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═══🎭✦✧ Casa do Adolfo ✧✦🎭═══

O cheiro de tempero refogado se espalhava pela casa. Aparecida mexia tudo com uma colher de pau, concentrada…

Na mesa, Gabriel focava em descascar uma abóbora.

— E aí, Gabriel… — puxou Aparecida, sem se virar. — Conseguiu mais alguma coisa pra provar sua inocência?

Gabriel soltou um suspiro pesado.

— Quase nada, Aparecida… — respondeu. — Lembra do motorista de aplicativo que eu te contei?

— Lembro, sim.

— Pois é… ele tá envolvido nas tramoias do Rodrigo. — disse, levantando o olhar. — Me encontrei com ele. O cara abriu o jogo.

Aparecida diminuiu o fogo e virou o rosto, atenta.

— Já deu pra entender muita coisa do que vem acontecendo. — continuou Gabriel. — O Rodrigo tá fazendo caixa dois na Mulambo… desviando dinheiro pra uma conta no Panamá. Aquela no nome do seu pai. Provavelmente foi com esse dinheiro que ele comprou as ações do seu Meireles. E ainda criou uma holding falsa pra convencer ele a vender.

Aparecida se aproximou devagar da mesa, absorvendo cada palavra.

— Oxente… então vocês já descobriram foi muita coisa. E mesmo assim não tem como prender o seu irmão?

Gabriel balançou a cabeça, lamentando.

— Descobrir é uma coisa… provar é outra. — disse, voltando a descascar a abóbora. — E o pior… ainda não tenho como provar que não fui eu que matei o Antunes.

Nesse momento, a porta se abriu. Adolfo entrou carregando algumas sacolas e um panfleto amassado na mão.

— Trouxe umas verduras aqui. — disse, entregando as sacolas pra Aparecida. — Vê se ainda dá tempo de usar no almoço.

— Dá sim. — respondeu ela, pegando tudo. — Agora que comecei a colocar a comida no fogo. E esse papel aí?

— Tavam entregando na rua. — disse Adolfo, dando de ombros. — Acho que é propaganda de restaurante.

Ele estendeu o panfleto.

Gabriel pegou, sem muito interesse… mas, ao bater os olhos, mudou a fisionomia.

— “Casa da Mãe Joana”… — leu, a voz mais baixa.

O olhar mudou completamente.

— É o restaurante da minha mãe. É hoje a inauguração. Nossa… Ela deve tá tão feliz…

Os olhos dele brilharam, mas uma tristeza tomou conta.

— E eu aqui… escondido.

Engoliu seco.

— Eu só queria poder estar lá. Do lado dela. — a voz falhou levemente. — Não aguento mais isso… ficar longe de todo mundo… como se eu fosse um criminoso.

Aparecida e Adolfo observava em silêncio.


═══🎭✦✧ Restaurante Casa da Mãe Joana ✧✦🎭═══

Panelas borbulhavam, facas batiam ritmadas nas tábuas, e o calor do fogão deixava o ar vivo.

Joana se aproximou de uma das panelas, atenta.

— Vem cá… esse molho já não tá no ponto? — perguntou, inclinando-se levemente.

De longe, o cozinheiro respondeu:

— Ainda não, dona Joana. Mais uns três minutinhos, acho que chega lá.

Nesse momento, o chef se aproximou, pegou a colher, soprou e provou com cuidado.

— Melhor não arriscar. — disse, firme. — Mais um minuto e desliga. Se passar, perde o brilho.

O cozinheiro assentiu.

— Tô finalizando aqui, chef. Já já desligo.

— Obrigada chef.

Joana seguiu adiante, passando pela bancada onde os pratos estavam sendo montados.

— Capricha na finalização, viu? — orientou. — A apresentação é tão importante quanto o sabor. Cliente come primeiro com os olhos.

A auxiliar ajustou as folhas com mais delicadeza, redobrando a atenção.

Joana respirou fundo e saiu da cozinha, empurrando a porta com o quadril.

No salão, o ambiente era outro — mais calmo, mas carregado de expectativa.

Um garçom se aproximou rapidamente.

— Dona Joana, tem um casal querendo cumprimentar a senhora.

— Um casal? — ela franziu levemente o cenho, curiosa.

Ao olhar na direção indicada, arregalou os olhos.

— Minha Nossa Senhora… seu Meireles e dona Angelina.

Voltou-se para o garçom, já recomposta:

— Obrigada, Fabrício. Eles foram bem atendidos?

— Sim, senhora.

Joana assentiu e caminhou até a mesa, ajeitando a postura no caminho.

— Boa tarde! — disse, com um sorriso caloroso. — Que alegria ter os senhores aqui no meu restaurante.

Angelina sorriu de volta, encantada.

— A gente não podia deixar de vir, né, Joana? Mas que coisa mais linda tá isso aqui… parabéns.

Meireles completou:

— E o atendimento também tá excelente. Vou até deixar uma boa gorjeta pro garçom.

Joana sorriu, visivelmente emocionada.

— Fico muito feliz que estejam sendo bem atendidos.

Mas o sorriso vacilou por um instante.

— Eu… eu confesso que fico até um pouco sem graça com a presença de vocês. Depois do que aconteceu… eu não devia ter mudado de ideia sobre a venda das ações assim, de última hora.

Meireles suspirou, mais sério.

— Na verdade, Joana… essas ações terem ido parar nas mãos do Rodrigo acabou trazendo muitos problemas pra gente.

O clima pesou por um segundo.

Angelina interveio de imediato, com suavidade:

— Meireles… não viemos falar disso. — disse, olhando para ele com firmeza. — Vamos deixar esse assunto pra outro momento.

Voltou-se para Joana, gentil.

— Hoje é dia de coisa boa. De celebrar. — sorriu. — Tá tudo bem, Joana. Não tem com o que se preocupar. Eu, inclusive, tô ansiosa pra experimentar a sua comida.

Joana respirou aliviada, recuperando o sorriso.

— Espero que goste. Foi tudo feito com muito carinho.

Fez um leve gesto.

— Vou pedir para o Fabrício vir até aqui servir vocês direitinho. Com licença.

Ela se afastou, mas ainda lançou um último olhar para a mesa.


═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══

A noite já tinha caído. A casa estava silenciosa, iluminada por uma luz morna que contrastava.

Soraia já estava à mesa, jantando com calma, como se nada estivesse fora do lugar.

A porta se abriu.

Rodrigo entrou, tirando o paletó com impaciência.

— Boa noite. — disse, seco.

Soraia ergueu os olhos devagar, com um sorriso sutil.

— Boa noite, querido. — respondeu, provocativa. — Pensei que não viesse jantar em casa… que fosse prestigiar a comidinha da mamãe no restaurante novo dela.

Rodrigo soltou um riso curto, debochado.

— Até parece que eu vou sair do meu conforto pra ir comer lá no fim do mundo.

Sentou-se, puxando a cadeira sem cerimônia.

— Milena! — chamou. — Me prepara aquele filé ao molho madeira que eu gosto.

— Sim, senhor. — respondeu, saindo rapidamente.

O silêncio caiu por alguns segundos.

Soraia observou Milena sair, certificando-se de que estavam sozinhos.

Rodrigo, alheio, começou a se servir com tranquilidade irritante.

Então ela falou.

— Estive pensando… — disse, casual. — Recalculando a rota. Eu quero muito te matar. E vou fazer isso. Pode ter certeza.

Rodrigo soltou o ar com impaciência, sem nem olhar pra ela.

— Já vai começar?

Soraia apoiou o cotovelo na mesa, inclinando levemente o corpo.

— Meu amorzinho… — a voz era quase um carinho envenenado. — Você sabe que a gente nunca foi um casal tradicional. Eu me casei com você por um objetivo.

Os olhos dela brilharam, frios.

— E esse objetivo… é ver a sua cabeça servida numa bandeja.

Rodrigo parou por um segundo. Lentamente, levantou o olhar.

— Tá se achando poderosa, né? — disse, com desprezo. — Mas se eu ainda não acabei com você… é porque tenho coisas mais importantes pra resolver.

A voz dele baixou, perigosa.

— Mas fica tranquila. A sua hora tá chegando, sua insolente.

Soraia soltou uma risada, divertida.

— Você não acabou comigo ainda porque sabe que eu posso te destruir. — rebateu. — E é exatamente isso que eu vou fazer.

Ela se recostou na cadeira, cruzando as pernas com elegância.

— Só que eu mudei de ideia. — continuou. — Pensando bem… é muito mais vantajoso pra mim que você seja preso.

Rodrigo franziu o cenho, atento agora.

— Ah, é? Interessante.

— Sim… — ela completou, saboreando cada palavra — Porque você preso, eu assumo suas ações na Mulambo. Eu já preparei um dossiê. Com tudo o que eu sei sobre você.

Ela inclinou a cabeça, provocadora.

— Inclusive… coloquei lá também a cápsula do remedinho que você usou pra dar fim na dona Rita.

Rodrigo arregalou os olhos na hora, preocupado.

— Do que você tá falando? Eu não tenho nada a ver com a morte daquela velha.

Soraia ergueu uma sobrancelha.

— Ah, não?

Aproximou-se levemente sobre a mesa.

— Então vamos deixar os peritos da polícia decidirem isso, quando analisarem o material que eu vou mandar. Outra coisa que eu estava aqui também pensando. Você já imaginou que assim como eu o Gabriel também pode não ter morrido? Ele pode tá por aí armando um golpe contra você. Afinal, o corpo dele nunca apareceu.

Rodrigo se ajeitou na cadeira, nervoso.

— Impossivel ele ter sobrevivido naquela queda.

— Nunca diga nunca.

O sorriso dela desapareceu.

— A sua vida acabou, bebê.

Fez uma pausa.

— Ninguém mandou você me querer como inimiga. As coisas teriam sido bem diferentes se você tivesse me incluído em seus planos.

O olhar dos dois se cruzou, carregado de ódio e ameaça.

═══🎭✦✧ Boate Eclipse ✧✦🎭═══

As luzes piscavam em tons coloridos, cortando a fumaça no ar. A batida grave da música fazia o chão vibrar, mas, naquele canto, o clima era outro.

Encostados próximos ao bar, Edson e Carla observavam de longe.

Ludmila estava sentada sozinha, isolada em um canto, com um copo na mão e o olhar perdido — completamente fora do ambiente que sempre foi o dela.

Edson balançou a cabeça, incomodado.

— Ludmila tá ruim, hein… Nunca vi ela desse jeito. Nem parece a mesma pessoa.

Carla suspirou, cruzando os braços.

— Eu já não sei mais o que fazer, Edson. Minha amiga entregou os pontos. Já tentei de tudo pra animar… mas ela só fala no Fabinho. — fez uma careta. — Do jeito que tá, daqui a pouco ela adoece.

— E do outro lado ele também tá sofrendo. — comentou Edson. — Só que é orgulhoso demais pra admitir.

Deu de ombros.

— Mas também… a Ludmila aprontou bastante.

Carla assentiu, ainda preocupada.

— Eu sei.

Olhou de novo pra amiga, decidida.

— Amor, dá licença… vou lá falar com aquela rapariga antes que ela se acabe de vez.

Carla atravessou a boate, desviando das pessoas, até chegar ao canto onde Ludmila estava.

Parou ao lado dela e apoiou o braço na mesa.

— Se quiser, eu arrumo um veneno pra colocar nesse copo aí.

— Seria uma boa… — murmurou Ludmila, desanimada. — Porque eu tô mesmo com vontade de morrer.

Carla revirou os olhos e puxou uma cadeira, sentando de frente pra ela.

— Ah, para de show, piranha. Também não é pra tanto.

Ludmila soltou um suspiro pesado, girando o copo entre os dedos.

— Eu vim pra cá na esperança de encontrar ele… — confessou. — Mas, pensando bem… foi até melhor ele não ter aparecido.

Ergueu o olhar, cansado.

— Ele ia me humilhar mais uma vez.

Carla inclinou a cabeça, analisando.

— Tá de dar dó, viu? Que fossa é essa, mulher…

Ludmila ficou em silêncio por um instante.

Depois respirou fundo e começou a falar.

— Você me conhece desde a escola, Carla… eu nunca levei homem nenhum a sério. E não foi à toa. Eu cresci vendo os namorados das nossas amigas pagando de perfeitos… e, pelas costas, dando em cima de mim. Tentando qualquer coisa. Era sempre igual. Na frente delas, príncipe… por trás, um lixo. Já teve delas querendo sair na porrada comigo. Defendendo o alecrim dourado.

Carla não interrompeu. Só escutava.

— E o pior era como todo mundo tratava isso. — continuou Ludmila. — Eles podiam tudo. O cara que pegava várias era o fodão, o gostosão, o invejado…

Deu um sorriso amargo.

— Agora bastava a menina fazer metade disso e virava fácil, piranha, rodada... Julgada por todo mundo. Sempre dois pesos, duas medidas. Sempre.

Ela apertou o copo com força.

— Aquilo foi me dando um ódio… uma revolta. Porque parecia que eles tinham licença pra brincar com sentimento… e a gente tinha que ser perfeita, certinha… quase santa.

Respirou fundo.

— Aí eu pensei: quer saber? Se eles podem ser tóxicos… então eu vou ser também. Parei de acreditar. Parei de me entregar. Comecei a usar antes de ser usada.

Carla engoliu seco, percebendo o peso daquilo.

— Só que… — a voz de Ludmila falhou — no meio disso tudo, eu machuquei gente que não merecia.

Os olhos marejaram, mas ela segurou.

— Gente que gostava de mim de verdade.

Uma pausa.

— Tipo o Fabinho.

O silêncio entre as duas pesou por alguns segundos, enquanto a música da boate parecia distante.

— E agora… — Ludmila abaixou o olhar — eu não faço a menor ideia de como consertar o estrago que eu mesma causei.

═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══

Alguns dias haviam se passado.

Meireles e Angelina estavam sentados à mesa, aguardando. Fabinho entrou com um documento nas mãos, expressão carregada.

— E aí, meu filho… pegou o relatório da auditoria? — perguntou Meireles.

— Tá aqui. — respondeu ele, estendendo os papéis. — O Mauro disse que fez uma varredura completa.

— Ótimo… deixa eu ver isso.

Meireles pegou o documento e começou a folhear com atenção.

À medida que lia, sua expressão foi mudando. A testa franziu… o olhar endureceu.

— Mas o que é isso…? — murmurou, quase sem acreditar.

Angelina se inclinou, preocupada.

— O que foi, meu amor? Tem alguma coisa errada?

Meireles passou mais uma página, incomodado.

— Isso não pode ser… não faz sentido.

— Fala logo, homem! — insistiu ela. — Você tá me deixando nervosa.

Ele levantou o olhar, grave.

— Angelina… tem contratos aqui com uma empresa que eu nunca nem ouvi falar. — disse. — Pagamentos altos… e serviços que ninguém conseguiu comprovar que foram prestados.

Fabinho franziu a testa, alarmado.

— Mas é o Rodrigo que tá por trás disso, pai?

Meireles hesitou por um segundo.

— Não sei. — respondeu. — Quem autorizou foi o Cláudio.

— Cláudio? — repetiu Angelina, surpresa. — O Cláudio do financeiro?

— Ele mesmo. — confirmou Meireles. — Todos os acessos, autorizações, liberações de pagamento… tudo no nome dele.

Angelina levou a mão à testa, sem acreditar.

— Não… isso não pode tá certo. O Cláudio trabalha com a gente há anos. Sempre foi correto. — balançou a cabeça. — Meu Deus… não dá mais pra confiar em ninguém nessa empresa.

Fabinho ficou pensativo, inquieto.

— Eu tô achando isso muito estranho…

Meireles respirou fundo, virando mais uma página.

— Calma… tem mais. Esses contratos… passaram pelo jurídico.

Fabinho e Angelina trocaram olhares curiosos.

— O Dr. Rui também tá nisso. — disse Meireles, direto.

Angelina levou a mão à boca, chocada.

— Não… que absurdo. O Dr. Rui sempre foi tão íntegro… isso só pode tá errado.

Meireles fechou o relatório com firmeza, batendo levemente na mesa.

— Mas é isso que a auditoria tá mostrando. — disse. — Um autoriza… o outro valida.

Fabinho começou a andar de um lado pro outro, visivelmente inquieto.

— Não… não… tem alguma coisa muito errada aí. — murmurou. — O Cláudio sempre foi correto… o Dr. Rui também. Isso não faz sentido.

Angelina voltou-se para Meireles, tentando juntar as peças.

— E o Rodrigo? Ele não aparece em nada disso?

Meireles balançou a cabeça, frustrado.

— Não. Diretamente, não tem nada que ligue ele a esses contratos.

Fabinho parou de repente, encarando os dois.

— Então esse relatório tá errado. — afirmou. — Tá na cara que isso é armação.

O olhar dele endureceu.

— Tem gente dentro da auditoria facilitando pro Rodrigo.

Angelina pareceu se lembrar de algo naquele instante.

— O Mauro… — disse, lentamente. — Claro. Ele foi contratado pelo Antunes, lembra? Não dá pra confiar em ninguém que veio do Antunes.

Meireles ficou em silêncio por um momento. Aquela hipótese já rondava sua cabeça.

— Eu também acho. — admitiu. — Mas o problema é… como a gente prova isso agora?

Olhou para os dois, sério.

— O certo seria fazer uma nova auditoria. — continuou. — Mais profunda… e dessa vez, por baixo dos panos. Sem o Rodrigo saber. Porque, se ele estiver mesmo por trás disso… vai dar um jeito de mexer os pauzinhos pra esconder tudo de novo.

═══🎭✦✧ Parque Ibirapuera ✧✦🎭═══

A brisa leve balançava as folhas das árvores, e o som da cidade soava distante.

Encostado no tronco de uma árvore, Gabriel mantinha o braço ao redor de Daiana, que estava acomodada entre suas pernas, recostada nele. Os dedos dele deslizavam lentamente sobre as mãos dela, num gesto carregado de carinho.

— Esses dias eu passei em frente ao restaurante da minha mãe… — disse Gabriel, olhando para o nada. — Tava cheio. Muita gente… e nem tinha dado a hora do almoço ainda.

Um leve sorriso surgiu.

— Parece que tá fazendo sucesso, né?

Daiana inclinou levemente a cabeça, confortável ali.

— Sua mãe cozinha muito bem. — respondeu. — Esse sucesso era mais do que esperado. Ela merece tudo isso. Foi a melhor decisão que ela tomou.

Gabriel respirou fundo, o olhar distante.

— Eu vi ela de longe… — murmurou. — Tava linda. Toda orgulhosa no lugar dela.

A voz dele suavizou.

— Tudo o que eu queria… era chegar lá, abraçar… dizer que eu tenho orgulho dela também.

O silêncio entre os dois foi breve, mas intenso.

Daiana virou um pouco o rosto, olhando pra ele.

— Tá acabando, meu amor. — disse, com firmeza. — A gente vai conseguir colocar o Rodrigo atrás das grades. E você vai poder voltar pra perto de quem ama.

Antes que Gabriel respondesse, o celular dele vibrou.

Um som curto.

Ele pegou o aparelho e olhou a tela.

A expressão mudou na hora.

— Falando nisso… — disse, mostrando o celular. — O Artur acabou de me mandar mensagem de novo.

Bufou, irritado.

— Esse cara não para. Tá me pressionando por dinheiro. Já nem tô mais abrindo as mensagens.

Daiana ficou em silêncio por um instante, pensando.

Então se virou completamente, ficando de frente pra ele.

O olhar dela agora era outro — decidido.

— Abre. — disse. — Responde a mensagem. Marca um encontro com ele. A gente vai dar o dinheiro que ele quer.

Gabriel franziu a testa, sem entender.

— Eu não tô entendendo…

Daiana falou firme.

— Esse Artur tá desesperado. O pai dele tá doente… ele precisa desse dinheiro. A gente vai usar esse desespero a nosso favor. Você vai marcar um encontro com ele… como se fosse o Rodrigo. Mas dessa vez, num lugar cheio. Público. Um restaurante, talvez.

Os olhos dela brilharam com estratégia.

— Só que quem vai nesse encontro… sou eu.

Gabriel se afastou um pouco, tenso.

— Não tô gostando disso. — disse. — Esse cara pode fazer alguma coisa contra você.

Daiana balançou a cabeça, segura.

— Não vai. Em público, ele não vai arriscar.

Segurou o rosto de Gabriel com delicadeza.

— Meu amor, presta atenção. Eu vou dar o dinheiro pra ajudar o pai dele… mas com uma condição. Ele vai ter que colaborar.

A voz dela ficou mais firme.

— Ele tá desesperado. E gente desesperada… é fácil de fazer acordo.

Ela segurou a mão dele novamente.

— Marca esse encontro. Deixa eu tentar.

═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══

Rodrigo estava de pé, enquanto Meireles, estava sentado em sua cadeira de rodas atrás da mesa, mantendo o olhar fixo nele, desconfiado.

— O senhor fez muito bem em pedir aquele relatório, seu Meireles. — disse Rodrigo, com aparente tranquilidade. — Um absurdo o que vinha acontecendo… e a gente sequer tinha acesso. Já tomei as providências. O Dr. Rui e o Cláudio foram desligados da empresa.

— Agiu rápido, Rodrigo… impressionante. — disse Meireles, com um leve tom de ironia. — Mas eu gostaria de ter tomado essa decisão. Queria ter ouvido dos dois alguma explicação. Sempre foram profissionais da minha total confiança.

Rodrigo se aproximou um pouco, cruzando as mãos à frente do corpo.

— O senhor precisa rever melhor em quem confia. — disse, direto. — Não se esqueça que, até pouco tempo atrás… o Antunes também era alguém da sua confiança.

Fez um leve sorriso.

— E todos sabemos como isso terminou.

O olhar de Meireles se ergueu lentamente. Agora mais duro.

— Agora tenho que concordar com você. — respondeu. — Você também era um profissional da minha total confiança. E, no entanto… só tem me dado motivos pra decepção.

Rodrigo respirou fundo, controlando a irritação.

— O senhor tá olhando só pro copo meio vazio. — rebateu. — Minhas atitudes podem não ter sido bem compreendidas no começo… mas tudo o que fiz foi pensando no melhor pra empresa.

Caminhou lentamente pela sala.

— Eu tô tendo muito trabalho pra limpar o nome da Mulambo Têxtil. Mas, aos poucos… tô conseguindo.

Parou, encarando Meireles.

— Inclusive, já tenho um nome pra substituir o Dr. Rui. Como presidente, eu sugiro o nome do Dr. Xavier.

Um sorriso discreto surgiu no rosto de Meireles — mas não era de aprovação.

— Claro… — disse, com ironia evidente. — Você fez tudo isso pra abrir caminho e colocar o seu comparsa lá dentro.

O clima esfriou de vez.

Rodrigo endureceu o olhar.

— Olha como o senhor fala comigo, seu Meireles. — disse, com a voz mais baixa. — Eu estou sendo respeitoso desde que entrei aqui.

— Tá certo… — Meireles respondeu, sem recuar. — Se alguma palavra minha te ofendeu, peço desculpas.

Ligou a cadeira e deu a volta na mesa, encarando Rodrigo de perto.

— Mas eu não tenho essa cara de pau toda, não. Acho que nossa conversa já rendeu até demais. Agora, se você puder me dar licença…

Indicou a porta com um leve gesto.

— Eu agradeço.

Rodrigo sustentou o olhar por mais um segundo. Depois se retirou da sala.

═══🎭✦✧ Restaurante ✧✦🎭═══

O carro de Daiana encostou suavemente na vaga em frente ao restaurante. O movimento já era intenso — pessoas entrando, garçons circulando, vozes se misturando.

Dentro do carro, o clima era outro.

— Olha lá, Gabriel… — disse Daiana, apontando discretamente. — Ele já chegou.

Artur estava sentado a uma mesa próxima à janela, inquieto, olhando o celular a todo instante.

— Tá ansioso pelo dinheiro.

Gabriel observou, tenso.

— Meu amor… você tem certeza disso? — perguntou. — Você vai mesmo dar esse dinheiro?

Daiana não tirou os olhos de Artur.

— Se ele concordar em nos ajudar… pode ter certeza que sim. — respondeu, firme. — O depoimento dele vai ser o começo da queda do Rodrigo.

Gabriel respirou fundo.

— Era melhor esperar o seu irmão chegar…

Daiana negou com a cabeça.

— Muita gente só atrapalha. — disse, decidida. — Faz o seguinte: vai falando com o Fabinho. Explica tudo. Pede pra ele vir pra cá o mais rápido possível.

Ela abriu a porta do carro.

— Eu vou lá ver até onde esse cara pode nos ajudar.

Gabriel segurou o braço dela por um instante.

— Cuidado.

Daiana mandou um beijo, confortando-o.

— Se preocupe não.

Ela saiu do carro e caminhou em direção ao restaurante.

Respirou fundo antes de entrar.

Artur estava ali, nervoso, tamborilando os dedos na mesa.

Daiana se aproximou com calma, firme, e parou diante dele.

— Boa tarde, seu Artur. — disse, com um leve sorriso. — Está aguardando o Rodrigo?

Artur se assustou. Olhou rapidamente ao redor, visivelmente desconcertado.

— Quem é a senhorita?

Daiana puxou a cadeira sem pedir permissão e se sentou à frente dele.

— Eu sou Daiana Meireles. — respondeu, direta. — Filha do Fábio Meireles.

Fez uma breve pausa, sustentando o olhar dele.

— Aquele da Mulambo Têxtil… que o senhor ajudou o Rodrigo a dar um golpe.

Artur engoliu seco.

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