Ma Chérie

42 O dia depois do natal


Notas iniciais
Demorei? Não muito, certo? Certo! Galera carioca eu tenho uma novidade para vocês *-* eu to indo para o Rio de Janeiro no dia 06 de setembro e saio apenas dia 12. Nesse meio tempo eu e Swann (quem conhece vai saber, quem não conhece deve procurar imediatamente por ela no Nyah e ler suas fics) vamos para bienal no dia 10 de setembro! Alguém aqui vai para bienal? Que tal um encontro e uma conversa bem bacana? Seria um momento único e bem divertido!

Pov Victoria

Foi meio que decepcionante como nada demais aconteceu pelo resto do dia de natal. Eu esperava por confrontos épicos, alguns gritos e algumas acusações. Que em algum momento o senhor meu pai me expulsasse dali do mesmo modo como ele tinha feito anos atrás. Mas nada disso aconteceu.

Eu diria que foi apenas um pouco desconfortável por causa de comentários desnecessários e piadinhas de mal gosto. Mas em comparação a expectativa pessimista que eu tinha? Foi quase uma brisa para a tempestade que eu esperava. Dona Helena permaneceu imparcial. Olhava-me mais, porém não se aproximava. Era visível a confusão em seu olhar quando eu a flagrava olhando para mim, mas a senhora Carvalho não tinha coragem ainda de se aproximar da filha que abandonou no mundo por ser diferente do que ela esperava.

Obviamente chegamos muito atrasadas depois da cachoeira. Mas eu estava tão sublime que no meio do sermão de vó Maria eu a abracei tão forte e gostoso que a ergui do chão alguns centímetros. Apliquei um beijo estalado na bochecha da matriarca e disse da maneira mais carinhosa que podia o quanto eu a amava. Isso desconcertou prontamente a minha avó, ela apenas ordenou que fossemos tomar banho para almoçar.

A troca de presentes foi uma coisa meio constrangedora, mas não o suficiente para estragar o momento. Eu não tinha levado nenhum presente, assim como ninguém tinha comprado um para mim. As crianças estavam deslumbradas com tudo o que tinham ganhado, Yasmim se aproximava direto de mim olhando para meu braço para confirmar que eu era a sua tia e não sua mãe. Depois do pequeno susto, a minha sobrinha parecia se divertir em ter duas “Veronicas” por perto. E o dia passou assim. Anne e Pierre falavam mais com os jovens e eu me meti com as crianças em brincadeiras e conversas sobre desenhos. O motivo era bem simples, aqueles seres pequenos eram os únicos que me olhavam sem a malícia ou julgamento, eles ainda eram inocentes e ingênuos, com o único propósito de se divertir naquele natal. Elizabeth passeava por qualquer grupo com classe, ela sabia falar com todo mundo mesmo que eles fossem um pouco indelicados. Em sua maior parte, conversou sobre as grandes diferenças que tinha entre a Europa e um país sul-americano com as mulheres da família.

Logo nas primeiras horas da manhã estávamos arrumando o carro para voltarmos para a capital. Dessa vez, Pierre que ia na direção pois Anne parecia ansiosa o suficiente para ultrapassar os limites de velocidade.

–Calma baixinha – disse fingindo seriedade, mas logo abria um sorriso sacana – Logo vai poder matar as saudades da sua loira.

–Cale a boca – Anne resmungou em mal humor matinal.

Mon amour – Liz apareceu tocando o meu braço suavemente – Você poderia ir ao quarto verificar se não esquecemos nada? Madame Maria vai me passar uma receita que eu realmente gostaria de tentar quando chegássemos em casa.

Um sorriso todo bobo surgiu em meus lábios ao perceber o quanto minha ruiva era linda e delicada mesmo que fosse praticamente de madrugada ainda. Deus, eu estava mesmo parecendo uma adolescente vivendo um amor intenso pela primeira vez. Ou melhor, essa era a primeira vez que acontecia isso. Pronta para obedecer qualquer pedido dela, apenas roubei um selinho fugaz daqueles lábios rosados antes de sair em disparada para dentro do casarão. Tudo bem que não tinha sido tão ruim ir até ali, mas a vontade de ir embora era tamanha que eu mal via a hora de sairmos dali e poder respirar direito.

Entrei no quarto e dei uma rápida olhada ao redor, verificando cantos e até mesmo debaixo da cama. Porém, quando ergui o corpo, vi a minha fiel cópia parada na porta. Veronica olhava para mim um pouco séria, os braços cruzados e o ombro encostado na batente da porta. Meu corpo ficou institivamente sério, ombros tensos, queixo erguido e olhar preso ao dela sem ousar desviar um centímetro para o lado.

–Prometa que irá entrar em contato – Veronica pediu.

–Por que deveria? – indaguei arqueando uma sobrancelha.

–Merda Vic, não dificulte as coisas – Veronica descruzou os braços e passou as mãos no cabelo, exatamente como eu fazia quando começava a ficar nervosa – Eu sei que eu errei todo esse tempo, desde o momento em que você se assumiu até agora. Por favor, me deixe tentar concertar isso.

–Por que você quer concertar isso agora? O que é diferente de anos atrás? De semanas atrás? Você continuou vivendo a sua vida, é bem mais fácil quando não se tem de dizer para os amigos que tem uma irmã lésbica e---

–Cale a boca! – Veronica avançou, seu nariz inflando denunciando sua respiração incontida – Você é minha irmã e... e... Porra Victoria! Eu sinto falta de tudo!

–E você acha que eu não sinto falta? Que eu não tenho saudade de todo mundo e que é uma dor ainda pior sentir isso pelas pessoas que tanto me machucaram? Que minha irmã, a metade de minha alma, virou as costas para mim?!

Arfei e virei as costas. Se eu continuasse a encará-la eu iria chorar. Mas não derramaria mais uma gota por aquelas pessoas. Fosse orgulho ou fosse superação, eu sabia que tinha minha família, sabia que um dia podia perdoá-los e quiçá ter as coisas um pouco melhores. Mas não hoje, naquele momento, naquele instante.

–Vocês foderam com minha vida... – murmurei e engoli em seco para afastar aquele tom melancólico de minha voz. Tornei a virar para minha gêmea, conseguindo sorrir pequeno – Mas sabe, eu venci. Venci todos os problemas e tenho planos seguros para o meu futuro. Eu tenho um emprego que me faz ter vontade de crescer profissionalmente porque é o que eu realmente gosto de trabalhar. Eu tenho amigos dos mais diferentes tipos e que estão ali comigo, literalmente do outro lado da porta esperando pra fazer nada e tudo ao mesmo tempo. Eu tenho um apartamento. Eu tenho independência... E tenho a mulher de minha vida!

–Mas não tem a família – Veronica também falou baixinho, acuada.

–Em que ponto essa família está me fazendo crescer e ser feliz? – indaguei abaixando a guarda, não adiantava brigar, não de novo e de novo pelo mesmo motivo – As coisas não vão se resolver agora, Vero. Não vou perdoar vocês se não me mostrarem que merecem isso.

–Eu vou mostrar que vale a pena! – Veronica disse determinada e enxugou rapidamente as poucas lágrimas que escorreram por seu rosto. Respirou fundo, parecia que ia dizer algo, suspirou e passou a mão pelo cabelo. Franzi o cenho levemente confusa, mas depois totalmente surpresa pelo que ela disse – Me perdoa, Vic. Eu deveria ter começado dizendo isso, apesar de saber que não é o suficiente. Pedir perdão é admitir que errou, é demonstrar que quer se redimir e tentar mudar algo. Ao menos quando o pedido é sincero. Por favor, me perdoe por te decepcionar tanto.

Veronica era uma mulher prática e determinada. Insistente, impetuosa e insuportável as vezes por causa disso. Quando ela queria algo, investia em diferentes estratégias para obter isso. Como quando se recusou a sair de minha casa e persistiu até que eu a escutei. Ou quando desconfiou na adolescência que um de seus namorados era infiel e bolou um plano mirabolante para pegá-lo em flagrante. No fim foi nada demais, mas ela não pediu desculpas ou perdão por ter desconfiado do rapaz. Ela não pedia desculpas pois não aceitava errar.

De certa forma, aquilo me desarmou um pouco. Eu era orgulhosa, mas a saudade que eu tinha de ter a minha gêmea comigo era inenarrável. Todas as lembranças boas que tivemos juntas transbordaram dentro de minha mente, mesmo que as ruins ainda permanecessem. Eu não a estava perdoando, não ainda... Mas dando uma segunda chance quando abri meus braços e tremi até a alma quando os braços dela me envolveram com força.

Choramos em silêncio pelo que pareceu ser minutos completos. Quando nos afastamos, sorrimos igualmente.

–Cuide da Yas – pedi com uma serenidade que me surpreendeu – E o Arthur é mesmo um homem legal, você superou o seu mal gosto.

–Eu não casaria com ninguém menos que o homem de minha vida, não me daria o trabalho de planejar algo importante pra qualquer um – Veronica deu de ombros, fungando e tentando parecer indiferente, o que ficou levemente cômico – Então... Como estamos?

–Em pequenos passos – admiti ainda incerta – Foi um impacto muito forte vim pra cá, eu ainda tenho de processar algumas coisas. Mas... Segundas chances existem, terceiras não.

–Entendi o recado senhora – Veronica botou a mão sobre a testa fingindo uma continência militar – Mas pode ter certeza de que vou ligar para Liz, só pra ouvir ela falando “Verronique”, é tão meigo!

–Não perturbe a minha mulher!

–Ui, olha só como fica brava e protetora. Minha mulher hum?

Revirei os olhos e a empurrei com certa força, a fazendo rir e me dá um último abraço. Esse não foi o desfecho que eu esperava, mas foi infinitamente melhor.

(...)

Era quase dez horas quando Pierre estacionou o carro na vaga de Nicoly. Estávamos em seu apartamento, as colegas de quarto dela viajaram para a terra natal para passarem as festividades com os familiares. Era divertido perceber o quão ansiosa a japonesa estava. Ela apertou o botão do elevador umas quatro vezes murmurando um “vamos, anda logo” e ficava batucando os dedos na parede de metal. Seus olhos repuxados não saiam dos números digitais que anunciavam o andar em que estávamos.

–Ela vai ter uma sincope daqui a pouco – Pierre comentou baixo ao meu lado.

–Mademoiselle Anne está amando – Liz abriu um enorme sorriso.

–Amor? Não, é muito cedo para isso. Apaixonada talvez – contradisse observando a baixinha alheia a nossa conversa.

Liz estava prestes a contra argumentar quando as portas do elevador finalmente se abriram. A teoria de Pierre quase se provou verdadeira quando Nicoly apareceu do outro lado com um enorme e estonteante sorriso. A loira estava realmente linda, evidentemente produzida para impressionar a garota oriental. Short curto e desfiado, uma blusa bem soltinha e de mangas curtas que exibia parte de sua barriga levemente definida.

Anne não pronunciou uma palavra. Minha vizinha deixou a bolsa de seu ombro cair e foram necessários apenas três passos para alcançar o seu alvo. Ela saltou habilmente no colo de Nicoly, as pernas definidas por causa da dança envolvendo a cintura em um gancho seguro. As mãos buscaram apoio nos ombros, mas isso foi momentâneo pois logo estavam segurando o rosto surpreso de Nicoly entre as mãos e logo a estava beijando. Ou devorando a boca da loira.

–Isso porque ela era totalmente hetERROR antes – brinquei sem segurar uma risadinha.

–Deixem elas, vamos levar logo nossas malas – Pierre disse.

Ele foi o primeiro a sair do elevador, tendo dificuldade em passar pelas meninas que se beijavam sem se importar com o mundo ao redor. Peguei a bolsa caída de Anne e fui até o apartamento, felizmente Nicoly deixou a porta aberta.

–O corredor é um lugar público... E se algum vizinho sair? – Liz indagou olhando para a porta.

–Vai ter uma pequena surpresa – disse divertida imaginando a cena – Mas isso não é tão importante, elas estão com saudades uma da outra. Se viram rapidamente antes do natal.

–Sim, mas...

–Se estivesse com tanta saudade de mim e me encontrasse linda esperando por você atrás daquela porta... Não esqueceria o mundo e me beijaria?

Elizabeth entreabriu os lábios pronta para argumentar no seu ponto de vista. Mas seus olhos amendoados cruzaram com os meus e a boca se fechou lentamente enquanto as bochechas coraram.

–Eu não me importaria com nada ao redor – ela admitiu em um tom tímido, desviando o olhar – Apesar de que ficaria desconfortável se alguém visse um beijo desses... Acho que algo assim deve pertencer apenas aos amantes.

–Acho que concordo com você, é algo particular... Mas ao mesmo tempo incontrolável, certo?

–Sim – Elizabeth sorriu grande – Vê como esse sentimento é tão lindo e intenso? Me faz ignorar até mesmo certas convicções minhas por sua causa.

–Garotas, deixem pra discutir isso depois, quem vai interromper aquelas duas? Ou elas começam a ficar sérias no amasso ou vão morrer sem ar, elas não pararam de se beijar ainda – Pierre comentou da porta do apartamento – Eu vou para o inferno por achar isso quente?

–Você vai pro inferno de qualquer jeito – comentei e logo tinha um sorriso travesso rasgando minha boca – Pode deixar que eu vou! – virei para Liz fazendo uma expressão dramática – Se eu morrer, quero que saiba que eu amo você.

–O que vai aprontar, Victoria?

–Espere e verá!

Corri para a cozinha e depois para a dispensa até achar um balde. O enchi com água escutando uma risada mal contida de Pierre, ele provavelmente já sabia o que eu iria aprontar. Com o recipiente cheio até a metade, corri para o corredor e vi as duas ainda atracadas, mas Nicoly tinha as costas apoiadas na parede do corredor.

–Alerta de incêndio, alerta de duas garotas pegando fogo! – quase gritei e no mesmo instante joguei a água nelas duas – Alguém chamou o corpo de bombeiros! As senhoritas estão bem? Se queimaram ou---

Eu não consegui terminar a zoação, explodi em uma gargalhada que quase me fez dobrar o corpo. Pegas de surpresa, Nicoly deu um pulo e Anne se soltou de repente, caindo de bunda no chão. Arfantes, vermelhas e de lábios inchados, elas me olhavam confusas enquanto eu falava. Mas não deu para segurar quando vi o cabelo escuro de Anne colado ao rosto e a expressão de quem ainda não tinha entendido o que estava acontecendo.

Mas isso durou pouco. Logo ela estava com o espírito demoníaco oriental em seu corpo. Seus olhos repuxados me encaravam de maneira assassina e sabiamente meu corpo entrou em total estado de alerta. Graças a forte adrenalina que escapou por minhas veias, eu corri desesperadamente pelo corredor, me bati contra a porta quando entrei no apartamento e acabei escorregando no tapete da sala. Meu corpo foi ao chão, mas não me permiti sentir a dor, pois logo a porta era batida com força para dar espaço ao capeta japonês. Arrastei rapidamente, consegui ficar de pé meio que destrambelhada e me joguei na primeira porta que vi pela frente.

–Eu vou acabar com sua vida! – Anne gritou me impedindo de fechar a porta – Sai daí sua covarde! Filha da puta! Eu vou te matar!

Ficamos naquela de empurrar a porta até que eu fiz um impulso mais forte e consegui bater a porta, a fechando com um enorme estrondo. Tranquei rapidamente, respirei fundo e finalmente entendi que estava no banheiro. As batidas na madeira se tornaram constantes e depois de alguns segundos tentando recobrar o folego... Eu voltei a rir descontroladamente ao lembrar da cena.

Anne ficou ainda mais puta ao escutar a minha gargalhada. Ela brigava comigo, xingava e gritava com qualquer outro que tentasse tirar ela dali. Sentei no vaso sanitário, sabendo que passaria um longo tempo ali dentro para proteger a minha vida. Podia correr risco de morte, mas eu não perderia a chance de fazer uma pegadinha com minha melhor amiga!

Notas finais
Galera que vai pra bienal, não deixem de entrar em contato, pode ser por review ou mensagem! Não pensem apenas em conhecer as autoras, mas seria bom encontrar outras pessoas que leem estórias de conteúdo yuri. Eu particularmente não tenho com quem conversar sobre isso por aqui, então imagino o quanto seria bom falar sobre outras fics, outras histórias e até mesmo criar ideias e novos contatos. Que acham?