Made of Fire
35 V. Aquela que era amada demais
Notas iniciais
— Será que podemos conversar agora? — perguntou ele de forma mansa ao sentar do meu lado.
Dois dias haviam se passado, nos quais eu me esquivei o máximo que podia das perguntas de Will. Não precisou de muito esforço, já que ele conteve a curiosidade quando percebeu que eu não queria entrar no assunto e já que as atividades que meus pais prepararam haviam tomado quase todo nosso tempo.
Estávamos em meu antigo quarto, com a porta fechada, mas era possível ainda ouvir o burburinho da festa do lado de fora. Meus pais haviam decidido que, como Will não ficaria para o Natal, a festa da empresa seria adiada alguns dias. Passamos horas interagindo com empreendedores e sócios de empresas famosas, bem como da Turner Imóveis, assim como alguns de meus tios que também vieram mais cedo para o Natal.
Minha mãe instruiu-me para omitir a questão sobre Will ser meu aluno, mas não havia dito nada sobre como deveria apresentá-lo aos convidados. Entretanto, eu descobri, ao ouvi-la referir-se a Will como meu namorado, que não esconderia o fato de ninguém. Embora seu orgulho estivesse ferido, eu sabia que minha mãe não podia evitar, ao longo dos dias, apaixonar-se por Will também. E não demoraria muito para que cedesse completamente. Tínhamos o mesmo sangue, afinal.
Will ficara desnorteado com tanta gente e eu tinha certeza de que ele já não lembrava de nome algum das pessoas as quais fora apresentado. Era início de madrugada quando decidi encerrar a noite para nós, trazendo-o para cima para dar-lhe um descanso. Sabia que no próximo dia parte de minha família ainda estaria aqui para encher-nos de mais perguntas inconvenientes.
— Sim, é claro — respondi prontamente, sentindo-me culpado. Girei o rosto para Will, que estava sentado com as pernas dobradas — feito índio — ao meu lado. — Imagino que tenha perguntas, anjo.
— Por que não me disse antes? — perguntou, com um tom de mágoa.
— Sobre a Hilary? — perguntei, sabendo a resposta. Balancei a cabeça negativamente, com os olhos presos no colchão. — Não queria que você pensasse o que tá pensando agora — falei, voltando os olhos para ele.
— O quê? — perguntou, franzindo o cenho.
— Você sabe o quê — resmunguei, ajeitando-me na cama. — Pensando que talvez eu ainda esteja traumatizado e que isto pode estar me afetando até os dias de hoje — falei, voltando os olhos para os verdes alargados. — Pensando que, se ela não houvesse morrido, eu ainda estaria apaixonado por ela — tornei a falar, baixando o tom de voz ao torná-lo sério. — Não faça essa cara, Will, eu te conheço. Sei que sua cabeça está cheia de bobagens por causa do que você descobriu — resmunguei, cruzando os braços.
Will abriu e fechou a boca algumas vezes antes de desistir e suspirar.
— Não é isto — murmurou, e eu arqueei uma das sobrancelhas. — Está bem, é mais ou menos isto — disse, revirando os olhos. — Mas eu não sei o que pensar! Sua mãe mencionou sua ex, o Marcus mencionou sua ex... Você omitiu uma informação importante para mim e isso me faz pensar que é ainda mais importante para você — resmungou de volta, fazendo uma careta.
Suspirei, descruzando os braços e aproximando-me de Will.
Eu sabia que estava sendo injusto com Will ao omitir coisas sobre mim, mas eu não podia evitar ser uma pessoa insegura com relação à ele. Sem falar que eu queria afastar-me tanto do passado até que eu mesmo pudesse esquecer de tudo que ocorrera, e nunca pensei que teria de falar a respeito alguma vez em minha vida.
— Tem razão, Will — falei, suspirando. Afinal, eu sabia que, se havia algo que eu não soubesse a respeito de Will, bastaria perguntar para eu ter uma resposta. — Mas você tem que entender que a Hilary não é um problema separadamente — falei, tentando explicar. — Toda a minha época de traquinagens, como minha mãe diz, é um problema conjunto — expliquei, fazendo uma careta. — E Hilary, infelizmente, é uma parte disto. Uma parte do passado que eu gostaria de esquecer para sempre. Entende?
Will suspirou antes de assentir, coçando os cabelos. Fez um beiço com os lábios antes de mirar os olhos em mim novamente. Aproximou-se de supetão ao deixar um beijo rápido em meus lábios e afastou-se novamente.
— Por favor, me conte — murmurou, os olhos piedosos. — Eu prometo que não vou mais tocar neste assunto depois que souber — deixou claro, com sinceridade. — E eu prometo que não vou julgar, Turner.
Sorri ao passar um dos braços por seu ombro, puxando-o de encontro a mim de forma com que ficássemos juntos com as costas escoradas na cabeceira da cama. Beijei seus cabelos.
— Eu iria te contar de qualquer forma — murmurei, com um sorriso.
Will riu, empurrando-me de leve e resmungando algo a respeito de saber sobre minhas ações. Apertei-o contra mim com mais força, obtendo um resmungo de reclamação, seguido de um riso.
Ficou em silêncio por um tempo antes de atrever-se a perguntar o que mais gostaria de saber: — Como... — começou, hesitando por um instante. — Como foi que ela morreu?
Fechei os olhos rapidamente, e as luzes dos postes e carros brilharam em minha mente como se houvesse voltado ao local. Abri-os rapidamente e inspirei o aroma dos cabelos desorganizados de Will.
— Acidente de carro — falei, lembrando de seu corpo desfalecido dentro do carro detonado. Engoli em seco. — Em uma corrida.
Will ergueu rapidamente o rosto para mim, os olhos esbugalhados. Sabia que estava se esforçando para pegar leve comigo e manter-se calmo, mas eu também sabia que não duraria muito tempo.
— Uma corrida ilegal? — perguntou, a boca aberta. — Ela também fazia estas coisas?
Assenti, tirando uma mecha de cabelo de seus olhos com os dedos.
— Nós três corríamos — contei, lembrando de Marcus.
— Marcus? — perguntou, remexendo-se no lugar. — Vocês eram amigos?
Assenti, uma memória distante voltando à minha mente:
Marcus arqueava as sobrancelhas escuras umas quatro vezes seguidas ao olhar para mim, de forma animada, antes de esfregar uma mão na outra em frente ao carro de cor azul. O pingente de cruz em seu pescoço balançara com o ato e Marcus o levou até a boca para estalar um beijo no mesmo. Eu sentia o corpo vibrar com minha própria risada, vendo, em seguida, Marcus entrar em seu carro para a partida com um "seja o que Deus quiser".
— Ele disse que te ama. — A voz de Will trouxe-me de volta à realidade.
Esfreguei os olhos rapidamente, vendo que a dor de cabeça já começara, ao assentir mais uma vez. Will tinha o raciocínio rápido, eu sabia disto a partir das diversas horas de plantão em que insisti em ensinar-lhe Administração Financeira.
— Ele estava sendo sincero. — Will aproximou-se ainda mais, como se pudesse enxergar minha alma se colasse seu rosto no meu. Percebi que não se tratava de uma pergunta.
— Sim, acho que ele estava — concordei, encarando as orbes verdes. Não era surpresa alguma que Will houvesse decifrado parte do que Marcus falara.
— Ele tava mesmo visitando a Hilary? — perguntou, e pude ver que mal podia conter todas as perguntas dentro de si. Suspirei.
— Suponho que sim — murmurei, beijando-lhe o nariz que havia se aproximado mais do meu.
Coloquei um dedo sobre sua boca assim que ele abriu novamente para descartar mais um de seus questionamentos, impedindo-o de forma rápida.
— Will, se acalme, sim? — falei, soltando um riso pela curiosidade alheia. — Vou explicar o que aconteceu, não precisa perguntar. Está bem? — perguntei, obtendo um aceno de cabeça e um revirar de olhos. Sorri mais uma vez.
Embora eu lembrasse de toda a história como se a estivesse revivendo, não sabia explicar exatamente como eu ficara tão próximo de Marcus. Tampouco sabia como eu havia me apaixonado tão cegamente por Hilary, ignorando todos os meus instintos. Era certo de que eu jamais entenderia nada do que aconteceu nos meus anos como um fora da lei, mas estes, talvez, fossem questionamentos ainda mais intrigantes.
— Conheci Marcus quando ainda era novo — contei, vendo-o arquear as sobrancelhas. — Eu era o demônio reencarnado, como lhe contei, e ele vendia drogas perto do colégio. Acabei esbarrando nele uma ou duas vezes na época — falei, lembrando que mal o conhecia naquele tempo. — Viramos parceiros de festa e de agito depois que eu terminei o colégio e cumpri meu papel de ser um inútil completo. Não sei bem como aconteceu, mas depois de um tempo ficamos inseparáveis... — Pensativo, divaguei por alguns segundos antes de perceber Will se remexendo ao meu lado. Sorri. — Marcus era como um passe livre para a vida maluca e desenfreada que eu tanto queria. Ele era a personificação de tudo que eu não devia fazer ou ser, então eu me aproximei dele como se ele fosse um imã.
Will assentiu, os olhos presos em mim e o cenho franzido. Percebi que os olhos estavam desfocados, como se construísse em sua mente tudo o que eu revivia na minha.
— Lembra quando lhe contei que morei com um amigo por um tempo? — perguntei, vendo-o fazer uma careta.
— Estava falando do Marcus — deduziu ele, as sobrancelhas arqueadas.
— Se eu estava afundando em desgraça, imagine que Marcus apenas contribuía para a minha ruína — falei, erguendo as sobrancelhas. — Permaneceu comigo durante todo o processo de rebeldia. Estávamos juntos durante as festas, as drogas, as corridas ilegais e, por mais que eu houvesse participado do cassino sozinho, Marcus foi o que me atraiu até lá, por já ter frequentado antes. Não era culpa dele, já que havia sido criado assim, mas de certa forma... — Parei para pensar um pouco, sentindo Will brincar com minha camisa de pijama. — Marcus agia como um portal para aquele mundo.
— E quanto à Hilary? — perguntou ao perceber que meu silêncio durou mais do poucos segundos. Suspirei com pesar.
— Se Marcus contribuía para a minha ruína, então Hilary havia se tornado a própria ruína — murmurei, lembrando do rosto sorridente. Voltei os olhos para Will, que tinha a expressão vacilante. — Conheci Hilary nas corridas, mas embora não tivesse me contado, Marcus já havia a conhecido antes. — Balancei a cabeça com um sorriso sem humor. — Eu fiquei sabendo disto depois que ela havia falecido, em uma discussão com ele.
— Eles... — começou Will, fazendo uma careta. — Turner, eles haviam estado juntos? Porque pareceu como se... Não sei, a forma como ele falou dela, parecia que... — Will parou, com o cenho franzido e uma expressão pensativa.
— Sim — falei, chamando sua atenção para mim. — Pareceu que ele era apaixonado por ela, porque ele era.
— Ah — soltou ele, piscando muito. Sorri, encarando os olhos verdes.
— Hilary tomou interesse por mim porque eu a venci em uma corrida e ganhei uma boa grana com isto — contei, vendo uma careta se formar em seu rosto. — Se ela sabia que Marcus e eu éramos melhores amigos antes de se envolver comigo, suponho que eu nunca vá saber — falei, dando de ombros. — Mas Hilary era egoísta, gananciosa e caprichosa. Eu não duvido nada que ela estivesse brincando com nós dois desde o princípio.
— Ela devia ser muito bonita para ter tanta gente apaixonada por ela — resmungou Will, estalando a língua. Ri alto, abraçando-o contra mim.
— Não é pra tanto, Will — falei, mexendo em seus cabelos. — Não era a beleza que atraía as pessoas — contei, lembrando do perigo nos olhos castanhos e o sorriso de escárnio na pele alva. — Hilary não era de todo ruim — contei, acariciando os cabelos revoltos. — Tinha um gênio terrível, é certo, mas ela passou... — Limpei a garganta, fechando os olhos ao lembrar que estava morta. — Ela havia passado por muita coisa até chegar onde havia chegado. Ela só não sabia lidar consigo mesma e com seus problemas...
Senti a mão de Will em meu rosto e percebi que o puxava para que ficasse de frente para o seu. Me olhava de cima e pude perceber a expressão culpada de seu rosto.
— Turner — murmurou, engolindo em seco —, tudo bem se você parar por aí — falou, forçando um sorriso. — Sei que sou curioso, mas você já me contou o que eu queria saber.
— Eu sei — sussurrei, desvencilhando-me de si e virando de frente para Will. — Mas eu quero que saiba de tudo e, francamente... — Sorri amarelo ao erguer os ombros. — Acho que eu preciso contar estas coisas para alguém, ao menos uma vez.
Will franziu o cenho, inclinando o rosto de forma adorável.
— Como assim "ao menos uma vez"? — perguntou, confuso. — Toda a sua família parece saber disto, assim como o Jay.
Balancei a cabeça, negando.
— Minha família sabia que eu estava namorando naquela época, e até chegaram a conhecer a Hilary. E o Jay sabe o básico, porque não quis me enrolar no assunto. Eu tenho certeza que ele descobriu parte do que eu não contei a partir de outras pessoas — contei, erguendo uma das sobrancelhas. — Não importa, eu quero... Quero contar à você.
Will sorriu, acercando-se novamente para aproximar nossos rostos e juntar nossos lábios em um beijo singelo. Will passava certa calmaria de seu corpo para o meu, mesmo que o som de vozes e música estivesse bastante audível do quarto.
— Me apaixonei por ela — falei quando nos afastamos, com o coração pesado. — E eu sei que ela havia se apaixonado por mim. Bom, na sua própria maneira — acrescentei, com uma careta. — Ela havia tido um caso com Marcus antes de mim, mas foi coisa de uma noite e eles não haviam voltado a se ver até eu a conhecer nas corridas — contei, lembrando da careta confusa de Marcus ao nos ver juntos pela primeira vez. — Como ela passou a estar comigo o tempo todo, também passou a conviver com Marcus, porque não desgrudávamos um do outro. E bom, Marcus não é feito de ferro, afinal — falei com um sorriso, antes de suspirar. — Hilary sabia como ele se sentia com relação à ela, porque com o tempo ficou óbvio, mesmo que ele tentasse esconder. Não imaginei que ela fosse capaz de se envolver com ele de novo, então fiz o que nós três fazíamos: fingir que nada havia de errado. — Engoli em seco, sabendo que era inútil sentir-me arrependido, já que não podia mudar o passado. — Só que Hilary ficava insatisfeita comigo, já que brigávamos muito, e em algum momento ela passou a dormir com Marcus de novo. — Will franziu o cenho, fazendo uma careta. — Se você me perguntar, eu não vou saber dizer se ela havia se apaixonado por ele, se apenas havia se deslumbrado com a atenção voltada à ela, se estava entediada comigo... — Ergui os ombros, rindo sem humor.
Will ficou pensativo por um instante, desfocando o olhar antes de voltá-lo à mim. — O que você acha que aconteceu? — decidiu perguntar, curioso.
— Eu acho que ela acabou se envolvendo com ele porque sabia a forma como ele se sentia por ela. Vislumbre — falei, lembrando dos momentos em que passamos juntos. — Eu acho que ela não se importou de fazê-lo, mas que também não pensou que iria significar algo. Eu acho — continuei, os olhos perdidos —, eu acho que ela acabou se apaixonando por ele também, mesmo que não houvesse planejado.
— Mas isso durou quanto tempo? — perguntou, parecendo agoniado por mim.
— Meu relacionamento com a Hilary? — perguntei, sem esperar resposta antes de voltar a falar. — Cerca de um ano e meio. Nosso relacionamento, com Marcus incluído? — perguntei novamente, rindo sem humor da careta de Will. — Cerca de um ano.
Will deixou o queixo cair e arregalou os olhos.
— Mas você sabia disto durante todo o tempo? — perguntou em um murmúrio assustado.
— Bom, suponho que por quase todo o tempo — respondi com um dar de ombros. — Não sei, Will — falei, esfregando a testa. — Estávamos sempre chapados ou bêbados ou extasiados com a adrenalina — murmurei, com uma careta. — A partir de algum momento, eu soube que o fato de Marcus não olhar mais na minha cara era culpa de Hilary. Não sei em que momento a dúvida se tornou certeza e ficou claro para mim, mas eu soube. Soube que as mudanças de humor de Marcus e as escapadas de Hilary era devido ao envolvimento dos dois. E que as brincadeiras e provocações dela quando estávamos os três juntos eram sérias — expliquei, perdido nas memórias. — Era certo que Hilary valorizava mais seu relacionamento comigo do que Marcus, mas isso não quer dizer que ela não o amava. Acho que não me deixava porque estava obcecada por mim da mesma forma como eu estava por ela, mas creio que, no fundo, ela também estava apaixonada por Marcus. Talvez mais do que por mim.
Will continuou a me encarar, pasmo, ao esperar a continuação. Imagino que não soubesse muito como colaborar em meu monólogo. Dei de ombros.
— Ele também se apaixonou por ela e, convenhamos, eles combinavam mais do que nós algum dia combinaríamos. Ambos eram crianças da noite, e ambos haviam crescido em meio ao caos — contei, percebendo a confusão nos olhos verdes. — Eles pertenciam àquele mundo de uma forma que eu nunca pertenci, e eles pertenciam um ao outro.
— Você fala como se não se importasse com isto — interveio Will, com o semblante confuso. — Como se eles não houvessem ferido você — falou, o cenho franzido.
— Will — falei, sorrindo sem humor —, eu me feri sozinho. Eu me meti naquela confusão, eu me apaixonei por alguém incapaz de amar de verdade, e ignorei a maneira como meu melhor amigo se sentia — murmurei, erguendo os ombros. — Eu me feri.
— Mas então... Eu não entendo — murmurou ele, torcendo os lábios. — Por que falou com Marcus daquela forma?
— Porque eu já não o conheço, Will — falei, olhando-o nos olhos. — Eu já não confio nele, porque sei que ele pode ser incrivelmente perigoso. Fomos amigos por uma mera ironia do destino, mas caso não fôssemos... — Balancei a cabeça, lembrando da primeira vez que tive a noção de como Marcus era poderoso. — Marcus tinha o que pode ser chamado de "poder de rua" e pode ser que ainda tenha. Por causa de suas companhias, dos favores que várias pessoas devem a ele...
— E você acha que ele pretende fazer algo ruim com você? — perguntou, os olhos quase saltando das órbitas.
Não comigo, pensei.
— O que você tem que saber sobre o Marcus é que ele é uma pessoa peculiar — falei, imaginando se havia palavras para descrevê-lo da maneira como eu o conhecia. — Eu costumava confiar minha vida a ele, porque apesar de ter uma personalidade duvidosa, eu sabia que por mim ele faria qualquer coisa. As coisas mudaram, no entanto — expliquei para os olhos confusos. — Muito tempo se passou e Marcus mudou muito depois da morte da Hilary — falei, sentindo-me triste de repente. — Olha, Will... Marcus pode ser um traficante até os dias de hoje, e meter-se em todo tipo de coisa obscura que você possa imaginar... Céus, ele pode ser uma péssima pessoa — falei, lembrando de tudo que havia feito. — Mas ele sempre foi um amigo exemplar, mesmo no meio de tanta merda. Mesmo estando apaixonado por Hilary, ele não ousou mover um dedo para tirá-la de mim. E acredite, Will, não foi por não gostar das próprias chances — falei, olhando nos olhos verdes. Balancei a cabeça negativamente. — Não. Foi por respeito a mim, porque sabia que eu também queria estar com ela.
Perdi os olhos verdes do campo de visão quando Will baixou o olhar para o colchão, pensativo. Suspirou algumas vezes antes de aproximar a cabeça de meu peito, ainda abaixada, e colocar os braços em torno de mim.
— Eu sinto muito — sussurrou, escondido. — Isso é ainda mais terrível do que a própria traição.
— Talvez — murmurei, envolvendo-o também com meus braços. — Mas o pior foi quando ela morreu. — Will estremeceu em meus braços, mas o mantive da mesma forma. — As coisas só haviam piorado e nossas brigas haviam se tornado cada vez mais constantes. Quanto mais o tempo passava, mais próxima ela se tornava de Marcus e mais obcecada se tornava de mim. Pode ser que eu não me importe agora, Will, mas na época eu pensava que a amava. Eu me importava até demais com a traição deles — murmurei, fechando os olhos. — Na noite do acidente, eu estava furioso...
Will ergueu rapidamente os olhos para mim, com o cenho franzido. Podia enxergar em detalhes as disfarçadas sardas de seu rosto com a mesma nitidez com que enxergava as memórias se passando em minha mente.
Hilary havia me beijado com fervor ao grudar-me em meu carro, apertando seu corpo junto ao meu. Apenas quando nos separamos, pude vê-la relancear algo atrás de mim com um sorriso antes de voltar os olhos para minha boca e voltar a beijar-me.
Se eu houvesse posto um fim naquilo quando começou a acontecer, nada teria terminado de maneira tão trágica. Nem a minha história, nem a de Marcus, e muito menos a de Hilary.
— Havíamos discutido feio e eu disse que não a queria ver nunca mais — murmurei, sentindo o nó na garganta. Em seguida, ri sem graça. — Obviamente, ela não me levou a sério. Me encarou com falsa mágoa antes de dizer que conversaríamos depois — contei, balançando a cabeça. Ela sempre dizia isso e voltava quando eu estava mais calmo, encarando-me com olhos de Bambi.
Havia percebido que era Marcus, escorado no carro de outro amigo e bebendo uma cerveja, para quem Hilary havia encarado ao estar comigo. Marcus ainda tinha os olhos na gente quando o vislumbrei, mas desviou o olhar em seguida com uma expressão nada feliz. Não havia sido a primeira vez que Hilary fazia algo do tipo, mas era a primeira vez em que eu já estava irritado antes que ela o fizesse.
Empurrei-a para longe de mim, furioso ao gritar, sem me importar, os pulmões afora. Falei que estava acabado, que não podia suportar a forma como me manipulava e que, se não estava feliz só comigo, que me deixasse de vez. Ela havia se retirado, provavelmente para esperar eu me acalmar antes de voltar e fazer-me mudar de ideia.
Tratei de comprar um fardo de cerveja logo em seguida, deixando de lado a cocaína que havia em meu porta-luvas. Precisava de algo lento, afinal, para que me mantesse calmo, ao invés de agitado, por muito tempo. No entanto, assim que voltei para o local minado de gente, o primeiro que vi foi um Marcus insatisfeito, segurando o braço de Hilary ao passo que ela ria para ele ao tentar afastar-se. Marcus parecia falar sério, mas eu sabia que "seriedade" era uma palavra desconhecida para minha namorada. Então, subitamente, ela se aproximou ao passar uma das mãos pelo rosto de meu melhor amigo, fazendo com que ele relaxasse minimamente, e disse algo em seu ouvido. Afastou-se tão logo se aproximou, e deu-lhe as costas com um sorriso.
Apesar do efeito do álcool mal haver começado, aquilo havia sido o ápice para meu ódio. E céus, como eu sentia ódio! Em um instante, já puxava um Marcus distraído pela jaqueta e no próximo, estávamos embolados no chão em uma briga intensa.
— Acabei me embolando com Marcus em uma briga logo depois — contei, vendo-o abrir a boca em surpresa. — Eu devia ter corrido, já que apostei o dinheiro, mas dei as costas porque estava bêbado e com raiva. Havia comprado um fardo de cerveja e estava empenhado nisto quando percebi que Hilary correria no meu lugar. Como não dei a mínima para os gritos do Frajola, o cara encarregado das apostas — expliquei ao ver o franzir de sua sobrancelha —, ele aceitou que Hilary tomasse meu lugar, usando meu dinheiro para a aposta. Todos sabiam que o que era meu era dela — contei, lembrando-me como se estivesse lá mais uma vez.
Podia lembrar da gritaria do pessoal junto ao som de carros e apitos. O cheiro de tabaco, suor e gasolina. Hilary havia entrado em seu carro da época, de cor vermelha, antes de dar partida. Eu podia sentir o gosto do álcool que eu não cansava de beber, assistindo tudo de longe e sentindo a pele ainda vibrar pela briga com Marcus de alguns minutos antes.
Estava frustrado, porque sabia que assim que Hilary ganhasse a corrida e se aproximasse com o dinheiro em mãos, eu voltaria para ela em um piscar de olhos. Bastaria a voz cantarolada em um pedido de desculpas, um sorriso largo e animado em sua face e os olhos castanhos e perigosos.
No entanto, o barulho alto de rodas e metal contra o asfalto chamou minha atenção da embriaguez. Senti o sangue ferver com medo quando um som ainda mais alto fez-se ouvir, seguidos de exclamações da multidão. Fiz meu caminho dificultosamente entre as pessoas antes de pôr os olhos no acidente dominó com quatro carros envolventes, com o coração batendo tão forte que podia senti-lo em cada parte de meu corpo. Um deles pegou fogo antes que eu pudesse pôr minhas pernas a correr em direção ao vermelho.
— O carro de Fred bateu no carro de Hilary, já que estavam lado a lado em toda aquela velocidade. Ambos os carros saíram da pista e o de Fred campotou até o outro lado, batendo em outro, que bateu em outro. — Ergui os ombros, coçando a barba ao lembrar.
Não tive a chance de fazer nada antes de sentir o aperto de Marcus em meu braço e encarar as orbes esverdeadas tomadas de pavor. Ele havia seguido o som do acidente, assim como eu, de onde estava. Podíamos ver claramente o carro vermelho estraçalhado, embora tenha parado em pé. Marcus segurava-se em mim porque não sabia onde mais se segurar, e eu tampouco. Os eventos que se seguiram se assemelharam a um borrão para mim, mas o corpo desfalecido e ensanguentado de Hilary não sairia de minha cabeça jamais.
Aquela que era amada demais e amava de menos, pensei com amargura.
Will desvencilhou-se de mim em um vulto, encarando-me com pesar ao balançar a cabeça. Mordeu os lábios, a expressão indecifrável.
— Não me diga que você se culpa por isto, Turner — falou, o cenho franzido. — Seria estupidez — disse, sério.
— Já não mais — falei, sorrindo sem humor. Como se fosse possível, os olhos verdes tornaram-se ainda mais piedosos. — Marcus me culpava mais do que eu mesmo, se é que isto é possível. Me ameaçou de morte, caso eu não sumisse do mapa, e afundou-se em desgraça. Depois de revê-lo, já não tenho tanta certeza se as coisas continuam do mesmo jeito que estavam quando saí da cidade.
— Se continuam, então ele parece ter um humor sombrio — murmurou Will, pensativo.
— Ele sempre teve — falei, rindo. — Marcus parece estar muito bem, na verdade, como se estivesse voltando a ser como era antes. Isso é bom — acrescentei, coçando a barba.
Will arqueou uma das sobrancelhas ao encarar-me sem piscar. Ri novamente.
— É bom — reforcei, molhando os lábios. — Você não tem ideia de como ele mudou, Will, e nem sei se sou capaz de explicar — falei, balançando a cabeça. — Pode ser que sempre tenha sido um babaca, mas Marcus era diferente naquela época. Ele era animado, sabe? Cheio de vida — sussurrei, lembrando do rosto jovial. — Ele não tinha regras nem preocupações. Arrisco dizer que era alegre. — Os olhos atentos de Will brilharam, como se também pudesse ver o que eu via. — Depois que se apaixonou por Hilary, podia ver isso diminuir aos poucos. E então, quando ela morreu, desvaneceu completamente — falei, triste. — Sabe, Will, aquele dia... — falei, referindo-me ao dia que esbarramos em Marcus. — Naquele dia, foi a primeira vez, depois da morte de Hilary, que eu vi Marcus sem que ele estivesse chorando.
Will arqueou as sobrancelhas, surpreso, antes de me olhar com confusão.
— Você disse que ele chegou a te ameaçar — indicou ele, duvidoso.
— É, mas foi por luto — murmurei, passando uma das mãos por seu cabelo. — Ele estava com raiva e com dor, é claro. O amor de sua vida morreu, possivelmente, por culpa do cara que os impediu de ficarem juntos — falei, colocando um dedo em seus lábios quando tentou protestar. — Ele tinha o rosto inchado ao me ameaçar e, como ele disse, eu sabia que não era uma ameaça verdadeira. A de morte, digo — completei, rindo da careta de Will.
Ele ignorou o que eu disse, com a expressão indignada. Tomou minhas mãos nas suas ao encarar-me com intensidade.
— Você não pode realmente pensar que foi sua culpa — disse ele, agitado. — Estas coisas acontecem, por culpa de ninguém! Você dois ficaram com ela porque estavam apaixonados, como poderiam dar as costas para alguém que vocês amam? — perguntou, o cenho franzido. — Não foi culpa de ninguém, muito menos a morte dela. Corridas ilegais geralmente levam a alguma tragédia, vocês três sabiam disso antes de entrar neste mundo — disse ele, olhando-me como quem passa sermão. Sorri.
— Não é questão de me culpar, Will — tentei explicar, vendo-o desanimado. — É que eu fui, mesmo sem querer, a desgraça de Hilary. E ela foi a desgraça de Marcus. E isso ocorreu porque eu estava no meio de tudo — murmurei, vendo-o morder o lábio em contradição. — E tá tudo bem, de verdade. Sei que não podia ter feito nada diferente com a cabeça que eu tinha aos vinte anos de idade — afirmei, olhando-o nos olhos. — Tá tudo no passado, enterrado com Hilary — falei, engolindo em seco.
Will baixou o olhar mais uma vez, antes de erguê-los para mim com uma compaixão gritante.
— Eu sinto muito que você tenha tido que perdê-la — falou em um sussurro, fazendo-me franzir o cenho. — Pode ser que ela não tenha sido a melhor pessoa, mas acho que é necessário muito mais que uma traição para fazer alguém merecer um fim tão trágico quanto o dela.
Fiquei alguns segundos perdidos no olhar verde, sentindo-me como se o ar houvesse pesado mais do que eu podia carregar. Sabia que o coração de Will era mais puro que o de um anjo, como costumo chamá-lo, mas não esperava ouvi-lo dizer aquelas palavras.
O bolo que havia se formado em minha garganta desde o início de nossa conversa pareceu se expandir com a compaixão de Will. Compaixão esta que eu também sentia, acerca de Hilary. Pode ser que eu não a houvesse amado da forma como pensei que amasse, mas ainda assim me importava com ela mais do que podia pôr em palavras. Depois que havia morrido, em uma corrida que não devia ter participado, a culpa havia tomado conta de mim.
Desviei o olhar rapidamente, engolindo o choro que nunca pensei que viria à tona. Pisquei algumas vezes, conseguindo despistar as lágrimas, mas ainda sentindo meu coração pesar.
— Turner... — murmurou ele, em um sussurro, colocando uma das mãos em meu rosto e juntando nossas testas.
Sorri ao acariciar-lhe o rosto e me afastei, acenando com a cabeça para dizer que estava tudo bem. Escorei-me na cama mais uma vez, encarando os olhos verdes.
— Hilary tinha uma vivacidade gritante dentro dela. Ela era apaixonada pelo perigo e era praticamente uma cola para encrencas. Acredito que ela não amava ninguém tanto quanto amava ser livre — murmurei, com o olhar perdido.
Subitamente, o rosto fino de Hilary voltou à minha mente, os lábios curvados em um sorriso debochado como o de Marcus e os olhos castanhos delineados. A risada forçada que traria um sorriso ao rosto de qualquer um que a conhecia.
Podia lembrar perfeitamente da roupa que ela usava no dia do acidente, as calças de couro e uma camisa do The Clash. Os cabelos castanhos encaracolados estavam soltos e voavam com o vento forte da noite, enquanto ela rodava as chaves do carro em seus dedos com habilidade e um sorriso no rosto. As botas de cor escura, provavelmente marrom, reluziram em um momento por conta das luzes de um dos carros que chegava.
Então, depois de olhar-me rapidamente por cima do ombro com um sorriso, piscou um dos olhos castanhos e entrou em seu carro para a partida.
— Imagino que agora ela esteja livre como gostaria — murmurou Will, com um sorriso no rosto.
Estava prestes a puxar Will para um abraço longo e apertado, antes de jogá-lo na cama e beijá-lo por inteiro, quando alguém bateu na porta do quarto. Will girou o corpo rapidamente antes de voltá-lo à mim, confuso se deveria deixar alguém estragar o momento.
Deliberei por um instante, exausto pela sombra do passado e morrendo por sentir o calor de Will junto ao meu, afastando todos os males. No entanto, balancei a cabeça e acenei com a mão que estava tudo bem, deslizando para a ponta da cama.
— Entra — falei, alto o suficiente para quem estivesse na parte de fora, com a música, ouvisse.
Em seguida, a figura de Becca adentrou o cômodo, fechando a porta atrás de si. Franzi o cenho, focando os olhos na garrafa de vodka que ela tinha em uma das mãos.
— Será que posso ficar aqui com vocês? — perguntou com a voz arrastada e uma expressão entediada.
Rebecca não esperou uma resposta antes de cambalear até nossa cama e sentar entre mim e Will que, sem eu perceber, já havia deslizado para os pés da cama também. O vestido preto e apertado de Becca subiu até o início de suas coxas e ela balançou os pés para que o calçado de salto alto caísse no chão.
Inclinei a cabeça para trás para observar um Will tão confuso quanto eu antes de voltar o olhar para Becca, assim como ele. Ela estava virando a garrafa rapidamente, e eu percebi que toda a tensão do minuto anterior havia sumido. Bom, substituído pela tensão causada por Becca, é claro.
— Bom — disse ela, assim que abri a boca para perguntar o que diabos ela estava fazendo aqui —, acho que é melhor eu contar o que está acontecendo antes que você ouça a história distorcida de mamãe — falou ela, olhando para mim com um sorriso debochado.
Percebi que havia uma marca roxa em seu pescoço, e senti o sangue fervilhar ao perceber que era o tipo de marca que eu tinha prazer em deixar na pele alva de Will. Fechei os olhos rapidamente, ficando estressado só com a ideia de imaginar minha irmã com algum babaca.
— E acreditem — continuou ela, apontando o dedo no ar para dramatizar a situação. Abri os olhos novamente, franzindo o cenho. — Acreditem — tornou a falar, voltando os olhos cinzas para mim —, amanhã vocês, com certeza, irão ouvir!
Fechei os olhos, sequer conseguindo imaginar o que Becca havia aprontado. Ela tinha uma criatividade extensa para malandragens e pôr os cabelos de nossa mãe em pé.
— Do que está falando, Becca? — perguntei, encarando-a com temor.
— Sinto muito, Will — disse, ignorando-me ao virar o rosto para um Will confuso. — Amanhã você vai ver algo que nenhum de nós gostaríamos que visse: meu pai furioso.
Arregalei os olhos, pensando que meu pai bravo era o mesmo que a erudição de um vulcão: muito raro e muito catastrófico. O que Becca podia ter feito para despertar tal fenômeno, eu tinha medo até de pensar.
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