Ma Chérie
7 Capítulo 7: Fazendo compras
Notas iniciais
Espero que gostem desse capítulo sz
POV Liz
Duas semanas havia se passado desde que eu havia chegado a Santa Mônica. Cerca de quatorze dias e meu mundo havia se transformado completamente! Morava em um apartamento que era do tamanho de meu antigo quarto, trabalhava ensinando passos básicos em uma escola desconhecida e agora até cozinhava! E o engraçado disso tudo? Eu me sentia mais viva do que nunca. Claro que eu sentia falta do conforto, de ter toda a arrumação e glamour facilitando a minha vida. Mas ali no Brasil era completamente diferente, era quente e aconchegante, com pessoas carinhosas que se intrometiam em seu caminho apenas para fazer companhia.
Foi o que aconteceu terça-feira quando sai para jantar com Victoria já que eu cheguei tarde demais para preparar um jantar e estava faminta. No restaurante encontramos com um casal de alunos meus e eles logo se sentaram conosco e conversaram como se fossemos amigos de longas datas. As aulas consumiam grande parte de meu tempo agora, planejá-las perfeitamente era a minha obsessão e deixava-me estressada quando não conseguia pensar em passos mais simples para os alunos que tinham dificuldade. Mas quando estava lá na escola tudo mudava e parecia se encaixar nos mínimos detalhes e improvisos. Cheguei até mesmo a pedir para fazer aulas com Wagner para aprender as danças brasileiras e agora tinha as minhas manhãs de segunda e quarta-feira para dançar como uma aluna qualquer.
Minha relação com Victoria apenas melhorava. Tínhamos nossas desavenças, eu era uma cria da sociedade, ela uma moleca que preferia se divertir a seguir regras. Mas aquela brasileira de olhos azuis era como uma melhor amiga que eu nunca tive. Em pouco tempo eu me sentia a vontade o suficiente para contar qualquer tipo de coisa, discutir seriamente sobre comportamentos e rir de qualquer besteira. Ela tinha manias engraçadas e outras irritantes, do tipo cantar no banheiro ou escutar música muito alta em seu quarto.
Quando mais uma sexta-feira chegou, eu já estava esperando por Victoria com um jantar simples, macarronada. Estava lendo um livro deitada no sofá quando a escutei entrando em casa com o seu habitual “ma chérie, cheguei”. Ela trazia refrigerante em mãos e uma sacola lilás, logo as depositava sobre a mesa de jantar.
-Eu estou acabada! – ela exclamou massageando o próprio ombro – Antes que eu esqueça, Pierre disse que você está sendo obrigada a ir ao 7Sins amanhã a noite.
-Mas eu tenho que planejar as aulas da semana...
-Faz isso domingo, podemos voltar até mais cedo! – Victoria insistiu e me olhou com um jeito implorativo – Por favor! Vai ser bom, eu garanto, não irá ficar sozinha e poderá dançar a vontade!
-Eu não sei... Nunca sai muito assim – disse mordendo o canto de meus lábios.
-Eu não vou deixar você, vou me comportar a noite inteira só para que a gente se divirta, que tal?
-Porque faria isso? E suas conquistas? – arqueei uma sobrancelha em um evidente tom de descrença.
-Vão estar lá na próxima semana. Você tem de sair um pouco e se divertir muito! Está trabalhando bastante agora e tem sido um anjo aqui em casa. Por favor, Liz!
Ela parecia querer tanto minha presença lá que as palavras de negação simplesmente travavam em minha garganta. Soltei um suspiro de derrota e confirmei com um aceno de cabeça. Vic soltou um gritinho alegre e se jogou em meus braços em um abraço surpresa que sempre me deixava sem jeito, mas que no fundo estava aprendendo a gostar. Ela era simplesmente assim, espontânea e carinhosa.
-Vou sair do trabalho mais cedo e iremos comprar uma roupa bem legal para você, que tal? – Vic propôs animada e pareceu farejar o ar – Que cheiro gostoso! O jantar já está pronto?
-Sim, fiz macarronada, bem simples porque eu também fiz sobremesa.
-Sério isso? Olha como está evoluindo! O que fez?
-Mousse de chocolate, pra compensar toda a salada que você comeu ontem.
-Mon ange, você é incrível! Posso pular direto para a sobremesa?!
-Não, vá lavar suas mãos e venha jantar, pegue suas coisas também, não deixe encima da mesa.
-Ah, bem lembrado! Um cliente me deu isso hoje – Victoria virou para a mesa e mexeu na sacola colorida, pegando dela uma estatueta de uma coruja – Eu achei bem estranho e...
-É linda! – exclamei com meus olhos brilhando e depois corei por ter me expressado dessa forma tão subitamente – Pardon, é que eu amo corujas.
-Sério que você gosta desse bicho? Não tinha algo mais fofo e que combinasse com você? Tipo um gatinho, golfinho, essas coisas de menininha.
-Não, corujas são lindas. E é a representação da deusa Atena, a deusa grega da inteligência e guerra. Ela abençoou vários heróis da antiguidade e...
-Então isso é seu – Victoria me interrompeu e ofereceu a coruja.
-Non, isso é um presente para você – neguei com um suspiro – É falta de educação isso, Victoria.
-Não é, você fica mais feliz com isso do que eu, então porque seria errado? Se é algo meu, estou dando de presente para você, então seria falta de educação sua recusar.
A olhei e abri a boca para contra argumentar, mas então olhei para a estatueta e a peguei depois de hesitar um pouco. Havia realmente gostado daquele objeto e não via obrigação nenhuma de continuar recusando. Fui ao meu quarto guardar o meu primeiro presente ali e o coloquei sobre a bancada que ficava ao lado da cama. Meus lábios foram desenhados por um sorriso genuíno que deixava transparecer o quão boba eu havia ficado com o presente.
-Mon ange, venha logo, não gosto de comer sozinha mais! – Vic gritou da sala.
Revirei os olhos e fui ao encontro da brasileira, como de costume nosso jantar foi tranquilo e com uma gostosa prosa.
{...}
Certamente que eu nunca estive em uma rua comercial como aquela. Ia ao shopping que minha tia Amélia, assim como participava de bazares beneficentes e coisas similares. Mas todos sempre muito bem organizados, com pessoas da nata social europeia. O que era completa e totalmente diferente da Rua Monsenhor. Era um lugar extenso tomado por barracas e lojas nos dois lados, sendo proibida a circulação de carros. Ali havia de tudo relacionado a artigos de roupas, acessórios, calçados e eletrônicos. Mas o que mais me assustava definitivamente era a quantidade de pessoas que circulava por ali. Eram tão diferentes, sem muita educação e com a única preocupação em vendas e compras.
-Bem vinda a 25 de Março de Santa Mônica – Victoria falou ao meu lado, como não respondi nada ela olhou-me e arqueou a sobrancelha – Não se preocupe, há lojas mais calmas no final. Porém as da frente são as mais baratas, se bem que algumas são apenas réplicas.
-Oui – falei engolindo em seco, ainda encarando a multidão a minha frente.
Victoria havia me dado duas opções. Ir até uma galeria de roupas onde poderia encontrar até mesmo algumas lojas com marcas famosas, ou ir até a Monsenhor onde encontraria todo o tipo de artigo e com um preço bem mais barato. Eu ainda possuía uma boa conta, mas até quando? Preferi me adaptar ao espírito de economia financeira desde já... Porém não imaginava que seria um verdadeiro caos.
-Você já foi a uma feira? – Victoria perguntou séria.
-Já – não era mentira, porém o nível era completamente diferente – Mas... Não era nada comparada a isso.
-Ai burguesinha – Vic riu e de repente pegou minha mão com um pouco de força – Só porque é sua primeira vez aqui, vou te guiando até as lojas mais calmas, tudo bem?
Demorei alguns segundos a responder, estava distraída demais pensando em como a mão dela segurava a minha de um jeito firme e carinhoso ao mesmo tempo. De alguma forma inconsciente eu sabia que poderia confiar em Victoria. Ela era o tipo de pessoa que com um sorriso conquistaria a simpatia até mesmo de um rígido político britânico. Sorri com o pensamento e a brasileira pareceu interpretar isso como um sinal, pois começou a andar em direção ao fluxo de pessoas daquela estreita rua.
Sufocada e espremida, foi assim que eu me senti. Não era questão de frescura, mas sim de costume. Crescer em uma cultura onde se devem respeitar os modos e um espaço pessoal físico me fazia achar normal a distancia corporal durante as conversas. Eu não era nenhum tipo de rebelde apaixonada por outras culturas, sonhadora em ser livre das amarras da sociedade. Entretanto ali estava eu, segurando a mão de Victoria como se fosse a ancora que me manteria firme naquele mar confuso de pessoas. Elas gritavam os itens, anunciavam promoções espontâneas, esbarravam e nem ao menos pediam desculpas. Depois da quarta pessoa que havia me empurrado na pressa eu havia desistido de tentar pedir educadamente por desculpas. Quando o ritmo começou a diminuir e eu pude respirar normalmente, soltei um longo e cansado suspiro.
-Ta viva? – provocou Victoria ficando ao meu lado.
-Acho que sim – respondi sincera.
-Tem uma loja de roupas ali, vamos entrar.
Ela puxou-me mais uma vez, ao entrarmos quase suspirei ao sentir o frescor do ar-condicionado, mas quase torci o nariz ao sentir o cheiro forte de algum produto de limpeza. Porém ignorei, não era elegante julgar um lugar como aquele sem conhecê-lo primeiro. Apesar de ser uma pessoa da nobreza, não era esnobe ou metida. Havia três atendentes apenas, duas delas já estavam atendendo senhoras e a terceira se encontrava atrás de uma espécie de balcão.
-Vic? – a garota atrás do balcão chamou surpresa – Quanto tempo!
Victoria olhou para ela e por alguns segundos teve em seu olhar azulado um tom de dúvida. Mas logo estava sorrindo para disfarçar, era fácil de prever que ela não se lembrava da garota. Revirei os olhos e tornei a olhar para a empregada do lugar, ela era relativamente bonita, com cabelos loiros tingidos e olhos castanhos, lábios cheios e uma altura mediana.
-Oi gatinha, tudo bem? – Victoria perguntou em seu bom-humor cara de pau.
-Não se lembra de mim, não é? – a garota riu e fixou o seu olhar em mim – Está com a ruiva agora?
-O que? – Vic olhou surpresa pra ela.
Só então Victoria e eu notamos que ainda estávamos de mãos dadas. Eu lutei bravamente para não ficar corada, mas fui derrotada sem misericórdia já que sentia minhas bochechas pegando fogo. Soltamos nossas mãos prontamente, Victoria rindo e negando com a cabeça enquanto se aproximava do balcão.
-Ela é minha companheira de apartamento, estamos dividindo as despesas – a brasileira explicou – Precisamos de uma roupa para ela, vou apresenta-la ao 7Sins hoje.
-Posso mostrar algumas peças, qual o seu estilo?
O tom não era polido, a garota que descobrimos depois se chamar Silvana, falava comigo como se fossemos amigas ou conhecidas de longa data. Não me incomodava, apesar de achar estranho. Ela me mostrou peças e mais peças, porém todas simples demais para a minha noção de roupa para uma festa, além do tecido não ser dos melhores. Victoria me levou em outras três lojas, eu estava completamente hesitante, sem saber como deveria me vestir nessa nova vida e acreditem, essa dúvida pode acabar com uma mulher de etiqueta. Passamos a tarde ali, Victoria me vendo trocar de roupas e mais roupas, reclamando de que eu era indecisa demais ou me elogiando espontaneamente deixando-me naturalmente corada.
-Eu estou com fome Liz! – reclamou Vic mais uma vez.
-Já estou saindo, um pouco mais de paciência, mademoiselle Vic – pedi dentro da cabine.
Eu havia gostado daquele vestido. Era preto, um tanto curto para meu gosto, mas de um corte mais solto na saia. Ele tinha um bonito decote que sempre deixaria a dúvida se era comportado ou se estaria insinuante demais. As costas eram parcialmente nuas, havia laços de igual cor ao tecido unindo as duas partes e deixando a amostra parte de minha pele branca. Fitei meu reflexo no espelho com um olhar crítico, levei as mãos até meu cabelo o soltando da trança que havia feito. Ajeitei as mechas avermelhadas usando meus dedos e finalmente dei-me por convencida. Puxei a cortina da cabine e sai dela completamente incerta do que Victoria iria achar. A brasileira estava sentada sobre um pufe, balançando a perna esquerda em inquietação. Pigarreei para chamar sua atenção e vi a intensão dela de reclamar mais uma vez, porém ao lançar aquele olhar azul intenso em minha direção pareceu que sua vontade morreu na garganta.
-Então? O que achou? – perguntei passando a mão pelo tecido completamente sem jeito.
-Você está... está... – Victoria falava de um jeito quase desconexo, mas com os olhos ainda vidrados em mim.
-Meu Deus, você está linda! – a atendente completou por Victoria, sorrindo grande – Caiu muito bem em seu corpo.
-Merci, mademoiselle – agradeci de forma quase automática, mas a falta de resposta de Vic havia me deixado sem segurança – Mas eu estou em dúvida, talvez o vermelho...
-Não! – Vic exclamou levantando e sorrindo grande, agitada e parecendo ter encontrado as palavras – Você está deslumbrante burguesinha, de verdade! Iremos levar esse vestido.
Um sorriso eufórico cresceu em meus lábios. Se Victoria estava dizendo que eu estava linda, era porque era verdade. Por muito tempo escutei elogios, mas nunca soubera dizer bem se eram sinceros, irônicos ou apenas por politicagem. Mas quando aquela morena olhava-me e dizia algo sobre mim... Era como se meu ego finalmente se desse por convencido, eu ficava com uma sensação tão boa!
-Agora vá se trocar, vamos passar em alguma lanchonete para comer algo, eu já disse que estou faminta! – Victoria ordenou fazendo gestos para que eu voltasse para a cabine.
Acenei com a cabeça e fiz o que ela ordenou. O vestido foi um dos mais caros que encontramos naquele dia, mas para a minha antiga realidade era absurdamente barato. Depois de sair daquela loja notei com certo alívio que o movimento daquela tão agitada rua havia diminuído. Porém, dessa forma, Victoria não teve de segurar em minha mão para me guiar. Naquele momento eu não percebia o quanto aquilo me fez falta, apenas suprimi a sensação pensando estar apenas cansada e querendo chegar ao nosso apartamento. Afinal, mais tarde, haveria uma festa para ir!
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