Mad World
4 03: when we all fall Asleep, Where do we go?.

Observando minhas pernas balançarem na maca, uma mulher vestida de branco se aproximou com uma seringa e nem mesmo o seu doce sorriso, foi capaz de me acalmar. Diego apertava minha mão de tempos em tempos, tentando me passar um pouco de sua coragem. Não sendo capaz de olhar a agulha perfurar a minha pele, fechei os olhos fortemente, ouvindo os risinhos da enfermeira, provavelmente acostumada com esse tipo de reação em crianças.
— Querida, abra os olhos, já acabou. — minha mãe murmurou, acariciando meus cabelos. — Tudo ficará bem, não se preocupe.
— Mamãe, por que temos que fazer isso toda semana? O que tem de errado conosco?
Aos dez anos de idade, o meu eu, ainda inocente, não era capaz de compreender a situação por completo. Questionava quantas vezes fosse preciso e mesmo assim, a explicação nunca foi dada.
Naquela época, não era necessário o uso de luvas de couro, tampouco precisava me preocupar com toques em geral. Se havia algo ocorrendo em meu corpo, os médicos não obtiveram as respostas necessárias. Menos afetada e capaz de sair de casa normalmente sem levantar suspeitas, os boatos já corriam pela cidade sobre o menino doente que todos tem medo de se aproximar, inclusive sua própria família.
— Não há nada de errado, Helena. De onde tirou isto?
Desviando o olhar, preferi não comentar sobre os murmúrios e conversas paralelas entre as empregadas. Era óbvio que havia algo de errado, diferente e assustador.
— Helena Zola, não me esconda absolutamente nada. — falando em tom autoritário, praticamente expulsou a enfermeira. — O que está acontecendo?
— As pessoas comentam, mamãe. Comentam sobre Diego e seu… dom. — tentando ser o mais gentil possível, prossegui. — O chamam de aberração quando não está por perto.
— Fiquem aqui, ok? Mamãe já volta!
Seu rosto assumiu um tom cor de magenta e antes que pudesse explicar qualquer coisa, saiu da sala. Impulsionei meu corpo, pulando da maca e seguindo Diego. Ele nunca foi uma criança capaz de obedecer e como sempre, eu o seguia, pronta para receber uma bronca ao seu lado.
— Fiz algo de errado? — entrelaçando sua mão a minha, acompanhei seus passos até o corredor do laboratório, onde meu pai passava a maior parte de seu tempo livre. — Não deveria ter contado?
— Eu não sei, Helena. — balançou a cabeça, andando na minha frente, como sempre fazia para me proteger, caso algum inimigo do papai aparecesse do nada. — Sabe como ela é, mamãe é protetora.
— Ela precisa ser, não é? Por causa do trabalho do papai.
— Papai se meteu em alguma coisa ruim, Lena. Eu sei disso. — confirmou. — Não sei o que é, não consigo ver.
Arnim Zola nunca foi de levar trabalho para casa. Por esse motivo, não havia um escritório na enorme mansão, muito menos um porão para se dedicar aos seus experimentos. Impedido por sua própria esposa, Rosalie Warshawiak, não havia nada que pudesse fazer. Suas escapadas no meio da madrugada se tornaram frequentes nos últimos meses. As empregadas falavam em uma tal de amante, seja lá o que isso fosse. Já o meu irmão? Falava que era trabalho, coisa grande com um cara estranho. Não duvidava de suas palavras.
— Algo ruim… — repeti, esperando uma explicação. — Ruim como?
— Ruim, mas não como aquela dor de estômago depois de comer todos os biscoitos escondido. Algo ruim, como… a primeira guerra mundial! Como aquela guerra que o professor de história me ensinou, lembra? Você estava ao meu lado, fazendo o dever de casa.
Risonha com a sua explicação boba, sentei em uma das cadeiras vazias, balançando a perna novamente e arrumando a saia do vestido azul que mamãe comprou no último natal.
— A guerra é ruim. — concordei. — Papai está com problemas, então.
— Acho que sim. — sentou e tirou uma bala do bolso de sua calça. — Toma! Eu roubei da bolsa da mamãe lá na recepção, isso vai te distrair até ela voltar.
Colocando o doce na boca e deixando a embalagem para trás, levantei rapidamente, correndo entre os corredores brancos cheirando a desinfetante.
— Ei, volte aqui! — sussurrava para não chamar a atenção de ninguém. — Lena!
— Vamos! Precisamos achar a mamãe!
Parando em frente às portas de vidro, engoli seco ao ver o casal discutindo mais uma vez. Abaixei a cabeça, me arrependendo. Não queria outra briga, não queria outra discussão, não queria ver mamãe chorando baixinho trancada em seu quarto.
…
Ao abrir os olhos assustada, percebi que se tratava apenas de uma lembrança há muito tempo esquecida. Passando as mãos cobertas pelo rosto, senti o suor tomar conta do meu corpo e suspirei, cansada dos sonhos que estava tendo ultimamente.
— Pesadelos? — a voz rouca e tomada por um sotaque russo, invadiu meus ouvidos. Trajando roupas de um civil, desconfiei das palavras de Arnim. Bucky Barnes não é um segurança, mas parece que não sou digna da confiança de ninguém, especialmente a confiança de Zola. — Me parece atormentada, agente 03.
— Como adivinhou? — sarcástica, estiquei as pernas no chão do avião, observando o soldado sentado à minha frente. Segurava uma pasta, mas não demorou muito para deixá-la de lado. — Acredite, ficaria surpresa com o quão atormentada eu sou. Diariamente. — balançando a capaz, me repreendi por descontar nele. — Perdão. Quanto tempo falta?
— Algumas horas, talvez quatro. — deu os ombros, olhando-me de soslaio com seus olhos azuis. Apesar dos apagões, parecia acostumado com o comportamento hostil ao seu redor, por isso, nada falou. — Finalmente acordou, o americano estava preocupado.
— Americano? — ergui a sobrancelha, vendo Daryl surgir da cabine de controle. — Merda! — sussurrei, assumindo uma postura defensiva. O que ele estava fazendo aqui?! — O que é isso? Algum tipo de reunião?
— Para começo de conversa, não sou americano. — negou, vindo em minha direção e se ajoelhando ao meu lado. — Você está bem?
— Não seja idiota, claro que estou!
Me afastei, conhecendo muito bem os seus joguinhos mentais quando Barnes está por perto. Ignorando minha pergunta e provavelmente todos os socos que já distribui em seu rosto por sua falta de senso e respeito, apoiou-se no braço do banco. Sua postura pseudo protetora pouco me importa.
— Helena, você desmaiou. — constatou. — Zola me pediu para acompanhá-la, disse que não poderia desistir da missão agora.
— Contou para ele?
— Não, pensei que não seria uma boa ideia. — negou. — Será que podemos conversar em outro lugar? Um lugar privado, de preferência.
— Estamos num avião, não existe outro lugar para conversar, Daryl. — revirando os olhos, o empurrei com as mãos e logo recuperou o equilíbrio, ficando de pé. — Ao não ser que o banheiro seja uma opção, o que não está nos meus planos.
Olhando para Bucky, bufou e se afastou, voltando para a cabine.
— Conversamos em solo, então. — murmurou.
O ignorei, abraçando minhas pernas e voltando a fechar os olhos. Não me lembrava de ter desmaiado, mas sabia que ele não estava mentindo, pois também não me lembrava de ter qualquer tipo de reação após a notícia do ano.
— Ele gosta de você. — Bucky falou, arrancando uma risada minha. — Falei algo errado?
— Perdão, não estava esperando por esse comentário. — ainda rindo, apoiei minhas mãos em minha barriga, não acreditando no que havia ouvido. — Não, ele não gosta.
— Parecia preocupado o bastante para algo me dizer que sim, ele gosta. — rebateu.
— Daryl tem um caso com o meu irmão, soldado.
Sem saber o que falar ou provavelmente chocado com a revelação, preferiu ficar quieto e voltou a mexer em sua pasta. Deixando o assunto de lado, voltei ao meu subconsciente, preparada para dormir, enquanto o destino ainda está longe.

Fale com o autor