancelha erguida com escárnio, bem como a áurea incrédula que pairava sobre ele.
— Colocar as salas de vocês lado a lado foi, provavelmente, o pior erro que cometi na vida — disse ele, nem mesmo um milhão de dólares pagando sua expressão intrigada.
Percebi que Rob soltou um som pelo nariz, o que deduzi como risada reprimida. Forcei meus lábios juntos. Nosso chefe levou a mão ao rosto e com os dedos, apertou a região entre os olhos, descrente.
— Não vou nem ao menos perguntar — declarou, fazendo um gesto vazio com a outra mão em nossa direção. — Vim aqui para avisar que fechamos mais cinco contratos. Preciso de vocês dois amanhã cedo para finalizar a questão da mobiliária do centro da cidade — completou, direto.
— Sim, senhor — respondeu Rob, forçando seriedade.
— Perdão, Sr. Turner — pedi, relanceando Rob. — Estaremos cedo aqui, senhor.
Dava para perceber quando ele mudava de posição de pai e "tio" emprestado para nosso chefe, assumindo a postura reta e as palavras, formais. Então, relaxou os ombros novamente, balançando a cabeça sem tirar os olhos da gente.
— Que idade vocês têm, caso eu tenha confundido? — perguntou ele, encarando-nos com descrença. — Porque eu podia jurar que ambos estão quase na casa dos trinta! Vocês... — começou, mas meio que bufou no caminho. Arqueou as sobrancelhas. — Vocês nem sequer deviam ser permitidos em uma empresa como esta! — resmungou, como um velho rabugento que eu sabia que não era. — Como duas crianças... — murmurou com um indício de sorriso, saindo da sala e fechando a porta atrás de si.
Voltei os olhos para Rob, que me encarava com um sorriso.
— Sabe o que crianças como nós fazemos? — perguntou ele, a postura relaxada, com os cabelos loiros bagunçados por nossa pequena e inútil briga. — Elas saem para a noite.
Pode ser que eu seja bem desinteressado quanto a maioria das coisas que são importantes para outras pessoas, e indiferente quanto à minha história, mas eu sou muito bom trabalhador.
Apesar de Rob geralmente atrapalhar minha linha de raciocínio e minha produtividade na empresa, eu sempre fui bastante dedicado e sempre desempenhei meu trabalho perfeitamente bem na Turner Imóveis. Não só porque eu gosto de me mostrar capaz, mas porque o emprego que consegui aqui com a ajuda e o companheirismo de Rob se tornaram muito especiais para mim.
Ninguém nunca fez nada igual o que Rob fez por mim. Sou e sempre serei eternamente grato por todas as vezes que ele me mostrou, assim como sua família acolhedora, o que significa compaixão e diversas formas do verbo "cuidar".
Apesar de todas proezas, eu e Rob somos uma ótima equipe. Não só como amigos, mas como colegas de trabalho. As brincadeiras tornavam-se parte da gerência, assim como as gargalhadas ridículas. Se havia alguém melhor que eu para este cargo, era o próprio Robert. Nada jamais o desestabilizava, e quando tinha que desempenhar sua função com profissionalismo, o fazia perfeitamente.
Completamente contra minha vontade, mas não tão completamente assim, acompanhei Rob para fora do prédio, sabendo que iríamos para o Copacabana Drink. Sentei no banco de carona, jogando minha pasta no banco de trás e podendo finalmente tirar aquela gravata ridícula.
Enquanto Rob dirigia e falava besteiras, me limitei a dividir o olhar entre o perfil dele e a janela do carro. Enquanto a paisagem tornava-se corriqueira, de uma cidade que nunca sonhei em residir, era Robert que mantinha a minha atenção.
Não havia nada remotamente comum em Rob. Bastante parecido com o irmão mais velho, tinha o perfil exageradamente simétrico. Eu entendia o porquê dele dizer que seu rosto era usual, mas não concordava. Havia algo de excêntrico na maneira como estava sempre despojado, o que contrariava os cabelos e olhos claros que denunciavam sua origem.
Rob não é o tipo de pessoa que se encontra facilmente, não com tamanha ingenuidade expressada em alegria jovial. Não com toda a bondade que parecia vazar por todos os poros de seu corpo. Não com toda a segurança de si, digna de aplausos, em junção de toda insegurança quanto a coisas bobas.
Jamais conseguiria entender o que havia de tão bom na vida para fazê-lo sustentar um sorriso no rosto mesmo ao mexer no celular, alheio ao redor. Eu tenho senso de humor, bastante, mas não sou uma pessoa bem-humorada como Rob. Não sou uma pessoa de bem com a vida. A vida é uma merda.
Podia entender por que Emma se interessou por ele em questão de segundos.
Rob jamais chegou a envolver-se com minha namorada, como muitos acabaram pensando devido à nossa discussão. Jamais a havia beijado, ou a tocado, ou sequer pego seu número de celular. E mesmo que o tivesse feito, era porque não sabia que Emma e eu estávamos juntos.
No entanto, não era isso que me incomodava. O que me fez ferver meu sangue era que Emma houvesse se interessado por ele, mesmo estando comigo. O que havia me irritado era que ela havia jurado que não havia flertado com ele, ao passo que ele me dizia a verdade. E eu a odiei por isso. Eu o odiei também.
Porque esse era o Rob, o meu melhor amigo. Não era um qualquer.
*
— Três shots de tequila para o moreno aqui!
Assim que sentamos nos bancos altos do balcão do bar, Rob pediu as bebidas, indicando-me com a cabeça. Então, virou-se para mim.
— Você vai ir até o fim. Vamos, Luke, estou pedindo! — pediu, assim que franzi o cenho.
— Aqui está — disse o bartender, empurrando os três shots em minha direção.
— Tequila para coragem, é isso? — perguntei, encarando o líquido levemente amarelado.
— Tequila para coragem — afirmou, sorrindo, pedindo para ele também.
Girei os três copos, um atrás do outro, antes de balançar a cabeça.
— Muito pouco — reclamei, encarando as orbes claras tomadas de diversão.
As gargalhadas que saíam de ambas nossas gargantas, três horas depois, foi o suficiente para que eu me desse conta de que estava pronto. Os olhares já levemente avermelhados pelo excesso de álcool também era um ótimo indício, bem como as roupas desajustadas de ir ao banheiro e não ter coordenação motora para pôr as camisas para dentro das calças.
O rosto de Rob, gringo do jeito que era, ficava roxo com os risos, contidos ou não. Os olhos azuis já haviam diminuído de tamanho, devido à canseira alcoólica, e os lábios eram constantemente molhados pela própria língua.
Levantei subitamente, obtendo um riso do loiro.
— Pouco demais — falei, percebendo que misturar whisky e tequila não era a melhor ideia que tivemos em um bom tempo.
Estendi a mão para Rob, vendo o rosto tornar-se confuso.
— O quê?
— Se vou passar por essa humilhação, você também — falei, esperando uma contradição. No entanto, Rob abriu um sorriso travesso.
— Está bem — disse, simplesmente, e pude perceber que a ideia de diversão para o loiro alcoolizado era qualquer coisa.
Eu sou um bom cantor. Não sou ótimo e nem sequer muito bom, mas me viro no assunto "música". Não que eu vá ou que eu queira seguir carreira, mas sempre foi uma das minhas coisas preferidas, ligar o som alto e cantar junto. Em casa, no carro, ou em lugares inapropriados.
Eu sou um bom cantor. Mas isso não quer dizer que eu queira dividir minha voz com o mundo.
No entanto, Rob, desde a primeira vez que me ouviu cantar, insiste que eu deveria fazer um single ou participar de um daqueles reality show's. A última ideia brilhante que teve foi de que eu devia subir no pequeno palco do Copacabana e me humilhar em forma de karaokê. E é claro que quando o fim de semana chegara e entramos no bar, eu acabei me recusando a fazê-lo. Também é óbvio que Rob continuou insistindo na ideia nos dias seguintes.
Assim que subi no palco, seguido de Rob, pude ver ele pegar o microfone com entusiasmo.
— Olá — disse, depois de testar o equipamento, chamando a atenção de poucas pessoas. — Meu amigo e eu vamos proporcionar uma ótima noite musical para todos — completou, fazendo com que eu me engasgasse no próprio riso.
Uma ótima noite musical!
Como não havia gerado muita atenção na gente, visto que o pessoal preferia beber ou fazer qualquer outra coisa além ouvir dois babacas cantarem, limitei-me a dar de ombros.
— O bom de estarmos embriagados, é que aqui, ninguém se importa — falei sussurrado para Rob, indicando um cara desmaiado no balcão.
Depois de controlarmos o riso, tratei de escolher a melhor música para um karaokê a dois (a dois bêbados): Feelin' Good.
Rob imediatamente fez uma expressão de concentrado, fechando os olhos e balançando a cabeça, e eu já não sabia dizer se o fazia para que eu risse ou estava sendo sério mesmo. Assim que comecei os primeiros versos da música, tomando um dos microfones em minha mão, percebi de relance que Rob ergueu ambos os braços em um silencioso "amém" e quase caiu no processo. No refrão, tomou o segundo microfone para si em um gesto teatral e juntou-se a mim na cantoria.
Rob, ao contrário de mim, não era um bom cantor.
Ele sabia disso. E eu sabia disso também. Não havia muito mistério sobre o porquê de eu subir em um palco se eu não sentia vontade de fazê-lo, afinal de contas. Eu o fazia por Rob.
Mais rindo do que cantando e obtendo algumas atenções e aplausos voltados para nós, me permiti a abrir um largo sorriso por meus espectadores. Era bom ser aplaudido de vez em quando. Mas ao olhar para a dancinha que Rob fazia ao cantar terrivelmente Hound Dog, percebi que os poucos aplausos eram para o loiro.
— Tutti Frutti — respondi para Rob, obtendo uma gargalhada de sua parte.
— Você nasceu na época errada, cara — disse ele, balançando a cabeça e juntando a garrafa de vodka que havia ficado no chão do palco. — Não tem alguma música jovem? — Arqueou uma das sobrancelhas antes de levar a garrafa à boca.
— Eu sou mais novo que você — lembrei a ele, que fez uma careta engraçada ao pensar a respeito, por mais tempo que devia, antes de assentir.
— Verdade, mas nem mesmo meu pai ainda escuta essas músicas — reclamou ele, incrédulo.
— Tutti Frutti — teimei, tomando a garrafa de suas mãos. — Música das boas.
— Ei! Se não vão cantar, desçam daí! — gritou o bartender, talvez preocupado que caíssemos em cima do equipamento.
Revirei os olhos e quando os foquei em Rob, vi que ele foi igual um vulto escolher a música e colocá-la para tocar. Ri, tomando-o pelo braço e o forçando a dançar comigo. Praticamente empurrei o microfone para ele, porque eu jamais perderia a chance de vê-lo cantar quase toda a música que não queria, sozinho. E ele sabia toda a letra, é claro.
Gargalhei quando o loiro começou a rebolar de forma desajeitada, erguendo a garrafa e cantando os pulmões afora. De relance, percebi que um casal saía pela porta do bar, fazendo com que eu tomasse um respiro para que minha barriga parasse de doer de tanto rir.
Cadê meu celular em uma hora dessas?
Depois de estragarmos mais algumas músicas do Elvis, e depois de cantarmos Bad Moon Rising por sua própria escolha, coloquei umas mais calmas. Os movimentos de Rob estavam ficando cada vez mais lentos e eu sabia que em mais uma música agitada, ele cederia, provavelmente ao chão por conta de suas danças.
— Aquela, aquela — disse ele, pigarreando antes de cantarolar com uma torção do rosto forçada: — We're no strangers to love — cantou, estranhamente afinado. Mas na segunda parte, o cantoril desandou, é claro. — You know the rules and so do I...
Assenti, rindo ao dar batidinhas em seu ombro e logo procurando o controle para pôr a tocar.
— Rick Astley — afirmei, procurando a música.
— Cara, como é que você lembra? — perguntou, indignado.
— Nasci na época errada, Robert, você sabe — falei, arqueando uma das sobrancelhas. Não era exatamente mentira pelos meus gostos musicais. — Mas o pessoal está adorando — ironizei, indicando o local quase vazio.
Pude vê-lo coçar os cabelos já molhados pelo suor, olhando ao redor. Então, seus ombros chacoalharam.
— Quarta-feira — disse, olhando por cima do ombro. — Hoje é quarta-feira e estamos embriagados e dando um show para... Ninguém — chegou à conclusão, gargalhando ainda mais. — Cara, precisamos arrumar namoradas!
Tenso, limitei-me a relanceá-lo, apertando o botão mais vezes quando travou o aparelho.
Ao perceber que ele havia parado de rir, pude ouvi-lo pigarrear de forma desajeitada e ao girar o rosto para ele, percebi que coçava a cabeça mais uma vez, sem jeito. Não conseguiu manter os olhos em mim por mais de dois segundos e eu soube o que ele estava pensando. O mesmo que eu.
Ah, de novo, não!
Reprimi a vontade de revirar os olhos, mas fechei a cara.
Toda vez que tocávamos em assunto de namoro, de relacionamentos ou de mulheres, Rob ficava desajeitado e eu sabia que era por culpa. Era o cúmulo que Rob ainda ficasse de besteira por conta de Emma e por nosso término. E eu sempre ficava sabendo, já que ele fazia questão de desenterrar o assunto e pedir desculpas. Milhares de vezes!
— Luke, cara... — começou ele, mas a música interrompeu-o, graças aos céus.
Se eu o ouvisse pedir desculpas mais uma vez, o derrubaria com um murro.
Sorri, tentando voltar a posição anterior antes de entregá-lo o microfone e pegar o meu. Balancei os ombros, tentando espantar o desconforto que Rob, sendo desastroso como era, trouxe à tona.
No refrão da música, Rob animou-se um pouco e cantou mais alto, movendo o corpo com a batida. No entanto, seu microfone parou de funcionar, e ao ver o rosto murchar em uma expressão desagradável, aproximei-me para que usássemos o mesmo.
Uma constatação: maior merda que fiz na vida.
Nós nos conhecemos há tanto tempo
Seu coração esteve doendo mas você é muito tímido para falar
Por dentro nós dois sabemos o que está acontecendo
Nós conhecemos o jogo e vamos jogá-lo
E se você me perguntar como estou me sentindo
Não me diga que você é tão cego para ver
Quando você está em um karaokê, cantando uma música romântica com seu melhor amigo, é de se esperar que as coisas se tornem estranhas. No entanto, sendo dois idiotas do jeito que éramos, também era de se esperar que o ocorrido se tornasse algo, no mínimo, engraçado a ponto de atrapalhar nossa cantoria pelas risadas.
Não foi o que aconteceu.
Rob ficou tão vermelho que eu pensaria que passava mal, não fosse a ciência de que aquele momento era o mais embaraçoso de nossas vidas. Como se não pudesse ficar pior, percebi que não podia ficar bravo com ele, já que eu também não havia dado indício de rir.
O problema, na realidade, eram os olhos azuis de Rob, tão claros como o céu após a chuva. O problema eram as duas marcas de catapora ao lado de sua boca, molhada pela bebida. O problema era o som estático em meus ouvidos e o suor frio que escorria em minha têmpora.
Não era nada engraçado.
E por um momento, não foi embaraçoso tampouco, porque eu gostei de vê-lo tão sem jeito. Engoli em seco no intervalo antes do refrão recomeçar e tornar as coisas ainda piores.
Nunca vou desistir de você, nunca vou te desapontar
Nunca vou inventar pretextos e te deixar
Nunca vou fazer você chorar, nunca vou dizer adeus
Nunca vou contar uma mentira e te magoar
Em algum ponto do refrão que miseravelmente é repetido mais de duas vezes, minha mão começou a tremer, o que repercutiu no microfone. Percebi que os olhos de Rob desceram para ele, e rezei para que ele chegasse a conclusão de que era tremedeira de bêbado.
Por que não estávamos rindo?
A música de Astley, a que provavelmente se tornaria um desgosto em minha vida depois de parecer durar uma eternidade, chegou ao fim. Afastei-me de Rob como se ele desse choque, e desci do palco ao dizer que precisava ir ao banheiro.
Pensava em não voltar, mas também pensava que isso era ridículo. Éramos amigos, porra! Estávamos bebendo e nos divertindo como bons amigos fazem, e aquela nem ao menos era a primeira música romântica da noite. Não havia sido nada demais, e minha mente estava criando coisas.
Apressei-me em lavar as mãos, mesmo querendo ficar ali para sempre, porque não conseguia evitar. Não conseguia evitar porque meu corpo inteiro tremia e eu não conseguia ficar parado. Esfreguei as mãos com ódio reprimido, vendo-as tomarem a cor avermelhada.
Rob tem cafeína no olhar, agora?
— Luke — chamou-me ele, e fechei os olhos com desalento. Merda.
— E aí, cara, tudo bem? — perguntei, assim que tomei coragem e olhei por cima do ombro com um sorriso forçado. — Não vai vomitar, não é?
— Não — riu ele, colocando uma das mãos na parede e olhando para os pés. Em seguida, pelo espelho, percebi que levou a mão ao bolso da calça mas a tirou e voltou a colocá-la na parede. — Eu estou me sentindo estranho.
Entendo perfeitamente.
— Está tonto? Quer se sentar? — perguntei, secando as mãos rapidamente e girando o corpo para si.
Aproximei-me com o intuito de levá-lo para fora do banheiro de má iluminação. Ou melhor, levá-lo para um lugar com mais gente, porque tudo estava ficando bizarro demais. Não precisávamos cantar uma música romântica e também ficarmos sozinhos no banheiro logo após.
— Sobre a nossa conversa de antes? — começou, ignorando minhas perguntas e impedindo que eu pegasse seu braço para arrastá-lo para fora. — Você não é comum. Seu nome é, mas você não.
Pisquei algumas vezes, tomando um segundo para lembrar do que ele estava falando. Arqueei as sobrancelhas, assentindo em seguida. Como se isso não precisasse ficar mais estranho...
— Tudo bem — respondi, questionador. — Vamos voltar lá dentro, acho que você bebeu ainda mais do que eu.
— Espera — interrompeu-me, ficando em minha frente quando tentei desviar para a porta. — Eu sinto muito, Luke, por Emma — disse ele, previsível. Revirei os olhos. — Eu jamais...
— Eu sei, Rob — resmunguei, ficando irritado já. — Será que você pode parar de trazer o assunto à tona? Está enterrado!
— Mas você terminou com ela por causa disso, cara — indicou ele, nervoso demais para minha sanidade.
— Rob, deixa de ser babaca! — resmunguei, colocando as mãos nos quadris. — Eu não terminei com ela por sua causa, está bem? Eu terminei com ela por causa dela! Enfia isso na sua cabeça de uma vez por todas, caralho! — ralhei, sentindo um pouco do tremor desvanecer com a raiva.
Rob encolheu-se minimamente, mesmo que jamais fosse capaz de admitir se eu perguntasse. Franziu o cenho em confusão, e pelo silêncio, percebi que não teria coragem de perguntar mais nada.
Suspirei.
— Ela mentiu para mim, ela não valia a pena — expliquei, mais calmo. — Você me falou a verdade, porque eu sei que você é um homem decente, Rob. Você me falou a verdade porque se importa. Ela não se importava — falei, vendo-o engolir em seco. — Não foi sua culpa, apenas não era para acontecer. Agora, será que, por tudo que é mais sagrado, você pode parar de falar a respeito?
Rob assentiu, forçando um sorriso.
— Se eu me lembrar dessa conversa — respondeu, tentando voltar ao humor anterior. Ri.
— Se você está consciente o suficiente para me encher o saco, vai se lembrar, sim — apontei, rindo.
Robert deixou um sorriso preguiçoso abrir em seu rosto, assentindo e piscando de maneira pesada os olhos avermelhados. Então, seu rosto mudou rapidamente e ele deu um passo em minha direção, de forma que podia sentir o cheiro de colônia, suor e álcool em si.
— Sabia que seus olhos são cor de mel? — perguntou, inclinando a cabeça com um sorriso. Arqueei as sobrancelhas. Não. — Isso não é muito comum.
Pisquei algumas vezes, curioso que ele houvesse pensado tanto a respeito do que discutimos mais cedo. Curioso também pelas manchas perto de sua boca que atraíam minha atenção para si e logo para a própria boca.
— Você não devia dar tanta importânciapara os devaneios que compartilho com você — falei, os olhos levemente desfocados.
Talvez eu estivesse encarando sua boca por mais tempo que devia, porque Rob perdeu o indício de sorriso e seu rosto ficou vermelho mais uma vez. Fecharia os olhos em frustração pelo ocorrido repetitivo, mas não quis desviar a atenção dos lábios perfeitamente alinhados de Rob. Puta merda.
— Estou me sentindo estranho mais uma vez — murmurou ele, fazendo com que minha respiração falha piorasse.
A seriedade em sua voz fez com que eu percebesse três coisas. A primeira era o significado de sua sentença repetida. A segunda, foi que ele a havia escolhido com precisão. A terceira concepção veio assim que senti sua respiração em meu rosto: a precisão de suas palavras deixava claro que ele queria que eu soubesse o que estava me dizendo.
Sabendo que não havia volta atrás naquele momento, e que se houvesse, eu não teria autocontrole de voltar, eliminei o espaço entre nós com brusquidão. Sem pensar, sem duvidar, sem questionar.
Assim que senti os lábios macios de Rob nos meus, com as duas mãos em seu rosto, percebi que o tremor de antes voltou com toda força ao meu corpo. Não era apenas minhas mãos que tremiam, era o corpo todo, assim como minhas pernas bambas. Então, grudei seu corpo na parede pichada com brusquidão para que não caíssemos. Meu coração batia tão forte que quase podia senti-lo em minhas costelas, e o gosto dos lábios dele me deixava ainda mais nervoso que já me sentia. Como sintoma de excesso de cafeína.
Quando forcei minha língua entre seus lábios, percebi que Rob retribuiu o beijo em um milésimo de segundo. Fiquei ainda mais exasperado com a quentura de sua língua, das mãos que recém eu percebia apertar meus braços, de seu peito duro no meu. Rob estava queimando. Me queimando.
Queria abrir os olhos para ver seu rosto corado, mas não consegui, por conta do prazer inebriante que os trinta segundos iniciais de toque já me fizera sentir. Me senti mais embriagado com seu beijo em trinta segundos mais do que com altas doses de álcool durante uma noite inteira.
Com uma mão em seu quadril e outra em sua nuca, tentei juntar ainda mais nossos lábios, mesmo não sendo possível. Rob resmungou pela brusquidão do beijo, mesmo que involuntariamente, e isso me deixou ainda mais excitado. Eu já estava excitado, percebi. Como houvera ocorrido isso, eu não tinha ideia, mas o único que queria era fundir-me em Rob.
Em seguida, ocorreu um efeito dominó. A ideia de querer tornar apenas um com meu melhor amigo deveria ter me assustado, mas trouxe um gemido aos meus lábios. Meu gemido, por si só, fez com que o corpo de Rob tremesse inteiro, perceptivelmente. A reação dele acabou por terminar de nublar minha mente, fazendo com que eu descesse ambas as mãos para seu quadril e o puxasse de encontro ao meu, chocando ambas as ereções que não deveriam existir.
Estanquei no lugar, abrindo os olhos e separando-me de sua boca. Deparei-me com um loiro extrema e completamente desajustado, grudado em mim, com o rosto suado e os lábios vermelhos. Piscava devagar, tão lento quanto eu, mas muito mais gostoso. Extrema e completamente fodível.
Arregalei os olhos, afastando-me dele em um vulto e quase caindo no processo. Só então meu corpo parou de tremer, em estado de choque.
Me senti como se eu fosse um computador que houvesse travado, e assim que destravei todas as informações chegaram ao mesmo tempo, causando uma sobrecarga. Não conseguia respirar direito, não importava quanto ar minha boca sugava ou quantas vezes meu peito subia.
A visão de Rob, grudado na parede com as mãos nela para equilibrar-se, a roupa amassada e a pele completamente vermelha grudou em minha mente como chiclete. Fixei os olhos no lábio cortado de Rob e em seguida, os desci para a ereção ainda visível, mesmo pela calça. E ainda perceptível na minha. Eu jamais esqueceria.
Merda.
Eu sempre gostei de café.
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