- Sexta vai ter um bloco de carnaval organizado pelos amigos do Henrique. – Fernanda conversava com Linda no shopping – Vai ser bom para você. Vem com a gente?

— Posso pensar? – a morena olhava uma vitrine com um vestido preto.

— Não pode! Você vem. – a falsa gótica analisou a peça – Não combina com o seu estilo a não ser que esteja tentando conquistar alguém.

Linda ao contrário dos outros conhecia Nanda há mais tempo. Amigas desde o fundamental conheciam uma a outra melhor que a palma da própria mão. A segunda não cobrou explicações quando a desenhista sumiu, sabia que ela precisava de isolamento. Também sabia que o vestido da loja não combinava com a outra que sempre foi do tipo calça jeans, bota e camiseta branca.

— Quero experimentar coisas novas. Estou até pensando em cortar o cabelo.

— Entra e compra. – falou em tom de desafio — Vai de metrô para o bloco.

Elas passaram mais umas horas no shopping atrás de uma fantasia para Henrique e matérias de festa. Depois de muita insistência Linda concordou em aparecer rapidamente na empreitada carnavalesca.

O celular não parava de tocar no bolso do short. O metrô não estava cheio, no entanto Linda foi em pé se segurando na barra. As luzes piscavam enquanto passavam no túnel. Algo chamava a atenção do lado de fora do vagão. Um vulto em forma de gente rodopiava junto ao vento. Ela se aproximou do vidro e olhando atentamente pensou ter visto uma mão tocar a porta do trem. Recuou um passo e sentiu uma sensação, uma presença, se virou devagar e não encontrou nada além do poste para se segurar.

Só agora notou que estava sozinha por exceção de uma mulher sentada muito encolhida no último banco. Aquilo era estranho; a alguns momentos tinhas umas sete pessoas ali e não lembrava de ter parado em estação nos instantes anteriores.

— Próxima estação Cinelândia, desembarque pelo lado esquerdo. Next stop Cinelandia station. – a voz da mulher ecoou no vagão.

A senhora junto dela começou a se mexer e levantou. Parou a uns três metros e ficou parada de cabeça baixa pelo que pareceu uma eternidade. Quando a velha suspendeu o crânio um choque elétrico atravessou a espinha da garota. O rosto enrugado e os dentes podres eram bizarros.

— Está próximo! – a saliva grossa formava um cordão na boca ressecada.

Ela começou a se aproximar de Linda, mas o trem freou e a menina deu dois passos brutos para frente. As postas se abriram e as pessoas invadiram o carro. Procurou a idosa e não a encontrou. Antes que as portas a fechassem saiu andado apressadamente da estação.

Quase todos já haviam chegado para o bloco de carnaval. Henrique não gostava muito desse tipo de festa, porém não podia recusar o convite de participar de uma organização de um evento tão grande. Isso alavancaria sua carreira publicitária.

Fernanda ligava sem parar para Jonathan e Linda, sabia que achá-los naquela multidão era difícil e não queria que eles se perdessem. O carro elétrico sairia em poucos minutos e eles ficariam para trás.

O playboy chegou há uns trinta minutos e preferiu não se aproximar deles e ficou por perto de duas garotas que lhe chamaram atenção. Linda passou por ele não falou nada, continuou seu caminho até os amigos. Talvez fosse melhor deixar ele lá, assim não sairia briga entre Jonathan e Daniel. O primeiro parecia ter bebido um pouco antes de vir e o segundo não deixaria passar esse fato e o zoaria.

Nanda sentiu um aperto no coração na mesma hora em que Linda sentiu um vento frio assoprar seus cabelos. A morena tinha a sensação de ser seguida de perto por alguém que não existia. Tudo coisa da sua cabeça: dizia para ela mesma. É claro que estava errada.

Logo viu um menino com um chapéu de cerveja ao lado de outro com um óculos gigante e um pente no estilo Zé Bonitinho. Nanda ajeitava o chapéu de pirata na cabeça de Henrique. Sandrinha já estava alta com os efeitos da cerveja barata que bebia e a fantasia era um misto de bailarina com Pedrita.

— Nunca imaginei que você fizesse o estilo fadinha! – Daniel brincava vem o jeito que Linda estava vestida.

— Deixe minhas asinhas em paz! Você está dando em cima de mim? – ela brincava com o personagem dele.

— Não! Eu já beijei 999 mulheres e estou com a boca murcha de tanto beijar. – e fazia biquinho indicando que estava cansado.

— 999? Só nos teus sonhos né? – Lucas falava equilibrando o chapéu cerveja.

— Gordo é f***! Já pegou alguém nesse século? – eles engataram uma discussão animada e engraçada de se ver.

Linda abraçava a amiga vestida de colombina e tentava por o papo em dia com Bia que não conversava há algum tempo. Depois de um breve tempo Nanda se aproximou das duas e entrou na conversa.

— Afinal você está vestida de quê? – Bia olhava a os muitos colares pretos e brancos que estavam no pescoço dela.

— Sou uma zebra! Não dá pra notar? – Nanda indagava olhando ao redor.

— Na verdade não. – a fofa colombina falou – Está procurando alguém?

— O Jonathan, o bloco já vai sair e ele ainda não apareceu, e só falta ele.

— Eu o vi a algum tempo paquerando umas meninas a uns seis metros daqui. O Rafa já ta ai? Não o vi.

— Ele ficou de encontrar a gente no meio do caminho porque não conseguiu sair de casa antes então vai chegar atrasado.

Henrique tentou falar com Jonathan para se juntar ao grupo, mas o playboy recusou e os seguiu de longe. O bloco saiu cantando marchinhas e músicas animadinhas, as pessoas iam atrás brincando e dançando alegremente. Os amigos estavam perto da banda e do carro de som que parecia um pequeno trio elétrico.

Linda se divertia pela primeira vez em muito tempo e até mesmo gostava da folia. Andou por varias ruas com o grupo de umas mil pessoas curtindo o som e esquecendo qualquer problema que lhe apareceu nos últimos meses.

De uma forma estranha a banda entrou por uma rua errada e Rique teve que se resolver com os outros coordenadores do bloquinho. A não tão óbvia fadinha sentiu uma presença inegável que a fez diminuir o ritmo. Uma sensação fria dominou a atmosfera ao redor e não foi só ela que sentiu. Em outro ponto da cidade um tremor percorreu o corpo de Caleb que lia um livro em paz.

Ele fechou o exemplar em suas mãos imediatamente e se levantou. O loiro quase não acreditava no que tinha sentido. Aquilo não estava acontecendo! Porque agora? Uma semana e meia depois?

Abriu o armário e pegou a primeira roupa que avistou. Não quis nem saber se estava descabelado e com barba por fazer. Ele sabia que tinha que para o que estava preste a começar antes que todos se machucassem. Ou pior: morressem.

Linda começou a se sentir ofegante e as pessoas passavam em slow motion. Os rostos distorcidos e mascarados rodopiavam a sua volta. Ela pensava com si mesma que a melhor a fazer era focar o olhar em algo antes que vomitasse encima das pessoas no evento.

Fechou os olhos e respirou bem fundo antes de abri-los novamente. Quando o fez a primeira figura em seu campo de visão era uma mulher com uma fantasia de melindrosa. Ao contrário de tudo por ali que tinha vida e cor a mulher tinha tons de sépia, desbotada como numa fotografia.

O cabelo Chanel, os olhos que ela sabia serem azuis safira, a tiara de penas, o colar de pérolas e o vestido de franja com a mancha no mesmo lugar de antes, tudo era igual à mulher da casa abandonada. Exceto por uma jaqueta de couro velha e desgastada que ela usava por cima.

— Sofia! – Linda sussurrou dando dois passos para trás.

Ela tentou fugir, se virou bruscamente para sair correndo do lugar, mas se deparou com a forma fantasmagórica. Ali, cara a cara, a menos de um palmo de distancia. Ela sentia a respiração pesada e o ar quente que saia da boca dela com se estivesse viva. Os olhos furiosos e mortos a devoravam de fúria.

Aquilo se passou em um fração de segundo antes da morena gritar e perder o equilíbrio. Era como uma queda livre até sentir mãos a aparando e evitando que chegasse ao chão. Seu primeiro instinto era se debater tentando se libertar.

— Me solta!

— Linda sou eu! Sou eu! Para de gritar, não vou te fazer mal! – Rafael implorava tentando deixá-la de pé.

— Rafa... – a garota o abraçou aos prantos, seu corpo pequeno ainda tremia de pavor.

— Vem vou te tirar daqui. – ele abriu espaço pela multidão tentado chegar à calçada que estava mais vazia.

Ela ficou sentada no meio-fio enquanto ele comprava uma garrafa de água com um ambulante. O rapaz voltou em menos de um minuto e se agachou na frente dela. O coração dele palpitava mais forte a cada momento só de olhá-la escondendo o rosto com as mãos.

— Você quer me contar o que aconteceu? – ele perguntou gentilmente.

Linda não sabia o que dizer. Rafael iria achar que ela está doida de vez. Não fazia sentido. Haviam prometido que nada aconteceria e agora ele via gente morta como no filme sexto sentido. É uma pegadinha do Henrique! Era o que ela tentava acreditar.

— Não! Você vai me achar louca. – levantou a cabeça e viu Nanda vindo na direção deles.

— O quê aconteceu com você? Sumiu de repente. – Nanda se preocupava com a amiga.

— Deve ter sido o calor e a multidão... – o menino tentou começar, mas foi interrompido.

— Não! – a artista olhou para a pseudo gótica e com a cumplicidade que tinha entre as duas ela entendeu.

— Eu também senti.

— Eu a vi! Ela tava lá entre as pessoas. Chegou bem perto de mim.

— Você sabe a que acontece depois? Estava nos papeis que eu te mandei. Tem algo ruim...

Rafael se sentia perdido na conversa das duas.

— O que vocês estão falando?

-Temos que encontrar os outros. – Nanda falou por fim.

Os três se enfiaram no meio dos foliões de novo, empurrando e se espremendo para passar. Quando chegaram ao início do bloco notaram que ele se misturava com outro maior, com um trio elétrico maior e praticamente em rota de colisão. O carro parecia não ter motorista e não parava para esperar o outro passar, algumas pessoas não notavam o perigo e continuavam a segui-lo, a banda parou de tocar, pois não se ouvia mais a música deles.

Dentre os que continuavam estavam Jonathan e Sandrinha. O garoto beijava uma das meninas que ele paquerava antes da festa começar. Henrique brigava com um dos organizadores que respondia que não sabia o que estava acontecendo e que não conseguia se comunicar com o carro deles. Ele falou rapidamente com Lucas e Daniel que mandou Bianca se encontrar com os outros três.

— Saiam todos de perto do trio elétrico, estamos com um problema técnico que já será resolvido – um dos amigos do Rique falava no megafone – Saiam, por favor.

A multidão começou a se dispersar um pouco. Alguns se juntaram ao outro bloco incluindo o playboy pegador, que passava lentamente pela frente do carro desgovernado. O outro trio parou a música também e começou a tentar sair da frente do outro que acelerava mais e mais. Um tumulto se formou, a correria se generalizou e o pânico tomou conta.

Todos tentavam se afastar dos dois veículos prestes a bater. Linda e Nanda partiram em direção a iminente tragédia, Rafael foi atrás delas. O automóvel maior entrou em uma rua proibida no cruzamento obrigando a todos a saírem do caminho. Uma coisa tão grande não podia passar tão rápido pela via cheia de curvas. O terror nos rostos dos cidadãos predominava.

Logo o menor alcançou o outro o fazendo bater em um poste com placa de transito verde a uns cinco metros de altura do chão. A placa se desprendeu caindo entre o público.

Eles ouviram um grito e deram a volta no carro batido. Ao ver a cena Linda empalideceu e abraçou o amigo que estava atrás dela escondendo o rosto no peito de Rafa. Nanda não agüentou a cena e vomitou. Bia, Lucas, Daniel e Henrique chegaram logo depois e encontraram uma menina aterrorizada, suja de sangue ao lado de um corpo quase que partido pela metade pela placa. Lucas chegou mais perto.

— Droga! É o Jonathan- ele olhava para os outros em estado de choque com a cena.

Notas finais
Bem fiquei um tempo sem postar, mas agora estou de volta e não vou me afastar de novo. p.s. eu achei que ficou meio confuso esse capitulo.