MINHA OUTRA FACE
1 Sombras do Crime
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═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil: O desfile ✧✦🎭═══
Fábio Meireles sabia que o sucesso não vinha da noite para o dia. Com poucos recursos, contou com o apoio do amigo José Antunes, que se tornou sócio minoritário da Mulambo Têxtil. Mas Antunes tinha outras ambições: queria ser o único dono da empresa e faria qualquer coisa para isso.
Na inauguração da nova linha de produção, a Mulambo organizou um desfile especial. Daiana Meireles, filha de Fábio, foi escolhida como modelo principal. A passarela iluminada estava cheia de convidados ansiosos.
Na primeira fila, Angelina, uma mulher negra de 45 anos, elegante, com cabelo afro volumoso, acompanhava Rodrigo, um jovem negro de 25 anos, cheio de entusiasmo. Perto deles, Antunes observava o salão com olhar meticuloso.
Quando as luzes se acenderam, Daiana entrou na passarela com graça. Magra e alta, seus olhos expressivos brilhavam sob a luz, o vestido de alta-costura moldando suas curvas com elegância.
— A Daiana tá linda! É tão bom ver minha filha fazendo o que ela gosta. — Disse Angelina orgulhosa da filha.
— Mais que linda, ela é maravilhosa — completou Rodrigo, sorrindo.
— Acho que nós dois somos suspeitos em falar, né Rodrigo? — Brincou Angelina.
— Uma coisa eu tenho certeza, a Mulambo Têxtil acertou em cheio em investir no talento da Daiana. E Meireles, como ele tá, Angelina? — Questionou Antunes.
— Tá se recuperando. Ele já tá bem melhor, talvez essa semana mesmo ele receba alta. — Angelina falou esperançosa.
Antunes mostrou surpresa e desconforto com a notícia da recuperação de Meireles, mas disfarçou suas verdadeiras emoções.
— Fico muito feliz com isso!
Um alerta no celular de Rodrigo interrompeu a conversa. Ao olhar ele percebeu que se tratava de uma mensagem de Soraia: "Tô aqui fora, preciso falar com você".
— Deveria ter desligado essa porcaria – Disse Antunes com um tom áspero.
Rodrigo pediu desculpas e saiu apressado, seguido pelo olhar desconfiado de Antunes.
Rodrigo sempre foi apaixonado por Daiana, sua noiva, mas Soraia despertava nele uma atração avassaladora.
Soraia, com um vestido vermelho justo, estava encostada perto da porta do salão. Seu olhar confiante chamava atenção. Quando viu Rodrigo, ela sorriu provocante.
— O que tá fazendo aqui? Ficou maluca? — ele perguntou, nervoso.
— Eu vim te ver. E então, a vara pau já desfilou? — provocou Soraia, brincando com uma mecha de cabelo.
Rodrigo deu uma olhada nervosa ao redor, tentando garantir que ninguém os visse juntos.
— Tá lá desfilando. Nesse momento, tá na passarela. E você trate de ir embora antes que ela me veja contigo.
— Calma bebê! Eu só vim dar uma espiadinha, já tô indo embora. Lembre que você prometeu dar um perdido nela hoje pra ficar comigo.
Rodrigo passou a mão pelos cabelos, claramente tenso.
— Eu vou fazer isso, mas entenda que agora não dá. Assim que o desfile acabar, eu vou dar um jeito de despistar a Daiana e vou me encontrar contigo.
— Você vai mesmo? Não vai me sacanear não, né Rodrigo?
— Eu vou. Mas agora tenho que voltar pra lá, o desfile já tá acabando — respondeu Rodrigo, começando a se virar para voltar ao salão.
Soraia deu um passo à frente, bloqueando parcialmente o caminho de Rodrigo, seu sorriso cheio de insinuações.
— Eu vou te esperar lá na sala do seu Meireles.
Soraia alisou o rosto de Rodrigo e tomou rumo da sala de Meireles. Rodrigo franziu a testa, preocupado.
— Soraia, volta aqui! Tá maluca?
— É melhor apressar — respondeu ela, continuando a provocá-lo enquanto se afastava lentamente, balançando os quadris de forma insinuante.
Rodrigo olhou desesperadamente para o salão, sabendo que estava jogando com o tempo. Com um suspiro resignado, ele decidiu ir atrás dela.
— Louca!
Soraia tinha seus vinte e poucos anos, pele clara e cabelos curtos castanhos que realçavam seu charme audacioso. Seus olhos azuis intensos, destacados por uma maquiagem que valorizava sua beleza natural, conferiam-lhe uma aparência provocante.
═══🎭✦✧ Orfanato Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
Do outro lado da cidade, o orfanato ficava num bairro tranquilo e arborizado. A fachada de tijolos vermelhos e o jardim bem cuidado criavam um ambiente acolhedor. Por dentro, paredes decoradas com desenhos infantis e corredores de piso de madeira.
Sob os cuidados da Irmã Rosália e suas freiras, as crianças recebiam amor, educação e valores católicos, numa rotina que incluía aulas, refeições, brincadeiras e atividades como jardinagem e artesanato.
No quarto, Gabriel, um jovem negro de 25 anos que se parecia muito com Rodrigo, ajeitava o colarinho da camisa diante do espelho quando a irmã Rosália bateu delicadamente na porta.
— Posso entrar?
— Oi, irmã Rosália, entra, fique à vontade.
Ela adentrou o quarto, surpresa ao vê-lo tão bem arrumado.
— Todo elegante. Vai sair?
Gabriel se virou para ela, ajeitando a manga da camisa.
— Sim. Hoje é o desfile da Mulambo, eu vou lá ver
— Mas cê disse que precisaria de convite? — Perguntou a freira, curiosa.
— E realmente precisa. Um amigo me arrumou um convite.
— Que bom, filho!
Ela puxou uma dezena de terço do bolso de seu hábito e a segurou diante de Gabriel.
— Olha só o que eu achei — disse, oferecendo o objeto.
Gabriel pegou a dezena com cuidado.
— Essa dezena estava em seu braço no dia em que você chegou aqui. Juntamente com uma imagenzinha de São Gabriel Arcanjo. Foi daí que tiramos o seu nome.
Ele segurou a dezena contra o peito por um instante, sentindo a conexão profunda com seu passado.
— Ela é linda! Tô sentindo que estou muito mais próximo da verdade do que nunca estive. Logo a justiça será feita, irmã Rosália, e eu vou me juntar a minha mãe de novo.
A freira franziu levemente a testa, preocupada com o fervor de Gabriel.
— Por que você tá falando sobre justiça? De que justiça cê tá se referindo, meu filho?
Gabriel respirou fundo, olhou para Rosália e sorriu.
— Da justiça de Deus, que é perfeita. E eu tenho fé que tô cada vez mais próximo da minha mãe.
Irmã Rosália aproximou-se, examinando o colarinho da camisa de Gabriel e fitando seus olhos com preocupação.
— Tudo na vida tem um propósito. Não se enche de esperanças em querer encontrar sua família biológica. Nós somos a sua família.
— Eu sei, e amo todos vocês como se fossem minha família de sangue. Mas preciso saber o que realmente aconteceu, por que vim parar aqui. Isso faz parte da minha história, irmã.
— Eu tenho medo dessas suas buscas desesperadas pela sua família. Tenho medo que você se decepcione — admitiu ela, acariciando o rosto de Gabriel.
Ele sorriu, tentando aliviar as preocupações de Irmã Rosália.
— Não se preocupe, não tô criando expectativas. Eu só quero conhecer a minha história. Posso ficar com a dezena?
— Claro, ela é sua.
Gabriel beijou a dezena e guardou-a na gaveta da cômoda, sentindo que cada revelação o aproximava mais da verdade que tanto buscava. Olhou para Irmã Rosália, agradecido pelo apoio constante.
— Vou deixar você terminar de se arrumar.
— Obrigado, irmã.
═══🎭✦✧ De volta ao desfile ✧✦🎭═══
No final do desfile, as modelos se reuniam na passarela. Daiana procurava Rodrigo entre os convidados, mas só via Antunes e sua mãe, Angelina, que lhe mandava um beijo orgulhoso.
— Mas onde será que o irresponsável o Rodrigo se meteu? — Questionou Antunes.
— Saiu naquela hora para mexer no telefone, e ainda não voltou. Deve ter ido ao banheiro. E a Joana? Não quis vir, Antunes? — quis saber Angelina.
— Estava meio indisposta, preferiu ficar em casa — explicou Antunes, desviando o olhar por um momento da passarela e voltando a procurar por Rodrigo.
— Tem que ver isso que Joana tem, ela vive indisposta. — alertou Angelina.
— Eu já falei isso pra ela. Vou levá-la a um médico.
═══🎭✦✧ Tempos depois, no vestiário... ✧✦🎭═══
Daiana estava diante do espelho, removendo cuidadosamente a maquiagem. Pressionava suavemente o algodão embebido em removedor contra a pele, fazendo movimentos circulares delicados ao redor dos olhos para apagar o delineador e a sombra. Seu rosto refletia um misto de cansaço e melancolia, enquanto seus pensamentos se perdiam nas reflexões pós-desfile.
Nesse momento, Angelina entrou no vestiário, irradiando orgulho ao se dirigir à filha:
— Parabéns, filha! O desfile foi simplesmente magnífico. Você arrasou.
— Obrigada, mãe. Pena que o papai não pôde vir, né?
— Deve ter assistido pela televisão. O importante é que ele está se recuperando bem. O médico disse que provavelmente receberá alta ainda esta semana.
— Tomara, viu? Cada passo que eu dava naquela passarela, era nele que eu pensava. E o Rodrigo, onde está?
Angelina hesitou por um instante, observando Daiana com um olhar preocupado. Aproximou-se e começou a ajeitar suavemente os cabelos da filha.
— Pois é, ele estava conosco, mas recebeu uma mensagem, saiu e não voltou mais.
Daiana franziu a testa, olhando desconfiada para a mãe.
— Mensagem?
— Vai com calma, Daiana. Não tire conclusões precipitadas.
Daiana afastou-se um pouco do espelho, a expressão endurecida enquanto a preocupação dava lugar à determinação.
— Tudo bem, mamãe. Depois termino de arrumar o cabelo. Vou descobrir onde o Rodrigo se enfiou.
Daiana era ciumenta e não deixava passar nada. Sentia insegurança em relação ao relacionamento com Rodrigo, frequentemente suspeitando que ele pudesse ter outra. Até então, nunca encontrara nada concreto, mas jurava para si mesma que, se um dia descobrisse algo, não perdoaria.
═══🎭✦✧ Mulambo: escritório do Meireles ✧✦🎭═══
Rodrigo e Soraia estavam ali, vestidos apenas com roupas íntimas, envolvidos em um clima carregado de desejo e adrenalina. Soraia estava sentada sobre a mesa, enquanto Rodrigo permanecia em pé à sua frente, ambos cientes do risco que corriam.
— Você é perigosa, garota. Olha a loucura que a gente tá fazendo — disse Rodrigo, entre um sorriso e a tensão.
— Você não gostou? — provocou Soraia, com um sorriso malicioso.
— Claro que gostei — admitiu Rodrigo, entregando as roupas dela. — Mas é melhor a gente se vestir. O desfile já deve ter acabado, vão notar minha falta.
— Ah, que pena. Tá tão gostoso aqui. Deixa essa vara pau seca de lado e fica aqui comigo — sugeriu Soraia, entrelaçando as pernas em Rodrigo e puxando-o para perto.
— Para com isso!
Rodrigo se afastou, começando a se vestir.
— Você é fogo, menina! Isso não tá certo.
Soraia desceu da mesa e se aproximou por trás, envolvendo Rodrigo com os braços enquanto depositava beijos provocantes em suas costas. Ele se virou para ela, e os dois se entregaram a beijos ardentes, mergulhando no calor do momento proibido.
De repente, a porta se abriu com violência. Daiana irrompeu na sala, o rosto uma mistura de incredulidade e fúria contida. Seus olhos se fixaram na cena diante dela: Rodrigo e Soraia, ainda próximos, suas respirações entrelaçadas num instante de intimidade que Daiana jamais esperava testemunhar.
O silêncio tenso dominou o ambiente por um breve momento, até que Daiana quebrou o gelo, com voz carregada de decepção e raiva:
— O que tá acontecendo aqui?
Rodrigo se afastou rapidamente de Soraia, tentando se justificar ao encarar o olhar furioso de Daiana.
— Daiana!
— Eu não tô acreditando nisso, Rodrigo! Como cê pôde?
Soraia, imperturbável, terminou de se vestir com calma e, com um ar provocativo, dirigiu-se a Daiana:
— Com licença, vou deixar os pombinhos a sós — disse, lançando um último olhar para Rodrigo. — Rodrigo, depois você me liga.
Ela passou ao lado de Daiana, enviando um beijo irônico antes de sair, deixando Daiana tentando controlar os nervos à flor da pele. Rodrigo, atordoado pela intensidade da situação, tentou falar enquanto Daiana saía furiosa.
— Daiana, eu posso explicar!
Daiana parou na porta e olhou furiosa para ele.
— Não! Nem se dê ao trabalho. Tá tudo claro, não precisa de explicação. — Ela tirou a aliança do dedo e a jogou na direção de Rodrigo. — Toma, vai lá e dá de presente pra vagabunda da sua amante.
Antes que Rodrigo pudesse reagir, Daiana já se afastava, deixando-o sozinho com o peso de suas escolhas. Ele terminou de se vestir apressadamente e, quando decidiu sair atrás dela, José Antunes entrou na sala. Sem hesitar, aproximou-se e desferiu um soco poderoso que fez Rodrigo cair no chão.
— Seu idiota! Se queria ficar com suas piranhas, devia ter levado pra um motel bem longe da Daiana! — Antunes fechou a porta atrás de si, exalando raiva contida. — Você tem ideia da burrice que fez? Tudo tava certo, você tava prestes a ter um casamento perfeito. E você apronta uma dessas!
Rodrigo, ainda se recuperando do golpe, levantou-se, passando a mão na boca para ver se estava sangrando.
— Qual é o seu problema? Tá com medo de perder suas ações na empresa?
— Você é um playboyzinho de merda, sem ambição nenhuma.
— Eu não vou ficar aqui ouvindo seus insultos — disse Rodrigo, se dirigindo à porta, tentando evitar mais confusão.
Mas Antunes não permitiu que ele saísse sem antes ouvir o que tinha a dizer.
— Ah, você vai! — empurrou Rodrigo de volta contra a cadeira. — E vai sentar aí, porque ainda não terminei.
═══🎭✦✧ Mulambo: área externa ✧✦🎭═══
Daiana estava sentada num banco de madeira, perto dos banheiros. Chorava, falando sozinha, a voz embargada pela mistura de tristeza e raiva.
— Idiota... como ele pôde fazer isso comigo? Eu devia ter desconfiado... Sou tão burra!
No começo do corredor, Gabriel apareceu e se aproximou ao perceber o choro.
— Oi. Você tá bem?
Daiana ergueu o olhar, lançando um olhar cheio de ódio.
— O que você acha? — respondeu, enxugando as lágrimas apressadamente.
Gabriel a olhou por um instante.
— Acho que não, você tá chorando.
— Você é muito cínico, Rodrigo. Cansou da piranha e resolveu me procurar?
Gabriel ficou confuso, mas manteve a calma.
— Que piranha? Quem é esse Rodrigo?
Daiana estreitou os olhos, a raiva fervendo.
— Ah, me poupe, Rodrigo! Acabou tudo. Traição é uma coisa que eu não admito.
Gabriel deu um passo à frente, tentando acalmá-la.
— Moça, acho que você está me confundindo. Eu não sei quem é esse Rodrigo. Eu sou o Gabriel.
Daiana o olhou, balançando a cabeça negativamente.
— E eu sou a Fátima Bernardes — retrucou, levantando-se bruscamente. — Vai para o inferno!
Empurrou Gabriel e se afastou apressadamente, quase tropeçando, enquanto ele ficava parado, perplexo, vendo Daiana desaparecer pelo corredor.
═══🎭✦✧ De volta a sala do Meireles ✧✦🎭═══
Rodrigo estava sentado na cadeira, enquanto Antunes permanecia de pé à sua frente, seu rosto marcado por uma expressão severa.
— Você entendeu bem o que eu falei, moleque? Eu quero você longe dessa Soraia. E trate de reconquistar a Daiana.
Rodrigo levantou a cabeça, encarando-o com uma expressão desafiadora.
— Entendi, a Daiana é a galinha dos ovos de ouro para você. Tá querendo me usar para passar a perna na parte das ações que pertence ao Meireles. Eu tô fora, não vou te ajudar nessa.
Antunes deu um passo à frente, seu rosto a poucos centímetros do de Rodrigo.
— Você é tão bunda mole, que logo percebo que não tem o meu sangue. Presta atenção, garoto. Com o Meireles no hospital, é a nossa chance de virar o jogo. E a Daiana é sim a galinha dos ovos de ouro, é nela que você tem que investir.
Rodrigo estreitou os olhos, uma suspeita crescente em sua mente.
— Espera um pouco, Antunes. Você tem alguma coisa a ver com o acidente do Meireles?
Antunes mudou sua expressão, tentando parecer indiferente.
— Não fale bobagem.
Rodrigo se levantou, desconfiado olhando de lado para Antunes.
— O que cê tá armando, seu Antunes?
— Aprenda com o seu pai, moleque...
— Você não é o meu pai! — Rodrigo interrompeu.
— Mas te dei meu nome. Poderia ter deixado você morrer junto com o seu irmão. O destino te deu uma oportunidade, você só tem que aproveitar. E essa é a nossa chance. Procure a Daiana, e trate de se reconciliar.
Rodrigo cruzou os braços, desafiador.
— E se eu não quiser fazer isso?
Antunes deu um passo à frente, olhou nos fundos dos olhos dele e o ameaçou.
— Você já sabe a resposta a essa pergunta. É bom não testar a minha paciência.
═══🎭✦✧ No ateliê ✧✦🎭═══
Angelina e Talita estavam ocupadas separando as roupas usadas no desfile. Angelina observava as peças penduradas na arara, organizando mentalmente as próximas tarefas.
— Essas roupas você pode deixar aqui mesmo. Amanhã eu vejo o que faço com elas. Mas as peças que as meninas usaram no desfile, quero que você separe uma por uma. Coloque uma etiqueta com o nome e a foto das modelos que as usaram. A estilista vai passar aqui daqui a pouco para buscá-las.
— Pode deixar, dona Angelina. Já até preparei as etiquetas — respondeu Talita, segurando uma pilha colorida.
— Então me arrume isso, por favor, Talita.
Talita assentiu e começou a trabalhar, separando as roupas e fixando as etiquetas cuidadosamente. Logo depois, Daiana entrou no local, visivelmente agitada, com os olhos vermelhos de chorar.
— Vamos embora, mamãe. Não quero mais ficar aqui.
Angelina parou o que estava fazendo e virou-se, preocupada.
— O que houve, Daiana? Você encontrou o Rodrigo?
— Encontrei. E adivinha com quem ele estava?
— Ai, meu Deus! Ele estava acompanhado?
— Estava, se esfregando na vagabunda da Soraia, no escritório do meu pai. Dá pra acreditar? Não quero ver o Rodrigo na minha frente tão cedo. Ele ainda teve a cara de pau de falar comigo agora há pouco, como se fosse outra pessoa. Até trocou de roupa. Daqui a pouco vai dizer que não era ele com a Soraia, e sim algum outro. A senhora vai comigo ou fica por aqui?
Angelina suspirou, avaliando as opções enquanto olhava as roupas que ainda precisavam ser organizadas.
— Eu ainda tinha umas coisas para resolver aqui, mas quer saber? Tô cansada. Que o Antunes resolva as pendências. Vamos embora, e você me explica essa história direito. Talita, faça o que pedi e depois passe as informações para o Antunes. Eu tô indo.
— Sim, senhora. Pode ficar tranquila, eu resolvo tudo.
As duas saíram juntas. Talita, com uma prancheta em mãos, conferia as roupas na arara, pronta para finalizar as tarefas delegadas.
═══🎭✦✧ Joana — Memória e dor ✧✦🎭═══
Joana, uma mulher negra com a pele marcada pela dor, caminhava lentamente pelo quarto de sua casa. O cabelo crespo preso num coque desleixado e as olheiras profundas denunciavam noites mal dormidas. Seu rosto carregava uma mistura de tristeza e cansaço.
Com um suspiro profundo, abriu uma gaveta. Os dedos tremiam levemente ao pegar uma manta macia, gasta pelo tempo. Sentou-se na beira da cama e abraçou a manta contra o peito, como se buscasse conforto nas suas memórias. Os olhos, brilhando com lágrimas contidas, estavam fixos no vazio à sua frente.
"Em um flashback vívido, a cena mudou para uma casa antiga na zona rural, com paredes desgastadas e vegetação crescendo pelas fendas. O quarto principal, iluminado por uma luz suave que entrava pelas janelas empoeiradas, mostrava Joana mais jovem deitada, em posição ginecológica. Seu rosto se contorcia em dor; os lábios apertados, suando e tremendo. Jurandir estava à sua frente.
Com um esforço monumental, Joana gritou e deu à luz o primeiro bebê. Jurandir, com cuidado e ternura, envolveu o recém-nascido em uma manta limpa e o colocou em um berço improvisado próximo. Voltou para Joana, que mal conseguia manter os olhos abertos.
Encorajada por ele, Joana encontrou forças para continuar. Com outro grito, deu à luz o segundo bebê. Jurandir pegou o bebê nos braços, com um sorriso breve e cansado, mostrando-o a Joana, que o segurou com ternura.
De repente, a porta de madeira foi arrombada, fazendo um estrondo. Antunes entrou, com uma expressão de desprezo no rosto.
— Que cena emocionante! — zombou.
Jurandir se levantou de pronto, posicionando-se entre Antunes e Joana.
— Eu não vou deixar você tocar nela! — bradou, cheio de determinação.
Antes que pudesse agir, Antunes sacou uma arma e apontou para Jurandir.
— Fique longe, idiota! — ordenou, com um sorriso cínico.
Ele avançou e agarrou Joana pelo braço.
— Você vem comigo agora!
— Pelo amor de Deus, ela está fraca, não pode sair daqui! — implorou Jurandir, levantando as mãos num gesto desesperado.
— Eu mandei você ficar longe!
Foram dois tiros que ecoaram pelo quarto. Jurandir caiu ao chão, olhos vidrados, sem vida. Joana chorava em meio ao desespero, em ver seu amado ali agonizando.
— Olha o que você me obriga a fazer. Venha agora comigo, você é minha mulher!
Desesperada, ela tentou proteger seus filhos, mas estava fraca demais. Joana segurava firmemente um dos bebês contra o peito, enquanto o outro permanecia no berço, chorando.
— Meu outro filho, Antunes... Não podemos deixá-lo aqui — suplicou, com as lágrimas rolando.
— Esse basta. O outro morre com o pai. Vamos! — ordenou Antunes, puxando-a com força.
— Não faça isso, eu quero o meu filho! — gritou Joana, a voz embargada pela angústia.
— Cale essa maldita boca senão esse aqui ficará também!
Joana tentou lutar, mas suas forças eram poucas. Ele a levou até o carro, estacionado em frente à casa."
De volta ao presente, Joana permanecia sentada na cama, abraçando a manta com força. As lágrimas finalmente desciam, riscavam seu rosto.
— Meu pobre menino... O que aconteceu com você meu amor?
═══🎭✦✧ Enquanto isso, na Mulambo Têxtil... ✧✦🎭═══
Antunes estava furioso, discutindo com Talita.
— Como assim a Angelina foi embora? Ainda tinha coisas para resolver aqui! — reclamou ele, exasperado.
— Ela me passou algumas tarefas e disse que estava cansada, precisava ir descansar — explicou Talita, com calma.
— Tá vendo, Talita? Se não for eu, essa empresa vai à falência. É muita irresponsabilidade. Eu não entendo nada dessa parte do desfile, e era a Angelina quem devia cuidar disso no lugar do Meireles.
— Sobre o desfile, está tudo certo. Separei as roupas conforme a dona Angelina pediu. A estilista já passou aqui e levou o que precisava. Agora, se o senhor me permite, seu Antunes, eu também preciso ir embora.
— Tá bem. Se você já fez seu serviço, pode ir. Eu ainda tenho umas coisas para ajeitar lá dentro. Vou dar uma organizada naquele depósito que está uma bagunça.
— Então, com licença!
Talita saiu rapidamente, deixando Antunes sozinho. Ele caminhou pelos corredores vazios, resmungando para si mesmo, absorto em pensamentos de ambição e frustração.
— Essa empresa está uma bagunça. Ninguém quer fazer nada direito. Eu deveria ser o dono de tudo isso aqui. Mas meu dia vai chegar, Meireles, me aguarde. Você pode até voltar, mas eu vou dar um jeito de te tirar daqui de vez.
Murmurava, descontente, enquanto descia as escadas em direção ao depósito.
Ao chegar, começou a mexer em algumas coisas, reorganizando a bagunça com gestos bruscos e impacientes. Estava distraído quando um ruído súbito chamou sua atenção. Virou-se instintivamente, mas era tarde demais.
Um tiro ecoou pelo depósito.
Antunes foi atingido de surpresa. Seu corpo se contorceu de dor, largando tudo que segurava. Os joelhos cederam e ele caiu lentamente ao chão.
Passos rápidos se afastaram, subindo as escadas.
O depósito ficou em silêncio, e o corpo de Antunes estendido no chão.
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