Ma Chérie
6 Capítulo 6: Mon ange
Notas iniciais
Quanto ao capítulo, mais um que vem mostrar o jeito de pensar da Liz e de como é mais ou menos a convivência delas em casa!
POV Vic
Era segunda-feira e eu já queria o final de semana. O trabalho havia sido bastante cansativo, Davi ficou doente e ele tinha trabalho para ser concluído até o final do dia. Tivemos de dividir a sua parte e nos virar com as que já tínhamos. Foram horas e mais horas seguidas enfrente ao computador, mal havia saído para almoçar. Para completar o ônibus estava lotado e eu não havia conseguido um lugar para sentar. O motorista da vez parecia achar que estava em alguma espécie de competição! Porém assim que eu parei enfrente ao meu prédio eu lembrei que Liz estaria já lá e acabei sorrindo sem querer. No dia anterior eu tive a sensação de que ela estava vivendo uma verdadeira aventura ao fazer compras no mercado. Ela ficava perguntando por que havia tantos produtos diferentes com a mesma função e o porquê de um ser mais caro do que o outro se possuíam as mesmas substâncias. Pareceu ficar encantada com a variedade de coisas e me fez comprar frutas e vegetais! O que era um grande avanço já que geralmente eu priorizava coisas instantâneas. Quando cheguei ao apartamento e o abri não resisti em dizer alto:
-Ma chérie, cheguei!
Assim que falei senti um cheiro delicioso vindo da cozinha. Franzi o cenho e fechei a porta atrás de mim, foi o tempo de Liz aparecer usando um avental fofo com flores coloridas. Ela sorria grande, apesar de estar levemente suja na bochecha.
-Bem vinda, chérie – ela cumprimentou com um lindo sorriso – Chegou bem a tempo, o jantar está pronto!
-Não acredito que você fez mesmo isso! – exclamei incrédula, indo em direção à cozinha para ver o que ela preparou.
-Sim, fiz lasanha de molho branco, você disse que gostava – Liz disse com um sorriso tímido e ao mesmo tempo com um jeito empolgado – Vá por a mesa, deve estar morrendo de fome.
-Eu amo você! – falei a abraçando de surpresa, apenas para vê-la corada – Como se diz meu anjo em francês?
-Ah... ah... – ela ficou mais vermelha ainda, sussurrando minha resposta – Mon ange.
-Mon ange! – dei um beijo na bochecha dela antes de me afastar – Vou por a mesa e vou querer saber tudo como foi seu primeiro dia no trabalho enquanto jantamos.
Liz sorriu e de uma maneira fofa balançou a cabeça de maneira afirmativa, fazendo com que seus fios ruivos balançassem. Fui por a mesa do jeito que ela gostava e me lembrei do que ela havia falado sobre fazer algo para mim apenas porque eu iria ficar feliz. Seria mesmo verdade? Ela estaria fingindo isso? Poderia ser apenas uma forma para me impressionar e mantê-la morando ali. Franzi o cenho com o pensamento, era tão complicado acreditar nisso! Era possível ler naqueles olhos cor de chocolate que aquela garota era ingênua e tinha fé em coisas a muito esquecidas e temidas. Como o amor. Que jogasse pedras e gritasse de alegria quem nunca teve o coração partido e depois se tornado uma pessoa diferente por causa disso. Ou que não tivesse medo de se envolver com alguém e depois se machucar, preferindo não se apegar a alguém.
-Olha, está aqui – Liz chegou com luvas e trazendo a lasanha quentinha, saída literalmente do forno – Parece que ficou boa.
-Do jeito que estou faminta, até mesmo um cachorro-quente me faria feliz! – falei sentindo minha boca salivar ao ver aquela massa suculenta.
-Posso fazer amanhã. Não adiantará qualquer argumento negativo, estou decidida a fazer pelo menos isso nessa casa! – Liz foi absoluta em sua fala.
-Oui madame – disse apenas para provoca-la apesar de meu terrível sotaque, sentando-me a mesa – Posso me acostumar facilmente com isso.
A ruiva sorriu contente e satisfeita, voltou à cozinha para se livrar do avental e luvas para só então retornar. Eu tive a decência de espera-la, mas assim que Liz sentou eu já estava pegando um grande pedaço de lasanha e experimentado um pouco. Mesmo sentindo o pedaço muito quente em minha língua, estava delicioso!
-Certeza que nunca cozinhou antes? – questionei desconfiada.
-Absoluta, Charlotte era a nossa cozinheira – Liz falou resoluta e fitou-me com os lábios apertados demonstrando toda a sua ansiedade e expectativa – Isso quer dizer que está bom?
-Delicioso! – exclamei logo comendo mais um pouco – To começando a achar que você fez pouco.
-Você come tanto assim? – ela indagou surpresa, mas com um sorriso discreto de satisfação.
-Estou em fase de crescimento ainda, não me culpe!
-Hum, então terei de equilibrar um pouco as coisas. Um pouco de salada às vezes, que tal?
-Ah, eu não gosto muito...
-Ou isso ou fica sem o prato principal. Cozinharei apenas para mim e se ousar roubar minha comida teremos um embate do qual tenho certeza de que irá perder, fui muito bem treinada.
-Nossa, perigosa! – ri alto a fazendo sorrir divertida – Veremos sobre isso.
-Não será ruim, eu prometo.
Ela estava sinceramente empolgada e se esforçando. Era impossível ser mentira aquele sorriso feliz que brincava no canto dos lábios dela, ou aquele olhar tão brilhante e vívido. Foi engraçado vê-la tentando se servir, ela derramou um pouco na mesa e fez um olhar de quem havia cometido o pior dos crimes. Tive de rir e segurá-la para não limpar logo aquilo, ela tinha de se alimentar primeiro!
-Conte-me sobre o trabalho – pedi para distraí-la.
O que parece que deu certo, ela estava com um enorme sorriso o que indicava que ocorreu tudo bem.
-Consegui fazer tudo como queria. Era aula de jazz e eles já são uma turma um pouco antiga. Então comecei com um estilo livre, trocando as músicas. Depois fiz um círculo e perguntei como eles esperavam que fossem as aulas e como eram antes, para eu ter noção do ritmo deles. No fim eles me fizeram dançar Lady Gaga no improviso, acho que me sai bem.
-Tenho certeza que sim, já que eu vi o seu vídeo – comentei distraída.
-Que vídeo? – ela semicerrou os olhos encarando-me desconfiada.
-O de sua audição com o Pierre, Anne gravou e me enviou.
-Que ultraje! Eu não autorizei tal ato! – Liz disse largando o garfo na mesa, parecia um pouco zangada apesar de ainda manter a compostura, o que tornava a sua expressão ainda mais divertida para mim.
-Ela enviou apenas para mim, eu juro para você. Estava linda a apresentação e isso que importa não? Não mate nossa vizinha, ela é a mais legal do prédio!
-Ainda assim foi errado fazer algo sem minha autorização, sinto-me desconfortável.
-Tudo bem, não irá se repeti. Mas também juro que irei vê-la dançar de perto um dia, você é muito boa e tem um corpo muito bonito.
Novamente ela estava corada com o meu elogio espontâneo e sincero. Sorri e retornei a comer, mudando um pouco o rumo de nossa conversa. Apesar de estar cansada, o assunto nunca parecia faltar entre nós duas, conversávamos de tudo um pouco, mesmo que fossem coisas supérfluas.
Os dias foram se seguindo assim, saiamos cedo para o trabalho e pegávamos o ônibus juntas, na maioria das vezes com Anne ao nosso lado. Eu só retornava para casa já pelo inicio da noite, Liz chegava quase uma hora antes e tinha um jantar já preparado. Pierre sempre vinha me ver para ter notícias da ruiva e aparecia uma vez ou outra para jantar conosco. Na sexta-feira eu tinha certeza de que Liz era a pessoa mais educada e dedicada que eu já havia conhecido!
{...}
Quando cheguei a meu apartamento era por volta das sete horas da manhã. Era domingo e como na maioria das vezes aos sábados eu dormia fora. Em Santa Mônica havia um lugar chamado 7Sins, durante o dia servia como restaurante e clube, mas durante a noite transformava-se no point mais badalado, principalmente aos sábados. Sua grande vantagem era o seu jeito alternativo, tanto para o público quanto para as suas duas áreas, uma para shows ao vivo e outra para boate. Talvez fosse um dos maiores estabelecimentos daquela cidade pequena e apesar de encontrar-se no interior, sempre chegava pessoas novas das cidades vizinhas e até mesmo do Rio de Janeiro.
Assim que passei pela porta deixei que meus dedos passeassem pelos meus fios escuros para arrumar a bagunça que estava meu cabelo. Estava cambaleando de sono já que havia passado a noite gastando minhas energias com uma mulata. Joguei minha bolsa em qualquer lugar, chutei minhas sandálias e já estava indo em direção ao sofá para desabar quando escutei uma voz francesa vinda da cozinha.
-Nada disso, eu acabei de arrumar as coisas! – Liz exclamou vindo em minha direção – Pegue sua bolsa e coloque ali, comprei um cabide para bolsas e ajeitei um lugarzinho para nossas sandálias.
-Ah princesinha, me deixa dormir – falei fazendo corpo mole, com uma voz completamente dengosa.
-Assim que você o fizer eu deixo – Liz continuou teimosa, começando a me empurrar em direção a minha bolsa caída no chão.
-Você não está sendo fofa, volte a ser meiga e gentil – reclamei zangada.
-É bem mais fácil você depositar diretamente no cabide do que jogar em qualquer canto. Irá evitar perder as coisas e deixará tudo organizado, já pensou se recebemos uma visita inesperada e a casa está bagunçada?
Resmunguei mais uma vez, mas apenas para fazê-la parar de falar peguei minha bolsa e a coloquei em um dos braços do cabide que ela tinha comprado. Liz era o tipo de pessoa que prezava a organização e me vencia de diversas formas. Seja por ter argumentos fortes, seja por desatar a falar para defender o seu ponto. Empurrei as sandálias com má vontade até o tapete que ela tinha posto ao lado da porta e me virei para a ruiva com uma careta.
-Pronto, bonitinha. Agora me deixa dormir! – definitivamente eu não era carinhosa quando estava com muito sono.
-Obrigada.
Então Elizabeth sorriu daquele jeito iluminado e sem jeito dela e deu passagem, pondo alguns fios de cabelo atrás da orelha de um jeito fofo.
-Ah caralho, é tão difícil ficar com raiva de você! – exclamei mais para mim mesma.
-Fiz algo errado? – Liz arregalou seus olhos castanhos e recuou temerosa.
-Não, relaxe – balancei minha própria cabeça e comecei a seguir para meu quarto – Faltou você na festa, até o Pierre estava lá.
-Estava cansada – ela deu de ombros e olhou-me de maneira preocupada – Vá descansar, está com uma aparência degradável.
Apenas acenei com a cabeça e dessa vez a obedeci com alegria. Abri a porta de meu quarto e nem ao menos a fechei, apenas cai em minha cama, fechei meus olhos e apaguei. Eu havia insistido para que a ruiva fosse comigo e Anne para 7Sins, mas ela negou e preferiu permanecer em casa para caso Rachel ligasse anunciando o veredito de seu trabalho durante a semana. Eu sabia que era impossível ela não ser aceita, Anne chegava sempre cheia de elogios e comentando sobre as aulas que a estrangeira dava. As duas estavam se dando extremamente bem, talvez por terem um estereótipo diferente do brasileiro, talvez por serem apaixonadas por dança.
Geralmente quando eu deitava para dormir no domingo, acordava apenas muitas horas depois. Porém pouco tempo depois de ter desabado em meu sono, escutei gritinhos e murmúrios vindos da sala. Virei meu corpo mudando de posição tentando ignorar, porém mais gritinhos vieram e eu resmunguei alto. Cambaleando e com uma cara nada boa, fui até a sala para encontrar com Anne e Liz esbanjando alegria.
-Que inferno, eu quero dormir! – exclamei zangada – Façam menos barulho!
-Bom dia flor do dia! – Anne riu alto enquanto Liz ficou prontamente quieta – Mas é impossível não ficar feliz, Rachel acabou de ligar! Liz agora é professora de dança!
Aquilo me fez acordar um pouco mais. Liz lutava contra um sorriso enorme, mas era uma batalha obviamente perdida. Não era surpresa a notícia, porém não deixava de ser menos importante. Prontamente fui abraçar a ruiva e dar os parabéns, esquecendo completamente a minha zanga quando a vi ficar com as bochechas avermelhadas.
-Merci... Vic, você se machucou ontem? – Liz perguntou enquanto se afastava de mim, seu olhar estava em direção ao meu pescoço.
-Fala sério, a garota te marcou toda! – Anne exclamou quando seguiu o olhar de Liz e começou a rir.
-Mentira isso?!
Corri em direção ao banheiro tirando a minha blusa no meio de caminho. Quando olhei-me no espelho resmunguei alto. Meu pescoço e ombros estavam marcados e minha barriga ainda continha algumas marcas deixada por unhas. Meu cabelo castanho escuro estava um verdadeiro caos e embaixo de meus olhos azulados estavam marcas de olheiras. Balancei minha cabeça de um lado para o outro em negação enquanto voltava para a sala com minha blusa em mãos. Liz olhou-me surpresa, encarando as marcas em meu corpo com certa preocupação.
-Está doendo? – ela perguntou em um tom até mesmo carinhoso.
-Vai arder quando eu for tomar banho – respondi dando de ombros.
-Não há nenhuma pomada para passar? – Liz perguntou olhando para Anne.
-Essas coisas saram rápido – Anne respondeu dando de ombros e a olhando confusa – Pensei que soubesse, linda e com seu rebolado deveria ter vários pretendentes na porta.
-Non, je não faz esse tipo de coisa – Liz afastou-se desviando o olhar parecendo incomodada.
-Que tipo de coisa? Ficar com alguém? – Anne ainda parecia confusa e sem querer acreditar.
-Ela é romântica – expliquei colocando a minha blusa – Liz é toda fofa e delicada, não ficaria com qualquer um, não é?
-Nossa, esse tipo de pessoa ainda existe! – Anne exclamava em singela surpresa.
-Qual o problema disso? Porque parece ser mais fácil e aceitável temer o amor do que aceita-lo? – Liz questionou e deixou escapar um suspiro cansado – Parece que aqui no Brasil é ainda mais comum o costume de ficar com pessoas desconhecidas.
-Ainda mais nesses últimos anos – confirmei me jogando em um sofá, ainda estava cansada.
-Mas... Por quê? – Liz fitou-me enquanto tombava a cabeça levemente para o lado, ela sempre fazia isso quando estava pensando seriamente sobre algo – Você lembra o nome da garota?
-Acho que era Joana, Mayana... Algo assim – respondi de forma sincera e sem dar muito valor.
-E você irá lembrar-se dela daqui uma semana? Mesmo sem saber direito o seu nome?
-Admito que muito pouco...
-Até porque ela já vai estar com outra – Anne não resistiu em provocar.
-Então... Por que valeria a pena degastar-se com algo assim? Beijar bocas desconhecidas, ter prazeres momentâneos, perder o sono e depois lembrar-se tão pouco? – Liz ponderava de um jeito sério, sentando no sofá a minha frente mantendo a sua compostura impecável – E se ela lembrar-se de você? Estiver acordando com um sorriso ao recordar perfeitamente da sua noite e esperar ansiosa por uma singela ligação?
-Eu não prometi nada disso – me defendi prontamente.
-Muitas palavras não ditas são escutadas pelo coração quando faladas com o olhar, com um gesto. E vocês duas pelas evidencias fizeram amor durante um bom tempo. Seu corpo tem mais memórias do que sua própria mente.
-Então me diga senhorita, como deveria ser para você? – perguntei irritada por me sentir acuada.
Eu não sabia rebater nada do que Liz estava argumentando. Havia crescido vivendo em uma competição velada de conquistas, na escola você levava prestígio por ter ficado com determinada pessoa, por parecer mais bonita que as outras. Depois se tornava normal sair para festa, ficar com desconhecidos e depois contar aos amigos. Mas Liz era tão diferente! Ela era educada sem segundas intenções, gentil até mesmo em sua maneira de falar.
-Penso que uma relação entre duas pessoas é uma construção de memórias – Liz falou pausadamente, como se ponderasse cada palavra – Um cortejo, mais propriamente dito.
-Um cortejo? Tipo aqueles lances antigos? – Anne perguntou sentando ao lado de Liz.
-Similar – a ruiva sorriu de um jeito tímido – Trocas de olhares mais significativos do que maliciosos, toques singelos e carinhosos. Fazer lembranças não para serem esquecidas poucos dias depois, mas recordar que aquele filme foi visto com essa pessoa, que quando estavam juntos tocou determinada música. Saber de seus gostos apenas para poder-lhe fazer surpresas.
-Isso é tão meloso – não evitei o riso – Ninguém mais faz isso, sinto muito Liz.
-Se eu faria, há de existir alguém que também o faça – Liz foi teimosa e deu de ombros – Para mim não adianta envolver-se com alguém sem que haja companheirismo, sem uma sintonia. Não haveria de existir necessidade do amor propriamente dito, mas também nunca confiei em alguém para chegar a um ponto tão mais íntimo.
-Está dizendo que é virgem? – Anne quase gritou quando deduziu isso.
-Agradeceria se não anunciasse a todo o edifício uma informação altamente pessoal dessas! – Liz brigou com Anne por entre os dentes, com um olhar puramente indignado.
Eu ainda a encarava pensando nas coisas que ela disse. Se fosse qualquer outra pessoa que eu conhecesse teria xingado a japonesa e mandado calar a boca. Apenas isso. Acabei sorrindo entre encantada e incrédula, levantei e dei de ombros.
-Respeito a sua forma de encarar as coisas, é realmente bonita. Mas eu cresci em uma realidade diferente – falei e olhei para o relógio na parede – E minha realidade diz que eu estou morrendo de fome!
-Ah, o almoço!
Liz saltou do sofá e a passos largos e proporcionais, como se estivesse fazendo passos de ballet, dirigiu-se a cozinha para continuar o seu almoço. Anne prontamente se auto convidou para fazer a refeição ali e logo foi ajudar à ruiva. Eu retornei a cama para aproveitar e tentar cochilar, o que se tornou uma tarefa impossível já que minha mente estava ocupada pensando em como Elizabeth era uma garota diferente.
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