MINHA OUTRA FACE
24 A face do mal
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═══🎭✦✧ Na estrada... ✧✦🎭═══
Rodrigo mantinha as mãos firmes no volante da Kombi, os olhos atentos na estrada. Com uma mão, alcançou o celular, discou um número e levou-o ao ouvido.
— Presta atenção — falou, a voz carregada de urgência. — Fala pra sua vó que tem que ser agora. Eu tô fugindo com a Kombi do orfanato. A gente se encontra no lugar combinado.
Um trovão rasgava o céu, avisando que a chuva estava a caminho.
Do outro lado da linha, Bira respondeu rápido, e desligou sem esperar mais.
O céu, antes apenas nublado, agora se fechava cada vez mais, carregado de nuvens pesadas.
Enquanto isso, no paiol, Rita entrou apressada, acompanhada de Bira.
— Anda logo — disse impaciente. — Desamarra ele que não temos muito tempo.
Bira se ajoelhou diante de Gabriel, que ainda estava sentado, com as mãos e os pés amarradas. O olhar de Gabriel era de pura confusão, misturado com medo e uma leve esperança ao ver que algo mudava. Soraia, ainda amarrada, observava tudo sem compreender, os olhos arregalados pela ansiedade.
— Calma, vó, tô fazendo o mais rápido que posso — respondeu Bira, tenso, enquanto lutava contra os nós da corda que prendia os pulsos de Gabriel.
— Já leva ele! — ordenou Rita. — E já dá o chazinho pra ele, entendeu?
Bira assentiu com a cabeça. Assim que libertou Gabriel, o segurou pelos braços, firmemente, conduzindo-o para fora do paiol.
Soraia ficou para trás, amarrada, sem saber o que seria de Gabriel, nem dela.
═══🎭✦✧ Boate Eclipse ✧✦🎭═══
A música eletrônica pulsava. Em um canto próximo ao bar, Ludmila apoiava os cotovelos no balcão, de olhar perdido, enquanto Carla a observava.
— Ludmila, você ficou louca? — perguntou Carla. — Perdeu completamente a noção das coisas, né?
Ludmila suspirou, jogando os cabelos para trás com um movimento automático.
— Eu só quero esquecer isso, tá, piranha? Ainda tive que pagar a conta do restaurante. Acredita?
— Bem feito — retrucou Carla. — Vai se meter no que não é da sua conta, dá nisso.
— Eu tô me sentindo carente, sozinha... Eles ficam me ignorando, sabe? — desabafou Ludmila. — Eu tava gostando tanto do Fabinho.
— E se tava gostando do Fabinho, por que foi se enroscar com o Glauber, rapariga?
Ludmila soltou uma risada amarga.
— Porque ele é gostoso, tem uma pegada boa. Já ovulo só de lembrar, chega esquenta! — respondeu, soltando uma risadinha nervosa. — Eu gosto de um, mas morro de tesão no outro. Entendeu agora?
— Você que se decida, porque desse jeito não dá — alertou Carla, interrompendo-se ao olhar pra entrada. — E acho melhor decidir logo... olha quem acabou de entrar na boate.
Ludmila virou-se de súbito, os olhos buscando na multidão até que encontraram Fabinho atravessando o salão.
— Ih, carái! E agora?
— Não se faz de sonsa, Ludmila — disse Carla com firmeza. — Você tá doida pra falar com ele. Vai lá, abre o jogo, se desculpa com o boy.
— Eu nem sei como fazer isso... — murmurou.
— Seja sincera, ué. Fala a real. Ele já sabe de tudo mesmo.
Ludmila assentiu devagar, reunindo coragem, mas antes que desse o primeiro passo, seus olhos captaram uma figura feminina se aproximando de Fabinho. A moça sorriu, se insinuando.
— Quem é aquela rapariga que tá se aproximando dele? — rosnou Ludmila, cerrando os punhos. — Mas homem é bicho safado, viu.
— Calma — disse Carla, segurando-a pelo braço. — Daqui a pouco você vai. Espera o momento certo. Não estraga tudo agora.
═══🎭✦✧ Na estrada... ✧✦🎭═══
Na escuridão da estrada deserta, a chuva caía grossa, batendo no para-brisa do carro que repousava escondido próximo à beira de um barranco íngreme. No banco do motorista, Bira tamborilava os dedos no volante com inquietação. Ao lado, Gabriel jazia inconsciente, o rosto pálido e inerte, vencido pelos efeitos do "chazinho" de Rita. No banco traseiro, a própria Rita mantinha os olhos fixos na curva da estrada.
— Cadê ele? — resmungou ela, entre dentes. — Já devia estar aqui.
— Se a polícia aparecer, a gente tá lascado — respondeu Bira, desviando os olhos da estrada apenas para conferir, mais uma vez, se Gabriel ainda respirava.
Os faróis da Kombi cortaram a escuridão, aproximando-se pela estrada. Rodrigo saltou do veículo antes mesmo de desligar o motor, o rosto suado e tenso. Foi direto até o carro.
Os faróis da Kombi cortaram a escuridão e a cortina de chuva, aproximando-se pela estrada enlameada. Rodrigo saltou do veículo antes mesmo de desligar o motor. Foi direto até o carro.
— Rápido! Coloca o Gabriel na Kombi! — ordenou Rita, olhando em volta.
Sem hesitar, Bira abriu a porta do passageiro e, com esforço, retirou o corpo mole de Gabriel.
— Bora, pião... Chazinho da minha vó faz milagre, hein — murmurou com um tom de escárnio, ajeitando melhor o peso nos braços.
— Anda, seu molenga! — gritou Rodrigo, impaciente. — Antes que alguém passe por aqui.
Com movimentos apressados e desajeitados, os dois carregaram Gabriel até a Kombi. Lá dentro, o acomodaram no banco do motorista, ajustaram seu corpo para parecer que estava dirigindo, colocaram-lhe o cinto de segurança e fecharam a porta. Rodrigo e Bira se posicionaram atrás da Kombi e começaram a empurrá-la em direção ao barranco.
A inclinação ajudou. O veículo, já embalado, deslizou lentamente, depois ganhou velocidade, descendo em ziguezague até despencar barranco abaixo. Um estrondo abafado foi seguido pelo som da lataria até alcançar o rio. Do alto, Rodrigo observava em silêncio, os olhos frios.
— Adiós, maninho — disse, com satisfação.
Virando-se para Bira, estendeu a mão com impaciência:
— A chave do meu carro. Agora.
Bira hesitou por um segundo.
— E a gente? Vai voltar como?
— Deixa de ser idiota, esqueceu que deixei o outro carro escondido lá na frente? — Lembrou Rita.
— Vocês se viram. Eu preciso sair daqui o quanto antes.
Sem mais palavras, Rodrigo tomou a chave, entrou no carro preto e partiu em disparada.
— Vamos — disse Rita, pegando Bira pelo braço.
═══🎭✦✧ Boate Eclipse ✧✦🎭═══
Fabinho estava sentado sozinho em uma mesa no canto da boate. A pista fervilhava de corpos dançantes, mas seu mundo permanecia imóvel.
Ludmila surgiu entre as luzes estroboscópicas e se aproximou sem jeito.
— Oi! Posso sentar aqui? — perguntou, tentando soar casual.
Fabinho ergueu os olhos para ela e apenas bufou, desviando o olhar, sem responder.
— Vai me ignorar ao vivo agora também? — insistiu, forçando um sorriso. — Porque as minhas mensagens você já não responde...
Ele soltou um suspiro derrotado.
— Tá bom, senta.
Ludmila puxou a cadeira e se acomodou.
— A boate hoje tá bem cheia, né? Eu gosto assim, mais animada. E você?
Fabinho a encarou com olhos frios, o maxilar travado.
— Você tá chateado comigo, né? — arriscou ela.
Fabinho respirou fundo. Então falou, com a voz embargada de mágoa:
— A gente não tem nada a ver, Ludmila. O jeito como você se relaciona, o que você curte... não combina comigo. Acho que sou romântico demais. Meloso demais pra você. E o pior é que... o pior é que eu estava gostando de você.
Ludmila ficou surpresa e sem jeito com aquelas declarações.
— Você se apaixona fácil, é isso — disse ela, indiferente. — A gente nem tinha definido nada sério. Ainda estávamos nos conhecendo. Não era?
— Ah, era? — repetiu ele, ferido. — Então me enganei completamente. Porque eu achei que a gente já tinha alguma coisa. Mas vejo que era só coisa da minha cabeça. — Levantou-se, sentindo o coração apertado, e sorriu com amargura. — Me desculpa. Sou só um babaca romântico, emocionado. Não soube distinguir as coisas.
Virou-se para ir embora, mas Ludmila se levantou de súbito e se colocou em seu caminho. Os olhos dela tremiam com a mesma confusão que havia nos dele.
— Fabinho, espera! — implorou, a voz falhando. — Eu é que sou uma babaca. Não sei admitir o quanto gosto de você. Me perdoe pelo que fiz.
Ela se perdeu nas palavras, então se lançou sobre ele e o beijou, num gesto súbito, intenso, cheio de tudo o que não foi dito antes.
═══🎭✦✧ Na manhã seguinte, na delecia... ✧✦🎭═══
Tony entrou na sala com um envelope pardo nas mãos. Will, sentado à mesa, erguia os olhos da tela do computador quando ouviu a voz do colega.
— Olha quem chegou — anunciou Tony, balançando o envelope no ar —, o laudo da perícia papiloscópica.
Will se ajeitou na cadeira, interessado.
— É disso que eu gosto, eficiência. Pode falar, Tony. A arma tinha digitais?
— Tinha. E não é pouca coisa. A perícia encontrou uma digital parcial no cabo e uma completa no gatilho.
— De quem, homem? — Will pressionou, impaciente. — Deixa de mistério.
Tony respirou fundo antes de soltar a resposta.
— Gabriel. A digital do gatilho é dele. Sem margem de dúvida.
Will se recostou na cadeira.
— Te falei... são dos mansos que eu tenho medo.
Mas antes que pudesse continuar, a porta da sala se abriu e Carla surgiu.
— Com licença, Will... — disse, já entrando — Acabou de chegar um chamado urgente do Corpo de Bombeiros.
Will endireitou o corpo na cadeira.
— Que tipo de chamado?
— Um acidente grave na estrada SP-171, na serra entre Cunha e Guaratinguetá. A Kombi do orfanato Lar São Tarcísio saiu da pista e despencou barranco abaixo, chegando até a margem do rio.
— Meu Deus... — murmurou Tony.
Will levantou-se de um salto, pegando o distintivo e as chaves da mesa num movimento só.
— Quantas vítimas?
— Ainda não se sabe. — respondeu Carla. — Não foi encontrado nenhum corpo dentro da Kombi.
— Vamos agora. — ordenou Will. — Tony, chama uma viatura. E tenta descobrir se o Gabriel estava nessa Kombi.
Sem dizer mais nada, saiu da sala com passos rápidos. Tony e Carla o seguiu pra fora da sala.
═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
No jardim do orfanato, sentada num banco de madeia, Irmã Rosália segurava um terço entre os dedos trêmulos. Epaminondas, em pé ao seu lado, mantinha o chapéu nas mãos.
— Não dormi nada essa noite — desabafou irmã Rosália, com a voz embargada. — Não consegui pregar o olho de tanta preocupação.
Epaminondas assentiu devagar, o semblante fechado.
— O Gabriel entrou numa paranoia, nessa obsessão de encontrar a família. E acabou fazendo uma tremenda besteira.
— Eu tava na esperança de tá enganada com as minhas desconfianças. — murmurou a religiosa. — Mas ele... ele me disse, Epaminondas. Ele assumiu. Falou que foi ele. E agora meu Deus, pra onde esse menino foi?
As palavras mal haviam se dissolvido no ar quando Irmã Tereza surgiu ao longe, seus olhos estavam marejados, e sua expressão pesada.
— Aconteceu um acidente... — disse, parando diante dos dois. — A Kombi em que o Gabriel estava, caiu num barranco, na beira do rio.
Irmã Rosália não conseguiu conter o desespero. Levantou-se com as mãos no rosto, e seu corpo cedeu ao pranto.
— Divino Pai Eterno... tenha misericórdia! — clamou, entre soluços.
Epaminondas avançou um passo, com o rosto pálido.
— E o Gabriel? Como ele está?
Irmã Tereza desviou o olhar, os lábios tremendo ao responder:
— Ninguém sabe. Não encontraram o corpo. Talvez... talvez tenha sido levado pela correnteza.
Epaminondas olhou para o horizonte, onde o sol começava a se encobrir de nuvens.
— Às vezes, o rio leva, mas nem sempre leva pra longe. Às vezes, só esconde.
═══🎭✦✧ Delegacia ✧✦🎭═══
No saguão da delegacia, Carla mal conseguia acompanhar o ritmo frenético daquela manhã. Ainda assim, encontrou um momento para atender a chamada no celular que vibrava insistentemente.
— Fala, piranha! Não posso falar muito, aqui hoje tá uma correria daquelas.
Do outro lado da linha, Ludmila empurrou a porta de casa com um suspiro satisfeito. Tirou os sapatos ali mesmo na entrada e se jogou no sofá
— Olha a hora que eu tô chegando em casa, minha filha — disse, rindo. — Pensa numa noite maravilhosa.
Carla se acomodou um pouco melhor na cadeira giratória, interessada.
— Aí sim, hein! E o boy? Deu conta do recado? Conseguiu apagar o teu incêndio?
— Rapariga, vou te falar viu... o bofe é bom, bom mesmo. Foi a noite toda dentro!
Carla riu alto, abafando a risada com a mão enquanto desviava o olhar do investigador que passava.
— Rapaz! E você aí, desfazendo do coitado!
— Eu sei — confessou Ludmila, ainda sorrindo. — Acho que tô até mais apaixonada. De verdade, dessa vez acho que é pra valer.
— Quem te viu, quem te vê... — comentou Carla, mais séria. — Só espero que você leve a sério agora. Porque, olha, ele não vai te perdoar de novo se você resolver aprontar.
— Jamais. Agora vou me comportar, mulher pra casar.
Carla soltou uma risadinha sarcástica.
— É ruim, hein. Aí já duvido. Uma vez piranha... sempre piranha.
As duas riram juntas.
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
Na sala de sua casa, Joana chorava desesperada, andava de um lado para o outro pela a sala. Kléber, lhe acompanhava tentando consolá-la.
— Meu Deus, não... Isso não... — Joana repetia, a voz quebrada pela dor. — É mentira... isso não aconteceu com o meu filho... Eu quero meu filho! Eu não posso perder meu filho! Fala que é mentira, Kléber... por favor, me diz que é mentira... Isso não pode ser verdade!
Kléber segurou suas mãos com firmeza, tentando conter as lágrimas que também ameaçavam cair.
— Joana, tenta se acalmar... — pediu suavemente, com a voz embargada. — Milena, pega um pouco de água pra ela, por favor.
No alto da escada, Rodrigo observava a cena com uma expressão de surpresa ensaiada. Seu olhar passeou pela mãe em prantos, por Kléber visivelmente abalado, e desceu os degraus com cautela.
— O que foi que aconteceu?
Kléber ergueu os olhos para ele, hesitante.
— Aconteceu um acidente... com o seu irmão.
Rodrigo franziu a testa, fingindo não entender.
— Como assim? Que tipo de acidente?
Joana interrompeu a resposta, ainda mergulhada no próprio desespero.
— É mentira... não aconteceu nada... — insistia, com as mãos pressionadas contra o peito. — Eu não posso aceitar uma coisa dessas. Deus não seria tão cruel comigo... não agora, não agora que eu reencontrei meu filho.
Milena voltou apressada, trazendo um copo de água. Kléber pegou e ofereceu com delicadeza.
— Bebe, Joana. Tenta se acalmar, por favor...
Virou-se então para Rodrigo, sua expressão endurecendo um pouco com o peso da notícia.
— A kombi em que ele estava caiu num barranco.
Rodrigo levou as mãos à boca, dramatizando o choque.
— Meu Deus... que tragédia...
Joana gritou, entre lágrimas:
— Eu quero o meu filho!
Rodrigo, simulando uma angústia, perguntou:
— E... e pra onde levaram o corpo?
— O corpo ainda não foi encontrado... provavelmente foi arrastado pela correnteza.
Rodrigo desviou o olhar, tentando conter a tensão que crescia dentro de si.
═══🎭✦✧ Fazenda da Rita ✧✦🎭═══
Do lado de dentro do paiol, Soraia permanecia amarrada, amordaçada. Entre as frestas da madeira, ela percebeu movimento. Um vulto. Dois olhos inquietos espiavam por entre as gretas — era Bira. O seu olhar pousou sobre ela, carregado de algo que Soraia não soube nomear: talvez curiosidade, talvez pena. Talvez os dois.
De dentro, Soraia apenas o fitava de volta, sem poder dizer uma palavra. O olhar dela, no entanto, implorava. Bira ficou ali por alguns segundos, parado, como se considerasse algo.
— Ubiratan! — gritou Rita, impaciente.
Bira se sobressaltou, recuando de imediato e fechando a expressão. Caminhou até onde a sua avó estava, próximo à varanda da casa.
— O que faz aí? — ela exigiu saber, com a voz seca.
Ele tentou manter o tom leve.
— Só estava vendo se a garota precisava de alguma coisa.
Rita estreitou os olhos, desconfiada.
— Ela não precisa de nada. Ninguém mandou ela enfiar o nariz onde não foi chamada.
— E o que a senhora vai fazer com ela?
— O mesmo que fizemos com o Gabriel. Vamos matá-la. O corpo do Gabriel ainda nos é útil. Agora, essa aí jogamos em qualquer buraco na mata. E vai ser você que vai fazer isso.
A garganta de Bira secou de imediato. Ele engoliu em seco, os olhos arregalados de pânico.
— Eu nunca matei ninguém...
Rita balançou a cabeça de forma negativa.
— Você é um frouxo mesmo, viu. Mas fique tranquilo, você não vai matar. Esse serviço é do Rodrigo. Ele que a envolveu, ele que se livre dela. Você vai cuidar do corpo depois. E espero que faça isso direito. Não me venha com problema depois.
Bira hesitou. Seu olhar se voltou novamente para o paiol, mesmo sem vê-lo diretamente.
— Tem mesmo que matar? — murmurou. — Ela é esperta. Poderia se aliar a nós.
Rita congelou. Lentamente, virou-se para ele com os olhos semicerrados.
— O que está acontecendo com você, Bira? Por acaso, você se envolveu com essa garota?
O rosto dele enrubesceu, os olhos fugiram dos dela.
— Não. Só dei uma sugestão... — respondeu, contido.
Rita o observou em silêncio, avaliando cada detalhe de sua postura.
— Já tem gente demais envolvida nessa história — disse por fim, em tom frio. — E eu não vou perder o controle da situação. Só o que me faltava agora era voltar pra cadeia.
Virou as costas e entrou, deixando Bira ali parado.
═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══
Daiana entrou no quarto em silêncio. Fechou a porta devagar, e, assim que o clique do trinco soou, deixou-se cair contra ela. Seu corpo escorregou lentamente até o chão, e ali mesmo se permitiu chorar. As lágrimas vinham com a força de uma dor que não encontrava palavras.
As lembranças não pediram licença para invadir sua mente — vieram como cenas em câmera lenta, dolorosamente vívidas. Era como se revivesse tudo ali, sentada no chão frio do quarto. A primeira vez que viu Gabriel no orfanato. Lembrava-se nitidamente da sensação estranha, quase surreal, ao encarar aquele rosto tão familiar, tão parecido com o de Rodrigo.
O flash daquele dia continuava: os dois sentados no jardim, os olhos curiosos, os sorrisos tímidos, a conversa que se prolongou entre os dois até então, estranhos.
Soltou um suspiro trêmulo e, cambaleando, caminhou até a cama. Deitou-se em posição fetal, encolhida como se tentasse se proteger de uma tempestade que a açoitaria por dentro.
Outras lembranças vieram: os dois no shopping, rindo, dividindo histórias. Depois, no orfanato novamente, o primeiro beijo — hesitante, delicado, verdadeiro. Um instante em que tudo pareceu certo, mesmo em meio ao caos que lhes cercavam.
O rosto de Gabriel, com aquele sorriso que acendia algo dentro dela, persistia em sua memória. Daiana apertou os olhos, e quanto mais lembrava, mais chorava, sentindo que parte dela havia sido arrancada. E, no fundo, uma única pergunta ecoava como um lamento: por quê?
═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
Na sala do orfanato, Irmã Rosália sentada na poltrona, as mãos trêmulas entrelaçadas no colo. Os olhos vermelhos denunciavam as lágrimas recentes, ainda teimosas em escorrer pela sua face angustiada.
— Ele me confessou, doutor — disse ela, com a voz embargada. — Foi o Gabriel... foi ele quem matou o sócio da Mulambo. Ele estava desesperado e confessou pra mim um pouco antes de fugir.
Will, sentado à frente, curvou-se levemente, atento.
— Ele chegou a revelar algum detalhe? O motivo?
Irmã Rosália enxugou os olhos com as mãos.
— Não. Ele estava nervoso, inquieto... arrumava a mochila de forma desesperada, quando entrei no quarto. Foi então que ele me olhou nos olhos e confessou que foi ele. Antes que eu pudesse reagir, ele fechou o zíper da mochila e disse que iria fugir, pois não poderia ser preso. E saiu... completamente desorientado.
Irmã Tereza, que até então permanecia em pé ao lado da janela, virou-se com os olhos marejados.
— O Gabriel sempre sofreu por ter sido deixado aqui. Desde muito pequeno, ele se perguntava por que a família o havia rejeitado. Essa dúvida nunca saiu do coração dele. Com o tempo, virou uma obsessão. Ele precisava saber de onde veio, quem era. Isso o consumia...
— E agora, delegado? Como anda o inquérito? — Questionou Franscisco.
Will soltou um suspiro contido, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— O inquérito continua. Mas, sem corpo, não se confirma morte. E se ele estiver vivo... precisa responder pelo que fez. Ou provar que não fez.
Um murmúrio percorreu o ambiente. Epaminondas, em pé na porta, se encheu de esperança.
— Mas ainda existe a possibilidade do meu sobrinho estar vivo?
O delegado assentiu lentamente.
— A possibilidade existe, sim. Ainda que pequena. A queda foi grave, a kombi ficou praticamente destruída. Encontramos a mochila que ele levava. Objetos pessoais, um dos pares de sapato... e um pedaço da camisa. Tudo indica que ele realmente estava lá. Mas até que o corpo seja encontrado, não podemos afirmar nada com certeza.
═══🎭✦✧ Enquanto isso... ✧✦🎭═══
No quintal de uma casinha simples e isolada, escondida entre a vegetação, uma mulher puxava, com esforço sereno, um balde de água do poço de pedras. Seus braços, acostumados à rotina, levantaram a lata, e ela caminhou lentamente até o interior da casa.
Ali, ela despejou a água no tambor de plástico encostado ao canto do pequeno banheiro. Depois, voltou à cozinha e, com cuidado, retirou do fogo uma panela em que a água fervia. Misturou com a outra, temperando com precisão para que ficasse morna.
Em seguida, atravessou o corredor estreito e entrou no quarto. Um senhor, de expressão cansada, estava sentado numa cadeira próxima à janela aberta. Na cama ao lado, repousava um homem.
Ela se aproximou e anunciou com a voz calma:
— Já está pronto. Você já pode ir tomar seu banho.
O homem se ergueu devagar. Quando se sentou na beirada da cama, a luz que escapava pela janela revelou seu rosto. Era Gabriel.
— Muito obrigado — murmurou ele.
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