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═══🎭✦✧ Restaurante ✧✦🎭═══

Artur ficou assustado, levantou-se da cadeira com o propósito de sair. Daiana se levantou e colocou-se em sua frente.

— Se eu fosse o senhor sentaria. O assunto que tenho pra tratar é do seu total interesse. O seu pai tem urgência, e eu te garanto que o Rodrigo não vai dá o dinheiro que o senhor tá querendo. Já eu posso te ajudar.

Artur pensou por um instante, olhou pra fora, engoliu seco e resolveu sentar.

— Foi o Rodrigo que mandou a senhorita aqui?

Daiana também se sentou.

— Digamos que o Rodrigo não sabe que estou aqui. Eu soube do encontro entre vocês dois e resolvi me antecipar. Eu soube da situação do seu pai, ele tá com câncer né isso?

Artur balançou a cabeça positivamente.

— Cancro no pâncreas… — disse, quase sem voz. — Os médicos lá em Portugal foram muito claros comigo… é agressivo… muito agressivo. O tratamento é caríssimo… e eu… eu não tenho esse dinheiro. E o pior é o tempo… disseram-me que não podemos esperar. Cada dia que passa… é como se eu estivesse a perdê-lo aos poucos.

Artur baixou o olhar, tentando conter as lágrimas.

— O meu pai… sempre foi tudo para mim. Tudo. — engoliu seco — E agora eu estou aqui… sem conseguir fazer nada por ele.

Ele levantou os olhos, já marejados.

— Eu preciso desse dinheiro. Não é por mim… é por ele. Eu não posso deixá-lo morrer assim…

Daiana o observou por um instante.

— Olha Artur, eu quero muito te ajudar. — disse, mais suave — Tô aqui vendo o seu desespero, e a preocupação em cuidar do seu pai. Agora… não podemos esquecer o que você fez.

O olhar dela endureceu.

— Eu consigo o dinheiro para o tratamento do seu pai. Tudo o que for preciso. Mas, em troca você vai comigo até a delegacia… e conta tudo. Toda a armação que o Rodrigo montou para tomar as ações do meu pai. Eu ajudo o seu pai, se você me ajudar com o meu.

Artur travou.

— Se eu fizer isso… posso ser preso.

— Pode. — respondeu, direta. — É o preço a pagar.

Ela se inclinou levemente sobre a mesa.

— Mas, pelo o pouco que entendi, acredito que sua pena não será tão alta. Talvez com um bom advogado você possa ser solto com pagamento de fiança. Se você colaborar comigo, eu poderia te ajudar em muita coisa. Agora, se você decidir esperar pela boa vontade do Rodrigo… o seu pai pode morrer… e, no fim, você vai ser preso do mesmo jeito.

O silêncio pesou entre os dois.

Artur fechou os olhos por um instante. Quando abriu já havia tomado uma decisão.

— Eu topo. — disse, firme. — Estou disposto a contar tudo à polícia. Tudo o que eu sei.

Daiana deixou escapar um leve sorriso — discreto, mas vitorioso.

— Pode ter certeza… — disse, levantando-se — que você acabou de tomar a decisão certa.

═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══

A capelinha estava silenciosa, Epaminondas estava sentado no primeiro banco, as mãos entrelaçadas, o olhar fixo no Cristo crucificado.

A voz dele saiu baixa, carregada de fé.

— Tenha misericórdia, meu Deus… ilumina os caminhos do seu filho. Que o Gabriel encontre uma resposta, uma forma de provar sua inocência… e assim poder finalmente voltar pra casa.

Respirou fundo, os olhos marejando.

— Iluminai também os caminhos do Rodrigo… que meu sobrinho encontre amor no coração e se arrependa de todas essas maldades que vem fazendo.

Irmã Rosália surgiu na entrada.

Ela se ajoelhou, fez uma reverência, o sinal da cruz e então entrou em silêncio.

Se aproximou devagar e sentou-se ao lado de Epaminondas.

— Rezando pelo nosso menino? — disse ela, com a voz embargada.

Olhou para o altar, apertando o terço entre os dedos.

— Todo dia eu venho aqui pedir uma luz. Me agarro a qualquer esperança… qualquer milagre. Também, peço a Deus que guarde a alma daquele menino em um bom lugar. Mesmo que, me custa acreditar que ele esteja morto. Eu sei que o Gabriel errou, e terá que responder pelos seus erros… mesmo assim, eu o preferia aqui.

Olhou para Epaminondas, aflita.

— Por que esse corpo nunca apareceu? Às vezes eu acho que tô ficando louca…

As lágrimas começaram a cair.

— Eu peço a Deus misericórdia, que me ajude a aceitar o luto… ou que me dê um sinal de que eu não estou errada.

Epaminondas abaixou a cabeça.

O choro veio contido, mas inevitável.

Ele levantou o rosto lentamente, os olhos cheios de lágrimas.

— Ele tá vivo, irmã… O Gabriel tá vivo.

Irmã Rosália arregalou os olhos, o corpo inteiro reagindo.

— O que você tá dizendo…? — sussurrou, incrédula. — Pelo amor de Deus… você tá sabendo de alguma coisa? A polícia encontrou ele? Foi isso?

Epaminondas balançou a cabeça, emocionado.

— Me perdoe… por ter escondido isso da senhora. — disse, com a voz trêmula. — Mas o nosso menino tá vivo. Tá bem… só não pode aparecer ainda.

A respiração dela ficou descompassada.

— Você… você viu ele? — perguntou, quase sem voz. — Meu Deus eu tô tremendo… me conta… me conta direito…

— Ele tá vivo, irmã Rosália. — reforçou Epaminondas. — Mas só vai poder voltar quando provar a inocência dele.

Fez uma pausa, o olhar endurecendo.

— Quem matou o Antunes… foi o Rodrigo.

Irmã Rosália levou a mão à boca, chocada.

— Foi ele que veio aqui no orfanato… — Epaminondas continuou. — foi ele que confessou pra senhora. Com intuito de incriminar o Gabriel. Ele armou aquele acidente pra se livrar do próprio irmão.

— Nossa Senhora do Desterro… — murmurou ela, em choque. — Então… foi o Rodrigo que saiu daqui com a kombi e não o Gabriel?

— Isso mesmo. — confirmou Epaminondas. — O Gabriel foi levado até ele no caminho, ele colocou o irmão no volante e jogou a kombi na ribanceira.

— Misericórdia… — sussurrou ela, com lágrimas escorrendo. — Como pode existir gente assim? Quanta maldade no coração desse rapaz.

Mas, aos poucos um sorriso surgiu entre as lágrimas.

— Então… meu menino tá vivo…

Ela olhou para o altar, emocionada.

— Deus ouviu minhas preces…

Epaminondas a abraçou com força.

═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══

Rodrigo caminhava de um lado para o outro na sala, inquieto, enquanto falava.

Xavier permanecia em pé, encostado em um canto, observando em silêncio.

— A gente precisa dar um jeito de conseguir logo essa assinatura, Xavier. — disse Rodrigo, impaciente. — O seu Meireles não engoliu esse relatório. Ele não vai sossegar… vai pedir outra auditoria.

Parou por um segundo, olhando fixo para o nada.

— E, se isso acontecer… ele pode acabar encontrando coisa que não deve.

Rodrigo voltou para a mesa e se sentou, batendo levemente os dedos sobre a superfície.

— Eu já fiz a minha parte. Sugeri o seu nome pra substituir o Dr. Rui. — disse, direto. — Agora é com você.

Levantou o olhar.

— Você precisa dar um jeito de arrancar a assinatura deles.

Xavier respirou fundo e se aproximou, sentando-se à frente dele.

— Não vai ser simples assim. — respondeu, cauteloso. — Você sabe que o seu Meireles também não confia muito em mim, né?

Rodrigo fez uma careta, irritado.

— A gente tem que achar uma saída. E rápido. — disse. — Já passou da hora de tirar a família Meireles do caminho.

Fez uma pausa. O olhar escureceu.

— E, pra piorar… a Soraia voltou pra me infernizar. Me ameaçou dizendo que montou um dossiê contra mim. Disse até que tem a cápsula daquele remedinho…

A voz dele baixou.

— …que eu usei contra a velha.

Xavier se inclinou pra frente, assustado.

— Você deixou a cápsula lá? — perguntou. — Aí você vacilou feio, Rodrigo.

Rodrigo passou a mão pela nuca, irritado.

— Eu não sei! — respondeu. — Eu tive cuidado… mas pode ter caído. Como é que eu vou saber?

Caminhou até o lado da mesa, inquieto.

— Por outro lado… vindo da Soraia, pode ser blefe. Mas também não faria sentido. Como ela saberia disso? Só eu e você sabíamos desse remédio.

— Abre o olho. — disse Xavier, preocupado. — Essa mulher é perigosa e totalmente camicase. Age por impulso… não mede consequência. É dessas que se joga sem pensar.

Rodrigo ficou em silêncio por um instante.

Então se levantou lentamente e caminhou até a janela.

Ficou alguns segundos olhando pra fora.

— Já deu de Soraia.

Virou-se devagar.

— A gente precisa tirar ela do nosso caminho. E rápido.

Xavier não respondeu. Apenas observava.

Rodrigo deu alguns passos pela sala, calculando cada palavra.

— E tem que parecer um acidente. — disse, mais baixo. — Não posso levantar nenhuma suspeita.

Parou.

Um leve sorriso surgiu.

— Melhor ainda… se o pangaré do Bira for junto.

Olhou direto para Xavier.

— Aí eu resolvo dois problemas de uma vez só.

Xavier balançou a cabeça, tenso.

— Eu tô preocupado, Rodrigo. — admitiu. — O cerco tá fechando por todos os lados. Isso tá saindo totalmente do controle.

Rodrigo soltou um riso curto, arrogante.

— Deixa de ser frouxo. — rebateu. — Ninguém vai me impedir de conseguir o que eu quero.

═══🎭✦✧ Delegacia ✧✦🎭═══

Artur estava sentado, os ombros tensos, os olhos evitando contato direto. Ainda assim, sua voz tentava se manter firme.

— Toda a holding é falsa… — começou, nervoso. — TexHold simplesmente não existe, nunca existiu. Foi tudo montado. O seu Rodrigo contraste um hacker. Criaram um fundo falso… documentos, histórico… tudo. Parecia legítimo. Foi assim que convenceram o senhor Meireles a fechar negócio.

Do outro lado da mesa, Will e Tony trocaram um olhar rápido.

— E você entrou como peça-chave nisso. — disse Will, firme. — O representante da empresa de fachada.

Inclinou-se levemente.

— Foi o Rodrigo quem te procurou? De onde ele o conhecia?

Artur negou com a cabeça.

— Não… quem me procurou foi o Dr. Xavier.

Hesitou, visivelmente constrangido.

— Eu… já o conhecia. Das noites.

Will estreitou o olhar.

— Das noites?

Artur engoliu seco.

— Quando cheguei ao Brasil… eu precisava muito de dinheiro. — confessou. — Acabei aceitando trabalhar como GP por um tempo. Foi assim que conheci o Dr. Xavier. Ele era meu cliente.

Tony franziu a testa, confuso.

— GP?

Will respondeu sem tirar os olhos de Artur:

— Garoto de programa, Tony.

— Ah… — murmurou ele, sem graça.

Will fez um leve gesto.

— Continue.

Artur entrelaçou os dedos, tentando se recompor.

— Ele disse que era um trabalho simples… representar uma empresa estrangeira numa negociação. — explicou. — Me deram um roteiro completo… o que falar, como agir… documentos falsos… tudo muito bem preparado.

Um sorriso surgiu.

— Disseram que a sede era em Lisboa… e o meu sotaque ajudou. Tornava tudo mais convincente.

Will recostou-se na cadeira, absorvendo cada detalhe.

— Muito bem, Artur… — disse, sério. — O que você acabou de confessar é grave. Isso configura estelionato. Você participou de um esquema fraudulento pra enganar a vítima.

Fez uma pausa.

— E eu vou ter que te reter aqui.

Artur baixou o olhar, o corpo travando.

— Isso quer dizer… que vou ser preso?

Will balançou a cabeça.

— Você vai ficar detido até que sua situação seja avaliada.

Artur respirou fundo, visivelmente abalado.

— Mas eu estou a colaborar! Eu contei tudo… tudo que sei! Isso não conta de nada?

Will inclinou-se levemente à frente.

— Conta, sim. E pode pesar a seu favor mais adiante. — disse. — Mas não apaga o crime que você cometeu.

Fez um gesto discreto com a cabeça.

— Você tem direito a um advogado. Se não puder pagar, será assistido por um defensor público.

Um policial se aproximou.

Artur se levantou, ainda atordoado, e foi conduzido para fora.

Ao cruzar o saguão, deu de cara com Daiana e Fabinho, que aguardavam.

Daiana deu um passo à frente e se aproximou.

— O que eu prometi, eu vou cumprir. — disse, firme. — Vou entrar em contato com um advogado pra te ajudar. E também vou enviar o dinheiro pro tratamento do seu pai.

Artur a encarou, emocionado.

— A senhorita é muito boa… — disse, com a voz embargada. — Não sei nem o que dizer. Me perdoe… por ter prejudicado o seu pai.

Daiana sustentou o olhar dele.

— Colabore com a polícia. — respondeu. — É assim que você vai começar a me agradecer.

O policial o conduziu.

Fabinho observava em silêncio.

═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil — Sala do Meireles ✧✦🎭═══

Sentado em sua cadeira de rodas, Meireles mantinha o olhar perdido, como se revisasse mentalmente cada decisão que o trouxe até ali.

Angelina permanecia ao lado, atenta, mas também abatida.

— Essa empresa virou uma tremenda bagunça, Angelina… — disse ele, com a voz pesada. — Como foi que eu deixei isso acontecer?

Respirou fundo, emocionado.

— Isso aqui sempre foi o meu sonho… o trabalho de uma vida inteira. E, de repente… eu vejo tudo escorrendo pelos dedos.

Angelina colocou a mão sobre a dele, firme.

— Também não é assim, meu amor. — disse, com suavidade. — O seu erro foi confiar em pessoas erradas.

O olhar dela endureceu.

— Primeiro o Antunes… que você considerava um amigo. Depois o Rodrigo… que eu mesma tratava como se fosse um filho.

Meireles balançou a cabeça, incrédulo.

— É difícil aceitar… — murmurou. — Ver pessoas tão próximas se revelarem assim… lobos em pele de cordeiro.

Fez uma pausa.

— E agora? Em quem a gente pode confiar aqui dentro?

Angelina levantou o olhar, animada.

— No Dr. Rui… e no Cláudio. — respondeu, com convicção. — Sempre foram corretos. Sempre trabalharam com honestidade. E se o Rodrigo teve tanta pressa em demitir os dois… é porque eles representam um perigo pra ele. Eles podem desmascarar tudo.

Meireles ficou atento.

— Faz sentido…

Angelina assentiu.

— Vamos procurar o Cláudio. — sugeriu. — Ele pode nos ajudar a levantar uma nova auditoria. Dessa vez, limpa. Sem interferência.

Meireles ficou pensativo por um instante… então decidiu.

— Você tá certa. — disse. — Eu vou ligar pra ele agora.

Pegou o celular e discou.

— Mas não quero esse encontro aqui na empresa. — continuou. — Prefiro que seja lá em casa. É mais seguro.

Angelina concordou com a cabeça.

— Melhor mesmo.

Meireles fez a ligação.

— Alô… Cláudio? — disse, ajustando a voz. — Eu sinto muito pelo que aconteceu. Eu queria ter conversado melhor com você antes de qualquer decisão.

Pausou, ouvindo do outro lado.

— Será que você pode ir até a minha casa daqui a umas duas, três horas?

Olhou rapidamente para Angelina.

— Não… aqui na Mulambo não. Prefiro que seja na minha casa. Certo… vou te mandar a localização. Fico te aguardando.

Desligou devagar.

═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil — Sala do Rodrigo ✧✦🎭═══

Xavier permanecia sentado, o olhar perdido.

Rodrigo o observava, incomodado.

— Você tá estranho, Xavier… — disse, desconfiado. — E eu não tô gostando nem um pouco dessa sua cara. O que tá acontecendo?

Xavier soltou um suspiro longo, como se estivesse carregando um peso grande demais.

— Você não tá percebendo, Rodrigo? — respondeu, sério. — As coisas estão saindo dos eixos.

Ergueu o olhar, finalmente encarando-o.

— Você tem noção da sua lista de crimes?

Fez uma pausa.

— E pior… eu tô no meio disso tudo com você.

Rodrigo riu de canto, sem humor.

— Vai amarelar agora? — retrucou. — Quem não tá comigo… tá contra mim.

Antes que Xavier respondesse, bateram à porta.

— Entra.

A porta se abriu.

Talita entrou, seguida por um oficial de justiça.

— Com licença, seu Rodrigo. — disse ela. — Um oficial de justiça…

Rodrigo franziu a testa, irritado.

— Mas o que significa isso?

O oficial se manteve formal.

— Se trata de uma intimação. O senhor poderia assinar aqui, por gentileza?

Rodrigo pegou o documento, leu rapidamente — o suficiente pra entender que não era coisa simples — e assinou.

O oficial virou-se para Xavier.

— O senhor é o Dr. Otávio Xavier?

Xavier engoliu seco.

— Sim… sou eu.

— Temos uma intimação para o senhor também. Assine aqui, por favor.

Sem dizer nada, Xavier assinou.

O oficial destacou a via e entregou a ele.

— Essa via é sua.

Sem mais palavras, o oficial saiu, acompanhado por Talita.

A porta se fechou.

O silêncio voltou — mais pesado que antes.

Xavier foi o primeiro a quebrá-lo.

— Tá vendo? — disse, apontando o papel. — Isso só confirma o que eu tô falando.

Andou pela sala, irritado.

— Isso tem dedo da Soraia. Você mesmo disse que ela tava com um dossiê.

Rodrigo olhava fixamente para a intimação, pensativo.

— Soraia não seria louca… — murmurou, já indo até a porta. — Eu vou lá agora ver do que se trata. Vambora.

— Não. — respondeu Xavier, seco.

Rodrigo parou.

— Como é?

— Eu preciso passar no escritório antes. Resolver umas coisas. — disse, sem encará-lo. — Vai indo… depois a gente se encontra lá.

Rodrigo se virou completamente, encarando-o.

— Eu tô falando que você tá estranho. — disse, desconfiado. — Você é meu advogado. Como é que eu vou chegar lá sozinho?

Xavier finalmente levantou o olhar.

— O advogado que tá te acompanhando nesse caso é o namorado da sua mãe… não sou eu.

Rodrigo estreitou os olhos.

— É impressão minha… ou você tá querendo soltar minha mão?

Xavier se aproximou devagar.

— Eu também fui intimado, Rodrigo. — respondeu, firme. — Não tá vendo isso?

Ergueu o papel na mão.

— Não tem como eu te representar agora. Eu preciso pensar na minha defesa.

Rodrigo ficou em silêncio por um instante.

— Tá certo. — disse, seco. — Eu vou lá sozinho ver do que se trata isso.

Deu dois passos em direção à porta… mas parou.

Virou o rosto lentamente para Xavier.

— Vai ficar aí na sala mesmo? — perguntou, com um leve tom de provocação. — Bora.

Xavier o acompanhou, sem graça.

═══🎭✦✧ Em algum lugar pela cidade ✧✦🎭═══

O carro estava estacionado em uma rua pouco movimentada.

Dentro, Fabinho estava no banco de trás, inclinado entre os bancos, olhando para Daiana com admiração.

— Minha irmã… eu tô muito orgulhoso de você. — disse, sorrindo de leve. — Você foi muito corajosa enfrentando aquele cara.

Gabriel, no banco do passageiro, ainda parecia inquieto.

— Corajosa… e imprudente. — retrucou, olhando pra ela. — Eu fiquei com o coração na mão. A gente não sabe direito quem é esse Artur… ele podia ter feito qualquer coisa.

Daiana apoiou a cabeça no banco, tranquila.

— Ele não é uma pessoa ruim. — respondeu. — O Artur é alguém perdido. Sabe aquele tipo que quer viver bem, ganhar dinheiro fácil, sem pensar muito nas consequências? Pois é, esse é o Artur. O que acaba tornando ele fácil de ser manipulado.

Fabinho soltou uma risadinha.

— O que, nesse caso, foi ótimo pra gente, né? — comentou. — Porque você conseguiu manipular ele também.

Daiana ergueu as sobrancelhas, divertida.

— Pois é… o jogo virou.

— Será que a polícia já vai chamar o Rodrigo pra depor? — Questionou Gabriel.

Fabinho assentiu com segurança.

— Com certeza. Depois de tudo isso que o Artur falou… é questão de tempo.

Gabriel abaixou o olhar, a tensão voltando.

— Mesmo assim… ainda não temos prova de que era o Rodrigo naquele vídeo. E o pior que o canalha conseguiu colocar minhas digitais na arma usada no crime.

A voz dele pesou.

— Pra polícia, ainda pode ser eu. Eu não ainda posso voltar pra casa.

Daiana Segurou a mão dele.

— Vai poder, sim. — disse, com convicção. — Se o Rodrigo for detido por causa desses crimes na Mulambo… tudo muda.

O olhar dela era seguro.

— Você vai poder ir até a delegacia… contar tudo. A partir daí, a polícia vai aprofundar as investigações.

Apertou a mão dele com mais força.

— E uma hora… a verdade vai aparecer meu amor.

Fabinho assentiu, concordando.

— O castelo de areia dele já começou a cair. Agora é só questão de tempo.

═══🎭✦✧ Delegacia ✧✦🎭═══

Rodrigo estava sentado diante da mesa, postura controlada, olhar firme — como alguém que já havia ensaiado cada palavra.

— Eu não sei que acusações são essas, doutor. — começou, com aparente tranquilidade. — Eu comprei uma holding que já existia. Reativei o CNPJ, quitei débitos… fiz tudo dentro da lei.

Empurrou os documentos sobre a mesa.

— Tá tudo aí comprovando. Agora, se essa holding é falsa… então eu também fui enganado.

Will pegou os papéis, analisando com atenção.

— É… olhando por cima aqui… não vejo nenhuma irregularidade aparente. — disse. — Tony, tira cópias disso pra mim, por favor.

Tony pegou os documentos.

— Isso tá com cara de armação. — Rodrigo continuou. — Alguém que sabe do processo que eu já respondo pela morte do Antunes… tá tentando me derrubar dentro da empresa.

Fez uma pausa estratégica.

— Inclusive, recentemente eu precisei demitir dois funcionários. Após uma auditoria rigorosa. Descobrimos falhas graves… financeiras. Não duvido nada que esse tal de Artur esteja envolvido nisso.

Will apoiou os cotovelos na mesa, pensativo.

— E por que ele confessaria um crime… envolvendo você e o Dr. Otávio Xavier? — questionou. — Até onde sei, Xavier era só um investidor… e agora tá diretamente ligado à empresa.

Rodrigo manteve o controle.

— A Mulambo tá passando por dificuldades. — respondeu. — E eu tô fazendo o possível pra levantar aquilo. O Dr. Xavier tem se mostrado útil… por isso ganhou mais espaço.

Deu de ombros.

— Agora, sobre esse português… eu não tenho o que dizer. Vi esse homem uma única vez. No dia da assinatura do contrato.

Will estreitou o olhar.

— Então você nega todas as acusações sobre a falsificação da TexHold?

Rodrigo soltou um leve riso de descrédito.

— Evidentemente. São acusações esdrúxulas, absurdas... Sem fundamento.

Mostrando preocupação.

— Mas confesso que agora fiquei curioso. Também quero saber se fui enganado. Afinal… investi dinheiro nisso.

Fez uma pausa.

— Gostaria de falar com esse português. Quero entender de onde vêm essas acusações.

Will pensou por alguns segundos. Trocou um olhar com Tony.

— Tudo bem. — decidiu. — Eu vou permitir essa conversa.

Tony entregou um documento.

Will girou a folha na direção de Rodrigo, junto com uma caneta.

— Só preciso que você assine esse termo de ciência. Procedimento padrão.

— Como desejar.

Rodrigo pegou a caneta…

E, sem hesitar, levou direto à mão esquerda.

Assinou com naturalidade.

Will observou em silêncio.

Um detalhe pequeno.

Mas… suficiente.

— Não tinha reparado que você é canhoto. — comentou, casual.

Rodrigo sorriu de canto.

— Pois é… espero que isso agora não seja crime também.

Will devolveu o sorriso, seco.

— Se fosse… faltaria cela pra muita gente. Inclusive pro Tony aqui.

— Ei, me deixa fora disso. — resmungou Tony.

Will fez um gesto para o policial na porta.

— Pode levá-lo até a cela do português.

Rodrigo se levantou e saiu, confiante.

A porta se fechou.

E, naquele instante…

algo se encaixou.

O olhar de Will mudou.

Uma lembrança atravessou sua mente como um estalo.

Gabriel… assinando o primeiro depoimento.

Com a mão direita.

Will se levantou abruptamente.

— Tony… preciso ver o vídeo. Agora.

Foi até o computador, quase sem esperar resposta.

— O que foi? — perguntou Tony, indo atrás.

— Um detalhe que eu deixei passar.

O vídeo foi aberto.

Will avançou até o momento do disparo.

Deu pause.

Apontou para a tela.

— Tá vendo isso?

Tony se aproximou.

— A arma…

— A mão. — corrigiu Will, firme. — Presta atenção na mão.

O silêncio se fez.

— O tiro foi com a esquerda.

Tony arregalou os olhos.

Will continuou, agora com certeza absoluta na voz:

— O Gabriel é destro. Eu lembro o dia em que ele assinou.

Apontou novamente para a tela.

— Já o Rodrigo… é canhoto.

Uma pausa.

— Não tem mais dúvida.

O peso da descoberta caiu entre os dois.

— Foi ele, Tony. Foi o Rodrigo que matou o Antunes.

Agora…

não era mais suspeita.

Era prova começando a ganhar forma.

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