Ma Chérie

4 Capítulo 4: O Apartamento


Notas iniciais
Então, eu achei esse capítulo meio bobo, mas não dava para não escrevê-lo! Acho, só acho, que posto o próximo ainda hoje. Sejam boazinhas comigo sz

POV Victoria

Ainda era difícil de acreditar que meu caminho havia se cruzado daquela forma com o da garota do ônibus. Já era sexta-feira e eu havia saído do trabalho mais cedo alegando um bom motivo: iria ajudar a minha nova inquilina na mudança. Tivemos de esperar dois dias para poder resolver tudo da maneira correta. Ajeitar um contrato, providenciar algumas coisas extras como um novo guarda-roupa e eu dar uma geral pelo apartamento. Elizabeth era uma mulher completamente singular, a sua forma de ver o mundo e pensar era tão ingênua e ao mesmo tempo pura que me fez desistir de tentar alguma coisa com ela. Preferia admirá-la em silêncio, vê-la sorrir e porta-se como uma dama de verdade.

Assim que cheguei à frente do Edifício das Palmeiras, um carro preto estacionava a frente exibindo um homem charmoso e uma ruiva linda em seu interior. Acenei para eles e sorri em cumprimento, decidindo esperar para que pudéssemos subir juntos. Quando vi uma única mala preta sendo tirada do carro os olhei desconfiada.

–Apenas isso? – perguntei apontando para a mala.

–É o suficiente, aos poucos pretendo ir comprando as novas coisas – Liz explicou um pouco sem jeito.

–Deixa que eu levo, é no quinto andar não é?

Fiz que sim com a cabeça e deixei que o homem fosse à frente. Liz seguiu ao meu lado e ela estava mais uma vez deslumbrante, mesmo que em um simples vestido floral. Seu cabelo ruivo estava penteado em uma trança bonita e a sua franja ainda teimava em cair por vezes em seus olhos castanhos. Seguimos trocando poucas palavras, ela ainda mantinha aquela postura perfeita e um olhar tranquilo, porém observador. Eu nunca saberia dizer se estava ansiosa, nervosa ou animada, seu jeito era sempre discreto! Assim que as portas se abriram eu fui à frente para abrir a porta e fiz uma pequena reverencia.

–Princesinha francesa, bem vinda a sua nova e humilde casa – falei em um tom divertido.

Recebi como resposta um sorriso composto por dentes brancos e perfeito. Ela foi a primeira a entrar, sendo seguida por Pierre. Elizabeth parecia analisar a tudo com um olhar crítico e eu mentalmente agradeci a minha brilhante ideia de ter deixado tudo limpo e arrumado. O lugar era bastante simples, mas amplo e aconchegante. Ao entrar no apartamento dava-se de cara com a sala de estar que tinha dois sofás de tom mostarda e enfrente a eles uma estante com uma tv de tela plana e um aparelho de som logo abaixo. A sala de jantar ficava logo ao lado e com um balcão de mármore servindo como divisória estava a cozinha mais a frente. Fora isso havia um corredor que dava acesso ao banheiro público e mais duas portas, que eram nossos quartos.

–Venha, vou mostrar seu quarto. Eu montei um jogo de cama que é seu, mas é o único que tem ok? – falei indo para o corredor.

Abri a porta que ficava a frente da do banheiro revelando um quarto não muito grande, mas com seu espaço muito bem aproveitado. No centro uma cama de casal, a sua esquerda uma janela que dava para a rua e a direita o guarda-roupa novo que eu havia comprado para ela. Colado a uma parede estava uma mesa de escritório e uma cadeira preta com rodas, bem ao lado estava uma porta que daria acesso ao banheiro.

–Estão com fome? Eu sei preparar sanduiches e minha habilidade culinária acaba por ai, então aproveitem – ofereci completamente prestativa.

Merci, Vic – Liz agradeceu com um sorriso tímido e sentou sobre a cama, testando a sua maciez e pareceu aprovar – É muito melhor do que a do hotel!

–Vamos, lady preguiça, desarrume sua mala enquanto a gata borralheira vai fazer a nossa refeição – provocou Pierre jogando a mala ao lado de Liz.

–Vai dar para alguém, Pierre – respondi fingindo carinho.

Ele gargalhou e Liz ficou um pouco sem jeito. Dei de ombros e sai dali para deixa-los a sós. Fui para a cozinha e já estava começando a separar os ingredientes que iria precisar quando a companhia tocou. Revirei os olhos, gritei um já vai e terminei ao menos de ajeitar os pães sobre o balcão da pia. Bati uma mão na outra e segui em direção à porta, a abrindo sem olhar no olho mágico quem era. Não me surpreendi ao ver Anne parada ali e já ir invadindo o lugar.

–Cadê a ruivinha? – ela perguntou olhando para os lados.

–No quarto desfazendo as malas – contei e segui para a cozinha – Vem cá me ajudar a fazer alguns sanduiches pra eles.

–Eles? Ela não está só? – Anne me seguiu prontamente.

–Não, Pierre é amigo dela.

–Pierre... Você quer dizer aquele Pierre? Que ficou com a Thais semana passada?

–Exatamente, eles são amigos.

–Tem certeza? Pierre não parece ter amigos, mas sim amantes.

–Isso porque minha única amiga estava do outro lado do mundo – Pierre falou atrás de nós, fazendo minha amiga saltar no lugar de susto e ficar extremamente vermelha – Mas veja, não estou negando o que você disse ao todo.

Ri do jeito que Anne ficou, parecia querer se esconder debaixo de um tapete e ficar por lá. Mas logo Liz entrou com toda a sua graciosidade, trazendo o seu cheiro floral. Logo que nossos olhares se encontraram eu abri um sorriso sem nem ao menos perceber.

–Já está tudo pronto, posso oferecer minha ajuda no lanche – ela falou colocando as mãos unidas atrás das costas – Ah, uma convidada?

–Nossa vizinha da frente. Anne essa é Liz, Liz essa é Anne – tratei de apresenta-las – Ela é amiga minha, por isso não estranhe a presença dela aqui, tudo bem?

–Prazer em conhecê-la, mademoiselle Anne – Liz disse em total educação e com uma entonação bem francesa no nome da Anne.

Nossa vizinha ficou sem jeito e tratou de ir cumprimenta-la com dois beijinhos. Como eu esperava, Liz corou com o ato e sorriu amarelo para tentar disfarçar. Virei meu corpo para terminar os sanduiches e Anne me ajudou a leva-los para a mesa, comecei a por os talheres e notei o olhar sério de Liz para os meus atos. Até que lembrei que ela sabia a forma de arrumar segundo a etiqueta.

–Ok, até você se acostumar e eu me acostumar com seus modos, porque não me ensina a maneira que você conhece de por a mesa? – fiz a proposta pensando em me dar bem com minha nova companheira.

–Não quero causar incômodos, eu teria de me acostumar de qualquer forma – Liz abaixou os ombros e parecia conter um suspiro.

–Deixe disso, essa vai ser sua casa e também quero que se sinta a vontade. Vamos, me ensine logo, estou com fome e não vou liberar a comida até que você me mostre como fazer.

Liz sorriu de canto e se aproximou de mim. Ela posicionou o prato da maneira certa e explicou sobre como deveriam ficar os talheres e o copo. Também começou a falar sobre os outros talheres que se usava na mesa, um para cada tipo, vê se pode! Ricos sabiam ser frescos. Depois de ter posto corretamente a mesa sentamos para comer e a conversa se seguiu em um clima bem legal, Anne não resistia a implicar com o sotaque francês que Liz tinha e ficava imitando o seu modo de falar. A ruiva ficava sem graça, mas logo soltava um risinho discreto e desconversava.

–Hoje é sexta-feira, deveríamos sair! – Anne exclamou animada.

–Diferente de você, trabalhamos no sábado – Pierre logo acrescentou terminando de beber seu suco.

–Não corta o meu barato – Anne reclamou fazendo o seu bico contrariado.

–Anne, no que trabalha? – Liz perguntou com curiosidade.

–É apenas meio período. Eu trabalho e estudo na Escola de Dança Lince – Anne explicou – Trabalho ensinando as crianças hip-hop e jazz iniciante, mas também pratico um pouco para fazer algumas apresentações e participar de concursos. Mas esses dias estão um inferno!

–Não acharam alguém ainda? – perguntei curiosa.

–Não, Adriana tinha de se casar e mudar de cidade! Agora estamos com um enorme desfalque porque ninguém era tão boa quanto ela para assumir o cargo. Nem mesmo eu poderia substituir uma professora para nível avançado – Anne explicou encolhendo na cadeira e fechando os olhos em sinal de sofrimento – Mas de qualquer forma as aulas têm de continuar e ir empurrando de qualquer forma é o pior!

Os dois a minha frente ficaram quietos e eu os fitei com curiosidade. Ambos trocavam olhares que pareciam se comunicar, Liz balançou a cabeça em negativa e desviou o rosto, logo eles começaram a conversar em francês, deixando-me ainda mais curiosa! O que estava acontecendo?

–Hey, nada de conversa privada! – exigi.

–Liz dança muito bem, desde os cinco anos. Fizemos aulas juntos e ela sempre era a melhor da turma – Pierre logo foi falando – Eu garanto que ela é profissional, só não seguiu carreira porque não quis.

–Sabe que não é por esses motivos. Não havia prestígio bom o suficiente para arriscar uma carreira desse tipo. Dançar é um hobbie apenas – Liz defendeu-se cruzado os braços abaixo dos seios.

–Não há prestígio?! – Anne repetiu em um tom levemente indignado.

Pardon, formulei minha frase de modo errôneo, mademoiselle Anne. – Liz pediu e prontamente acrescentou – Não era prestigioso o suficiente para meu pai. Ele permitia-me participar de alguns eventos, afinal seria bom para seu nome e popularidade, mas não mais que isso.

–Credo, ele parece ser bem controlador – Anne fez uma careta e logo estava abrindo um sorriso – Porque não tenta? Eu ligo agora para Rachel, a dona e diretora da escola, marco algo para amanhã mesmo e segunda-feira você tem a resposta. Elas estão desesperadas e pensando em contratar alguém de fora.

–Você vai precisar desse dinheiro – Pierre acrescentou – E não vai lhe custar tentar.

–Ligue – ordenei para minha vizinha e abri um enorme sorriso – E não deixe de gravar! Eu vou querer ver depois.

–Nada de filmagem! – Liz prontamente se recusou, mas suspirou em derrota lançando um olhar frágil a Pierre – Dança comigo? Eu me sentiria mais segura.

Com aquele olhar e jeito dela pedir, até mesmo eu que era uma vergonha na dança, tentaria algo. Pierre sorriu e logo confirmou. Gritei que aquilo merecia uma comemoração e fui logo buscar uma das poucas garrafas de vinho que tinha. A noite chegou assim, em clima de boa conversa e uma boa comida, já que Anne resolveu demonstrar seus dotes culinários. Eu estava feliz por ter encontrado uma garota como Liz para dividir minha casa, aos meus olhos, até aquele momento ao menos, ela era perfeita.