Ma Chérie
10 Capítulo 10: Cinema e Diversão
Notas iniciais
Queria agradecer enormemente a Semmy pela linda recomendação que fez, eu realmente amei o que você escreveu sz
Pov Liz
Girei a chave do apartamento e soltei um suspiro de alívio por finalmente estar chegando ao meu apartamento. Deixei um ligeiro sorriso escapar de meus lábios com a sensação que sentia, era como se depois de tão pouco tempo eu já começasse a considerar aquele humilde lugar o meu lar. Assim que entrei estranhei o fato da luz do corredor estar acesa, afinal de contas ainda eram apenas quinze para as seis da noite. Era sempre eu quem chegava primeiro, preparava o jantar e recebia Victoria.
–Vic? – a chamei incerta, com medo de entrar ainda mais dentro do apartamento e me deparar com um estranho – Está ai?
–Estou no quarto! – ela gritou do cômodo.
Deixei escapar minha respiração aliviada, retirei minha bolsa e coloquei no cabide que havia comprado. Pouco tempo havia se passado, mas certamente que eu e Vic tínhamos nos adaptado muito bem uma a outra! Tudo bem, houve dias em que a brasileira estava estranha, me evitando ou se trancando no quarto, porém logo ela voltava a sorrir para mim. Não achava estranho gostar tanto do sorriso de alguém, ainda mais quando era direcionado apenas para mim. Afinal isso era apenas sinal de que ela estava se divertindo ou gostando de algo não é? Que mal há em gostar de algo tão singelo?
Sem conter minha curiosidade, segui em direção ao quarto dela e mesmo com a porta entreaberta dei duas suaves batidas com o nó de meus dedos. Isso fez a porta abrir mais alguns centímetros, mas foi o suficiente para ter um rápido vislumbre de Vic segurando uma camisa de costas para mim. Ela tinha uma cintura e costas tão lindas! Pisquei rapidamente e a vi sumir de minha visão para logo depois falar:
–Pode entrar.
Engoli em seco e terminei de abrir a porta, felizmente ela estava completamente vestida... E parecia estar pronta para sair. Victoria trajava uma bonita calça jeans escura, com rasgos suaves no joelho. Por cima uma blusa preta com riscos aleatórios dourados, suas mangas eram caídas deixando completamente exposto seus ombros. Ela estava terminando de por brincos dourados e quando me viu abriu aquele sorriso que eu havia aprendido facilmente a gostar.
–Vá tomar um banho rápido, vamos sair – ela anunciou em um tom calmo, mas deixando claro que não estava me dando opções.
–Pardon? Havíamos combinado alguma coisa? – questionei confusa, franzindo o meu cenho.
–Não, acabei decidindo de ultima hora. Pensei que seria bom sair do cotidiano um pouco e levar você para se divertir um pouco – Vic explicou terminando de colocar o acessório, aproximou e segurou meus ombros – Então vamos ver um filme e jantar fora, para não perdemos o ônibus é bom que você seja rápida no banho.
–Ver filme? Vic, eu não... – ela virou meu corpo e me empurrou com delicadeza para fora de seu quarto.
–Você vai gostar, confia em mim – escutei o seu sussurro perto de meu ouvido, aquela voz me provocou um ligeiro arrepio e fez meu coração errar uma batida – Agora vá, eu vou terminar de me arrumar.
Victoria afastou-se e por alguns segundos eu fiquei no lugar tentando assimilar a tudo. Ela estava pretendendo me levar para sair? Isso não seria um encontro, seria? Não, eramos apenas amigas, companheiras e ela estava sendo gentil querendo me distrair. Um fato que eu realmente precisava, pois as horas sequenciais e a paciência exigida de um professor estava começando a causar um leve estresse em minha personalidade perfeccionista.
–Que roupa eu devo usar? – perguntei voltando novamente meu corpo em direção ao quarto, ela estava sentada na cama calçando botas de cano leve.
–Confortáveis, um casaquinho caso não esteja acostumada ao frio por causa do cinema. Você vai ficar linda de qualquer forma, porque você é naturalmente linda. Não tem com o que se preocupar, chérie.
Dessa vez ela não falou aquilo de uma forma tão casual quanto as outras. Os olhos azuis me fitavam de uma maneira um pouco intensa e suas mãos haviam parado o trabalho com o calçado. Senti minhas bochechas esquentarem, rezei para não ter ficado muito vermelha! Antes que ficasse mais encabulada, girei nos calcanhares indo em direção ao meu quarto em passos largos. Assim como instruiu a brasileira, tomei um banho relativamente rápido, mas tive mais dificuldades em escolher a minha roupa. Optei por um vestido simples de cor branca com um bolero tricotado de cor lilás de mangas longas e que ia até a minha cintura apenas. Escolhi uma sandália de salto, mas mesmo assim seria difícil ficar a altura de Victoria já que ela realmente alta. A maquiagem foi simples, terminei de passar o perfume e sai do quarto deparando com a porta do de Vic fechada. Escutei o som da televisão ligada e segui até a sala.
–Estamos atrasadas? – perguntei com certo temor.
–Ainda há tempo e... Viu, eu disse que você iria ficar linda! – Victoria exclamou me olhando com evidente admiração, como consequência meu rosto corou – Então, vamos?
–Espera, tenho de pegar uma bolsa para...
–Eu vou pagar – Victoria me cortou, vindo em minha direção para pegar em meu pulso e começar a me puxar para aporta com delicadeza – Convidei de ultima hora, então eu pago. Mas não se preocupe, da próxima você escolhe um lugar para a gente ir e paga.
O sorriso lindo que ela deixou escapar me distraiu o suficiente para que me deixasse ser levada sem perceber. Ela estava tão animada que era impossível não me contagiar, restava-me apenas deixar-me levar. Eu nunca havia feito isso antes, minha vida era planejada e controlada, mas Vic estava ali, me puxando e sorrindo... Confiava nela. Confiava de uma forma que eu não conseguia entender.
–O que vamos assistir afinal de contas? – perguntei assim que entramos no elevador.
–As Bem Armadas – Vic encostou o ombro na parede metálica e lançou-me um sorriso de lado – É de comédia com Sandra Bullock, eu adoro aquela mulher desde Miss Simpatia, casaria fácil com ela.
–Você pensa em casamento? – perguntei realmente surpresa.
–Modo de dizer – Victoria riu e deu de ombros – Se fosse alguém como Sandra Bullock e Angelina Jolie eu pensaria duas vezes no caso delas de terem a sorte de casarem comigo.
O jeito convencido dela falar aquela frase tão sonhadora apenas me fez rir e balançar a cabeça de um lado para o outro. Logo as portas do elevador se abriram novamente e eu a segui sentindo uma genuína agitação crescendo. Eu nunca tinha ido ao cinema. Havia confessado isso a pouco tempo atrás a Henrique, não conseguia cogitar como Victoria descobriu isso, mas ali estava minha chance. Ser filha da nata sociedade tinha seus problemas, eu não podia ser normal, apenas excepcional. Perder tempo com filmes sem ser clássicos ou de algum famoso que você conheça era inconcebível para meu pai. Eu estava tão animada que por um momento desejei que Cassie estivesse comigo, compartilhando algo tão simples e divertido.
Chegamos ao ponto de ônibus quase ao mesmo tempo em que o veículo. Àquela hora da noite não havia muito movimento e foi fácil achar um lugar confortável. Mas assim que sentei deixei um suspiro baixo escapar, mas que não passou despercebido por Victoria. A brasileira pousou uma mão em meu joelho e o apertou suavemente para chamar minha atenção, quando a fitei seus olhos azulados me encaravam intrigados.
–O que houve? – Vic indagou.
–Eu queria... – comecei a falar e mordi meu lábio inferior sem saber como falar aquilo pra morena – Eu queria que minha irmã estivesse aqui, indo ao cinema comigo. Cassie provavelmente teceria mil e uma críticas em fundamentos de diversos tipos, porém iria se divertir porque apesar de tudo, ela é ainda mais simples e prática do que eu.
–Você ama mesmo sua irmã – Victoria comentou com um meio sorriso e fez uma careta – Queria eu dizer o mesmo de meu irmão, Kevin sempre foi o que meus pais idealizaram, eu estava mais para o erro.
–Não diga isso! – protestei imediatamente, olhando um pouco brava para ela por dizer tal coisa de si mesma – Você é provavelmente a pessoa mais gentil e divertida que eu já conheci.
–Pensa isso de mim? – eu poderia jurar que os olhos azuis adquiriram um brilho diferente – Mas só isso?
–Também é bagunceira e irritante quando quer, preguiçosa também já que enquanto puder pedir para que eu faça as coisas estará tudo bem para você – comecei a dizer sincera, mas com um leve tom de brincadeira.
–Eita, já entendi! – Vic riu um pouco.
Porém ela franziu o cenho e aproximou o rosto subitamente de meu pescoço e tocou seu nariz em minha pele. Sabia que havia corado fortemente e não pude evitar ou entender o pequeno arrepio que passeou por meu corpo. Queria me afastar, mas havia paralisado no lugar com aquela atitude.
–Você está usando um perfume diferente – a brasileira falou ainda perto de meu pescoço, lentamente afastou e me olhou de perto – Gostei dele, é suave e delicado como você.
–Mademoiselle Victoria! – exclamei completamente sem jeito.
Ela sempre conseguia me deixar naquela situação. Surpresa, tímida e com um contentamento estranho. Sabia que seus elogios espontâneos eram verdadeiros e se ela falava que gostava eu passava a apreciar ainda mais. Não conseguia entender e por muitas vezes nem ao menos percebia que isso acontecia.
O trajeto por inteiro levou por volta de 40 minutos por causa das voltas que o ônibus era obrigado a fazer. Assim que chegamos ao principal shopping de Santa Mônica tivemos de nos apressar para conseguir comprar os ingressos e pipoca. Eu fiquei completamente confusa no que pedir, eram tantas opções! Pipoca salgada, pipoca doce, pipoca colorida, pipoca com manteiga ou leite-condensado? E se eu não quisesse pipoca havia até alguns salgados e chocolates! No fim acabei deixando Victoria pegar um enorme balde de pipoca para nós duas, refrigerante e um pacote de MMs. Quando finalmente entramos na sala ela já estava um pouco cheia, mas como era meio de semana não poderia ser considerada como lotada. O lugar me lembrava um auditório, só que ao invés de um palco havia uma enorme tela branca que ocupava quase toda a parede.
–Vem, me segue – Victoria chamou começando a subir a pequena escada.
Ela estava com as mãos ocupadas por causa das coisas que compramos, sabia que se não fosse por isso ela teria pegado a minha mão. Seguimos para a fileira do meio, a que estava completamente vazia e sentamos nas poltronas do centro. Ao menos era confortável! A brasileira ergueu o braço da cadeira que nos separava para poder deixar a pipoca entre nós duas, colocou os copos grandes com refrigerante no seu devido lugar, ajeitou a sua blusa e me olhou divertida. Abriu seus lábios para comentar algo, mas as luzes de repente se apagaram e automaticamente eu agarrei ao seu braço levemente, apenas levemente, assustada.
–Calma! – Vic riu alto – É que o filme vai começar, relaxe!
–Ah – foi o único som que eu consegui pronunciar, completamente sem graça.
A soltei e ajeitei-me na poltrona. Logo os trailers começaram e desde o inicio eu fiquei completa e totalmente encantada. Eu amava todo o tipo de arte, era costume ir para teatro, galerias... Mas o cinema era completamente diferente. O som alto, a tela de boa definição parecia me jogar dentro do filme! O longa-metragem era uma comédia sobre uma detetive do FBI e uma policial que se uniam apesar de serem completamente diferentes. De inicio eu permitia-me dar apenas risadas contidas, mas ao ver Victoria e os outros gargalhando sem medo pude relaxar e permitir curtir aqueles poucos minutos! Porém houve um momento em especial que Victoria colocou a pipoca em seu coloco e se aconchegou na lateral de meu corpo.
–Estou com um pouco de frio – ela murmurou quando a fitei confusa – Esqueci-me de trazer meu próprio casaco.
–Você me lembra e esquece do seu próprio? – disse incrédula.
–Claro, eu estou cuidando de você afinal de contas – Vic disse como se fosse a coisa mais óbvia.
Revirei os olhos, mas estava sorrindo. Ela realmente cuidava de mim, mesmo que a sua maneira. O estranho era que eu não estava me incomodando com tanto contato, eu sabia que os brasileiros eram mais cativantes e tudo o mais, porém eu não me sentiria tão confortável se fosse outra pessoa. O filme acabou rápido demais para o meu gosto, logo as luzes estavam acendendo novamente e Vic se afastando. Ela espreguiçou-se de forma preguiçosa e me encarou já sorrindo.
–Você gostou. – foi uma afirmação e não uma pergunta.
–Sim! É tão... Tão mágico, eu não acredito que não tinha vindo a um cinema antes – falei levantando e logo ajeitando minha roupa e cabelo.
–Eu também não. Mas juro que já estou rindo de sua cara só de imaginar você vendo um filme em 3D – Vic ria enquanto pegava as coisas para jogar no lixo.
–Filme em 3D? Podemos ver na próxima vez? – pedi ignorando a sua colocação.
–Só tem no Rio de Janeiro. Mas poderemos ir qualquer final de semana desses, passear um pouco na cidade grande. O que acha?
–Que será a vez em que eu irei pagar as coisas – respondi sorrindo animada – Quando poderemos ir?
–Vou ver no trabalho se posso tirar uma sexta-feira de folga, então saímos mais cedo para aproveitar bem o final de semana – Vic planejava enquanto começava a sair da sala de cinema – Está com fome?
–Ahn... Em realidade não, eu comi quase todo o chocolate – disse a acompanhando.
–Então vamos ao Game Center? Brincamos até as dez e depois comemos algo na rua.
–Game Center?
Victoria apenas sorriu, jogou fora as coisas e como eu esperava pegou em minha mão enquanto me guiava pelo shopping. Assim que chegamos no lugar eu segurei mais firme a mão de Vic, o lugar era relativamente grande e cheio de máquinas de jogos e brinquedos! Obviamente era mais um lugar no qual eu nunca havia posto meus pés! Eu não sabia muito bem como agir ou me portar, já que ali havia desde criança a adultos brincando. Victoria comprou créditos para um cartão que já possuía.
–Ok, tem crédito suficiente para uns cinco brinquedos – Victoria falou enquanto me levava até uma maquina que simulava um jogo de tiro, com armas de plástico conectadas a um fio – Esse é o meu favorito, vamos matar zumbis!
Arqueei minhas sobrancelhas, isso não deveria ser um jogo para crianças? Observei Victoria passar o cartão e pegar uma daquelas armas e me entregar.
–É fácil, você mira e atira nos zumbis, se acertar na cabeça ganha mais pontos. Se atirar perto demais diminui as chances de acerto – Victoria me explicou enquanto pegava a própria arma – Vamos nessa parceira!
Revirei os olhos e a olhei segurar a arma como se fosse uma espécie de agente especial. Olhei para a tela e vi a introdução do jogo, logo estávamos em um aeroporto abandonado e zumbis começaram a aparecer. Eu tomei um verdadeiro susto quando um deles se jogou na nossa frente e comecei a atirar desesperadamente. Felizmente o morto realmente morreu, mas Victoria estava gargalhando ao meu lado, o que resultou em sua morte no jogo. Ela passou novamente o cartão para poder me acompanhar e dessa vez era eu quem estava segurando a arma da maneira correta. Afinal de contas tinha de vingar a morte de minha parceira não é? O que Victoria não sabia era que arquearia fazia parte das atividades extracurriculares do colégio onde estudei. Minha mira e postura continuavam relativamente bons, o que me permitiu atirar e acertar sempre na cabeça dos zumbis sem me desesperar.
–Está de brincadeira comigo! – Victoria exclamou quando viu que tinha menos pontos do que eu.
Aquilo se tornou uma séria competição, já que eu cometi o erro de rir em deboche. Eu possuía uma pequena veia competitiva, cultivada pelo meu pai que sempre exigia o melhor. Passamos três fases quase sem sofrer danos, mas o “Boss” como havia dito Victoria foi realmente difícil. Eu mal percebi que alguns garotos haviam parado para nos observar jogar de tão entretida que estava. Meu objetivo era apenas matar aqueles zumbis persistentes e que apareciam cada vez mais rápido e com mais resistente. Porém mesmo com minha concentração eu escutei:
–Nossa, que morena gostosa! Olha que corpo!
O tom malicioso e nada discreto do garoto me fez perder o foco. Eu não sabia explicar o intenso incomodo que eu senti ao escutar aquilo. Afinal com que direito ele tinha de olhar para o corpo de Victoria como um objeto a ser conquistado de maneira tão vulgar?! O resultado foi que eu não consegui mirar a tempo de impedir que um zumbi tosco matasse o meu personagem. Resmunguei irritada comigo mesma e ainda mais com o dono da voz, agradecendo internamente por não saber quem fez o comentário. Depositei a arma no lugar e olhei de maneira panorâmica para o lugar.
–Agora eu quero ir ali! – apontei para a maquina de dança.
–Eu sou um desastre naquilo! Vou logo avisando – Victoria comentou fazendo uma leve careta.
–Não é o mais importante, você vai dançar comigo!
O jeito como a brasileira olhou-me foi um tanto quanto diferente. Seus olhos se abriram um pouco mais e seu rosto corou sutilmente, mas logo Victoria se recuperou e acenou com a cabeça aceitando. Eu não fazia ideia de como o jogo funcionava até dançar a primeira música, depois disso foi ainda mais fácil e muito mais divertido. Eu não poderia imaginar que era possível me divertir tanto com tão pouco!
(...)
–Pode passar a mostarda?
Victoria segurava duas batatas fritas fincadas em um palito, apontando com sua mão livre para o pequeno pote perto de mim. O entreguei e tornei a morder o hambúrguer que tinha em mãos.
–Eu já mencionei o quão delicioso está isso? – falei depois de engolir o pedaço.
–Três vezes já – riu a morena e logo devorava a batata frita.
Depois do shopping seguimos para um bairro onde havia apenas bares e restaurantes. O que ficamos tinha mesas na calçada e um pequeno espaço para um show ao vivo. O cantor da noite não era um dos melhores, mas eu estava apreciando o som que ele reproduzia com o seu violão. Estava cansada, no entanto de uma forma tão boa que eu poderia me cansar dessa forma várias outras vezes. Sentia-me como uma adolescente vivendo o momento pela primeira vez... E o melhor? Era que realmente era a minha primeira vez em muitas coisas.
–Ok, estamos em muito silêncio – Victoria comentou depois que o silêncio durou uma música inteira – Vamos fazer o jogo das perguntas. Você pergunta e eu respondo e vice-versa. O que acha?
–Que posso tentar – disse um pouco acuada, mas também não queria perder a oportunidade de conhecer ainda mais aquela brasileira – Do que tem mais medo?
–Hum – Vic mordiscou uma batata enquanto pensava – Eu odeio ratos, argh, me arrepio só de pensar! São asquerosos, feios e nojentos. Por isso eu nunca gostei de Pink e Cérebro, ou Hantaro. Não importa o quão fofo eles sejam, não deixa de serem ratos.
Fiquei com vontade de perguntar o que era aquelas citações, porém parecia coisas simples demais e que provavelmente me deixaria encabulada por não saber. Dei uma nova mordida em meu hambúrguer apreciando aquele sabor tão diferente.
–Conte-me algo que ninguém saiba, ou poucas saibam – Victoria pediu inclinando um pouco em minha direção.
Eu poderia dizer tantas coisas! Naquele momento poderia dizer que tinha sangue azul, que fugi de meu pai para não ter de me casar forçadamente. Dizer que tinha viajado o mundo acompanhando meu pai nos negócios, que minha herança poderia deixar-me milionária um dia. Porém eu tive medo. E se Victoria começasse a me olhar de uma forma diferente? Se ela se afastasse eu sei que não ficaria mais sozinha, tinha outros amigos... Mas perde-la me pareceu algo inconcebível!
–Eu tenho um segundo nome – resolvi revelar – Elizabeth Aimeé. Meu pai queria um nome forte, que representasse algum tipo de poder e isso explica o Elizabeth. Mas Aimeé significa amada, minha mãe o escolheu. Eu tenho poucas lembranças dela, mas sei que ela me amava, que cantava para mim antes de dormir, que não me deixava só e que era linda. Isso é especial para mim e por isso não costumo dizer para muitas pessoas meu segundo nome.
–Aimeé – Victoria repetiu e sorriu com um carinho quase palpável – Gostei disso, é bonito e combina com uma pessoa romântica como você.
–Minha vez. Porque fala tão pouco de sua família?
De todo esse tempo, que era relativamente pouco, pouco escutei Victoria sequer mencionar seus familiares. O único que ela conseguia falar quase naturalmente era o seu irmão mais velho, Kevin.
–Eles não aceitaram bem o fato de eu ser como eu sou – Vic explicou depois de um tempo, sua voz estava um pouco baixa e seu olhar ficando perdido – Eu sempre fui meio rebelde, espontânea demais, mentindo para encobertar minhas traquinagens... Eles podiam entender isso tudo, aceitar isso tudo. Mas não o fato de eu gostar de garotas. Meu pai praticamente me proibiu de entrar em casa.
–Eu... Eu sinto muito – disse sincera, mesmo querendo dizer algo a mais para aplacar aquela dor escondida nos olhos azuis. Por puro impulso peguei a mão de Vic e a segurei de forma firme – A mente humana pode focar no preconceito e esquecer todo o resto, mas um dia eles vão lembrar o quão incrível você é.
–Assim espero, porque aqueles loucos não deixaram de ser meus pais – Vic deu de ombros e sorriu – Acho que é minha vez não é?
Acenei com a cabeça e soltei a mão dela ainda que relutante. Retornei a minha postura impecável e continuamos com aquela brincadeira até perto da uma hora da manhã. Pegamos um táxi de volta para casa ainda conversando sobre nós duas. Victoria era diferente de uma forma que eu não poderia explicar ou exemplificar. A amizade com Pierre poderia ser de longa data, mas não chegava ao nível de... Intimidade, sim essa era a palavra, de intimidade que eu estava tendo com Victoria.
Ela era divertida, espontânea, atrevida e sincera. Respondia as minhas perguntas mesmo sabendo que eu iria desaprovar certas coisas, mas ela sempre dava de ombros e dizia que não tinha orgulho ou que era simplesmente assim. Era por culpa dela que eu estava aprendendo a viver essa nova vida, era por culpa dela que naquela noite eu fui dormir sorrindo, relembrando cada detalhe daquela noite inusitada, divertida e definitivamente especial.
Notas finais
Eu estava comentando com a MaryMelo se n seria legal construir um grupo no face para o pessoal do Nyah que curte Yuri especificamente. Eu já vi que muito do pessoal que ler minhas fics ler tantas outras que eu também leio e ai vai por diante. Seria legal se todo mundo pudesse conversar não? *-*
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