Made of Fire

32 II. Mais evoluídos que tecnologia


Notas iniciais
Gente linda, gente boa, gente bela! Oilá :3 1. MoF recebeu mais uma recomendação! Muuuuito obrigada, Mililika, SUA LINDA! ♥ 2. Gente, não tinha dito o nome da cidade deles anteriormente, mas é Hybridfield. (eu e meus nomes de cidades, tsc tsc) 3. Leiam as notas finais, seus lindos! Boa leitura! *-*

Meus olhos, após o choque, voaram para Turner, que manteve o garfo a meio caminho da boca quando parou. Um segundo depois, terminou sua tarefa, fazendo-me voltar a atenção para Rob, que tinha um semblante pensativo.

— Você já visitou Mallow Coast? — Ele perguntou, depois de eu ficar encarando-o com a boca aberta. — Tenho a impressão que já te vi antes...

— Eu... — Pisquei algumas vezes ao mexer em minha comida com o garfo. — Eu já. Eu vim. — Pigarreei antes de relancear Turner, que tinha o cenho franzido ao encarar seu prato. — Eu vim em uma excursão da faculdade uma vez.

Olhei ao redor, percebendo que tinha toda a atenção dos presentes em mim. Frederich estava na extremidade esquerda da mesa e Isobel na extremidade contrária. Becca e Rob estavam, respectivamente, sentados em frente à mim e à Turner. Ao lado dele, estava Rose de frente para Finn.

Engoli em seco, tratando de ocupar minha boca com comida. Muita, muita comida.

— É mesmo? — Rob perguntou, pensativo. Deu de ombros logo em seguida, continuando a comer. — Então devo ter te visto por aí.

— Que faculdade você faz, Will? — Foi a vez de Becca perguntar-me e, por sua expressão pensativa, imaginei que também estava alcançando a memória do bar em que nos vimos da primeira e última vez. — Não chegou a contar ainda.

— Eu estudo na Hybridfield University — limitei-me a responder, balançando a perna incessantemente.

— HFU? — Frederich perguntou, surpreso. Em seguida, voltou sua atenção para Turner. — Foi lá que se conheceram?

— Essa é a universidade em que você trabalha, não é, querido? — A mãe perguntou quase junto ao pai, fazendo com que Turner assentisse com a cabeça, sem nada dizer.

Ele estava entrando em pânico. Óbvio que estaria.

Se ele estava entrando em pânico, será que essa seria a deixa pra eu entrar também?

— Eu devia saber — disse Rob, gargalhando em seguida. — Não havia maneira alguma no mundo que Rich saísse para conhecer pessoas. Óbvio que conheceria alguém no seu ambiente de trabalho — concluiu, rindo junto de Becca. — Caretão.

Os olhos cinzas que tanto me derretem acabaram por fuzilar Rob ao passo que o mesmo ria.

— Que curso você faz, Will? — Isobel perguntou, focando os olhos azuis em mim.

Bastou a simples pergunta para que eu soubesse: agora é o momento certo para eu cair no chão e me fingir de morto.

— Administração — murmurei, no entanto, tão baixo quanto podia. E ainda mais baixo foi o volume dos sons de pratos, talheres e vozes que se seguiu.

Forcei um sorriso, erguendo o rosto de meu prato. Os primeiros olhos com os quais me deparei foram os de Becca, bem a tempo de ver sua expressão mudar. Ela havia se lembrado.

— Você não está falando sério — murmurou Isobel, cortando o silêncio antes que sua filha o fizesse. A expressão da mulher mais velha mudara pela primeira vez, tornando-se rígida. Engoli em seco, mais uma vez.

— Você estava no bar! — Becca proferiu, os olhos fixos em mim. — Não estava?

A sentença de Rebecca foi o que bastou para que Rob deslocasse os olhos azuis da irmã para mim, para Rich e de volta para a irmã. Três vezes o fez antes que seu queixo caísse.

— Você estava no bar? — Rob finalmente perguntou. — Você não estava no bar — murmurou, relanceando a irmã, confuso. — Ele não estava no bar. Eu lembro dos alunos que jogaram com a gente e Will não estava.

— De que bar vocês estão falando? — Frederich pronunciou-se, sério, ao passo que deslocava os olhos por todos os presentes.

— Will não estava jogando, Rob — explicou Becca, ignorando a pergunta do pai. — Ele ficou no balcão, bebendo. — Em seguida, como se uma luz brilhasse em sua cabeça, arqueou uma das sobrancelhas de maneira sugestiva. — Exatamente para onde Rich se deslocou quando começamos a jogar, com sua famosa dor de cabeça.

Eu não precisaria ser muito esperto para saber que eu parecia um patinho assustado. Aliás, eu não precisava ser nada esperto, bastava me conhecer. E eu já me conhecia o suficiente para saber que minhas órbitas quase saltam do lugar quando estou assustado, mesmo que eu tenha ciência disto. Porque mesmo sabendo e mesmo querendo, eu sei que não consigo evitar o infortúnio de ocorrer.

— O quê? Como você lembra disso? — Rob perguntou com o cenho franzido, incrédulo.

— Não esqueceria desses olhos verdes nem se eu quisesse — disse ela, sorrindo para mim antes de piscar um dos olhos cinzas.

Rob riu alto, me encarando também. No entanto, a sentença que saiu da boca da Sra. Isobel fez com que o silêncio reinasse na mesa, mais uma vez.

— Me diz que ele não é seu aluno, Richard — disse ela, os olhos presos nos do filho. — Me diz que você não foi tão irresponsável a ponto de se envolver com um aluno.

O tom mortalmente sério de sua voz, apesar de não haver gritado, fizera com que um calafrio, nem um pouco bem-vindo, subisse por minha coluna. Rob e Becca imediatamente pararam de sorrir, como se recém percebessem a gravidade da situação.

Nem sequer ousei virar o rosto para onde Isobel ou Frederich se encontravam. No desespero de encarar qualquer coisa que fosse segura, dei-me conta de que Finn e Rose, os empregados, também estavam na mesa. Tão quietos e respeitosos quanto múmias.

Desta forma, também percebi que Turner não houvera falado sequer uma palavra até o momento, e grudei os olhos em seu rosto tenso. Não parecia nervoso, mas irritado. Tinha o maxilar cerrado, a expressão de poucos amigos e o punho cerrado ao lado do prato. Não houvera comido praticamente nada.

— Sim — disse, sorrindo com escárnio, o que me levou ao segundo arrepio sinistro do dia —, suponho que eu seja irresponsável a este ponto. — Então, relanceou Becca com um sorriso mais ameno. — Não é a única que não pôde escapar dos olhos verdes, Rebecca. — E, como se nada houvesse acontecido, Turner levou o copo de suco à boca de forma tranquila.

Já tenso o suficiente, tratei de parar de fingir que comia e levei ambas as mãos ao meu colo. Já nem tinha ideia de que tipo de expressão havia em meu rosto, mas não fiz questão de saber. Com certeza, não devia ser um de meus melhores momentos de beleza.

Mas talvez fosse uma de minhas melhores caretas.

— Isso é permitido? — Interrompeu Frederich o silêncio, de forma mansa, como se não quisesse disparar o gatilho de instinto homicida de ninguém na mesa. Parecia preocupado.

— Não acho que seja crime — murmurou Becca, dando de ombros ao levar o copo à boca.

— Claro que não é crime! — Rob interveio, incrédulo, balançando a cabeça como se achasse ridícula a sentença da irmã mais nova.

— Mas também não é ético — disse Isobel, limpando a boca com o guardanapo e jogando-o na mesa, irritada. — Eu não criei meus filhos para serem antiéticos. — Dito isso, desviou os olhos de Turner para Becca, fuzilando ambos com o olhar azul.

Becca devia ter aprontado alguma coisa afinal, ponderei quieto.

— Querida... — Começou Frederich, mas fora interrompido por Turner.

— É sério? — Turner anunciou-se, também soltando os talheres, uma ruga enorme entre suas sobrancelhas escuras. — Você está preocupada com ética agora?

— Sempre me preocupei com isto — proclamou, séria. — Sempre me preocupei com tudo que meus filhos fazem. Carreira, estudos, vida amorosa, futuro. — A voz, geralmente gentil, passou a alterar-se aos poucos. — Mas principalmente com o caráter de vocês. — Balançou a cabeça, desgostosa.

— É um pouco tarde para se preocupar com meu caráter, não acha? — Pude jurar que uma veia saltava na testa do meu professor. Fechei os olhos por um instante, não querendo ver o rumo da discussão.

— Nunca é tarde! — Exclamou ela, estreitando os olhos. — Rich, pense um pouco... Você poderia jogar sua carreira no lixo por conta disto — Em seguida, focou os olhos no marido em busca de apoio, do outro lado da mesa. — Fred?

O Sr. Turner mais velho piscou algumas vezes, o olhar variando entre nós três. — Olha, eu só acho que devíamos... — No entanto, fora interrompido pelo filho mais uma vez.

— Tenho certeza que teria sido ético ficar em casa, cuidando da mãe doente e criando as irmãs, não teria? — Turner manifestou-se, a voz dura, com os olhos na mãe. — No entanto, se você não houvesse sido ousada o suficiente para fugir da Alemanha e perseguir seus sonhos... Nem eu, nem Rob e nem Becca estaríamos aqui hoje. Não é verdade, mãe?

Arregalei os olhos, remexendo-me na cadeira.

— Não fale do que não sabe! — Isobel exclamou após o choque, o rosto vermelho, levantando-se. — Como ousa? Você não faz ideia, Richard! Você não sabe nem metade do que eu passei para chegar aqui, não tem ideia do que ocultei de vocês para a sua segurança. Para protegê-los! — Isobel passou as mãos em sua saia para ajeitar-se. No entanto, a voz trêmula a denunciou, fazendo-me perceber os olhos levemente marejados.

Oh, droga.

— Mãe... — Turner começou, claramente arrependido, mas fora interrompido.

— Depois de tudo que aconteceu e de tudo que eu e seu pai fizemos por você — disse ela, a voz embargada. Limpou uma lágrima que estava prestes a sair, ajeitando a postura como a dama que era. — Você aparece aqui para me insultar!

— Me desculpa, mãe — disse Turner, levantando-se da mesa também. — Eu não quis insultá-la de maneira alguma, eu só estou tentando dizer que Will não...

— Eu tenho vários motivos para me orgulhar de vocês três, Richard. Vários. Mas não pode me dizer que eu não tenho razão em ficar com um pé atrás devido as inconstâncias no caminho turvo que vocês tomam. — Dito isto, relanceou Becca com os olhos estreitos antes de voltar para Turner. — Porque vocês com certeza já me deram motivos para me preocupar com suas decisões, e com o motivo por detrás delas. Vários! Tantos que eu nem sequer poderia contar.

— Izzy... — Frederich tentou impedi-la novamente, fracassando.

— Este garoto é seu aluno! — Isobel falou em voz baixa, gesticulando com exasperação. — Depois de tudo, era só o que faltava você fazer — disse, balançando a cabeça com incredulidade. — Só o que faltava, realmente. O que você está pensando, Richard? — Turner suspirou, colocando as mãos na cintura e me relanceando. — Eu pensei que seus anos de traquinagem haviam passado! Isso é uma crise que está tendo?

— É claro que não! — Exclamou ele, fazendo-me estremecer. — Será que a senhora pode me deixar falar?

— Esse é o problema. Eu já te ouvi falar, Rich — declamou ela, os olhos piedosos. — É como se eu tivesse voltado no tempo! — Turner suspirou, abrindo a boca para responder, mas fechando-a em seguida. — Já ouvi você dizer que não faria faculdade, já ouvi você dizer que não largaria as drogas, já ouvi você dizer que não voltaria para casa... — Parou, piscando algumas vezes. — Como era mesmo? — Voltou a perguntar, o semblante pensativo. — Ah, sim. Não voltaria para casa nem que os céus desabassem! — Turner passou as mãos pelo rosto, incrédulo. — Sim. Sim, eu me lembro disso. Também ouvi você dizer que...

Pela expressão no rosto de Turner, ele não devia ouvir nada a respeito de seu passado há anos.

Turner, pela primeira vez, parecia exposto. O semblante preocupado e arrependido ao observar a mãe, os ombros tensos, as mãos cerradas. Estava exasperado. Cada pedaço de seu rosto tenso denunciava a vulnerabilidade na qual ele se encontrava, como um garoto. E pela primeira vez, pude enxergá-lo como um filho. Como um irmão. Como parte de uma família além da família que ele e Jay constituíam. Pela primeira vez, pude realmente imaginá-lo em seus "anos de traquinagem", como a mãe houvera mencionado.

Desviei os olhos para o restante do pessoal, todos encarando a mesa sem nada fazer. Frederich tinha o semblante completamente sério, sendo uma má novidade para mim. Rob tentou um sorriso em minha direção, imaginei que com o intuito de amenizar o clima, mas não funcionou.

— ... por causa de Hilary? — O nome feminino, que eu nunca ouvira antes, trouxe-me de volta à conversa. — Essa foi a maneira que você encontrou para lidar com isto, encontrando um aluno jovem para se envolver?

Franzi o cenho, disparando os olhos entre os dois.

— Mãe! — Turner olhou-me rapidamente antes de voltar à Isobel. — Não entre nesse assunto, por favor. — Apesar de pedi-lo, a voz dele continha certa advertência.

Isobel, com as mãos na cintura, interrompeu-se ao perceber o estado de espírito do filho. Quando passou-se mais de dez segundos, deu para perceber que ela não continuaria o discurso. Havia desviado os olhos azuis de seu filho mais velho para mim, pousando-os ali, como se recém se desse conta de que eu estava presenciando a discussão. Tentei desviar o olhar, mas estava concentrado demais em minhas teorias que sequer tive forças de fazer algo mais além de fitá-los com cara de peixe morto.

Hilary seria uma ex namorada, não? E para ser mencionada, devia ser importante.

Isobel soltou um suspiro pesaroso, parecendo exausta. Estava bastante claro – para mim, ao menos – que ela havia acumulado muitos infortúnios por muito tempo, a ponto de eclodirem. Suponho que Turner ligar o foda-se para o mundo com o objetivo de envolver-se com um aluno tenha sido a gota d'água. O arrependimento em seu rosto, no entanto, chamou-me a atenção.

— Perdão... Will. — Isobel falou, a boca em uma linha fina. — De novo, não é nada contra você. São as ideias absurdas que meu filho...

— Will — interrompeu Turner, a voz dura mais uma vez. Claramente, não fora uma boa ideia trazer sua ex para a discussão. — Venha, vamos dar uma volta — proferiu, estendendo uma das mãos para mim.

Deliberei, nervoso, ao desviar os olhos pelos rostos dos demais.

— Rich, isto não é necessário — falou o pai, levantando-se também. — Vamos conversar.

Pronto, o almoço foi para as cucuias de vez!

— Will — repetiu Turner, me olhando com convicção —, venha.

— Não se atreva a levantar, Will! — Becca proferiu, alterada, antes que eu me levantasse. Podia ver pela vermelhidão em seu rosto que estava tão irritada quanto Turner.

— Becca... — A advertência na voz de Turner teria feito qualquer um encolher-se, mas não era o caso de sua irmã.

— Está feliz? — Becca soltou, antes que Turner terminasse sua sentença. — Rich, você está feliz? Está apaixonado? — Como ele manteve-se em silêncio, ela desviou os olhos para os pais. — Acho que esta era a única pergunta que devia ter sido feita e ninguém se atreveu a perguntar. Acho besteira se preocuparem com a carreira de Rich, sendo que nem ao menos ele está preocupado. Não acho que meu irmão, sendo careta do jeito que é, arriscaria seu emprego se não amasse Will. — Remexi-me na cadeira mais uma vez, vendo Becca voltar os olhos para Turner. — Você o ama, não é?

— É claro que sim — respondeu ele, sem sequer piscar.

— Está resolvido, então. O drama mexicano pode acabar agora — disse Becca, indicando a mesa com uma das mãos. — Podemos voltar ao almoço antes que esfrie? Tenho certeza que Rose colocou todo seu amor nesta comida, já que temos o primogênito de volta à casa — disse, colocando certa ironia em "primogênito". — Não é, Rose?

Rose, a mulher magra de sorriso simpático, assentiu rapidamente, nervosa.

Imaginei que Turner ou Isobel se recusariam a voltar ao almoço depois de tamanha confusão, mas estava errado. Mesmo contrariados, alvos do olhar insistente de Rebecca e questionador de Rob, ambos sentaram-se em seus respectivos lugares. Turner passou uma das mãos por meus cabelos antes de acomodar-se em sua cadeira.

Pasmo, pensei que minha família não era tão evoluída quanto a de Turner, e nem nunca seria.

— Me desculpa — sussurrou Turner ao aproximar um pouco seu corpo de mim.

Assenti, ainda desnorteado com toda a informação. Não me era difícil compreender como tudo houvera acontecido. Como tudo houvera voltado ao normal com uma simples reprimenda de Becca, no entanto, era outra história.

Sim, o ar tenso ainda pairava em nossas cabeças e sim, os olhares silenciosos trocados entre todos os integrantes eram ainda mais visíveis. Mas tudo houvera sido parcialmente resolvido.

Era inacredivel! Era, no mínimo, inacreditável.

— Inacreditável — verbalizei assim que ficamos sozinhos, balançando a cabeça.

— O que é inacreditável? — Turner perguntou, o cenho franzido, indicando-me o caminho.

O almoço não houvera prosseguido em silêncio, como eu imaginei que ocorreria. Pelo contrário. Assim que Robert puxou um assunto sobre a empresa dos pais, vários outros assuntos se seguiram, impedindo que o silêncio desconfortável reinasse na mesa. As perguntas direcionadas a mim continuaram a ser feitas: sobre minha família, sobre meus amigos, sobre meu relacionamento com Turner. No entanto, a faculdade não fora mencionada mais nenhuma vez.

Isobel, se continuava constrangida pela discussão, não deixou transparecer. Turner tampouco, forçando sorrisos e tratando de comer seu almoço anteriormente intocado.

Me ofereci, no desespero praticamente, para ajudar com a louça depois que o almoço houvera acabado. Rose, no entanto, não permitiu que eu sequer chegasse perto da cozinha. Em uma conversa acirrada que os dois filhos começaram com o pai em uma das salas de estar, Isobel acercou-se de mim e pôs a mão em meu braço.

Perdão, Will, pelo que ouviu — dissera, os olhos azuis tomados de culpa. — Eu não devia ter começado esta discussão durante o almoço. E não quis, de maneira alguma, ofender você — completou, forçando um sorriso. Limitei-me a assentir, dizendo que ela não tinha o porquê de se desculpar comigo.

Apesar da sinceridade em sua voz, imaginei que ela não voltava atrás no que dissera ao filho. Ainda parecia achar que o envolvimento de Turner comigo era um erro, mas não queria descontar em mim, porque era um erro do filho e não meu. Ao menos, foi o que me pareceu. Me perguntei se, caso eu não estivesse presente durante a discussão, ela também teria se arrependido. Imaginei que a resposta seria não.

Turner pegou-me pela mão e mostrou-me o resto da casa, incluindo o espaçoso pátio atrás da mesma. Tive certeza, então, de que eu estivera certo. A casa se estendia bastante para trás, com diversos cômodos que eu nem sabia para que serviam. Era como se tivesse, pelo menos, umas seis salas de estar antes de chegar ao pátio.

A piscina imensa houvera-me deixado ainda mais nervoso que o pensamento de que aind havia o segundo andar para conhecer.

— Inacreditável como vocês lidam com desentendimentos — expliquei, vendo o cenho de Turner franzir. — Na minha família, se uma discussão dessas tivesse ocorrido, nunca que o almoço seguiria de maneira normal. Ficaria cada um emburrado em seu canto, isso se ninguém perdesse a fome — contei, indignado.

Estávamos passando ao lado da piscina, em um caminho bonito de pedras beges. Turner riu alto, desviando de uma das plantas de sua mãe.

— Não sei, aqui sempre foi assim... Bom, creio que o assunto só não morreu por respeito à você, na verdade — disse ele, o semblante pensativo. — Mas mesmo assim, teríamos permanecido na mesa — contou, com convicção. — Quando éramos crianças e nos emburrávamos fácil, não era permitido que déssemos as costas. No almoço, na janta, em eventos. Em lugar algum — falou, olhando-me nos olhos. — Era uma regra. — Em seguida, chutou uma pedrinha com o olhar perdido. — Talvez por isso eles tenham se magoado tanto comigo. Depois de adulto, eu dava as costas para eles o tempo todo.

O tom de mágoa na voz de Turner atingiu meu estômago, que se revirou. Não era mágoa com sua família, mas consigo mesmo, pude sabê-lo por sua expressão dolorida.

Estávamos quase na porta, para voltarmos a entrar dentro de sua casa, quando peguei sua mão na minha. Apertei-a como apoio, vendo um sorriso lindo espalhar por seu rosto.

Entendi em pouco tempo a simplicidade da qual Turner mencionara antes. Apesar de perfeitamente limpa, organizada e bonita, a casa não dispunha de móveis que saem das paredes com controles remotos ou de imensos lustres no teto. Os móveis eram simples, provavelmente comprados nas mesmas lojas que minha mãe compra, apenas a quantidade dele eram grande, devido ao tamanho da casa. Tudo estava impecável, mesmo sem a compreensão de que viríamos.

Assim que chegamos ao segundo andar, Turner mostrou-me rapidamente os quartos dispostos por ali. Explicou-me que, embora Rob e ele já não morassem com os pais, seus quartos ainda estavam intocados desde que saíram. Logo que abriu a porta de seu antigo quarto, jogou nossas malas ao lado da cama de casal.

— Sim, Will — disse, insistente, quando reclamei. — Você vai dormir aqui comigo, sim. — E não pude sequer abrir a boca para resmungar, porque sabia que não adiantaria.

O quarto espaçoso lembrava mais ou menos o quarto que Turner dispunha em seu apartamento, só que quatro vezes maior. Haviam traços de sua infância nos brinquedos em uma estante, nas fotografias em cima da cômoda e nos desenhos infantis que haviam em uma parede. O desenho estava disposto em cima de uma cor azulada e fraca, mas o resto do quarto era pintado na cor bege.

— Sempre moraram aqui? — Perguntei, os olhos presos no desenho de carrinhos, animais e bonequinhos, estes últimos deviam representar a família.

— Nos mudamos quando eu ainda era criança — murmurou Turner, ocupado ao desocupar sua mala. — Não lembro da mudança, mas lembro vagamente da casa anterior. Por quê? — Perguntou-me, erguendo o olhar de suas roupas perfeitamente dobradas.

Ainda de frente para a obra de arte na parede, havia girado o rosto para mirar o seu. Sorri, apontando para o desenho.

— Ah — disse ele, coçando a barba, o rosto envergonhado. — Meus pais vivem reformando a casa, aliás, boa parte do que lhe mostrei nem existia alguns anos atrás. Esse quarto foi pintado umas cinco vezes, mas minha mãe nunca quis cobrir esses desenhos vergonhosos — disse, sorrindo. — Ao contrário de Jay, nunca tive talento para desenhos. Nem quando criança — explicou, rindo alto. — Devo te dizer que, quando eu desenhei nossa família, eu devia ser uns cinco anos mais velho do que parece.

Arqueei as sobrancelhas, desviando a atenção para a parede mais uma vez, rindo também. Então, desviei o olhar para a parte de cima do mesmo, onde havia um enorme painel de fotos. Estranhei o fato de estar quase vazia, havendo algumas fotos com a família e outras com Jay, ao lado de pessoas parecidas consigo, que julguei ser a família do artista.

Franzi o cenho, tendo a certeza, mesmo sem saber como, de que haviam mais fotografias e memórias pendurados ali.

— Desculpa, Will — murmurou ele, fazendo-me girar o rosto novamente. — Por minha mãe — completou, uma careta agoniada.

Aproximei-me até estar de frente para ele, observando o rosto que tanto amo. A janela estava parcialmente aberta, deixando metade de seu rosto coberto pelo sol, os olhos parecendo mais azuis do que cinzas devido à luz. Os cabelos castanhos e curtos estavam um pouco bagunçados, talvez devido à viagem também. E a barba rala já não estava tão rala, deixando-o sexy.

Mais sexy, completei mentalmente.

— Mães podem ser complicadas — falei, sorrindo ao lembrar de minha discussão com a minha. Percebi um sorriso discreto em seu rosto também, provavelmente lembrando do mesmo.

— Sim, elas podem ser complicadas — concordou, passando uma das mãos por meu rosto. — Mas estou muito feliz de ter te trazido comigo.

Em seguida, com um movimento rápido, puxou-me pela cintura, fazendo com que meu corpo grudasse no seu. Riu perto de meu rosto, provocando cócegas em meu nariz. Juntei-me a ele, acabando com nossa distância em um segundo ao grudar meus lábios nos seus. Deixei um suspiro escapar ao sentir sua língua na minha, incrédulo comigo mesmo. Só passara algumas horas sem beijá-lo e já podia praticamente derreter-me entre seus braços. Idiota.

O beijo foi lento e calmo, assim como a mão que Turner usara para acariciar meus cabelos desgrenhados. Sorri ao perceber o gosto de suco de laranja no beijo, lembrando que não havíamos escovado os dentes ainda.

— Foram o que, oito horas sem te beijar? — Ele perguntou ao se afastar minimamente. — E eu já estava com saudades.

Ri com o pensamento semelhante ao meu, abraçando seu corpo. Ficamos assim por um tempo, até minha mente começar a voar para lugares indesejados de encontro com as minhas cordas vocais.

— Tenho algumas perguntas. — Deixei escapar, ouvindo quase que imediatamente um suspiro em meu ouvido. Afastei-me de si, focando a visão no belo rosto de Turner a tempo de ver uma ruga formar-se entre suas sobrancelhas. Ao perceber minha expressão, ele revirou os olhos, mas não deixei com que saísse um "Will" agoniado de sua boca. — Por favor!

— Tudo bem — resmungou, emendando assim que eu abri um sorriso animado: — Mas você tem perguntas e eu tenho condições.

— O quê? Não! — Tratei de resmungar em resposta, incrédulo. — Não é justo! São apenas perguntas simples!

— Então serão condições simples — retrucou ele, as mãos nos quadris. Arqueou uma das sobrancelhas com um sorriso. — É pegar ou largar, anjo.

Estreitei os olhos com o apelido carinhoso, soltando uma série de impropérios mentalmente. Ele sempre usava esse tipo de coisa em argumentos, para me desestabilizar propositalmente. Isso quando não começava a beijar meu corpo para me distrair.

— Está bem — resmunguei, revirando os olhos e dando um leve empurrão em seu ombro.

Turner sorriu, fazendo com que eu me espelhasse nele logo em seguida. No entanto, piscou rapidamente, esfregando uma mão na outra, parecendo subitamente animado. Franzi o cenho.

— Então vamos — falou, colocando um dos braços envolto em minha cintura e começado a caminhar junto a mim em direção à porta. — Você pode fazer as perguntas no caminho.

— Onde vamos? — Permiti-me perguntar, confuso.

Turner abriu a porta do quarto, puxando-me com ele para o corredor de forma rápida. A visão de sua cama, com minha mala fechada ao lado e sua mala aberta em cima, foi o último que vi antes que ele fechasse a porta. Virou-se para mim, com uma expressão divertida.

— Quero te levar para um lugar especial — disse, um sorriso genuíno cobrindo sua face gradualmente.

Notas finais
No próximo capítulo, todos iremos para um lugar especiaaaal! Yey! E aí, acham que o Rich vai responder as perguntas curiosas do nosso Will? É de se ponderar, né não? Hahhaha Gente! Queria compartilhar que, por acaso, encontrei um ator que eu não me importaria se fosse a representação do Rich gato aqui! Em Final Girl, um filme bizonho do ano passado, tem um ator (o principal), que com o terno e a expressão séria me lembrou do Turner omg! Hahahhaa Pra quem quiser checar: Wes Bentley, um gostoso! Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! *O*