M.T.A - Meet To Always
3 Capítulo I - Uma Menina Problemática
Notas iniciais
AKEMI
✝
Quarta-Feira, 10 de Outubro de 2014
Minha mãe para o carro na frente do colégio. Agarro minha mochila com força enquanto olho para ela, quase que pranteando. Vejo-a soltar um suspiro profundo, algo que soa pouco como decepção ou angústia.
── Akemi, sabe que deve ir para a escola.
── Mas... Mas eu.... Eu não quero, mãe! ── Digo enquanto aperto a mochila em meio a um abraço. Minha mãe destrava a porta ao meu lado e eu saio, com a cara um pouco vermelha. Ela acena e se vai rapidamente, enquanto fico alguns segundos observando a calçada.
Me viro em direção à escola. O vento estava forte nesse dia em específico, deixando várias folhas alaranjadas de outono acompanharem seu curso.
Ando lentamente cabisbaixa, da calçada à escola. Consigo ver pelos cantos dos olhos algumas meninas me olhando e sussurrando logo após.
Mas claro, eu estava acostumada. Já era de se esperar que algo assim acontecesse.
Começo a me aproximar cada vez mais da entrada, mas percebo que uma garota da minha sala para alguns metros na minha frente e cruza seus braços. Duas de suas amigas se põe ao lado impedindo minha passagem. Viro para trás para tentar não arranjar confusão, mas algumas outras quatro meninas já estavam paradas atrás de mim. Logo, as sete formavam uma roda perfeita.
E quem estava no meio dessa roda? Obviamente, eu. Essa situação já havia acontecido várias vezes, mas eu apenas ignorava em todas elas. Esperava passar.
── Oh desculpe, se quiser entrar na escola deverá passar por nós primeiro. ── A menina à minha frente diz em tom sarcástico. O que me faz apertar minha mochila, ainda a abraçando.
── O que foi? Está com medo? ── Outra das meninas debocha.
── Ela não está com medo. Como alguém problemática como ela teria? ── Uma outra afirma com um sorriso nos lábios. Todas sarcásticas.
── Sim... Ela fica se achando apenas porque é uma imigrante asiática, mas na verdade, deve ser uma imigrante do inferno! ── Fala uma menina atrás de mim.
Coloco minha mão no rosto para esconde-lo. Eu o sentia queimar, sabia que estava vermelha.
── Ah gente... ── diz uma menina incitando uma voz de dó ─ Parece que a criancinha vai chorar.
── Lágrimas? Devem ser quentes, assim como o calor do inferno. Mas o que ela pode fazer? Tenho certeza de que seu pai está lá.
── PAREM, POR FAVOR! ── Grito, com uma voz de choro, por não aguentar mais. Enquanto jogo minhas mãos para o lado e deixando lágrimas escorrerem pelo rosto. Minha mochila cai de minhas mãos, e a menina da minha frente se aproxima e a pega, me empurrando para trás rapidamente.
Ela mexe em minha mochila inquietamento, e em um dos bolsos encontra meu celular. A garota o pega e atira minha mochila no chão. Olhando para mim e dizendo:
── Aposto que foi caro, não é? É importante pra você? ── Ela sorri, e joga meu celular no chão, logo em seguida pisoteando-o com força.
── Ei, Stacy, não está indo longe de mais? ── Uma voz por detrás de mim se ergue, meio preocupada. Enquanto eu, perplexa, continuo sem reação.
── Quieta, Callie! Ou quer ser amaldiçoada por essa imprestável?! ── A menina diz e eu caio no chão, com o olhar para baixo.
Várias pessoas parecem olhar para esta direção, para verem a menina problemática levando uma lição. Até que, uma voz familiar, de tom firme, se ergue envolto à roda:
── Quero todas na minha sala, agora!
Stacy faz uma cara de inocente para mim, como se estivesse me culpando. De jeito que aparentasse o contrário da real situação. Logo depois diz em tom melancólico:
── Ah, ótimo, agora seremos punidas por causa dessa diabi...
── Quieta, Stacy! Você é a principal causadora disso tudo. ── Novamente o diretor levanta sua autoridade. E incrivelmente ela começa a chorar, mas não eram lágrimas comuns. Eram lágrimas de crocodilo.
── Desculpe, diretor. Minha família anda tão desestabilizada. Sabe que não gosto de falar disso. Meus pais vão se divorciar e todo dia eles brigam. Meus outros parentes me deixaram, não sei o que fazer. Mas... Mas senhor, isso só aconteceu quando Akemi disse que eu ia me arrepender por ter brigado com ela. Não é coincidência... No mesmo dia meu cachorro morreu e teve a primeira briga de meus pais. ── A menina diz enquanto forja seu choro, com a mão no rosto.
O diretor vira seu olhar para mim, parecendo não dar muita atenção para as palavras de Stacy. Logo depois diz:
── Corrigindo o que disse... Srt. Akemi Tsuke, quero que você venha à minha sala. ── Em seguida se vira entrando na escola enquanto eu pego minha mochila, a qual ainda estava no chão, para o seguir. Mas antes de entrar, olho para trás e consigo ver um sorriso satisfeito no rosto de Stacy.
✝
── Estou ligando para sua mãe, e nem tente fazer algo comigo! ── O diretor fala discando números no telefone, enquanto eu olho para baixo. Como se eu fosse amaldiçoa-lo por fazer isso.
Não era a toa que sou chamada de criança do demônio nas escolas que já estive. Assim como em todos os outros lugares. Uma garota de olhos e cabelos escuros, sempre andando cabisbaixa ou com alguma peça negra em meu corpo. Mas o que tinha de errado gostar da cor preta? Eu também trazia azar para todos na escola. Todos os trabalhos em que eu restava no grupo ocorreram desastres horríveis, sendo que o mais devastador resultou na perda de um dedo de meus colegas.
E como eu poderia dizer? Por onde eu ando as pessoas parecem tristes e solitárias antes mesmo de me ver. Eu sempre me questiono de... Por que eu? Por que não posso ter uma vida normal como a das outras pessoas? Por que não tenho direito a amigas? Por que não posso ir as festas de pijamas de minhas colegas? .... Por que eu não tenho o direito de viver? Penso que irei morrer sem conseguir responder essas perguntas.
── Sua mãe virá lhe buscar. Depois peça a ela a seita que fazem parte, vou providenciar uma denuncia. ── Falou em tom áspero.
── Desculpe, diretor... Eu sei que a culpa é minha, mas... Não quero o mal das outras pessoas, eu juro! ── Digo praticamente chorando, mas apenas me vejo na mira de um olhar desprezador.
── Sua mãe devia ter pensado nisso antes de colocar alguém como você no mundo.
Eu o olho já com novas lágrimas nos olhos, mas logo desvio o olhar pegando minha mochila e saindo de sua sala. Indo à entrada da escola.
✝
Como era outono, estava frio e correntes de vento invadiam a cidade. Estou sentada em um banco com vários livros do meu armário em minha mão. Esvaziei todo meu armário pois sabia que havia sido expulsa da escola. Já está virando algo comum ser expulsa das escolas, daqui a pouco eu serei expulsa da cidade.
Minha mãe chega, estacionando enquanto olha de uma forma não muito agradável para mim. Um olhar de decepção.
Eu me levanto do banco caminhando até seu carro quando começo a sentir uma sensação estranha. Meus braços começam a ficar dormentes e fracos e minhas pernas igualmente bambas. Meus braços cedem primeiramente, fazendo os livros que estava carregando caírem no chão, revirando suas páginas.
De novo não!!! Mas não tinha tempo para reclamar.
Um fio de luz passa em meus olhos e sinto minha pupila diminuindo e aumentando bruscamente. Quando de repente, várias imagens começam a passar em minha mente.
Um campo, com vários morangos. Várias casinhas de cores diferentes. Uma parede de escalada. Uma floresta imensa. Uma enorme casa decorada. Pessoas e pessoas com camisetas alaranjadas. Uma estrutura circular parecida com um coliseu. Um lago. Uma colina com um enorme pinheiro. Criaturas como híbridos de pessoas com bode e outras de cavalo e meninas de pele esverdeada. E uma placa escrita em grego.
Tudo se passa rapidamente em minha mente, como um filme cortado em várias partes. E assim que acaba, perco a firmeza de meus joelhos e caio no chão, assustada.
Fico de joelhos para olhar à minha frente. O que foi isso? Minha mãe me olhava com uma cara de tédio e ouço ela dizer:
── Vamos Akemi, pare com esse seu showzinho. Nada vai amenizar o que aconteceu.
A voz dela ainda parecia um pouco distante. Eu estava com medo. Com medo do porquê eu havia visto aquilo. Com medo do que poderia acontecer.
Me levanto ainda meio tonta. E sem pensar ou me importar com o que aconteceria, como um instinto, saio correndo de repente, ignorando os gritos de protesto de minha mãe.
✝
Havia corrido por umas três quadras seguidas. Paro para respirar, apoiando minhas mãos sobre minhas coxas e arfando.
Agora, se eu voltasse para casa, com certeza minha mãe me mataria. Mas... O que haviam sido aquelas visões? Parecia um grande acampamento, com pessoas alegres e sorridentes. Mas, era um sonho distante, não era? Por mais que eu já tivesse tido outras experiências como esta, mas em nenhuma delas vi algo como esta: criaturas de uma outra realidade.
Me coloco ereta novamente, e viro para trás para ver se alguém estava me seguindo. O que na pior das hipóteses: seria minha mãe. Porém, esbarro em uma pessoa mais alta que eu e não consigo ver seu rosto. Apenas bato de cara em seu peito.
── Ai meu Zeus! Desculpa garotinha! ── Ouço o garoto dizer. Mas... Zeus? Ele deve ter errado a pronuncia.
Recuo dois passos e digo colocando as mãos para atrás das costas e sorrio levemente:
── Não tem nada! Eu que fui descuidada e não percebi você.
Ele coloca a mão no queixo e parece me observar. Seus olhos permanecem em mim constantemente, mas ele não diz nada. Me sinto sofrendo uma análise.
── Desculpe, mas você está me assustando... ── digo duvidando de seu olhar insistente.
Mas, alguns segundos depois, seu rosto parece iluminar-se e ele me olha dizendo com grande alegria:
── Ah, é você! Que bom que nem precisei te procurar. Estou num dia de sorte! ── Ele diz. E na mesma hora faço uma cara de dúvida para ele.
─ Olha, eu sei que deve ser difícil de entender, mas... Você já deve ter ouvido falar da Grécia, não é? Lugar maravilhoso para falar a verdade. Enfim, o que faria se eu dissesse que todas aquelas histórias de deuses e monstros que existem na religião dos gregos existissem?
── Acho que... Eu gritaria?
── Bom, são todos reais e digamos que.... Você pode ser filha de um dos deuses.
── Aaaaaaaaaah! ── Solto um grito fino e estridente, fazendo-o recuar. Foi inevitável.
── Por que gritou? ── Ele perguntou em tom assustado.
── Eu disse que gritaria se me dissesse, não foi? Apenas estava cumprindo minha palavra ──, levanto minha mão direita, colocando-a reta em minha testa e depois a fazendo ir para frente, como o sinal dos soldados.
── Prestou atenção no que eu disse?
── Sim! ── Digo sorridente.
── Não vai entrar em pânico ou chorar, ou tentar me agredir, como a maioria das pessoas pra quem eu falo isso fazem? ── Ele pergunta.
── Acontece que... Eu não me dou muito bem com as outras pessoas... Por que quer que eu chore e entre em pânico? ── Pergunto para ele com olhar curioso.
── Não, não, não. Aliás, me poupou de um trabalhinho a mais de consolação ── ele diz enquanto ri rapidamente.
Sorrio para ele. O garoto acena para que eu ande à seu lado, e começamos a caminhar enquanto ele me explica o mundo mitológico com um pouco mais de detalhes.
Um carro passa por nós, automaticamente viro meu olhar para ele. Então percebo ter visto minha mãe rapidamente, sorrindo para mim enquanto dirigia. Um alívio.
Ela devia saber de tudo.
✝
── Chegamos ── ele diz no pé de uma colina. O sol já estava se pondo e embora eu morasse em Long Island, demorou um pouco para chegarmos.
Era um lugar rodeado de árvores, e um enorme pinheiro se erguia no mesmo. Do lado, eu conseguia ler: Acampamento meio-sangue em letras gregas que, embora minha dislexia, pareciam perfeitamente legíveis para mim.
Assim que entro no acampamento, vejo várias pessoas correndo com camisetas laranjas como em minha visão. Consigo ver o campo de morangos e as casinhas coloridas. Laier foi bastante gentil me ajudando a subir e a descer a colina, o garoto que de um tombo me trouxe para cá, havia dito seu nome, e aparentemente não era apenas um garoto. Ele acena para algumas pessoas e grita:
── Chegamos!
Uma garota loira se aproxima, juntamente com uma outra garota de cabelo castanho claros, que me espantou com sua beleza, e um menino loiro, todos usando a camiseta laranja em que havia um pégaso e escrito o nome do acampamento.
── Olha, finalmente esse sátiro conseguiu fazer algo direito ──, diz o menino sarcasticamente enquanto dá um tapinha no ombro de Laier. As meninas parecem rir, mas logo a de cabelos castanhos diz:
── Bem vinda ao acampamento meio-sangue! ── Sorrindo e olhando amigavelmente para mim.
── Vocês... Me querem aqui? ── Pergunto, como de costume olhando para baixo. Ninguém nunca havia gostado muito de minha presença.
A menina loira sorri, fazendo um sinal de dois com os dedos e lançando a mão para frente. Ela tinha olhos esverdeados e intensos e uma pele pouco pálida.
── Claro que sim, afinal, você é uma de nós! ── A menina exclama.
Inevitavelmente começo a chorar de emoção. Percebo a menina se preocupar, começando a tentar me acalmar e me fazer sorrir. Mas não eram lágrimas de tristeza.
Eram lágrimas de emoção, acho que finalmente encontrei um lar.
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