Capítulo 1 — Nagasaki

Tem certeza disso Cio-cio-San? — Indagou Suzuki ao arrumar os enfeites para o cabelo de Cio.


Cio-Cio-San era uma gueisha radiante, digna de todos os elogios e convites para cerimônias que recebia. Apesar de sua tenra idade era provavelmente a gueisha mais desejada de toda a região. Seus leques hipnotizavam a todos quando unidos a sua dança; E seus movimentos! Ah, seus movimentos! Cio-Cio-San movia-se como uma boneca de porcelana que acabara de receber a graça de respirar : sutil, delicada, frágil, linda... como uma borboleta.


– Tão certo quanto respiro, sei que é certo que o amo Suzi-San! Não me importune mais com esse tipo de dúvida maldosa! Você ouviu tudo o que Goro nos disse sobre ele durante todo esse tempo... Ele é doce, gentil, como a brisa nas sakuras... O vi apenas de relance quando visitei a colônia cristã, mas no momento em que o vi, que os ancestrais confirmem o que digo, eu soube que pertenceria sempre aquele par de olhos azuis — Gemeu baixinho quando sua serva repuxou seu cabelo com parafina fervente — Além de tudo você sabe que não posso mais voltar atrás na minha decisão, eu me converti a religião de meu noivo Suzuki-chan! — Suzuki puxou seu cabelo com uma força um tanto exagerada, fingindo ser acidental quando Cio a encarou — Ai,ai.. desfaleço de amor! Mais do que um Danna, um Marido que veio de longe para mim...


– UM TENENTE AMERICANO CIO!! — respirou fundo e baixou o tom de voz — Como você pode não hesitar? Como pôde arrancar as raízes de sua árvore de ancestrais?


– Eu o amo desde antes de vê-lo e isso basta. Minha família perdeu tudo, meus pais estão mortos. Aos mortos o descanso e não a felicidade! Estou viva, não estou Suzi-chan? Ao menos gostaria de me sentir assim!


{silêncio}


Suzuki parou para observa-la por um tempo quando seu cabelo ficou pronto. O quimono da mais pura seda, de cores claras e alegres, seus enfeites pendendo do cabelo tão negro, sua graça...


Suzi-Chan, como Cio-Cio-San costumava chama-la não foi considerada apta para ir a escola de gueishas. Era desastrada e não tinha nem um terço da beleza das moças que foram selecionadas pela dona da Okiya. Seria serva para sempre, como lhe disseram quando tinha apenas seis anos e como aceitou de bom grado.

No entanto, aceitar seu destino não a impedia de sonhar com outros caminhos : Aguardava pacientemente até que Cio-San adormecesse e quando finalmente sua ama estava em sono profundo, ela vivia seu sonho negado.

Girava os leques em suas pequeninas mãos, tocava o instrumento musical, experimentava os quimonos e calçava os exagerados sapatos de madeira.


Esperava um dia ser considerada mais do que uma simples serva, não que fosse mal tratada, mas... faltava algo a Suzi-chan.


– Então — interrompeu o silêncio desagradável — que Budha e os ancestrais te façam muito feliz pequena Cio!


– O nome do Deus de meu marido é Je'su'sss — Errou repetidas vezes a pronuncia- Jesus, e é Ele e os ancestrais americanos quem me farão ser feliz!


– C-Cio-San — Suzuki engoliu em seco, estava pasma com a mudança repentina — Sim, Cio-Cio-San, perdoe-me. Fui estúpida por não lembrar dos deuses que agora você serve. Que os deuses do Ocidente te façam feliz... Goro disse que o nome de seu noivo é Pinkerton... Que seja muito feliz com ele pequena Cio.



– Pin...Ker...Ton — repetiu lentamente, tentando agarrar-se a cada sílaba — Soa diferente, soa americano. Acho que agora Suzi-Chan, eu sei como se diz "perfeição" em inglês. — Retirou-se do quarto com um sorriso de canto.