Ma Chérie

43 Véspera de ano novo


Notas iniciais
Gente, que isso, é o milagre de natal? AUHUAHAUHAUHA Bom, milagre ou não, vim pra dizer que dessa vez eu vim REALMENTE pra começar a postar e terminar MC. Como eu posso dizer isso com tanta certeza? Bem, eu já tenho muitos capítulos adiantados e já estão na etapa final. Eu vou estar viajando amanhã pra uma despedida de um amigo, ou seja, apenas TERÇA-FEIRA teremos um novo capítulo garantido. Eu quero agradecer quem está aqui dando mais uma chance pra fic, depois de um ano sem atualizar. Sei que minha credibilidade deve estar baixa, mas espero que me deem uma nova chance! Ah, eu baixei o Vegas e acabei fazendo um vídeo de MC! Vou anexar logo no início do capítulo. Ta bem nível iniciante então... apenas aproveitem ahuahuahauha Ma Chèrie também está sendo postada agora na plataforma do Wattpad. É uma plataforma muito boa por ter aplicativo para o celular e poder ler off-line!

Vídeo de MC

Pov Liz

A minha estadia no Rio de Janeiro provou-se completamente diferente da primeira vez em que estive na capital carioca. Talvez eu pudesse atribuir essa mudança ao simples fato de que, dessa vez, Victoria me acompanhava a cada lugar que eu almejasse ir. Depois de sobreviver a fúria oriental de sua melhor amiga, abrandada apenas porque Nicoly interferiu, nós finalmente comemos e descansamos. Curiosamente, Anne pareceu desapontada quando Nicoly mostrou o quarto de uma de suas flatmates como sendo da garota de traços orientais. Para mim, isso era apenas uma prova do quanto a loira estava tentando respeitar o espaço e tempo da dançarina. Naquela mesma noite, depois de um breve descanso, Victoria me despertou em meio a beijos e carinhos, me convencendo a ir ao cinema. Lá, por mais que eu tentasse resistir por ser um local público, a brasileira furtou beijos e bolou estratégias para sempre estar fazendo alguma gracinha.

Quando voltamos, Pierre tinha saído com alguns conhecidos cariocas e o novo casal estava envolto em um tórrido encontro de lábios e peles, já que ambas estavam sem blusa. Victoria praticamente gritou que estava ficando cega e encenou um drama exagerado do quanto aquela cena havia deteriorado o seu cérebro. Eu tive de empurrá-la para o quarto, para deixar que Nicoly e Anne voltassem a ter a privacidade que tanto ansiavam. E para proteger minha namorada de um provável novo ataque da oriental.

Era véspera de ano novo e estávamos na praia de Ipanema para passar um pedaço da manhã e tarde. Eu achava incrível e levemente assustador a quantidade de pessoas que se aglomeravam ali. Era uma confusão admirável já que pessoas de todas as aparências e classe pareciam se encontrar ali para aproveitar mais um dia absurdamente quente do Rio de Janeiro. Por sorte, Nicoly tinha amizade com o dono de um quiosque a beira-mar, providenciando uma mesa bem posicionada. Eu estava sentada no banco de madeira, de costas para a mesa para poder observar Nicoly, Pierre e Victoria jogando uma brincadeira com uma bola de futebol. Até onde havia compreendido, eles tinham de passar a bola um para o outro sem poder usar as mãos.

—Água de coco para a dama – Anne se aproximou sentando ao meu lado, com uma perna de cada lado do banco de madeira – Aproveite, peguei o dinheiro da Vic para isso.

Merci— sorri divertida com o atrevimento dela e meu sorriso aumentou quando meus olhos finalmente captaram algo no pescoço da minha vizinha – Mademoiselle Nicoly tem de ter um cuidado maior se não quiser que você seja alvo das brincadeiras de Victoria e Pierre.

—O que quer dizer com isso? – Anne franziu o cenho confusa.

—Há uma marca bastante evidente em seu pescoço, Anne – disse de maneira sutil, apontando para o local de maneira discreta – Nic marcou você.

Anne abriu bem seus olhos repuxados e levou a mão até o local indicado. Ela xingou a garota loira baixinho, revirou os olhos e deu de ombros dando-se por vencida.

—Não é como se eu tivesse reclamado na hora – Anne comentou em descaso.

—Entendo perfeitamente – disse distraída e em tom de compreensão, mas assim que notei o que proferi meu rosto ficou vermelho e desviei o olhar.

A minha vizinha riu alto e tudo o que me restou foi fingir que não entendia o motivo. Peguei o coco e voltei o meu olhar para a praia, sugando a água adocicada pelo canudo enquanto meus olhos buscavam pela garota morena que havia roubado tudo de mim. A encontrei rindo e montada nas costas de Pierre enquanto o europeu girava rapidamente em uma brincadeira até infantil. Nicoly ria dos dois sem disfarçar em seu volume o quanto estava sendo divertido o momento entre os três, seu riso chamando atenção dos que estavam ao redor.

Uma atenção que eu achei ser desnecessária assim que um trio de três garotas se aproximou deles. Pierre prontamente colocava Victoria no chão e dava o seu sorriso conquistador. Mesmo de longe eu podia averiguar o quanto tinha, pelo menos, um corpo favorável e exibido em biquínis pequenos. Nenhuma outra roupa cobria o corpo delas, apenas o necessário para que não fosse um ataque ao pudor. Uma delas, uma de pele bronzeada e baixinha, se aproximou de Victoria. Minha namorada tombou a cabeça para o lado, parecendo forçar a mente quando arregalou os olhos de maneira surpresa. A garota pequena riu e se jogou descaradamente nos braços da brasileira! Meu corpo inteiro retesou e logo o olhar azulado de Victoria buscou-me, surpreso e desesperado como se dissesse que não tinha culpa daquilo.

—Eu conheço aquela pequena – Anne comentou e eu não a encarei de volta, meu olhar estava travado em minha namorada que se afastava da outra garota – Não lembro direito, talvez seja uma das aventuras de Vic aqui no Rio.

Aquilo me fez pousar o coco com certa força sobre a mesa. Anne me fitou surpresa com o meu ato, mas toda a minha preocupação estava em manter a pose. Estávamos em público e com muitas pessoas ao redor, eu não poderia fazer um terço do que realmente queria. O ciúme já havia se provado um terrível inimigo a ser combatido, mas não era impossível de ser controlado e contido. Victoria fez alguns gestos e em poucos segundos estava se aproximando da nossa mesa, acompanhada do trio. A garota pequena fez acenos para alguém da praia antes de acompanhar a brasileira, como se estivesse chamando alguém.

Mon amour— Victoria apressou o passo para chegar primeiro na mesa – Eu encontrei ex-colegas da escola, do ensino médio.

Eu quase podia sentir um pouco de medo no tom de Victoria. Ela me olhava em expectativa enquanto meu peito teimava em inflar cheio de posse. Meu olhar repousou sobre as outras garotas que logo se ajeitavam em nossa mesa sem nem ao menos se apresentarem apropriadamente. Uma delas tinha um corpo realmente magnifico, mas eu poderia julgá-la mentalmente como não tão bonita de rosto. Jamais verbalizaria algo desse tipo, mas não poderia mudar meus prejulgamentos. Outra era realmente alta, talvez da mesma altura de Pierre e parecia entretida com o meu amigo. Já a pequena... Ela era sim, linda. Pele bronzeada, cabelos cacheados e da cor de terra. Os olhos castanhos claros brilhavam com o dia claro.

—Já faz tanto tempo Vic! – a mais alta comentou.

—Anos, May – Victoria comentou sentando ao meu lado, na ponta do banco de madeira já que Nicoly ocupou o espaço entre Anne e eu – Deixe-me apresentar. Essa é Anne e Liz, ela é minha---

—Eu não acredito nisso!

Uma voz agitada e masculina surgiu atrás de nós. Agora dois garotos puxavam cadeiras de plástico para poderem sentar perto de nossa mesa. Um negro alto e de corpo definido abaixou para poder abraçar Victoria sem que ela levantasse, logo pousando sua cadeira de plástico ao lado de minha brasileira. O outro apenas trocou o famoso hi-five com ela, sentando do outro lado da mesa perto de Pierre. Aquilo era tão confuso! Como pessoas brasileiras simplesmente apareciam do nada e se reencontram depois de anos passavam a agir como se nada tivesse acontecido?

—Rodrigo! Emerson! – Victoria falou singelamente animada – Seus vadios, vocês mudaram em nada!

—Diferente de você – a pequena sorriu de lado – Não é mais aquele vara pau do time de vôlei.

—Essa gorda já foi magra? – Anne não deixou de zoar.

—Vejo garotas bonitas e não sei o nome delas! – o rapaz negro logo pronunciou com um sorriso maroto.

—Eu sou a Anne, essa loira distraída é a Nicoly e a ruiva é a Liz – Anne apresentou rapidamente – Então vocês estudaram com a Victoria?

—Mesma turma desde a sexta-serie! Aliás, eu sou a Mayara, mas pode me chamar só de May – a mais alta começou a apresentação – Aquela gostosa ali é a Juliana e a anã é a Luna.

Aquele nome me causou um incomodo que eu não conseguia descrever ou lembrar o motivo. Luna sorriu exibindo todos os seus dentes perfeitos e bem alinhados, o sorriso dela era apenas um charme a mais a todo o conjunto que representava. Pequena, magra e de cabelos castanhos claros longos e lisos, uma delicada franja lateral parecia dar o toque final ao conjunto bonito que a garota fazia.

—Eu sou o Rodrigo – o garoto negro pareceu querer lançar o seu melhor sorriso sedutor para Nicoly – Eu posso manter a sua atenção em mim---

—Sem chance – Nicoly saltou na mesma hora e abraçou Anne de maneira engraçada – Eu quero ser namorada dessa garota antes do ano novo, não estrague meus planos!

—NICOLY! – Anne bateu nela e ficou extremamente vermelha.

—Vic então você continua nessa? – o garoto Emerson questionou parecendo um pouco desapontado.

—Seu idiota – Mayara fez careta para ele – Não é questão de continuar ou não, ela simplesmente é — eu havia simpatizado ainda mais com aquela garota – Todo mundo soube o que aconteceu com você Vic, foi o assunto de todos os reencontros da nossa turma.

—É verdade que a garota que você estava ficando era uma universitária? – Rodrigo perguntou em um tom malicioso – Sempre soube que você era um prodígio!

Apenas quando eu associei a pergunta eu idealizei o que realmente estava acontecendo ali. Rodrigo questionava a minha namorada se a garota que ela tinha sido pega em flagrante era uma universitária. O que me fez lembrar prontamente que a jovem com quem Victoria se relacionava as escondidas se chamava Luna. Meu olhar virou diretamente para Victoria que encarava seriamente a garota menor a sua frente.

—Isso não importa mais – Victoria disse um tanto quanto séria, mas logo abria um sorriso cada vez mais crescente – Meu presente está definitivamente muito melhor do que meu passado. Estou em um relacionamento sério pelo resto de minha vida.

—Sério? – Luna deixou escapar a sua surpresa ao escutar aquilo.

—Por que ela brincaria com algo assim, mademoiselle? – questionei prontamente, a língua e o olhar afiado.

—Oh não, não! – Anne se movimentou dramaticamente – Não deixem que ela comece os discursos românticos! Acredite se quiser, mas essa dama aqui aceitou sofrer pelo resto da vida quando disse sim ao pedido de namoro de Victoria. Moral da história: ela é louca.

—Como isso aconteceu? – Juliana perguntou parecendo sinceramente curiosa.

—Ela caiu no meu colo – Victoria respondeu prontamente em um tom risonho – Literalmente! Nunca canso de me dizer isso.

—E de onde você é Liz? – May questionou genuinamente curiosa – França? Seu sotaque é bem forte ainda.

—Morei uma parcela de minha vida em uma cidade da França, mas meus últimos anos foram em Genebra – esclareci sorrindo levemente encabulada para a garota – Eu tento não ter sotaque, porém é deveras mais forte do que eu.

—Precisa ver ela irritada – Victoria riu e prontamente Nicoly, Anne e até mesmo Pierre a acompanharam – Eu entendo nem metade do que ela diz, mas sei que estou fodida.

—Literalmente? – Nicoly provocou.

Mademoiselle! – reclamei fitando Nicoly incrédula pela ousadia.

—Quem diria que aquela magrela ia se dar tão bem na vida assim! – Rodrigo exclamou e bateu na mesa em animação – Isso merece uma comemoração! Uma rodada de cerveja em minha conta.

—Por isso ele sempre foi o meu favorito! – Victoria agitou-se também.

O que se passou a seguir foi uma verdadeira bagunça ao ritmo brasileiro. Todos falavam ao mesmo tempo, as vezes todo mundo na mesma conversa, outros momentos em conversas paralelas. Cervejas e caipirinhas, o que não era permitido era que o copo estivesse vazio. De certa forma eu estranhava ainda esse tipo de comportamento tão caloroso, agitado e de certa forma íntimo, pois eles se provocavam, se zoavam e riam um dos outros. Mas ao mesmo tempo eu estava singela e sinceramente encantada com isso. Tão oposto da educação nobre que exigia respeitar o espaço do outro e evitar escândalos! Ali você poderia falar algo impróprio, receberia uma resposta ainda mais impropria – como um palavrão e um olhar zangado – mas no minuto seguinte estariam erguendo os copos para um brinde.

Aquela teria se provado uma tarde classificada como magnifica... Se não fosse aquele incomodo constante de ter o olhar de Luna sobre nos duas. A garota tentava disfarçar, mas quanto mais bebia mais indiscreta ficava. Entretanto, não foi difícil ignorá-la. Victoria poderia estar falando com todos ao mesmo tempo, mas não saia do meu lado ou deixava de me dar atenção de alguma forma. Aplicava beijos rápidos e malandros em meu rosto e pescoço, respeitando a minha concepção de que beijos na boca eram para ser algo apenas nosso. Sua mão constantemente estava sobre meu joelho ou sobre a minha. Ela não deixava de perguntar se eu estava com fome ou se queria alguma coisa, ela prontamente providenciaria. Mesmo quando eu sugeri que ela deveria beber um pouco de água para equilibrar o nível de álcool e evitar ficar realmente bêbada, ela prontamente obedeceu.

—Tão domada – Anne comentou quando viu Victoria recusar que enchessem seu copo – Já sei que vou precisar comprar um chicote para Liz no aniversário dela.

Mademoiselle Anne! – não dei chance para que Victoria se defendesse simplesmente xingando a vizinha, isso era algo que realmente me incomodava na concepção geral sobre um relacionamento – Eu ainda acho nublada e dúbia a ideia de que quando alguém está agradando a alguém é sinônimo de que está “domado”. Que espécie de companheiro você seria se não se importasse com o bem estar do outro ou fizesse um agrado ou outro? Que manteria sua presença de lado apenas para se exibir aos amigos como alguém que não foi domado e dominado por um sentimento que, sinceramente, todos correm mas sempre estão procurando?!

Busquei um pouco de ar após finalizar o pequeno discurso de maneira realmente enfática. Quando se tratava de defender meu ideal de amor eu sempre me tornava passional e a bebida deixava-me ainda mais enfática.

—Ela está falando sério? – Emerson questionou duvidoso.

—Sim – Anne respondeu rindo.

—Completamente, é o que ela realmente pensa – Pierre deu de ombros – Quase faz com que um cafajeste como eu me arrependa de algumas coisas... Mas só quase!

Contive um impropério, mas não o revirar de olhos insatisfeito com aquela reação tão típica que tinham quando proferia os meus ideais. Pensar e interpretar o mundo daquela forma tornava-me uma garota ingênua e de conceitos que beiravam a utopia, segundo eles ao menos. Mas vejamos onde eu estou, apaixonada, rendida e vivendo um amor cheio de pequenos defeitos, mas que se torna perfeito por ser real e não um conto de fadas.

—Não ligue para eles – escutei o sussurro carinhoso de Victoria e um beijo suave em meu ombro – Eu amo você assim, desse jeitinho.

Aquilo foi o suficiente para acalentar minha indignação por não ser compreendida. Não importava, Victoria poderia compartilhar das mesmas opiniões que os outros, mas era aquela morena que me permitia viver exatamente tudo o que eu dizia. Depois de apenas mais uma rodada de cerveja e caipirinhas, a maioria decidiu jogar vôlei. Certamente que eu não possuía nenhuma habilidade nesse esporte, optei por um banho no mar, sendo acompanhada por Anne, Luna e Emerson. A conversa fluiu tranquilamente, Anne e Luna conversavam um pouco sobre algum seriado que assistiam em comum enquanto Emerson mantinha-me distraída com uma conversa sobre uma viagem que ele fez pela América do Sul.

—Ei Liz – Luna chamou a atenção, seu sorriso fraco tentando demonstrar simpatia – Eu não consigo segurar a curiosidade. Você é lésbica ou....?

—Eu amo Victoria – disse rapidamente e com firmeza em meu tom – Só desenvolvi um sentimento ou interesse romântico por ela.

—Apenas por ela? Nunca se imaginou com nenhuma outra pessoa? – Luna insistiu.

—Certamente que sei apreciar a beleza de uma pessoa e acha-la particularmente interessante. Mas essa... Essa sensação avassaladora só nasceu e cresceu com ela. Eu faria qualquer coisa por ela e com ela.

—Você sabe que a família dela é meio complicada? – Luna arqueou uma sobrancelha.

—Ela sabe – Anne riu e eu pude notar um pouco de deboche na maneira como ela encarava a outra brasileira – A Liz deu um tapa na cara na família Carvalho. Passou o natal na casa do avô da Victoria e enfrentou qualquer um com toda a classe que uma branquela gringa poderia ter. Essa criança foi meu orgulho!

—Não exagere mademoiselle Anne – eu pedi, mesmo que por dentro eu sentisse um sutil contentamento pelo que ela dizia – De certa forma também estava defendendo o que eu acreditava e continuo acreditando.

—Você não teve medo do que eles poderiam dizer? – Emerson questionou.

—Talvez tivesse se Victoria não estivesse comigo – respondi de maneira sincera – Compreenda que apesar de ter certeza dos ideais, nunca será fácil receber um olhar repleto de julgamentos e falas envenenadas de preconceitos. Entretanto ela estava lá comigo e eu precisava estar lá para ela. Isso foi o suficiente para mantermos o queixo erguido.

—Como eu disse, essa criança só me dá orgulho! – Anne exclamou mais uma vez.

Emerson mudou o assunto mais uma vez e foi quase imperceptível o modo como Luna ficou um tanto quanto mais quieta e afastada. Mas toda a minha atenção estava voltada para ela. Para a garota que iniciou todo o processo de sofrimento de minha Victoria. Uma pequena confusão se iniciava em meu interior, sem conseguir definir o que eu realmente sentia perante a presença dela.

Felizmente Victoria não demorou muito em seu jogo de vôlei, adentrando no mar em toda a sua gloriosa beleza brasileira. A pele ainda mais bronzeada pelos dias de sol, o biquíni que moldava o seu corpo e o deixava perigosamente exposto. Eu já havia visto mulheres de todos os tipos e nacionalidades, de todos os tamanhos e formas, participado de eventos de moda... Mas nenhuma outra pessoa seria tão lindo quanto ela. Não para mim que sabia exatamente a textura de sua pele, que conhecia cada milímetro daquele corpo. Quando a brasileira notou o modo fixo em que eu a admirava, um sorriso de lado nasceu em sua boca perfeita. O olhar azul ainda mais claro por causa do reflexo da água não desviava do meu, tão intenso e perfeito. Demorei a perceber que andava em sua direção, apenas quando ficamos perto uma da outra e as vozes de Anne e Emerson pareciam distantes. Victoria nada disse, apenas esticou a mão com a palma aberta em minha direção, exatamente como fizemos na cachoeira.

Um suspiro exalou de meus lábios baixo e apaixonado. Ergui a minha mão e bem calmamente ela entrelaçou dedo por dedo. Senti quando fui puxada, meu corpo indo em direção ao dela flutuando na água. O mar continha ondas constantes, o que me fazia ter os pés fora do chão constantemente. Mas com Victoria ali, apenas apoiei meu braço em seu ombro usufruindo de sua altura.

—Deixe-me beijá-la – Victoria pediu.

—Há muitas pessoas – disse em um fio de voz, meus olhos desviando dos dela apenas para escorregar na direção daquela boca tão bem desenhada – Não seria um beijo simples.

—Não seria – ela concordou e envolveu a mão livre em minha cintura findando com qualquer distância entre nós – Mas eu sinto esse desejo incontrolável de ter minha boca sobre a sua.

—Victoria...

—Aqui ninguém se importaria Liz. Ninguém liga na verdade. Há certos lugares e momentos que concordo com você, não seria confortável trocar um beijão. Mas aqui, agora, não faz diferença. Eu quero beijar minha mulher até o meu---

Todo o discurso dela morreu quando meus dedos serpentearam em seu cabelo escuro e molhado, a puxando em um único movimento para que meus lábios colassem com o dela. Eu senti em minha boca o sorriso rápido dela antes que Victoria encaixasse melhor nossas bocas e iniciasse verdadeiramente o beijo. Foi um toque lento e carinhoso, por muito tempo apenas nossos lábios se moldavam. Mordidinhas foram trocadas, línguas por vezes se encontravam brevemente. Meu corpo estava colado ao dela, as peles de nossas barrigas roçando e os seios pressionados. Minha mão esquerda acariciava a nuca de Victoria enquanto a destra permanecia entrelaçada debaixo da água a dela. Um detalhe simples e singelo, mas que parecia dar um significado ainda maior ao momento que nos envolvia. Foi um beijo longo e muito bem aproveitado até que a necessidade de respirar se fez presente.

—Isso quer dizer que eu posso te beijar em público?! – Victoria não continha o tom animado.

Non— neguei e mordisquei o lábio para não rir da feição de desapontamento dela – Mas concordo com sua colocação de que há alguns lugares públicos que podemos compartilhar um beijo...

—Ou dois! – Victoria acrescentou rapidamente.

—Ou diversos – sorri voltando a acariciar a nuca – Mas temo ainda que os melhores beijos serão aqueles trocados em privacidade.

—Melhores beijos?

Oui, aqueles beijos que me roubam totalmente o ar – respondi e meu tom abaixou antes de acrescentar – E me fazem querer dançar... Mas sobre você.

—Acho que já devemos ir para casa! Vou avisar a Anne!

Foi impossível conter o riso da afobação repentina de Victoria ao mesmo tempo em que me sentia orgulhosa por conseguir provoca-la com apenas algumas frases. A segurei no lugar e selei nossos lábios a impedindo de se afastar de mim. Victoria fez um beicinho, mas voltou a me segurar em seus braços e aplicar uma verdadeira sequência de beijos rápidos em minha boca até me ter rindo do seu jeito bobo e apaixonado. Ficamos ali trocando carinhos singelos e conversando sobre amenidades. Até que em um momento apenas ficamos abraçada, deixando que o embalo da corrente marinha e das ondas nos evolvessem. Isso criava uma sensação de tranquilidade que só me fazia ter ainda mais convicção de que tudo o que eu tinha feito para chegar até ali tinha valido a pena. Eu o faria novamente e quantas vezes fossem necessárias se o resultado fosse aquele.

Meus pensamentos foram interrompidos quando os braços de Victoria apertaram ainda mais ao redor de meu corpo. Seu rosto escondeu em meu pescoço e eu a senti levemente tensa. Franzi o cenho confusa, dando o tempo que ela precisava ao mesmo tempo em que a mantive bem perto de mim.

—Parece que todos os meus fantasmas apareceram de uma única vez – ela murmurou, respirou fundo antes de afastar o rosto e finalmente me fitar – A Luna é a garota que estava comigo quando tudo desabou.

—Eu deduzi isso, mon amour— disse suavemente e Victoria apenas deu de ombros, franzi o cenho ponderando as palavras antes de pronunciá-las – Eu fico questionando-me algo e não consigo chegar a uma resposta razoável... Ela passou esses anos todos sem dizer que estava sem você, mesmo sabendo as consequências terríveis que isso acarretou a você. Ela não ficou ao seu lado, mesmo estando envolvida em uma espécie de relacionamento com você.

—Amor, nós não tínhamos um lance romântico nem nada, era só uma troca. Tínhamos interesse uma na outra, o gosto do perigo de sermos descoberta e sem cobranças. Era fácil.

—Mas ela nem ao menos tentou fazer algo!

—Porque ela sofreria as mesmas consequências – Victoria explicava calmamente.

—Porém ela podia ter feito algo!

—O que ela poderia ter feito então? Ter assumido que estava comigo quando não tinha nem ao menos certeza do que ela sentia? – Victoria pausou parecendo pensar um pouco antes de acrescentar – Ficar com outra pessoa do mesmo sexo muitas vezes não é apenas questão de se envolver física ou emocionalmente. É se compreender, entender suas vontades, é conhecer suas preferências e isso envolve toda a sexualidade. Convenhamos que na adolescência isso é bem intenso, confuso e fode com a mente de muita gente. Veja tudo o que eu tive de passar para hoje dizer aberta e orgulhosamente que eu gosto de garotas; que sinto prazer fazendo sexo com uma garota e que; mais do que tudo, eu amo perdidamente uma burguesinha ruiva muito gostosa.

Eu senti meu peito aquecer e meu rosto esquentar, corando prontamente com o jeito sincero e espontâneo da brasileira sempre dizer que me amava e me achava linda. Em suas palavras, em seu jeito tão singular, Victoria sempre explicitava os seus sentimentos para mim. Respirei fundo contendo toda minha pequena revolta por aquela garota ter se escondido e se protegido enquanto Victoria sofria todo o preconceito e discriminação sozinha.

—Você a perdoa então? – indaguei realmente intrigada.

—Hoje eu posso dizer que sim – Victoria deu de ombros – Eu compreendo melhor como o mundo pode ser realmente cruel e que ela estava se protegendo. Nem ao menos estávamos apaixonadas para que ela se arriscasse tanto. Mas na época foi bem difícil enfrentar tudo sozinha e não exigir nada dela. Ser a única a ser encarada diferente, a ser julgada e punida. Não sei como está a vida dela e, sinceramente, não desejo saber. Eu tenho a minha própria para cuidar e estou muito feliz do jeito que estou. Esse ano estou enterrando todos os meus fantasmas do passado e iniciando um futuro muito promissor com a mulher de minha vida!

—Posso confessar uma coisa? – apoiei melhor nela para poder sussurrar no ouvido dela – Geralmente sou eu quem faz os discursos apaixonados, mas estou verdadeiramente derretida por cada coisa que está dizendo, mon amour.

—Opa, então podemos ir embora para que eu volte ser a garota da ação? Tenho uma ou outra coisa que meu corpo pode dizer ao seu. Uma conversa muito interessante, eu posso garantir isso!

Foi impossível conter a risada com o jeito animado e afobado dela. Mas, dessa vez, não neguei o seu pedido. Também queria ter aquela conversa, deixar que nossos corpos se falassem em uma linguagem só nossa.

Notas finais
Queria agradecer também a quem entrou em contato comigo sempre questionando da fic. Também não posso deixar de abrir um espaço aqui para falar sobre um grupo que faço parte e as meninas sempre seguem minhas fics, elas nunca me deixaram desanimar e sabiam quando pressionar, pedir e não me deixar esquecer sobre MC.