Made of Fire
34 IV. Composições musicais in natura
Notas iniciais
Sempre fui um grande apreciador da música, seja ela do tipo que for, desde o famoso rock and roll até músicas clássicas. No entanto, tenho um especial apreço pelas músicas naturais: o som do canto dos pássaros, do vento, do mar, dos batimentos cardíacos. Confesso que o barulho conjunto de chuva e de trovões sempre estiveram na minha lista de sons preferidos.
Depois que conheci Will, no entanto, descobri que ele produzia a melhor das músicas. O som de sua voz, de sua respiração, os resmungos no sono, sua risada gostosa e os gemidos roucos que solta quando o toco.
Will se tornou, desde então, minha música favorita.
— Turner — resmungou ele, franzindo o cenho ao chamar-me a atenção, dando batidinhas em meu ombro.
— Sim? — perguntei em resposta, passando a língua na extensão de seu pescoço logo em seguida.
Senti-me um aproveitador ao distrair Will para que descesse para a parte de baixo de Betty com o único propósito de jogá-lo na cama e arrancar gemidos de sua boca. Pode ser que tivesse inventado algo sobre a parte especial dos quartos, enquanto que o que havia de especial era o colchão confortável onde eu o deitaria.
Sequer lhe dei tempo de protestar antes de seduzi-lo até a cama. Mas não podia evitá-lo, já que, devido a uma série de acontecimentos inconvenientes, não pude afundar-me em Will por quase uma semana.
— Vai escurecer — murmurou ele, conseguindo dificultosamente afastar minha boca de sua pele. — E... E devíamos voltar logo antes de sermos comidos por tubarões! Eles ficam mais ativos à noite — resmungou, fazendo uma careta.
Afastei-me de leve, colocando o peso em minhas mãos para observá-lo. O rosto que corava com facilidade estava vermelho, bem como os lábios macios que eu havia sugado poucos segundos antes. Os cabelos emaranhados estavam espalhados na cama, de maneira cômica, em volta de sua cabeça. Sua camiseta verde já estava embolada perto de seu pescoço convidativo, e as pernas estavam abertas para que as minhas ficassem entre elas.
— Will, o único tubarão aqui sou eu. — Tratei de deixar claro, voltando a tomar seus lábios com afoito. Percebi o riso que saiu de sua boca, atrapalhando mais uma vez meu beijo.
Revirei os olhos ao vê-lo afastar-se novamente.
— Você está confundindo as coisas, professor — disse ele, fechando os braços em meus quadris com diversão. — Você não nada, você voa — esclareceu, erguendo uma das sobrancelhas.
— Ah, claro — murmurei ao sorrir, lembrando do apelido. — Sou um dragão e tudo o mais. Justo. — Então, arqueei uma das sobrancelhas. — Você será o tubarão, então!
Em um segundo, rolei para o lado, puxando Will para que ficasse em cima de mim. Então, ao vê-lo sentado em cima de meu quadril, soltei-lhe e relaxei os braços ao pôr uma mão em cada uma de suas pernas. Sabia que ele não resistiria por muito tempo, afinal de contas. Pude observá-lo olhar para cima, como se assim pudesse ver o céu, antes de voltar a olhar para mim.
Sorri largamente para os olhos verdes.
— Estamos no verão, Will. Falta bastante tempo antes de sequer começar a escurecer — esclareci, encarando o corpo delgado em cima de mim.
Will mordeu os lábios, sério, ao deliberar por um instante. Eu sabia que estava pensando em minha família e não queria chegar atrasado ao jantar para não criar mais problemas. No entanto, eu também conhecia meu garoto o suficiente para saber que ele não podia manter nossos corpos separados por tanto tempo. Assim como eu.
— Tá bom — falou de forma rápida, rindo ao tirar as próprias roupas na velocidade da luz.
Esta foi rápida, pensei ao observá-lo com humor.
Ao perceber que eu estava parado observando-o, levou as mãos até a barra de minha camisa e arrancou-a com agilidade. Antes que eu pudesse tomar a iniciativa de beijá-lo mais uma vez, Will já havia grudado seus lábios nos meus com violência. Eu sorriria se não estivesse ocupado sugando-lhe a língua e tocando toda a extensão de pele alheia que podia alcançar.
Troquei nossas posições mais uma vez ao perceber que ainda havia um samba canção em seu corpo, tratando de fazê-lo desvanecer em segundos. Observei o corpo excitado de Will ao passo que ele remexia ansioso, antes de erguer os olhos para seu rosto. Notei um sorriso malicioso em sua face ao perceber que meus olhos estavam presos em corpo nu.
— Você ainda me mata, Will — declarei, jogando-me em cima dele e ouvindo um resmungo em resposta.
— Só se for de amor — respondeu prontamente, com certo humor.
Agarrou-me com suas mãos habilidosas, e deslizou a língua afoita do meu pescoço até meu queixo, deixando um selinho em meus lábios em seguida. Ao mesmo tempo, suas mãos tratavam de desabotoar minha calça e forçá-la para baixo, junto de minha cueca.
Assim que nada havia para atrapalhar a junção de nossas peles nuas, deixei escapar um suspiro, forçando seu corpo contra mim com urgência. Will respondeu da mesma forma, levando as duas mãos para meus glúteos e apertando com força, fazendo com que nossas ereções fossem ainda mais pressionadas entre si. Soltei um resmungo contra seus lábios, que abriam de forma sedutora, tomando minha língua com afoito.
— Vou soar muito pornográfico se eu disser para você me foder agora? — perguntou ele ao se afastar um centímetro. Queria rir da sua forma de estragar o clima como sempre fazia, mas ao invés disto, um gemido rouco saiu de minha garganta.
— Vai — respondi em um murmúrio, descendo os lábios para seu pescoço e puxando seu cabelo entre meus dedos. — Mas vou atender seu pedido — emendei, abrindo ainda mais suas pernas com as minhas, resvalando minha língua em sua orelha sensível —, com muito prazer — completei em um sussurro.
Senti-o estremecer abaixo de mim e tive certeza que sua pele estava arrepiada, assim como a minha. Will soltou um grunhido quando toquei-o em sua região sensível, esfregando o corpo contra mim com mais afoito.
Em seguida, deslizei a mão que estava em seu cabelo para sua boca entreaberta, mas fui impedido. Will jogou os braços em torno de meu pescoço e puxou-me de encontro à sua boca, beijando-me quase em fúria.
— Vai logo — murmurou com impaciência, fechando as pernas em torno de mim e forçando meu membro contra si. — Não precisa mais nada, só entra logo!
Arqueei uma das sobrancelhas com humor, acatando seu pedido em meio segundo ao entrar em si e ouvindo-o grunhir de dor. Abracei seu corpo contra o meu, deixando beijos em seu rosto e acariciando os cabelos que eu havia ajudado a embaralhar. Will já havia relaxado um pouco quando comecei a mexer-me mais uma vez, ouvindo mais resmungos de dor de sua parte.
— Você que pediu — murmurei contra seus lábios, sorrindo —, apressado.
Will mordeu meu lábio inferior com força para dar o troco e, após olhares contrariados de ambas as partes, encontramos nosso ritmo em pouco tempo. Eu sentia a pele de minha tatuagem arder com os apertões de Will, mas julgando pelos olhos entreabertos e os gemidos descompassados, percebi que não o fazia de propósito.
Em seguida, deu-me a privilegiada visão dos olhos verdes ao passo que abria o sorriso mais malicioso do universo, movendo o corpo com mais sensualidade que qualquer ator pornô conseguiria. Sorri de volta, aumentando a força das estocadas ao ouvir os gemidos de ambas as partes aumentarem, também, de volume.
Esta sim poderia ser minha música predileta: aquela que fazíamos juntos.
Poucos minutos depois, havíamos desabado um contra o outro, alcançando o ápice de nosso ato de amor depois de quase uma semana sem desempenhá-lo. Will praticamente subiu em cima de mim ao deitar a cabeça em meu peito, como era de se esperar. Fazia parte de seu próprio ritual pós-sexo: rir, beijar meu pescoço e alinhar-se de maneira estranha em cima de mim.
Eu esperava que isto nunca mudasse.
— Você anda sensual demais para um anjo — murmurei contra seus cabelos, rindo de seu peito que subia e descia com dificuldade.
— De certo que sou um anjo caído — resmungou de volta com humor, roçando o nariz na pele nua de meu peito. — Nunca reagi bem a tentações.
Sorri, beijando seus cabelos e inalando seu aroma viciante. Segurei-o contra mim com toda força assim que ele tentou levantar, reclamando que seria odiado por meus pais para toda a eternidade se nos atrasássemos muito.
Apesar de saber que não iríamos nos atrasar nem que caminhássemos igual tartarugas, cedi o seu desejo com um resmungo. Vesti-me com rapidez, tomando pressa em arrumar a roupa amassada de Will em seu corpo, obtendo uma careta de sua parte.
— Assim que chegarmos, tomamos banho — declarei com um sorriso, tomando seus lábios com os meus mais uma vez. Will soltou um gemido quando suguei com força sua língua, afastando-se em um pulo. — O que foi? Você é viciante! — expliquei ao dar de ombros.
O rosto incrédulo de Will, que não sabia se deixava-se rir ou não, mudou de expressão ao descer os olhos verdes por meu corpo. Franzi o cenho, tentando entender o que havia ocorrido, até ver um sorriso largo em seu rosto. Não esperou eu abrir a boca antes de lançar-se contra mim, segurando meus ombros para que não caíssemos na cama outra vez. Beijou-me com fúria, apertando-me com força contra si.
Ora, eu não iria reclamar nem se fosse insano!
Aos poucos, a euforia foi desvanecendo-se, e o beijo tornou-se calmo, mas suas mãos ainda me apertavam com força. Will afastou-se e me abraçou, esfregando o nariz na lateral de meu pescoço.
— O que foi isso? — perguntei finalmente, retribuindo o abraço.
— Você é tão lindo quando está desalinhado — murmurou ele, ainda abraçado em mim. — Dá vontade de congelar o tempo. — Então, afastou-se ao me encarar de maneira estranha. — Eu estou muito feliz — declarou, como se estivesse surpreso ao constatar o fato.
Arqueei as sobrancelhas, surpreso com o excesso de informação.
Will gosta de demonstrar tudo o que sente com ações, sorrisos e olhares. Nunca sentiu-se confortável em dizer em voz alta o que sente, quando sente. Mesmo se eu não o conhecesse o suficiente, seria muito fácil perceber o desconforto constante quando o assunto é "sentimentos", já que Will é transparente quando se trata disto.
Afastei-me para lhe dizer alguma coisa, o que fosse para demonstrar o quanto adoro saber sobre o que se passa em sua mente, em seu coração. Combinado com sua voz, então, nem se fala. Mas me perdi no rosto corado, os olhos verdes alegres e o sorriso largo em seu rosto. Parecia haver percorrido uma maratona e ganhado a corrida.
Soltei um suspiro e limitei-me a sorrir também, escasso de palavras. Beijei-lhe o nariz perfeito, incapaz de dizer-lhe o quanto eu também estava feliz. O quanto eu estive feliz constantemente desde que ele apareceu em minha vida. Então encarei seus olhos ao passo que ele fazia o mesmo e assenti devagar, vendo-o encostar a testa na minha. Beijei-lhe as pálpebras assim que ele as fechou, ouvindo-o rir do ato.
— Vamos — sussurrei, entrelaçando nossos dedos.
Will assentiu, pegando seu casaco e o celular com a outra mão antes de seguirmos para o andar de cima de Betty.
Sentei-me na direção e percebi que Will observava o mar em silêncio ao passo que eu voltava pelo caminho que havíamos percorrido, de volta ao cais. Ensinei-lhe como se ancora a Betty de maneira segura, vendo-o assentir com os olhos atentos. Logo após, entreguei as chaves da minha bebê de volta à Stuart e guiei meu garoto pelo caminho de volta pelo píer.
Estávamos andando lado a lado, voltando pelo mesmo caminho que percorremos, quando avistei um táxi na esquina. Não iria fazê-lo percorrer metade da cidade mais uma vez, então tratei de guiá-lo até o ponto de táxi.
No entanto, ao passar pelo familiar muro imenso de cor acinzentada e escassa, deparei-me com um rosto familiar. Um rosto que eu nunca mais gostaria de ver na vida.
Diminuí o passo, pensando no que fazer ao passo que recebia um olhar confuso de Will. Disparei o olhar ao redor da rua de maneira rápida, pensando se havia algum modo de eu desaparecer com o Will antes que ele nos avistasse. Soube imediatamente que não, já que estávamos no meio da quadra e a única coisa que havia nela era o extenso muro envelhecido pelo tempo.
O homem que saía pelos portões grandes e escuros tinha o cenho franzido e checava o celular de maneira distraída. Os cabelos crespos mal apareciam, visto que ele devia ter raspado a cabeça algumas semanas antes, da forma como sempre costumava fazer. O corpo esbelto estava coberto por uma camiseta branca enorme e uma calça jeans que parecia boiar em suas pernas.
— Turner? — Will sussurrou ao meu lado, sem entender porque caminhávamos quase parando, mas não pude desviar o olhar do rosto conhecido.
O objeto de minha atenção, de pele negra e de olheiras profundas, então, ergueu os olhos verdes de seu celular e parou de caminhar ao enxergar-me.
A surpresa em seu rosto deu lugar, em seguida, por compreensão e uma pontada de contentamento. Abriu um largo sorriso debochado ao voltar a caminhar e acabar com a distância entre nós. Só então pareceu perceber a presença ao meu lado, erguendo uma das grossas sobrancelhas com curiosidade para Will antes de voltar a atenção à mim.
— Sei que tô meio chapado, mas me diga — começou ele, fazendo-me desconfortável por ouvir a voz rouca mais uma vez depois de anos. — Rich, estou alucinando ou você tá mesmo na cidade?
Inspirei fundo, relanceando um Will confuso antes de voltar a atenção aos olhos verde-escuros. O sorriso debochado ainda não havia saído de seu rosto, reluzindo diversão.
— Marcus — resmunguei, como um cumprimento. — Imagino que você não esteja alucinando, caso contrário, eu estaria também — falei, franzindo os lábios. — Apesar de ser bom vê-lo — menti, relanceando o ponto de táxi —, estou com pressa. Até mais — falei, acenando com a cabeça e puxando Will comigo.
No entanto, Marcus obviamente não deixaria a oportunidade passar. Deu alguns passos para o lado, colocando a mão em meu ombro para impedir-me e ficar na nossa frente.
— Ei, que pressa é esta? — perguntou, o canto dos lábios subindo. — Até parece que não sentiu minha falta, cara — acrescentou, com um tom falso de mágoa. — Eu certamente senti a sua, por incrível que pareça.
— Estou com pressa porque temos compromisso — falei, sem humor algum. — Agora, se nos dá licença...
Então, mais uma vez, Marcus voltou a atenção para Will com curiosidade. Desceu os olhos para a mão magra dele, segurada pela minha com força. Arqueou a sobrancelha ao piscar algumas vezes.
— O que é isto? — perguntou, mas o sorriso familiar só alargava-se em seu rosto. Em seguida, uma gargalhada escapou de sua garganta ao encarar-nos com uma análise divertida. — Você não... — começou, apontando vagamente para Will, mas mudou a fala para uma pergunta mais interessante: — Quem é este?
Os olhos atinados de Marcus exalavam uma profunda diversão, como se fosse o melhor dia de sua vida. Desviava-os de mim para Will, e de volta para mim com assíduo.
— Não te interessa, Marcus — tratei de dizer, a voz mortalmente séria. Não queria nem um pingo de sua curiosidade voltada para Will, nem agora nem nunca.
— Will — respondeu meu garoto, fazendo-me fechar os olhos antes de mirá-los nele.
Will tinha os olhos esbugalhados ao encarar Marcus. Também pudera, o homem exalava ameaça em cada poro de seu corpo, em conjunção à língua afiada e o sorriso debochado. Cada pedaço de si fazia jus ao apelido também adquirido no mesmo local em que recebi o meu: Pantera.
— Will — repetiu Marcus, o sorriso diminuindo levemente ao assentir com uma seriedade forçada. — Prazer, Marcus — disse ele, estendendo a mão sem desviar o olhar dele.
Will relutou por meio segundo antes de segurá-la com determinação, assentindo. Marcus voltou a sorrir depois de largá-la, ao encarar-me mais uma vez.
— Ora, isso é o que eu chamo de surpresa! — Levou a mão à boca, tentando esconder o sorriso. — É claro que depois da Hilary, você trocaria de time — falou, fazendo-me ficar cada vez mais nervoso. — Mas eu... — impediu-se de terminar, tornando a gargalhar. — Cara, eu não imaginaria algo assim nem em meus mais loucos sonhos! Mas eu fico feliz, hein? — Tratou de acrescentar, quando percebeu minha mandíbula cerrada. Ergueu as mãos, olhando para Will. — Que belo casal! — afirmou, voltando a forçar seriedade em seu rosto.
— E eu fico feliz que você ainda mantém esse humor estranho — emendei, vendo-o passar a língua nos lábios cheios. — Agora, temos que ir — falei, encarando Will com firmeza.
Desviei do corpo de Marcus rapidamente, sentindo o cheiro de maconha e suor que exalava dele, puxando Will comigo a passos largos. Marcus tratou de vir atrás da gente com habilidade, devido às pernas longas, já que era ainda mais alto que eu.
— Ei, cara, espera aí! — Marcus chamou, sua voz já estava me dando nos nervos. Pelo canto de olho, vi Will olhar para trás com confusão antes de olhar para mim de novo. — Espera, Rich! Faz tempo que não nos falamos!
— Não temos nada para conversar, Marcus! Vá embora — esbravejei, apertando a mão de Will para que não escapasse.
— Ei! Ei! — Marcus voltou a parar na nossa frente, há três metros do ponto de táxi. Inspirei fundo para não socar sua cara debochada. — Rich — disse ele, parecendo um pai ao chamar a atenção do filho —, isso não é forma de tratar velhos amigos — completou, adorando a própria atuação.
Apesar de tudo, eu ficava ligeiramente aliviado que Marcus estivesse usando seu humor e piadas sem graça. Eu sabia lidar com este Marcus. Com o outro, no entanto, eu sequer conseguia manter minha postura irritada.
— Não somos amigos — deixei claro, encarando as orbes esverdeadas.
— Não — repetiu ele, o sorriso diminuindo. — Por que seríamos? Agora você tem o Jay — acrescentou, com a sobrancelha arqueada. — Como tá ele, aliás? Faz tempo que não o vejo por aqui também — falou, olhando ao redor ao se referir à cidade. — Fiquei sabendo que o irmãozinho dele tá envolvido com um amigo meu... — Deixou no ar, o tom sugestivo.
Franzi o cenho, lembrando do que Jay havia comentado a respeito de Kevin. Soltei Will, sentindo a raiva espalhar por meu corpo e dei um passo em frente, podendo ver com nitidez algumas das cicatrizes no rosto de Marcus.
— O que você sabe sobre isso? — inquiri, o cenho franzido.
Marcus, pelo contrário, parecia divertir-se, mesmo sem sorrir. Deu de ombros, coçando o queixo.
— Nada — respondeu prontamente. — Só sei que Frank tá considerando o garoto pra suas entregas. E é tudo o que eu sei — acrescentou ao ver minha cara descrente. Em seguida, riu. — Você sabe que não me meto nos assuntos de Frank. Não sou suicida.
Voltei atrás no passo que eu havia dado, erguendo o braço para chamar o táxi.
Eu sabia que Marcus não estava mentindo, afinal, ninguém se metia com Frank a não ser que fosse extremamente necessário. Ele apenas gostava de se divertir à custa dos outros, o que fez meu instinto protetor querer, de maneira mais acirrada, afastar Will de Marcus o mais rápido possível.
— Táxi — chamei, vendo o senhor mais velho assentir prontamente, apontando para um dos carros ao indicar que estava livre.
— Ei, garoto — Marcus chamou Will, erguendo uma das sobrancelhas. — Não deixe Rich te trocar, ele é especialista nisto — falou, me relanceando. — Me trocou por Jay, não foi, meu amado Dragão?
Estreitei os olhos em sua direção.
— Marcus, eu juro por... — comecei, mas ele me interrompeu prontamente, ignorando a buzina do taxista.
— Quando eu te mandei sumir do mapa, não esperei que o fizesse por tanto tempo — comentou, e eu podia ver que a cena se repetia em sua memória da mesma forma que na minha. — Rich — chamou, dando um passo em frente quando desviei o olhar para Will. — Você sabe que aquilo não foi uma ameaça verdadeira, não é? — Então, forçou um riso, erguendo os ombros. — Eu te amo, cara.
Senti um calafrio subir minha espinha com sua última sentença, engolindo em seco. Não precisei olhar para Will para saber que havia um profundo ponto de interrogação em seu rosto.
Eu precisava dar o fora dali o quanto antes, ao menos para conseguir respirar novamente. Com isto em mente, tratei de voltar a caminhar, mas a voz de Marcus invadiu meus ouvidos novamente, fazendo-me parar.
— Já visitou a Hilary? — perguntou, os olhos brilhando, apontando para o portão de onde saíra. Prendi a respiração. — Depois de tudo, é o mínimo que você podia fazer, não? — perguntou, a diversão saindo de sua voz e seu rosto. — Eu tô fazendo a minha parte — acrescentou, trincando a mandíbula. — E você?
Depois de todo aquele tempo, eu podia ver que o assunto ainda o magoava profundamente. Ele podia tentar esconder com toda a ironia do mundo, mas eu sabia tão bem quanto ele a dimensão de sua devoção à Hilary.
Engoli em seco, sentindo o corpo de Will agitar-se ao meu lado com a menção do nome dela.
— Até mais, Marcus — murmurei, puxando Will pela cintura ao grudá-lo em mim, em direção ao táxi de faróis ligados.
Percebi que, desta vez, Marcus não nos seguiu. Senti o coração pesar em meu corpo, a sensação ruim que há muito tempo eu evitava voltou ao meu corpo com violência. A voz, o rosto e tudo que tinha a ver com Marcus trouxe inúmeras lembranças, as que eu houvera colocado no fundo da mente por tempo indeterminado.
— Você sabe que orquídeas são as preferidas dela — finalizou Marcus, fazendo-me girar o rosto rapidamente para ele. Estava parado onde o havíamos deixado, apenas havia virado o corpo em nossa direção. O rosto estava ausente de humor ou de qualquer emoção. Indicou com a cabeça a placa parafusada no muro de pedra. — Caso decida visitá-la.
Segui seu olhar com aflição, sabendo que Will também o fazia.
Só havia pisado neste lugar duas vezes em minha vida, uma delas por causa de Hilary. No entanto, duas vezes foram necessárias para saber perfeitamente o que dizia na placa de metal com letras imensas. Não precisava nem lê-la novamente, minha mente recordava-se com uma perfeição exagerada.
O corpo inteiro de Will retesou ao passo que seus olhos alargavam-se. No mesmo instante, puxei-o junto ao meu corpo novamente, fazendo com que seu rosto ficasse na curva de meu pescoço, para que não pudesse ler o que ali havia escrito. Apesar se fazê-lo tarde demais, ainda assim guiei-o com rapidez na direção do carro. Abri a porta traseira do táxi com agilidade para que Will entrasse, querendo afastar-me dali o mais depressa possível.
Will engoliu em seco, e os olhos piedosos hesitaram levemente ao me encarar com assombro.
— Will — falei, firme ao perceber sua hesitação. — Por favor, entra — falei, indicando a porta mais uma vez.
Will piscou algumas vezes, o rosto tomado pela cor laranja devido ao pôr do sol. Assentiu rapidamente, sem coragem alguma para me contrariar devido ao estado sombrio do meu humor. Percebi, no entanto, que Will deslizou os olhos para Marcus uma última vez antes de entrar no táxi.
Suspirei fundo, voltando os olhos uma última vez para o cara que um dia foi meu melhor amigo.
Reconhecia perfeitamente as olheiras e a vermelhidão em torno dos olhos verdes do uso excessivo de drogas, mas o cansaço na profundidade de seu olhar abatido se encontrava ali desde o que aconteceu com Hilary. Instalou-se em sua alma travessa naquela noite e nunca mais saiu, junto da mágoa.
Fechei os olhos com pesar antes de acenar com a cabeça como uma despedida, vendo-o fazer o mesmo, de forma rápida. Virou-se de costas e voltou a caminhar em sua maneira despojada, não antes que eu pudesse ver o vislumbre de um meio sorriso em seu rosto.
Engoli em seco, percebendo que fugir do passado é o mesmo que correr em uma esteira. Dá para correr o quanto quiser, mas antes ou depois, há de se parar. Mesmo que seja apenas para ver que você sequer saiu do lugar. Tudo ainda estava ali, afinal, aprofundado no olhar doído pelos sentimentos expostos de Marcus.
Marcus era a personificação em carne e osso de tudo o que eu havia feito. Esteve comigo durante todos os meus anos como delinquente e mesmo quando eu estava com Hilary, podia senti-lo comigo. Pudera, já que cada pedaço dela lembrava-me de meu irmão de alma da época.
Lembrava-me dele toda vez que a beijava, que a tocava, que a ouvia gemer. Lembrava-me de Marcus toda vez que ela se esfregava em mim na frente dele, bem como toda vez que ela me falava em sua voz encantadora que esteve a noite inteira com as amigas, quando eu sabia que era mentira.
No fim, o que nunca havia mentido para mim era ele. Eu sabia que ninguém amou Hilary tanto quanto Marcus o houvera feito. Nem ao menos eu.
Entrei no táxi rapidamente, falando o endereço de forma automática para o senhor de bigode. Ele assentiu, dando partida no carro enquanto eu encarava Will e sua expressão indecifrável.
Eu percebi que tremia apenas quando Will apertou minha mão com força, os olhos presos nos meus, como suporte. Levei nossas mãos entrelaçadas à boca, beijando-lhe as juntas de seus dedos antes de desviar o olhar. Sentia frio, subitamente, e tentava com todas as forças controlar os olhos marejados que ardiam ainda mais em minha alma.
Em seguida, girei o rosto para olhar pela janela, encarando com pesar as palavras da placa que remetiam ao extenso local atrás do muro: Mallow Coast's Memorial Cemetery*.
A figura de Marcus caminhando ao lado da extensão do muro do cemitério e acendendo um cigarro com a mão esquerda, foi o último que vi antes que o táxi virasse a esquina.
E o silêncio pesado dentro do veículo, em junção do som das rodas no asfalto e o afastado som das ondas do mar, fora a música mais triste que eu ouvira em muito tempo.
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