MINHA OUTRA FACE

43 O caminho da verdade


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═══🎭✦✧ Delegacia ✧✦🎭═══

Will permanecia sentado diante do computador, os olhos fixos na imagem pausada do vídeo.

Tony estava ao lado, acompanhando tudo.

— E agora? — Interrogou Tony. — Não podemos manter o Rodrigo aqui só com essa informação. Até porque, no exame de papiloscopia, só encontraram digitais do Gabriel na arma do crime.

Will continuou olhando para a tela por alguns segundos antes de responder.

— Pois é… a conta ainda não fecha, Tony. — disse, sério. — Porque, claramente, pelo que a gente tá vendo aqui… o Rodrigo é o culpado.

Tony franziu a testa.

— Mas como você pode ter tanta certeza de que o Gabriel é destro? Eles são gêmeos. Os dois podem muito bem ser canhotos.

— Eu tenho certeza. — Will respondeu. — Naquela vez, quando o Gabriel veio prestar depoimento, eu fiquei observando uma daquelas fitinhas de promessa no braço dele enquanto ele assinava os papéis. Ele escrevia com a mão direita, Tony. Por isso eu tenho certeza de que o Gabriel é destro.

Will apontou para a imagem congelada no vídeo.

— E o homem que aparece atirando aqui tá usando a mão esquerda. Ou seja… quem tá nesse vídeo é o Rodrigo.

Tony ficou em silêncio, absorvendo a informação.

— Agora o que ainda não encaixa… — continuou Will — é como as digitais do Gabriel foram parar naquela arma. A gente vai dar continuidade ao inquérito. Mas, se antes eu desconfiava do Gabriel, diante de tudo o que observamos aqui, eu posso garantir que o Rodrigo é o autor desse crime.

Will fez uma pausa antes de completar:

— E tenho quase certeza de que ele também tá envolvido nesse rolo da holding.

Tony soltou o ar lentamente.

— Será que finalmente a gente vai conseguir dar um fim nesse caso?

Will encarou novamente a tela do computador.

— Acho que agora a gente começou a chegar perto da verdade, Tony.

═══🎭✦✧ Sala de Visitas — Delegacia ✧✦🎭═══

Rodrigo aguardava sentado à mesa metálica da sala de visitas.

A porta se abriu.

Artur entrou algemado, acompanhado por um policial. Assim que viu Rodrigo, arregalou os olhos, claramente surpreso. Caminhou devagar até a cadeira e sentou-se diante dele, separados apenas pela mesa estreita.

Por alguns segundos, os dois apenas se encararam.

Então Rodrigo tomou a iniciativa, fingindo um distanciamento.

— Como vai… Artur? — perguntou. — É esse o seu nome, né? Desculpe… a gente se viu tão pouco que eu acabei não decorando direito.

Artur franziu o cenho imediatamente.

— Não estou a perceber, senhor Rodrigo… por que é que agora está a fingir que não me conhece?

Rodrigo deu de ombros, como se estivesse diante de um estranho qualquer.

— Eu é que não tô entendendo essas acusações em cima de mim. Isso baseado em quê, rapaz? Eu comprei a TexHold dentro da lei. Dentro dos parâmetros que você me apresentou. Agora vem me dizer que tudo isso é falso?

Artur soltou uma risada curta, incrédula.

— Agora estou a começar a perceber qual é a sua, senhor Rodrigo… O senhor vai fazer-se de sonso para atirar a culpa toda para cima de mim, não é isso?

Ele se inclinou um pouco sobre a mesa.

— Olhe… eu não tinha intenção de o denunciar. Nós falámos. E o senhor garantiu que me ia dar dinheiro para o tratamento do meu pai. Eu não entendi foi por que razão, nesse nosso último encontro… quem apareceu foi a filha do senhor Meireles. Fiquei sem saída. Não sabia o que fazer.

Rodrigo ficou confuso. Olhou discretamente para a porta, verificando se o policial prestava atenção.

Então abaixou a voz.

— Tô entendendo nada do que você tá falando. Que encontros são esses? — aproximou-se mais. — Eu já não paguei seu maldito dinheiro? Paguei tudo certinho. Conforme o combinado.

— Pagaste, sim… — respondeu Artur. — Mas não é desse dinheiro que estou a falar. Refiro-me ao dinheiro que prometeste para ajudar no tratamento do meu pai.

Rodrigo estreitou os olhos.

— Eu nem sabia que teu pai tava em tratamento. Tá querendo me deixar maluco? Não tá falando coisa com coisa.

Artur o encarou, confuso com a reação.

— Claro que sabia. Eu contei-lhe no dia em que apanhaste o meu carro de aplicativo… e depois, outra vez, no dia em que nos encontrámos naquele barzinho.

Rodrigo congelou.

— Eu… me encontrei com você num barzinho?

E então…

A ficha começou a cair.

As palavras de Soraia ecoaram na mente dele:

"Você já imaginou que o Gabriel também pode não ter morrido?"

Rodrigo engoliu seco.

— Espera aí… — murmurou, agora sério. — Você tá me dizendo que um cara parecido comigo andou contigo num carro de aplicativo… e depois encontrou você num bar?

Artur franziu ainda mais o cenho.

— Mas não era um tipo parecido… era o senhor.

Rodrigo empalideceu.

Os pensamentos começaram a se atropelar.

— Não… — sussurrou, transtornado. — Não pode ser isso que eu tô pensando. Ele tinha que tá morto…

— Não estou a entender nada. — disse Artur, assustado. — Quem é que está morto?

Rodrigo percebeu o que havia dito e imediatamente tentou se recompor.

— Ninguém, criatura. Ninguém.

Levantou-se depressa, visivelmente abalado.

Caminhou até a porta e bateu nela com força.

— Por favor… abre aqui.

Do outro lado, pela grade da porta o policial observou e se aproximou para abrir.

═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══

Sentado à mesa, Claúdio analisava os registros com atenção absoluta. Ao lado, Meireles observava tudo em sua cadeira de rodas, sério, inquieto. Angelina permanecia em pé.

— Tem alguma coisa errada aqui, seu Meireles… — disse Claúdio, com o olhar fixo na tela. — Tem registros modificados através do meu login… mas não fui eu que fiz isso.

Angelina se aproximou um pouco mais.

— Será que usaram o seu acesso?

Cláudio abriu outros arquivos, comparando datas e horários.

— Olha isso… — apontou para a tela. — Tem movimentação em horários em que eu nem estava na empresa.

Ele clicou em mais um relatório.

— E não foi só acesso. Houve alteração direta nos dados. Alguém mexeu nos relatórios. E quem fez isso sabia exatamente o que estava procurando… e como alterar sem chamar atenção.

Meireles franziu a testa, preocupado.

— Mas, pra usar seu login… essa pessoa precisava da sua senha.

Cláudio recostou-se devagar na cadeira, pensativo.

— Teve um dia… — murmurou. — O senhor Rodrigo apareceu lá na auditoria.

Angelina e Meireles prestaram ainda mais atenção.

— Ele ficou perto demais da minha estação. Observando tudo. Fazendo perguntas que não faziam o menor sentido pra alguém da área dele.

Cláudio respirou fundo, lembrando.

— Eu achei estranho… mas não dei importância. Aí eu levantei pra ir ao banheiro. Quando voltei, ele já tinha saído.

Fez uma pausa.

— Só que… eu percebi que tinham mexido no computador que eu tava usando.

Angelina trocou um olhar imediato com Meireles.

— Impressionante… — comentou. — Então era exatamente isso que a gente suspeitava, Meireles.

Ela cruzou os braços.

— O Rodrigo adulterou esses registros pra prejudicar o Cláudio… e ainda deu um jeito de jogar a culpa no doutor Rui pra colocar o comparsa dele no lugar.

Meireles apertou os braços da cadeira, revoltado.

— Canalha…

Cláudio voltou os olhos para a tela.

— E eu acredito que ele teve ajuda de alguém lá de dentro. Porque isso aqui não foi trabalho de uma pessoa só.

Ele virou o notebook um pouco na direção deles.

— Quem fez o relatório da primeira auditoria?

— Mauro. — respondeu Meireles imediatamente. — Esse é outro que a gente já vinha suspeitando.

Cláudio assentiu devagar.

— Então pronto… já temos uma direção.

Ele começou a digitar novamente.

— Vou fazer o seguinte: primeiro vou puxar os backups antigos e comparar com os dados atuais. Se houve alteração… eu encontro.

Os dedos dele aceleraram no teclado.

— E não só isso. Vou conseguir mostrar exatamente onde mexeram, o que foi alterado e quando aconteceu.

Angelina observava tudo atentamente.

— Depois disso… quero mapear o padrão. Horários, tipo de alteração, arquivos acessados… tudo.

Cláudio ergueu o olhar, agora muito mais determinado.

— E depois de desfazer o que foi adulterado pelo Rodrigo… eu posso tentar montar um novo relatório. Um relatório limpo. O mais próximo possível da verdade.

Meireles respirou fundo, abalado.

— Faça isso, Cláudio. — pediu, sério. — Eu preciso entender o tamanho do rombo que fizeram dentro da minha empresa.

Cláudio assentiu.

— Isso vai demorar um pouco seu Meireles. Mas eu vou ver o que eu posso fazer.

═══🎭✦✧ Rua ✧✦🎭═══

Rodrigo dirigia pelas ruas quase vazias.

Uma das mãos apertava o volante enquanto a outra insistia no celular.

Chamando.

De novo.

E de novo.

Nada.

A ligação caía direto na caixa postal.

Rodrigo bateu no volante, tomado pela tensão.

— Atende, Xavier… atende! — rosnou entre os dentes.

Tentou ligar mais uma vez.

O mesmo resultado.

— Onde você se meteu? — murmurou, nervoso. — Telefone desligado… não tô acreditando nisso. Esse idiota vai me deixar na mão justo agora?

Pisou mais fundo no acelerador.

— Se ele pensa que vai me virar as costas. Tá muito enganado. Eu vou até a casa dele.

═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══

Daiana e Fabinho estavam na sala de seu pai.

— Rodrigo tá sem saída. — afirmou Daiana. — Com a confissão do Artur, a polícia agora vai cair em cima pra investigar todos os contratos e documentos envolvendo a transição da TexHold.

Fabinho assentiu.

— E o Cláudio tá lá em casa fazendo uma nova varredura na contabilidade da empresa. Se teve tramoia do Rodrigo na primeira auditoria… agora a gente descobre.

Fabinho ficou pensativo.

Então respirou fundo.

— Acho que chegou a hora da gente contar pros nossos pais tudo o que viemos investigando.

Daiana parou por um instante.

— Inclusive sobre o Gabriel?

Fabinho confirmou com a cabeça.

— Precisamos contar. Até pra explicar como a gente chegou no Artur.

Daiana abaixou o olhar, hesitante.

— Talvez você tenha razão… — admitiu. — Não dá mais pra esconder isso.

Antes que pudessem continuar, gritos ecoaram do lado de fora da sala.

— Minha filha, eu entro onde eu quiser! Quem é você pra me impedir?!

Fabinho franziu a testa imediatamente.

— Mas o que é isso? O que tá acontecendo?

Daiana reconheceu a voz na hora.

— Essa é a Soraia.

Os dois saíram rapidamente da sala.

No corredor, encontraram Talita tentando conter Soraia, que discutia exaltada diante de uma porta fechada.

— Mas eu já falei que não tenho a chave dessa sala! — dizia Talita, nervosa. — Não tem como a senhora entrar!

— Então dá um jeito! — rebateu Soraia. — Não é possível que não exista uma cópia!

Daiana foi se aproximando.

— Mas que algazarra é essa? Você acha que tá onde?

Soraia virou-se lentamente, exibindo um sorriso venenoso.

— Olha só quem apareceu… a canelinha seca de seriema. Sabe onde eu estou? Na minha empresa. Gostaria de lembrar que o meu marido é o dono majoritário da Mulambo. O que também me faz dona disso aqui.

Os olhos dela desceram lentamente sobre Daiana.

— E você, queridinha… faz o quê aqui mesmo? Qual é a sua porcentagem nas ações?

Daiana deu um passo à frente.

— Não me provoca, Soraia… porque não é de hoje que a minha mão tá coçando pra ir na sua cara.

Fabinho segurou discretamente o braço dela.

— Daiana, se controla. Não vale a pena.

Soraia soltou uma gargalhada carregada de escárnio.

— Ah, mas isso eu queria ver.

Ela aproximou-se mais.

— Nem nas nossas briguinhas de infância você conseguia me bater. Sempre apanhava. Depois saía correndo pra chorar atrás da mamãezinha.

Os olhos de Daiana faiscaram de raiva.

— Sua sorte é que eu respeito a empresa do meu pai. Porque, se a gente estivesse em outro lugar… você ia descobrir rapidinho quem sairia correndo atrás da mamãezinha.

Soraia abriu um sorriso lento.

— Tô ansiosa pra esse dia.

— Daiana. — Fabinho insistiu, firme. — Vamos voltar pra sala. Não compensa.

Daiana continuava encarando Soraia como se pudesse avançar nela a qualquer momento.

— Você ainda vai ter o que merece.

— Vem, Daiana. — Fabinho puxou-a pelo braço com cuidado. — É isso que ela quer.

Relutante, Daiana acabou cedendo e entrou novamente na sala com Fabinho.

Soraia acompanhou os dois com um sorriso cínico nos lábios.

Só depois voltou-se para Talita.

— E então, minha filha? Já arrumou a chave que eu pedi?

Talita respirou fundo, desconfortável.

— Eu já falei… não tenho outra chave dessa sala.

O semblante de Soraia endureceu imediatamente.

— Incompetente.

═══🎭✦✧ Em frente ao prédio de Xavier ✧✦🎭═══

Rodrigo estava diante da portaria do edifício, visivelmente agitado. O porteiro o observava com certa cautela do outro lado do balcão.

— Eu preciso falar com o doutor Otávio Xavier. — disse Rodrigo, tentando manter a calma. — Ele mora no 402.

O porteiro balançou a cabeça.

— O Dr. Xavier viajou.

Rodrigo franziu a testa imediatamente.

— Como assim viajou? Eu estive com ele hoje mais cedo. Ele não me falou nada disso.

O homem deu de ombros.

— Aí eu já não sei informar, senhor. Só sei que ele chegou aqui, pegou uma mala e disse que ia viajar. Não falou mais nada.

Rodrigo ficou imóvel por um instante, processando aquilo.

— Tudo bem… — respondeu, seco.

Afastou-se da portaria e caminhou até o carro.

— Covarde… — murmurou sozinho. — Deu no pé quando viu que a corda começou a arrebentar.

Entrou no carro e bateu a porta com força.

Por alguns segundos, permaneceu parado, as mãos apertando o volante enquanto os pensamentos corriam desordenados.

— Tem que ter outra explicação. Aquele português burro deve ter feito confusão.

Mas nem ele parecia acreditar totalmente nisso.

A lembrança da conversa com Artur voltou com força.

"No dia em que apanhaste o meu carro de aplicativo…"

"No dia em que nos encontrámos naquele barzinho…"

Rodrigo engoliu seco.

— Mas… e se foi o Gabriel mesmo?

Os olhos dele ficaram inquietos.

— Se ele não deu as caras… e ainda se passou por mim… então ele deve tá sabendo de muita coisa. E isso significa que ele pode tá muito mais perto do que eu imagino.

Rodrigo ligou o carro bruscamente..

— Eu vou tirar essa história a limpo… agora.

E arrancou com o carro pela avenida.

═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══

A luz do notebook iluminava parcialmente o rosto concentrado de Cláudio, que analisava arquivos e planilhas.

Ao lado dele, Meireles acompanhava tudo em silêncio da cadeira de rodas.

De repente, Cláudio parou de digitar.

Os olhos se estreitaram diante da tela.

— Seu Meireles… encontrei uma coisa grave aqui.

Meireles imediatamente se ajeitou na cadeira.

— O que foi?

Cláudio virou um pouco o notebook na direção dele.

— Existem vários desvios para uma conta no Panamá. — explicou. — A conta tá registrada no nome de um tal de Adolfo Pereira da Silva.

O semblante de Meireles mudou na hora.

Cláudio continuou:

— Esses repasses acontecem há anos. E não são valores pequenos. Se somar tudo isso aqui… estamos falando de milhões. Isso aqui, sem sombra de dúvida, é caixa dois.

Meireles pensou por um instante e lembrou.

— Pera aí… Adolfo? — murmurou. — Esse nome…

Os olhos dele se arregalaram lentamente.

— Claro… o comprovante do pagamento que eu recebi pela venda das minhas ações veio justamente nesse nome. Quem pode ser essa pessoa?

Cláudio levantou o olhar.

— Como assim seu Meireles?

— O dinheiro que recebi como pagamento da venda das minhas ações, veio no nome desse Adolfo. Eu pensei que fosse algum representante da TexHold. Então isso quer dizer que o Rodrigo usou dinheiro desviado da Mulambo pra comprar as ações que eram minhas?

A revolta tomou conta da voz dele.

— Mas que canalha…

Cláudio voltou a analisar os registros.

— Pela data… isso aqui existe desde a época do senhor Antunes.

Meireles fechou a expressão imediatamente.

— Você tá me dizendo que…

— Muito provavelmente o Rodrigo e o senhor Antunes eram cúmplices. — completou Cláudio. — Isso parece um esquema antigo. Bem estruturado.

Meireles passou a mão pelo rosto, abalado.

— Meu Deus… como eu não percebi isso antes?

Cláudio fechou alguns arquivos e abriu novos documentos.

— Tem muito mais coisa escondida aqui. Eu ainda tô rastreando o caminho desse dinheiro.

Meireles ergueu o olhar, agora tomado por indignação.

— Faça um relatório completo, Cláudio. Com tudo o que você conseguir levantar. Isso agora virou caso de polícia.

Fez uma pausa antes de completar:

— Eu mesmo vou levar tudo isso pra delegacia. Rodrigo precisa pagar por cada crime que cometeu.

═══🎭✦✧ Casa da Mãe Joana ✧✦🎭═══

Joana e Kléber estavam no escritório do restaurante.

Mas, apesar do sucesso evidente, a expressão de Joana estava longe de transmitir tranquilidade.

Kléber percebeu.

— Tá tudo bem com o restaurante? — perguntou. — Aconteceu alguma coisa? Algo deu errado?

Joana balançou a cabeça.

— Não… pelo contrário. As coisas estão indo até melhor do que eu esperava.

Um sorriso discreto apareceu em seu rosto.

— Tenho recebido muitos elogios. O Fabrício criou uma página na internet pro restaurante… e já estamos com um monte de seguidores.

Kléber sorriu satisfeito.

— Então por que essa ruga de preocupação aí na testa?

O sorriso dela desapareceu aos poucos.

— Eu te falei sobre a visita do seu Meireles e da dona Angelina, né?

— Sim. Você comentou.

Joana abaixou o olhar por um instante.

— Eu fiquei envergonhada de encontrar os dois. Pedi desculpas por ter vendido minhas ações pro Rodrigo de última hora… mesmo depois de já ter me comprometido a vender pra eles.

Kléber aproximou-se um pouco mais dela.

— Esquece isso, meu bem. — disse, tranquilo. — Rodrigo, como coerdeiro, tinha o direito de preferência garantido por lei. Você só fez o que era certo… e o que era legalmente exigido.

Ele segurou a mão dela.

— O seu Meireles certamente entende como essas regras funcionam.

Joana suspirou, inquieta.

— Acontece que o seu Meireles me deu a entender que o Rodrigo tá aprontando alguma coisa.

Kléber ficou mais atento.

— Meu filho é ambicioso… — continuou ela. — E conviveu tempo demais com o Antunes. Às vezes eu tenho medo do que ele é capaz de fazer. Essa história dele virar sócio majoritário… de onde saiu tanto dinheiro? Coisa boa ele não tá fazendo.

Kléber respirou fundo antes de responder.

— Você pode tá certa. Eu também já venho desconfiando que existe coisa errada ali.

Joana abraçou os próprios braços, aflita.

— Por mais feliz que eu esteja aqui com o restaurante… às vezes eu penso que o melhor era não ter vendido minhas ações. Porque pelo menos eu poderia ficar lá dentro… de olho no meu filho.

— Joana… — continuou Kléber. — Você ficaria perdida naquele ambiente. E Rodrigo acabaria passando a perna em você facilmente. O melhor que você fez foi investir nisso aqui. No que você gosta. No que você entende. Rodrigo já é um homem adulto. Deixa que ele arque com as consequências dos próprios atos.

Ele segurou delicadamente o rosto dela.

— Você não pode parar sua vida por causa de filho.

Joana balançou a cabeça, preocupada.

— Meu coração tá apertado, Kléber… — confessou. — Eu sinto que esse menino vai se complicar cada vez mais.

═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══

O carro de Rodrigo surgiu no fim da rua e reduziu a velocidade até parar diante do portão do orfanato.

Lá dentro, Rodrigo observava em silêncio, os olhos fixos na fachada do Lar São Tarcísio.

— Se o Gabriel tá vivo… — murmurou, transtornado — é aqui que ele deve tá escondido.

O olhar dele percorreu toda a fachada.

— E se ele realmente voltou… não vai ficar vivo por muito tempo. Nesse mundo não existe espaço pra nós dois.

Ele fechou os olhos por um instante, tomado pela raiva.

— Desgraçado… depois de todo o trabalho que eu tive…

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