Macabro - 1.0
7 Capítulo 6
Notas iniciais
Linda e Fernanda abafaram a história, iriam contar no momento certo, depois claro de terem provas suficientes para convencerem aos outros. Tudo era loucura. A desenhista passava e repassava um filme em sua cabeça para entender. Testemunhas não haviam. Quem se envolvia num ritual desses morria e tudo que sobrava eram relatos mal feitos de pessoas em pânico.
Elas já folheavam livros e rolavam páginas da internet sem esperanças. Pelo o que parecia ninguém sobrevivia. Três séculos de massacres e nenhuma pista de como parar com essa maldição. Os textos sobre como o culto é realizado contavam que esse tipo de pratica trazia uma pessoa morta e possivelmente condenada à eternidade de sofrimento no inferno de volta a vida. Sacrifica uma virgem, não necessariamente ela precisa morrer. O próximo passo é ler as inscrições do livro de rituais demoníacos – livro esse dado a poucas pessoas no início do século 16.
— Cinco séculos e nenhum sobrevivente – Linda falava conformada com a sua situação.
— Talvez não! Só sabemos sobre três dos cinco...
— E é tudo que vamos saber. Ninguém fez um comentário antes disso.
Um dia gasto com pesquisa. A vida deles tinha um cronometro com tempos diferentes e a fila anda. O próximo podia morrer a qualquer momento e isso era só o começo. As duas não sabiam mais a quem recorrer. E pela primeira vez sentiram um medo que não tem explicação. Brincar com o que não se conhece é perigoso e imprevisível.
Nanda deu uma carona para Linda até a casa dela. A garota subiu os degraus para o segundo andar devagar e abatida. Se ela cumprisse o que tinha prometido nada daquilo estaria acontecendo. No banho pensava em dar um fim naquilo, talvez se morresse primeiro os outros não morreriam, a virgem é a última. Relaxou na banheira e afundou a cabeça, mas não teve coragem pela primeira vez.
Ficou ali umas duas horas sentada, segurando os joelhos com as mãos. Não resolveu o problema. Decidiu que parar não ajudaria e o que importava era viver os dias que lhe sobraram. Escovou os cabelos, se secou, vestiu seu tipo habitual de roupa e saiu do banheiro. Guardou todas as telas e desenhos espalhados pelo quarto, os pôs num saco e os jogou fora.
Ironicamente lhe veio à cabeça o que sua madrasta havia dito dias atrás: pintores só ficam conhecidos após a morte. Talvez agora ela tivesse seu trabalho reconhecido. Ao voltar para o quarto começou a arrumar o criado mudo que estava uma zona. Sentiu um tec. E o peso do medalhão caiu sobre seu pé e correu para debaixo da cama. Não era a primeira vez que a corrente soltava-se de seu pescoço, o fecho devia estar com problemas.
— A culpa disso tudo é sua! – falou para o objeto inanimado enquanto se abaixava para pegá-lo.
Tateou o chão empoeirado até encontrá-lo e puxou. Uma leve resistência foi empregada na velha jóia. Ela voltou para o criado mudo e procurou pela lanterna guardada na gaveta. Passou o feixe de luz e viu que uma agenda antiga impedia sua tentativa de recuperar o medalhão.
Tirou os dois do esconderijo e analisou a agenda, em branco e sem data, mais parecia um diário. Olhou a caneta que repousava na escrivaninha e começou a escrever sua nova situação no encadernado. Concentrou-se ao máximo para relatar fielmente toda a história de um jeito que ajudaria as próximas pessoas a não se meterem na mesma situação ou que já entraram a entender um pouco mais.
Acabou pegando no sono, sentada ali mesmo, encima dos papéis. Acordou com um barulho abafado que vinha do térreo. A única claridade no quarto entrava pela janela e vinha do poste, não se lembrava de ter desligado a luz. Mexeu e remexeu no interruptor várias vezes, mas nada ligava. Pegou a lanterna e saiu do cômodo rumo as escadas.
Procurou por alguém em casa, mas só teve a constatação de que estava sozinha. Olhou o relógio e passava da meia noite. Pensou em voltar e dormir e só para ter certeza que estava tudo bem parou no meio da escadaria e checou o andar inferior. Nada. Virou-se de novo para subir e deu de cara com a morta, dois degraus a cima com um ar de superior. Não foi com da primeira vez, não se assustou, nem gritou, apenas a encarou nos olhos e sentiu que Sofia tinha mais vida do que antes. Seu tom de sépia tinha mais vida e sua respiração mais calma.
Em sua orelha direita pendia um brinco vibrante e colorido de pena que reconheceu na hora sendo de Sandra. A menina usou em diversas situações e era seu preferido. A aparição falhou algumas vezes como uma televisão mal sintonizada e sumiu. As luzes da casa acenderam todas de uma vez a deixando cega por breves instantes. Sentiu as chaves do carro e o celular em seus bolsos. Também não se lembrava de tê-los deixado ali. Desceu em um pique e entrou na garagem dirigindo se ao carro. Pegou o celular e ligou para Fernanda.
— Atende! Atende, atende, atende. – toque depois de toque e nada.
Resolveu então ir para a casa da vítima da hora. Bateu durante alguns segundos sem parar, o que pareceu uma eternidade, até a luz da sala acender. A mãe da garota abriu a porta meio transtornada com a confusão e ao notar que era Linda que atrapalhava seu sono a olhou de cara feia.
— O que você quer aqui menina? Não é hora de quase derrubar a porta da casa de ninguém. — a mulher falava rispidamente.
— Desculpa pelo incomodo, mas eu preciso saber onde está a Sandrinha. É uma emergência, tia.
— Tia é o escambau. E qual é a urgência? Maconha? Já falei pra aquela garota que não quero viciados me incomodando. Vai fumar longe daqui.
— Não é nada disso que a... – mas foi interrompida.
— Sei, esse tempo todo que ficou sumida é claro que foi pra reabilitação. – Linda já sentia certo nojo ao olhar para a mulher desenxabida. Não era de se surpreender que a filha tivesse tantos problemas e fosse do mesmo jeito quando sóbria.
— Eu só quero saber onde ela está. – foi direto ao ponto.
Percebendo que a garota não estava de brincadeira e não sairia dali sem a informação soltou logo a língua: — Numa pequena rave perto das docas.
Linda abandonou-a falando sozinha e voltou para estrada. Era chão até chegar e o caminho em sua mente confuso. A cidade mais parecia um canteiro de obras e havia diversos desvios até chegar lá.
Sandra dava uns tapas no basiado dividido entre ela e o peguete da vez. A música muito alta se espalhava pelo local. Varias pessoas dançavam e beijavam desconhecidos alheatoriamente. Henrique estava no evento que pertencia a um amigo apenas para não fazer desfeita. Há muito ele já tinha dado a menina como causa perdida e nem ligava para as atitudes dela que agora passava de mão em mão na rodinha com três rapazes.
Linda dava voltas e mais voltas tentando achar a rua certa em que ela pudesse entrar, mas tudo que fez foi gastar gasolina. Cansada estacionou o carro no meio fio e seguiu a pé sem ligar para o risco de ser assaltada ou ficar sem o veículo.
A festa estava sendo realizada na doca 15 e Linda estava de frente para a número 6, teria que passar por 9 e encontrar a menina por lá, isso se ela ainda estivesse lá. Os efeitos das drogas já davam sinal em Sandrinha.
— Bateu uma larica agora! Vou comer alguma coisa e já volto, serei todinha de vocês em breve. – saiu se justificando para os rapazes.
Parado no meio da muvuca estava um vendedor de cachorro-quente com sua barraquinha, uns rapazes já chapados brincavam de intimidar o pobre senhor. Tiravam o boné do homem e jogavam de um para o outro, tiravam sarro da cara do sujeito e balançavam a carrocinha derrubando tudo no chão: fósforos, guardanapos, sacos de pão e tudo que se possa imaginar.
O fogo que queimava na solitária boca de fogão apagou e a mangueira do pequeno bujão de gás se soltou sem que ninguém percebesse. O homem tentava afugentar seus agressores brandindo os braços ferozmente.
Linda já podia ouvir o som e só faltavam dois galpões, em sua mente passavam algumas perguntas do tipo: mesmo que você a encontre o que vai fazer? Ou pra que você saiu de casa?, não tem jeito mesmo.
O senhor já cansado tirava suas coisas do chão enquanto o gás se espalhava por sua carrocinha de cachorro-quente. Sandra andava em sua direção contando o dinheiro que estava em sua mão. A essa altura ele já havia catado tudo e arrumava a caixa de fósforos. Um dos palitos ficou em sua mão mesmo depois de ter fechado a caixinha. Ao riscar o objeto na lateral áspera se criou uma chama que foi conduzida até a boca do fogão levando a uma reprodução muito mais séria.
O fogo consumiu todo o gás guardado ali e explodiu os vidros da barraca. Um dos enormes cacos voou e atingiu o peito da garota que abriu a mão deixando o dinheiro cair. Tudo aconteceu muito rápido e a histeria dominou as pessoas da festa. Pessoas que estavam próximas levantavam do chão ou gritavam com o que tinha acontecido. Muito saiam correndo do local.
Linda ouviu o barulho e correu até lá. Henrique ajudava o vendedor a se levantar, por um milagre ele não se machucou. O rapaz focou Sandra na confusão e a viu parada com o pedaço atravessando seu coração e pondo sangue pela boca compulsivamente. Depois que menina deixou os joelhos cederem ele saiu correndo como todos até esbarrar na Linda.
— O que aconteceu? – ela perguntou tentando chegar mais perto da doca 15, mas ele a segurava a arrastando dali.
— Uma explosão. – ele respondia rápido.
— Você viu a Sandra? Temos que encontrá-la. – ela ainda tentava contra ele.
— Ela morreu. – H. sentiu o corpo dela ceder aos seus esforço e acompanhá-lo – Temos que sair daqui, a festa era ilegal e a polícia vai chegar logo.
— Eu estou de carro, posso te dar uma carona.
— Vou precisar. – ele concluiu por fim.
Notas finais
No meio do capítulo me perguntei o q fazer com a Sandra e a resposta não me veio. Mas agora já tenho o próximo capítulo todo em minha mente, logo ele será postado em breve. Beijinhos e espero que não tenham parado de vez de ler.
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