Made of Fire
4 III - Nunca confie em dragões
Notas iniciais
— Will? — Virei, deparando-me com os olhos castanhos de Laurel. — Está tudo bem? Você conversou com o Dragão? — perguntou, com os olhos presos nos meus.
Depois que a família Turner saiu porta afora, fiquei encarando-a por algum tempo. Podia ouvir o burburinho sobre o professor e seus irmãos ao meu lado, mas ignorei. Não conseguia tirar os olhos da entrada do Dan's. Isto é, até Laurel puxar conversa. Encarava-me com confusão.
Ah, o que era mesmo?
— Will, você está bêbado? — perguntou, com os olhos divertidos.
Bêbado?
— Não, claro que não! — falei, um pouco mais alto que devia. — Eu estou bem. Só bebi um pouco... — Olhei ao redor. Não estava bêbado. Só um pouco tonto. E confuso. Muito confuso.
— Tá bom... — Continuou a me olhar, desconfiada, antes de balançar a cabeça. — Sobre o que vocês estavam conversando? Se é que o Dragão sabe, de fato, conversar como uma pessoa decente. — Revirou os olhos, bufando antes de voltar a olhar-me com curiosidade. — O que ele disse, afinal?
Pensei um pouco a respeito. O que ele disse?
"Administração é uma das únicas certezas que tenho na vida", havia dito, com um sorriso no rosto e olhos brilhantes. Naquele momento, não havia indício de frieza nos olhos acinzentados. Pelo contrário, não o tinha visto sorrir de forma tão despreocupada e sincera antes. Bom, não o tinha visto sorrir de forma alguma antes desta noite. Foi um pouco chocante, para falar a verdade.
A última coisa que eu esperava encontrar no bar era meu professor rígido, com seus irmãos. Nunca imaginei-o fora da universidade. Nunca sequer cogitei se tinha uma família ou não. O Sr. Turner era simplesmente o professor que todo mundo detestava. Puxei conversa porque eu estava segurando vela, mas as expressões que ele demonstrava deixaram-me curioso e intrigado. Instigaram-me a continuar as perguntas.
Ao sentar do meu lado e resmungar com Dan sobre a gente enquanto bebia, parecia ser outra pessoa. Não parecia ser, nem um pouco, o professor demoníaco, apesar de haver indícios dele, como a eterna carranca em seu rosto. Tinha a camisa arremangada e os primeiros botões abertos. Piscava muito, tinha o cenho franzido e os lábios molhados.
Ele estava corado, pelo amor de deus!
Parecia deslocado fora da sala de aula, como se fosse outra pessoa. E eu não conseguia parar de pensar que isto era, de forma tão singela, incrivelmente fascinante. O Sr. Turner era fascinante!
— Vocês viram o irmão dele? — Uma voz feminina pronunciou. — Que deus grego!
— Irmão? Fala sério! — Adam fez cara de indignação, balançando a cabeça. — Como vocês sequer olharam para o Rob com a irmã deles do lado? Essa sim — disse, sacudindo o dedo indicador para todos —, é uma deusa! Gostosa pra caralho!
Laurel, que antes bebia cerveja ao me olhar com expectativa, agora parava o copo a alguns centímetros da boca avermelhada. Desviou o olhar para Adam e semicerrou os olhos castanhos. Ai, caramba!
— Não acho que ela seja tão gostosa — disse ele, aproximando-se lentamente de Adam. — Até porque, enquanto conversava com ela, prestava atenção no que dizia, e não em seus peitos! — completou, enraivecida.
Cada passo que Laurel dava em direção à Adam, este se encolhia um centímetro a mais. Abriu e fechou a boca algumas vezes, mas parecia não ter nada bom o suficiente para dizer.
Alguém pigarreou.
— Hello? — A voz cantarolada tomou forma, enquanto a moça se enfiava entre a gente. Era uma garota loira e esguia que, sinceramente, não acho que a tenha visto antes. — E o Richard? — perguntou, provocando-me certo desgosto ao chamá-lo pelo nome. — Ele pode ser um carrasco, mas honestamente, ele é muito gostoso! Duvido que não tenham percebido!
Senti o sangue subir ao meu rosto ao lembrar de seu sorriso largo e seu jeito despreocupado ao falar que adora sua profissão. Ou talvez os olhos cinzas brilhantes que se demoraram nos meus enquanto me encarava como se...
Puxei a garrafa de cerveja da mão de Gabe, enquanto este me olhava confuso, e engoli o resto do líquido que nela havia, para ver se a vergonha passava. Ou o calor de meu corpo, pelo menos.
Céus, o que diabos havia sido aquilo, afinal?
A conversa desviou para outros assuntos, como esportes, provas das próximas semanas e relacionamentos amorosos. Laurel passou o resto do tempo conversando comigo, ao ignorar completamente Adam. Pude vê-lo olhar na direção de Laurel a cada cinco minutos. Usava uma roupa escura, tinha a pele morena e era bem alto. No momento, entretanto, parecia pequeno com o vácuo de Laurel. Quase senti pena dele. Quase.
Gabe, de mau humor por motivo desconhecido, sentou e bebeu com a gente. Só então pude ver que Cenoura não parava de tagarelar com uma moça que, aparentemente, não fazia parte do nosso grupo. Tinha os cabelos escuros e a pele clara, e ria bastante das prováveis besteiras que o ruivo falava. Vai, Cenoura!
Percebi também que nem Johnny nem sua namorada estavam por ali.
— Ah, fala sério! — Então, reclamei mais um pouco com eles do casal apaixonado e de terem-me feito segurar vela. Tentativa falha de manter minha mente longe de pensamentos estranhos.
Então, lá pelas três horas da manhã, trôpegos, fomos embora. Acabamos os quatro dormindo na casa da Dona Bennet — Laurel morava ali perto e Gabe estava muito bêbado para dirigir -, estirados em sofás e em colchões na sala. Era um costume o fazermos quando bebíamos demais.
Passamos a ressaca juntos durante o sábado inteiro. Todos tentamos inutilmente fazer um bolo de chocolate, transformando a cozinha em uma bagunça. Gabe parecia estar mais tranquilo novamente, seu misterioso mau humor se esvaiu, e sorria abertamente ao fazer piadas enquanto assistíamos filmes a tarde inteira, comendo pipoca feita por Laurel.
Naquela noite, depois de ir embora, sonhei com os olhos cinzentos e os cabelos escuros do Sr. Turner. Obviamente, no entanto, isso não significava nada.
*
Domingo eu acordei com o cheiro de comida e, depois de fazer minha higiene matinal, caminhei em direção à cozinha.
Mamãe cortava um tomate, concentrada ao ouvir a rádio, sentada em uma cadeira da mesa. Tinha os cabelos escuros — agora um pouco brancos — presos em um coque e usava uma roupa simples. Ergueu os olhos castanho-esverdeados em minha direção, enquanto esboçava um sorriso.
— Bom dia, querido — disse ela, quando me abaixei para estalar um beijo em sua bochecha. — Como foi a saída de ontem?
— Foi boa — respondi, sentando ao seu lado. — Caleb não quis fazer o almoço hoje? — perguntei, lembrando das habilidades culinárias de meu irmão.
Ela balançou a cabeça.
— Está com um pouco de mal estar — disse, relanceando o relógio. — Já levei um prato com almoço para ele.
— Mal estar? — perguntei, desconfiado. De novo?
Ele devia estar é com preguiça mesmo!
— Dei um remédio a ele. Provavelmente vai se sentir melhor pela tarde — disse, sorrindo. — Will, vou dar uma passada na Nancy agora. A mãe dela está doente de novo — completou, com um olhar preocupado.
— Tudo bem.
Nancy é amiga de minha mãe já faz alguns belos anos. Tem um filho da minha idade, mas nunca nos demos tão bem. As visitas se resumiam em mamãe indo até a casa de Nancy, ou Nancy vindo aqui.
Observei-a levantar da mesa, lavar as mãos e desligar uma panela que estava no fogo.
— Não vai almoçar? — perguntei ao ver que ela já pegava sua bolsa.
— Já almocei, estava só esquentando mais um pouco a comida e cortando um tomate para vocês. Vê se guarda tudo depois de comer, viu? — Estreitou os olhos, típico da Sra. Jones.
— Claro. — Encarei-a, segurando o riso.
— Juízo! — disse ela, me provocando uma gargalhada.
Depois que ela saiu, eu almocei, guardei as coisas nos lugares e lavei a louça. Sorri ao ver a geladeira organizada. Minha mãe tinha uma nóia com a geladeira!
Me arrastei até o quarto simples e me forcei a fazer alguns dos trabalhos da faculdade para essa semana. Sentei na cama com o notebook aberto e os polígrafos espalhados, encarando cada um com uma cara de melancolia. Só quem já passou por uma crise de preguiça em momentos inoportunos, saberia o que eu estava sentindo. Que saco!
Passei a tarde inteira ali, ora estudando, ora fazendo os trabalhos, ora pensando na morte da bezerra. Comi umas bolachas ao terminar de fazer o relatório de Teoria Econômica e fechei o notebook com um suspiro. A luz do sol que entrava pela janela já havia desvanecido.
O que eu queria mesmo era assistir minhas séries. Quando será que vai sair a próxima temporada de The Walking Dead?
Ouvi um resmungo vindo do quarto de Caleb antes de sequer terminar o pensamento. Estanquei no lugar ao perceber que não havia visto movimentações suas nem para ir ao banheiro.
Oh, céus! Esqueci completamente do meu irmão.
A casa estava tão silenciosa que pensei até que ele havia saído. Levantei em um pulo e escancarei a porta de seu quarto, procurando a fonte do gemido.
O quarto de Caleb era um pouco menor que o meu e estava uma bagunça... Como o meu. Mesmo com a escassez de luz, pude ver a familiar cômoda de madeira, o guarda-roupa marcado pelo tempo, uma mesa com videogame e suas coisas do colégio. A cama ficava colada à pequena janela. Acendi a luz, relanceando a familiar pintura de estrelas e planetas no teto e parte da parede de seu quarto. Caleb estava tapado até a cabeça por várias cobertas e ao lado da cama, na mesinha, estava seu prato intocado de almoço.
— Caleb? — perguntei ao me aproximar e o descobrir devagar, com certo temor. Ouvi mais uma queixa como resposta enquanto observava sua face coberta de suor e tão pálida quanto uma folha de papel.
— Ai meu deus, Caleb! O que houve? — Entrei em desespero, checando sua temperatura em seguida. Estava ardendo em febre, como era de se imaginar. Tentei fazê-lo sentar-se devagar.
— Ah — resmungou, com uma careta. — Não, por favor... — balbuciou, com os olhos semiabertos.
Tudo bem, pensei, respira.
É provável que seja só uma gripe ou um resfriado. Ele está delirando por conta da temperatura corporal. Precisava encontrar um remédio para isto. Corri até a sala e peguei o kit de primeiros socorros que ali havia, um pano e meu celular. Enquanto media sua temperatura com o termômetro, sequei seu rosto com o pano e equilibrei o celular no ouvido depois de discar o número da casa ao lado.
Sim, podia ser apenas um resfriado. Claro que podia. Acontece que meu irmão, nos seus onze anos de vida, nunca ficou doente desse jeito. Nunca. Ele sempre foi mais saudável que todos nós juntos. Não pude evitar ficar nervoso.
Nesses momentos, eu desejava tanto estar cursando Medicina ou algo de ajuda. Já tive que cuidar dos ferimentos de mamãe, mas sempre fui péssimo com este tipo de coisa, seguindo apenas seus comandos. A única coisa em que eu sou bom é em números, o que é uma grande bosta em uma situação como essa.
Kaori veio alguns minutos depois aqui em casa, junto de sua mãe. Tia Kira disse que não devia ser nada, deu um remédio para gripe e um para febre à ele. Mesmo assim, não pude evitar pensar que podia ser alguma coisa mais grave.
Fiquei do seu lado por um tempo, observando os cabelos grudados na testa e a respiração pesada até minha mãe chegar em casa. Porém, depois que Caleb passou a vomitar sem parar e resmungar de dor no corpo inteiro, tivemos que levá-lo ao hospital mais próximo para tomar soro, pelo menos. Tio Shiori, junto com a tia Kira, nos levou até lá, já que não tínhamos dinheiro o suficiente para sustentar um carro.
No caminho, Caleb ainda balbuciava coisas sem sentido, para o meu desespero. E se não fosse só uma gripe? A febre dele não está baixando!
Devo ter falado em voz alta, porque ouvi o tio Shiori responder: — Will, o remédio para febre costuma ter efeito depois de alguns minutos ou talvez horas. Não faz muito que Caleb o tomou — disse ele, ao me olhar pelo retrovisor. — Acalme-se, estou certo que é só uma virose! — completou, sorrindo.
Assenti. Estava certo que eu provavelmente eu estava exagerando mesmo. Mamãe, apesar de ter rugas de preocupação do rosto, apenas sorriu ao me olhar.
— Está tudo bem, querido. Assim que a febre baixar e ele tomar soro, ele vai melhorar — disse ela, apertando minha mão. Suspirei.
— Will? — A voz rouca de Caleb chamou-me a atenção, enquanto este tentava levantar a cabeça do meu colo, no banco de trás do carro. — Will, não vai embora — pediu, olhando-me nos olhos.
— Claro que não. — Olhei confuso para minha mãe, com o coração apertado. Ela apenas balançou a cabeça, movimentando a boca sem fazer som: é a febre.
Assenti, mais uma vez, voltando os olhos para Caleb. Observei os cabelos molhados de suor, tirando-os de seu rosto, e as pequenas e leves sardas abaixo dos olhos. Só olhando de perto para ver, como em mim. Sorri.
Flashback on
— Will, não me deixa aqui sozinho! — Caleb pediu, com as mãozinhas estiradas na minha direção.
— Eu já volto — respondi. — Vou pegar umas bolachas. Você gosta de bolachas, não? — perguntei, tentando distraí-lo.
Nos dias ruins, ficávamos juntos no quarto dele ou no meu. Eu contava as coisas que aprendia no colégio, escutávamos músicas, brincávamos com seus brinquedos e fazíamos desenhos. Caleb sempre gostou de desenhar.
Naquele dia, nossos pais haviam brigado durante a manhã inteira, e durante todo esse período, Caleb e eu ficamos em seu quarto. Pude até ouvir alguma coisa se quebrando durante a discussão. Coloquei os fones em seu ouvido e no meu, enquanto escutávamos algum rock no volume máximo, como de costume. Caleb tinha por volta de uns cinco anos. Fazia muitas perguntas. Bom, ele sempre foi muito esperto.
Depois de buscar as bolachas e um suco, conversei um pouco sobre besteiras e acabei falando sobre o Universo. Contei tudo que sabia na época e ele se encantou. Disse que queria ser astronauta e depois de tanto falar nisto, em um sábado, ficamos o dia inteiro pintando um Universo — ou a ideia de um Universo — no teto e em uma das paredes de seu quarto.
— Quando eu for um astronauta e for lá pro universo — disse, fazendo-me rir baixinho de seu jeito de falar —, eu vou te dar uma estrela de presente, Will! — concluiu, animado ao desenhar uma estrela. — E só você vai ter uma, porque você é especial.
Flashback off
Sorri ao lembrar da versão de bolso de Caleb.
Já havíamos chegado no hospital e eu estava com um copinho plástico de água na mão, sentado junto aos meus pais postiços na entrada. Meu irmão — depois de havermos esperado horas para sermos atendidos — foi levado para ser examinado pelo médico de plantão e para fazer uns exames.
O atendimento público é uma grande merda.
Ficamos um tempo sentados ali conversando, quando mamãe voltou dizendo que, nas palavras do médico, era provavelmente só uma virose. Provavelmente! Que tipo de médico é esse?
— Ele está bem, está dormindo agora. Vai ter que ficar no soro por um tempo para repor a energia, então vamos passar a noite aqui — disse ela, um sorriso no rosto magro.
— Ah, que bom! — exclamou tia Kira, com os olhos brilhantes. — Will, querido, você vai ficar ou quer voltar com a gente?
— Não, tia. Vou ficar aqui com eles. — Beijei sua testa. — Muito obrigado.
Depois que eles se foram, nos dirigimos para o quarto hospitalar em que Caleb se encontrava. Sentei ao lado de sua cama e fiquei segurando sua mão, perdido em pensamentos. Parte do meu nervosismo se originava no fato de que estávamos em um hospital. Sempre odiei hospitais. Paredes brancas, tetos brancos, lençóis e jalecos brancos. Absolutamente tudo branco, como se preparasse a pessoa para ir para o céu.
Até onde eu saiba, a gente vai no hospital justamente para não morrer!
Passamos uma noite desconfortável ali, para minha agonia. Pela manhã, a cor já havia voltado quase totalmente ao rosto de meu irmão.
— Desculpe ter me desesperado — pedi ao olhar para mamãe, que tinha os olhos cansados. — Ele nunca fica doente, então pensei que...
— Tudo bem, Will — disse ela, sorrindo. — Podia ter sido algo grave. Eu devia ter percebido que ele estava pior do que pensava — completou, com os olhos tristes.
— Não, mãe — falei, firme —, não é culpa sua! E ele está bem, afinal — Segurei sua mão com um sorriso. Ela sorriu para mim com ternura e desviou os olhos para Caleb.
— Ele se parece tanto com você — disse ela, os olhos marejados. — Vocês têm os mesmos olhos e o mesmo rostinho. — Sorriu, emocionada. Então, completou com um murmúrio: — Nunca fiz nada mais bonito na vida.
A voz falha, repleta de amor, tinha um toque de melancolia. Minha mãe teve uma vida difícil e não tinha forma de eu entender como ainda se mantinha em pé. Seu amor por nós era algo que não se colocava em palavras.
Engoli em seco, com o coração apertado, sem saber o que dizer. Podia fazer um comentário engraçado, mas preferi apenas sorrir, querendo dizer, com o olhar, que o sentimento era recíproco.
Nos olhamos sorrindo um para o outro por um tempo, antes de ouvirmos Caleb resmungar novamente. Abriu os olhos verdes devagar e reclamou que estava com fome. Suspirei, aliviado.
— Você está um lixo, Will — disse, me olhando com a expressão divertida.
— Acredite — respondi, semicerrando os olhos —, você está pior!
Apesar de parecer melhor, Caleb ainda estava um pouco pálido, tinha olheiras escuras embaixo dos olhos e seus cabelos mais pareciam um ninho de passarinho.
Bom, se Caleb estava reclamando de fome e tirando sarro de mim, então ele estava perfeitamente bem. O médico o liberou perto do meio dia, receitando um antitérmico caso a febre voltasse e um antibiótico.
Quando chegamos na rua de casa, fomos recebidos pela família Ishikawa — nunca vou aprender a falar isto! - com um almoço pronto. Nos dirigimos ,então, para a casa de minha segunda família.
A casa amarela era bem conservada, com um jardim cheio de flores belíssimas que tia Kira sempre adorou cuidar. Sempre me senti em casa ali, talvez pelo aconchego dela, talvez pelo aconchego dos moradores. Entramos pela sala, um pouco maior que a nossa, e sentamos nos sofás de cor escura.
Tia Kira me olhou com ternura, à medida que contava a mamãe: — Will ficou muito preocupado — falou, enquanto eu me encolhia na cadeira de sua cozinha e Caleb ria abertamente, debochado. — Mas foi bom ter levado Caleb ao hospital mesmo. O pobrezinho estava delirando, Sarah. Você viu, não é? — perguntou, com aquela preocupação típica de mãe.
Tudo bem, pensei, posso levar o troféu de exagerado do ano com sucesso.
Kaori deu uma daquelas gargalhadas gostosas de ouvir ao passo que a conversa de nossas mães se aprofundava, humilhando-me, antes que eu lhe desse um empurrão. Isto apenas fez com que a japonesa risse ainda mais. Caleb estava ocupado recompondo os nutrientes com a comida da tia Kira, na sala mesmo, enquanto o tio Shiori lia um jornal.
Nos dirigimos à cozinha então, onde as pessoas normais almoçam — disse em voz alta, relanceando Caleb que revirou os olhos — e me deparei com a comida japonesa de tia Kira. Quase chorei de emoção.
— Will? — K chamou minha atenção, enquanto eu comia com gosto. — Você não foi à aula hoje? — perguntou, com a testa franzida.
— Não — respondi ao tomar uma pausa da mastigação. — Não quis deixar mamãe sozinha com Caleb. — Dei de ombros.
— Mas hoje não é sua aula com o "Dragão"? — perguntou, uma das sobrancelhas arqueadas ao soltar um riso baixo. Kaori nunca havia entendido o apelido do Sr. Turner. — Você disse que não podia mais faltar as aulas dele.
No instante que as palavras de Kaori foram absorvidas pela minha mente, parei com a colher a meio centímetro da boca e arregalei os olhos.
Ai, meu deus! Hoje é segunda!
Não teve outro jeito. Engoli a comida correndo, peguei minha mochila — na qual havia levado as roupas de Caleb para o hospital — sem pensar e corri para a parada de ônibus.
Entrei no veículo, atordoado, lembrando que os professores têm que ficar de plantão na universidade no turno contrário ao da aula. Acabei chegando na universidade quase uma hora depois. Fui até o prédio do curso, parando no balcão de entrada.
— O professor Turner está aqui? — perguntei, torcendo para que hoje fosse dia dele cumprir as horas de plantão.
— Sim, está na sala dele — disse a secretária, sorrindo com as bochechas rechonchudas. Assenti, virando em direção à escada antes de parar no lugar e olhar para a secretária de novo com um sorriso amarelo.
— E onde fica a sala dele mesmo? — perguntei, sem graça.
Corri escada acima e virei à direita do andar, me apressando em encontrar a sala 12A, como ela havia me dito. Percorri o corredor para perceber, frustrado, que a sala dele era a última à esquerda. Bufei antes de bater e abrir a porta.
A sala era bastante iluminada, percebi ao encarar as grandes janelas frente à porta pela qual passava. Havia três mesas distribuídas pelo cômodo, com computadores, pastas, livros e papéis em cima. As paredes eram brancas como em todo o prédio e havia duas estantes lotadas tanto à minha esquerda quanto à minha direita.
Pude ver dois pares de olhos estancados em mim.
— Posso ajudá-lo? — O homem mais velho perguntou, encarando-me com curiosidade. Aparentava ter uns sessenta anos, tinha um óculos redondo caído em seu nariz e usava uma roupa simples. Devia ser este o Sr. Edwards. Se tudo desse certo, seria meu professor no quinto semestre.
Ele estava em pé ao lado direito da mesa mais organizada da sala, localizada à esquerda desta. Nela, estava sentado o Sr. Turner, que me encarava com a característica sobrancelha levantada.
— O que posso fazer por você, William? — perguntou, interessado.
O homem ao lado dele assentiu, percebendo que eu era aluno de Turner, e encaminhou-se à mesa da direita. Sentou, ajeitando os óculos, e permaneceu com os olhos concentrados em um computador.
Encarei o professor, agora nervoso ao lembrar do episódio no Dan's. E de ter sonhado com ele. Bom, não lembro exatamente do que sonhei, mas aqueles definitivamente eram os olhos dele!
Balancei a cabeça.
— Eu... — Pigarreei, caminhando em direção à sua mesa. — Eu quero falar com o senhor sobre a aula de hoje — concluí, ao deslizar minha mochila pelo lado direito do ombro, puxando uma folha de papel que havia em um dos bolsos. — Eu trouxe um atestado. Meu irmão ficou internado no hospital e tive que passar a noite lá com ele.
Ao entender do que se tratava, o Sr. Turner assentiu enquanto procurava alguma coisa em sua pasta costumeira. Desta vez, usava uma camisa azul e uma gravata da mesma cor, porém mais escura, que pareciam combinar com o tom cinza do seu olhar. Havia feito a barba, observei.
— Seu irmão está bem? — perguntou ele, erguendo os olhos em minha direção. Tinha a testa franzida, como se a resposta realmente importasse.
Mexi, desconcertado, no papel em minhas mãos antes de responder: — Sim, ele está bem. — Então, sorri desajeitado. — Eu acabei exagerando, na verdade. Era só uma virose, segundo o médico, mas Caleb nunca ficou doente, então me desesperei, pensando que poderia... — Minha voz foi baixando aos poucos ao perceber que falava demais.
Que novidade, hein?
O Sr. Turner já havia tirado um papel de sua pasta, que percebi se tratar da chamada da turma, e a analisava por alguns instante. Tinha as sobrancelhas juntas ao, provavelmente, perceber o motivo de eu estar ali às três horas da tarde.
Assim que ele ergueu os olhos para mim, eu percebi que estava fodido.
— William, suas faltas já ultrapassaram os 25% — disse ele, o rosto congelado.
— Eu sei, por isso trouxe o atestado de Caleb.
Estiquei o papel em sua direção, mas ele já balançava a cabeça negativamente.
— Não posso aceitá-lo — disse ele, rapidamente. — Sinto muito, Will. O atestado serve apenas para justificar a falta, e não para desfazê-la — explicitou, para meu desespero.
Demorei alguns segundos para entender o que ele me dizia.
— Mas isto cabe ao professor! – bradei, obstinado.
Estava certo de que eu reprovaria em Gestão de Pessoas I, ou seja, não podia reprovar em mais uma matéria que fosse pré-requisito para o próximo semestre!
Pude ver em seu rosto um leve indício de compaixão antes do olhar se tornar duro. Não, ele não podia fazer isso comigo.
— Sinto muito — repetiu, sério. — Entendo que precisou faltar a aula de hoje. No entanto, não lembro de haver justificado qualquer outra falta sua. Suas notas tampouco estão boas. Não posso nem vou — reforçou, com a cara fechada — abrir uma exceção para você, William.
Cogitei seriamente a hipótese de pegar a caneta de sua mesa e enfiá-la em sua cara. Entretanto, só o encarei com a melhor cara de serial killer que consegui, sem muito esforço. O Sr. Turner apenas sustentou o olhar, com a expressão indecifrável.
Acabei esquecendo completamente a noite no bar, quando ele parecia ser uma pessoa decente. Quando parecia ser um ser humano.
Não estávamos mais em um bar, bebendo e conversando, afinal. Aquele não era um desconhecido com respostas interessantes e olhos brilhantes. Não. Era meu professor que, incrivelmente, fora apelidado de Dragão. Senti a raiva crescer dentro de mim.
Droga!
Claro que eu sabia que ele tinha razão, não sou idiota algum. A culpa de reprovar por frequência é completamente minha, já que evitei suas aulas ao máximo que podia, e quando precisei faltar, não tinha mais este direito. Mas isto era irrelevante no momento. Eu tinha que culpar alguém e, sinceramente, o ar de arrogante do imbecil simplesmente pedia por isto.
— Certo — falei, sem esconder minha raiva.
Ora, ele já lidava com o ódio da maioria dos alunos, podia lidar perfeitamente com o meu também. Com isto em mente, virei as costas, caminhando com destreza em direção à porta.
— Nos vemos no próximo semestre, William — disse ele, quando eu abri a porta para sair.
Ai. Meu. Deus.
— É Will! — grunhi, entredentes, antes de bater a porta sem delicadeza alguma.
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