Caleb esperou o dia inteiro na porta do apartamento de Henrique e Fernanda, mas nem a sombra deles deu sinal de vida no local. Ele estava cansado e não queria passar por mais um drama daqueles. Ir para casa depois que um dia estranho parecia a melhor opção e durante todo o caminho ele repetia mentalmente que aquilo não estava acontecendo e que não passou de uma impressão pela noite mal dormida.

Sua barriga roncava e seu corpo pedia cama. Em casa ele ligou a televisão para sair do silêncio e foi para cozinha preparar alguma coisa. Depois de pronto o miojo ele se sentou pra “assistir” o jornal. O noticiário falava sobre um acidente ainda sem explicações que havia acontecido no centro da cidade durante o dia envolvendo dois blocos de carnaval.

Não dava muita informação, só dizia que tinha uma vítima ainda não identificada e blá blá blá. Ali ele descobriu que não estava errado e que tudo começava de novo, como uma novela reprisada ou um filme assistido mais de uma vez.

O lugar funesto parecia saído de um universo alternativo. Todos de preto, pouca iluminação, um caixão no meio da sala e muitas e muitas flores e coroas. A mãe do falecido já havia desmaiado umas duas vezes. O pior de toda a situação era o local estar quase desértico. Como podia um jovem não ter pessoas em seu velório dizendo como ele era cheio de vida e que foi uma tragédia.

Bia não entendia o motivo de não ter ninguém ali chorando por Jonathan. Tudo bem que ele era meio rude e grosso, mas conhecia tanta gente. Tirando ela e os amigos que tinham presenciado a catástrofe, só tinha mais quatro pessoas: a mãe dele que era viúva, a tia, uma amiga delas e o padre.

Henrique falava ao telefone e Lucas tinha olheiras iguais as de um panda. O menino não dormia direito a duas noites com a imagem do amigo morto daquele jeito. Fernanda confortava a mulher desolada com ajuda de Daniel. Linda tomava coragem de chegar perto do caixão e olhar uma última vez para o garoto.

Rafael estava sentado em uma das cadeiras que estavam no canto da sala observando a garota no meio do caminho focando o nada. Quando ele decidiu falar com ela, H chamou todos para uma reunião rápida do lado de fora dali.

— Eu estava falando com o responsável da empresa do trio elétrico e ele me disse que o acidente aconteceu porque o motorista teve um infarto fulminante e morreu no volante. Por isso o carro ficou desgovernado. – ele contava o que tinham dito pra ele.

— No depoimento da menina que estava com ele ela disse que estavam fugindo da confusão quando o trio foi pra cima deles e eles caíram no chão, logo depois bateu no poste que foi ao chão com placa e tudo...

— Cortando ele no meio igual a um sanduíche de pão de forma. Essa parte a gente sabe. – disse Daniel interrompendo Lucas.

— Nunca mais como sanduíche de pão de forma. – disse Bia baixinho.

Eles voltaram para o velório antes que magoassem a mãe dele. Sandra entrou um pouco depois atrasada e sem respeitar a dor de ninguém. Ela simplesmente é assim quando não está drogada. Fala tudo o que os outros não tem coragem pra falar.

— Que lugar agitado! Tem tantas pessoas! – ela falava para eles.

— Respeita a mãe dele- Daniel a repreendeu.

— Onde você estava? Sumiu desde o dia do acidente. – disse Nanda.

— Eu sai com um cara que eu conheci, só não te conto os detalhes aqui porque isso iria acordar o tarado do defunto.

— Você não tem um pingo de consideração. – Daniel voltou a conversa.

— O que você esta fazendo aqui? Não gostava dele que eu sei. Isso é hipocrisia.

— Você é melhor chapada. – Rafa falou com raiva.

— E você não é melhor porque é riquinho e lambe o chão por onde a sem graça da Linda passa.

— Querem parar com isso! Estamos em um funeral e tem pessoas sofrendo. – Henrique dizia com raiva, porém baixo – É melhor você ir embora Sandrinha.

— Eu sei quando não sou bem vinda.

A garota saiu sem dizer mais nada inconveniente. Linda levantou e foi em direção do morto, ela o olhou por um tempo e a última lembrança que tinha dele era ele distante olhando tudo como se não fizesse parte da festa. Apoiou-se na borda do caixão e se aproximou um pouco.

— Você foi um babaca. – ela sussurrou – Espero que seja diferente onde está agora.

Ela ficou olhando a fotografia dele presa em uma das coroas de flores, devia ter 15 anos nela e usava uma jaqueta de couro. Flashs de antes da confusão passaram na sua cabeça e lembrou que a aparição de Sofia com a jaqueta e dos papéis que Nanda tinha mandado uma semana antes que diziam que o fantasma aparecia com bens pessoais das vítimas. Sua cabeça girava e tudo que ela queira era sentar.

Virou-se pensando em sentar-se nas cadeiras para pensar um pouco, porém sua pulseira ficou presa na barra da manga do paletó de Jonathan. Ainda calma ela tentou soltar, só que quanto mais ela mexia mais a pulseira prendia. Rafael percebeu o nervosismo dela e foi ver o que estava acontecendo.

— Aconteceu alguma coisa?

— Minha pulseira ficou presa. – ela fala já agoniada.

— Deixa eu tentar. – ele mexeu e mexeu e nada – Tenho uma ideia. Nanda tem uma tesoura? – falou chamando a garota.

Ela balançou a cabeça negativamente. Lucas puxou do bolso um chaveiro e perguntou:

— Serve cortador de unha?

— Serve sim – Rafael pegou o objeto e voltou tentando liberta Linda da prisão estranha que ela ficou.

Ele movimentou a mão dela para que ficasse na melhor posição para cortar a linha insistente. A menina já estava impaciente com a demora da situação. Antes mesmo que o cortador chegasse a fazer seu trabalho a mão sofreu um espasmo e sobrepôs a de Linda que entrou em pânico e deu um puxão removendo a mão de debaixo da dele. A pulseira arrebentou e ela tropeçou nos próprios pés caindo sentada no chão.

Sentiu os olhares direcionados a ela e a pele de seu rosto esquentou ficando corada. Levantou-se e saiu sem levantar a cabeça. Fernanda e Rafael a seguiram, do lado de fora do cemitério a encontraram sentada na calçada.

— Qualquer um teria se assustado. – a gótica tentava consolá-la.

— Lembra dos arquivos que você me enviou? Eu não contei, mas vi a garota da casa abandonada uns minutos antes do Jonathan morrer. – ela dizia ainda de cabeça baixa – Você sentiu a energia e não foi só um pressentimento.

— Aposto que a garota existe, deve ter trabalhado pro cara dos efeitos, filmou ela vestida... – Rafael tentava justificar.

— Ela usava a mesma jaqueta da foto do Jonathan.

— O espírito aparece com os pertences do próximo a morrer. – Nanda falou citando o que havia lido.

O rapaz estava chocado com as coisas que elas diziam, sobre fantasmas e rituais. O falso ritual que eles participaram não era o responsável pela morte prematura do amigo. Tudo coisa de gente fanática, cadáveres não voltavam à vida com cerimônias de sacrifício.

O enterro seguiu sem problemas aparentes, com uma sensação pesada no ar. Podiam sentir nos ossos que algo muito errado acontecia e que estavam envolvidos até a raiz do cabelo.

O mundo dos condenados se agitava mais uma vez! Poucos são os sortudos que conseguem uma nova chance e toda nova chance tem um preço alto a ser pago. Preço que não pode ser negociado, muito menos rejeitado. Sorte ou azar, não se pode dizer com precisão, pois depende do lado que você está.

Notas finais
Achei que ficou curto, mas se eu colocasse tudo que pensei ficaria grande demais, logo o resto fica pro próximo. Beijinhos e até!