Mad World
6 05: Helena.

Você vai morrer, Helena...
Os pesadelos pioravam quando Diego não estava por perto. Aliás, pioravam sempre que um novo trauma entrava para a enorme lista que guardava em meu cérebro a sete chaves. Para todos os efeitos, eu não estava ali, não trancada naquela pequena sala com um grande quadro de uma família na parede de trás. Os Jenkins. Desde que havia chegado, não conseguia parar de pensar neles, em outra família destruída pela HYDRA e seus princípios distorcidos sobre a vida humana. Mais uma vez, estava sendo ingênua. Ingênua por pensar que minha presença iria fazer qualquer diferença. E como sempre, os outros estavam certos sobre a minha ingenuidade.
O tempo ameno da Califórnia não disfarçava o fato de meu corpo tremer, sempre que olhava para Daryl e ele estava com um sorriso psicótico estampado em seu rosto. Os últimos dias não haviam sido fácil, pelo menos não para mim. Já ele exalava felicidade, felicidade por se livrar de Leonard mais rápido do que pensou. Não era só isso que despertava esse sentimento nele, claro que não era! Arnim confiava em seu guarda-costas, mais do que em seus próprios filhos e isso me deixava com um pé atrás. Algo acontecia por debaixo dos panos, e eu não precisa perguntar para o meu irmão gêmeo, para ter certeza sobre o assunto.
Você vai morrer, Helena...
A frase ecoava constantemente em minha cabeça, me fazendo lembrar que meu tempo estava contando e poderia acontecer a qualquer momento. Seja naquela missão ou em outra, algo daria errado, algo iria me matar… ou melhor, alguém. Me pegava pensando se eu mesma não seria a causa da minha morte precoce, e talvez estivesse certa. Algo lá no fundo sempre me disse que não poderia cometer nenhum deslize, que erros não são tolerados e eu não podia dar esse gostinho a ninguém.
Eu precisava de Diego, precisava me despedir decentemente e assim como todas as outras coisas que me rondavam a mente recentemente, o arrependimento de não falar que o amava de volta, corroía meus ossos.
— Helena…?
A voz do loiro me despertou momentaneamente, me fazendo coçar os olhos e levantar metade do corpo, sentindo minhas costas reclamar, após passar uma noite dormindo naquele velho sofá. O encarei, pensando ser apenas mais um pesadelo, mas eu estava errada. Diego não estava dormindo na cama ao lado e o frio que ecoava entre as paredes de concreto da base, não confortava minha alma. Seu rosto coberto por sangue, não foi capaz de disfarçar as olheiras e apesar do seu estado caótico, sua expressão serena continuava intacta.
— Helena. — me chamou mais uma vez, afastando minhas pernas e sentando no estofado. — Você está bem? — perguntou, ainda com uma expressão serena no rosto. — Faz quase dois dias que está dormindo, precisa se alimentar.
Minha falta de resposta o fez suspirar e crer que ainda estava sonolenta. Apontou para bandeja em cima da mesa de madeira, contendo um bule e um prato com algumas torradas e manteiga ao lado. Não tinha percebido até o presente momento, o quanto meu estômago roncava, suplicando por comida. Abracei meus joelhos, concordando com a cabeça e observando seu gesto estranhamente gentil ao me entregar a xícara com café preto. Dei um gole na bebida adocicada, sentindo minha garganta queimar com o líquido quente ao engolir a mesma.
— Seu pai entrou em contato algumas horas atrás… — murmurou, hesitando ao continuar sua fala. — Quer saber o motivo de tanta demora, Helena…
— E o que você disse? — perguntei com a voz falha, limpando a garganta e prosseguindo. — Bucky? Onde ele está? — tentei levantar, mas fui impedida por suas mãos. — Daryl, onde ele está?
— Não precisa levantar a voz, Lena. Ele está bem. — suspirou, balançando a cabeça em reprovação. — Está na sala de treinamento, monitorando os novatos. Ou melhor, os treinando.
O meu coração acelerou com suas palavras, pensando que talvez seu modus operandis fosse ativado na minha ausência, na minha tentativa de ter um sono decente. Minha reação não passou despercebida, muito menos os meus pensamentos, já que Browning tratou de me acalmar novamente.
— Relaxe, ele está normal. — deu os ombros, tentando ignorar a preocupação martelando em minha mente. — Sobre o seu pai… lhe contei a verdade, sobre o que aconteceu com você.
— Não aconteceu absolutamente nada comigo. — neguei, assumindo uma expressão confusa sobre suas palavras. — O fato de usar os meus poderes, não me impede de viver normalmente.
— Fale isso para o seu corpo. — rebateu, levantando e evitando me encarar. — Helena, você dormiu por dois dias e iria continuar, se não te acordasse.
Sim, ele estava certo. O meu corpo não lida bem com mudanças, com qualquer tipo de mudança e usar os meus poderes, por mínimo que fosse, significava mudança constante. Para Zola e para qualquer outro cientista da organização, se tratava de algo desconhecido, de habilidades desconhecidas. Ter dois mutantes na sua família e um trabalhando para você, se tornava inútil com sua falta de conhecimento sobre o Gene X. Na teoria, é claro…
Transformar algo ou alguém em ouro requer uma alta demanda de energia, por mais que pareça bobo e simples.
— Os novatos querem te conhecer, Lena, você é praticamente uma lenda para eles. — riu, tentando amenizar a situação. — Estão te chamando de Midas.
— Midas? — revirei os olhos, finalmente levantando e deixando a xícara quase que intocável de lado. Mordisquei uma das torradas, apoiando minhas costas na madeira. — E você os deixou me chamar assim?
Minha pergunta o fez rir, claramente nada preocupado com a minha reputação, afinal, é minha e não sua. O fato de ser comparada com um homem ambicioso de um conto relacionado a mitologia grega, não me agrada nenhum pouco.
— Como foi com Leonard? — perguntei, tentando mudar o rumo daquela conversa. — Se divertiu?
— Fácil, mas você já sabia disso.
— Tinha as minhas dúvidas…
Encarei o quadro da família mais uma vez e Daryl percebeu minha inquietação novamente, colocando a mão em sua cabeça e invadindo meus pensamentos facilmente, como sempre fazia. Eu já estava acostumada com esse tipo de invasão e se não poderia evitá-la, seria cuidadosa com certos assuntos.
— Ainda está pensando em vingança?
— Não me diga que você também está preocupado.
— Eu não estou, mas Diego está e não posso fazer nada para mudar isso. — sua voz assumiu um tom melancólico, balançando a cabeça logo em seguida e levantando. Pegou uma sacola preta do chão, jogando no sofá. — Se arrume. Vamos sair.
…
Apesar de embaçado e com marcas do tempo, pude me encarar perfeitamente no espelho, tentando reconhecer aquela mulher que encarava no objeto. Dois dias dormindo não foram capaz de remover as olheiras e as torradas não foram capazes de encher o meu estômago, mas Daryl havia deixado claro que não precisava me preocupar sobre. Suspirei, ajeitando as mechas que insistiam em desprender do coque e um calafrio tomou conta do meu corpo, lembrando precisamente do motivo de ter cortado minhas madeixas daquele tamanho.
— Fazia tempo que não lhe via assim. — o loiro apontou para a minha roupa. — Está bonita.
Após tomar um banho, encontrei uma muda de roupas na sacola, mais precisamente uma saia plissada azul marinho e uma camisa branca, acompanhados por um sapato preto de salto pequeno. Não me recordava da última vez que vesti uma roupa como aquela, mas certamente não usaria para uma missão de campo. Foi preciso certa demanda de maquiagem para encobrir o meu rosto exaustivo e acabado.
Ao ver Browning, senti inveja por não necessitar de nenhum esforço para se arrumar. Por mais que não fosse admitir em voz alta, sua beleza é capaz de impressionar várias mulheres da base, não esquecendo de seu charme natural para conseguir as coisas facilmente, essa última parte me fazia crer que estava usando e abusando de seus poderes livremente.
— Você também. — apontei para o seu terno e estranhei vê-lo com o cabelo repartido no meio por água e gel. — Até parece uma pessoa de verdade, e não um psicopata com sangue espalhado no rosto.
— Alguns trabalhos são mais difíceis que outros. — deu os ombros, rindo de sua própria piada. — Vamos? O carro já está à nossa espera.
Concordei com a cabeça, passando pela porta dos antigos aposentos de Leonard e sua família, tentando tirá-los de minha mente e me concentrar na missão. Algumas pessoas insistiam em me encarar e eu apenas ignorava.
— Tem certeza que podemos confiar nessas pessoas? — minha pergunta o deixou confuso por alguns segundos. — O soldado…
— Hel, ele ficará bem… sabe se cuidar sozinho. — afirmou. — Se concentre na missão, temos um longo dia pela frente.
...
O centro de Los Angeles estava movimentado. Pessoas andando de um lado para o outro com sacolas em demasiado, aproveitando o belo dia e seu clima. Daryl não suportava calor e imaginei que fosse por lembrar de sua terra natal e todo sofrimento. Alargou rapidamente a gravata em seu pescoço, enquanto tirava o terno e enrolava as mangas de sua camisa formal. Eu apenas aproveitava o local, segurando um picolé que havia insistido para comprar, mesmo sabendo que logo chegaríamos ao restaurante.
Me abanava com um simples leque, claramente roubado da bolsa de uma mulher distraída alguns minutos atrás. Browning não havia gostado da minha atitude, queria se manter dentro do carro e escondido, mas eu queria andar um pouco, observar a paisagem e quem sabe depois, colocar os pés na areia. Ele não iria deixar e muito menos concordaria com a minha atitude, mas não poderia fazer nada para me impedir.
— Está atraindo atenção com essa cara amarrada. — murmurei, limpando o canto da boca com o dedo. — Quer um pouco?
— Não, você sabe que eu não gosto. — uma careta tomou conta de seu rosto, empurrando minha mão. — E você está parecendo uma criança de dez anos, parece que nunca viu o Sol.
— É uma estação agradável, eu gosto do verão. — dei os ombros, jogando o palito que sobrou numa lixeira perto. — Não é como se você não soubesse disso.
— O inverno trás memórias ruins, boneca?
Estremeci com o seu tom sarcástico, sabendo que tinha captado os meus pensamentos anteriores e que a ferida não tinha sarado.
Para todos os efeitos, Daryl Browning era um órfão americano que havia perdido seus pais num incêndio e não sabia muito sobre sua origem, pelo menos é o que ele costumava falar para suas breves conquistas.
— Chegamos. — ignorei sua pergunta, parando na frente de um belo e moderno restaurante, vendo que algumas pessoas aproveitavam para se sentar ao livre com suas famílias e tomar uma bebida refrescante. Um lugar frequentado por pessoas com alto poder aquisitivo. — Suponho que tenha feito uma reserva.
— Um mês atrás, precisamente. — encolheu os ombros. — Vamos entrar.
Fomos recebidos por um homem bem vestido e Daryl usou seu nome falso para comentar sobre a reserva. Não me surpreendia ser numa mesa mais afastada, onde o loiro depositou vinte dólares no bolso do desconhecido, apenas para evitar qualquer tipo de incômodo. Nenhum garçom fez a menção de se aproximar, já que o próprio homem que nos recebeu, ficou encarregado de trazer nossa refeição. Bebendo uma Coca-Cola direto da garrafa com um canudo, esperava ansiosamente por minha comida, até mesmo se esquecendo do fato daquilo ser uma missão diplomática e não um dia qualquer.
— Bobby. — Daryl levantou de seu assento, cumprimentando a única pessoa que se aproximou. — É bom vê-lo novamente.
— Vejo que trouxe uma amiga. — o tal de Bobby murmurou, finalmente chamando minha atenção e me fazendo arregalar os olhos. — Suponho que você seja a razão para trazer um velho amigo de volta ao seu país de origem. — um sorriso galanteador surgiu em seu rosto, algo que não me deixou nenhum pouco impressionada. — Robert Kennedy.
— Hellen Beaufor. — murmurei de volta, sem levantar da cadeira e muito menos acreditar no que estava acontecendo. Arnim Zola realmente estava tentando recrutar um dos Kennedy para sua causa? — Bom, sente-se, tenho certeza que não está aqui para ficar em pé.
O Kennedy riu, sentando ao meu lado e observando o ambiente brevemente, talvez com receio de alguém reconhecê-lo. Minha mente gritava por socorro, enquanto a outra parte dela ainda tentava assimilar a situação completamente inesperada.
Família democrata. Católico. Irmão mais novo do senador JFK. Advogado. Reserva da marinha.
"Se acalme, Helena. Você está bagunçando meus pensamentos."
— Que tal irmos direto ao assunto, Bobby? Sabe que sou um homem sem rodeios. — o loiro murmurou, rindo logo em seguida. — Tenho uma proposta, aliás, nós temos. — apontou pra mim, mesmo sabendo que não estava preparada para falar. — Creio que seja do seu interesse.
— Dave, Dave... — suspirou, bebericando o vinho de sua taça. — Sabe que não quero me meter em problemas. E o que está me oferecendo, é um grande problema.
— A HYDRA não é uma organização problemática, muito pelo contrário. Ela crê em uma humanidade organizada e livre de situações caóticas. — menti, sorrindo docemente em seguida. — Sim, houve um equívoco em sua criação, crenças que não souberam se adaptar aos tempos modernos, mas que já estão sendo deixados para trás, num passado que deve ser esquecido e não debaixo do tapete.
— Você deixaria o Caveira Vermelha debaixo do tapete, Hellen? — rebateu.
— O Caveira Vermelha é uma vergonha para nossa organização, Bobby. Um ser defeituoso, procurando por seres inexistentes e artefatos que só existem em contos de fada. Não compactuamos com este tipo de coisa.
"Você está indo bem, continue."
— O Capitão América nos livrou de uma pessoa psicologicamente instável, usando o nome de nossa organização para trazer benefícios pessoais...
— E não é isso que todos nós fazemos? Não me leve a mal, querida. — me interrompeu. — Que Deus o tenha, mas caso não saiba, o Capitão América livrou o mundo de um grande problema.
— Bobby, o Capitão foi a criação de um cientista rejeitado e perseguido por sua própria nação. Nada muito diferente do próprio Rogers, um garoto pobre do Brooklyn com problemas asmáticos. O que estou querendo dizer é que a HYDRA pode oferecer um mundo melhor, sem distinções.. um lugar seguro para a humanidade. — enquanto Daryl apenas me observava com um sorrisinho vitorioso, me perguntava o que Diego iria dizer ao me ver tão dedicada naquela conversa. — Para os seus futuros filhos e os filhos deles também.
Houve uma pausa assim que a comida chegou e nós três concordamos que aquele era um momento sagrado, assim, continuamos em silêncio por alguns minutos.
— Caso ainda não se sinta confortável, peço que venha visitar nossa base.
— Não se preocupe, Bobby… não vai encontrar nenhum corpo no porão. — Daryl brincou, sabendo que existia um corpo sim, mas que naquela altura, já estava sendo enterrado numa cova qualquer como um indigente.
— Sabe que o sobrenome da minha família não pode se associar a uma antiga organização nazista, pelo o que a senhorita acabou de explicar. — limpou a boca com o guardanapo em seu colo, sorrindo em seguida. — Para quem possui um belo rosto e uma voz doce, sua mente está tomada por ideais um tanto radicalistas.
— Seu país está apoiando uma guerra no Vietnã por interesses próprios, Bobby, eu diria que isso sim é algo radical. — rebati. — Se não estivesse curioso, seu lugar estaria desocupado neste exato momento.
— Interesse próprio não, apenas um bem comum. — deu os ombros, tentando evitar a palavra que começa com C e termina com Nista. — Sua organização também está se beneficiando desta guerra, Hellen, não tente esconder esse fato.
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