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═══🎭✦✧ Na delegacia... ✧✦🎭═══

Will estava sentado à sua mesa, olhos fixos na tela do computador. A gravação da noite do crime se repetia pela enésima vez. A imagem tremida mostrava o vulto do assassino descendo as escadas do porão, o clarão do disparo, a fuga apressada. Nada de novo. Ainda assim, Will continuava buscando o invisível. Tony entrou com seu habitual café na mão.

— Bom dia, Will. Madrugou na delegacia hoje, hein?

Will respondeu sem tirar os olhos da tela.

— Já assisti esse vídeo umas trezentas vezes, Tony. Na esperança de encontrar alguma pista, qualquer detalhe que me mostre se foi o Rodrigo ou o Gabriel. Mas está difícil.

Tony se aproximou, observando o vídeo com atenção.

— Os dois são iguais demais, Will. Difícil distinguir ao vivo, imagina em um vídeo embaçado desses.

— Tem que ter alguma pista. Um gesto, uma sombra, qualquer coisa. Só preciso de um detalhe que quebre esse espelho entre eles.

Tony sentou na cadeira ao lado.

— E a conversa com o Epaminondas ontem? Tirou alguma conclusão?

Will desviou os olhos da tela e encarou o parceiro.

— Por um momento, pensei que ele pudesse ser cúmplice do Gabriel. Mas é tudo muito solto ainda. Existem muitas brechas. E agora surgiu essa maleta. Precisamos saber exatamente o que tem nela, Tony.

Tony deu um gole no café e assentiu, sombrio.

— Segundo o próprio Epaminondas, a maleta agora foi parar nas mãos do Rodrigo.

Will se recostou na cadeira, e começou a balançar.

— Então não temos escolha. Precisamos de uma nova conversa com esses gêmeos. Urgente.

— Pode deixar, cuidarei disso.


═══🎭✦✧ Fazenda da Rita ✧✦🎭═══

O carro preto em que estavam Gabriel e Bira parou em frente à casa de Rita, no mesmo instante em que um táxi branco estacionava discretamente alguns metros atrás. De dentro dele desceu Soraia, que após pagar o motorista, caminhou com cautela pela lateral da propriedade. Os dois homens seguiram pela entrada principal, atravessando o velho portão de madeira, enquanto Soraia se esgueirava rente à parede externa da casa, até encontrar uma janela de madeira fechada. Curvou-se, colando o rosto à fresta, espiando com atenção.

Lá dentro, o aroma denso do incenso pairava sobre a sala, onde Rita passava com gestos lentos, espalhando a fumaça. Gabriel estava tenso, e Bira inquieto.

— Tem mesmo que acender esses negócios fedidos? — resmungou Bira, tapando o nariz com a mão.

— Isso ajuda a afastar os maus espíritos — respondeu Rita, sem sequer olhar para ele.

— Eu não posso demorar — murmurou Gabriel. — Se eu demorar muito, vai levantar suspeitas.

— Na verdade, eu nem sei por que você veio — disse Rita, com ar reprovador. — Não deve se expor dessa forma. Eu entregava pro Bira e ele levava.

— E deixar esse abestado se enrolar todo? — provocou Gabriel, lançando um olhar cínico para Bira.

— Êpa! Também não precisa esculachar — reclamou Bira.

— E o meu irmão? — questionou Gabriel.

Rita respondeu com tranquilidade desconcertante:

— Está bem... continua amarrado lá no paiol. De vez em quando vou lá levar comida pra ele.

Do lado de fora, Soraia prendeu a respiração. Seus olhos arregalados revelavam o choque: Rodrigo estava ali, preso no paiol.

— E o plano? — insistiu Gabriel. — Qual o próximo passo?

Rita se aproximou mais e falou com frieza calculada:

— Vamos seguir a sugestão da sua amiguinha. Eu vou dar um jeito de avisar a polícia sobre o paradeiro da arma, com as digitais do seu irmão. E você, prepare-se, pois agora, vai ter que convencer a polícia com seu talento dramaturgo.

— E depois, minha vó? — perguntou Bira, agora visivelmente mais nervoso.

— Um passo de cada vez, criatura. Não se deve colocar o carro na frente dos bois. Agora, venham. Vamos pegar o que vocês precisam levar. Cada movimento, daqui em diante, tem que ser milimetricamente pensado.

Os três saíram da sala e seguiram para a despensa. Soraia ao olhar para o fundo do quintal, viu um velho paiol de madeira, quase engolido pela vegetação.

— É ali, o Rodrigo só pode tá lá. Mas e agora, como eu chego lá sem eles me verem? — Murmurou em voz baixa.

Soraia deu mais uma espiada e notou que os três ainda estavam na despensa. Vendo a oportunidade, se afastou com agilidade e correu até lá.

Quando enfim chegou ao paiol, colou-se diante da madeira gasta e espiou por entre as gretas. O que viu congelou-lhe o sangue: Rodrigo, amordaçado, com as mãos amarradas para trás, o rosto sujo e os olhos arregalados implorando por socorro.

— Meu Deus... — sussurrou Soraia, emocionada. — Não acredito que o Gabriel foi capaz de fazer isso...

Aproximou-se da porta trancada com cadeado, tentando forçá-la.

— Bebê... vou te tirar daqui. Só preciso descobrir como abrir essa porta... — disse, enquanto Rodrigo gemia baixo, desesperado.

Mas antes que conseguisse pensar em qualquer plano, uma mão agarrou-lhe o braço com força. Soraia se virou, apavorada, encarando os olhos penetrantes de Rita.

— Esse paiol tá cheio de ratazana impertinente — disse a velha, com escárnio.

— Calma, vó — pediu Bira, se aproximando. — Pega leve com ela...

— Soraia — disse Gabriel, surgindo atrás — sempre bicando onde não é chamada.

Rita puxou um revólver de dentro da saia rodada.

— Vocês dois vão. Façam como combinamos. Essa ratazana aqui eu mesma resolvo.

— Minha vó, tenha calma. Não precisa matar a garota! — exclamou Bira, alarmado.

— Andem! — gritou Rita. — Já mandei!

Os dois homens hesitaram, mas acabaram obedecendo, seguindo em direção à saída da casa. Rita então abriu a porta do paiol, empurrou Soraia para dentro e a amarrou de costa para Rodrigo, também com a boca amordaçada.


═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══

Sentado no sofá da sala principal, Francisco aguardava, com sua pasta de couro apoiada sobre os joelhos. Ao ver irmã Rosália se aproximando, o advogado levantou-se com cortesia.

— Irmã Rosália! — cumprimentou, com um leve sorriso.

— Boa tarde, Dr. Francisco. Como vai? — respondeu a religiosa, estendendo-lhe a mão com gentileza.

— Estou bem, irmã. E a senhora?

— Também vou bem, graças a Deus. — ela se sentou na poltrona à sua frente. — Imagino que tenha vindo por causa do Gabriel.

—Exatamente — confirmou ele, já retomando o assento. — A polícia está requisitando a presença dele na delegacia o quanto antes. Querem esclarecimentos sobre a maleta. Pelo que me disseram, ela contém anotações, documentos... investigações feitas por ele sobre sua família. Eu preciso analisar esse material antes. Preciso saber o que Gabriel descobriu, para poder orientá-lo da forma correta.

Irmã Rosália suspirou, com os olhos baixos, e cruzou as mãos sobre o colo.

— Gabriel saiu bem cedo. Disse que iria consertar o notebook que havia estragado e ainda não voltou. Mas deve estar chegando.

— É fundamental que ele entregue essa maleta à polícia, antes que o irmão dele use aquilo contra ele. O rapaz já está tentando distorcer os fatos a seu favor.

A freira concordou com a cabeça, preocupada.

— Pois é aí que mora minha aflição, doutor... Pelo que soube, essa maleta já está nas mãos do irmão dele.

O advogado empalideceu por um instante.

— Não há como entrar em contato com Gabriel? Precisamos resolver isso hoje mesmo.

— O telefone dele estava fora de área — disse irmã Rosália, já se levantando. — Mas vou tentar mais uma vez.

Ela se dirigiu até a porta do corredor e chamou com firmeza:

— Ana! Veja se meu celular tá no escritório e traga aqui, por favor.

Poucos instantes depois, a jovem apareceu à porta.

— Me chamou, irmã?

— Sim, filha. Pega o celular que deixei no escritório. Preciso ligar para o Gabriel com urgência.

— Nem adianta, irmã... Acabei de verificar. O telefone dele continua fora de área.

Irmã Rosália levou a mão ao peito, inquieta.

— Meu Deus do céu... onde esse menino se meteu?


═══🎭✦✧ Fazenda de Rita ✧✦🎭═══

Rodrigo e Soraia permaneciam no paiol, amarrados de costas um para o outro, os pulsos e os tornozelos presos firmemente à mesma coluna de madeira. A boca amordaçada, impedindo que os dois conversasse. A porta se abriu, Rita entrou com um semblante impassível e um prato de comida nas mãos.

— Eu bem que podia deixar vocês morrerem de fome... — disse ela, com a voz baixa e amarga. — Mas ainda sou uma alma boa.

Caminhou devagar até um caixote encostado na parede e deixou o prato sobre ele.

— Presta bem atenção. Vou soltar só a mordaça de um de cada vez. Vou pôr a comida na boca, e espero que nenhum dos dois tente fazer gracinha. Porque se fizer... — ela ergueu um olhar ameaçador. — Eu mato, não terei piedade.

Começou por Rodrigo. Tirou-lhe a mordaça com um gesto rápido e alimentou-o em silêncio. Ele comeu devagar, com olhos baixos, sem protestar.

Depois, voltou-se para Soraia.

— Agora é a sua vez, sua ratazana. Podia estar livre disso tudo, mas é muito bicuda.

Soraia a encarava com ódio contido. Assim que a mordaça foi retirada, ela cuspiu com força no rosto de Rita, que recuou por instinto, ofendida e tomada por fúria.

O estalo da bofetada ressoou em seguida. Soraia girou o rosto com o impacto, os olhos ardendo de raiva e dor.

— Sua vadiazinha insolente! — rosnou Rita. — Vai ficar sem comida. Isso é pra deixar de ser malcriada.

Do outro lado, Rodrigo gemeu.

— Por favor... eu suplico. Me dá um pouco de água. Eu preciso... tô com muita cede.

Rita permaneceu imóvel por alguns segundos, como se considerasse se valia a pena atender o pedido. Por fim, bufou.

— Tá certo. Vou buscar. Mas se tentarem qualquer gracinha... — ergueu a pistola, apontando-a direto para Soraia — eu estouro os miolos dos dois. É melhor não brincar com a sorte.

Saiu em passos firmes, deixando-os finalmente a sós, e pela primeira vez sem mordaças. O silêncio foi quebrado por uma voz fraca.

— Maria... O que veio fazer aqui, Maria? Por onde você andou?

Soraia paralisou. Aquele tom... Aquilo não era Rodrigo. Virou o rosto devagar, o coração disparando.

— Gabriel?

— Sou eu, Maria.

Ela sentiu o mundo girar. Aquele tempo todo... O homem preso ao seu lado não era Rodrigo, era Gabriel.

— Então... fui enganada esse tempo todo. — sua voz saiu trêmula. — Rodrigo foi quem matou o Antunes.

Gabriel fechou os olhos por um instante.

— Ele me procurou, dizendo que queria conversar, que tinha uma proposta pra me fazer. Mas era tudo uma armadilha. Me sequestrou e me trouxe pra cá. — Respirou fundo. — Mas e você, Maria... Como você veio parar aqui?

Soraia hesitou. Estava cansada de mentiras.

— Eu... eu menti. Pra você e pra todo mundo do orfanato. Meu nome não é Maria. Eu sou a Soraia.

Gabriel não respondeu de imediato. Apenas assentiu, devagar.

— Eu já imaginava. Suspeitei que aquela história era mentira. Mas por quê? Por que tudo isso? Foi você que roubou minha maleta?

— Fui eu, sim. — murmurou ela. — E me arrependo. Sempre fui apaixonada pelo Rodrigo. Fiz tudo por ele. Roubei por ele, menti por ele... E no fim, ele me jogou fora. Como se eu não fosse nada, um lixo. Agora... agora meu amor virou ódio. Olha onde vim parar por causa dele.

A conversa foi interrompida pelo ranger da porta. Rita voltou com uma garrafa d'água numa mão e, na outra, um revólver pendendo em alerta.

— Chega de conversa fiada. Bebam logo essa água — disse ela, com os olhos cravados nos dois — Pois depois vou amordaçar vocês de novo.


═══🎭✦✧ Delegacia ✧✦🎭═══

Tony segurava o telefone, a expressão fechada. Ao seu lado, Will o observava com atenção, os olhos atentos a cada gesto.

— Ok, anotei tudo certinho aqui. Estaremos indo para aí agora — disse Tony, encerrando a ligação. Olhou para Will, sério. — Foi uma ligação anônima. Deram o endereço exato de onde está escondida a arma usada no assassinato do Antunes.

Os olhos de Will se acenderam com a informação.

— Finalmente, uma luz no fim do túnel — murmurou ele. — Onde é?

— Um ferro-velho. Pela descrição, fica aqui perto.

— Então vamos perder tempo, não. Chama mais uns dois aí e vamos agora.

Tony assentiu, já se dirigindo à porta, enquanto Will seguia logo atrás.


═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══

Kléber examinava o conteúdo da maleta com olhos atentos.

— Isso aqui é muito sério, Rodrigo — murmurou, sem levantar os olhos. — O Gabriel sabia de muita coisa.

Rodrigo, sentado ao seu lado, balançou a cabeça afirmativamente, inquieto.

— Eu tô te dizendo, Kléber... esse cara sabia exatamente o que estava fazendo quando se infiltrou na Mulambo. Você acha que, com tudo isso aí, ele pode ser indiciado?

— Olha, isso aqui não é prova de nada. É só uma maleta com recordações, anotações esparsas. Mas uma coisa é certa: coloca o Gabriel numa posição bem suspeita.

Ele então ergueu os olhos, desconfiado.

— Agora me diz uma coisa, como foi que você conseguiu isso aqui?

Rodrigo parou por um instante, mas se abriu.

— Foi a Soraia. Ela me ajudou. Se infiltrou no orfanato e conseguiu a maleta pra mim.

Kléber balançou a cabeça, desaprovando.

— Você tá maluco? Quer se complicar ainda mais?

— Eu não fiz nada — respondeu Rodrigo, na defensiva. — Foi ela quem teve toda a ideia. Só soube quando ela já chegou com essa maleta.

Kléber suspirou, passando a mão pelo rosto.

— Rodrigo, você não pode tentar resolver isso tudo por conta própria. O certo é levar qualquer informação nova direto ao delegado. Você não tá entendendo a gravidade da situação.

— Eu sei. E é exatamente isso que eu quero fazer agora. Só preciso que você vá comigo. Quero colaborar, entregar essa maleta. Quero me livrar logo disso tudo e ver aquele marginal atrás das grades o quanto antes.

— Tá certo. Só preciso passar no meu escritório pra resolver umas coisas antes. De lá, a gente vai.

— Por mim, tudo bem.


═══🎭✦✧ Enquanto isso na rua... ✧✦🎭═══

Ludmila saía do mercado com as sacolas plásticas nas mãos quando, do outro lado da calçada, algo chamou sua atenção. Glauber. Sentado à mesa de um restaurante aconchegante. Diante dele, uma senhora bem-vestida entregava-lhe uma caixinha preta com laço dourado. Ele abriu, sorriu com os olhos brilhando — era um relógio. Caríssimo, pelo que Ludmila pôde perceber. Levantou-se, agradecido, e deu-lhe um beijo. Na boca.

Ela estancou na calçada, e entrou no restaurante com passos decididos.

— Boa tarde, querido! — disse em voz alta, parando ao lado da mesa deles.

Glauber franziu a testa e olhou sem entender.

— Ludmila? Mas o que você tá fazendo aqui?

Ela ignorou a pergunta, olhando diretamente para a senhora:

— Quem é essa, a sua avó?

A mulher arregalou os olhos, indignada:

— Mas que absurdo! Quem é essa garota pra falar assim comigo?

— Eu sou a namorada dele — disse Ludmila, enciumada.

— Que namorada? — Glauber levantou-se, já nervoso — Ficou maluca?

A senhora pegou a bolsa com pressa.

— Olha aqui, garoto, mantenha suas namoradinhas longe de mim. Eu não gosto de barraco.

— Calma aí, benzinho! — Glauber virou-se para a senhora com um sorriso nervoso — Ela não é nada minha. É só uma surtada, sem noção. Ludmila, o que você tá pretendendo com isso?

Mas Ludmila já estava em modo dramático.

— Sou sim a namorada dele! A gente tá noivo, vamos se casar! — Ela começou a bater nele com as sacolas, aos gritos: — Como você pode fazer isso comigo? Seus filhos passando fome, e você aqui com outra! Seu cafajeste!

A senhora recuou, ultrajada.

— Eu não vou ficar aqui ouvindo uma baixaria dessas!

— A senhora tem que pagar a conta! — Glauber gritou atrás dela.

— Pague com o relógio que te dei. Ele é caríssimo — disse ela antes de desaparecer pela porta.

Glauber passou as mãos pelos cabelos, visivelmente desesperado. Quando se virou novamente, Ludmila já estava sentada no lugar da senhora, calmamente provando os petiscos da mesa, como se nada tivesse acontecido.

— Quer me explicar o que significa isso?

Ela deu um gole na taça de vinho.

— Carência afetiva, querido. Porque gora todo mundo resolveu me ignorar. Te mandei mensagem, te liguei... Você me deixa no vácuo.

— Olha aqui, Ludmila — ele abaixou o tom, tentando manter a compostura — Eu não me meto nos seus rolos. Não se meta nos meus, beleza? Você me largou lá feito um topeira quando o Fabinho chegou. Queria o quê?

— Eu sei. Foi mal, vacilei. O pior é que agora o Fabinho já sabe de tudo, e não quer mais saber de mim.

— E por causa disso você resolveu embaçar os meus rolos?

— Coragem sua, hein? Encarar uma velha caquética daquela.

Glauber deu uma risada seca.

— Isso é trabalho, meu amor. A gente não escolhe cliente. A coroa é podre de rica, eu tava ganhando uma grana boa. Agora, acabou. Você estragou tudo.

Ludmila largou a taça, encarando-o.

— Então é verdade? Você é garoto de programa?

Ele bufou, levantando-se.

— Fique longe de mim. Vai cuidar da sua vida.

Glauber saiu às pressas, deixando-a sozinha à mesa. Ludmila, em silêncio, terminou de mastigar. Só então se deu conta da realidade.

— Ei! A conta! — gritou atrás dele, mas era tarde.

O segurança se aproximou, bloqueando sua saída com um gesto firme.

— Ele que tem que pagar, moço. Não me toca, me deixa! — protestou, sendo conduzida até o caixa. — Eu sei, já tô indo. Não precisa empurrar.

Indignada, entregou o cartão à atendente.

— Esses boys de hoje em dia, menina.... Não se fazem mais homens como antigamente.

Pagou a conta e saiu do restaurante com a dignidade ferida.


═══🎭✦✧ Delegacia ✧✦🎭═══

Will empurrou a porta da delegacia com o ombro, já engatando uma conversa com Tony, que o acompanhava a passos firmes.

— Ainda tenho dúvidas se essa arma é mesmo do Antunes — disse o delegado.

— Tudo indica que sim. Mesmo modelo, mesmo calibre — respondeu Tony. — Agora, se vamos encontrar as digitais do assassino nela, aí já é outra história.

— Manda isso pra perícia com urgência. Não quero perder tempo.

Enquanto cruzavam o saguão da delegacia, Will avistou dois rostos familiares. Rodrigo e Kléber estavam à espera, sentados lado a lado. Ao vê-lo, Kléber e Rodrigo levantaram-se prontamente.

— Boa tarde, delegado. O meu cliente tem algo muito importante pra mostrar — anunciou Kléber.

— Muito bem — respondeu Will, lançando um olhar desconfiado na direção de Rodrigo. — Vamos até minha sala.

Tempos depois, já instalado em sua sala, Will acomodava-se atrás da mesa, os olhos percorrendo com atenção o conteúdo da maleta aberta à sua frente.

— Deixa eu entender isso aqui... — murmurou o delegado, folheando os papéis chamuscados. — Isso tudo estava com o Gabriel?

Rodrigo assentiu.

— Sim. Escondido no quarto dele, no orfanato.

Will ergue os olhos devagar, observando Rodrigo.

— E como foi que o senhor conseguiu pegar?

— A Soraia pegou pra mim.

— Quem é Soraia?

Rodrigo suspirou fundo antes de responder.

— A Soraia foi minha amante. Foi com ela que fiz a burrada de trair a Daiana. Mas eu me arrependo muito de tudo isso, eu a amo, não queria...

Will interrompeu com um gesto ríspido da mão.

— Vamos pular essa parte. Não estou aqui pra ouvir confissões sentimentais. Me diga como ela conseguiu essa maleta. Ela tem acesso ao orfanato?

Rodrigo olhou para a maleta, tentando organizar as ideias antes de prosseguir.

— Depois que fui flagrado pela Daiana, não quis mais saber da Soraia. Mas ela não aceitou. Queria me reconquistar a qualquer custo. Então, por conta própria, criou um nome falso, se disfarçou e se infiltrou no orfanato. Juro que não sabia de nada, doutor. Ela só reapareceu depois, na minha casa, com essa maleta nas mãos. Contou tudo o que havia feito. Eu fiquei em choque, não imaginava que ela teria tanta audácia. Então disse a ela que levaria tudo aquilo pra Daiana, ela tava namorando o Gabriel, e eu temia por ela. Mas a Soraia surtou. Ficou furiosa por eu querer mostrar aquilo pra minha ex e, num ataque de raiva, tacou fogo em tudo. Por isso muita coisa aí tá queimada.

Will permaneceu em silêncio por alguns instantes, absorvendo a narrativa. Então, com um leve balançar de cabeça, comentou:

— História interessante... Mas, sinceramente? Duvido muito que você não soubesse das intenções da sua amante. Eu vou ter uma conversa com essa moça também.

Fechou a maleta com firmeza e a puxou para si.

— Isso fica agora sob custódia da polícia.

— Tudo bem — respondeu Rodrigo. — Estou disposto a colaborar com tudo, delegado. Quero acabar logo com isso. Quero justiça.

Will se recostou na cadeira e completou:

— Temos novidades. Foi encontrada a arma que pertencia ao Antunes.

Rodrigo cerrou os punhos, vitorioso.

— Graças a Deus... finalmente.

Kléber, sempre atento, inclinou-se um pouco à frente.

— E foi encontrada alguma digital do meu cliente?

Antes que Will pudesse responder, Rodrigo o antecipou, ríspido:

— Óbvio que não, Kléber. Eu nunca toquei naquela arma. Agora o senhor vai entender, delegado, quem é o verdadeiro assassino entre nós dois.

Will observou os dois com cautela.

— A arma foi levada pra análise. Ainda não temos uma resposta. Mas vamos ter. E logo saberemos quem, de fato, está mentindo aqui.


═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══

Angelina entrou em casa empurrando a cadeira de rodas de Meireles. Da sala, Daiana ergueu os olhos do celular e logo percebeu a tensão no ar.

— Boa noite! — disse ela, cautelosa. — Está tudo bem? Vocês estão com uma cara de desânimo...

Angelina suspirou, sentando no sofá ao lado da filha.

— Boa noite, filha. A Joana desistiu de vender as ações para o seu pai. Preferiu vendê-las ao Rodrigo.

— Estava tudo certo — disse Meireles, num tom de frustração. — Eu fiz uma proposta excelente. Justa. Mas ela preferiu o Rodrigo. E o pior é que tô com um pressentimento ruim. Esse garoto vai me dar trabalho.

Angelina tentou amenizar.

— Vamos tentar ver um lado positivo, meu amor. O Rodrigo sempre foi um excelente profissional. Se deixarmos a vida pessoal dele de lado, talvez ele consiga fazer um bom trabalho na Mulambo.

— Bom profissional o Antunes também parecia ser — cortou Meireles, com amargura na voz. — E veja só onde fomos parar. Ele estava me roubando debaixo do meu nariz.

— Eu já não sei nem o que dizer. Não conheço mais o Rodrigo — disse Daiana, desapontada.

Meireles continuou, preocupado.

— O problema é que a Mulambo tá afundando. A crise é séria. Os investidores estão pulando fora um a um. Ninguém quer associar a marca a escândalo, a assassinato, a desconfiança. E a última coisa que preciso agora é de alguém lá dentro puxando tudo pra baixo.


═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══

Rodrigo estava no quarto do Gabriel no orfanato. Arrumava às pressas alguns pertences numa mochila. O som das batidas suaves à porta o fez congelar por um instante.

— Gabriel, posso entrar? — perguntou a voz conhecida de Irmã Rosália do outro lado.

— Sim, irmã... pode entrar — respondeu ele, tentando conter a tensão na voz.

A religiosa abriu a porta com delicadeza, seus olhos já demonstrando preocupação.

— Está tudo bem com você, meu filho? — perguntou ao se aproximar, sentando-se na cama, próxima dele.

— Sim, estou bem — respondeu, desviando o olhar.

— O Dr. Francisco passou a tarde aqui, esperando por você. É importante que vá à delegacia se explicar sobre aquela maleta. Estou muito preocupada. O que está acontecendo com você, Gabriel? Você anda tão distante... Já não vejo mais fazendo suas orações na capela.

Rodrigo se ergueu, andou até o pequeno espelho pendurado na parede e fitou seu próprio reflexo. Virou-se, encarando Irmã Rosália com os olhos marejados.

— As coisas mudaram, irmã... tudo mudou. Não fui eu quem mudou, foram as circunstâncias. E agora, estou com medo... medo de ser preso, de ficar longe da minha mãe agora que a encontrei. A Daiana não quer mais saber de mim. Tudo parece perdido. Eu... eu estou desesperado.

Irmã Rosália levantou-se devagar, aproximando-se com compaixão.

— Mas por que você seria preso, meu filho? Você é inocente. O advogado saberá o que fazer. A verdade vai aparecer, você vai sair desse pesadelo. Só não pode perder a fé.

Rodrigo passou a mão pelos cabelos, num gesto aflito. Seus lábios tremeram antes de dizer:

— Fui eu, irmã... Eu sou sim o culpado... Fui eu...

Ela franziu o cenho.

— O que está dizendo?

— Fui eu que matei o Antunes. O Rodrigo é inocente, eu é que sou o culpado. Saí daqui naquela noite decidido a acabar com ele. E foi isso que eu fiz.

Irmã Rosália cambaleou ligeiramente para trás, se apoiando na cabeceira da cama.

— Isso não pode ser verdade... o Gabriel que eu criei não seria capaz disso. Meu menino não teria tanto sangue frio.

— Mas é verdade. É um segredo que tentei esconder, mas não dá mais... logo todo mundo vai saber. Eu não posso ser preso, não posso!

— Gabriel... se cometeu um erro, precisa se responsabilizar. Não pode deixar que um inocente pague por você!

— Eu não vou pagar. Eu já decidi. Eu vou fugir. Preciso me esconder. A polícia não pode me encontrar.

Ele agarrou a mochila, fechando o zíper com brutalidade, e saiu às pressas, ignorando o apelo aflito da irmã.

— Gabriel! Meu filho! Espere! Não faça isso! A gente vai encontrar uma saída! — gritou irmã Rosália, correndo atrás dele.

Com o barulho da correria, outras crianças e funcionários começaram a sair de seus quartos. Irmã Tereza apareceu no corredor, alarmada.

— O que aconteceu, irmã?

Irmã Rosália, ofegante, respondeu em voz trêmula:

— O Gabriel está transtornado... ele confessou, irmã Tereza. Foi ele que cometeu aquele crime. E agora vai fugir.

Rodrigo já estava do lado de fora. Avistou a kombi estacionada em frente ao orfanato. Sem esperar mais, entrou, deu a partida e arrancou em disparada.

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