Mad World

5 04: California Dreamin'


Ensolarada Califórnia, foi a primeira coisa que vi ao abrir os olhos. O amanhecer do Sol, me fez estremecer, lembrando da última vez que pude ter uma visão privilegiada como aquela. Esticando as pernas e estalando as costas, levantei do assento, algo que foi capaz de irritar Daryl e o fez revirar os olhos. O avião parado no meio da pista vazia, não demorou muito para liberar a escada.

— Não deveria fazer isso. — murmurou, descendo os degraus e enfiando as mãos no bolso, procurando por algum cigarro perdido. — porca miseria.*

— Está bem, papai. — debochei, entregando um pacote fechado de cigarro em suas mãos. — De nada.

— Desde quando voltou a fumar? — me encarou, aceitando o “presente” e abrindo rapidamente, procurando saciar seus vícios.

Dei os ombros, preferindo não responder sua pergunta, e com um simples gesto, foi capaz de entender que havia voltado a usufruir da nicotina pouco tempo atrás.

— Boa sorte.

— Por que tenho a impressão, que não está falando exatamente sobre isso?

Foi sua vez de não responder, me deixando sozinha para trás com um sorriso nos lábios. Canalha!

Ignorando o resto da tripulação, Bucky foi o último a descer, observando a estranha paisagem e respirando lentamente. Longe e sem memórias prévias sobre as suas saídas, dava passos lentos na defensiva. Não havia ninguém ali, além de nós e o piloto, que também nos levaria até a base. Suas expressões confusas, foram o suficiente para me aproximar e chamar sua atenção.

— Soldado? Há algo de errado?

— Não, agente 03. — negou com a cabeça e passou a andar ao meu lado. Interações não é o seu forte, se comunica apenas com poucas palavras e gestos. — Não me lembro de ter visto um lugar como esse.

— Não se lembra do Sol? — sarcástico, Daryl andava na nossa frente, mas fui capaz de alcançá-lo e dar um tapa em sua cabeça. — Helena!

— Calado! Ele não se lembra de absolutamente nada, além dos treinamentos. — cochichei. — Bem, podemos ir? O Sol não irá sumir, soldado, não se preocupe.

Afirmando com a cabeça, seguimos caminho até o carro estacionado. Jogando a bolsa no porta-malas, tentei entrar no transporte, mas, fui impedida pelo loiro que passou rapidamente na minha frente.

— Você é a menor de nós três, fique no meio. — apontou para o banco estofado. — O que? Não estou brincando.

Ergui a sobrancelha com suas palavras, sabendo muito bem que se tratava de uma mentira, só queria evitar ficar ao lado de Barnes. Me enfiando no banco de trás, senti meu corpo ser apertado e não pude me ajeitar.

Entrelaçando minhas pernas, não tinha percebido até o momento, o quão incomodada havia ficado no meio de ambos.

— Não vamos demorar para chegar, relaxe. — Daryl murmurou, lendo os meus pensamentos.

— Fique longe da minha mente. — sussurrei, tentando não chamar a atenção de Barnes.

O edifício recém construído no meio de Los Angeles, se escondia entre lojas e restaurantes. As ruas movimentadas por carros de última geração e pessoas passeando na calçada me preocupava. Bucky observava cada detalhe, dos mais inúteis até os mais importantes, fascinado como uma criança em um parque de diversões. O relógio no meu pulso marcou onze horas e apitou, fazendo com que ele me encarasse, estranhando o som emitido.

— O que é, exatamente? — perguntou.

Levantei a manga do casaco, mostrando o aparelho tecnológico preto com detalhes dourados que havia ganhado anos atrás de Diego.

— É um relógio, criado para marcar a hora e avisar determinado horário. — apontei para o ponteiro rodando sem parar. — Gostaria de um?

— Helena, não seja teimosa… — Daryl se intrometeu, chamando minha atenção em sua língua materna. — Conhece as regras.

— He-Le-Na. — Bucky repetiu.

— Sol-Da-Do. — sorri, ignorando as tentativas falhas de Browning de cortar minhas interações com o americano.

— Você tem um péssimo gosto, Hel.

Senti minhas bochechas queimarem com o comentário.

— Digo o mesmo. — rebati.

— Relógio… — ainda fascinado, sussurrava, arregalando os olhos, cada vez que o ponteiro dava uma volta por inteiro e voltava a se mexer.

— Fique com ele. — tirei o aparelho, esperando que pegasse. — Vamos, fique com ele.

— Daryl falou que não posso. — negou, empurrando de volta.

— Eu estou dizendo que você pode. — coloquei em suas pernas. — Entenda isso como um presente.

— Presente?

Em cada conversa, cada palavra, qualquer um iria perceber que as ações do sargento, são extremamente parecidas com a de uma criança. O seu modo assassino não estava ativado e não era necessário, pelo menos não por enquanto.

— Senhorita Zola? Chegamos.

O carro parou num beco, na parte de trás do prédio. Nele, a porta aberta indicava que alguém já nos esperava. Logo, um homem que aparentava ter, no mínimo, 30 anos, saiu com um sorriso estampado no rosto. Leonard Jenkins.

Filho de um diplomata americano, sua família havia sido recrutada para a causa da Hydra pouco tempo atrás. Velho e sem condições de sair de casa, passou o comando para o seu único primogênito. Com a SHIELD de olho em cada movimento de Arnim, os Jenkins precisaram assumir a base americana para não levantar nenhuma suspeita.

— Estava me perguntando se a veria novamente, senhorita. — murmurou, acompanhado por dois homens. — Oh, senhor Browning, pensei que apenas Zola e o Soldado…

— Me poupe de suas palavras, Jenkins. — Daryl ralhou, levantando do lugar e passando reto, deixando suas coisas para trás. — Enquanto estou aqui, sabemos muito bem quem está no comando.

— Leonard, é um prazer revê-lo. — me intrometi, apertando sua mão rapidamente. — Perdoe o Daryl, formalidades não é o seu forte. — sorri.

— Não se preocupe, senhorita. — negou com a cabeça, encarando Barnes. — Podemos entrar? Creio que não seja uma boa ideia, ficar perambulando com ele por aí.

— Certo…

Receoso, Bucky foi mais uma vez o último na fila para entrar no local. Dessa vez, um dos homens parou ao seu lado e o revistou, fazendo o mesmo conosco.

— Espero que não se importe, precisamos se certificar que não estão trazendo nada diferente.

— Sabemos disso. — concordei

Daryl o odiava e isso estava muito claro, mas, pela primeira vez na vida, manteve a língua entre os dentes e não demorou muito para descobrirmos o motivo. Ao ser revistado, portava duas armas por baixo de sua camisa e casaco. Revirei os olhos, mantendo os braços para cima, pensando em como amenizar a situação.

— Você tinha que fazer isso. — sussurrei em italiano. — Merda, sabe que somos visitantes!

— Preciso me preparar para qualquer tipo de ocasião, Hel.

Leonard observava a situação calmamente com um sorriso no rosto. O nervosismo era claro, caso voltasse de mãos vazias para a União Soviética, Zola iria transformar minha vida em um inferno particular, me afastando de Diego para sempre e me mandando para o outro lado do mundo para trabalhar como faxineira.

— Creio que Arnim não os avisou sobre as regras… nada de armas. — proferiu. — Reviste ela.

— Helena não precisa de uma arma para te matar, Jenkins. — abaixando os braços, Daryl piscou. — Ela é a própria arma.

Entendendo seu sinal com clareza, deixei um dos seguranças se aproximar facilmente. Colocando suas mãos em minha cintura, joguei a cabeça para trás com força, acertando seu nariz e virando rapidamente, completando com um soco de direita. O outro segurança se aproximou, empunhando uma faca. Corri de encontro, torcendo seu braço e jogando a arma branca no chão, porém, foi capaz de se defender, puxando meus cabelos. Rosnei com sua ação, o mobilizando com os braços e o jogando no chão.

Um tiro soou e olhei para trás, vendo que Daryl havia entregado uma de suas armas a Bucky. Distraída, o homem se aproveitou e deu uma rasteira, fazendo com que eu caísse ao seu lado. Passando por cima, levou suas mãos diretamente ao meu pescoço.

— Helena! Essa é uma boa hora para reagir! — Browning gritou, olhando de soslaio a situação que me encontrava. — Agora!

Debatendo o corpo em busca de ar, o tentava afastar com as minhas próprias mãos, mas de nada adiantava, ele claramente tinha vantagens no momento. Com o dobro de peso e força, a visão embaçada era só mais um dos motivos para me impossibilitar de ter qualquer tipo de reação.

— Helena! Usa logo a porra dos seus poderes!

Em uma última tentativa para sobreviver, retirei uma das luvas com dificuldade, esperando que não fosse uma atitude em vão. Ao colocar minha mão em sua cara por uma última vez, o desconhecido não teve tempo para reagir e o grito ficou preso em sua garganta. Sentindo que estava enfraquecendo, consegui me livrar de seu aperto, o empurrando antes que seu peso aumentasse. O estrondo de seu corpo sem vida batendo contra o cimento, chamou a atenção de todos. Leonard me encarou horrorizado, vendo que um dos seus agentes havia sido encapsulado por uma camada de ouro.

Respirava com dificuldades, colocando a luva novamente e sentando, esperando que os outros dois resolvesse a situação por completo. Jenkins, plantado em seu lugar, ainda me encarava espantado. Daryl o mobilizou, deixando claro que agora, nós estamos no comando, ele queira ou não.

— Pensei que fosse uma lenda. — desacreditado, saiu com algemas em seus pulsos.

— Lendas não existem. — neguei.

Levantando, encostei as costas na parede, contando até dez mentalmente e dando uma olhada rápida ao redor. Oito corpos sem vida. Apoiava as mãos em meus joelhos, respirando fundo e pensando que deveria voltar aos treinamentos o mais rápido possível, já sabia o que Arnim iria falar sobre. Fraqueza não é tolerada.

— Você está bem? — Bucky se aproximou, ainda com a arma em mãos.

— Sim, soldado. — confirmei. — Vamos, temos muito trabalho pela frente.

Concordou e seguimos caminho até o escritório principal, onde Daryl se encontrava, sentado em uma cadeira atrás da mesa com os pés apoiados na madeira.

— Que gentileza da sua parte, me avisar sobre um motim. — jogando a mala na cadeira ao lado, sentei. — Por que Arnim não me avisou?

— Deve ter esquecido. — balançou as mãos.

— Você não quis me contar!

— Não sou obrigado. — acendendo um cigarro, olhou para o Soldado. — Ninguém pode controlá-lo, além de nós.

Logo, ficou claro a missão de Diego. Arnim Zola planejava se livrar dos outros líderes da organização, e quem melhor que seus filhos e seu fiel segurança, para tomar conta disso?

— Se me dão licença, Leonard me espera na Jailhouse Rock. — levantou e me encarou, apontado para a cadeira do antigo "chefe". — Bem vinda ao comando.