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═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══

Um leve toque no vidro do passageiro fez Rodrigo se virar imediatamente, alerta.

Do lado de fora, encostado na janela do carro, estava Epaminondas. Quieto. Observando.

— Perdeu alguma coisa aí dentro, rapaz? — perguntou, num tom agressivo.

Rodrigo sustentou o olhar dele por um instante antes de responder.

— Perdi sim, titio. O meu irmão. — disse, seco. — Eu já sei que o Gabriel tá vivo.

Epaminondas estreitou os olhos discretamente, fingindo surpresa.

— O Gabriel… vivo? — repetiu, levando a mão ao peito. — Meu Deus… isso seria uma alegria imensa pra mim. Porque só assim ele poderia provar a própria inocência… e colocar o verdadeiro culpado atrás das grades.

Rodrigo soltou um riso curto, debochado.

— Quanto absurdo. Todo mundo já sabe que o Gabriel matou o Antunes. As digitais dele estavam na arma do crime. Se ele tá escondido aqui dentro, é melhor se entregar logo.

Sem pressa, Epaminondas deu a volta no carro. Parou ao lado da porta do motorista e apoiou uma das mãos no teto do veículo.

— O único absurdo sendo dito aqui, sai da sua boca. — respondeu, firme. — É triste ver que você escolheu seguir exatamente os mesmos caminhos sombrios daquele homem que jurava odiar.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Me diga uma coisa… até onde você foi capaz de chegar contra o próprio irmão?

Rodrigo endureceu o maxilar.

— Eu não fiz nada contra ninguém. O bandido dessa história sempre foi o Gabriel. Sonso, dissimulado… um verdadeiro psicopata que, com aquela carinha de bom moço, enganou todo mundo.

Epaminondas ficou em silêncio por alguns segundos.

Então falou, baixo:

— Às vezes, o maior erro de um homem… é acreditar que um segredo morre junto com quem foi enterrado. Mas certas verdades, aprendem a cavar o próprio caminho de volta.

Rodrigo o olhou confuso.

— Alguém já disse que o senhor é bem estranho? — rebateu, ácido. — Espero mesmo que não esteja escondendo um foragido aqui dentro. Obstrução de justiça também dá cadeia, titio.

Um leve sorriso surgiu nos lábios de Epaminondas.

— E eu faria isso com o maior prazer. Se aquele de quem você fala ainda estivesse entre nós.

A expressão dele escureceu.

— Mas tome cuidado, meu filho. Tem caminhos que parecem vitória no começo… até cobrarem a alma de quem escolheu segui-los.

Rodrigo soltou uma risada nasal, tentando esconder o incômodo.

— Velho esquisito.

Ligou o carro bruscamente e partiu.

Epaminondas permaneceu parado, acompanhando o carro desaparecer no fim da rua.

═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══

A família estava reunida na sala.

Meireles permanecia sentada em sua cadeira de rodas, ainda tentando absorver tudo o que acabara de ouvir. Angelina andava de um lado para o outro, inquieta. Fabinho e Daiana trocavam olhares apreensivos.

— Calma aí, minha filha… minha cabeça tá em turbilhão. — disse Angelina, tentando organizar os pensamentos. — É muita coisa de uma vez só. Então… o Gabriel tá vivo e vocês se juntaram com ele pra investigar a TexHold? Vocês ficaram malucos?

Daiana respirou fundo antes de responder.

— Maluca eu estaria se deixasse o Rodrigo pintar e bordar dentro da empresa do meu pai sem fazer nada.

Meireles tentando entender perguntou:

— Então aquele português que representou a TexHold… foi preso?

— Foi, sim. — respondeu Fabinho. — E abriu todo o jogo pra polícia. Contou que essa história de holding não passa de uma fraude. O Rodrigo contratou um hacker pra montar todo aquele esquema falso. Inclusive a polícia já tá atrás desse hacker.

Angelina soltou o ar devagar, incrédula.

— Eu ainda tô abismada com vocês fazendo tudo isso pelas nossas costas. Por que não contaram nada pra gente? A gente podia ter ajudado.

Daiana abaixou um pouco a cabeça antes de responder.

— Foi o único jeito que encontramos. O Rodrigo tentou matar o Gabriel. A gente tinha medo que ele tentasse de novo.

Angelina olhou séria para a filha.

— E, pelo que tô entendendo aqui… você e esse rapaz continuam de namorico.

Daiana sustentou o olhar da mãe sem hesitar.

— Eu amo o Gabriel, mãe. E agora, sabendo que ele é inocente, eu não posso ficar longe dele. Será que a senhora ainda não entendeu? O Rodrigo armou tudo pra destruir o Gabriel. Ele é vítima disso tudo.

— Eu entendi, minha filha… — disse Angelina, abatida. — Demorei pra cair a ficha… mas agora eu consigo enxergar o monstro que o Rodrigo é.

Meireles suspirou.

— Bem… acho que finalmente teremos provas suficientes pra colocar o Rodrigo atrás das grades. — afirmou. — Somando tudo isso que vocês descobriram com o relatório da auditoria que o Cláudio tá preparando… acredito que ele vai ficar bem encrencado.

Daiana cruzou os braços, ainda inquieta.

— Só ainda não temos nada que prove que foi o Rodrigo quem matou o Antunes, né?

Fabinho respondeu logo em seguida:

— Com o Rodrigo preso, a polícia vai acabar chegando nisso também. Tenho certeza.

Ele olhou para Daiana antes de completar:

— Acho que agora o Gabriel finalmente vai poder parar de se esconder.

═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══

Soraia estava no closet, em frente ao espelho, passando batom lentamente, quando a porta foi aberta com violência.

A porta foi aberta com violência.

Ela nem precisou se virar para saber que era Rodrigo.

Ele entrou transtornado. Os olhos vermelhos. A respiração pesada. O rosto tomado por uma mistura perigosa de raiva e desespero.

— Que foi isso? — ela perguntou, encarando o reflexo dele pelo espelho. — O mundo tá acabando e ninguém me avisou?

Rodrigo avançou até ela sem hesitar.

— Você. — apontou o dedo em sua direção. — Onde está o Gabriel?

Soraia soltou uma risada baixa, debochada.

— Nessa altura já deve ter virado comida de peixe… graças a você, né?

Num movimento brusco, Rodrigo agarrou o braço dela com força.

— Escuta aqui, sua descarada… não testa minha paciência porque eu posso acabar com você!

— Ai! — Soraia tentou puxar o braço. — Me solta! Ficou louco?!

Os dedos dele apertaram ainda mais por um instante.

— Você não teria soltado aquelas piadinhas se não soubesse de alguma coisa. Qual é? — ele rosnou. — Se juntou com ele agora? É isso?

Soraia finalmente conseguiu se desvencilhar e massageou o braço, irritada.

— Deveria, né? Porque você nunca me teve como aliada.

Ela o analisou de cima a baixo.

— Mas me diz uma coisa… o que foi que aconteceu aí fora pra você chegar desse jeito, seu brutamonte?

Rodrigo começou a andar de um lado para o outro pelo closet, completamente desnorteado. Passava a mão pelos cabelos, tentando pensar.

— O Artur foi preso…

Soraia franziu a testa.

— E quem diabo é Artur?

— Um português desgraçado que eu contratei pra se passar por representante da TexHold. — respondeu entre os dentes. — O problema é que ele abriu o bico. Entregou todos os meus esquemas.

Ele parou abruptamente.

— E não para por aí. Esse idiota tava mantendo contato com alguém idêntico a mim, pensando que era eu.

Os olhos dele escureceram.

— O que me faz pensar numa coisa… só pode ser o Gabriel.

Rodrigo se aproximou de novo, tomado pela raiva. Dessa vez segurou o rosto de Soraia com brutalidade, apertando suas bochechas.

— Abre o bico, sua vadia! Porque eu sei que você sabe de alguma coisa!

Soraia empurrou ele com força.

— Me solta! Se controla, tá ouvindo?! Macho nenhum vai bater em mim.

Ela respirou fundo, tentando conter a raiva. E o encarou sem medo.

— Se te interessa saber… eu sei mesmo. — respondeu, provocativa. — E não ia te contar.

Rodrigo ficou imóvel.

Soraia caminhou lentamente até a penteadeira antes de continuar:

— Faz uns dias… eu vi o Gabriel.

Ela observou a reação dele pelo espelho.

— Ele tava com a Daiana. Os dois na rua… se abraçando… se beijando como um casalzinho apaixonado.

O semblante de Rodrigo foi mudando aos poucos.

Os olhos começaram a lacrimejar de raiva.

— Então ele tá vivo mesmo… — murmurou. — E a Daiana já sabe disso. Então não resta dúvida. Eles tão planejando alguma coisa contra mim.

Soraia cruzou os braços, divertida com o descontrole dele.

— Pelo jeito… sua casa caiu, bebê.

Rodrigo virou lentamente o rosto em direção a ela.

E então sorriu.

— Ainda não.

Ele foi até a cômoda e puxou a gaveta com violência.

Soraia observou em silêncio quando ele pegou a arma escondida ali dentro.

— O que você vai fazer? — perguntou ela, dessa vez séria.

Rodrigo verificou o pente da arma.

— Vou terminar o serviço que comecei.

E saiu do quarto batendo a porta com tanta força que o espelho da penteadeira chegou a vibrar.

═══🎭✦✧ Casa do Adolfo ✧✦🎭═══

Gabriel estava sentado próximo à janela, falando ao telefone enquanto observava Aparecida estender a roupa no varal do lado de fora.

— Então ele já sabe que eu tô vivo? — perguntou, preocupado.

Do outro lado da linha, Epaminondas suspirou pesadamente.

— Estava aqui na frente do lar, parado dentro do carro. Ficou bisbilhotando, tentando descobrir se você tava escondido aqui dentro.

A voz dele ganhou um tom mais sério.

— Gabriel… toma cuidado. O Rodrigo tá possesso. E cheio de ódio de você.

Gabriel abaixou o olhar por um instante, absorvendo aquilo em silêncio.

— Eu sei, tio. — respondeu baixo. — Mas agora chegou a hora de encarar a realidade. Não dá mais pra continuar me escondendo desse jeito. A Daiana me mandou mensagem. Ela e o Fabinho resolveram contar toda a verdade pros pais dela.

— E ela vai falar sobre você também? — perguntou Epaminondas, apreensivo.

— Vai contar tudo. Inclusive pra justificar a prisão do Artur… e a ajuda que ela vai dar pra ele por causa da doença do pai.

Gabriel respirou fundo antes de continuar:

— Pelo que ela disse, os pais dela já estavam desconfiados do Rodrigo. Parece que até pediram uma nova auditoria na empresa. Acho que eles vão entender nossas razões.

Epaminondas demorou alguns segundos para responder.

— Meu filho… eu tô muito preocupado com você. Se eu fosse você, continuava bem escondido. Pelo jeito que o seu irmão tava hoje… se ele te encontrar, é capaz de fazer alguma coisa muito ruim contra você. Você sabe do que o Rodrigo é capaz.

— Não se preocupe. Eu vou tomar cuidado. Combinei de encontrar a Daiana mais tarde. Ela vai me explicar direitinho tudo o que aconteceu lá na casa dela… tudo o que foi conversado com a família.

Houve uma pequena pausa antes dele continuar:

— Mas eu também tô decidido a ir pessoalmente na delegacia contar tudo o que eu sei. Eu não sou bandido pra continuar fugindo assim.

Do outro lado da linha, Epaminondas soltou um suspiro resignado.

— Você tá certo… não tiro sua razão. Aliás, sempre te aconselhei a fazer isso. Mas evita encontrar a Daiana em lugar público. O ideal seria vocês se encontrarem naquele lugar de antes… na igreja onde começamos a nos encontrar. Todo cuidado ainda é pouco.

Gabriel assentiu levemente.

— Fique tranquilo, tio. Eu vou ter cuidado.

═══🎭✦✧ Rua – em frente à casa dos Meireles ✧✦🎭═══

Rodrigo observava tudo de dentro do carro, estacionado do outro lado da rua.

Os dedos batiam impacientes no volante enquanto seus olhos permaneciam fixos na casa dos Meireles.

Então o portão se abriu.

O carro de Daiana surgiu lentamente saindo da garagem.

Rodrigo imediatamente se ajeitou no banco.

— É ela… — murmurou. — Se a Daiana sabe do Gabriel, cedo ou tarde vai me levar até ele. Hoje eu não perco ela de vista.

Assim que o carro dela ganhou a rua, Rodrigo ligou o motor e arrancou logo atrás, mantendo distância.

Os dois seguiram pela Avenida Paulista, atravessando o movimento intenso da cidade.

Daiana dirigia tranquilamente, completamente alheia à perseguição.

Parou no sinal vermelho e aumentou o volume da música do carro enquanto esperava o semáforo abrir.

Rodrigo ficou alguns metros atrás, atento a cada movimento dela.

O semáforo abriu e os dois seguiram.

Aos poucos, a paisagem começou a mudar.

Os prédios foram ficando para trás. As ruas se tornaram mais estreitas e silenciosas. Casas antigas surgiam entre terrenos vazios e asfaltos desgastados.

Rodrigo observava tudo com atenção crescente.

— Pra onde você tá indo, hein, Daiana? — murmurou para si mesmo. — Fiz bem em seguir você. Tá indo atrás dele… tenho certeza. Mas isso não vai ficar assim. Eu não vou deixar vocês dois destruírem tudo o que eu planejei.

Mais à frente, o carro de Daiana reduziu a velocidade ao se aproximar de uma pequena igreja simples, quase escondida entre árvores antigas.

Ela estacionou.

Rodrigo diminuiu também, parando na parte de trás da igreja.

Dali, observou Daiana descer rapidamente do carro e olhar discretamente ao redor antes de seguir em direção à igreja.

Um sorriso frio surgiu lentamente no rosto dele.

— Te achei… maldito.

A mão dele deslizou devagar até o porta-luvas.

Rodrigo puxou a arma.

Verificou o pente.

Carregada.

Então abriu a porta do carro sem fazer barulho.

Do lado de fora, a rua era deserta, quase nenhuma casa próxima.

Ele caminhou lentamente pela calçada, escondendo a arma atrás do corpo enquanto avançava em direção à igreja.

═══🎭✦✧ Igrejinha ✧✦🎭═══

O interior da pequena igreja estava silencioso.

Gabriel permanecia sentado na primeira fileira de bancos, inquieto, observando a entrada.

Quando Daiana surgiu pela porta, ele imediatamente se levantou.

Os dois caminharam um até o outro e se abraçaram forte.

Em seguida, se beijaram demoradamente.

— Meu amor… que bom que você veio. — disse Gabriel, aliviado.

Daiana acariciou o rosto dele.

— Claro que eu viria. — respondeu baixinho. — Mas por que você pediu pra gente voltar a se encontrar escondido aqui?

O semblante dele ficou mais sério.

— O Rodrigo já sabe que eu tô vivo. Meu tio me ligou dizendo que ele apareceu no orfanato completamente transtornado… cheio de ódio no olhar.

Gabriel olhou rapidamente em direção à porta da igreja antes de continuar:

— Enquanto ele estiver solto, é melhor a gente não vacilar.

Daiana assentiu, preocupada.

— Verdade… não dá pra confiar nele. Com certeza já percebeu que a casa dele tá caindo. Deve tá desesperado.

Gabriel segurou as mãos dela.

— E aí? Como foi a conversa com os seus pais?

Daiana soltou o ar devagar antes de responder:

— A gente contou tudo.

Ela se sentou no banco e Gabriel fez o mesmo ao lado dela.

— Eles ficaram abismados por descobrir que já sabíamos de toda a armação… e mais ainda pela forma que espionamos o Artur.

Daiana deu um pequeno sorriso cansado.

— Mas meu pai já não confiava mais em nada que vinha do Rodrigo. Como eu te falei, eles pediram uma nova auditoria pro Cláudio. E assim que o relatório ficar pronto, vamos entregar tudo na delegacia.

Os olhos dela encontraram os dele.

— Depois disso… vai ser só questão de tempo pro Rodrigo ser preso.

Gabriel deixou escapar um sorriso aliviado.

— Aí finalmente eu vou poder voltar a viver minha vida…

A emoção embargou sua voz.

— Meu Deus… vou poder rever o pessoal do orfanato… abraçar a minha mãe outra vez. A gente ficou tão pouco tempo juntos…

Ele abaixou o olhar, emocionado.

— Eu não quero nunca mais me separar dela.

Daiana passou a mão delicadamente pelo rosto dele.

— E não vai separar. — disse, tentando tranquilizá-lo. — Esse pesadelo tá acabando, meu amor.

Do lado de fora, escondido próximo a uma das janelas laterais da igreja, Rodrigo observava tudo em silêncio.

Os olhos queimavam de ódio ao ver os dois juntos.

— Vai sonhando… — resmungou baixinho. — Eu não posso deixar vocês dois terem um final feliz.

═══🎭✦✧ Casa do Juca ✧✦🎭═══

Ludmila estava sentada numa cadeira no meio da sala enquanto Carla separava as mechas do cabelo dela com um pente fino.

— Tu vai acabar destruindo teu cabelo de novo, piranha. — resmungou Carla. — Depois fica chorando porque ressecou tudo.

Ludmila revirou os olhos.

— Ah, não. Quero mudar essa cara. Tô cansada de parecer sempre a mesma pessoa. Quem sabe assim não dá uma levantada na minha autoestima.

Carla prendeu parte do cabelo dela no alto da cabeça e abriu o pote da tintura.

— Então fica quieta, porque se tu se mexer vai manchar tudo.

Assim que o cheiro da química se espalhou pelo ambiente, Ludmila fez uma careta instantânea.

— Ai, credo…

Carla franziu a testa.

— O quê foi agora?

— Esse cheiro tá horrível.

Ela tampou o nariz.

— Essa tinta é da mesma marca que a gente costuma usar?

— É a mesma de sempre. Que frescura é essa agora?

Ludmila levou a mão até a boca de repente.

— Ih, carái… peraí…

Ela levantou rápido, bateu na mesinha de centro e correu em direção ao banheiro.

— Ludmila!

Assustada, Carla foi atrás dela.

No banheiro, Ludmila estava ajoelhada diante do vaso sanitário, vomitando.

Carla imediatamente segurou o cabelo dela para trás.

— Meu Deus… tu tá passando mal só por causa da tinta?

Ludmila cuspiu na pia e abriu a torneira, enxaguando a boca rapidamente.

— Deve ser alguma coisa que eu comi.

— Alguma coisa nada. Tu ficou branca do nada.

— É só enjoo.

Carla estreitou os olhos, observando o reflexo dela no espelho.

— Espera aí, piranha…

Ludmila desviou o olhar na mesma hora.

Aquilo bastou.

— Ludmila… tu tá com atraso?

— Atraso em quê, garota? Eu, hein.

— Ah, não se faz de sonsa comigo não. Tu sabe muito bem do que eu tô falando.

Ludmila soltou o ar, nervosa.

— Ai, Carla…

— Suas regras desceram esse mês?

O silêncio respondeu antes dela conseguir abrir a boca.

Carla ficou encarando a amiga por alguns segundos, incrédula.

— Meu Deus… eu não tô acreditando nisso.

Ludmila finalmente cedeu.

— Eu fiz um teste de farmácia… e deu positivo.

Carla arregalou os olhos.

— Ah, então tu já sabia?! E mesmo assim ainda ia pintar o cabelo?

— Por quê? Não pode?

— Claro que não, sua louca!

Carla passou a mão na testa, nervosa.

— Vem cá… e o pai é quem eu tô pensando?

Ludmila sentou lentamente na tampa do vaso, apertando as próprias mãos.

— Eu não quero que ele saiba. Vai que ele pense que eu tô querendo dar golpe da barriga… ou alguma coisa assim.

Carla permaneceu em silêncio por alguns segundos, absorvendo aquilo. Depois se abaixou diante dela.

— Você sabe que uma gravidez não dá pra esconder pra sempre, né? Uma hora essa criança vai nascer.

Ludmila abaixou a cabeça.

— Droga… eu sempre tive cuidado com essas coisas. Mas com ele… eu me entreguei sem proteção.

Ela respirou fundo, angustiada.

— E agora? O que eu faço?

— Vai procurar ele e contar a verdade. — respondeu Carla. — Essa responsabilidade não é só sua.

Ludmila levantou os olhos, insegura.

— E se ele desconfiar de mim?

Carla deu de ombros.

— Foda-se, Ludmila. Existe DNA pra isso.

Ela fez uma pausa antes de perguntar diretamente:

— Mas me responde uma coisa… você tem certeza que o filho é dele, né?

Ludmila soltou um suspiro irritado.

— Claro, né, piranha. Foi o único com quem eu fiquei sem proteção. Sem contar que, quando fiquei com o Glauber, fui interrompida antes mesmo dele cuspir… se é que você me entende. Então não tem nem chance de ser de outro. Esse filho é do Fabinho.

═══🎭✦✧ Igrejinha ✧✦🎭═══

Daiana e Gabriel continuavam sentados lado a lado no banco da igreja, quando o celular dela começou a tocar.

Ela olhou a tela.

— É o meu pai. Vou lá fora atender.

Gabriel assentiu levemente.

— Tá bom. Eu vou ali no banheiro enquanto isso.

Daiana deu um beijo rápido nele antes de sair pelo corredor central da igreja.

Gabriel seguiu em direção aos fundos.

Do lado de fora, escondido atrás da lateral da igreja, Rodrigo observava cada movimento.

Os olhos acompanhavam Gabriel com atenção.

Assim que percebeu que Daiana estava distraída ao telefone, Rodrigo contornou silenciosamente.

Nos fundos da igrejinha havia um pequeno banheiro simples, afastado do salão principal e parcialmente escondido pelas árvores.

Gabriel caminhou até lá sem perceber que estava sendo observado.

Quando ele colocou a mão na maçaneta para entrar, Rodrigo surgiu rapidamente por trás.

Num movimento brusco, puxou Gabriel pelo ombro e pressionou um lenço contra sua boca e nariz.

Gabriel se debateu imediatamente, tentando se soltar.

Os olhos arregalados demonstravam o choque ao reconhecer o irmão.

Mas a substância fez efeito rápido.

Os movimentos dele começaram a perder força.

A visão ficou turva.

Até que seu corpo cedeu completamente.

Rodrigo segurou Gabriel antes que ele caísse no chão e o arrastou para dentro do banheiro.

A porta foi fechada.

Alguns minutos depois, Rodrigo saiu sozinho.

Agora vestia as roupas de Gabriel.

Antes de sair dali, ainda deu um jeito de travar a porta do banheiro pelo lado de fora.

Então pegou o celular.

Os dedos se moveram rapidamente pela tela enquanto um sorriso frio surgia em seu rosto.

Uma nova mensagem havia acabado de ser enviada.

═══🎭✦✧ Casa do Bira ✧✦🎭═══

Soraia estava deitada na cama ao lado de Bira quando o celular sobre a escrivaninha vibrou com o som de uma notificação.

Ela esticou o braço preguiçosamente até alcançar o aparelho.

Ao olhar a tela, franziu a testa.

— É mensagem do Rodrigo…

Bira imediatamente virou o rosto na direção dela.

— O que ele quer agora?

Soraia abriu a conversa e começou a ler em voz alta:

— “Presta atenção. Você queria tanto ser minha aliada, a oportunidade é agora. Tô te mandando a localização de onde está o Gabriel. As nossas ações estão em jogo. Se você quiser continuar com sua vida de mordomia, é hora de agir rápido. Junta com o pangaré do seu amante e venha dar um fim no Gabriel. Eu vou me passar por ele e tentar virar o jogo.”

Bira sentou na cama, alarmado.

— Mas que porra de mensagem é essa? O que esse cara tá aprontando agora?

Soraia soltou uma risada curta, desacreditada.

— Agora, nos quarenta e cinco do segundo tempo, ele me quer como aliada? Bem conveniente.

Bira balançou a cabeça negativamente.

— É melhor não entrar na onda dele. Deixa o Rodrigo se ferrar sozinho.

Soraia descruzou as pernas devagar e se levantou da cama, já pensando rápido.

— Calma… também não é por aí.

Ela caminhou até a janela do quarto, segurando o celular.

— O Rodrigo falou que o esquema da TexHold tá desandando. Se ele for desmascarado agora, eu também vou perder minhas ações na Mulambo.

O olhar dela endureceu.

— E eu não vou perder o gostinho de ser superior à Canelinha Seca dentro das empresas do pai dela.

Bira soltou um suspiro irritado.

— Tu ainda tá pensando nisso numa hora dessas?

Soraia virou-se lentamente para ele.

— Eu quero ver o Rodrigo preso, sim. Mas pelo assassinato do Antunes… não por causa da TexHold.

Ela apontou para ele.

— Levanta, Bira. A gente precisa reagir.

Bira continuou sentado, claramente desconfortável com aquilo.

— Soraia… isso vai dar ruim pro nosso lado.

Ela começou a se vestir apressada.

— Já deu ruim. E se a gente ficar de braço cruzado… só vai piorar.

═══🎭✦✧ Igrejinha ✧✦🎭═══

Daiana voltou para dentro da igreja enquanto guardava o celular na bolsa.

Ela olhou ao redor, estranhando não ver Gabriel.

— Gabriel?

Nenhuma resposta.

Daiana caminhou mais alguns passos pelo corredor entre os bancos.

— Gabriel… meu amor? Tá tudo bem aí?

Foi então que uma voz respondeu atrás dela:

— Oi, meu amor.

Daiana se virou.

Rodrigo surgia vindo do corredor lateral usando as roupas de Gabriel.

Ela sorriu sem desconfiar de nada.

— Tá tudo bem? Você demorou.

Rodrigo tentou imitar o jeito calmo do irmão.

— Sim… desculpa. Minha barriga não tava muito bem. Mas agora já passou.

Ele mudou rapidamente de assunto.

— E a ligação? O que seu pai queria?

Daiana se aproximou animada.

— Então… o Cláudio terminou o relatório da auditoria. A gente já tem provas suficientes contra o Rodrigo.

Os olhos de Rodrigo escureceram por um instante, mas ele rapidamente disfarçou.

— Que bom… — respondeu com um sorriso contido. — Agora esse marginal vai pagar por tudo o que fez.

Ele segurou a mão dela.

— Vamos sair daqui. A gente precisa comemorar isso.

Daiana franziu levemente a testa.

— Mas você mesmo não tava preocupado com o Rodrigo encontrar a gente?

— Já tá começando a escurecer. — respondeu rapidamente. — Se a gente for discreto, não vai dar nada.

Ela hesitou por um instante… mas acabou sorrindo.

— Acho que você tá certo.

Sem perceber que estava diante de Rodrigo, Daiana se aproximou e o abraçou, envolvendo os braços no pescoço dele.

Rodrigo permaneceu imóvel por um segundo, claramente surpreso com a proximidade. Depois forçou um sorriso discreto.

— E eu já sei até onde a gente pode ir… — disse Daiana, com um sorriso malicioso. — Mirante de Santana. O que acha?

Rodrigo ergueu levemente a sobrancelha, sem entender exatamente a intenção dela. Ainda assim, manteve a encenação.

— Acho uma ótima ideia.

Daiana segurou a mão dele e os dois deixaram a igreja juntos.

Do lado de fora, ela lhe deu uma bitoca rápida antes de entrar no carro.

Sentou-se no banco do motorista enquanto Rodrigo ocupava o passageiro.

O veículo arrancou pela estrada que começava a escurecer.

Daiana dirigia sorrindo, completamente aliviada.

— Tudo vai acabar bem, meu amor. Esse pesadelo tá chegando ao fim.

Rodrigo virou lentamente o rosto para ela.

O sorriso que surgiu em seus lábios era frio.

— Você tem razão… esse será o fim do Rodrigo.

Daiana continuou dirigindo por alguns segundos… até algo chamar sua atenção.

Ela virou o rosto lentamente para ele. Arregalou os olhos e freou o carro bruscamente no meio da estrada.

— O que você fez com o Gabriel?! — exclamou, desesperada.

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