MINHA OUTRA FACE
25 O destino de Soraia
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═══🎭✦✧ Casinha simples ✧✦🎭═══
O homem mais velho se levantou, aproximou-se de Gabriel com um gesto afetuoso e estendeu os braços.
— Vem cá, eu te ajudo.
Gabriel assentiu com um leve movimento de cabeça.
— Obrigado, seu Adolfo — respondeu com sinceridade, apoiando-se no ombro do senhor.
Adolfo passou o braço pelas costas do rapaz, sustentando-o com firmeza. Caminharam juntos pelo corredor, Gabriel mancava visivelmente — a perna direita, enfaixada com ataduras simples, denunciava uma ferida recente e ainda sensível.
Chegando ao pequeno banheiro, Adolfo empurrou a porta com o pé e, com delicadeza, ajudou Gabriel a se acomodar no banco de madeira próximo ao tambor de água.
— Vou deixar você à vontade — disse Adolfo, soltando o braço do rapaz. — Se precisar de algo, é só chamar.
═══🎭✦✧ No dia seguinte na fazenda de Rita... ✧✦🎭═══
Bira abriu lentamente a porta do paiol. Revelando Soraia, que ainda estava amordaçada e com os olhos cansados, ofegando ao vê-lo. Ele carregava uma sacola com pães e um copo plástico com café com leite.
— Não sei se você gosta... — disse ele. — Trouxe café com leite.
Ela assentiu com a cabeça. Bira se aproximou e retirou a amordaça. O olhar dela estava baixo, humilhado.
— Você é tão linda... esses seus olhos me encantam. — murmurou ele, admirando-a. — Não me agrada nem um pouco te ver assim.
— Então me tira daqui, Bira... — implorou Soraia, a voz embargada. — Meu corpo tá todo dolorido, eu não aguento mais ficar aqui amarrada.
Ele abaixou os olhos, constrangido, a respiração pesada.
— Eu não posso. Se minha vó descobre que te soltei, ela me mata. Eu sinto muito, Soraia... De verdade. Eu queria poder ajudar, mas... se eu livrar o seu pescoço, o meu é que vai tá em perigo.
— E o Gabriel? — ela perguntou preocupada. — O que fizeram com o Gabriel?
Bira levantou-se, desviando o olhar, nervoso. Após alguns segundos, respondeu:
— Ele morreu. Foi jogado num barranco pra parecer acidente. Era a única forma de inocentar o Rodrigo.
— Não... — murmurou Soraia, os olhos entristecidos. — Eu não acredito que o Rodrigo foi capaz disso.
Ela respirou fundo, sentindo o terror subir à garganta.
— E eu, Bira? Eles também vão me matar, não vão?
Bira permaneceu em silêncio. Apenas franziu as sobrancelhas com pesar e, com um leve movimento da cabeça, confirmou.
Soraia engoliu seco, contendo o desespero que crescia.
— E você vai permitir que isso aconteça? Você é o único que pode me salvar. Me tira daqui, Bira! Por favor!
Um grito cortou o silêncio:
— Ubiratan! Anda logo com isso! — era Rita, chamando de longe.
Bira se apavorou. Rapidamente pegou o pão e o copo de leite, aproximando-se dela.
— Você precisa comer logo... — disse, com a voz trêmula. — Desculpa. Eu não posso fazer nada.
Ele ofereceu o pão à boca de Soraia e, em seguida, o copo com café com leite. Enquanto ela comia, ele olhava nervosamente para as frestas do paiol, temendo ver o vulto de Rita se aproximando.
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
Joana estava sentada no sofá da sala, imóvel. Os olhos inchados e vermelhos pareciam fixos em algum ponto invisível.
Milena se aproximou com cautela, parou à frente da senhora e, num tom baixo, quase suplicante, murmurou:
— A senhora precisa comer alguma coisa, dona Joana...
Joana apenas balançou a cabeça, sem encará-la.
— Não quero nada, Milena. Só queria o meu filho de volta...
Milena abaixou os olhos, sem saber o que responder. Foi então que Rodrigo desceu as escadas. Vestia-se com esmero, a camisa engomada, os cabelos bem penteados.
— É triste o que aconteceu, mãe. Mas a vida continua — disse ele, com uma calma inquietante.
Joana ergueu lentamente os olhos e o encarou.
— E você? Vai pra onde tão cedo?
Rodrigo parou diante dela, esboçou um suspiro contido e sentou-se ao seu lado, com uma postura firme.
— Vou assumir o que já deveria ter assumido há muito tempo: meu lugar na Mulambo. Acho que já está mais do que provado que sou inocente nessa história toda.
Joana o fitou demoradamente, seus olhos buscando por alguma centelha de remorso.
— E não sente nenhuma tristeza em saber que o seu irmão morreu?
Houve um silêncio curto, denso. Rodrigo desviou o olhar e respondeu com voz controlada:
— Claro que sim. Eu não queria que nada disso tivesse acontecido. O Gabriel também foi uma vítima do Antunes, assim como nós fomos. Só que ele teve mais sangue frio, e escolheu agir diferente... arrancar o mal pela raiz. — Fez uma pausa e franziu levemente o cenho. — Uma pena que não teve peito pra encarar as consequências disso.
Levantou-se, ajeitou os punhos da camisa com um gesto firme e olhou para a mãe.
— Mas nós estamos aqui, vivos. Não podemos nos responsabilizar pelas escolhas dos outros. Não é, Milena?
Milena hesitou, sentindo o peso do olhar dele.
— Tá certo, seu Rodrigo... — murmurou, ainda sem convicção.
— Levanta desse sofá, mãe. Vai tomar seu café, planejar todos os detalhes para a construção do seu restaurante. Vai realizar seu sonho dona Joana... porque eu tô indo atrás do meu.
Rodrigo saiu, Joana continuou sentada, o olhar fixo na porta por onde ele havia passado.
═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══
No escritório, Meireles estava sentado em sua cadeira atrás da mesa.
— Será que finalmente chegamos ao fim desse caso da morte do Antunes? — perguntou, esperançoso.
Angelina, ao seu lado, o observava com preocupação.
— Acho que ainda tem muita coisa para ser esclarecida, meu amor. O corpo do Gabriel ainda não apareceu, não é? E Daiana... minha filha ficou péssima quando soube da morte dele. Ela realmente gostava daquele rapaz.
Nesse instante, Fabinho entrou na sala, o celular na mão, com um olhar grave.
— Olha isso aqui — disse, colocando-se diante dos pais.
Angelina franziu as sobrancelhas.
— O que foi, meu filho?
Fabinho começou a ler o texto que aparecia na tela, a voz firme e carregada de indignação.
— "As suspeitas continuam. Um burburinho aponta que o empresário Fábio Meireles (dono da Mulambo Têxtil) pode estar envolvido na misteriosa morte do seu sócio, José Antunes. Muitos suspeitam que ele teria infiltrado Gabriel, irmão gêmeo de Rodrigo, enteado de Antunes. Coincidência ou trama familiar? Um sócio morto, um corpo desaparecido e o empresário reinando sozinho. As perguntas ficam: quem ganha com a morte de Antunes? E por que Gabriel sumiu justamente agora?"
Meireles arregalou os olhos em desespero.
— Espera um pouco... Estou entendendo bem? Estão me acusando da morte do Antunes?
— Exatamente isso, pai — respondeu Fabinho, sério.
— Eu estava hospitalizado quando esse demônio morreu. — Meireles respirou fundo, apertando os punhos. — Olha onde eu estou: numa cadeira de rodas, graças a esse desgraçado.
Angelina tentou conter a aflição, aproximando-se do marido.
— Calma, meu amor. O que é isso, Fabinho? Que barbaridades são essas?
— É só um post de página de fofoca, mas já viralizou. Está em tudo quanto é canto, e tem gente compartilhando como se fosse verdade — explicou Fabinho.
— Estão simplesmente enfiando meu nome na lama. Isso pode ser o fim da Mulambo — disse Meireles, indignado.
Fabinho se aproximou.
— Resumindo, pai, eles estão insinuando que o Gabriel foi infiltrado aqui com sua ajuda, para matar o Antunes. E um detalhe interessante: Gabriel começou a trabalhar na Mulambo poucos dias depois do seu acidente.
Angelina levou as mãos ao rosto, perturbada.
— Ah, meu Deus... Isso só dá mais crédito à fofoca. Parece um pesadelo tudo isso.
— Descubra quem publicou isso. Vou processar — afirmou Meireles com firmeza. — Por calúnia, difamação... o que for preciso!
— O senhor pode — disse o filho — e até deve fazer isso. Mas tem um problema... Esse post já foi compartilhado milhares de vezes. Está completamente fora de controle.
Todos se preocupavam com a dimensão da crise que se aproximava.
═══🎭✦✧ Casinha de Adolfo ✧✦🎭═══
Gabriel estava sentado numa cadeira próxima à janela, a perna machucada repousando sobre outra cadeira, envolta por um pano improvisado.
Seu Adolfo, de chapéu surrado na cabeça e olhar miúdo, observava o rapaz.
— E agora, meu jovem... o que pretende fazer? — perguntou, com a voz arrastada.
— Eu não sei, seu Adolfo. Meu irmão tentou me matar. Se o senhor não tivesse aparecido naquela hora... eu teria morrido.
Adolfo coçou o queixo.
— Eu conheço bem a ganância do homem, esse desejo que corrói e que nunca se sacia. Amor pelo poder, pelo mando. Tem gente que nasce e cresce nesse espelho torto. Esse Rodrigo é uma praga que sai destruindo tudo por onde passa.
Gabriel virou o rosto para ele, intrigado.
— O senhor fala como se conhecesse o Rodrigo.
— Não conheço, mas conheci o pai dele. O seu Antunes... — Adolfo fez uma pausa. — Eu o tinha como um filho. Sofri muito quando soube da morte dele. Antunes não era essa pessoa ruim que dizem por aí, não. O ruim mesmo, é o filho dele. Quando vi você caído ali, achei até que fosse ele. Foi Aparecida quem me explicou que você era o irmão.
Gabriel franziu o cenho, confuso, tentando juntar as peças daquela história.
— Me desculpe, seu Adolfo... mas tô aqui tentando entender. De onde o senhor conhecia o seu Antunes?
Antes que o velho pudesse responder, Aparecida entrou pela porta da cozinha, equilibrando nos braços algumas roupas recém-colhidas do varal.
— Já tá aí falando demais, meu pai? — disse ela, olhando de soslaio para o pai. — Liga não, Gabriel. Ele já tá ficando é caduco.
Adolfo resmungou, fazendo um gesto de desdém com a mão.
— Depois a gente proseia mais... — murmurou, levantando-se. — Vou ali passar um café pra nós.
Saiu vagarosamente em direção à cozinha.
═══🎭✦✧ Fazenda da Rita ✧✦🎭═══
Na sala de sua casa, Rita fitava o neto com olhos estreitos.
— Não tô gostando dessa sua intimidade com essa moça, viu? — disse, com a voz carregada de ameaça. — Se não quer encrenca pro seu lado, se afaste dela.
— Não tem intimidade nenhuma... — Disse Bira, evitando o olhar duro da vó. — Mas o que vocês vão fazer com ela?
— De novo essa pergunta? Já não respondi? — Rita fez uma pausa e, com frieza calculada, acrescentou: — Falando nisso... vai pro meio desses matos e procura um lugar bem escondido. No barraco ali atrás tem umas ferramentas. Quero que abra uma cova. Bem funda. Funda o bastante pra polícia nunca achar o corpo. Rodrigo vai ter que dar um fim nessa garota ainda hoje.
— Pelo amor de Deus minha vó... — Bira se preocupou — não precisamos ser tão radicais. A Soraia também é bandida... deixa ela se juntar a nós.
O olhar de Rita se estreitou ainda mais, faiscando uma mistura de desprezo e desconfiança.
— O que tá acontecendo com você, Bira? Ficou enfeitiçado pelos belos olhos da garota? Faça o que mandei. Agora. E se pensar em me desafiar... é você quem vai acabar dentro dessa cova.
Bira engoliu seco. E saiu para cumprir as ordens da vó.
═══🎭✦✧ Casa do Charles ✧✦🎭═══
Diná caminhava de um lado para o outro, o olhar preso na tela do celular, os dedos ágeis mas inquietos. A cada tentativa frustrada, um suspiro pesado escapava. Charles, sentado no sofá, observava aquela agitação.
— O que tanto mexe nesse telefone, mulher? — perguntou.
— Tô aqui quebrando a cabeça, como sempre, tentando falar com a Soraia — respondeu Diná, sem desviar os olhos do aparelho.
— Você ainda se desgasta com essa menina? — ele retrucou, balançando a cabeça.
— Claro que sim, Charles. Ela é minha filha. Como você consegue ficar tão tranquilo sem saber onde a sua filha tá?
— Pelo amor de Deus, Diná. Se estivéssemos falando de uma pessoa honesta, honrada, que desse valor pros pais... tudo bem. Mas não é a primeira vez que essa menina some. Daqui a pouco aparece aí, com a cara mais lambida do mundo. Fugiu porque eu estava pressionando pra trabalhar. Aquela dali só quer a vida mansa, não gosta de esforço nenhum.
Diná ergueu o rosto, os olhos marejados.
— Você não tinha nada que pressionar ela. Preferia mil vezes minha filha acomodada aqui dentro de casa do que agora... sem saber onde está. Meu coração não para de apertar de tanta aflição. Ela poderia pelo menos responder as mensagens, dar um sinal de vida.
— Procure se acalmar — disse Charles, com um leve peso na voz. — Ficar desesperada desse jeito não adianta nada meu amor.
═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══
Rodrigo entrou na sede da Mulambo, Talita, na recepção, ergueu os olhos surpresa.
— Seu Rodrigo... o senhor voltou? Vou avisar o seu Meireles — disse, já se levantando.
Rodrigo, com um meio sorriso, ergueu a mão num gesto de recusa.
— Não preciso ser anunciado, Talita. Também sou dono desta empresa. Vou direto pra minha sala... ou melhor, pra sala que era do Antunes.
— Claro... — respondeu ela, ainda atônita.
Assim que ele sumiu pelo corredor, Talita se apressou até o escritório de Meireles.
— O seu Rodrigo chegou. Disse que veio assumir o lugar dele. Já está na sala que pertencia ao pai dele.
Dentro da sala, olhares trocados, rápidos, cheios de leitura.
— Cedo ou tarde, ia vir cuidar das ações dele, né — murmurou Angelina.
Meireles soltou um suspiro e ajeitou-se na cadeira de rodas.
— Vou lá dar as boas-vindas.
— Não vai se estressar mais ainda, Meireles — advertiu Angelina.
— Preciso cuidar do que ainda resta da Mulambo, Angelina.
Ela assentiu, resignada.
— Tá certo, meu amor. Vou com você.
Minutos depois, já na sala onde Rodrigo se instalara, Angelina empurrava a cadeira do marido. A porta estava aberta. Rodrigo, de pé, observava a cidade pela janela.
— Seja bem-vindo de volta, Rodrigo — disse Meireles, num tom contido.
Rodrigo se virou lentamente, os lábios curvando-se num sorriso cortês.
— Obrigado, seu Meireles. Como vai, dona Angelina?
— Eu vou bem. Fico feliz em te ver por aqui de novo. Sempre acreditei na sua inocência.
Rodrigo arqueou a sobrancelha.
— É mesmo? Podem ter acreditado na minha inocência... mas não no meu trabalho. Afinal, o seu Meireles insistiu incansavelmente em comprar as ações que me pertencem por direito.
— Só procurei uma forma melhor de conduzir o barco — justificou-se Meireles.
Rodrigo avançou um passo, o tom firme.
— Pelo que percebi, esse barco tem sido conduzido apenas por sua gestão e está afundando cada vez mais.
Meireles desviou o olhar, sem resposta imediata.
Rodrigo voltou-se para a janela, como quem já planejava as próximas jogadas.
— Vou me entregar a esse trabalho. Farei o possível e o impossível para limpar o nome da Mulambo. Não podemos permitir que o desgraçado do Antunes destrua nossa empresa, mesmo depois de morto.
Meireles o fitou longamente, antes de responder.
— Conto com você pra isso. Você sempre fez um bom trabalho aqui, Rodrigo. Espero que continue assim.
═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
Daiana atravessou o jardim do orfanato. Ao fundo, avistou Irmã Rosália, sentada no banco de madeira (o mesmo onde Gabriel costumava repousar em suas horas de contemplação). A freira mantinha uma das mãos segurando o crucifixo em seu pescoço, os olhos voltados para o nada, como se buscasse respostas no balançar das árvores.
— Que surpresa agradável, Daiana — disse a religiosa, erguendo o rosto com um sorriso cansado.
— Eu precisava vir... saber como vocês estão — respondeu Daiana, aproximando-se e sentando ao lado.
— Oh, minha filha... ainda estou tentando entender tudo o que aconteceu.
Daiana a fitou, séria.
— Irmã... a senhora acredita que Gabriel seja realmente culpado?
Houve um silêncio breve, quebrado apenas pelo canto distante de um sabiá.
— Eu não queria acreditar nisso... — murmurou Irmã Rosário, a voz embargando. — Na verdade, não consigo. Mas... mas foi ele mesmo quem confessou para mim.
O coração de Daiana pareceu dar um salto.
— Ele confessou que matou Antunes?
— Sim. Ele estava transtornado, irreconhecível. Estava com muito medo de ser descoberto, antes de fugiu me revelou que foi ele que cometeu aquele crime. Depois saiu desesperado, pegou a kombi e fugiu. O resto você já sabe.
Daiana desviou o olhar para o jardim, tentando conciliar na mente aquela imagem com o rapaz que conhecera.
— Convivi tão pouco com ele... mas me encantei com o jeito doce de falar, a pureza que transmitia nas palavras. Meu Deus... é impossível acreditar que uma pessoa assim seja capaz de matar.
— Ninguém sabe o que se passa no coração dos outros, minha filha — disse Irmã Rosália, pousando a mão no ombro dela. — Por fora, a gente mostra uma coisa. Por dentro, só Deus conhece.
— A polícia ainda não encontrou o corpo. — Daiana voltou-se para ela. — A senhora acredita que ele possa estar vivo?
Os olhos de Irmã Rosália brilharam por um instante, como se uma esperança proibida tivesse se acendido.
— Cheguei a pensar nisso, que ele poderia estar escondido, com medo de ser preso. Mas... — respirou fundo, o olhar se perdendo nas flores — acho que isso é só um devaneio nosso. Um desejo egoísta de ter o nosso menino de volta.
═══🎭✦✧ Fazenda de Rita ✧✦🎭═══
Rita manuseava o revólver. Carregava a arma com cuidado e, em seguida, ergueu-a, mirando na direção da porta. Bira entrou exatamente naquele instante. Ele congelou por um momento, encarando a arma que o ameaçava de frente.
— Que isso, vó? — sua voz carregava preocupação.
Rita abaixou o braço lentamente, os olhos duros fixos nele.
— Essa é a arma que o Rodrigo vai usar para dar fim naquela ratazana — respondeu. — Está pronta, carregada, só esperando o momento.
Com um gesto, guardou o revólver em uma gaveta próxima, depois retirou as luvas de couro que usava.
— Hoje ela não escapa. Quero ver se o Rodrigo vai ter coragem de se livrar da amante. E a cova, abriu como te mandei?
— Sim. Bem funda, do jeito que a senhora mandou. — Bira evitava o olhar dela, tenso.
— Ótimo... pelo menos para alguma coisa você serve.
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
No quarto de Joana, uma tristeza profunda lhe cobria o semblante. Retirou da gaveta a manta que pertencia a Gabriel. Aproximou o tecido do rosto, sentindo o cheiro que a transportava para memórias dolorosas. Lágrimas começaram a escorrer, e as imagens do primeiro encontro na delegacia, seguido pelo o segundo encontro na praça da igreja (quando ouviu Gabriel chamar-lhe de mãe pela primeira vez), vieram nítidas e cruéis.
A porta se abriu devagar, e Kléber entrou, hesitando ao vê-la naquele estado.
— Com licença, Joana. Como você está? — sua voz soou suave, carregada de preocupação.
Ela ergueu o rosto vermelho, os olhos marejados fitando-o.
— Como você acha que estaria uma mãe que teve seu filho arrancado dos braços mais uma vez? — sua voz quebrou. — Eu fiquei tão pouco tempo com ele, Kléber... Não é justo passar por essa dor outra vez.
Ele se aproximou e, com pesar, respondeu:
— Eu queria poder arrancar essa dor de você. Mas, infelizmente, não tenho esse poder.
— Assim como da primeira vez, sinto aqui dentro do peito que ele está vivo. Que está em algum lugar, precisando de mim. Mas onde? Como faço para socorrer meu filho, Kléber?
Ele suspirou fundo, olhando para ela com compaixão.
— Pela forma como a kombi foi encontrada, seria pouco provável que ele tenha sobrevivido...
Joana interrompeu, firme, como se repetisse uma prece contra o mundo.
— Mas ele está vivo, Kléber. Tenho certeza disso. Meu filho está vivo. E ele vai voltar para mim.
═══🎭✦✧ Fazenda de Rita ✧✦🎭═══
A noite já caía, quando a porta do paiol rangeu ao ser aberta. Rita entrou, seguida de Rodrigo e Bira. Ela avançou até Soraia, que permanecia amarrada, encostada na coluna de madeira, com os olhos amedrontados.
— Chegou a hora da ratazana dar adeus para essa vidinha miserável dela — declarou Rita, com voz cortante.
Soraia voltou o olhar aterrorizado para Rodrigo, que a encarava com frieza. Apenas Bira parecia incapaz de esconder a compaixão que brilhava em seus olhos.
— Bora, Bira, arrasta logo essa vadiazinha pra fora — ordenou Rita, impaciente. — Vamos nos livrar logo desse problema.
O trio avançava pela mata densa, em passos apressados. Bira segurava Soraia com firmeza, os braçosdela atados para trás dificultavam qualquer tentativa de resistência, e o medo refletia em cada olhar desesperado dela. Rita, com o revólver em punho, caminhava decidida, seus olhos fixos no destino que os aguardava. Rodrigo seguia ao lado dela, o rosto fechado.
Quando chegaram à clareira onde a cova estava aberta, o buraco fundo e irregular parecia um abismo negro no meio da floresta. Rita parou, virou-se para Rodrigo e entregou-lhe a arma com um gesto firme. Ali, naquele pedaço esquecido da mata, o destino de Soraia seria decidido.
— Aqui está. Agora a vida da sua amante está em suas mãos. Você é quem decide se ela vive ou se morre — disse ela, com voz dura.
Soraia, entre soluços e lágrimas, implorava, a voz trêmula e desesperada.
— Rodrigo, não faça isso. Sou eu, bebê... a gente sempre se amou. Você não pode fazer isso comigo.
Rita deu um gesto para Bira se afastar, deixando Rodrigo sozinho com o peso da decisão.
— Bora, Rodrigo. Não temos todo tempo do mundo. Acaba logo com isso — pressionou Rita, impaciente.
Rodrigo parou pensou por um intante, seus olhos cruzando os de Soraia. Então, com um movimento frio e decisivo, apontou a arma. O disparo cortou o ar, e o peito de Soraia foi atingido. Ela caiu ao chão, ofegante.
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