Made of Fire

37 VII. (Não) Temos todo o tempo do mundo


Notas iniciais
Gente linda, gente wonderful, gente bela! *-* Aproveitei que tinha tempo livre para tirar o atraso daqui! Sinto muito pela demora, a situação tá tensa mesmo na facul. Mas ontem saí e fiquei inspirada para escrever e terminar o capítulo logo HAHAHAHAHA. Admito que sei como é chato ficar esperando atualização da fic que tu acompanha e quer saber como vai continuar, e não recebê-la! Sinto muito! Eu jamais faria isso com vocês - demorar - se eu tivesse escolha! Hhahaha. Estou dando meu melhor, amo vocês ♥ Boa leitura! *-*

A medida do tempo faz total diferença nas contas que envolvam a administração de alguma empresa. É necessário saber as datas das documentações, os horários de disponibilidade, a quantidade de tempo estabilizada para gerar tanto de lucro.

Um dos motivos pelos quais eu goste tanto da área de exatas tem total relação com seu próprio nome: exatidão. Dois mais dois sempre serão quatro, e podemos jogar isso em qualquer equação para moldá-la como queremos e obter os resultados desejados.

É possível brincar com os fenômenos da natureza com matemática. É possível montar um prédio a partir da física. É possível usar e abusar das unidades de medida, das variáveis, das equações como bem se quiser. Com minha mente e minhas próprias mãos eu posso fazer de todas as coisas, maleáveis. No entanto, tudo volta ao seu devido e exato lugar. Como uma fascinante e estipulada mágica.

Não é diferente com o tempo. O tempo é relativo, é contínuo, é variável. Nas folhas de papéis, o tempo não apresenta ameaça alguma e não causa temor ou preocupações à ninguém. Em meu caderno surrado pelo uso, o tempo é tão inofensivo quanto o próprio caderno, porque posso usá-lo como bem entender. Por este e outros motivos, eu aprecido extensamente a área de exatas.

No entanto, a vida não se resume à uma folha de papel e uma longa lista de equações bacanas. A vida não se trata, muito menos, de um uso infinito de materiais e recursos. Porque na vida, as coisas se acabam. Na vida, nada é eterno.

Na vida, o tempo é tudo, menos maleável.

*

As aulas do quarto semestre haviam começado há cerca de duas semanas antes de eu perceber que a aula de Gestão de Pessoas II é ainda pior que a primeira. E também, que eu adoraria me jogar da janela pela qual encarava as árvores do lado de fora, ignorando da melhor forma possível a voz irritante da Sra. Lawson.

Estava minha belíssima pessoa a pensar que o semestre seria incrível, até essa demônia chamada de "gente" acabar, destruir e triturar todas as minhas expectativas. Supus, por um momento, que o maior desafio da universidade é manter a vontade de estudar no campo de guerra chamado sala de aula.

Será que eu ainda tinha a chance de fugir?

Ouch! — Virei o rosto com rapidez, encarando a sobrancelha arqueada de Laurel antes de descer os olhos para o caderno em suas mãos, segundos antes grudado em meu braço.

Algumas coisas nunca mudam.

— Pensei que namorar um professor deixaria você mais inteligente, mas pelo visto, o transformou em um repleto bocaberta — disse ela, controlando o próprio humor. Então, apontou para a sala. — A aula acabou, jumento!

Ao prestar atenção no som de conversas e cadeiras sendo arrastadas, percebi que Laurel provavelmente estava certa.

— Will, você vem? — perguntou Gabe da porta, interrompendo o fluxo de alunos que saía sala afora, ao lado de Cenoura.

Saindo de meu devaneio e meu estado de zumbi, originado a partir das palavras mágicas e entediantes da Sra. Lawson, apressei-me em guardar minhas coisas na mochila e acompanhar Laurel para o lado de fora.

— Fim de semana, festa dos calouros — indicou Cenoura, praticamente empurrando uma série de panfletos com o título de "Festa Louca Calouros VI – O veredicto" para todos, claramente empolgado. — Vocês irão — afirmou ele, sem nenhum tom de questionamento.

— Com certeza — falou Laurel, puxando um dos panfletos com a mão feita e um sorriso sacana no rosto. — Calouros — disse ela, encarando o objeto em suas mãos, ao passo que descíamos as escadas. — Empolgados, perdidos e inocentes calouros — falou, o sorriso aumentando ao erguer os olhos para nós. — Não perderia isso por nada!

Gabe revirou os olhos quase ao mesmo tempo que eu, ao passo que Cenoura passava um dos braços em torno dos ombros de Laurel, claramente aprovando a amiga.

— Não sei por que os novatos merecem festa para eles, se nem sequer fazem parte do curso ainda — resmunguei, encarando as letras em néon do título da festa. — Nós que merecíamos uma festa, por chegar ao quarto semestre ainda vivos!

— Verdade — indicou Gabe, acenando. — Acho que devíamos fazer uma festa exclusiva, só para o povo guerreiro.

— A partir do segundo semestre — acrescentou Laurel, adorando a ideia. Laurel era incapaz de recusar festa alguma, assim como Cenoura. — Todo mundo sobrevive ao primeiro — explicou, obtendo acenos de todos.

— Como deveria chamar-se? — perguntei, pensativo. — Festa Dos Que Aprenderam A Administrar Choro?

Festa Aos Que Merecem — sugeriu Gabe, com um sorriso.

Festa Do Bom Soldado — sugeriu Cenoura, rindo junto de Gabe, que acrescentou em seguida:

Festa Dos Que Já Aceitaram ODesemprego Com Orgulho.

Festa Daquele Que Sabe Colar — falei, arqueando uma das sobrancelhas ao lembrar das mais criativas formas de colar que os veteranos disponibilizam.

— "Festa Ilustre – Entrada exclusiva àqueles que sabem administrar cola" — exclamou de forma teatral Laurel, gesticulando com as mãos.

As gargalhadas que se seguiram, em especial a de Cenoura, tomaram conta das escadas por alguns minutos, seguido de palhaçadas e discussões a respeito dos iniciantes administrativos e os diversos motivos pelos quais estas festas eram absurdas.

Enquanto lanchávamos no bar do prédio das Exatas, já que as aulas do quarto semestre ocupavam a parte da tarde devido à alteração de currículo, as conversas zanzaram por diversos assuntos. Laurel falava sobre as brigas diárias que tinha com sua mãe, Cenoura comentava que sua avó havia adorado Jess, Gabe mantinha-se no assunto de esportes, enquanto que eu me pegava reclamando dos mimos de minha mãe com relação ao Turner.

Tudo bem, estou sendo bastante hipócrita. Admito!

Quando se tem, finalmente, a aprovação de sua mãe com relação ao seu namorado, tudo o que vem em conjunto é uma dádiva. Era o que eu pensava, antes de minha mãe convidar Turner para jantar conosco todo fim de semana – estragando boa parte de nossos planos em seu apartamento — e monopolizando as conversas com o mesmo de maneira animada. O pior era que ele dava trela para a mulher, e se divertia com ela. Riam juntos, filosofavam juntos, falavam de seu amor por mim, juntos.

Era muita água com úcar para mim!

Gabe e Laurel, quando conversavam entre si perto de nós, tinham o contrário de uma conversa água com açúcar. Gabe se recusara a contar-me o que ocorreu entre os dois, mas algo havia tornado a conversa deles rápida e prática, como as conversas de colegas, e não de amigos de longa data. Não podia dizer que não estava intrigado e que não havia criado mil teorias em minha mente, mas com Gabe recusando-se a me contar e passando a usar o aplicativo de namoro, eu não tinha opção a não ser ficar à deriva.

— Não haverá aula nesta segunda-feira — leu Laurel, em voz alta, a partir do celular em suas mãos. Abriu um sorriso ao encarar os nossos sorrisos refletidos. — Somos canalhas sortudos, ou não somos?

A comemoração se deu em seguida e em massa, visto que nossos demais colegas de aula também lanchavam no bar e ouviram a notícia, agradecendo até mesmo Buda por escaparem do possível teste surpresa do Sr. Edwards, avisado por nossos veteranos.

— Podemos aproveitar o tempo livre e ajeitar os preparativos para a festa. — Cenoura pronunciou-se, assim que o tumulto comemorativo cessou.

— Podemos aproveitar o tempo livre e dormir — retruquei com humor, arqueando a sobrancelha com sua empolgação com a festa dos iniciantes.

— Vocês realmente não vão entrar para a comissão da festa? — perguntou ele, com o cenho franzido.

— Não — respondemos eu e Gabe em uníssono.

— Cenoura, meu bem, por que tanto interesse nesta festa? — perguntou Laurel, inclinando-se na direção do ruivo.

Cenoura suspirou, observando que todos estávamos atentos à sua resposta, com curiosidade.

— Porque é nosso trabalho como veteranos fazer isso, já que não pudemos organizar a festa nos outros anos, por causa do curso — disse ele, dando de ombros. — Nossa festa como calouros foi muito boa! — lembrou-nos, com um sorriso. — Nossos veteranos se deram ao trabalho de organizá-la para nós, e devemos fazer o mesmo! É como um ritual de passagem, certo?

Nos entreolhamos por um tempo, e pela careta derrotada de Gabe, vi que estava prestes a ceder, assim como Laurel. Resmunguei de forma audível, tentando ofuscar a aceitação dos dois.

— Organização de festa requer tempo e paciência — resmunguei, fazendo a melhor cara de dor ao pensar. — Eu não tenho nenhum dos dois!

— Vai ter que adquirir então — retrucou Cenoura de volta, arqueando a sobrancelha ao lembrar-se de algo importante. — Meu aniversário é no próximo mês e eu não quero coxinhas. Quero que participe da comisssão — falou, fazendo-me soltar um ganido ultrajado. — Vocês irão participar — afirmou, convencido. — Vocês irão — repetiu, encarando os olhos azuis e castanhos de Gabe e Laurel depois dos meus.

O intervalo cessara em seguida, sem sequer dar-me conta, empurrando-nos para o restante das aulas. Por um instante, peguei-me surpreso que duas semanas já houveram passado desde o primeiro dia de aula do ano.

Em um instante estávamos no bar e no seguinte, sentados na sala de aula mais uma vez. Tudo muito rápido, seguido de tudo muito devagar, a partir da aula pesada que o Sr. French proporcionava com sua grave voz. Eu contava os segundos para que acabasse logo, e o logo nunca chegava.

— Will, cara! — A voz sussurrada de Gabe me chamou a atenção.

Olhei para trás, lugar costumeiro de Cenoura, mas que Gabe havia roubado para não sentar próximo a Laurel. Pensava que ninguém percebia o motivo dele, mas não era difícil de decifrar, ainda mais sabendo o que eu sabia.

— Conseguiu descobrir sobre as ligações do Sr. Turner? — perguntou ele quando inclinei-me para trás, aproveitando que o Sr. French escrevia no quadro.

Suspirei, já estressado com o assunto.

— Não — resmunguei, revirando os olhos. — E não é como se eu fosse pegar o celular dele para ver do que se trata!

Pude ouvi-lo bufar com descrença, antes de inclinar-se novamente em minha direção.

— Não é como se tu fosse perguntar também — resmungou de volta, e virei o rosto rapidamente para ver a sobrancelha arqueada acima dos olhos azuis afiados em julgamento.

— Não pode me julgar por isso — reclamei, ultrajado. — Devo fazer perguntas a respeito de Laurel também? — sussurrei mais baixo, relanceando a ruiva algumas cadeiras distante.

Gabe abriu e fechou a boca algumas vezes, mas então deu de ombros.

— Tem razão — falou, contrariado. — E não, não deve me perguntar sobre ela — reclamou, voltando os olhos para a mesma.

Laurel usava uma camisa solta de cor escura, com o nome de uma banda estampado nela. As mangas largas deixavam visível o sutiã de renda de cor preta, o que dava um toque especial em sua beleza encantadora. Enrolava os cabelos vermelhos com os dedos, os olhos desfocados como se estivesse viajando na maionese ao invés de prestar atenção na aula. Eu não podia realmente julgá-la por isto, já que todos faziam o mesmo.

No entanto, Gabe parecia irritado com a simples visão de Laurel.

— Uma hora você vai ter que me contar o que houve — sussurrei, relanceando o Sr. French, que já se virava para a turma com o intuito de continuar a explicar o conteúdo.

— Uma hora você vai ter que perguntar o que está acontecendo para o Dragão — sussurrou por último, voltando a escorar-se na cadeira em seguida.

Suspirei, voltando os olhos para o Sr. French e sua pele oleosa.

Queria que Turner me contasse por conta própria sobre o que estava acontecendo, porque estava acontecendo alguma coisa. Mesmo que eu não tivesse prestado atenção nas mensagens e chamadas do celular, eu ainda assim saberia que Turner parece preocupado de vez em quando.

O orgulho, no entanto, me impedia de abrir a boca e perguntar. Não só porque queria que me contasse por conta própria, mas porque se ele ainda não havia tocado no assunto, era porque não me contaria nem se eu perguntasse.

*

Saí da sala depois de uma exaustiva aula de Economia, arrastando os pés pelo corredor, tentando fazer meu cérebro funcionar e me dizer onde era a próxima aula. Assim que ergui os olhos dos meus tênis surrados, encontrei o rosto tranquilo de Turner ao conversar com um professor que eu não reconhecia. A paz interior de apenas visualizar Turner fez com que eu relaxasse e percebesse que não havia uma próxima aula, a tarde universitária havia chegado ao fim.

Um sorriso imediatamente brotou em meu rosto enquanto eu observava o gesticular das mãos de meu professor ao explicar algo para o cara ao seu lado. O terno, como sempre alinhado, caía em seu corpo de forma perfeita, fazendo-me indagar se eu realmente tinha pulmões que funcionassem. Suspirei, pensando que nem trezentas vezes eram necessárias para me acostumasse com a beleza esmagadora de Richard Turner.

Observei-o despedir-se do segundo professor com um tapa amigável em seu braço antes de estancar no lugar com os olhos em mim. Aproximou-se com um sorriso de tirar o fôlego, soltando um bom dia para um dos alunos que passou por ele antes de alcançar-me.

— Olá, anjo — disse, sorrindo ao roçar os dedos em meu rosto. — Não te vi o dia inteiro. Como passou a tarde? — perguntou, com carinho.

Sorri, mas não pude impedir o suspiro cansado, erguendo os ombros.

— Eu sabia que o quarto semestre era o mais difícil, porque todo mundo comentava — comecei, pensativo —, mas não imaginei que fosse tanto.

Turner assentiu, sorrindo ao entender do que eu falava.

— Não é o mais difícil, é o mais pesado em conteúdo — explicou ele, encarando-me com os belos olhos cinzas. — Todas são matérias muito teóricas, o que acaba sendo cansativo e, convenhamos, chato — acrescentou, roubando-me um riso.

Muito chato — resmunguei em concordância.

— Você irá sobreviver — afirmou em resposta, com diversão.

Sorri, dando-me por vencido ao ceder ao seu sorriso magnífico. Aproximei-me para que pudesse apoiar a cabeça em seu ombro, soltando um resmungo cansado e sentindo seus braços me envolverem ao ouvi-lo rir de meu drama. Deixou um beijo estalado no topo de minha cabeça, mas afastou-se antes que pudesse ser envolto por todo o seu calor, com um sorriso amarelo.

Todos já sabiam que estávamos em um relacionamento, e eu já não me preocupava em roubar-lhe um beijo ou dois nos corredores do prédio ou sequer um toque singelo. No entanto, Turner sendo careta do jeito que era, preferia manter um pouco de distância nos horários de aula. As minhas houveram terminado, mas o período de trabalho do professor/dragão/namorado Turner não havia chegado ao fim.

Revirei os olhos, vendo-o rir de minha expressão.

— Will — murmurou com um pouco de culpa, olhando ao redor —, você sabe o que...

— ... combinamos. Eu sei, eu sei — reclamei, revirando os olhos novamente e fazendo-o rir. — Mas você vai ter que me compensar — falei, abrindo o melhor sorriso sacana que podia.

— Will — resmungou, mas o olhar ficou fixado em meu sorriso. Sorriu também, em seguida, relanceando ao redor. — Ok, eu posso fazer isso. Posso fazer isso perfeitamente — provocou, erguendo uma das sobrancelhas.

Aproximei-me involuntariamente, como se ele fosse um íman. Turner era meu íman, realmente. Um íman lindo!

— Mas — começou, interrompendo nosso possível beijo —, compensarei no fim de semana — falou, fazendo-me deixar cair o rosto em seu ombro novamente, sentindo seu corpo chacoalhar com a risada. — Tenho que dar aula agora, Fitzgerald está apertando as coisas para mim por conta da minha vida pessoal — resmungou, bufando em seguida. — Como se o que eu faço com você fosse da incubância do coordenador.

Soube que estava hormonal porque a simples menção do que Turner faz comigo fez com que o sangue passasse mais rápido por minhas veias. Pisquei algumas vezes, fazendo-me concentrar que ele reclamava de algo e eu devia fazê-lo sentir-se melhor.

— Ah, uma hora ele para de encher o saco — falei, alcançando sua mão e enroscando na minha. — Ele só tá irritado porque não pode te tirar do curso, você é um ótimo professor — falei, sorrindo. — Seria burrice a sua demissão e ele sabe disso.

Turner relaxou os ombros, abrindo um sorriso de propaganda de pasta de dente. Piscou levemente, aproximando-se para sussurrar:

— Will, assim vai ser impossível esperar o fim de semana — falou, fazendo-me agitar por dentro, por fora e por todos os lados.

— Ótimo — sussurrei em resposta, prendendo os olhos em sua boca macia.

Uma porta do andar se abriu, dando volume às vozes dos alunos e os passos dos mesmos, interrompendo nossa conversa curta. Turner sorriu em seguida, afastando-se com um dar de ombros.

— Tenho que ir, Will, tocar o terror na turma de A.F. I — disse ele, arqueando uma das sobrancelhas com humor. Não pude impedir a risada, pensando que foi exatamente assim que me senti no meu primeiro dia com o professor rabugento. — Te ligo assim que eu sair, pode ser?

Assenti, recebendo um beijo rápido antes que ele me desse as costas, apressado. No entanto, assim que vislumbrei as formosas costas largas de meu professor, lembrei de algo importante, perdendo todo o cansaço em questão de segundos.

Psiu, Turner — sussurrei alto o suficiente para que ele me ouvisse e virasse em minha direção com as sobrancelhas arqueadas. Aproximei-me para falar baixinho: — Sabia que meu irmão vai dormir na casa de um amigo hoje?

Ele franziu o cenho, claramente não sabendo onde eu queria chegar. Sorri ainda mais, reprimindo a vontade de agarrá-lo ali mesmo, ao observar a expressão confusa e divertida do mesmo.

— Você sabe o que isso quer dizer, não sabe? — perguntei novamente, vendo-o negar com a cabeça, claramente divertido. — Quer dizer que eu estarei em casa a partir das oito, sozinho e provavelmente deitado em minha cama — completei, vendo seus olhos pousarem em minha boca. — E se estiver muito calor, pode ser que eu esteja desprovido de roupas — sussurrei ainda mais baixo, relanceando o movimento alheio e distraído do pessoal ao redor.

Talvez se eu prestasse atenção o suficiente, pudesse literalmente enxergar a saliva descendo por sua garganta quando ele firmou os belos lábios entre si. Fechou os olhos em descrença, mas logo deixou-se sorrir de forma carinhosa, piscando algumas vezes ao olhar ao redor.

— E desprovido de vergonha na cara também, ouso dizer — disse ele, coçando a cabeça sem graça e logo rindo ao me puxar para mais um beijo rápido, desta vez, mais brusco. Sorri com seu jeito, sabendo que ele cederia em questão de segundos. — Com certeza irei aparecer por lá — murmurou em meus lábios antes de afastar-se.

Girei o corpo com uma leveza contraditória à aula que acabava de ter tido, sorrindo ao perceber que meu dia finalmente iria melhorar, ao menos na parte da noite. Tirei o celular do bolso, checando as horas e percebendo a quantidade de mensagensde diversos grupos silenciados por um ano.

Eu nunca fui a pessoa mais paciente, afinal de contas.

Pude perceber ao relancear rapidamente que, ao passo que descia as escadas, um grupo de pessoas as subia conversando. Prendi os olhos na mensagem com falhas de digitação que se sobressaía as demais do aplicativo do celular. Minha mãe avisava, com letras maiúsculas e erros de linguagem, que tinha a noite de folga e a passaria na casa de Nancy, como usual.

Reprimi a vontade de revirar os olhos com sua falta de conhecimento tecnológico e ri com humor antes de começar a respondê-la. Desviei do grupo de amigos por instinto ao cruzarmos na escadaria, sem erguer o olhar, ainda sorrindo com a junção de mãe e celular. No entanto, a noção de espaço e a agilidade em encolher-me para não esbarrar em ninguém não foi o suficiente sem o uso da visão.

Assim que trombei em um deles, ombro com ombro, não pude evitar olhar para trás e abrir a boca para murmurar um "desculpe" com rapidez. Infelizmente, para meu total alarme, reconheci os olhos escuros do garoto com o qual esbarrei, quase imediatamente. Sabia que o conhecia, mas os dois segundos em que vislumbrei seu rosto não foram o suficiente para que eu me lembrasse de onde o conhecia.

Então, ele abriu a boca.

— Opa! Desculpa, coração — pediu, um sorriso aberto no rosto.

A voz, acompanhada do apelido peculiar, foi o que bastou para que diversos fragmentos de memória ligassem o garoto de cabelos encaracolados à uma noite muito bêbada de minha parte. Uma noite particularmente especial para minha descoberta de quem eu sou e para a aceitação do mesmo. Uma noite que marcaria minha vida, por si só, mas também pela tamanha fofoca que gerara em toda a universidade.

No milésimo de segundo que o tomou para que, logo após desculpar-se, virasse as costas e continuasse o caminho com os amigos, o tempo pareceu correr em câmera lenta. O sorriso de canto do rapaz moreno, em junção aos olhos castanhos divertidos, me diziam que ele também se lembrava de mim. E antes que virasse completamente o rosto, este mesmo sorriso continuava a repercutir em minha mente, como em um lembrete eterno de que tretas estavam por vir. E claro, que eu as havia causado.

O tempo, que havia se apressado em deixar para trás duas semanas inteiras de aula, não teve pressa alguma durante o peculiar momento em que meu coração pareceu parar. Não tomou pressa alguma para que eu pudesse virar as costas e sair daquele prédio o mais rápido possível. Não tomou pressa alguma em permitir-me fazer o ar chegar aos meus pulmões novamente e meu coração continuar a bombear sangue pelo meu corpo.

Assim que consegui mexer meu corpo estancado a meio caminho do térreo da Administração, engoli em seco e forcei as pernas a caminharem, mesmo que lentamente. Tomei um bom gole de oxigênio e limpei a gota de suor que caía por minha testa. Meu primeiro pensamento foi: estou fodido.

Não sabia o que eu desejava mais apagar da história: ter ficado com o garoto, ou ter esbarrado com ele àquele ponto de minha vida. Sabia que tê-lo beijado havia definido uma parte do rumo de minha história, e que talvez fosse o motivo de que eu estivesse bem com Turner nos dias atuais, fora do armário. Não precisava deletar aquilo da história, já que possivelmente transformara a história. Mas era querer muito não ter que vê-lo nunca mais?

No fim, não importava qual das duas coisas eu desejava mais, já que nenhuma eu podia deletar da história de minha vida. Não importava que o garoto fosse um incômodo e, possivelmente, um problema em um futuro próximo. Quando um erro é cometido, a única opção é lidar com isso.

Porque se há uma coisa que não podemos fazer, é voltar no tempo.

Notas finais
1. Confesso que me sinto meio poética nos últimos tempos HAHAHAHAHHA. Desculpa se estou exagerando nos devaneios dos capítulos, mas é que às vezes, entro em sintonia com os personagens e com as poucas coisas que temos em comum. 2. Quanto ao capítulo, MEU DEUS, sinto muito trazer esse personagem de volta pra tempestuar a história, mas me senti OBRIGADA em fazer isso HAHAHAHAHHAHA. Não esqueçam que amo vocês ♥ Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! *O*