Made of Fire

33 III. Meu lugar especial é você


Notas iniciais
Como tem leitores novos, vou colocar o link aqui de "Lucca", meu outro xodó de fic, caso se interessem: https://fanfiction.com.br/historia/728013/Lucca/ Boa leitura! *-*

— Você não vai me contar mesmo?

Caminhávamos lado a lado, percorrendo ruas e caminhos pelos quais cansei de andar durante meus anos em Mallow Coast. A cidade infernal, onde passei os piores e alguns dos melhores anos de minha vida. Meu lar.

Apesar de Mallow Coast ser uma cidade grande e populosa, na maior parte do ano ela esvaziava. Turner Imóveis podia não ser tão famosa ao redor do mundo, mas era a maior empresa da cidade. Talvez o fato se justificasse por ser uma cidade praiana e boa parte dos habitantes não moravam, de fato, no litoral, apenas tinham casas por ali.

Início, meio e fim de ano, no entanto, bem como feriados e datas especiais, a cidade na qual eu cresci minava de gente. Era o caso, percebi, quando alguém esbarrou em meu ombro ao espremer-se nas ruas do centro da cidade.

Eu apontava para alguns lugares que costumava frequentar, como as indústrias de fast food, os bares, a biblioteca. Conhecia Will o suficiente para saber que devia enchê-lo de informações, já que ele se alimentava disso. Sorri, observando as faces vermelhas devido ao calor do verão. Podia perceber pela forma como levava os dedos à boca e disparava os olhos ao redor, que Will estava coberto de curiosidade.

— Relaxa, Will — falei, puxando sua mão para enlaçá-la na minha. — Já estamos quase lá.

Pude ver, de relance, o beiço familiar formando-se em seu rosto de forma involuntária, antes que ele levasse, mais uma vez, a mão à boca. Parei de caminhar e soltei sua mão esquerda rapidamente para que pudesse segurar o pulso contrário e puxá-lo para baixo. Observei uma expressão incrédula formar-se em seu rosto.

— Você vai acabar se machucando — expliquei, erguendo sua mão para meu rosto. A pele acima das unhas estava machucada, devido à sua mania de puxá-las com os dentes, já que não haviam mais unhas para roer. Revirei os olhos, apertando sua mão na minha mais uma vez.

— É mania, tá bom? — disse ele, estalando a língua. — Não posso controlar. E você não ajuda, fazendo todo esse mistério!

Ri alto, puxando-o pela cintura e grudando seu corpo no meu ao voltar a caminhar.

— É meu lugar preferido na cidade — contei, para ver se acalmava o garoto curioso. — Onde meus problemas não alcançam — completei, com um sorriso.

Will encarou-me com certa suspeita, desviando o olhar de mim para a esquina que dobrávamos. Franziu as sobrancelhas, os olhos disparando por onde podiam alcançar.

— A praia? — perguntou, percebendo a direção em que estávamos indo.

— Mais ou menos, sim — murmurei, passando meus dedos pelos cabelos claros.

Will pareceu dar-se conta de nossas mãos entrelaçadas apenas quando o puxei para atravessar a rua, os olhos verdes iluminando-se à medida que um sorriso espalhava por seu rosto. No entanto, para variar, sua expressão mudou, tornando-se cautelosa. Riu nervoso.

— Sobre minhas perguntas... — começou ele, fazendo-me erguer a cabeça para o alto e grunhir audivelmente. — Ei, eu sou curioso — disse, revelando o que eu já sabia. Não pude impedir a risada que saiu de mim, fazendo-o rir também, incrédulo.

Eu amo esse garoto, pensei ao observar as bochechas coradas, agora de constrangimento.

— Eu sei que você é, Curious Will* — falei, mudando a voz ao lembrar do desenho. Ouvi a risada de Will também, quando escorou a cabeça em meu ombro.

— Então, sua mãe é alemã? — perguntou finalmente, passando um dos braços por meus quadris ao caminhar devagar.

Fiquei ligeiramente aliviado com a pergunta simples, suspirando ao deixar um beijo no topo de sua cabeça.

— Ela é — murmurei, sabendo que cada detalhe da mulher que sempre admirei demonstrava claramente sua descendência. — Ela vem de uma família pobre, ao contrário do meu pai, e é a mais velha de suas irmãs. Sempre sonhou alto, querendo sair da cidadezinha pequena e pobre na qual vivia. E conseguiu — concluí, os pensamentos longe.

— Que bom, não é? — Will comentou, erguendo os olhos verdes para mim. — Eu teria percebido pelo sobrenome, mas não pude distinguir sotaque na voz dela. — Sorriu.

— Minha mãe é perfeccionista, Will — expliquei, sorrindo também. — Aperfeiçoou o inglês durante todos os anos em que viveu aqui. — Em seguida, suspirei, desviando o olhar para nossos pés. — Eu fui muito cruel com ela, ao mencionar sua mãe. Imagino que ainda se sinta culpada pela morte de minha avó. — Suspirei, arrependido. Então, ao perceber o olhar questionador de Will, expliquei: — Minha avó tinha câncer de estômago, passou anos doente. Minha mãe cuidava dela, junto das irmãs mais novas. Tinha apenas dezoito anos quando conheceu meu pai, lá mesmo. Ele tinha ido junto com meu avô em uma viagem de negócios, na Alemanha. Eles se apaixonaram, como você deve imaginar. Minha mãe viu ali uma oportunidade tanto de estar com o homem que ama quanto de fugir daquele lugar sem recursos. Depois de vir para cá, minha avó faleceu uns dois anos depois. — Will mordeu os lábios, entendendo o motivo de eu ficar chateado por ter dito o que disse. — Apesar do meu avô ser rico, ele não aprovava o relacionamento de meu pai com minha mãe, então não quis ajudar com o tratamento da mãe dela. Meu pai, entretanto, enviava quase todo o dinheiro que ganhava para lá, mas não era o suficiente e minha mãe estava tendo problemas em arrumar emprego aqui. Quando minha avó morreu, ela se sentiu muito culpada por não ter estado lá. Então — falei, suspirando —, depois que meus pais começaram o projeto da empresa e ganharam dinheiro por isto, minha mãe passou, enfim, a poder ajudar suas irmãs, minhas tias, financeiramente.

— Sinto muito — murmurou ele, enfim, com um suspiro. Forcei um sorriso para ele.

— Sei que ela vai me perdoar, mas não tenho certeza se mereço perdão. Fui mesmo um filho da puta — contei, chutando uma pedrinha. — Desculpa, Will, não queria mesmo que conhecesse esse meu lado.

Will deixou um beijo estalado em meu pescoço, apertando com mais força seu corpo no meu.

— Tudo bem, Turner — respondeu, a voz calma. — Você estava nervoso. Eu também estava — contou, sorrindo amarelo. — As pessoas são cruéis, às vezes, com quem amam. Talvez ainda, porque amam — divagou, baixinho. Arqueei as sobrancelhas, sorrindo.

— Tem razão — murmurei em resposta.

— E sua irmã? — perguntou, com certo divertimento na voz. — Pelo que pude perceber, Becca deve ter aprontado alguma coisa. Não?

Me permiti rir, aliviado com a mudança de assunto.

— Eu não faço ideia, Will, do que aconteceu — relatei, rindo. — Já esperava que Becca nos apoiasse, mas não sei... — Pensei um pouco, o cenho franzido. — Ela parecia muito na defensiva conosco, não?

— Já não tenho certeza se a pose defensiva era pela gente, Turner — disse ele, sorrindo.

— Eu também não. — Ri, beijando seu rosto.

Estávamos caminhando na rua paralela ao mar, abraçados, há alguns minutos já. Estávamos com sorte, visto que o sol não estava tão forte quanto nos dias que o antecederam. E a brisa do mar amenizava o calor, fazendo-me sentir em paz.

No entanto, Will abriu a boca mais uma vez, sacudindo minha estabilidade. Mais uma vez.

— Quem é Hilary?

Suspirei, procurando um meio de desviar o assunto.

— Hilary... Duff? — perguntei, pensativo. — Hilary Swank, talvez? Essa é uma atriz muito boa. Já assistiu Million Dollar Baby*? — Não esperei uma resposta, acrescentando: — Recomendo.

Will parou de caminhar, ficando de frente pra mim.

— Turner! — chamou minha atenção, incrédulo, mas sorrindo.

Sorri também, tentando mais uma vez:

— Hilary... Clinton? — perguntei com uma careta, sorrindo tão forçado a ponto de mostrar os dentes. Sorriso este que dizia: por favor, deixe esta passar.

Porém, era óbvio que ele não recataria o meu pedido. A incredulidade de Will só pareceu aumentar, aumentando também minha vontade de mordê-lo inteiro. Limitei-me a sorrir, no entanto, vendo Will cruzar os braços com uma sobrancelha arqueada.

— Não acho que sua mãe mencionaria a Hilary Clinton no meio de uma discussão sobre seu passado — falou, fazendo-me alargar ainda mais meu sorriso.

— Claramente, você não conhece minha mãe — retruquei, segurando o riso. — E nem minha paixão secreta pelos Clinton's.

— Turner! — resmungou ele, mais uma vez, emburrado. No entanto, conhecendo Will de cabo a rabo, sabia que estava se esforçando para ficar sério.

— Está bem, está bem — me rendi, erguendo minhas mãos. — Mas vamos, continuemos caminhando — falei, puxando-o pela cintura mais uma vez, desesperado para chegar logo na Betty. — Hilary é minha ex, como você deve ter pensado.

Will chutou uma pedrinha, a cabeça baixa.

— Uma ex da qual você evita falar e uma ex que sua mãe menciona em uma discussão — resmungou ele, baixinho. Então, ergueu os olhos para mim antes que eu pudesse responder: — Por que sua mãe pensa que você ainda não a superou?

Suspirei, tentando arrastá-lo comigo de forma mais rápida, grudado em seu corpo.

— Porque... — comecei, tentando encontrar as palavras. — Porque foi muito difícil pra mim superá-la, só isto. Mas eu superei — afirmei, tentando colocar certeza nos olhos verdes. — Você sabe que eu superei.

Sorri com carinho. Ele forçou um sorriso também, mas a covinha que tanto amo não apareceu.

— E por que vocês terminaram? — perguntou, fazendo-me suspirar mais uma vez.

De que forma eu contaria isto para ele?

— Depende de qual das vezes que terminamos você se refere — enrolei, rindo, mas meu humor não pareceu se expandir para Will. Ao invés, minhas palavras pareceram aprofundar ainda mais sua curiosidade. E seu receio.

— Da última — esclareceu, franzindo o cenho.

— Da última... — murmurei, forçando a memória. Então, sorri, olhando em seus olhos. — Nós sempre terminávamos por motivos parecidos. Ou era uma briga boba e ciúmes da parte dela, ou era uma briga boba e irritação de minha parte. Eu me estressava bastante com a forma como ela costumava me controlar e, no fim, acabava por mandá-la longe — expliquei, erguendo os ombros. — Da última vez que terminamos, este último foi o motivo. Eu estava cansado de tudo que estava acontecendo, como lhe contei: as perseguições, as dívidas, as corridas ilegais. Estava ficando louco, e Hilary apenas contribuía para isto.

Will ficou em silêncio um pouco, digerindo a informação.

— Mas você a amava — afirmou, com um tom de interrogação.

— Não sei te dizer — contei, honesto. — Sempre achei que a amava, mas então conheci você. Já não acho que tenha sido amor, talvez eu estivesse tão envolvido porque era a primeira vez que me apaixonava. Eu era muito novo e tudo era muito intenso — murmurei, enfiando meu nariz em seu cabelo cheiroso. — E convenhamos, Will, o que não é intenso no meio de violência, drogas, álcool e diversas merdas ilegais? Nada.

Will assentiu, sem nada dizer.

— Eu amo você — afirmei, fazendo-o olhar para mim. — É o sentimento mais puro e expansivo que já senti. E o mais intenso — acrescentei, olhando fundo nos olhos esbugalhados. — E veja, tinha apenas livros e café à minha volta quando me apaixonei por ti. — Sorri largamente, vendo-o piscar de forma encabulada. — Toda a intensidade vinha de você e do que eu sinto por você.

Ele sorriu amplamente, os cabelos emaranhados de anjo movimentando-se com o vento.

Perfeito e meu, combinação dos céus.

— Livros e café — murmurou ele, os dentes alinhados aparecendo. — Bem seu estilo, professor — provocou, rindo.

— Eu sei — falei, rindo também. Então, antes que Will ameaçasse continuar com suas perguntas invasivas, acrescentei rapidamente em um tom animado: — Ei, olha! Chegamos.

Will virou o rosto bruscamente para onde apontei, forçando a vista devido ao sol. Sorri amplamente ao observar a estrutura metálica da entrada do local, os degraus de madeira, como todo o resto. Fazia muito tempo que eu não vinha aqui, mesmo nas visitas que eu houvera feito aos meus pais.

— Um estaleiro? — perguntou Will, confuso, desviando os olhos de mim para o local.

Assenti, puxando-o em direção às escadas da estrutura de madeira. Caminhei ao seu lado e cumprimentei o pessoal que conhecia, vendo-os sorrir e dizer o famoso "quanto tempo, Richard". Will apenas me acompanhou, os olhos disparando pelo local.

— Na verdade, é um cais — expliquei para Will, chamando sua atenção.

Avisei à Stuart que iria pegar meu bebê e ele me entregou as chaves com o sorriso. Então, voltei a caminhar, abraçado em Will.

— Não vai me dizer que você tem um navio de carga, Turner — falou ele de forma divertida, mas percebi que não era de todo uma brincadeira. Ri alto.

— Claro que não — esclareci, rindo.

Guiei meu garoto pela extensão de madeira retilínea do cais, que se estendia por metros. Localizados dos dois lados do píer improvisado, haviam diversos barcos e lanchas particulares, perfeitamente ancorados ao local. Alguns deles eram imensos, mas como eram particulares, não eram aceitos no estaleiro da cidade, que ficava na baía leste. Lá haviam os navios de carga aos quais Will se referira, onde eram descarregados os produtos e materiais que chegavam.

Algumas pessoas chegavam com seus barcos e outras saíam, o pessoal movimentando bastante o local. Geralmente, quando eu costumava vir aqui, tomava o cuidado de vir em dias mais comuns, evitando todo o movimento. Raramente tinha mais do que quinze pessoas perambulando pelo cais.

— Melhor ainda — acrescentei, parando de caminhar e colocando ambas as mãos nos ombros de Will. Girei-o para o lado direito, sorrindo. — Lancha particular, cinquenta pés, dois motores. Mas — falei, alongando a vogal —, para os mais íntimos: Betty*.

Will arqueou as sobrancelhas, os olhos se alargando ao observar a bebê.

As cores branca e azul marinho na extensão de Betty faziam dela formosa, e sua estrutura brilhava com o sol. Era magnífica, sem menos, apesar de não ser tão atual.

A lancha, que meu pai houvera se disponibilizado a comprar há uns belos oito anos atrás, era destinada ao lazer da família. Passeios, viagens e afins. Foi comprada logo depois que passei a andar nos trilhos, senão teria sido meu refúgio na época que não tinha onde dormir.

— Betty? — perguntou ele, sem saber se ria ou não, por sua expressão engraçada.

— Sim, o segundo amor da minha vida — afirmei, pressionando os lábios.

Ele riu, arqueando uma das sobrancelhas.

— E você ainda tem a cara de pau de dizer que não é rico? — perguntou, incrédulo. — Tem uma lancha chamada Betty!

Ri mais ainda, puxando-o pela cintura e conduzindo-o à ela. Subimos, a lancha balançando levemente com o movimento.

— Não é minha, é da família — expliquei, sorrindo. — Acontece que eu sou o único que sabe apreciar a Betty como ela merece. Venha. — Puxei-o pela mão, abrindo com a chave a porta de vidro da parte de baixo.

Logo que entramos no pequeno cômodo que ali havia, era possível vislumbrar o sofá em forma de "c" no lado esquerdo, a pequena mesinha em frente. Do lado direito havia um balcão com armários, destinado à cozinha. Uma das direções da lancha ficava ao lado do sofá, ao norte, do lado da porta que dava para a cabine de baixo. Soltei um suspiro nostálgico, sorrindo.

Não havia muita coisa minha do lado de dentro, limitava-se à alguns livros, garrafas de minhas bebidas favoritas e algumas roupas de cama. Apesar de ser bem cuidada ali, ainda havia a possibilidade de ser roubada ou assaltada, e não queria nenhum pertence importante do lado de dentro ou de fora.

A boca aberta de Will me deixou ainda mais animado: ele apreciaria Betty tanto quanto eu, tinha certeza. Peguei sua mão e o levei até a segunda porta, abrindo e descendo as escadas junto dele. Na cabine de baixo ficavam as camas, uma de casal e quatro camas de solteiro, com dois banheiros paralelos. Will arregalou os olhos, olhando ao redor, enquanto eu me atirava na cama redonda principal.

— Você não pode estar falando sério — murmurava Will ao passear pela pequena cabine. Voltou um minuto depois, balançando a cabeça de forma incrédula. — Meus lugares especiais são quais, você sabe? — No entanto, era uma pergunta retórica. — A casa da árvore que eu tinha quando criança e meu pai destruiu — disse, e franzi o cenho com a menção ao pai —, o jardim bem-cuidado da tia Kira, meu quarto bagunçado e a praça do meu bairro. Agora, também, seu apartamento e seu escritório. Esses são meus lugares especiais — falou, arqueando a sobrancelha.

— Se sua família houvesse comprado uma Betty, este seria seu lugar especial — falei, apoiado em meu cotovelos, com um sorriso.

Will continuou na mesma posição por um tempo, mas então deixou-se rir, descruzando os braços que houvera cruzado e balançando a cabeça.

— Ah, com certeza — afirmou, rindo e olhando ao redor com fascínio antes de voltar os olhos verdes para mim. — Tem mais?

Fiquei alguns segundos em silêncio, tentando controlar minha vontade de arrancar todas as roupas do corpo do anjo e jogá-lo na cama.

Enfim, suspirei, afirmando com a cabeça. Levantei e puxei-o em direção à escada novamente, voltando ao cômodo da sala/cozinha e refazendo o caminho até a porta que dava para o lado de fora. Indiquei a pequena escada que havia ali, exposta, e que subia para a primeira cabine, ou o "terraço", como eu chamo.

Nesta última parte, o terraço, havia um sofá muito semelhante ao da cabine abaixo ao lado da segunda direção, também semelhante à primeira. Sem cobertura, o sol atingia o terraço de forma plena e o vento, balançava nossos fios de cabelo com vontade. Era possível, ali em cima, ver a extensão do mar e uma parte da praia de maneira melhor.

— Betty é deslumbrante, Turner — disse Will, chamando-me a atenção. Os olhos fascinados desviavam de mim para o mar, girando o próprio corpo ao passar os dedos pela superfície da lancha. — Não quero nem saber quanto custou — disse ele, olhando por sobre o ombro com diversão.

— Cerca de dois milhões — contei, vendo-o engasgar com a própria saliva. — Se serve de consolo, meu pai alugou a Betty por um tempo. Ganhamos quase o total que pagamos por ela — expliquei, mexendo nos cabelos revoltos de Will. — Meus pais são empreendedores, Will. Só ganham bastante dinheiro porque sabem administrar e, ainda assim, em questões atuais não é muito dinheiro.

Will assentiu, aproximando-se para tocar meus lábios com os seus.

— E você? — perguntou em seguida, os olhos curiosos me observando de perto. No sol, podia facilmente ver o almiscarado amarelo próximo à sua pupila. — Você é um administrador, Turner. Um contador, não? — Assenti, perdido no mar verde de seus olhos. — O que pensa fazer?

Beijei-lhe os lábios mais uma vez, e outra, e outra, fazendo-o rir. Só então prestei atenção em sua pergunta, tratando de respondê-la.

— Eu não sei, honestamente — murmurei, passando os dedos por seu rosto. — Eu queria tanto sair daqui, e consegui. Então eu consegui o emprego na universidade e percebi que era tudo que eu queria. Gosto de dar aulas — expliquei, pensativo. — Então o que mais quis foi você, e consegui também — acrescentei, vendo-o socar de leve meu braço e rir. — Não acho que eu consiga administrar alguma empresa que cresça tanto quanto a dos pais, e nem sei se quero. Por enquanto, estou muito bem sendo professor. — Dei de ombros.

Observei-o assentir, mexendo na gola de minha camisa.

Envolvi-o com os braços, sentindo-o fazer o mesmo, nossos corpos grudando. Seu cheiro de colônia invadia minhas narinas, misturando-se com o cheiro comum de praia. Sorriu contra meus lábios quando apertei-o ainda mais contra mim, deixando beijos em meu rosto e, em seguida, esfregando seu nariz em meu pescoço.

— Sabe, tudo que tem a ver com você é que é intenso — murmurou ao afastar-se para me olhar nos olhos, passando um dos dedos por meus lábios. Arqueei as sobrancelhas ao perceber que ele se referia à conversa sobre a Hilary.

Sorri, sem saber o que mais dizer, antes de beijar-lhe mais uma vez. Em seguida, afastei meu rosto do seu.

— Quer dar uma volta? — perguntei, animado.

Will sorriu ao perceber minha animação, mas sua testa franziu ao olhar ao redor, confuso. — Não precisamos de alguém para isto?

Sorri, malicioso.

— Tudo do que você precisa, meu bem, sou eu — expliquei, piscando um dos olhos e vendo-o rir ao passo que eu me afastava, caminhando até a direção e checando de forma rápida.

— Espera, você sabe mesmo dirigir isto aqui? — perguntou, os olhos alargando-se.

— Claro, Will — falei, rindo. Então busquei por minha licença na abertura que havia ali. — Por que acha que gosto tanto da Betty? Porque posso fazer o que quiser aqui, sozinho. Tirei minha licença alguns anos atrás. Meu tio me ensinou a dirigir. — Estalei um beijo em seus lábios, indo em direção à escada em seguida. — Espera um pouco que a Betty ainda está ancorada.

Will assentiu e sentou-se, ainda estupefato, no sofá dali. Girou o corpo para observar o mar e estava da mesma maneira quando voltei. Encheu-me de perguntas quando deslocamos do cais em direção ao mar, olhando ao redor com animação. Ri quando pediu-me que o ensinasse a dirigir a lancha também, explicando tudo que eu podia ao fazê-lo.

Quando estávamos afastados o suficiente, desliguei o motor, saindo da minha posição e encarando um Will em devaneios. Sentei-me ao seu lado, abraçando-o.

— Esse é meu local preferido na cidade — falei, indicando o mar à nossa volta. — Mas este — falei, apertando-o contra mim e cheirando seus cabelos —, este é ainda mais fascinante. — Indiquei seu corpo com um sorriso.

Ficamos sentados, na área descoberta de Betty, por tempo indeterminado. Ao perceber que Will mantinha-se em silêncio, aproveitando o sol em nossa pele e o mar à nossa volta, me permiti aquietar-me também.

Sempre quis trazê-lo aqui, percebi.

O som familiar de ondas invadia meus ouvidos de forma branda, trazendo um sorriso para meu rosto. O vento batia contra minha pele e meus cabelos de forma com que eu fechasse os olhos, apreciando a sensação que há tempos não sentia. Todas as memórias, boas ou ruins, foram parar no fundo de minha mente, esquecidas. O único contraste diferente no cenário em que me encontrava era a presença ao meu lado, assim como o aroma peculiar que misturava-se com o salgado do mar.

Will.

Virei o rosto em sua direção, encontrando os olhos verdes em mim, semicerrados devido ao sol em nossos rostos. Os cabelos despenteados estavam em uma bagunça com o vento, que não cansava-se de embaralhá-los cada vez mais. Sorri, apertando-o mais um pouco junto à mim com o braço esquerdo que o rodeava pelos ombros. Senti seus lábios roçarem meu pescoço levemente antes dele encaixar a cabeça ali, suspirando.

— Eu te amo — murmurou, o braço direito estreitando-se ainda mais em minha cintura. A voz não era mais do que um murmúrio, porém, alta o suficiente para fazer-se ouvir acima do som do mar. Beijei-lhe a testa antes de dizer-lhe o mesmo, sabendo que não era necessário. Will sabia.

Abraçados ficamos durante o que se pareceram horas. O conforto do calor um do outro não permitia que víssemos o tempo passar, entretanto, alheios ao mundo ao nosso redor, completamente envolvidos com a simplicidade e a beleza do momento.

Will era, na realidade, meu lugar especial.

Notas finais
Mas e aí, minha people? Estão lembrados dessa última parte? Hahahha E a Hilary Clinton, aquela linda? 1) Gente, eu tô muito louca. É inacreditável, visto que eu nem tenho tempo, mas comecei a escrever a história de Caleb. Sim, eu sou maluca. E o nome já está pronto: MADE OF STONE. Imaginam o porquê? 2) Vocês têm Wattpad? Eu queria postar minhas fics em outros lugares e tenho uma conta nesse site já faz um tempo (quase nunca entro). Só que eu não sei mexer direito e tipo, eu sei que lá as fics são encontradas mais por divulgação. E eu sei lá como se divulga HAHAHAH *Curious Will é uma referência a Curious George ou, em português: George, O Curioso. Desenho animado. *Million Dollar Baby é o filme da lutadora, baseado em fatos reais, mais conhecido aqui por: Garota de Ouro. *Betty: Usei o modelo de lancha Phantom 500 Fly, caso hajam outros curiosos aqui hahaha Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! *0*