Made of Fire

60 EXTRA - Nossos laços de amor


Notas iniciais
Gente linda, gente boa, gente bela ♥ QUASE 13K PALAVRAS? Sim, meu povo colorido. Eu tenho um bom motivo: é o encerramento de toda a família - extra - Turner. Becca&Mike e Rob&Luke e mais os pais. Presentão, hein? ♥ Sorry pela demora, queria responder os reviews antes, mas agora vocês tiveram um tempão para respirar. Aposto até que já esqueceram que Turner vai embora. HAHAHAHAHAHHA. Brinks maldosa :* Quero agradecer à Caroline K, sua linda, pela recomendação. E pelas nossas conversas sobre a fic, que me inspiram também a continuar. Obrigada, mana ♥ POV em terceira pessoa. 2bj :* Boa leitura! ♥

A residência Turner parecia se erguer ao longe, antes mesmo que eles parassem o carro em frente ao portão. Podia-se enxergar o telhado da mesma por sobre as árvores, ao longe, no final do caminho de pedra.

Finn, o empregado que já fazia parte da família, permitiu com que eles entrassem. O automóvel adentrou pelo caminho pedregoso até que a casa estivesse totalmente à vista, e estacionou no pátio em frente à ela, ao lado dos outros três carros.

Michael suspirou.

— Você tem absoluta certeza de que quer fazer isto? — questionou, olhando para a jovem esbelta ao lado. — É um suicídio, Becca.

Ela sorriu, cínica, ao focar os olhos acizentados nele.

— Vai ser um homicídio culposo se você amarelar — deixou claro, arqueando uma das sobrancelhas.

O homem deixou a cabeça cair para trás, encostando-a no banco ao encarar o teto do carro. Os cabelos um tanto grisalhos já haviam sido cortados novamente em um estilo bonito, a barba estava por fazer e usava uma roupa social, mas básica.

— Ok — concordou, ouvindo-a tirar o cinto. Girou o rosto para encará-la. — Eu só não entendo o porquê deste jantar, assim, do nada.

Rebecca bufou. — Já conversamos sobre isto. Ele está começando a perceber que não tem saída se nos quer na vida dele.

Ela abriu a porta do carro, saindo, ao passo que Mike deixava um suspiro pesado escapar, retirava o cinto e saía também, trancando as portas.

— Eu não acho que seja tão simples — insistiu, caminhando ao lado dela em direção à mansão. — Ele não iria aceitar tão rápido.

— Tão rápido? — repetiu ela, indignada. — Tão rápido? — Mike desviou o olhar. — Fomos torturados por seis meses e moramos juntos há quatro. Isto dá quase um ano, Mike — resmungou, irritada. — Ele tem sorte que eu o amo o suficiente para não que isto não seja tarde demais.

Michael apenas resmungou algo ininteligível.

Se dependesse dele, esperaria por Frederich a vida inteira, e nunca haveria um “tarde demais”. Ainda pensava que, se a situação fosse reversa, também agiria de forma semelhante a ele. Ficar com a filha do amigo, em certa linguagem, é praticamente o mesmo que declarar guerra contra ele. Já ocorreram guerras por muito menos, aliás.

Embora soubesse da visão machista por detrás da ideia, não conseguia borrá-la de sua mente, porque a visão da face decepcionada de Fred sempre o recordava.

Assim que chegaram em frente à porta principal, Rebecca ergueu a mão para bater na mesma. Havia uma campainha, mas todos eles gostavam de bater na porta, quase como uma piada interna.

Becca, no entanto, permaneceu na mesma posição por tempo excessivo.

— Droga — resmungou, com raiva, como se tentasse obrigar a mão a se movimentar. Fechou-a em punho, com ódio. — Droga!

Mike recém se deu conta de como ela havia disfarçado o nervosismo, talvez por ele próprio estar nervoso, por tanto tempo. Sorriu internamente, percebendo que haviam se tornado um casal como Isobel e Frederich.

Levou uma mão ao punho dela e a abraçou com a sua, enquanto a outra foi em direção aos seus cabelos, levando uma mecha castanha para detrás da orelha. Becca focou os olhos cinzas nos castanhos dele, mas a ruga em sua testa não desvaneceu. Estava furiosa por estar nervosa.

Mike deixou um beijo em seus lábios, puxando-a para si aos poucos, em um movimento lento e calmo. Becca fechou os olhos, abraçando-o também, ao beijá-lo.

— Vai dar tudo certo — disse ele, encontrando calma não sabe de onde para prosseguir. Deixou um beijo em seu rosto antes de voltar-se à porta.

Sem mais uma palavra, bateu na mesma com determinação.

Rebecca havia se comunicado com os pais, passadas as primeiras semanas de euforia sobre a fuga deles. Havia conversado por telefone, desde então, e até havia visitado duas vezes, mas aquilo acabou em discussão, então não mais retornou.

Michael também havia se comunicado, mas apenas com Rob, Luke e Isobel. Ele não havia dirigido uma palavra à Fred desde a noite em que largou sua companhia ali e partiu junto de Rebecca.

Fred havia feito uma ligação muito estranha para a filha, alguns dias depois, convidando os dois para um jantar em família.

Foram atendidos por Rose, que pegou o rosto de Rebecca com as mãos e deixou um beijo em sua testa, emocionada de ver que o jantar realmente aconteceria. Havia presenciado todas as brigas e discussões, por viver dentro da casa com Finn, e estava esperando, de camarote, que tudo acabasse.

— Michael — cumprimentou Fred, assim que eles chegaram na sala, com um tom duro. Becca quase sentiu todas as esperanças esvaírem. Fred desceu os olhos para as mãos dadas dos dois e logo os retornou para o melhor amigo. — Que bom que apareceu.

— O jantar está quase pronto — interferiu a mãe, como se para amenizar os olhares. Fuzilou o marido com o olhar, que arrumara a gravata no pescoço, recém percebendo a postura rígida.

— Por que estamos aqui, afinal? — questionou Becca, em um tom tão duro quanto o do pai.

Mike apertou a mão dela, como se dissesse para baixar um pouco da guarda. Não é como se conseguisse.

Os dois carregavam o mesmo sobrenome: Turner. O pai e a filha. O mesmo sangue, o mesmo DNA, a mesma teimosia. Parecidos até a medula.

No entanto, quem estava disposto a ceder era ele.

— Eu vou ir direto ao ponto — falou, amenizando um pouco a grosseria. — Becca — falou, aproximando-se da filha, os olhos nos dela —, eu estou tentando. Eu os chamei aqui porque não vou ser mais um obstáculo. Ao menos — acrescentou, rapidamente, ao ouvir a esposa pigarrear do lado —, eu estou tentando não ser.

Mike ficou congelado no lugar, com medo até de respirar errado, como se isto causasse que o outro mudasse de ideia.

Becca vacilou a pose de durona por um segundo, ainda analisando o pai com cuidado, desde os cabelos castanhos como os dela, embora grisalhos, até os olhos da mesma cor e a barba esbranquecida por fazer.

— Muito bem — disse, sem querer fraquejar por completo. — E o que mais?

Frederich engoliu em seco, relanceando a mulher, que o incentivou com o olhar azul.

— Eu estava errado em me meter na vida pessoal de vocês — prosseguiu, mas não parecia feliz em admitir. Como se para confirmar, focou os olhos no amigo: — Mas eu não estava errado em cortar esta amizade, Mike, você sabe disto.

— Fred... — chamou a alemã, como um alerta.

Rebecca bufou, embora Mike tentasse, com os olhos, impedir que ela explodisse.

— Eu não acredito que você...

— Ainda assim... — interrompeu Fred, erguendo a voz, percebendo que enfurecera a filha mais uma vez. — Ainda assim, eu lhes devo um pedido de desculpas. — Becca calou-se. — E afirmar que eu estou mesmo me esforçando aqui, e muito, principalmente por... — Interrompeu-se, relanceando Michael, com certa irritação. Isobel o incentivou a terminar. — Principalmente por amor a vocês dois.

Não olhou para o amigo mais nenhuma vez, os olhos duros em Rebecca. Ela cruzou os braços, embora sentisse como se um peso houvesse saído de suas costas, feliz por ter ouvido aquilo.

Estavam tendo progresso, afinal de contas.

— Estou esperando — disse ela, arqueando uma das sobrancelhas.

Frederich franziu o cenho. — O quê?

— O pedido de desculpas que vocês nos deve — falou, afrontosa.

O pai fechou a cara.

— Rebecca — murmurou Mike, em tom de aviso, com frustração.

— Não força a barra, Rebecca, não força a barra — grunhiu ele, dando as costas em direção à cozinha.

Isobel suspirou, fechando os olhos por um momento, antes de abri-los para repreender a caçula com o olhar. — Inacreditável, Rebecca! — reclamou, passando a mão pela testa.

— Não me venha com essa! — reclamou a filha, em resposta, irritada. — Quem tem que estar dando tudo de si aqui é ele, e não eu.

Mike suspirou, balançando a cabeça, ao encarar o teto da casa. Becca o encarou, chateada, até que ele focasse os olhos nela. Se entreolharam por alguns instantes.

— O quê? — questionou, mas o olhar de Mike disse tudo, ao passo que ele arqueava as sobrancelhas. Becca revirou os olhos. — Tá, eu vou lá falar com ele. Que saco!

Bufou, caminhando a passos duros casa adentro, dando-se por vencida.

*

Meia hora depois, mais duas pessoas adentraram na residência Turner, um deles carregando o nome poderoso.

Uma trégua havia sido feita alguns minutos antes, entre filha e pai, em uma conversa discutida aos grunhidos teimosos dos dois. Agora, os quatro conversavam calmamente na sala de estar, embora tensos, sobre assuntos variados que não envolviam Rebecca ou Michael.

Vez ou outra, no entanto, haviam algumas alfinetadas, geralmente apaziguadas por Izzie e Mike, os únicos que permaciam calmos durante toda a situação. Os dois homens em roupas sociais chegaram no meio de uma dessas, onde a voz irritada de Becca pôde ser ouvida do hall de entrada.

— Você acha que eles se matam? — questionou Luke, baixinho, ao olhar para o loiro.

Rob riu, empurrando-o com graça.

— Claro que não — falou, e ao longe ouviu Fred engrossar a voz ao interromper algo que Mike falava. Se entreolharam, e Rob inclinou-se sobre o outro: — Aposto cinquenta conto.

Luke gargalhou, e o loiro o deu um tapa para que baixasse a voz, resultando em empurrões, beliscões e mais risada.

— Aposto cem — completou Luke, assim que eles pararam, o que fez com que volvessem a rir.

Nenhum dos dois queria entrar logo no meio do fogo cruzado, então matavam tempo ao enrolar na entrada da casa.

Rob, à este ponto, estava encostado na parede, mantendo o corpo do outro afastado pelo braço, que enfiou o rosto no ombro do loiro para abafar a risada.

— Rapazes?

Rob endireitou o corpo em um vulto, e Luke fez o mesmo, como um soldado. Isobel estava ao lado da passagem do hall para a sala de estar, com os braços cruzados e um olhar desconfiado.

Rob não podia culpá-la. Estavam os dois bastante próximos, como já haviam acostumado nas últimas semanas. Agora que pensava a respeito, Luke, ainda por cima, estava com uma das mãos no rosto de Rob, em uma mania inoportuna — e linda, Rob acrescentaria — de lhe fazer carinho, mesmo em meio a gargalhadas, quando a mãe pigarreou.

— Mamãe? — brincou Rob, se fazendo de desentendido e engraçadinho. Ela revirou os olhos para isto.

— O que é tão engraçado? — questionou ela, embora sequer quisesse saber. Estava ali para arrastá-los para a janta, para que as picuinhas entre os outros três fossem amenizadas.

— Nada, só uma piadinha ridícula do Rob — disse Luke, normalizando a situação. Rob o olhou indignado, e mãe riu por isto, como era o esperado.

Funcionou.

No entanto, Becca havia chegado quase ao mesmo tempo, já que havia vindo atrás da mãe e os olhou, diabólica, por um instante.

— É, eu conheço bem esta piada — disse ela, apoiando o braço no ombro da mãe, como uma indireta sobre o relacionamento escondido dos dois.

Rob retesou no lugar, e Luke sustentou o olhar da caçula Turner, a desafiando a abrir a boca. Rebecca apenas retribuiu com a sobrancelha arqueada. Izzie, do contrário, deu um tapa no braço da filha, reclamando que não era encosto para tal.

— Venham, só faltavam vocês dois para a janta — disse ela, dando as costas.

Rebecca ainda estalou a língua, encarando-os com traquinagem no olhar, antes de seguir a mãe. Rob e Luke apenas se entreolharam antes de seguirem as duas mulheres casa adentro, mais aquietados.

Entretanto, Luke ainda levou a mão para cutucar Rob na barriga, o que fez cócegas e ele se encolheu, empurrando o moreno com incredulidade.

— Para com isto! — sussurrou, embora risse.

Luke o fez mais uma vez, conseguindo com que Rob colocasse alguns metros de distância entre eles, forçando seriedade para que não chamassem muita atenção.

— Lindo! — acusou o outro, para o loiro, antes que adentrassem na cozinha.

*

Frederich estava sentado em uma das pontas da mesa, enquanto Isobel, ao invés de sentar na outra ponta, preferiu ficar perto do marido desta vez, caso precisasse separar alguma briga. Ela sentava ao seu lado direito, seguida de Rebecca e Mike. Do outro lado, em frente aos dois últimos estavam Rob e Luke.

— Então — começou Fred, depois de muito tempo em silêncio, apenas ouvindo os outros conversarem —, onde é que vocês estão morando?

Rob, que ria de alguma idiotice que Rebecca havia falado, perdeu o sorriso, assim como Luke e Mike. Todos os encararam, esperando por uma resposta, ao mesmo tempo que relanceavam o rsoto sério do patriarca.

— Por que quer saber? — retrucou Rebecca, já sem muita paciência.

— No centro, não muito longe da Imobiliária — respondeu Mike, em contrapartida, tomando um gole do suco. Rebecca suspirou.

— Como estão pagando pelo aluguel, se os dois estão desempregados? — questionou, como se perguntasse do tempo, antes de levar mais uma garfada à boca.

— Fred — advertiu Izzie, baixinho.

Michael sorriu, largando os talheres, para encarar o melhor amigo. Seu sorriso não era nada bom, no entanto, a julgar pelos olhos sérios. Havia perdido a paciência.

— Você cortou nossa amizade, Fred — falou, ainda sorrindo de forma bizarra —, o que está totalmente em seu direito. Mas não venha exigir saber como eu pago pelas minhas contas, aliás, não me exija nada a não ser respeito, que é a única coisa que eu te devo — acrescentou, com os olhos castanhos fixos nos dele, da mesma cor. — Sua filha aqui é a Rebecca, e não eu — declarou, fechando a cara.

Um silêncio mortal se instaurou no cômodo, ao passo que as orbes de Fred obscureceram com aquilo, mais do que nunca querendo pular no pescoço da pessoa que costumava considerar sua família.

— Muito bem. — Então, largou os talheres no prato com agressividade antes de pegar um guardanapo e levar à boca.

Rebecca apenas relanceou a mãe, ciente da gravidade da situação, já que Mike não havia retrucado Fred uma única vez até aquele momento. Sentiu-se orgulhosa, mas ao mesmo tempo, temerosa, por ele. Nunca quis se meter no meio da amizade entre o pai e Mike, e odiava que apesar de não ser sua culpa, ela tinha tudo a ver com o fim desta.

Por fim, focou os olhos cinzas no casal sentado à frente. Arqueou uma das sobrancelhas.

— Quem sabe a gente não conversa sobre outra coisa? — tentou, quebrando o silêncio pesado da mesa. — Como, por exemplo, o Rob! — exclamou, chamando a atenção dos olhos azuis para si. — Você anda tão feliz ultimamente que eu não consigo deixar de me indagar o porquê. Que tal compartilhar com a gente?

Rob piscou, retesando o corpo inteiro, ao relancear as outras pessoas na mesa. Não pareciam exatamente interessados, mas todos os olhares certamente imploravam que ele dissesse algo interessante o suficiente para que aquele clima pesado acabasse.

Quis estraçalhar a caçula com suas próprias mãos.

— Você parece tão pleno — continuou ela, o olhar duro para que começasse a falar de uma vez —, tão satisfeito, tão completo. Aliás, se eu pensar um pouco a respeito, eu diria que você está assim desde que fez as pazes com o Luke!

Luke apenas forçou um sorriso, pensando no que dizer, mas não querendo falar nada que pusesse o loiro em maus lençóis. Bom, mais do que já estava.

Rob, no entanto, era um mentiroso nato. Podia ser que o fato de que Rebecca soubesse sobre ele criava um nervosismo triplo, comparado ao nervosismo normal de se encontrar em uma situação assim, mas ele sabia muito bem sair pela tangente.

Sorriu.

— Eu? — questionou, dissimulado, apontando para si mesmo. — Nada disto. Eu sou assim desde que nasci. Iluminado — brincou, piscando um dos olhos para a irmã.

Luke, ao seu lado, achou graça. A mãe revirou os olhos, Becca nem piscou com os olhos no irmão, Fred sequer prestava atenção, se acalmando, e Mike arriscou um sorriso, também tenso.

— Não — negou Becca, forçando. — Não, eu vejo que está ainda mais iluminado — debochou — desde que fizera as pazes com ele.

Rob se fez de desentendido, bebendo mais do suco ao ganhar tempo.

— Já estava mais do que na hora — reclamou a mãe, embora sorrisse para os dois.

— É, o balanço se restaurou — brincou Mike, forçando-se a esquecer de Fred na mesa.

— Você não faz ideia do quanto — alfinetou Becca, ao inclinar-se para o namorado, sabendo que Rob ouviria.

— ‘Tá brincando? — disse Luke, rindo, ao olhar para o Rob ao lado. Levou uma mão para fazer um carinho rápido nos cabelos loiros. — Eu não conseguiria ficar brigado mais um dia com este príncipe nem se eu quisesse!

Rob riu, encenando junto. Sentiu-se envergonhado pelas palavras e pelo gesto, porque sentia o carinho por trás destes, mas também sabia que esta cena facilmente ocorria antes deles se envolverem, sem qualquer malícia por detrás. Logo, não seria estranha aos olhos dos demais.

A não ser aos de Rebecca, que tinha o olhar debochado por sobre os dois.

— Ainda bem, porque trabalhar com vocês estava se tornando insuportável.

Frederich comentou, também se permitindo ignorar a raiva momentânea acerca do amigo por um instante, ao pousar os olhos nos dois companheiros de trabalho.

— Achei que as nossas palhaçadas é que fossem insuportáveis — disse Luke, rindo, ao desviar a conversa.

Fred riu, concordando. — Isto também!

A conversa seguiu sem mais inconvenientes, cada um desviando os assuntos como podia, para continuar mantendo-o vivo, mas confortável. Uma alfinetada ou outra da Rebecca ou do seu pai para com eles, mas nada que alguém não conseguisse contornar.

Ah, que família exemplar!

Frederich continuou a postura enganosamente relaxada, enquanto ainda sentia uma raiva interna de toda a situação. Já havia aceitado que não tinha escapatória das desventuras do destino, mas isto não significava que não podia sofrer de ódio em silêncio.

O incômodo continuava ali, incrustrado em seu peito, e já não sabia mais o que fazer para se livrar dele.

A ideia do jantar havia surgido depois de muitas conversas com Isobel a respeito dos filhos, da moral e do amor. A ideia de um jantar era mil vezes melhor do que a ideia de perder sua filha. E já sabia que teria que engolir Michael para tê-la em sua vida. Mais do que isto, não queria que Mike saísse da família, por mais que não quisesse admitir.

Estava tentando, mas talvez estivesse tão focado na questão Michael e Rebecca que perdera completa noção do que realmente importa nesta vida. Na sua vida, no seu mundo, na sua família.

Não sabia do que precisava para se livrar daquele ódio reprimido, mas certamente precisava de uma nova perspectiva. Precisava olhar para o plano todo, de um novo ponto de vista, e precisava mais do olhar, precisava enxergar.

E foi exatamente isto que aconteceu, por um acaso, no meio daquele jantar dasagradável.

O que enxergou não foi nada relacionado à filha e ao melhor amigo, onde estava focada toda a sua atenção por meses. Aliás, isto apenas comprovava o quanto ele precisava dar um passo atrás e olhar para tudo novamente, até que pudesse ver.

Luke havia rido de algo que Rob falou, levando uma mão de forma automática à nuca do loiro, brincando com sua orelha antes de baixá-la. Rob desviou rapidamente — enquanto Becca discursava sobre algo de sua faculdade -, e o repreendeu com o olhar. Luke se ajeitou, fazendo uma careta de quem pede desculpas, e riu, voltando ao seu jantar.

Aquele carinho era muito involuntário, porque eles já estavam se acostumando com o tratamento dentro dos escritórios, quando estavam sozinhos, o que era a maior parte do tempo.

No entanto, mesmo com o assunto fluindo, os olhos de Fred haviam fixado no filho, como se recém o pudesse ver. Isto havia ocorrido não só pelo ato incomum que presenciara, mas pela confirmação de Becca — que havia lhes dirigido um olhar diferente quando também percebeu o carinho de Luke para com Rob — de que aquilo era mesmo incomum.

Rob, como se pudesse sentir os olhos do pai em si, deparou-se com os mesmos ao olhá-lo, o que não era exatamente terrível, não fosse a expressão analítica e os olhos castanhos desconfiados. Engoliu em seco, tentando fingir que não viu, mas retornou os olhos para o pai, que se movimentara.

— Desculpa interromper, Mike — falou ele, visto que Mike estava falando no momento, mas Fred não parecia arrependido de forma alguma. Mike fechou a boca, já acostumado com o tratamento, ao passo que Fred retornava os olhos para o filho. — Rob, você ainda toma aquelas pílulas?

Robert piscou, estranhando a pergunta, mas com um fiapo de esperança de que ele não houvesse notado o que ele achava que o pai havia notado.

— Claro — respondeu, dando de ombros, como se não estivesse nem um pouco nervoso. E realmente não parecia estar, o que deixou Becca impressionada com as habilidades adquiridas com o tempo pelo irmão.

— É mesmo? — questionou, com os olhos estreitados na direção do filho. — E são as mesmas?

Rob se remexeu na cadeira, largando os talheres.

Não era segredo algum, ao menos entre os que estavam presentes, que Rob tivesse uma psiquiatra desde a adolescência e que tomasse ansiolíticos desde a mesma. Ainda assim, não compreendia de onde havia surgido aquele assunto, assim, do nada.

Na realidade, Fred andava surpreendendo à todos com suas atitudes inesperadas. Marcando jantar, pedindo desculpas, começando assuntos aleatórios que deixavam o filho tremer ao sequer imaginar de onde haviam surgido.

— Sim, é o mesmo tratamento — respondeu, optando por ocultar que ainda não havia consultado nos últimos meses e que a médica provavelmente trocaria as medicações, já que não havia tido tantos ataques de ansiedade desde que começou a sair com o Luke.

Frederich assentiu, ainda olhando-o de forma estranha antes de retornar ao prato. Fez um som estranho com a boca e voltou a comer.

— O que foi isto? — perguntou Isobel, porque assim como os outros, também estava tentando decifrar aquele “huh” dele. Eles já o conheciam o suficiente para saber que aquilo sempre tinha um significado por trás.

Fred engoliu e se recostou na cadeira.

— Nada, eu só estou aqui pensando que Becca tem razão — falou, apontando para a caçula. — Rob anda mesmo diferente, e eu pensei que pudesser ser os medicamentos, mas aparentemente não é isto — falou, com os olhos em Rob.

E Rob soube, pela forma debochada com que falava, que ele sabia. Quer dizer, ele podia não saber de certeza, mas desconfiava a ponto de querer sondá-lo daquela forma por uma informação. Ao menos, era isto que estava passando por sua mente.

Puta merda.

Todos aqueles anos fingindo, mentindo, brincando e fazendo piadas haviam se ido pelo ralo naquele instante. Era muito fácil sair pela tangente quando as pessoas não imaginam que você está saindo pela tangente. É outra história — completamente nova para o Rob -, quando você sabe que a pessoa vai cogitar se você não está tentando sair pela tangente.

— E-eu... — gaguejou, pigarreando em seguida. — Eu n-não estou diferente.

E o que restava de desconfiança no rosto do patriarca se esvaiu ao mesmo tempo em que a a cor se esvaia do rosto do filho. Agora ele tinha certeza. Rob soube porque o rosto do pai relaxou, embora os olhos ainda estivessem debochados, e ele sentiu como se o mais velho estivesse rindo da sua cara.

E aquilo não era necessariamente bom.

— É, você está diferente — intrometeu-se Luke, dando-se conta da situação, fazendo o loiro focar os olhos alargados nele. Luke sorriu, e então virou para o chefe. — Eu estou desconfiado que se trate da síndrome da paixão aguda. Ataca direto no coração.

Por falar em coração, Rob sentiu como se o seu houvesse parado por um instante, por pouco não se afogando com a própria saliva.

— Cala a b-boca, Luke — reclamou, se descompondo por completo. — Deixa de ser idiota.

À esta altura do campeonato, ninguém reconhecia a pessoa envergonhada na mesa e estavam espantados por se deparar com ela. Rob não era envergonhado, pelo contrário, não tinha vergonha na cara. E apesar de ser portador de ansiedade, por se isolar quando isto acontece, ninguém era acostumado a vê-lo nervoso. Talvez a mãe, e ainda assim, era difícil enxergá-lo vulnerável daquela forma.

A atenção de todos girava de Frederich para o Rob, e do Rob para o Luke.

Luke balançou a cabeça. — Impossível — falou, colocando a mão no peito. — Porque eu também estou sofrendo desta doença terrível.

Isobel largou os talheres de vez, com os olhos chocados nos dois.

— Ah, meu deus — murmurou, incrédula, ao se dar conta do que acontecia. — Você não está dizendo...?

Izzie sempre havia desconfiado da sexualidade de Rob, como mãe, mas sempre se obrigou a pensar do contrário, especialmente depois do Rich começar a namorar com um rapaz. Aliás, este foi um dos motivos pelos quais sentira como se houvesse levado um soco no estômago quando o primogênito chegou e se assumiu, porque sempre esperou isto de Rob, e não de Rich. E quando isto ocorreu, pensou que, se restavam dúvidas sobre o Rob, elas se esvaíam ali por ele não aproveitar a oportunidade, mesmo que levasse algum tempo, para se abrir também.

Mas quase um ano havia se passado desde que esta oportunidade surgiu e ela se convenceu de que estava maluca. Agora, sentia novamente aquele mesmo soco no estômago.

Rob fechou os olhos, em desalento, mas Luke apertou sua perna em sinal de apoio. O moreno estava brincando, e revelando as coisas de maneira descontraída, mas aquele toque era o suficiente para que Rob soubesse que Luke sabia que era sério. E que nada daquilo era uma brincadeira, não para o Turner.

Rebecca, apesar de provocativa, e Luke, apesar de manso no assunto, estavam tentando impulsioná-lo a se assumir por semanas. E Rob sabia que os dois estavam ali por ele e, no fundo, sentia que eles não seriam os únicos a apoiá-lo.

Ainda assim, sequer conseguia sorrir. Apoiou a mão em cima da mão dele e a apertou em apoio, com nervosismo, esperando não tê-lo machucado no processo.

Desviou os olhos assustados por cada um dos rostos. Becca, apesar de achar graça na situação, não falou mais nada que o deixasse mal. Mike a olhava vez ou outra, ainda tentando entender o que estava acontecendo. Izzie ainda parecia em choque. E o pai...

Frederich tinha “deboche” escrito por todo o seu rosto, mas isto confundia o filho sobre ser algo bom ou ruim. Se ele estava achando graça da situação por motivos genuínos ou se ele estava achando graça ao enxergar aquilo com humor funesto do tipo: obrigado, universo, por me jogar mais um problema no colo!

Ele andava com um humor sinistro desde toda a história da Becca com o Mike, e Robert não duvidou que este fosse o caso.

Só que então Fred uniu as sobrancelhas, preocupado, enquanto Becca comentava algo que Rob certamente não ouvia e Luke a respondia no lugar. Toda a atenção do loiro estava no pai e em tentar desvendar o que era que se passava por seu rosto.

Fred relaxou os ombros, mas os olhos continuavam preocupados, e com a voz mansa, perguntou: — Estão juntos?

Um silêncio se instaurou no mesmo instante.

Luke se aproximou, olhando-o com carinho, antes de repetir a fala de seu chefe: — Estamos juntos? — perguntou, com um sorriso carinhoso.

Rob piscou os olhos marejados, recém percebendo que estava assim. Cogitou, então, se não foi isto que trouxe um toque de preocupação ao rosto do pai.

Engoliu em seco, assentindo freneticamente para confirmar para todos de uma vez e arrancar o band-aid. Quiçá poderia sair da mesa a tempo do ataque de ansiedade ocorrer em seu quarto e ele poder se recompor.

Uhul! — exclamou Becca, em apoio, ao assobiar.

A reação em massa veio em seguida, desnorteando Rob, que quase chorou — mas se impediu -, ao perceber que estivera esperando por este momento pelo que pareceu séculos. Sentia como se houvesse retornado ao corpo confuso de adolescente com acne e aparelho dentário que nada sentia por garotas e tudo sentia pelo mesmo gênero.

Internamente, perguntou-se qual era o seu problema por haver demorado tanto para isto, mas esta conversa particular consigo mesmo teria que esperar.

Focou os olhos no pai, que sorriu com isto, assentindo. Com um suspiro, o patriarca ajeitou a postura e encarou o filho.

Sua primeira reação foi duvidar do que havia passado por sua mente, e até Rob confirmar com o próprio nervosismo, Fred estava se recusando a acreditar por completo. Parte de si pensou: finalmente!, porque esperou a vida inteira ver o filho feliz em um relacionamento e porque parte sua também desconfiava dele com o Luke. Estava até achando graça que todo mundo deixou passar o que estava bem abaixo de seus narizes desde sempre.

Mas quando enxergou os olhos azuis do filho marejarem, assustados, ao parecer desorientado com tudo, finalmente se sentiu atingido por aquilo.

Foi bem no peito, como se houvesse levado um tiro.

— Fico feliz — comentou, por fim, e Rob podia jurar que os olhos castanhos também estavam marejados.

Rob fungou, limpando a primeira e a segunda lágrima com rapidez, porque aquilo não era parte do plano. Luke deixou um beijo casto em seu rosto, o que causou mais comemorações por parte de Becca, e outras não tão involuntárias de Mike.

Fred observou tudo, mas estava fora de órbita.

Relanceou a matriarca quando sentiu a mão dela na sua, em apoio. Izzie o conhecia de dentro para fora, e lhe sorria com carinho e com compaixão ao perceber o estado acabado do marido. Sabia que as conversas sobre os filhos estavam sendo repassadas ali, naquela mente conturbada dele. E quando focou os olhos azuis nos dele, soube que armadura que ele lutava pra manter erguida por tanto tempo havia caído por completo.

Tudo o que ele conseguia pensar era no quanto havia estado obcecado com seu próprio drama, cheio deste sentimento ruim dentro de si, e que havia perdido muito ao redor. Perdeu um tempo que jamais poderia recuperar.

Ele havia sido um pesadelo, e apesar de não se incomodar com isto se tratando de Becca e Mike — já que pensava ser o certo tratá-los assim -, não havia se dado conta que havia sido um pesadelo para todos os demais.

E o Rob...

Fred sentia-se um completo babaca e não podia fazer nada além de se esforçar para compensar por isto. Izzie o encorajou com o olhar, e ele agradeceu o seu, se dirigindo para o filho do meio em seguida.

— Fico feliz de verdade, Rob — continuou, com todos os pares de olhos parando nele. Girou o rosto para a Rebecca. — A felicidade de vocês é nossa felicidade — acrescentou, se referindo à ele próprio e à mãe, que assentiu.

Fred piscou para afastar as lágrimas e, atormentado, tomou alguns segundos para prosseguir. Rebecca parou os olhos no pai, estranhando, ao sentir a mão de Mike enlaçar na sua por debaixo da mesa, como se pudesse sentir onde iria aquilo.

— Não colocamos vocês no mundo para nada além disto. Eu andei conversando com a Izzie a respeito, e... Esse é o objetivo — falou, ao passo que Izzie o olhava com carinho. — Esse sempre foi o objetivo, e eu sinto muito — falou, com a voz embargada — se os fizemos sentir como se esperássemos qualquer coisa além disto, como se... Como se houvesse algo mais importante que a felicidade e o bem-estar de vocês. Não há.

Rebecca foi forte e não se permitiu chorar, mas cada palavra parecia um ponto diferente em uma ferida aberta. Sabia que o pai os aceitaria em algum momento, mas não estava esperando tanta emoção da parte dele no processo.

— Eu não sei em que momento eu deixei isto passar... — continuou ele, com a voz falha, ao evitar contato visual. Sentia-se mesmo envergonhado como pai, porque havia falhado. — Em que momento eu dei valor para qualquer outra besteira além disto. Eu sinto muito — repetiu, erguendo os olhos para desviá-los entre Rebecca e Robert. — Não vai se repetir. Amamos vocês, do jeito que são — acrescentou, focando especialmente em Rob, percebendo o quão instável ele estava —, e não temos nada além de orgulho dos dois. Bom — falou, sorrindo —, dos três.

Becca e Rob se entreolharam, em um apoio mútuo e teimoso de não querer derramar uma lágrima — mais lágrimas, no caso do Rob -, antes de sorrirem para o pai.

— Obrigada — sussurrou Rebecca, com os olhos nos do pai, que entendeu o recado, e assentiu, com um sorriso carinhoso.

Era o máximo que ela deixaria escapar, e fez daquela uma trégua. Sequer conseguia acreditar que aquilo finalmente estava acontecendo, podendo entender como Rob se sentia. Finalmente poderia dormir tranquila, e parar de roer as unhas, e parar de se fazer de forte para aguentar a dor de Mike.

Mike deixou um beijo em seus cabelos, sorrindo ao tentar passar o máximo de apoio para ela, mas Becca sabia melhor do que isto. Ela sabia reconhecer aquela tristeza nos olhos castanhos como ninguém, recordando-se da conversa que tiveram em um dos dias que mais lhe doeu na alma.

— Você pode fazer pilhas de corpos pela cidade e ele ainda vai estar ao seu lado. Ele é seu pai. Você nunca irá perdê-lo. E quanto a mim?

Becca engoliu em seco, baixando o olhar, e Mike apenas forçou um sorriso, apoiando Rob também com o olhar.

Izzie levou uma mão ao rosto do marido, limpando a lágrima que desceu em um carinho. Depois, propôs um brinde à família e à união da mesma, para que permanecesse assim para sempre. E assim que se sentiram confortáveis o suficiente, perguntas e brincadeiras foram feitas, ao passo que todos se permitiam sentirem-se confortáveis na mesa mais uma vez.

As sobremesas foram levadas à mesa e, mais despojadamente, continuaram a conversar até se dirigirem à sala para tal. Não haviam mais picuinhas e alfinetas, exceto entre Rob e Becca, que gostavam de se implicar.

*

Em algum momento, Rob conseguiu sair da sala, aquietado, em direção ao hall de entrada. Encostou as costas na parede e se permitiu apenas respirar por um momento.

Não interessa que estivesse feliz, a ansiedade ainda fazia parte dele, e aquela não era uma noite para se rejeitar pílulas.

Luke também conseguiu escapar da sala, deixando os quatro sozinhos, e então encontrou o loiro onde estava. Trocaram olhares carinhosos antes de Luke insinuar que fossem para cima, com uma cara de traquinagem. Funcionou, porque Rob se permitiu rir daquilo antes de arrastá-lo escada acima.

Entraram no quarto de Rob, que já se sentia mil vezes melhor por se afastar um pouco dos outros. Luke não contava, porque Luke era tão calmante quanto chá de maracujá. Encontrou, então, a caixa restante de pílula e a garrafa de água que sempre mantinha no quarto e, com um alívio, se medicou.

O alívio vinha mais de se sentir no controle da situação, longe de todos, do que pelo efeito do remédio, que tardaria um pouco para funcionar. Luke lhe sorriu com apoio ao observá-lo se acalmar aos poucos, deixando beijos carinhosos por seu rosto e abraçando-o vez ou outra.

Não falaram muito, enquanto Rob tentava digerir tudo o que havia acontecido, em seriedade. Apenas quando um sorriso bobo brotou em seu rosto, da concepção de que finalmente estava livre, que Luke percebeu que a pior parte houvera passado. Era o que o loiro também pensava.

Um olhou para o outro, como se comunicassem apenas com isto, antes que os dois começassem a rir escandalosamente. Rob se apoiou na mesa de madeira e Luke se inclinou em sua direção, gargalhando feito dois adoidados.

Talvez fosse energia precisando ser liberada, talvez fosse a dita felicidade que os pais tanto desejavam para os filhos finalmente emergindo com eles.

Não souberam quanto tempo passaram assim, precedido por beliscões e palhaçadas na arte de rir com júbilo.

*

Michael e Rebecca foram convidados a passar a noite, já que a madrugada houvera chegado, mas os dois negaram. Não precisavam apressar as coisas, e todos precisavam de seu espaço ainda, então não tinha por que não irem para o seu apartamento.

— Esta ainda é sua casa, Becca — disse a mãe, segurando a mão dela ao passo que os quatro caminhavam em direção à porta. — Você sabe disto, não é?

— Eu sei — murmurou, sorrindo. Aproximou-se para falar mais baixo, de forma que os outros dois não ouvissem: — Eu não casei, eu só fugi.

A cara de pavor ao mencionar casamento, como lhe repudiasse, causou um riso na mãe que, apesar de tudo, estava aliviada. Apesar de tudo, realmente o afastamento dos dois soava como se dividissem um acordo matrimonial. E no fundo, não duvidaria que os dois tivessem se casado às escondidas, depois de tanta surpresa naquela família, então aliviou-se com o esclarecimento por parte dela.

Assim que se despediram, abriram a porta para acompanhá-los ao carro, mas Fred os impediu.

— Mike — chamou, quando ele havia dado as costas. — Um minuto? — perguntou, indicando o próprio hall de entrada.

Michael virou o rosto, franzindo o cenho, mas não se atreveu a contrariar a palavra dele. Relanceou Rebecca, que não pareceu nada feliz com aquilo, e lhe sorriu.

— Podem ir, eu já alcanço vocês — pediu ele, para as duas.

— Eu prefiro esperar — retrucou ela, relanceando o pai com uma careta.

— Becca, por favor? — pediu Mike, como se implorasse, ao olhá-la nos olhos.

Ela engoliu em seco, mas assentiu, dando uma última despedida para o pai antes de seguir para o carro com a mãe. E então, os dois ficaram sozinhos no local, se entreolhando estranhamente enquanto Fred tomava coragem para iniciar aquela conversa.

Uma olhada para o melhor amigo, lembrando que também era seu genro, e todas as palavras se perdiam no rancor novamente.

*

Luke fechou a porta do quarto, e o cérebro do loiro ainda demorou alguns segundos para registrar o fato, quando o outro abraçou por trás e começou a beijar seu pescoço de forma pecaminosa.

— O que você está fazendo? — perguntou, com dificuldade, quando ele enfiou a mão por dentro da sua camisa e a espalmou em seu abdômen, acariciando-o.

Quando não o respondeu, Rob inclinou o rosto para o lado até que estivessem se encarando, e arqueou uma das sobrancelhas louras ao julgá-lo com o olhar.

— O quê? — perguntou Luke, com um sorrisinho, como uma criança no meio de uma traquinagem. — Eles não vão nos ouvir — argumentou, girando o corpo esbelto do louro até que estivesse de frente para ele, em um movimento rápido.

Rob soltou um arquejo indignado quando ele fechou as mãos em suas nádegas e o trouxe de encontro ao seu corpo com certa brusquidão. Rob afastou-se no mesmo instante, empurrando-o pelos ombros, mas o Luke manteve as mãos em sua cintura, sem deixar que se afastasse por completo.

— Eles não precisam nos ouvir! — clamou Rob, relanceando a porta com os olhos arregalados. — Nós subimos até meu quarto, é óbvio que eles vão estar pensando nisto! — Apontou para a fricção que ele começava a fazer com as calças, para provar o argumento.

— É, mas eles sabem que a gente não se atreveria — garantiu, dando de ombros. — Ainda mais depois de um momento sério desses.

Luke o olhou de um jeito risonho que o fez derreter por dentro, antes de voltar a distrubuir beijos apressados por seu rosto e pescoço. Rob quase o deixou tirar sua roupa bem ali para garantir que Luke podia fazer o que quisesse com ele.

Bom, quase.

— Exceto que, aparentemente, a gente se atreveria sim — disse, apontando para o peito nu quando Luke retirou sua camisa em um vulto.

— É — concordou, cara de pau, com um sorriso malicioso. Passou a língua pelos lábios avermelhados que tanto ama em um movimento depravado. — Mas eles não sabem disso, sabem?

A voz rouca e ainda assim — Rob se impressionava -, divertida, fraquejou a resistência do louro. Ele piscou, se deixando ser abraçado por aquele corpo magnifíco, nunca o suficiente para que se acostumasse com os toques inesperados.

— Luke... — tentou repreender, mas prendeu a mão na camisa do outro enquanto explorava seu pescoço.

— Vamos — pediu, ainda risonho, antes de afastar o rosto para olhá-lo nos olhos. Brincou: — Quando foi a última vez que você trouxe alguém pra transar em casa?

Rob revirou os olhos. — Ontem — respondeu, arqueando uma das sobrancelhas.

Estava prestes a relembrá-lo do dia anterior, de haver tido que jogá-lo para fora da cama meia hora mais cedo que o normal, para que Luke saísse pela porta antes dos outros acordarem. Mas perdeu a linha de raciocínio.

Luke havia franzido o cenho com sua fala, parado de tentar beijá-lo, e o sorriso não vinha de jeito nenhum, de forma que Rob arregalou os olhos quando percebeu o erro.

— Anteontem! Anteontem! — corrigiu a si mesmo, em um tom mais alto que o esperado, vendo Luke fechar os olhos em alívio.

Luke chegou a se afastar, indignado. — Não me assusta desta forma, cara!

Só que isto apenas fez com que Rob gargalhasse, achando graça quando repassava o diálogo em sua mente. Luke até mesmo havia parado de tocá-lo com sua fala, e Rob estava achando hilário.

Na verdade, sequer percebeu que o jeito extravasado de Luke de tentar conseguir sexo o havia desviado de toda a questão do jantar e o relaxado ainda mais.

— Até parece que eu estaria te traindo, Luke, pelo amor — disse, achando graça.

Luke gostou de ouvir aquilo porque, apesar de não haver tido um real oficial pedido de namoro entre eles, realmente estavam “juntos”, como afirmaram na janta.

Sorriu, se aproximando mais uma vez, sob os olhos encantados de Rob.

— Por enquanto, porque quando perceber o que tudo isto — disse, fazendo um gesto vago para o corpo do louro — é capaz de fazer com um coração saudável — brincou, colocando a mão no próprio peito, causando um sorriso no outro —, você irá procurar alguém melhor.

Era apenas uma brincadeira, mas Luke ainda se sentia desmerecedor de tanta paixão. Em partes, porque ainda se sentia um perdedor depois de todos os baixos — sem altos — da sua prévia vida como adolescente negligenciado e, em algum momento, jovem suicida.

Sequer era viciado em metanfetamina — era a terceira vez que usava — quando teve uma overdose, e ela havia sido proposital. Rob era o único que sabia, o único que lhe deu confiança o suficiente para compatilhar tal informação, e quando o fez, sequer era apaixonado por ele ainda.

Rob revirou os olhos mais uma vez, cercando o corpo do outro com seus braços.

— Eu jamais trairia — declarou, com os olhos divertidos, mas havia força em sua voz, assim como nos braços que repetiram o movimento de Luke e o grudaram nele. — E você é o melhor para mim, porque eu te amo.

Aquilo trouxe mais um sorriso ao rosto de Luke.

Luke assentiu, fechando os olhos ao colar a testa na de Rob.

— Gosto disto — verbalizou, roçando um nariz no outro antes de deixar um beijo rápido em seus lábios. Abriu os olhos então, sorrindo ainda mais, preparado para analisar a reação do seu melhor amigo: — Mas eu acho que só tem uma forma para eu ter certeza que você não vai sair por aí, exibindo essa beleza alemã — brincou — para atrair outros caras.

Rob franziu o cenho, e normalmente rebateria que esta forma é a confiança, mas se impediu ao perceber que Luke estava tentando chegar em algum lugar. Os lábios do moreno tentavam não sorrir, mas ele falhava.

— Que forma? — questionou Rob, achando graça no sorrisão dele.

Luke riu, se afastando para enfiar a mão no bolso da calça e com a outra puxar a mão direita de Rob para ele. Rob olhou para baixo, confuso, se demorando ao tentar compreender, mas Luke foi rápido feito um leopardo. Sem sequer perguntar nada, enfiou a aliança de prata no dedo anelar de Rob em um movimento rápido, mas cuidadoso.

Rob arqueou as sobrancelhas, surpreso, sem saber de que forma reagir. Abriu e fechou a boca algumas vezes, alternando o olhar entre a própria mão e Luke, mas o cérebro não funcionava.

Subitamente, percebeu que a mão tornava a tremer e o corpo inteiro passou pela mesma descarga elétrica de sempre ao entrar em pane no sistema. Ergueu os olhos para Luke, prendendo-os ali, mas Luke encarava a mão que segurava.

Luke apenas riu, admirando a mão magra, mas máscula, com a aliança espessa o suficiente para chamar a atenção de qualquer um que a olhasse. Era a primeira mão masculina na qual colocava uma aliança de namoro, e queria que fosse a última.

— Isto era pra ser um pedido de namoro? — questionou Rob, divertido, quando conseguir destravar. Não sabia dizer se o riso era de nervoso ou de feliz.

Luke uniu as sobrancelhas em uma falsa careta, erguendo os olhos castanhos para os olhos azuis incomuns, como Rob havia dito uma vez. Era irônico para ele, porque Rob era a porcaria de uma obra de arte.

Nah — falou, estalando a língua, ao largar a mão de Rob e encará-lo, puxando-o de novo para si. — Isto é uma ordem de namoro, porque eu não aceito um “não” como resposta.

Rob gargalhou, os olhos azuis sumindo pelo sorriso de ponta a ponta, e Luke o imitou, admirando-o com os olhos castanhos como se o visse pela primeira vez. De fato, era a primeira vez que o via tão relaxado, e nada o deixava tão feliz.

Sentia-o agitado em seus braços, e via que os olhso azuis piscavam muito, mas já havia se acostumado com essas características que vez ou outra tomavam conta dele. O que havia de diferente era menos superficial, mais pessoal, e o iluminava de dentro para fora.

Caralho, pensou, Rob realmente pode dizer que é iluminado agora.

Esperou, ainda assim, por uma resposta.

Paciente, observou Rob levar alguns segundos para controlar-se, como sabia que ele precisava, e esperou até que o loiro fizesse mais do que sorrir de nervoso.

Os olhos azuis prenderam-se nos olhos castanhos, com carinho. — Sendo assim, quem sou eu para negar? — brincou Rob, como resposta, o que trouxe um sorriso ainda mais gracioso por parte de Luke.

Rob, desta vez, tomou as rédeas, não aguentando aquele cara maravilhoso, por quem era apaixonado há mais de anos, lhe pedindo em namoro daquele jeito tão Luke. Puxou-o para um beijo ágil e quase brusco, aproveitando a abertura que Luke deu ao encará-lo de forma boba.

Rob abraçou-o com gosto, no meio do quarto onde o primeiro encontro de bocas, de corpos, de alma, ocorrera. Onde se encontraram pela primeira vez.

Entre beijos, tornaram a rir, ao passo que as roupas, peça por peça, caíam aos seus pés.

Completavam-se mais do que poderiam imaginar ou prever, como opostos e semelhantes ao mesmo tempo. Melhores amigos que tiveram os corações entregues um ao outro, como se um coração dependesse do outro para encaixar, destinados a tal.

Eram café e ansiolítico, e não poderiam se completar melhor.

*

Um silêncio havia recaído sobre os dois, e passara um minuto sem que nenhum dissesse nada. Mike, por não querer atrapalhá-lo e Fred por não saber como começar.

Haviam se conhecido há dezessete anos atrás, e pouco tempo depois ele se tornou um membro da família. Fred teve que ouvir horrores sobre ele: que era irresponsável, que era um péssimo negociador, um péssimo empresário, que era muito novo e que só brincava de terno para arrumar mulher. Quando finalmente o conheceu, seu julgamento já estava encaminhado, mas depois de uma noite longa de conversas sobre negócios, e Mike apenas rindo e agindo como se não fosse nada, no fim, percebeu que aquilo tudo era jogada dele.

O cara tinha uma pose, que nada mais era uma forma bem inteligente de conseguir fechar negócio. Quando os demais já tivessem visto o suficiente para tratá-lo como trouxa, ele dava sua cartada final. Mike era genial, e foi por isto que se aproximou dele, por motivos de trabalho, mas acabou por descobrir que todas as suas táticas provinham de sua personalidade.

Os motivos de trabalho acabaram se tornando motivos pessoais, ao passo que a amizade se fortalecia.

Sinceramente, se o Fred do passado pudesse ver o Mike amuado à sua frente, com olhinhos de cordeiro degolado, olheiras e postura séria, jamais teria acreditado. Principalmente se soubesse que tudo isto era por estar apaixonado e querer lutar para formar uma família, mesmo que de dois, com uma mulher.

Só que tudo o que passaram juntos, todas as risadas, as bebedeiras, os abraços, as brincadeiras; tudo isto se esvaía quando se recordava que esta mulher era a sua filha.

— Você costumava pegá-la no colo e pô-la para dormir — divagou ele, com o tom baixo e os olhos distantes, como se pudesse ver o desenrolar da cena novamente. Mike engoliu em seco ao ouvi-lo quebrar o silêncio. — Você sabe, como um tio o faria. — Mike desviou o olhar. — Como meu irmão. E eu passei muito tempo engasgado com esta ideia de vocês dois juntos, porque não me descia. Nem sabendo que ela é maior de idade, nem sabendo que vocês não têm ligação alguma de sangue, nem sabendo que ninguém escolhe se apaixonar.

Michael, com os olhos no chão, mordeu os lábios.

— É, eu sei. — Suspirou, focando os olhos castanhos nos do amigo. — Eu sei. Isto também me assombrou.

Frederich assentiu, porque apesar de querer odiá-lo com todas as forças, imaginava o quanto o amigo havia se torturado com tudo aquilo. Seis meses rastejando aos seus pés, culpado, agindo como um delinquente em busca de redenção, como Fred o fez acreditar que era.

A mulher era a sua filha. Só que por outro lado, a mulher era a sua filha.

Rebecca era uma força da natureza. Se Mike tivesse se apaixonado por qualquer outra pessoa, tudo estaria parcialmente consertado com um band-aid. Mas não. Ela não deixou a felicidade ser arrancada de si, nem por amor ao pai, nem pelo desejo de paz naquela casa. Ela lutou pelo que queria e pelo que sabia merecer. O próprio pai a havia dito para que fizesse isto, de novo, de novo e de novo, ao longo dos anos.

O pai havia dito que ela jamais deveria baixar a cabeça para ninguém, porque era digna de conquistar o mundo todo, caso assim quisesse.

— Ela é minha filhinha, Mike — sussurrou, sentindo os olhos marejarem. Lembrava dela com uma porteira nos dentes, com as primeiras roupas rebeldes de adolescente, com uma toga pela formatura de ensino médio. E lembrava de Michael durante todas estas fases da vida dela, e ele era adulto em todas elas. — É a minha filha. Você se apaixonou pela minha filha.

A última frase quase não pôde ser ouvida, como uma constatação do próprio Fred, como se fosse a primeira vez. E era. Sabia que ele estava com a Rebecca, sabia que ela era apaixonada por ele, sabia que ele queria estar com ela. Era a primeira vez, no entanto, que se dava conta de que o melhor amigo se apaixonou, e por Rebecca.

Mike já havia se apaixonado algumas vezes na vida, mas sempre estragou tudo, e de propósito. Não queria se apaixonar, preferia sofrer, e talvez Fred ainda não compreendesse o motivo. Principalmente o motivo de isto ter mudado justo agora, quando esta pessoa era a Rebecca.

Michael, com o rosto em desalento, apenas meneou a cabeça positivamente. Não sabia como consertar aquilo.

— Fred... — Ele deu um passo em frente. Uma lágrima escorreu por seu olho, mas ele limpou com rapidez. Com a voz falha, prosseguiu: — Você ainda é o meu irmão, mesmo que não sinta o mesmo. Eu sinto muito se te coloquei nesta situação, mas a Rebecca... — Mike suspirou. — Ela trouxe o pior de mim à tona. — Fred franziu o cenho, esperando que ele dissesse do contrário. — Ela fez com que eu encarasse o pior de mim, e ainda assim — enfatizou —, ainda assim, ela também me fez enxergar que eu podia contornar isto. Ela me levou ao fundo do poço, junto dela, às escondidas, apenas o suficiente para que eu visse que eu podia subir muito mais. Eu posso ser muito mais, eu posso ter muito mais do que pensei que teria.

Frederich apenas ouviu, querendo não sentir simpatia alguma por Mike, mas o conhecendo o suficiente para saber que aquilo era verdade.

— Eu achei que eu não merecia nada, Fred — falou, com rancor por si mesmo. — Nada — grunhiu, os olhos molhados, limpando o rosto mais uma vez. — Eu agia como um bosta porque eu achava que eu era um bosta. Só que a Rebecca, ela... — Suspirou, sorrindo. — Ela faz com que eu sinta que eu sou a melhor pessoa do universo. Ela faz mais do que me fazer sentir bem, ela me faz sentir bom. E eu sou a minha melhor versão para ela, Fred, eu juro que eu sou — disse, os olhos implorando por uma chance. Fred engoliu em seco. — Eu sempre quis ter uma vida como vocês, como você e a Izzie, mas... Eu nunca pensei que eu fosse capaz de construir algo assim sem foder com tudo. Você sabe, você me conhece. — Fred fechou os olhos, abrindo-os apenas para olhar para longe. — Com a Rebecca, eu não tenho dúvidas de que eu consiga. Eu sei que consigo. E se eu estou lutando por isto, é porque eu sei que eu a faço tão feliz quanto ela me faz. Eu não poderia ser egoísta com ela — disse, balançando a cabeça. — Eu não estaria fazendo isto apenas por mim.

Fred suspirou, sentindo-se minúsculo e impotente, mas não conseguiu dizer nada. Apenas tornou a olhá-lo, lamuriando internamente pela situação.

— Isto vai soar horrível, mas... — continuou Mike, tomando coragem. — Eu nunca penso em você quando estou com ela — declarou, culpado. — Eu nunca penso nela como a sua filhinha, Fred. Se fosse assim, eu jamais... — Interrompeu-se, vendo a mandíbula do outro se contrair. Mudou de tática. — Quando ela me olha, é como se fôssemos só nós dois no mundo. Foi justamente por ela me fazer esquecer o resto do universo que isto começou, em um primeiro lugar. — Então, declarou o que talvez jamais lhe concederia perdão: — E eu não me arrependo.

Frederich suspirou pesadamente, cansado, esfregando o rosto com as mãos na tentativa de espantar um pouco o sentimento ruim. Se ouvisse aquilo antes, provavelmente partiria para cima de Mike. Agora, no entanto...

Pensou estar ficando louco, mas aquelas palavras acabaram por causar o efeito contrário. Acabaram levando um pouco do peso em suas costas e pôde respirar com mais calma.

Sorriu, triste, ao se encostar na parede, e deixar a cabeça apoiar-se nela. Mike apenas o observou, temeroso pelo que viria a seguir, mas confuso pela calmaria que pareceu tomar conta do melhor amigo.

Fred ainda se demorou antes de finalizar: — Você ainda é meu irmão, Mike — declarou, balançando a cabeça com um sorriso desanimado. — Nunca deixou de ser, não importa o quanto eu... — Suspirou. — Você é parte da família, sabe disto, e se... — Interrompeu-se quando a voz falhou, para então continuar: — Se o relacionamento de vocês influencia em algo, é apenas que... Agora, você está ainda mais incrustrado nela.

Michael permaneceu estático, como uma escultura pesarosa, como se tentasse ter a certeza de que o amigo falava sério. Quando a teve, levou o punho a própria boca, sentindo a respiração descompassar, na tentativa inútil de controlar o choro.

Fred riu, fraco, dando-se conta do quanto aquilo tudo era ridículo e o quanto geraria gargalhadas se aqueles fossem os antigos Frederich e Michael.

Desencostou-se da parede quando percebeu que Mike havia se entregado totalmente ao choro e, com certa tranquilidade que não sabe de onde tirou, se aproximou dele.

— Vem. — Puxou-o para um abraço, sério, sem dar espaço para pensar duas vezes e o apertou contra si, como uma trégua. Michael retribuiu no mesmo instante. — Eu ainda vou levar um tempo pra estar completamente tranquilo com isto, mas não tem por que eu ser um otário com vocês no processo.

Mike não conseguia formar uma palavra, sequer conseguia acreditar que isto estava acontecendo. Entrara naquela casa pensando que aquele jantar acabaria em gritaria e mais rancor, e agora estava sendo abraçado.

— Mike, as coisas realmente mudaram — acrescentou, apenas para não se desprender da realidade —, mas eu quero vocês sempre aqui até que isto se torne menos estranho.

Mike assentiu, ainda em seu abraço, como um perfeito soldado.

— Obrigado — murmurou, apenas, antes que eles se afastassem e tentassem se recompor.

Michael conseguia estar ainda pior, mas fez o máximo que pôde para tentar endireitar-se, o que causou risos em Fred, causando risos nele também. Sim, as coisas estavam estranhas, mas isto não era motivo para abandoná-las por completo.

Há coisas na vida nas quais vale a pena colocar um pouco de esforço e muito de amor. Laços de amizade certamente era uma delas.

Fred despediu-se, mas não quis acompanhá-lo até o carro e encarar Rebecca mais uma vez. Eles já haviam tido uma trégua silenciosa no jantar, e a Becca odiaria deixar a emoção tomar conta, como Mike houvera acabado de fazer.

Rebecca era um tanque de batalha.

Quando enxergou o namorado saindo de dentro da casa com o rosto inchado e vermelho, se assustou por ele. Estava imaginando que o pai tivera cortado mesmo o que lhes restava de carinho um pelo outro.

A mãe se despediu dos dois ao perceber que precisavam de um tempo à sós e retornou à casa, e só então Becca pôde aproximar-se de Mike e tomar seu rosto choroso com as mãos.

— Mike, o que houve lá dentro? — murmurou, preocupada.

O homem, vinte e um anos mais velho que ela, mais se assemelhava à uma criança naquele estado amuado. Nunca o havia visto assim, nem mesmo nas poucas vezes que o viu chorar. Pegou seu rosto entre as mãos, olhando-o com carinho ao ver que ele sorrira.

— Seu pai me abraçou, Becca.

Rebecca piscou, sentindo um baque de alívio tão grande que apenas imaginou como foi que ele se sentiu na hora. Sorriu também, aumentando o sorriso ao ver que o homem sensível à sua frente também o fazia.

— Ah, meu deus! — murmurou ela, rindo. — Coisa boa, Mike! — Puxou ele para um abraço, fechando os braços em torno de seu pescoço ao passo que ele circundava sua cintura.

Mike riu, deixando beijos no pescoço dela, não se importando se Isobel realmente havia entrado em casa. Finalmente podia estar com o amor da sua vida, completamente felizes, sem mais nenhum antecedente. Podia abraçá-la, beijá-la, tocá-la, sem que se considerassem foragidos, como Bonnie e Clyde.

— Estamos livres? — questionou Becca, quando se afastou em um vulto apenas para olhá-lo nos olhos. Os olhos cinzas estavam alargados em expectativa, o sorriso chegando à eles.

Mike sorriu de forma galanteadora, e Becca quase se derreteu, porque sentira tanta falta deste lado do Mike. Sentira tanta falta dele, mesmo estando vivendo sob o mesmo teto.

— Estamos livres, meu amor — murmurou ele, com a testa colada na dela.

Rebecca riu, soltando um grito animado sem se importar com mais nada e pulou no colo dele com agilidade. Mike a segurou, sentindo-a prender as pernas em seu entorno, ao lado de seu carro.

Gargalharam, abraçados daquela mesma forma, como se estivessem voltando de uma guerra. E a venceram.

Izzie havia passado pelo marido e o convidado para subir, para que conversassem melhor sobre tudo no quarto, mas ele pediu mais um minuto antes de subir, ficando sozinho no mesmo hall de entrada.

Ouviu as gargalhadas e a comemoração do casal do lado de fora, antes de irem finalmente embora, e sorriu consigo mesmo. Sorriu, balançando a cabeça, sentindo-se leve. Havia tomado a decisão certa, mesmo que houvesse levado tempo para isto.

No entanto, ele tinha mais um assunto a resolver, que exigiria mais um de seus estoques de sensibilidade e que o fazia sentir tão péssimo quanto o primeiro. Ele, sim, havia precisado chegar ao fundo do poço para se dar conta de que havia falhado mais de uma vez.

Como pai.

*

Rob saiu antes, olhando para os lados do corredor. Indicou que o caminho estava limpo, antes de puxar Luke e arrastá-lo escada abaixo, aos risos.

Haviam permanecido lá em cima por tempo excessivo, comemorando a oficialização do namoro que sequer pensou que um dia teria. Havia sido em um momento inoportuno, admitiam, mas era isto que o tornava ainda mais especial.

Rob sentia-se nas nuvens pela primeira vez na vida, e achou que isto fosse justificativa o suficiente para haver se sumido com o Luke mesmo sabendo que o jantar era todo a respeito de Becca e Mike. Eles até os ouviram darem partida no carro, mas decidiram continuar na cama por mais um tempo.

Desceram, aos sussurros, até o hall para se encaminhar para a porta.

Algumas luzes estavam apagadas e a casa estava em silêncio total, então imaginou que os pais já haviam subido para o quarto. Afinal, aquele foi um dia “grande”, como eles gostam de chamar. E sempre que estes ocorriam, eles iam para o quarto e conversavam a respeito. Por vezes, Rich, Rob e Becca ouviam os sussurros sobre os dias tumultuosos.

— Você vai mesmo me expulsar? — perguntou Luke, indignado, sem querer sair pela porta. Gostaria de ficar grudado em Rob para sempre.

— Sim! — confirmou ele, rindo, ao olhar para trás mais uma vez.

— Meu carro ‘tá aqui, Rob, eles sabem que eu não fui à lugar algum — falou, desacreditado, com a sobrancelha arqueada.

— Oh — murmurou Rob, os olhos desfocando, ao se dar conta disto.

Luke quase se engasgou em mais um riso, o que lhe causou dor, visto os petelecos que ganhou para calar a boca.

Shh — pediu, com as bochechas avermelhadas.

Luke passou um braço em torno do corpo de Rob, e lhe observou com um sorriso. — Você está agindo feito um adolescente — deu-se conta, achando encantador. Então, diminuiu um tanto o sorriso, para questionar com o tom moderado: — Você não faz ideia do que fazer, não é?

Rob fez uma careta, olhando para o lado, o que fez com que recebesse um beijo na bochecha.

Ele sabia do que Luke estava falando. Rob nunca havia estado com alguém pelo qual estava apaixonado, então nunca teve que lidar com isto debaixo do teto dos pais, e como houvera se assumido, não sabia como devia agir ao namorar com um cara.

Todos estes eram tópicos riscados quando se é adolescente, ou no máximo no início da idade adulta. Rob já tinha vinte e oito anos, e tudo era novidade.

Luke já havia se apaixonado antes, e apesar de recém haver começado a explorar sua bissexualidade com o loiro, ele não tinha uma família com a qual se preocupar. Nem mesmo quando era adolescente passou por isto, o que de certa forma o entristecera naquela época. Não tinha ninguém que se importasse.

É incrível o tanto de coisas que temos, mesmo as mais incômodas como conversar com os pais sobre assuntos importantes como sexualidade, namoro, estudos, futuro; para as quais não damos valor.

Luke nunca tivera nada disto, e daria um órgão para poder ter tido, na adolescência, até mesmo uma conversa constrangedora sobre sexo com os pais.

— Não — admitiu ele, sem jeito e um tanto triste. Ainda estava se culpando por haver demorado tanto para se assumir, embora soubesse que se voltasse no tempo neste instante, não teria certeza da coragem para se assumir uma segunda vez. Era complicado. — Mas eu aprendo.

Luke sorriu largamente. — E eu sei ensinar. — Piscou um dos olhos. — Por exemplo, quando você quer colocar um crush para fora de casa sem que os pais percebam, tem mil outras alternativas que não incluem me jogar pra fora pela porta da frente, sendo que me carro ainda está aqui.

Luke podia não ter tido uma família, mas todos os seus enlaçes amorosos tinham, e ele teve bastante destes quando era aquele adolescente que nenhum pai queria para a filha.

Rob riu, deixando o rosto cair no pescoço do outro, sentindo-se um idiota por isto. Realmente não havia lembrado do carro.

Luke apenas achou graça. Tomou os lábios do loiro em um último beijo, imaginando que ele precisava de um tempo sozinho. Aprofundou-o ali mesmo, sempre se recordando da primeira vez que o beijara naquele banheiro. Era a mesma sensação, e ele não se cansava dela.

Piscou um dos olhos, após se afastar, para o loiro. Deu as costas, então, enquanto Rob permaneceu na porta, no intuito de acompanhá-lo com os olhos até onde pudesse.

Pst, Luke! — chamou, sussurrado, ao vê-lo olhar para trás com as sobrancelhas arqueadas. Rob sorriu maliciosamente. — Não esquece que temos a noite do karaokê amanhã!

Luke deixou-se contorcer em uma careta. — Nem que eu precise vender um fígado, não vou cantar de novo! — reclamou, também sussurrado.

— Eu compro teu fígado, e te obrigo a cantar! — Riu o outro, jogando um beijo que o fez gargalhar.

Rob, então, ouviu um barulho provindo da cozinha e deu um pulo, olhando para trás inutilmente, já que não podia enxergá-la dali. Quando Luke entrou no carro e o ligou, Rob fechou a porta e caminhou casa adentro.

Um pouco receoso, adentrou na cozinha, percebendo a luz ligada e o pai sentado ao tomar um chá.

Entreolharam-se por um momento, os dois cientes de que Luke estava com Rob até o momento. Fred tentou esconder um sorriso ao levar a caneca à boca, com os olhos no filho.

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— O que faz acordado? — perguntou o loiro, se dirigindo para a geladeira como se tivesse ido à cozinha para tal.

Fred suspirou, observando-o encher um copo de água que sequer queria tomar. — Eu estava me perguntando se você desceria ainda hoje — declarou, gracioso, antes de tomar mais um gole do chá.

Rob engoliu em seco, sentindo todo o rosto esquentar, ao deixar o copo d'água por sobre o balcão.

— Ah, eu estava... Digo, nós... — Atrapalhou-se, tentando pensar no que diria.

— Rob — interrompeu, focando os olhos nele. — Eu te amo, mas eu não acho que vou querer ouvir sobre o que vocês estavam fazendo.

Rob abriu a boca, mas ao perceber, mais uma vez, o olhar divertido por sobre ele, permitiu-se sorrir. Assentiu, um tanto sem graça, ao se aproximar apoiar-se no mesmo balcão, de frente para ele.

— Certo — concordou, com um sorriso. — Eu não acho que você iria querer ouvir também — brincou, do jeito de sempre, ao erguer os ombros.

Frederich riu, vendo o filho fazer o mesmo. Por dentro, se sentiu aliviado ao vê-lo voltar à postura brincalhona de sempre, embora o rosto gringo denunciasse que também estava sem jeito com a conversa.

Fred perdeu muito do sorriso, observando-o dos pés à cabeça. Rob, agora, vestia um pijama ao invés de um terno, e aquilo apenas o fez recordar-se da versão mais jovem do loiro.

Por anos sendo medicado e indo à psiquiatra, por anos agindo como se isto não fosse nada e fazendo apenas piadas de que todo mundo precisa ser medicado agora. Por anos, conseguindo esconder, porque os pais não se preocuparam em dar uma segunda olhada para o plano todo.

— Vinte e oito anos é bastante tempo, Rob — comentou, perdendo a diversão no olhar, e Rob sequer pôde decifrá-lo.

Entendeu, ao menos, o rumo que aquela conversa teria, compreendendo o motivo do pai estar acordado às três da manhã, com um chá em mãos.

— Eu sei — murmurou, cabisbaixo.

— Você não é como o seu irmão, correto? — questionou, em seguida, deixando-o confuso.

Bissexual, deu-se conta, compreendendo.

Rob mordeu o lábio inferior, sério, e negou com a cabeça, sentindo-se estranhamente desgastado.

Fred suspirou, assentindo em seguida. — Eu imaginei que não.

Frederich empurrou a caneca para longe em um movimento lento, pensativo. Como Rob continuou ali, apoiado no balcão de frente para ele, imaginou que tivesse o consentimento dele para aprofundar a conversa.

— Rob, você... — Suspirou, mirando para longe. — Você achou que a gente não ia... — começou, com a voz falha e as sobrancelhas unidas em uma faceta dolorosa. — Achou que íamos tentar mudá-lo, ou que iríamos te expulsar de casa? — Rob piscou, sentindo os olhos marejarem mais uma vez. — Pensou que não iríamos mais te amar se soubéssemos?

Rob negou, como um robô, ao balançar a cabeça por alguns segundos.

Fred realmente estava tentando compreender, porque eles viviam juntos, ainda moravam juntos, trabalhavam juntos, estavam sempre juntos, e Rob nunca havia dado sinal algum.

Era difícil de entender os motivos de Rob, que o levaram a querer tanto manter isto em segredo a ponto de se tornar um expert na arte de mentir. Queria entender o que havia por detrás, já que sentia como se toda a vida do filho houvesse sido uma mentira. Tudo o que caracteriza Rob como Rob: suas brincadeiras, suas risadas, seu jeito despojado e desavergonhado de ser.

Quem diabos era o filho, se tudo aquilo era forçado, fingido, atuado?

Não conseguia deixar de repassar todos os momentos com ele, analisando cada um, enxergando segundos motivos, segundas intenções, segundas explicações para tudo o que ele fizera ou dissera.

O que o deixava sentir ainda pior é que encontrava uma segunda explicação para tudo, e que não as enxergara na época. O que o fazia sentir um péssimo pai era que convivia com Rob o suficiente para saber que o filho não agia da mesma forma vinte e quatro horas por dia. Podia lembrar-se de havê-lo encontrado chorando ou pós-choro mais de uma vez, e que já o ajudara em ataques de ansiedade — especialmente, quando era mais novo -, e que já conversara com ele a respeito destes assuntos.

Ainda assim, sempre ignorara tudo. Não queria ser o tipo de pai que fica em cima do filho, tratando-o como um incapaz só porque tem algum problema emocional como a ansiedade. Havia lido a respeito de que só pioraria tratá-lo como um doente. Queria apoiá-lo ao se meter o mínimo que podia, porque sabia que não havia nada de errado com o filho.

Só que, ainda assim, tudo isto estava apoiado no fato de que acreditava fielmente que o filho o procuraria caso precisasse de ajuda. Tudo estava baseado no fato de pensar conhecer o filho o suficiente para que soubesse que procuraria por ele quando estivesse em um abismo.

— Não, não é nada disto... — garantiu Rob, com a voz trêmula e o semblante culpado. — Eu só... Eu não sabia como, eu tinha medo que...

Suspirou, limpando a lágrima teimosa que insistiu em cair. Frederich apenas o observou, querendo entender.

— As coisas eram diferentes antes, e a gente não falava sobre isto. E-eu tinha medo de falar sobre isto — acrescentou, e Fred sentiu um nódulo na garganta. — A primeira pessoa que trouxe o assunto pra casa foi a Rebecca, porque ela sempre teve muitos amigos que são... como eu — murmurou, sentindo os ombros caírem. Fred assentiu, também se sentindo culpado. — V-vocês tinham tantos problemas. Rich saiu de casa e se tornou um sem-teto — lembrou, fazendo-o suspirar —, e depois que ele retornou, depois que a Hilary morreu, ele se tornou tão rígido. Eu pensei que ele nunca...

Suspirou, sem saber como continuar, trocando o peso de um pé para o outro, as mãos trêmulas escondidas debaixo do balcão.

O pai fechou os olhos, entendendo sua dor.

— E-eu não sabia como seria, como vocês iam reagir...

Rob se interrompeu quando Fred passou a mão no rosto, de forma parecida com a que fizera na discussão com Mike, tentando aliviar a própria dor de ouvir aquilo.

Rob era o filho exemplar. Ele tomou o lugar do Rich na empresa, se formou, atuou em sua área, esteve sempre ao lado de todos o tempo inteiro. Rebecca e Richard eram os problemáticos, e Fred esteve tão preocupado com os dois que achou que podia apenas se apoiar no filho do meio para tudo. Sequer o olhava uma segunda vez, porque achou que jamais haveria nada de errado se passando na vida dele.

Quando Richard passou por toda aquela fase, Fred e Izzie não conseguiam nem trabalhar sem estarem preocupados até a medula. Passaram os olhos por cima de Rob sem notá-lo. E agora, quem estava passando por toda esta fase tumultuosa era a Rebecca que, dentre todas as pessoas do universo, se apaixonou pelo seu melhor amigo. Mais uma vez, focado em outro problema, não notou o filho.

Doía pensar que as fases que cada um passara durou pouco, no máximo um par de anos, no caso do Rich, e que a fase ruim de Rob durara praticamente toda a sua vida. E ninguém sabia a respeito. Ele segurava o próprio peso para que os demais se sentissem leves.

Parte disto era sua culpa.

— Puta que pariu, Rob — reclamou, e esperou que o filho entendesse que a raiva não era dele, mas da situação. — Eu... Caralho! — resmungou, passando a mão nos cabelos. Focou os olhos castanhos nos azuis, que desviavam, envergonhado. — Me desculpa. E-eu gostaria que eu pudesse ter notado antes, porque a gente teria te apoiado melhor, eu juro que...

— Não — interrompeu Rob, balançando a cabeça. — Não foi culpa de vocês, pai, era muito mais do que isto. — Contornou o balcão, já que o pai havia se levantado, e ficou de frente para ele, olhando-o nos olhos. — Eu não queria causar problemas, mas o motivo maior... — tentou, a voz falhando. — O motivo maior foi que eu não sabia como... Como lidar comigo mesmo, como eu faria para ser quem eu sou.

Fred levou a mão ao antebraço do filho, fechando-a ali como apoio, e Rob usou a mão trêmula do mesmo braço para fazer o mesmo com ele.

— E-eu achei que estava fazendo a coisa certa — continuou o loiro, culpado. — Eu achei que, como eu já era uma bagunça sem me a-assumir, seria mil vezes pior caso eu me assumisse.

— Rob...

— Eu pensei que não saberia lidar comigo, que seria demais para mim, que eu quebraria ao meio — admitiu, também para si mesmo. — E-eu odeio os ataques de ansiedade, e o gosto de vômito que fica na minha boca — apontou para a mesma, enojado, o rosto avermelhado pela carinha de choro —, e as noites sem dormir, e as medicações nos horários certos, e eu tinha tanto medo que isto duplicasse e que eu já não conseguisse ser divertido e nem me divertir, e eu tinha medo de me perder pra sempre...

Fred interrompeu-o ao puxar para um abraço apertado, esmagando-o nos seus braços, a boca cerrada por tempo excessivo para que não se deixasse soluçar. Rob, no entanto, já havia molhado a camiseta do pai.

— Rob, eu jamais permitiria que isto acontecesse — garantiu, com um sorriso triste, mesmo que ele não o pudesse ver. — Nenhum de nós permitiria. Você não está sozinho, nunca esteve, e eu posso estar um pouco atrasado aqui, mas eu vou fazer esta filha da puta da sua ansiedade sair correndo com o rabo entre as pernas — disse, fazendo o outro rir entre o choro. — Não tem problema algum que isto faça parte da sua vida, Rob, mas é um problema enorme se deixar que a controle. — Rob assentiu, apertando-o ainda mais. — Eu falhei com você, porque pensei que como você é forte, não precisaria de ajuda. — Tomou uma pausa para sorrir. — Mas se eu, que sou um super-herói, preciso, então eu devia saber que todos precisam — brincou mais uma vez, ouvindo a risada embargada de Rob.

Afastou-se com dificuldade, vendo que Rob limpava o rosto com rapidez. Também odiou a percepção de que Rob sequer soluçava, apenas chorava em silêncio na medida que podia.

Acostumou a vida toda a chorar em silêncio.

Fred suspirou, olhando-o nos olhos: — Eu sei que você não tem sido você mesmo por completo, mas você sempre foi você mesmo. Eu te conheço — falou, com a mão no rosto do filho. — E eu tenho certeza que eu vou gostar de conhecer esta outra parte sua tanto quanto as demais. E que eu vou amar tanto quanto amo as demais.

Rob assentiu, mecanicamente, limpando o rosto mais uma vez, e outra, e mais outra. Sem olhá-lo nos olhos mais uma vez, ouvi-o rir antes de puxá-lo para mais um abraço inesperado.

— Ah, Rob, você sempre foi o mais parecido comigo — riu, dando batidinhas nas costas do loiro, enquanto ele afundava o rosto em seu abraço.

Riu também, em meio ao choro, sabendo que ele se referia ao sentimentalismo da coisa, embora não soubesse que o pai já havia chorado mais vezes no mesmo dia.

Abraçados no meio da cozinha, às três e pouca da manhã, pai e filho encerravam todo aquele dia que começara pesado e terminara leve.

Era engraçado que tanto acontecimento se passara em um mesmo período, mas se parassem para pensar, aquela não seria a família Turner se as cenas escandalosas não ocorressem simultaneamente.

Aquela casa, construída pela própria empresa da família há quase vinte anos antes e reformada diversas vezes desde então, nunca esteve tão plena.

Os anos houveram se passado, encrencas e problemas houveram ocorrido e sido resolvidos, dias felizes houveram sido vividos, mas sempre teve um detalhe ou outro que passara desapercebido. Era possível afirmar que ainda haviam mais questões pessoais e familiares a serem resolvidas, e outras que ainda estavam para se desenvolver, mas desde que o casal Turner pôs os pés pela primeira vez naquele lar com suas três crianças, aquele era o momento mais íntegro que houveram vivido dentro dele.

A residência Turner se erguia como nunca, e apesar de ser raro encontrar a família toda reunida ali, não restava dúvida de aquele lar era sempre carregado de muito amor.

Notas finais
Eu sei, gente, eu transformo tudo em drama. HAHAHAHAHA. Primeiramente, eu queria dizer que adorei o Frederich como o ponto central da história, no meio de uma revelação pessoal, apesar do extra não ser dele. Hahahhaha. Segundamente, EU AMO ESSA FAMÍLIA. ♥ IMPORTANTE: 1) Peço desculpas pelo capítulo extra que foi postado errado, especialmente para a Sarah, que comentou nele. Sorry. Assim como em MOS, eu tinha programado os capítulos incompletos e esqueci de desprogramar. Como eu tinha finalizado (sem revisão) este capítulo no WPS, o que eu programei aqui estava incompleto, então nem pude reaproveitar e deletei. 2) Até o próximo capítulo, eu preciso mudar o nome do Jack, pai do Will e do Caleb, por motivos de Made of Stone, onde tem um personagem "Jake" e fica confuso. Sem falar que confundi o Jake de lá com o Luke daqui, pelos nomes. AHHAHAHAHAH. Enfim. Me ajudem a escolher um diferente, e tem que rimar com "Williams". 3) O próximo capítulo é o ÚLTIMO capítulo real oficial, e ainda tô trabalhando nele, então não sei quando vai sair. Preparem os lenços, porque já sabemos meu histórico de Drama Queen. HAHAHAHHA. Depois tem mais um extra (quase pronto) e o epílogo. Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! ♥