Made of Fire
36 VI. Possibilidades e probabilidades dos gomos de amor
Notas iniciais
Seria possível que as diferentes formas de amor fossem tão obscurecidas pela mente humana a ponto de se tornarem inaceitáveis?
Se isto houvesse sido perguntado para Adão, o suposto iniciante humano, eu imagino que ele teria respondido com outra pergunta: Por que o ser humano obscureceria o amor em algum momento, sendo que Deus é amor?
Então eu, sendo um mero humano comedor de carne, assistidor* de TWD, fazedor de piadas sem graça e criador de diálogos internos, responderia Adão com a mesma destreza com a qual ele respondera em meu diálogo mental: se a possibilidade é uma ciência desconhecida, o ser humano então, é um caso perdido.
*
Ao observar Becca estalar a língua e revirar os olhos, percebi que ela era muito parecida com Turner, mais parecida com ele do que qualquer outro da família. Não era apenas os cabelos castanho-escuros e os olhos cinzas, mas a personalidade tempestuosa. Não havia medo algum em seu olhar ao enfrentar o irmão mais velho. Pelo contrário, parecia lhe encantar desafiá-lo.
Bom, eu me identificava com o fato.
— Me apaixonei — explicou ao dar de ombros, com naturalidade, minutos antes.
Ao pôr em palavras do que se tratava a situação, imaginei qual era a probabilidade de Becca haver se metido em uma enrascada maior do que a minha ao me apaixonar por meu professor. A probabilidade era pouca, mas ainda era possível.
Turner parecia ficar mais nervoso a cada segundo e, sem saber o que fazer, continuei apenas a observar o desenrolar da situação.
— Por quem? — perguntou ele, já sem paciência.
Becca mordeu os lábios, balançando as pernas cobertas pela meia calça, como uma criança que acabou de aprontar. Relanceou-me de forma rápida, e tentei um sorriso de incentivo, mas logo o desafio voltou ao olhar da caçula da família com teimosa. Girou o rosto para Turner novamente, uma das sobrancelhas arqueadas.
— Michael — respondeu, com o queixo erguido, e os olhos desafiadores.
Franzi o cenho, lembrando que na mesma noite eu houvera sido apresentado para alguém com este nome. No entanto, eu havia sido apresentado à muitas pessoas, e isso só fazia com que meus neurônios formassem um nó. Percebendo que eu não saberia ligar o nome com a pessoa, desviei os olhos para Turner, dando um pulo involuntário quando ouvi sua voz alterada.
— O quê? — berrou, antes que pudesse se controlar, o rosto ficando vermelho.
Arregalei os olhos, fazendo um malabarismo com o olhar entre Turner e a Turner caçula.
Não conseguia imaginar o motivo pelo qual Michael fosse uma péssima escolha para envolver-se com Becca. Talvez se tratasse de um dos antigos amigos de Turner, inclinados ao mau caminho. Talvez fosse seu professor de faculdade também, já que Becca nos defendera com tanta gana quando cheguei em sua residência. Ou, talvez, fosse simplesmente uma pessoa de mau caráter.
No entanto, havia de ser alguém que o Sr. Turner, Frederich, conhecesse.
— Você só pode estar brincando. — Turner pronunciou-se novamente, uma veia saltando em sua testa de maneira nada sutil. — Você está falando do Michael que eu acho que você está falando? — perguntou, a voz perigosa.
Franzi o cenho, mas fiquei na minha, pensando que seria suicida de minha parte engajar na discussão dos dois irmãos.
Becca deu de ombros, bêbada demais para agir de outra forma, supus.
— Você tá maluca? — perguntou, retoricamente, antes de continuar: — Meu deus! De todas as pessoas de Mallow Coast, do mundo — acrescentou, furioso —, você se apaixona logo por ele?
— Ei! — interrompeu ela, ficando em pé também, desequilibrada. — Eu não escolhi me apaixonar por ele! Só que ele estava sempre aqui e, às vezes, papai ficava preso no trabalho por tempo demais e... Aconteceu, ok? — bradou de volta, irritada.
Turner passou a caminhar de um lado ao outro, parecendo esquecer da minha presença, passando as mãos nos cabelos. Em seguida, virou para Becca com o semblante incrédulo.
— Aconteceu o quê, exatamente? — perguntou, a voz assustadoramente mansa ao se aproximar da irmã. — Nosso pai não estaria furioso só por isto, Rebecca, não é mesmo? — Então, como se algo houvesse clicado em sua mente, retesou o corpo. — Ele ficaria furioso se houvesse acontecido algo entre vocês dois — concluiu, ficando vermelho de raiva, enquanto que Becca se encolhia. — Ficaria furioso se Michael respondesse a sua paixonite — deduziu, pelo rosto culpado da irmã.
Becca inflou as narinas com a última sentença de Turner, colocando as mãos nos quadris.
— Não é uma paixonite — falou entredentes, chateada. — Eu não sou mais criança!
— Perto de Michael, você é — concluiu Turner, no mesmo tom. Becca estalou a língua, saindo de perto de Turner. — Céus! — resmungou ele, incrédulo. — Qual o problema desta família? — perguntou, balançando a cabeça. — Primeiro eu, a ovelha pintada* da família — falou, erguendo o dedo indicador na contagem. — Depois, Robert se envolve nesta história com a namorada de Luke — falou, erguendo mais um dedo. Ergui as sobrancelhas para o fato indicado. — E terceiro, você... — falou, erguendo o terceiro dedo, mas logo os baixou, bufando. — Eu não acredito que você se apaixonou pelo melhor amigo do nosso pai, Rebecca!
Subitamente, o rosto de Michael voltou à minha mente como em um estalar de dedos. O melhor amigo do Sr. Turner, é claro. O único entre a multidão que não mantinha uma postura tão formal perto de Frederich, talvez por, justamente, ser tão próximo a ele.
Arregalei os olhos para o fato, deixando o queixo cair. Não era de se questionar que o Sr. Turner estivesse furioso.
Que bela cilada, Becca!
— De que forma isto é pior do que teu período como um delinquente? — perguntou ela, arrastando a voz, ao cruzar os braços. — Ou do que Rob se envolver com a namorada do melhor amigo? — perguntou novamente, incrédula. — Eu e Michael somos solteiros e não estamos fazendo nada ilegal!
— Ele tem o dobro da sua idade! — esbravejou Turner, desacreditando no que estava acontecendo.
Michael era um homem moreno, com os cabelos escuros e olhos da mesma cor. Apesar do terno caro e a postura elegante, a expressão divertida em seu rosto denunciava que o homem era tão despojado quanto o chefe da família Turner.
Eu o havia visto apenas uma vez, e sem prestar muita atenção em detalhes, mas parecia dispor da mesma fonte de juventude que Frederich. Talvez esta fonte se chamasse, além de "boa genética", de "dinheiro".
Sorri internamente com meu próprio humor.
— Olha quem falando! — Bufou ela, erguendo os braços. — O Will é ainda mais novo que eu! — falou, sequer lembrando que eu estava ali, ao colocar a mão no peito.
— Não chega a ser dez anos de diferença entre nós — falou, desgostoso, ao me relancear. — Michael tem a idade do nosso pai, Rebecca!
— Não mesmo! — reclamou ela, batendo o pé no chão. — Ele tem quarenta e cinco — murmurou, chateada.
— Você só tem vinte e três! — bradou, furioso. Bufou mais uma vez, colocando as mãos nos quadris. Ergueu os olhos para ela, afiados, ao parecer dar-se conta de algo. — Rebecca... Por que você está aqui agora?
Becca mordeu os lábios, olhando para mim como se procurasse ajuda. Pus-me em pé rapidamente, tentando amenizar a situação com um sorriso. Imaginei que era melhor intervir na discussão que se tornara, perigosamente, mansa.
— Bom, quem sabe a gente... — comecei, mas fui interrompido.
— Por quê, Rebecca? — perguntou ele, novamente, com o tom duro.
— Porque papai só descobriu agora — respondeu, com a expressão irritada. Então, quando Turner bufou, tratou de continuar: — Ei! Eu não tinha como saber que ele iria subir aqui para cima justo agora, no auge da festa.
— Você está me dizendo que — começou Turner, nervoso demais para se pôr em palavras —, hoje, agora, você estava agarrada com Michael aqui em cima? — perguntou, a cor saindo de seu rosto.
Becca deu de ombros mais uma vez.
— Você ainda está envolvida com ele? Vocês estão juntos? Ele não teve a decência de te dispensar? — Ergueu a voz, incrédulo.
Acerquei-me com rapidez ao ver a expressão de Becca tornar-se perigosa, pronta para pular no irmão mais velho. Pus-me entre eles, e de frente para Turner, que tinha o rosto vermelho de raiva quando a cor voltou ao mesmo.
— Ok, chega — falei, sério. — Turner — murmurei, aproximando-me dele —, por favor, se acalme. Não é tão ruim assim. Sem falar que... Você também não teve a decência de me dispensar — acrescentei, com um sorriso arteiro.
Percebi, com satisfação, que Turner ficou sem jeito com minha afirmação.
— Porque eu estava apaixonado por você — murmurou ele, para mim.
Sorri, impressionado que Turner ainda me fizesse querer jogar-me em seus braços nos mais inconvenientes momentos.
— Ele deve estar apaixonado por ela também, então — falei de volta, concentrando-me dificultosamente na situação. Turner balançou a cabeça.
— Não acho que esteja... Will, não é a mesma coisa — tentou ele, mas neguei com a cabeça.
— É claro que é — falei, colocando uma mão em seu rosto. — Se acalme antes que você tenha um derrame, homem! — falei, com humor, ao ver seu rosto fechar mais uma vez. — Ela se apaixonou por alguém improvável, assim como eu. Não posso falar pelo cara, porque eu não o conheço, mas se ele está mesmo apaixonado por ela, então...
— Esse é o problema, Will — cortou-me ele, passando a mão nos cabelos. — Michael tem quase a idade do meu pai e nunca se casou nem teve nada sério. Ele está sempre com uma mulher diferente, ele... — Bufou, colocando as mãos nos quadris de novo.
O som vindo do banheiro do quarto chamou-nos a atenção e percebi, tardiamente, que a Becca não estava mais à vista. Reconheci o barulho no mesmo instante, identificava-me com ele até demais.
Turner deixou a cabeça cair para trás, exausto, e eu fechei os olhos em seguida.
— Não vomite no chão! — gritou ele, balançando a cabeça, alto o suficiente para que ela ouvisse.
Suspirou e, não aguentando-se, caminhou em direção ao som de Becca. Fiquei no mesmo local, pensando se Becca acharia adequado que eu a visse naquele estado.
Pude ouvir, do cômodo, Turner estalar a língua e Becca resmungar.
— Becca... — O murmúrio de Turner fez-se ouvir antes de um suspiro. — Venha cá, deixa eu te ajudar... Não, aqui — falou, e o som de vômito tornou a invadir o cômodo. Arqueei as sobrancelhas, voltando a ouvir a voz ao longe: — Segura-se em mim.
Tudo bem, admiti mentalmente. Há pessoas em situações piores do que se apaixonar por seu professor, sendo ambos de maioridade.
Eu só esperava que, ao menos, o cara também estivesse apaixonado por Becca. Caso contrário, a situação ficaria bem mais feia.
Eu não consigo me imaginar envolvendo-me com a filha de meu melhor amigo apenas por diversão, a não ser que as pessoas tenham uma ideia distorcida do que é amizade. Se este fosse o caso, o Sr. Turner estaria prestes a descobrir que seu melhor amigo é um filho da puta. E isto devia doer, eu imagino, duplamente mais do que ter sua filha envolvida com ele.
*
Descobri, no dia seguinte, que Becca não estava brincando quando mencionou, especificadamente, a palavra "furioso".
Isobel, que descobrira o amor proibido de Becca antes que as figuras masculinas da família, andava de um lado ao outro pela casa durante a manhã. Eu não havia visto o Sr. Turner desde a festa, mas houveram-me dito que ele havia saído no início da manhã para o trabalho e não se sabia em que momento retornaria. Rob, desde que eu chegara na residência imensa, houvera dormido em seu antigo quarto na casa, assim como Turner e eu dormíamos no dele. E Becca, depois de vomitar durante boa parte da madrugada, fora levada pelos braços de Turner para seu quarto, onde permanecera. Os empregados mais queridos, Finn e Rose, ajudaram os demais com a organização da casa, que se tornara uma bagunça na noite e madrugada anterior, até que estivesse impecável.
Apesar de toda a tensão a respeito de Michael, e apesar dos cochichos pela casa e a quantidade de vezes que Turner havia bufado, ninguém pensava que Frederich voltaria à casa para almoçar. Estávamos todos enganados, visto que nada é tão ruim que não possa piorar.
Pela primeira vez, percebi que Turner poderia ser muito parecido com o pai, se este dispusesse do mesmo mau humor de meu professor. Frederich chegou com uma carranca absurda, da mesma forma que Turner costumava chegar nas aulas. Possuía uma pasta semelhante à do meu professor, e a jogou no sofá da sala quando chegou, trazendo-me uma série de dejà-vu's de alguns meses atrás.
Então, ao encarar a esposa, que estava sentada em um dos sofás em frente ao nosso, sorriu de uma maneira malévola. Engoli em seco, percebendo a confusão no rosto franzido de Turner e de Rob ao observar o pai.
— Está tudo resolvido — disse ele, de forma mansa, recolhendo o sorriso estranho logo em seguida. Desviou o olhar para o resto dos presentes. — Já almoçaram?
Balancei a cabeça negativamente, vendo que nem a Sra. Turner, nem os dois filhos mais velhos responderam. Frederich assentiu, sério.
— O que está resolvido? — atreveu-se a perguntar Isobel, arqueando uma das sobrancelhas loiras.
— Michael foi demitido — disse ele, com tranquilidade.
Arregalei os olhos, relanceando um Turner desconfortável ao meu lado.
— O quê? — Isobel pronunciou-se, chocada. — Você não pode fazer isto, Frederich — disse, levantando-se, apenas para ver sua expressão fechar novamente.
— Claro que posso — respondeu prontamente, cruzando os braços. — Pode ser que Michael e eu tivéssemos uma amizade boa — começou, enfatizando o verbo no passado —, mas eu ainda sou chefe dele. E meter a língua na boca da minha filha não estava em nosso contrato — falou, a voz aumentando de volume. — Ele sabia disso, e está demitido.
Turner rapidamente apertou a minha mão, virando o rosto em minha direção com seriedade, ao passo que a discussão entre os pais se desenrolava na sala.
— Vamos dar uma volta? — perguntou em um sussurro, próximo ao meu rosto.
— Fred, você tem que se acalmar. As coisas não se resolvem dessa maneira — falava Isobel, enquanto eu assentia para Turner. — Vamos, se acalme, a gente pode...
— Eu estou calmo! — esbravejou ele, zangado. — E eu vim para o almoço em família — declarou, o cenho franzido.
Rob apertou meu ombro, incentivando-nos a levantar e sair, à medida que fazia o mesmo.
— Nem pensar que vamos almoçar com você desta forma! — brigou Isobel em retorno, não deixando-se abalar, vendo o marido bufar em seguida. — Assim que Rebecca acordar, nós três iremos ter uma conversa! Não pode sair assim, decidindo o que quer de cabeça quente, demitindo Mike, ignorando Becca, sem diálogo! Aposto que nem sequer ouviu o que Michael tinha para dizer — acusou ela, as mãos na cintura volumosa.
Arqueei as sobrancelhas, percebendo que Isobel, ao contrário de quando eu cheguei aqui, era a pessoa neutra da situação. Defendia a filha, não por concordar com o que Becca houvera feito, mas porque era o seu papel a desempenhar quando Frederich fazia o contrário.
Pude, por um instante, compreender mais ou menos como funciona um relacionamento à longa data de pessoas que se amam. Elas se completam, principalmente como pais, quando têm problemas a se resolver.
— Eu não tenho que ouvir nada! Esse filho da puta estava no quarto de Becca, feito um delinquente escondido após ter agarrado a minha filha! — gritou, gesticulando com as mãos.
— Fred, você não sabe o que aconteceu! E precisa saber, para se tomar medidas — murmurou Isobel em um tom carinhoso. — Becca é maior de idade, você não pode impedi-la de...
Assim que a porta de vidro foi fechada, Rob suspirou com um sorriso em seu rosto, relanceando-nos.
— Nossa! Que alívio — disse ele, a respeito do silêncio. — Sinto muito, Will, por estar aqui no meio de uma das discussões do século — falou, gargalhando. Sorri também.
Turner revirou os olhos, passando um dos braços em torno de meus ombros, enquanto caminhávamos os três na trilha ladrilhada de fora.
— Não é possível que você não leve nada a sério — disse ele, encarando os olhos azuis de Rob. O mesmo arqueou as sobrancelhas.
— É claro que levo — disse ele, falando sério. — Mas as coisas são como são, Rich — falou ele, dando de ombros. — Se Becca fosse menor de idade, eu seria o primeiro a partir a cara de Mike. Mas não é o caso, e você sabe — disse, com um sorriso —, Becca não é manejável.
Turner meio bufou meio riu, balançando a cabeça.
— Nem um pouco manejável — resmungou ele, apertando os olhos devido ao sol.
— Você chegou a conhecer Mike ontem, Will? — Rob me perguntou, com curiosidade.
— Sim — respondi ao mesmo tempo que Turner dizia:
— Conheceu — resmungou, relanceando-me.
Rob gargalhou ao encarar-nos.
— Que amor — disse ele, sorrindo, obtendo uma carranca de Turner. — Respondendo um pelo outro, igual um casal de matrimônio... Juntos pelo acaso do destino, felizes como passarinhos, unidos como os gomos de uma bergamota*, compartilhando os anseios como...
Turner não esperou a continuação, dando um peteleco na cabeça do irmão mais novo, enquanto o mesmo ria, em junção a mim.
Em uma reação normal, eu ficaria envergonhado com o poema amador e teatral de Rob, mas já havia me acostumado em pouco tempo com sua presença e personalidade. Até porque, ele não era tão maluco quanto o outro cara da vida de Turner. Mesmo com o humor despojado, Rob não conseguia ser tão inconveniente quanto Jay, e eu agradecia por isto.
Sempre adorei o Jay, desde que meu ciúmes acerca dele na lanchonete em que o vi pela primeira vez passara. Era a companhia perfeita para Turner, e tão de bem com a vida que contagiava. No entanto, dois Jay's seria um pouco impossível de lidar. Ri baixinho da concepção.
Havíamos parado no meio do pátio, abaixo da sombra de uma árvore, sem perceber.
— Parece que nossa família já têm o histórico manchado pelas ações dos filhos — falou Turner, com um humor sombrio. — Não é, Rob? — perguntou, relanceando o mais novo que, depois de estreitar o olhar, deixou o sorriso morrer.
— Você está falando de Luke? — perguntou ele, pela primeira vez em que eu o vi sem graça. — Eu já te disse que isso foi um mal-entendido — resmungou ele, desconfortável.
— Envolver-se com a namorada do seu melhor amigo foi um mal-entendido? — perguntou Turner, sem acreditar.
— Cara, não foi assim — resmungou Rob, colocando as mãos nos bolsos, talvez por não saber o que fazer com elas. — Eu não cheguei a me envolver com ela. Luke começou a namorar, e eu ainda não a tinha conhecido. Então, depois de passar na empresa procurando por ele, acabamos nos esbarrando por um acaso. Como ela não mencionou Luke, eu não soube quem era.
— Sim, mas vocês se beijaram — falou Turner, com certo humor, ao erguer uma das sobrancelhas.
— Não nos beijamos! — resmungou ele, claramente irritado com o assunto. — Eu dei em cima dela, foi só isso! Só que o Luke chegou, e como eu estava muito perto dela, ele enlouqueceu — murmurou, chutando uma pedrinha.
— Espera, Luke é o cara de cabelos escuros? Da empresa? — perguntei, lembrando do mesmo, surpreso por não haver lembrado antes.
— Sim — respondeu, confuso.
— Eu lembro dele da excursão que fizemos na Turner Imóveis — expliquei, vendo-o assentir com compreensão.
— É mesmo — murmurou, os olhos perdidos. Então acrescentou, com importância: — São castanhos, na verdade, os cabelos dele. Os olhos também. Não — corrigiu-se, pensativo —, os olhos não são tão castanhos. É castanho-claro, eu acho — disse, coçando a cabeça ao pensar. — Será que são castanho-claros? — perguntou, sozinho. Então, balançou a cabeça ao focar os olhos em mim novamente. — Não importa, Luke é o cara com o terno desarrumado. Ele sempre usa assim — esclareceu para mim, com a feição tranquila.
Arqueei as sobrancelhas com a riqueza de detalhes, desnecessária para a afirmação. Relanceei Turner que, franzindo o cenho em uma careta desconfiada, girou o rosto para o irmão.
— O quê? — Rob perguntou, confuso, ao perceber os olhares em si.
— Nada — respondemos em uníssono, fazendo Rob sorrir mais uma vez pela ação.
— Will — chamou ele, subitamente, com um sorriso no rosto. — Sabe, você combina com o Rich mais do que o Jay e todos achávamos que isso era impossível — falou, fazendo-me rir. — Fico feliz que você faça parte da família agora.
— Obrigado — respondi, sem graça.
Desviei o olhar de Rob para Turner, apenas para perceber que ele sorria em minha direção, os olhos carinhosos. Fiquei ainda mais sem jeito, sendo alvo dos olhares dos dois irmãos. Meu professor passou uma das mãos em meus cabelos, puxando-me para deixar um beijo em minha testa.
— Pudera combinar — disse Turner, com humor —, se somos passarinhos felizes, unidos como gomos de bergamota, pelo acaso do destino.
Não pude impedir a gargalhada, vendo que não era o único.
— Idiota — resmunguei, abraçando-o involuntariamente.
*
Mais tarde, fomos chamados para o almoço que, segundo Rose, estava esfriando. O Sr. Turner pedira desculpas por haver perdido a paciência em frente à todos, mas mesmo assim, sorriso algum fora arrancado dele pelo resto do almoço. Mal engoliu a comida e saiu porta afora, voltando ao trabalho.
Nos dias que se seguiram, apesar de lentamente, as coisas foram amenizando.
Michael houvera ligado diversas vezes, mas Frederich deixou claro — e proibido — que não fossem atendidas as ligações. Becca saíra algumas vezes, talvez para se encontrar com ele, ignorando as reclamações de sua mãe e seus irmãos. Por eu não julgá-la, nem por um segundo, juntou-se à mim quando Turner não estava por perto, desabafando um pouco sobre como era ruim ter uma família tão protetora quanto a dela.
Turner, assim que podia, puxava-me para perto quando ninguém via, sumindo comigo pela casa. Depois de haver se acalmado com relação à Becca, e depois de haver desabafado com relação à Hilary, havia estado mais relaxado que o normal. Gostava de me mostrar alguns pontos da casa em que brincava quando criança, e contar das vezes que aprontara para o irmão mais novo, pregando-lhe peças. Também contou, com uma careta, como Becca os ameaçava para brincar de casinha com ela, quando pequenos, e das vezes em que os vestiu como meninas. Ri alto com a última história.
Assim como ficava feliz em conversar e contar histórias de sua infância, gostava também de arrastar-me para o quarto quando não havia gente por perto e jogar-me na cama com um sorriso malicioso. Sabendo que eu não podia lidar com essa faceta de Turner, com o tempo — desde que passamos a estar juntos — aprendi a não tentar objetar contra suas iniciativas. Não funcionaria mesmo.
Quando o natal estava perto, mamãe insistiu que não havia problema se eu o passasse com a família Turner, desde que voltasse para a virada do ano. Estava sentindo-se culpada, e eu sabia, por haver rejeitado nosso namoro — nosso recrutamento — logo no início do mesmo, mesmo que eu insistisse que não havia por que sentir-se assim. Depois de relutar com isto, já que eu nunca houvera passado o natal longe de minhas duas famílias, aceitei em fazer diferente, ao menos uma vez.
Apesar de pensar que a Sra. Isobel não ficaria muito feliz com minha estadia prolongada, recebi a reação contrária. Sorriu instantaneamente, abraçando-me em seguida, quando perguntei se podia ficar mais um tempo.
— Nunca vi Rich tão feliz quanto nesta última semana. — Havia-me explicado em um sussurro, quando percebeu minha expressão surpresa.
Becca havia dito que seu pai declarara que ela devia fazer com sua vida o que quisesse e que ele não interferia. No entanto, o Sr. Turner, apesar de haver se acertado com Becca, não quis sequer mencionar o nome de Michael novamente. Deixou claro, também, que não iria querê-lo em sua casa, apesar de haver devolvido seu emprego a pedido da filha.
Apesar de ficar chateado ao colocar-me no lugar de Becca, eu não podia julgá-lo por sua reação. Eu não tinha filhos, e sequer os teria, para saber qual a sensação de ter um amigo de coração envolvido com algum deles.
Quando o natal chegou, passei boa parte do tempo encarando, de maneira chocada, o tamanho da árvore de natal acima dos presentes. Apesar de achar cômica a comparação da mesma com a árvore — menor do que Caleb — que tínhamos em casa, não era possível ignorar a diferença de vida de Turner e eu. E apesar de saber a série de eventos que me trouxeram em Mallow Coast, na residência Turner e nos braços do Dragão, era meio difícil acreditar que um dia fomos menos do que isto.
Os parentes da família Turner, tanto por parte de Isobel quanto por parte de Frederich, passaram o natal conosco e isso juntou cerca de umas cinquenta pessoas. Fiquei impressionado que eles mantivessem contato com tanta gente da família, sendo que eu tinha duas tias que apareciam de vez em quando e ainda achava demais.
Luke, o amigo tão bem falado de Rob, também apareceu no natal, já que a família Turner era o mais próximo que ele tinha de família. Rob parecia abençoado por ter alguém que compreendesse seu bom humor, e imaginei que Jay se sentiria assim quando encontrasse a pessoa certa. A despeito de eu haver pensado que Luke ainda estaria de mal com Rob por conta de sua namorada, os dois pareciam agir normalmente. Riam das palhaçadas um do outro, fazendo com que os ternos parecessem disfarces em uma brincadeira de crianças.
Não precisei comentar com Turner que havia achado estranho a relação deles, porque podia perceber o olhar cinza observá-los de tempos em tempos, com o semblante pensativo. Sorri comigo mesmo, pensando que me sentiria menos estranho no mundo em que vivia, se mais pessoas fossem como eu.
Becca escapuliu por cerca de duas horas no natal, clamando estar dormindo, mas avisando-me que não estaria em casa para que eu pudesse encobri-la. Apesar de tê-lo feito de forma perfeita, Turner mencionou no dia posterior que sabia o que ela havia feito, repreendendo-me com o olhar por se cúmplice da irmã.
Assim que minha estadia chegara ao fim, fui surpreendido com abraços e convites para que voltasse o mais cedo possível, arrastando Turner, já que o mesmo parecia esquer, nas palavras deles, que tinha família.
Turner, quando me trouxe de volta à casa, havia posto seu celular no silencioso, algo que me deixou bastante intrigado. Parecia algo desimportante, mas não depois da junção de momentos estranhos dele. Ainda em sua cidade natal, parecia distraído em alguns momentos, mas só dei importância quando o vi desligar uma chamada no celular sem sequer atendê-la, duas vezes seguidas, com o cenho franzido.
Não quis perguntar, porque imaginei que nesta altura do campeonato, ele já devesse saber que tinha que me contar por vontade própria. No entanto, sabia que apesar do sorriso e da carranca comum, estava mais distraído que o normal. E mais pensativo.
Assim que chegamos, no entanto, Turner deixou toda a estranheza de lado para ajudar na preparação da casa Ishikawa para o ano novo. Sempre passávamos lá — eu, Caleb e mamãe -, junto com alguns dos amigos de K e meus pais postiços.
E sim, eu beijei meu namorado — meu recrutante — quando trocou de um ano para outro! Beijei com vontade!
No entanto, para mim, a virada do ano durava cerca de cinco horas. Passávamos em família, é certo, mas eu sempre saía com K para as ruas no intuito de encontrarmos meus amigos descerebrados, onde passávamos a madrugada inteira bebendo. Não deixaria este nosso ritual de lado por ter um namorado.
Jay, para minha alegria, ligou para convidar-nos para a festa de Ano Novo Beats de seus amigos, para onde Turner foi antes que eu me juntasse à eles, lá pelas cinco da manhã.
É certo que a ideia de que um ano novinho em folha está chegando deixa a todos ou muito animados, ou muito depressivos. Apesar de ser uma reação ilógica para algo tão simples, isto devia ocorrer por questões inexplicáveis, eu diria, questões de coração. E coração não se entende.
O que me intrigava mais é que me sentia esplêndido!
Eu havia superado todas as minhas expectativas acerca de mim mesmo. Havia sido aprovado em alguns dos semestres mais difíceis da faculdade, havia descoberto — de certeza — que sou gay e me assumido publicamente, havia sobrevivido a guerra externa e interna, bem como um espancamento, e havia sido, acima de tudo, feliz.
Era de se esperar que me sentisse esplêndido, afinal, ainda mais com um homem como Turner me olhando da maneira como me olhava e me tratando da maneira como me tratava.
Me amando da maneira como me amava.
Não podia saber como o próximo ano se desenrolaria, nem se o próprio ano não me enrolaria. Não sabia se o "bravo novo mundo" de Will se romperia antes mesmo de começar, ou se o meu antigo mundo voltaria a me assombrar. Podia ser que sim, afinal, tudo é possível.
Levando isto em conta, era bastante possível que o próximo ano não fosse esplêndido como eu me sentia, e que barreiras erguessem-se em nosso caminho, e que as coisas não se encaixassem tão perfeitamente.
Mas, convenhamos, que tipo de ano é perfeito?
No entanto, mal sabia eu que a possibilidade caminha lado a lado com a probabilidade, como cúmplices. E que muito do que pensei ser possível de ocorrer, provavelmente ocorreria.
E eu estava certo, para meu completo desespero.
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