MINHA OUTRA FACE

2 Culpado ou inocente?


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═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══

A sala de estar da casa era elegante e bem decorada, com móveis robustos de madeira escura que conferiam um ar clássico ao ambiente. A porta principal se abriu, e Angelina entrou com Daiana logo atrás. Angelina suspirou fundo.

— Estou exausta! — disse, deixando a bolsa sobre uma das poltronas. — Tive que revezar entre o desfile e ficar com seu pai no hospital. Falando nisso, preciso ligar para o Fabinho, ver se tá tudo bem por lá. — Ela se virou para a filha, percebendo o semblante cabisbaixo. — Que cara é essa, minha filha? Ainda por causa do Rodrigo?

— Se tem uma coisa que eu não aceito é ser traída. Ainda mais da forma que foi. A senhora tinha que ver... os dois, se amassando em cima da mesa do meu pai! Uma tremenda falta de respeito. Eu fico pensando, há quanto tempo isso vem acontecendo? Há quanto tempo eu tô sendo feita de otária?

Angelina aproximou e sentou-se ao lado da filha, tentando confortá-la.

— Oh, filha... eu nem sei o que te dizer. Sempre gostei tanto do Rodrigo, não consigo nem acreditar no que você tá me contando. Acho que vocês tem que sentar e conversar.

Daiana desviou o olhar, com raiva.

— Não tem conversa. E com todo o respeito que eu tenho pela Diná e o Charles, mas eu não quero mais ver a Soraia aqui dentro de casa! — disse, firme.

— Como eu posso proibir isso, Daiana? A Soraia cresceu aqui junto com vocês — retrucou Angelina, tentando manter a calma.

— Eu não quero saber, mãe! Deixa isso bem claro para a Diná. Essa menina sempre se jogou pra cima do Rodrigo. Agora eu sou obrigada a me esbarrar com ela na minha própria casa?

Angelina respirou fundo, levantando-se do sofá com o celular na mão.

— Tudo bem, eu vou conversar com a Diná depois. Mas agora eu preciso ligar para o Fabinho, pra saber como seu pai está.

Enquanto Angelina se afastava para fazer a ligação, Daiana permaneceu sentada, ainda sentindo o peso da traição.


═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══

Joana estava em seu quarto, organizando calmamente uma manta em uma das gavetas do guarda-roupa. Ela ouviu passos do lado de fora do quarto, o que a fez parar e olhar em direção à porta.

— Rodrigo? Antunes? São vocês?

Rodrigo entrou no quarto, cabisbaixo, com o semblante abatido. Seus passos eram lentos, e havia um peso visível em seus ombros.

— Oi, mãe!

Joana fechou a gaveta e se virou para o filho, preocupada ao ver sua expressão triste.

— Que carinha abatida é essa, meu filho? O que aconteceu?

— Nada demais... só estou um pouco cansado. E acabei também me desentendendo com a Daiana.

Joana suspirou, balançando a cabeça com pesar. Ela se aproximou de Rodrigo, colocando a mão suavemente no braço dele.

— Que pena, vocês estavam tão bem. Quer falar sobre o que aconteceu?

— Depois a gente fala sobre isso, vou tomar um banho.

— E o seu pai, onde ele está?

Rodrigo olhou para baixo, demorando um pouco para responder.

— Eu... eu não sei dele. Deve ter ficado lá na Mulambo. Vou tomar o meu banho.

Rodrigo se afastou, saiu do quarto, deixando Joana olhando para ele com preocupação. Rodrigo entrou no banheiro e se trancou. A água começou a correr, enchendo o espaço com o som do chuveiro. Ele debaixo da água quente, com as mãos apoiadas na parede, como se a água pudesse lavar a confusão de sua mente.

— Que loucura foi essa, Rodrigo? Como você deixou as coisas chegarem a esse ponto?


═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══

Gabriel chegava, entrando em seu quarto com uma expressão cansada. Jogou as chaves em cima da cômoda, se espreguiçando. Logo depois, a porta se abriu silenciosamente, e Irmã Rosália entrou no cômodo.

— Chegou tarde, filho.

Gabriel se assustou ligeiramente, virando-se rapidamente para a freira.

— Irmã Rosália! Ainda acordada?

— Estava ali assistindo um filme com as crianças. A história de São Francisco e Santa Clara, uma animação muito boa. E o desfile, como foi?

Gabriel suspirou, soltando os ombros, enquanto começou a desabotoar a camisa.

— Foi tranquilo. Mas cheguei lá já no finalzinho, nem deu para acompanhar direito.

— Por que não se programou para ir mais cedo? Assim você aproveitaria melhor o desfile.

Gabriel sorriu, meio desconcertado.

— Pois é... deveria ter me programado melhor. Mas, no fim, até que foi bom. Não tô muito acostumado com essas festas assim, cheias de regalias. O povo todo bem vestido. Me senti foi como um peixinho fora d'água.

Irmã Rosália se aproximou, observando Gabriel.

— Estranhei esse interesse todo seu em ir nesse desfile. Você nunca se animou muito por essas coisas.

Gabriel parou por um momento. Levantou então o olhar e, com uma expressão séria, encarou Irmã Rosália.

— Mas nessa festa, eu precisava ir...

— Precisava?

Após um breve silêncio, Gabriel sorriu de forma mais descontraída.

— Claro! Sou novo na firma, preciso me enturmar mais.

Irmã Rosália sorriu, satisfeita com a resposta.

— Tá certo. Vou dormir agora. Tenha uma boa noite, meu filho.

— Boa noite, irmã!

Antes de sair, Irmã Rosália se aproximou e deu um beijo afetuoso na testa de Gabriel.

— Que Deus te abençoe!

— Amém!

Irmã Rosália saiu do quarto, deixando Gabriel sozinho. Ele se sentou na cama e passou a mão pela cabeça, pensativo.


═══🎭✦✧ No dia seguinte, na casa dos Meireles... ✧✦🎭═══

Daiana estava sentada à mesa, tomando seu café tranquilamente. A mesa à sua frente estava repleta de guloseimas: pães frescos, bolos, frutas e outros quitutes. Diná estava de pé, servindo-a, enquanto Angelina, um pouco distante, falava ao telefone, com a expressão visivelmente preocupada.

— Quando foi isso? Ontem, depois do desfile? Meu Deus! Tudo bem, eu já tô indo pra aí! — dizia Angelina ao telefone, a voz carregada de preocupação.

Daiana levantou o olhar, intrigada com o tom da mãe.

— O que aconteceu, mãe? — perguntou, sentindo um leve desconforto no ar.

Angelina desligou o telefone rapidamente e se aproximou da mesa, sua expressão grave.

— O Antunes... Ontem, depois do desfile... atiraram no Antunes — revelou, a voz trêmula, cheia de surpresa e angústia.

— Minha nossa senhora, dona Angelina! — exclamou Diná, levando a mão ao peito em choque.

Daiana, ainda processando a notícia, largou o copo na mesa e olhou para a mãe com os olhos arregalados.

— Como foi isso, gente? O Antunes estava lá com a gente, de boa! Quem foi que atirou nele? — perguntou, incrédula.

— Isso ninguém ainda sabe, minha filha. Parece que aconteceu depois que a gente saiu. Preciso ir lá. A polícia já foi chamada, e eu tenho que tá presente — explicou Angelina, visivelmente tensa.

— Meu Deus, que situação... quanta violência! — comentou Diná, balançando a cabeça em descrença.

Daiana, sem hesitar, levantou-se da cadeira, determinada.

— Eu vou lá com a senhora — disse, firme.

— Então, te apresse, vamos logo! — respondeu.


═══🎭✦✧ No hospital ✧✦🎭═══

Meireles, um homem branco de sessenta e poucos anos, cabelos grisalhos, estava deitado na cama do hospital. Fabinho, um jovem moreno de 20 anos, alto e de postura firme, vestia roupas casuais e exibia um rosto tenso enquanto falava ao telefone, refletindo sua preocupação.

— Sim, mãe, eu vou falar com ele. Ele tá aqui do meu lado. Tá bem melhor. Ok, pode deixar. Tchau. — disse Fabinho, encerrando a ligação e virando-se para o pai.

Meireles, notando a expressão preocupada do filho, franziu a testa.

— O que a sua mãe queria, meu filho? Que cara é essa, Fabinho? — perguntou ele, levantando um pouco o corpo na cama, preocupado.

Fabinho respirou fundo, parou por um momento antes de dar a notícia.

— O Antunes foi assassinado — revelou, a voz pesada.

— Que isso, menino? Como foi isso? — exclamou Meireles, chocado.

— Ninguém sabe ao certo. Encontraram o corpo dele no depósito da Mulambo. Parece que atiraram nele depois do desfile — explicou Fabinho, ainda sem acreditar no que dizia.

— Quem poderia ter feito uma barbaridade dessas?

— Isso só a perícia vai dizer, pai.

— Primeiro foi o meu acidente, agora isso com o Antunes. Só pode ter sido alguém próximo da gente. Meu Deus do céu, agora fiquei preocupado — desabafou, sentindo um nó no peito.

— O senhor tá achando que seu acidente e a morte do Antunes possa ter sido algo premeditado? — perguntou, receoso.

— Não é o que parece? Pra te ser sincero, eu sempre achei esse acidente que aconteceu comigo muito estranho, viu Fabinho? E agora com esse assassinato do Antunes, minhas preocupações só aumentam. Talvez alguém queira nos ver longe da Mulambo Têxtil — concluiu, com um olhar pesado.


═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══

O sol brilhava suavemente sobre o jardim onde as crianças brincavam. Algumas meninas pulavam corda, outras estavam sentadas em círculo, brincando com suas bonecas. Pedrinho, animado, corria atrás de uma bola junto com outro menino, rindo alto e se divertindo. No entanto, ao notar Gabriel sentado embaixo de uma árvore, com um olhar distante, Pedrinho deixou a bola de lado e se aproximou, curioso.

— Tá tão pensativo, Gabriel. Aconteceu alguma coisa?

— Aconteceu nada não, só tô aqui pensando na vida.

— Eu vou com os meninos lá na quadra jogar bola. Quer ir com a gente?

— Agora não. Não tô animado.

— Tem certeza que cê tá bem? Cê tá estranho...

— Estou bem sim, se preocupa não — respondeu Gabriel, tentando tranquilizá-lo com um sorriso. — Vai lá jogar bola com os meninos, depois eu vou lá ver.

— Está bem então, te espero lá — disse, antes de se afastar correndo, dando um drible no menino que estava com a bola e pegando-a nas mãos, rindo enquanto fugia.

Gabriel observou à distância, o sorriso de Pedrinho e as risadas das outras crianças.


═══🎭✦✧ Depósito da Mulambo ✧✦🎭═══

O clima estava pesado, carregado pela presença do corpo de Antunes envolto no invólucro que o pessoal do IML fechava com o zíper. O delegado Will, com uma caderneta na mão, fazia anotações detalhadas, enquanto Angelina e Daiana observavam de perto, visivelmente abaladas.

Daiana, com o rosto pálido, desviou o olhar do corpo.

— Ah meu Deus, não gosto nem de olhar — murmurou.

— Bem, já olhamos tudo aqui, pegamos o material para a perícia — começou Will, olhando para Angelina. — Mas ainda não encontramos nada que nos leve ao suspeito. A senhora sabe se a vítima teria algum inimigo, ou alguém que estava aqui no desfile e que tenha tido algum atrito com ele?

— Não sei nada disso, doutor. O Antunes sempre foi um excelente profissional, sempre fez o trabalho dele direitinho. Trabalhava há anos aqui na empresa com o meu marido — respondeu com voz trêmula.

— Mas não podemos negar uma coisa também, não é mãe? — disse Daiana, olhando para Angelina. — O Antunes poderia até ser um excelente profissional, mas era arrogante, sempre reclamava de tudo e de todos. Os funcionários sempre se queixavam dele. Até o meu pai queixava do jeito explosivo do Antunes.

— Ou seja, pode ter sido um dos funcionários da Mulambo, então? — questionou Will, enquanto anotava tudo o que achava relevante.

— Tanta gente que trabalha aqui, doutor. Mas sim, é uma hipótese que não deve ser descartada — disse Angelina, sem esconder sua angústia. — Porém, quem faria uma monstruosidade dessas?

Will olhou ao redor, seus olhos focando em uma câmera de segurança no canto do depósito.

— É o que vamos descobrir. Percebi que aqui no depósito tem uma câmera de segurança. Podemos ver as imagens? — perguntou.

Angelina acenou afirmativamente com a cabeça.

— Sim, claro. Por favor, o senhor me acompanhe — disse ela, indicando o caminho.

Enquanto Angelina guiava Will em direção à sala de segurança, Daiana tirou o telefone do bolso.

— Eu vou ligar para o Rodrigo, talvez ele ainda não esteja nem sabendo — disse, enquanto procurava o número.

— Faça isso, filha — respondeu Angelina, já subindo as escadas com Will. — É por aqui.


═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══

Rodrigo segurava o celular nas mãos, olhando fixamente para o chão, enquanto Joana, observava-o atentamente.

— Obrigado por ter avisado, Daiana. Eu já tô indo pra aí — disse ele antes de desligar o telefone.

Joana, aflita, se aproximou ainda mais, tentando entender o que estava acontecendo.

— E aí, meu filho? Me explica melhor como isso aconteceu? — perguntou ela, com os olhos cheios de preocupação.

— Não sei muito bem, mãe. Sei que atiraram nele depois do desfile. A polícia tá lá investigando o caso.

Joana levou a mão à boca, chocada.

— Meu Deus do céu! E agora, como vai ser da nossa vida?

— O que vai ser da nossa vida? Agora que a nossa vida vai começar de verdade, sem as ameaças desse crápula. Não se esqueça que o meu pai de verdade morreu nas mãos dele. Isso foi pouco o que fizeram com ele. Demorou foi muito pra morrer.

— Que ódio é esse, Rodrigo? Ninguém deve desejar a morte de ninguém — advertiu.

— A senhora esqueceu todo o mal que esse homem te fez? Não é porque ele morreu que agora vai virar santo. Esse monstro teve o fim que procurou. E se a senhora quer mesmo saber, o sentimento que tô tendo nesse momento é de alívio.

— Eu não gosto quando você fala assim. O mal não deve ser combatido com o mal — disse, tentando acalmar o filho.

— Não se preocupe, minha mãe. Nas minhas veias correm sangue, e não o veneno desse monstro. Vou lá na Mulambo e depois cuidar de tudo que for preciso pra pôr esse demônio o quanto antes debaixo da terra — afirmou, com convicção.

— Tenha cuidado. E me mantém informada de tudo — pediu, com o coração pesado.

Rodrigo deu um aceno breve, pegou suas coisas e saiu de casa, deixando Joana com suas preocupações.


═══🎭✦✧ De volta a Mulambo... ✧✦🎭═══

Um policial manuseava as imagens da câmera de segurança, que mostravam o momento crucial em que Antunes foi morto. Will, Angelina e Daiana observavam em silêncio, apreensivos com o que veriam.

— Calma aí! Dê um zoom na imagem, ver se dá pra focar no rosto dele — disse Will, com um tom sério.

Na tela, a imagem capturava o depósito, mal iluminado. O assassino, com um capuz cobrindo parte do rosto, descia as escadas se aproximando lentamente de Antunes, que parecia distraído, conferindo algumas caixas. Quando o tiro foi disparado, Antunes caiu imediatamente no chão, e o atirador saiu subindo novamente as escadas, onde as sombras o cobriam parcialmente. Com o zoom ativado, o rosto do suspeito começou a se revelar.

Daiana levou as mãos à boca, seus olhos arregalados de choque.

— Meu Deus, é o Rodrigo! — exclamou ela, quase em descrença.

Angelina, paralisada, tentou processar o que acabara de ver.

— Não pode ser — murmurou, sua voz quase inaudível.

Will franziu o cenho, confuso, e perguntou:

— Rodrigo Antunes, o filho da vítima?

— Ele mesmo. Isso não pode ser possível. O Rodrigo não teria coragem de fazer uma coisa dessas! — Disse Daiana, ainda incrédula.

Angelina balançou a cabeça em negação, ainda atônita com o que via.

— Mas parece ser ele mesmo. Também não tô acreditando nisso.

— Não tem imagem das câmeras do corredor próximo ao depósito? — Quis saber Will.

Angelina balançou a cabeça negativamente.

— Não. Essas câmeras estragaram já faz tempo. Eram pra ter trocado, mas até hoje ninguém fez nada.

Daiana continuava com os olhos fixos na tela, lutando para aceitar o que via.

— Isso não pode ser verdade, o Rodrigo não pode ter feito isso. Não dá pra acreditar, meu Deus!

Will, concentrado nas imagens, comentou:

— A imagem da câmera não é tão boa, mas com o zoom dá pra ver claramente quem é o assassino. Nem mesmo o capuz do moletom que ele tá usando conseguiu esconder seu rosto.

Daiana piscou rapidamente, sentindo um nó na garganta.

— O Rodrigo disse que tá vindo pra cá. Ele tem muito o que explicar — afirmou, decidida.


═══🎭✦✧ Enquanto isso no hospital... ✧✦🎭═══

Meireles estava deitado no leito, ansioso por boas notícias. E Fabinho sentado na cadeira ao lado. Logo depois, o médico entrou no quarto com alguns exames em mãos.

— Bom dia, senhor Fábio Meireles! Como tá se sentindo? — perguntou o médico com um sorriso acolhedor.

— Tô me sentindo muito bem, doutor. Quero saber quando vou ter alta, louco pra voltar pra casa — respondeu Meireles, impaciente.

O médico sorriu, vendo a disposição de Meireles, mas manteve o tom calmo.

— Calma, homem! Estava aqui dando uma olhada em seus exames: raio-x, tomografia, e também vi seu hemograma. Nada além do que a gente já sabia. Se arrume, seu Meireles, o senhor tá de alta.

Meireles abriu um sorriso largo, apertando a mão de Fabinho.

— Graças a Deus! Olha que notícia boa, Fabinho! — comemorou, aliviado.

— Mas oh, se cuida, hein — continuou o médico. — A fisioterapia é essencial. Só assim vai recuperar os movimentos das pernas. Foi uma lesão parcial na medula, então seu caso é reversível, mas precisa seguir o tratamento certinho.

— Então quer dizer, doutor, que ele pode voltar a andar? — perguntou Fabinho.

— Com a fisioterapia, é possível sim que os movimentos voltem. Mas é um processo lento. Não deixe a ansiedade atrapalhar. É importante seguir tudo no tempo certo.

— Tanta coisa acontecendo, doutor — murmurou Meireles. — Não ficar ansioso é quase impossível. É horrível não poder sentir as minhas pernas.

— Aos poucos tudo vai voltar ao normal, seu Meireles — garantiu o médico. — É só se dedicar ao tratamento.

— Pode deixar doutor, vou ficar no pé desse aqui. Logo ele vai tá jogando bola comigo. — disse Fabinho, determinado.

— Me ajude aqui, meu filho. Vamos nos arrumar que eu tô doido pra voltar pra casa. — Meireles disse, animado.

Fabinho imediatamente começou a ajudar o pai.


═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══

As crianças corriam animadas pela quadra, chutando a bola de um lado para o outro, enquanto Gabriel assistia ao jogo de fora, com um sorriso leve no rosto. Pedrinho, determinado, tentava se destacar no meio dos outros meninos.

— Tô sozinho aqui, toca pra mim! — gritou Pedrinho, correndo na direção da bola, mas sendo ignorado pelos colegas. — Caramba, parece que tô invisível! — reclamou, frustrado.

Gabriel riu do lado de fora, provocando.

— Tá indo ruim, hein, Pedrinho? — disse, em tom brincalhão.

Epaminondas um homem de meia-idade, com o rosto marcado pelo tempo e os cabelos já grisalhos e curtos. A barba, também grisalha, era densa, mas bem cuidada. Sua pele negra, seus olhos, de um castanho profundo, pareciam sempre atentos a tudo ao redor, carregando uma sabedoria silenciosa. Epaminondas foi se aproximando de Gabriel.

— Como você está?

Gabriel olhou para ele por um instante antes de responder.

— Estou bem.

— Eu vi você sentado ali no jardim. Parecia preocupado.

— Só estava pensando um pouco na vida.

Epaminondas inclinou a cabeça levemente, como se ponderasse o que diria a seguir, antes de soltar um de seus típicos enigmas.

— Tem coisas que cruzam o nosso caminho e, no momento, parecem sem sentido. Mas tudo tem seu porquê. Só depois que passa é que a gente enxerga o quadro inteiro. Mas lembre-se: o que se planta em silêncio hoje, amanhã vem cobrar seu preço.

Gabriel o olhou com um semblante confuso.

— Os seus enigmas só me deixam mais confuso, Epaminondas.

Por um momento, os dois trocaram um olhar de canto de olho. Epaminondas deu um sorriso enigmático antes de falar novamente.

— Cuidado, filho. O passado é uma sombra que a gente não consegue apagar. Não dá pra voltar e mudar o que já foi escrito, mas as consequências sempre encontram o caminho de volta.

═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══

Rodrigo chegou e ao entrar na sala do Meireles, encontrou Angelina em pé em frente à mesa, Daiana sentada na cadeira do pai com a cabeça baixa, Will ao lado de um policial, e o ambiente pesado com uma mistura de luto e desconfiança.

— Bom dia a todos! E o corpo do meu pai, onde tá? — Perguntou ele.

Angelina, respondeu olhando Rodrigo de canto de olho.

— O IML já levou...

Will deu um passo à frente, segurando as algemas.

— O senhor é o Rodrigo Antunes?

Rodrigo olhou para ele, confuso.

— Sim, sou eu!

Will, sem hesitar, aproximou-se mais e falou de maneira direta.

— O senhor tá preso.

— O quê? Como assim preso? Por quê?

Daiana, que até aquele momento se mantinha cabisbaixa, ergueu os olhos.

— Inacreditável... Como cê teve coragem de fazer isso, Rodrigo?

Rodrigo a encarou, completamente atônito.

— Mas do que você tá falando? Eu não fiz nada!

Will não perdeu tempo. Pegou os pulsos de Rodrigo e, com destreza, começou a algemá-lo.

— O senhor tem o direito de permanecer calado e também tem direito a um advogado.

Rodrigo tentou se afastar, mas foi contido.

— Calma aí, espera um pouco! Daiana, você tem que acreditar em mim. Vocês estão achando que fui eu que matei o meu pai? Eu sou inocente! Seu delegado, pelo amor de Deus! Há um engano aqui, eu sou inocente!

— A gente vai entender melhor essa história lá na delegacia. — Proferiu o delegado, sério.

Rodrigo olhou desesperadamente para Daiana, seu olhar implorando por algum sinal de compreensão, mas o rosto dela estava marcado por mágoa.

— Daiana, acredita em mim, eu não fiz nada, sou inocente! — repetiu ele, enquanto era arrastado para fora da sala.

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